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História

De futebol e política

História de: Angelo Vilchez Ramos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/12/2013

Sinopse

Entrevista de Angelo Vilchez Ramos para o Museu do Santos Futebol Clube em 1999. fala sobre a vinda dos pais para o Brasil, a infância em Santos. As peladas e o contato com Athiê Jorge Cury e o trabalho como corretor de café no escritório deste. A entrada na diretoria do Santos e a lembrança de eventos marcantes do clube, como a chegada de Pelé. As passagens pela política.

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História completa

P/1 – Bom dia, senhor Angelo. Pra começar então aqui o seu depoimento eu gostaria que o senhor falasse o seu nome completo e a sua data de nascimento.

 

R – Bom dia, bom dia a todos. O meu nome é Angelo Vilchez Ramos. Sou nascido em Santos no dia 23 de Dezembro de 1929, porém registrado civilmente em nove de Março de 1930. Sou casado com a professora, advogada Aparecida Orga Ramos. Desse enlace temos três filhos: Angela Cristina Ramos, psicóloga e advogada; Angelo José Ramos, é engenheiro e advogado e Regis Nicolau Vilchis Ramos, que é engenheiro. Eu me formei nas letras primárias aqui em Santos, no Grupo Escolar Cesário Bastos, na Vila Matias, depois o curso secundário eu conclui num ginásio de Aparecida do Norte e o de bacharel em Direito e Ciências Jurídicas na Faculdade de Direito de Itapetininga, no estado de São Paulo. Cursei também na Faculdade de Santos o curso de Filosofia, Ciências e Letras na área de Estudos Sociais. A minha vida, praticamente toda ela é resumida a Santos só.

 

P/1 – Seu Angelo, então vamos voltar um pouquinho no tempo, eu queria que o senhor contasse um pouquinho das origens da sua família, se são imigrantes, de onde que eles vieram...

 

R – Meus pais, falecidos, Nicolau Wilchis Ramos e Santa Mantovani Ramos, eram... meu pai oriundo da Espanha, deu um giro aí pela Argentina e no fim se radicou aqui no Brasil em Sertãozinho, depois em Santos. Minha mãe nascida no interior do estado de São Paulo em Ipauçu. Dessa união saíram oito filhos, meu irmão Nicolau, mais velho, eu o segundo, Antoninho o terceiro, o quarto era meu irmão José, quinto meu irmão Francisco, sexto minha irmã Tata e o sétimo e o oitavo são falecidos, era Maria e outra que foi nati-morto, mas foram oito irmãos ao todo que descendem dos meus pais.

 

P/1 – E onde vocês moravam?

 

R – Nós morávamos de início na Vila Matias, precisamente na Rua Júlio Mesquita número 118, casa que hoje praticamente não existe mais, existe só a placa do número, mas o comércio avançou de tal forma ali na Vila Matias que aquelas residências todas que lá existiaram foram transformadas em comércio e nesse período que nós morávamos na Júlio Mesquita e que eu me recordo da minha infância, eu sou do tempo do Lampião a gás, ali na Vila Matias, e do bondinho puxado ainda a burro. O café, pra ser embarcado no cais de Santos, ele era transportado em carroções puxado a cavalos. De sorte que, depois da Vila Matias, na época da Segunda Grande Guerra, meu pai vendeu a moradia da Rua Júlio Mesquita e nós fomos morar no Macuco, precisamente na Rua Professor Torres Homem, número 655. Meu pai, minha mãe e toda a família. Dali é que eu saí pra trabalhar, comecei a trabalhar, não tinha nove anos ainda. Fui trabalhar num escritório de corretagem de café de um senhor chamado Cássio Lara Teixeira. Creio que ele não seja mais vivo, ele era filho de um grande comissário de café chamado Pupo Teixeira. Nessa época foi que o seu Athiê Jorge Curi foi me buscar para eu ir trabalhar no escritório dele de corretagem de café à Rua do Comércio número 25, primeiro andar, sala sete e oito. Isto precisamente em 26 de Novembro de 1939. Fiquei com ele lá durante 60 anos, quase. Hoje o escritório, por doação dele, é meu. Toda a parte comercial dele foi doada pra mim.

 

P/1 – Seu Angelo, por que ele foi buscar o senhor lá?

 

R – Boa pergunta. Ele era amigo, muito amigo do meu falecido pai e acredito que o meu pai tenha conversado com ele querendo procurar uma colocação melhor e sugeriu o meu nome, deu a direção onde eu trabalhava e eu fui procurado no meu emprego pelo próprio Athiê pra ir trabalhar com ele, no escritório dele que na época – é verdade e precisa que se diga – era um dos maiores escritórios de corretagem de café do Brasil. Ali nós faturávamos por mês, tranquilamente, 300 mil sacas de café vendidas para o exterior. Era uma fábula! E nesse mesmo período, paralelamente, iniciou a minha parte esportiva, foi quando eu ingressei logo em seguida no Santos Futebol Clube, no dia 1º de Fevereiro de 1942, e eu, lá no Macuco, já mais adiante, no ano de 1946, fundamos um clube que na várzea hoje de Santos é famosíssimo, o Clube Atlético Santa Cecília, dono de uma vasta propriedade, tem duas sedes, uma com um belo de um ginásio, com salão de festas e a outra mais pra reuniões de diretoria e aulas de ioga, dança etc e tal. Lá no Santa Cecília eu jogava o meu futebolzinho, nós jogávamos quase de segunda a segunda. Eu trabalhava, mas à noite nós jogávamos com o luar. (risos) Sábado e domingo era de manhã, à tarde e domingo de manhã e à tarde. O Clube Atlético Santa Cecília chegou a ser naquela época o melhor ou quase o melhor clube da várzea santista. Era invencível. Nós tínhamos jogos em que nós ganhávamos de quatorze a zero, quinze a zero, eram jogadas, resultados fora do normal.

 

P/1 – E o senhor jogava em que posição?

 

R – (risos) Eu era centro-avante e meia-esquerda, não era um grande craque, não era, mas marcava gols! E era o que resultava para o nosso clube, era gols. Marquei uma infinidade de gols lá. O clube tem até hoje um livro de registro de todos os jogos daquele tempo. Eu de vez em quando vou lá e fico folheando, vendo os jogos que nós realizamos e quantos golzinhos eu sempre pipocava lá. Isso me traz muitas saudades, muita alegria porque lá eu adquiri grandes companheiros, foi uma grande fase da minha vida e era o que eu mais desejava na vida sempre, era viver bem, viver em paz, e nunca, nunca fiquei ligado ao vil-metal. Basta dizer que já quase no fim dessa minha peregrinação futebolística eu fui jogar no Nacional Atlético Clube. Era uma equipe semiprofissional na época, todos os jogadores ganhavam pra jogar e eu nos dois primeiros jogos que estreei no nacional me dei bem, mas o meu cachê era um sanduíche e um guaraná. E aí eu larguei de vez o futebol. Tentei no Santos Futebol Clube, nessa mesma época o Gilmar jogava no juvenil nosso, lá no Brasil, Ciciá, Passaroca, Araraquara, todos jogadores que depois seguiram o seu rumo e se profissionalizaram. Eu quis tentar no Santos Futebol Clube e já como empregado do Athiê Jorge Curi, presidente, eu fui com as minhas chuteirinhas lá pra Vila Belmiro pra fazer um teste, o treino começou, acabou, aí o treinador virou assim pra mim, disse: “Olha, volta outro dia.” E eu não voltei nunca mais.

 

P/1 – E isso o senhor tinha mais ou menos quantos anos?

 

R – Aí eu já tinha 16, 17 anos. Dezessete, é. Na faixa dos 17 anos.

 

P/1 – Tá. Mas o senhor começou a trabalhar no escritório do Athiê  com nove pra 10 anos?

 

R – Nove anos.

 

P/1 – Como era? O que o senhor fazia e qual era a rotina do escritório naquela época?

 

R – Naquela época a nossa rotina era receber amostras de café que nos eram enviadas pelas companhias de armazéns gerais, elas já vinham consignadas ao escritório do Athiê. Ali nós tínhamos que providenciar se íamos fazer ligas ou não. E na maioria das vezes não precisava, os exportadores não queriam ligas. Outros exportadores já queriam que se juntasse o lote todo numa liga só. Uma liga só, o que é que eu digo? É que a amostra de café vinha de um pé de café... Moóca, Moóquinha, Chatinho, Peneira 14, Chato Peneira 15, 16, 17 e 18. E havia países importadores que preferiam que se destacasse mais o café graúdo. Por exemplo, pra Itália, eles não gostavam de café miúdo, só o graúdo, muito embora a bebida dele toda fosse igual. A bebida que dava o Chatinho ou o Moóquinha, dava o Peneira 18 e 19. Mas a Itália preferia café graúdo, bonito! Era o tipo do italiano Belo Antônio, boa apresentação. E nós vendíamos os cafés através dos exportadores pra esses países. E nesse interregno de tempo a gente providenciava faturamento, recebimento da fatura, encaminhamento do saldo das vendas para os proprietários do café, em síntese era mais ou menos isso a parte comercial.

 

P/1 – E como é que foi a evolução do senhor lá dentro do trabalho?

 

R – A minha evolução foi boa. Eu fui muito dedicado. Eu comecei, como eu falei pra vocês, com nove anos de idade e eu acompanhei o Athiê  Jorge Curi praticamente até agora, 1992, quando ele faleceu. Quando ele faleceu eu era procurador já há muito tempo, procurador dele com amplos e ilimitados poderes, irrestrito. Tudo que eu falasse em nome dele estava chancelado por ele. Essa era a minha ligação com ele. No transcorrer do tempo, em 1942, quando eu ingressei no quadro associativo do Santos, eu passei a me ligar mais intimamente a ele por causa do futebol. Muita coisa ele pedia pra mim, ele viajava muito... Na época que ele foi presidente do Santos, depois de 46, o Santos vivia uma fase muito difícil, financeira. Naquela época o Santos não era ainda, não era a equipe grande do futebol brasileiro, era uma equipe média, e como equipe média não fazia grandes contratações. Para fazer grandes contratações o Athiê tinha que pôr um livro de ouro embaixo do braço, correr a Rua XV, a Praça Cafeeira e junto a comissários, exportadores e corretores de café levantar verba pra fazer grandes contratações. Como houve algumas: Heleno de Freitas, do Botafogo... Não sei se lembram, o irriquieto botafoguense que veio para o Santos, Carlile, e uma infinidade! Teve um meia-esquerda que depois foi para o Vasco da Gama, não me lembro do nome dele, depois foi pra Espanha. Essas contratações oneravam um pouco o Santos. Não onerava muito a folha porque neste período, tem um detalhe muito importante, as luvas para as contratações eram pequenas e a maioria dos jogadores que já estavam radicados aqui eles preferiam, ao invés de luvas altíssimas, eles cediam luvas mais modestas, mas em contrapartida eles pediam algum emprego público: na Prefeitura, na Alfândega, na Mesa de Rendas, conferente de carga e descarga, que na época, eu me recordo muito bem, o Antoninho Fernandes, que foi um dos maiores jogadores que o Santos teve nessa época antiga, ele renovou um contrato com o Santos praticamente a preço, à quantia de luvas bem irrisória, em troca de uma vaga de conferente de carga e descarga no porto de Santos. Ele deixou o futebol e viveu e trabalhou... E viveu bem. Deixou algum bem para a sua família, para o seu irmão que era sócio dele, que ainda até hoje trabalha aí com uma empresa de transporte que é a Transjofer, Transporte Fernandes. É do irmão do Antoninho Fernandes. Foi um dos que preferiu ao muito dinheiro um bom emprego.

 

P/1 – Então vamos falar um pouquinho do Athiê. Quando o senhor o conheceu, então, menino ainda, ele já era aí um próspero corretor de café?

 

R – Era.

 

P/1 – Só que ele teve um passado no esporte. O senhor podia falar um pouquinho o que é que ele foi no esporte? Parece que ele foi goleiro, né?

 

R – Sem dúvida. O Athiê, ele veio pra Santos pra jogar no Santos. Ele veio de São Paulo do Clube Sírio e veio pra jogar no Santos Futebol Clube. E jogou aqui, jogou uma infinidade de partidas a ponto, na época, de ser classificado como melhor goleiro do Brasil. O Santos teve nesta época também uma peculiaridade, teve dois goleiros, um melhor do que o outro. Era o Athiê e era o Tufinelgen. Tufi, pra quem não conhece, ele teve uma passagem muito rápida na vida esportiva do Santos. O Tufinelgen ele era conhecido na época como El Diablo, era fantástico! E se revezava na meta do Santos Athiê e Tufi, só que o Tufi não teve o comportamento, a sorte que teve o Athiê. O Athiê não gostava de beber, não fumava, o Tufi bebia, fumava e era um pouco de orgia. Morreu cedo com uma doença pulmonar que o tirou do convívio de nós, porque teria sido para o futebol do Brasil também um grande goleiro. O Athiê logo em seguida encerrou a carreira dele aqui em Santos mesmo por volta de 1927, 28, veio a Revolução de 30, 32, o Athiê se engajou na Revolução, foi pra frente de combate junto com o pelotão aqui de Santos, que foi comandado na época. Tinha dois ou três comandantes, um deles eu me lembro bem porque foi muito meu amigo, o capitão Armando Erbst.  Eles foram pra frente de batalha, aí nesse período teria muita história pra se contar dos revolucionários de São Paulo de 32 juntos com o Athiê. Eles peregrinaram aqui pelo interior do estado de São Paulo guarnecendo posições chaves, mas aconteciam milhares de fatos, o Athiê contou alguns deles até, em que o pelotão uma vez não morreu, não passava fome graças ao Athiê, que em toda cidade que eles passavam o Athiê  era reconhecido. E em função deles conhecerem o Athiê eles atendiam bem, abriam as portas e davam comida, senão teria sido um desastre maior do que foi, visto que a Revolução de 32 foi um grito, foi um brado muito bom, muito forte que São Paulo deu ao Brasil, mas que infelizmente nós ganhamos pela bravura dos paulistas. Aí ele foi guindado a presidente do Santos em 1945 se não me falha a memória. Olha outra ironia do destino. O presidente era Aristóteles Ferreira, aí foi eleito o Antônio Ezequiel Feliciano da Silva, que era político, inimigo mortal do Athiê, foi presidente do Santos nesse período. Em seguida o Athiê vai substituir o Antônio Feliciano no Santos e aí... O Athiê era um homem que, eu comparo ele hoje ao Pelé. Tudo que ele punha a mão, tudo que ele se dispunha a fazer dava certo: “Ah, ele não tinha lá uma grande capacidade...” Tinha sim senhor, sim senhora! Onde o Athiê punha a mão dava certo. É o caso do Pelé, onde ele põe a mão, tudo o que ele faz dá certo. São criaturas que parece que Deus lá em cima fez muito poucas e mandou pra terra. Aqui pra nós Pelé e Athiê. E o Athiê  pegou o Santos numa fase dura, difícil! Folha de pagamento em que pese, como eu relatei, baixa, luvas também baixas. Mas a dificuldade era grande. Então nós vivíamos de arrebanhar, fazer empréstimos bancários todo fim do mês pra fazer a folha de pagamento dos jogadores e dos funcionários. Sorte que os funcionários também a equipe era pequena, alguns deles ainda estão lá até hoje. Exemplo do meu amigo Alfredo de Lima, Miguel Fernandes e mais algum outro lá que de momento, assim, de cor, não dá pra... Os 70 aninhos meus já estão pesando na memória. (risos) Mas eu ia, designado pelo Athiê e pelo Santos, em instituição bancária levantar fundos pra saldar a folha de pagamento dos jogadores e funcionários. E nos meses seguintes era um sucedâneo deste mesmo fato, um mês era no banco Cruzeiro do Sul, outro mês era no banco da Bahia, quando vencia o da Bahia era no banco S. Magalhães ou era no banco Faro, ou no Cruzeiro do Sul... Foi até no banco Cruzeiro do Sul que o Santos na época encontrou boa guarida e o gerente, Ourival Francisco ajudava, facilitava o máximo que podia ao Santos. Em seguida até ele foi convidado pelo Athiê pra ser diretor do Santos e foi um grande diretor do Santos Futebol Clube, Ourival Francisco. Daí pra frente, logo em seguida aí veio a época que eu chamo de época de ouro.

 

P/1 – Seu Angelo, antes da gente chegar, então, na época de ouro do Santos, eu queria saber o seguinte, o senhor já participou com o Athiê do primeiro mandato dele, o senhor já o auxiliou então no período aí, a partir de 1945?

 

R – Veja bem, eu nunca fiz parte da diretoria do Santos. Por quê? Porque não precisava. Eu era praticamente a segunda pessoa dele. Tanto é que eu vou fazer um depoimento aqui, hoje, neste instante, histórico e que não vai causar mais problemas porque os dados se preciso eu não vou fornecer. O Athiê viajava muito e nessa época, quando tinha renovação de algum contrato e precisava dar entrada na Federação Paulista de Futebol, no máximo até sexta-feira senão no domingo o jogador não jogava, eu assinava. Eu assinava o nome do Athiê e olha, a gente, modéstia a parte, às vezes a assinatura dele foi colocada em dúvida e a minha julgada verdadeira. (risos) Então não precisava. Tanto é que quando um dia o Athiê resolveu me chamar pra fazer parte da diretoria eu brinquei e disse: “Athiê, quanto eu vou ganhar?”; “Nada.”; “Então não quero, deixa continuar como está.” E não quis ser diretor do Santos por esta razão. Mesmo porque eu era tão ligado a ele, eu não ia ter muita independência, eu vou confessar isso aqui de peito aberto. Numa famosa Assembléia do Santos, uma bela noite eu levantei pra fazer uso da palavra, quase me comeram porque acharam que eu estava ali a mando do Athiê e isso criava algum problema pra mim. Eu preferia aguardar. Mas agora, recentemente eu já estou abrindo a boca, viu? O Athiê faleceu já se fez sete anos, agora eu já estou tendo algumas participações nas reuniões do Conselho.

 

P/2 – O senhor poderia contar pra gente como foi a trajetória do Athiê de ex-jogador de futebol, parando em 27, e chegando ao clube como diretor de Esportes em 42?

 

R – Ele veio para o Santos trazido inicialmente pelo doutor Antônio Guilherme Gonçalves, que fora presidente anteriormente. Aí, quando o Aristóteles Ferreira foi eleito presidente do Santos Futebol Clube, o Athiê  foi convidado por ele pra ser Diretor Geral de Esportes e aí ele praticamente começou a campanha dele na diretoria do Santos Futebol Clube como diretor de esportes até 1945. Posteriormente, depois da gestão do Antônio Feliciano é que ele foi eleito presidente e ficou de 45 até 71, 26 anos!

 

P/2 – Ele introduziu alguma mudança no Departamento de Esportes quando ele...

 

R – Ah, sem dúvida! O Athiê trazia na bagagem dele uma vantagem muito grande, que não é qualquer presidente que tem. O nome dele, goleiro famoso, homem bem sucedido, trabalhador e que gostava de levar as coisas adiante. Outra vantagem, o Athiê não tinha problema familiar, educação de filhos, nada. Ele era praticamente sozinho, solteiro, então ele podia se dedicar, e aí se dedicou de corpo e alma ao Santos Futebol Clube, fez grandes contratações daquele tempo, arrumava dinheiro, como eu já falei anteriormente, com os famosos livros de ouro na Praça Cafeeira, onde cada exportador, cada comissário doava 10 sacos, 100 sacos de café para que se fizesse essas contratações que o Athiê pretendia.

 

P/1 – A moeda era o saco?

 

R – A moeda principal do Santos na época era café. E aí residiu então o grande sucesso dele. O Athiê, todo grande jogador que ele trazia dava certo. Eu me recordo até de uma passagem de um jogador que veio pra cá, se eu não me engano, logo no início da gestão dele de presidente em 1946, um argentino chamado Soler. Anunciava-se como na época uma contratação, o Ronaldinho sendo contratado pela Inter de Milão. E no jogo de estréia aqui na Vila Belmiro as arquibancadas ainda antigas de madeira, o argentino vem e estréia, ele era um centerhalf, o homem tinha dois metros e dez de altura, era uma muralha! Santos e São Paulo! Logo de início, 10 minutos de jogo tem uma falta contra o São Paulo, Soler vai e bate, gol. Santos um a zero. A Vila Belmiro quase veio abaixo, delirou! Mas o triste foi o fim, o Santos terminou perdendo para o São Paulo naquela tarde de nove gols a um. E nos Aspirantes! Perdemos para os Aspirantes do São Paulo por 14 a zero! Vejam a fase difícil que vivia o Santos. O São Paulo não, o São Paulo tinha Iezo Amaufi, tinha Leônidas da Silva, tinha Sastre, Remo, Teixeirinha... 

 

R – Basta dizer que, olha, o Iezo Amaufi que eu citei era jogador do Aspirante. Depois ele foi para o quarto principal e aí foi embora pra Itália e parece que vive até hoje lá. Aí devagar o Santos, o Athiê começou a montar um quadro bom e o Santos começou a despontar já, a brigar pelos primeiros lugares, culminando só em 55. Nós fomos campeões paulistas aqui na Vila Belmiro num jogo que a decisão do Santos ser campeão foi contra o Esporte Clube Taubaté. E o Santos venceu o Taubaté por dois a um em 1955 e foi campeão. Aí, nesta altura entra o Rei Midas: Pelé, o homem que tudo que tocava virava ouro. Veio a Era Pelé e pouco, pouco vai se poder falar pra essa juventude de hoje, mas eu acompanhei, pari passu a vinda do Pelé quando ele começou na Vila Belmiro. Ele começou, antes de ele ir morar numa pensão na Pinheiro Machado ele dormia ali debaixo de uma arquibancada. Tinha ali um vestiariozinho ali, um dormitório, o Pelé era tão humilde, tão simples que ele se adaptava bem ali. É verdade que depois ele foi crescendo, foi morar na Pinheiro Machado. Aí entra a história do automóvel que eu comprei pra ele, mas com o dinheiro dele. Foi o primeiro carro que o Pelé teve na vida, um Volkswagen, 1956, adquirido aqui na antiga Santos Motriz, o gerente era o senhor Walter Herbert (Amssinkin ?), um alemão. E no dia da entrega do carro foi batida uma foto, o Pelé recebendo as chaves do proprietário da revenda, eu no meio entre o Pelé e o alemão. Pelé recebe as chaves e cochicha no meu ouvido: “Angelo, avisa o moço aí que se ele for explorar essa foto tem que conversar comigo o meu cachê.” (risos) Aí vieram outros, vieram Pelé, Ramos Delgado, Mauro Ramos, veio o Gilmar, Coutinho, Dorval, Mengálvio, Pepe... Aí, qualquer um que dirigisse o Santos com essa equipe, nessa época era o melhor presidente do mundo! E tem um fato que eu faço também questão de contar e que precisa, deve ser registrado na história do futebol brasileiro. Um dia nós estamos no escritório eu e o senhor Athiê Jorge Curi, nós dois, só. E chega um cidadão bem vestido, bem falante, alto, querendo falar com o Athiê, e eu notei, pelo sotaque dele ele era italiano, falava muito mal o português, ele falava o italiano misturado com o espanhol e o português. E ele veio fazer uma proposta para o Athiê: a equipe que ele representava queria o Pelé e estava a disposta a gastar o que fosse. E como o Athiê não abria preço ele começou de cara dando um lance: “Pagamos três milhões e 500 mil dólares pelo Pelé, segnori deputati”, falava ele lá no italiano dele. E o Athiê atendeu o italiano com muita educação, com muita finura, levantou-se e delicadamente foi tocando ele pra fora do escritório e na porta, ao se despedir dele disse: “O senhor pode voltar pra sua Itália e leve um recado meu, confia em mim, enquanto eu for presidente do Santos Futebol Clube o Pelé não sai daqui.” E cumpriu a sua promessa.

 

P/2 – Isso aconteceu quando mais ou menos?

 

R – Isso aconteceu por volta de 58, 59.

 

P/2 – Logo no início da carreira?

 

R – Ah, logo no início, o Pelé já estava... O Pelé estreou no Santos já com sucesso, tomou conta da posição e dali pra frente acabou. E foi daí que começaram a surgir os emissários estrangeiros na busca de jogadores brasileiros. Se você fizer um retrospecto passado você vai ver que muito pouco jogador brasileiro foi para o exterior. Do Santos foi um aí, que eu não me lembro o nome, pra Espanha, o Arnaldo Silveira, Del Vecchio foi pra Itália, um número muito pequeno, muito reduzido. E a coisa cresceu, aí foi Itália, França, Alemanha, Espanha e deu no que deu hoje. Hoje ser jogador de futebol e contratado pra ir para o exterior não precisa mais nada.

 

P/1 – Seu Angelo, o senhor podia dizer então alguns times que tentaram comprar o Pelé? Esse da Itália o senhor lembra o nome da equipe?

 

R – Eu lembro. (risos) É que nessa história dessa equipe da Itália, desse cidadão que se dizia representante da Fiorentina houve um fato anormal. Ele propunha pagar os três milhões e 500 mil dólares pelo passe do Pelé e oferecia 500 mil por fora para o Athiê  concordar em vender o Pelé. Quinhentos mil pra ele, Athiê, particularmente. Foi quando o Athiê  levantou-se e disse: “Meu amigo, desculpe. Enquanto eu for presidente do Santos Pelé não vai sair por preço nenhum.” E basicamente, depois desse entrevero pra frente ninguém quase mais se interessava pelo Pelé, porque o Pelé era invendável, era inegociável! Veja que ele só foi negociado... Ele não foi negociado! Ele encerrou a carreira dele no Santos Futebol Clube, teve o famoso jogo dos mil gols e depois ele foi cuidar da vida dele nos Estados Unidos, foi jogar, fez um contrato dele com o Cosmos em Nova Iorque.

 

P/1 – Seu Angelo, então vamos falar, já que estamos aí no assunto Pelé, o senhor se recorda a primeira vez que o nome dele foi mencionado, o Athiê contou para o senhor: “Chegou aí um garoto.”? Teve alguma...

 

R – Teve. Eu lembro quando ele veio pra cá. Ele veio trazido pelas mãos do Waldemar de Brito. O Waldemar de Brito veio ao escritório, falou com o Athiê  que tinha um garoto que era promissor e o Athiê não dizia não pra ninguém, nunca disse não, não me lembro de ouvir o Athiê dizer não pra alguém. E o Athiê disse: “Tá bom, Waldemar, vamos lá, tem treino aí amanhã, vem aí, vamos lá, eu apresento ao nosso treinador e vamos ver o que é que o rapaz dá.” E dito e feito. O rapaz foi levado pelo Waldemar de Brito, entrou em campo, treinou, começou a jogar no time reserva, que eram os chamados Aspirantes, na época, e entrou no time Aspirantes e não saiu mais. E naquela época o time de Aspirantes do Santos era furioso! Jogava no time dos Apirantes do Santos Pagão, Pelé, era uma linha que goleava, todo jogo naquela época era tudo goleada. Pelé jogava do lado do Pagão era goleada. Que eu também faço questão de mencionar esse moço, o Pagão. Foi um moço que tinha um futuro promissor pela frente, só não foi bem sucedido porque aí é aquele detalhe que eu falei do Rei Midas, ele não foi tocado pelo dedo lá do Todo Poderoso. Se o Pagão tivesse tido a ventura, a sorte que Deus deu ao Pelé o Pagão seria outro milionário do futebol mundial. O Pagão era um assombro jogando futebol! Morreu moço, não teve grande ascensão futebolística, mas no Santos ele arrasava.

 

P/1 – Ele machucou o joelho e depois disso declinou a carreira?

 

R – Exatamente. É, o joelho é o ponto parece que nevrálgico da maioria dos jogadores. Deu cupim no joelho acabou. E o Pagão tinha um detalhe, ele era muito sensível, chamavam ele até de “canelinha de vidro”. O Pelé já não, o Pelé já era mais impetuoso, o Pelé entrava, era “raçudo”, para o Pelé não tinha bola perdida, entendeu? Ele jogava pra ganhar, 45 minutos ele ainda queria ganhar o jogo, não estava ganhando, mas queria ganhar. Era diferente.

 

P/1 – Seu Angelo, então vamos voltar aqui ao trabalho do Athiê no Santos. Então, essa primeira fase aí dos anos 40 o senhor se lembra um pouco? Ele introduziu algumas modificações, teve algum fato, assim, marcante?

 

R – Teve um fato marcante também, que eu ia citar mais adiante. Foi a inauguração da construção das arquibancadas de concreto, que até então a Vila Belmiro era arquibancada tudo de madeira. Na entrada principal lá tinham duas torrezinhas, tudo isso começou a ser desmanchado e aí começou a ser construído o novo campo estádio do Santos Futebol Clube. Paralelamente o ginásio também, que hoje leva o nome dele, que recentemente foi reinaugurado: Ginásio Athiê Jorge Cury, onde eu compareci em nome da família, falei em nome da família agradecendo a denominação do ginásio do Athiê. E terminou a construção do campo, do estádio e do ginásio, aí eles partiram pra aprimorar a equipe de futebol.

 

P/1 – Quer dizer, no início dos anos cinquenta o Santos começa a fazer o embrião desse super time que ia culminar aí no fim da década...

 

R – E paralelamente o estádio novo. Eu trouxe até uma foto aí, que eu tenho, da época onde foi lançada a pedra fundamental das novas arquibancadas que o Santos iria construir. Naquela foto está o Athiê, o Lucas da Antártica, está o Dom Idílio José Soares, Bispo Diocesano, está o doutor Ademar de Figueiredo Lira, que era juiz aqui, diretor do Fórum, as autoridades vivas da cidade que na época era ainda um número bem restrito. Mas ali o Santos deslanchou com as campanhas que o Athiê e os seus companheiros de diretoria fizeram arrecadando fundos e tocando a obra pra frente. É aí onde eu gostaria de ressaltar também o nome do Modesto Roma, que foi um grande colaborador nessa campanha, praticamente a reforma das arquibancadas todas eram dirigidas pelo Roma. Pelo Roma e com auxílio de outros diretores que na época eram, eu lembro do Aristóteles Ferreira, o Florival Barletta, que é pai do atual presidente do Conselho. Olha, eram criaturas extraordinárias, denodadas, trabalhavam diuturnamente pra angariar fundos e tocar o Santos Futebol Clube pra frente. Arrumavam cimento com aquela Votorantim, arrumavam ferro com a empresa de ferro aí não sei de onde, e assim o Santos caminhava. Caminhava a passos largos e sem estar endinheirado, isso é que era o pior. Mas o Santos caminhava. As folhas de pagamento, as luvas, aí começaram a crescer, cada renovação de contrato já começava a ser uma guerra, a turma já não quis muito mais saber de emprego público e ele conseguiu fazer com que o Santos chegasse até 1971 a bom termo, com uma grande equipe, com uma equipe que da América, no mundo, não tinha mais pra quem perder. O Santos foi campeão paulista, brasileiro, sul-americano, mundial! E eu me lembro que muitas vezes o Athiê, quando ia fazer algum discurso referente ao Santos e à campanha do Santos, ele sempre citava: “O Santos não tem mais pra quem perder. O Santos agora precisa descobrir uma nova galáxia e ir jogar com as equipes extraterrestres, porque aqui não tem mais adversário pra ele.” E era mesmo. A coisa do Santos era uma, olha, dava gosto! Quem teve a felicidade, como eu tive, de comparecer à Vila Belmiro, ao Pacaembu e outras praças de esportes por aí e ver aquela equipe do Santos jogando, aquilo era uma orquestra de Beethoven, Liszt, Strauss, Chopin tocando numa cadência “ma-ra-vi-lho-sa”! Tanto é que hoje eu vejo essas partidas de futebol por aí, eu assisto porque eu gosto de futebol, mas quem viu o Santos Futebol Clube de antigamente não precisa ver mais ninguém jogar.

 

P/1 – Fica mal acostumado, né?

 

R – Fiquei mal acostumado.

 

P/1 – Então, antes da... O Athiê conquista, então, como presidente, o primeiro título em 55.

 

R – Exato.

 

P/1 – O senhor acompanhou, foi a estádio, o senhor ouviu a decisão, tem alguma coisa que marca aí naquele bicampeonato?

 

R – Claro que eu acompanhei, pô. (risos) Eu só não era diretor, mas eu acompanhava. Eu fui a algumas excursões pelo interior. Eu me lembro, a Piracicaba, Mococa... Nós entramos em campo em Mococa jogar contra o Rádio Futebol Clube, e naquele dia o Santos jogava uma grande partida e o juiz, o árbitro, não sei por que cargas d’água facilitava um pouco o Santos. E aí aconteceu um fato na época inusitado e que também marcou muito. O delegado de polícia, com meia dúzia de policiais, chegaram na arquibancada lá do Rádio onde estava eu e meia dúzia de aficionados do Santos e o Aristóteles Ferreira que acompanhou aquela delegação, e deu voz de prisão pra nós ameaçando o seguinte: “Se o Rádio perder roubado pelo árbitro os senhores estão presos.” Pra nossa sorte eu acho que o árbitro parou de favorecer o Santos, o jogo empatou e terminou tudo bem. E em 1955, quando o Santos foi campeão, eu estava dentro do gramado, eu estava do lado do Lula, do Luís Alôncio Perez, que é outra figura também que precisa ser enaltecida, tinha estrela. E hoje, pra ser grande na vida, pra ter sucesso, além de ter visão, de ter inteligência, precisa ter estrela. Não adianta você ter tudo e não ter sorte, não ter estrela. O Lula tinha. E nesse jogo contra o Taubaté nós tivemos a felicidade de vencer o Taubaté por dois a um na Vila Belmiro, foi um jogo autuado pelo árbitro João Etzel Filho. E este árbitro ajudou naquele dia também um pouco o Santos, graças a Deus, e nós fomos campeões paulistas.

 

P/1 – Ah, teve uma ajudinha?

 

R – Tem. Geralmente, toda partida, se você for analisar friamente você vê que o árbitro às vezes, ou ele erra de propósito ou despropositalmente, mas erram, erram. Tanto é que agora você me chamou atenção de um detalhe. Naquela época era muito comum se falar em suborno em futebol, comum! Por quê? Porque havia baixos salários, então volta e meia pipocava uma notícia de um suborno no futebol, aqui, ali, acolá.

 

P/2 – Subornos quanto aos árbitros ou também com relação aos jogadores?

 

R – Não, não, era mais jogadores.

 

P/1 – Gaveteiros, né?

 

R – Mais jogadores, os árbitros não tinham tanta expressão naquela época, não se dava tanto valor. Hoje sim, é o contrário. Hoje você não vai subornar um Ronaldinho, vai? Não vai. Você não vai chegar aqui no Santos e vai subornar um jogador do primeiro time porque eles ganham muito bem e não há necessidade. Você já viu quanto ganham os árbitros? Então eles são mais vulneráveis hoje. Nesse campo eu tenho muita história pra contar, viu? Mas muita história mesmo. Tanta história! Eu só vou contar uma, sem dar nome, por favor, ao adversário. O Santos jogou aqui uma partida e – pasmem! – o resultado desse jogo foi Santos sete o adversário seis, sete a seis. E nesse dia era um gol aqui, um gol lá, um gol aqui um gol lá... Aos 45 minutos do segundo tempo estava seis a seis, o adversário empatou. O Santos vai dar a saída, o centroavante do Santos chamava-se Caxambu, o meia-direita era um tal de... Um rapaz que veio do Fluminense, Maracaí, ele era natural de uma cidade fluminense, de Carangola, e estreava naquela partida. Eu sei que o Caxambu, olhando para o nosso goleiro e balançando para o nosso goleiro como quem diz: “Puxa vida, seis gols?!”, e joga a bola para o Maracaí. O Maracaí, também desolado, pega a bola e, não passou pra ninguém da defesa, chutou pra frente. O goleiro adversário estava no gol que seria dos fundos, não da frente, da parte principal. Se o goleiro fica no gol imobilizado, a bola vinha pulando, ela sairia fora. Aí ele fez o impossível: mergulhou e jogou a bola pra dentro do gol. (risos) Também nunca mais jogou futebol. Ali ele se despediu do futebol. Eu acredito que naquela época tinha... Tentaram uma vez levar para o Athiê, ele era Deputado Estadual, um sósia de um goleiro, se o Athiê tinha interesse em dar um dinheirinho para o rapaz, que ele estava apertado... A sorte é que o Athiê me chamou e disse: “Angelo, vai lá e vê se aquele lá é o jogador tal.” E eu fui, achei meio parecido, mas pra minha sorte passava pela sala do café naquela tarde outro jogador de futebol, na época, que era da Portuguesa de Desporto, chamado Manduco, e eu tinha muita liberdade, muita amizade: “Manduco, faça o favor, aquele lá é o Zé?” Ele olhou, disse: “Não, ele tem, assim, uma semelhança, mas não é ele. O Zé eu conheço, é meu amigo.” Isso pra vocês terem uma idéia do que se fazia naquela época, arranjava-se sósia pra tentar ganhar dinheiro. O futebol evoluiu muito, evoluiu muito e chegou ao ponto que hoje nós todos assistimos. Hoje um jogador de futebol dessas equipes todas por aí, nenhum deles tem coragem de cometer um ato desses. Agora, os meus amigos árbitros não sei, eu ponho as minhas dúvidas, porque é em função do que eles ganham e é em função do que corre de dinheiro. Vejam: ontem no Maracanã no Rio, a assistência que foi assistir ao jogo Santos e Vasco, mais de oitenta mil pessoas! E os senhores viram, um árbitro aparentemente honesto, aparentemente atuando direito, mas prejudicou o Santos. E como! Por isso essas fases precisam ser bem separadas. A época até 1955, 60, e depois de 60 pra cá. Aí a coisa se valorizou muito, moralizou-se muito. Deve ter ainda os Euricos Mirandas da vida.

 

P/1 – Desde a entrevista que nós fizemos com o seu Mário Pereira, campeão em 35, que ele já disse que o Santos sempre foi penalizado aí pelos juizes, prejudicaram muito o Santos. O senhor se lembra de passagens, assim, de roubos clamorosos aí contra o Santos?

 

R – Qualquer uma? Teve uma recente. Santos e Botafogo, decisão do campeonato brasileiro aqui em São Paulo, nós fomos assaltados por um árbitro que todo mundo viu que roubou o Santos. Todo mundo! E nós aceitamos passivamente aquela atitude daquele árbitro naquela tarde no jogo contra o Botafogo. Agora, anteriormente... Têm tantas histórias, tantos fatos...

 

P/1 – E outros componentes da diretoria do Athiê que...

 

R – Colaboraram com ele nesse período todo de 45 a 71. É fácil, os nomes afloram à minha cabeça com alguma facilidade. O Modesto Roma, como eu contei pra vocês já, foi o general da construção das arquibancadas de concreto do Santos Futebol Clube e outras obras mais. Nós tivemos aqui, fora o Roma, o Aristóteles Ferreira que foi presidente do Santos e foi um eterno colaborador enquanto o Athiê... Enquanto ele viveu ele esteve sempre ligado ao Santos. O Aristóteles era, assim, uma criatura que ele surgia de repente e ele dava a solução para os casos mais intricados. Esse era o Aristóteles Ferreira. Antônio G. Santos, Antônio Gonçalves dos Santos, foi outro diretor, mais tranqüilo, mais devagar e que fazia mais contatos entre os jogadores e a diretoria pra tratar de alguns problemas deles. Augusto da Silva Saraiva, falecido recentemente em Portugal, falecido o ano passado. Saraiva era outro batalhador, era outro alvinegro de quatro costados, teve muito valor, trabalhou muito no Santos. Nicolau Mouran. Nicolau Mouran foi outro grande diretor, trabalhava em silêncio... E o Pelé gostava muito do Mouran, viu? Tanto é que o único diretor que me consta que foi convidado para o casamento do Pelé com a dona Rose foi o Mouran, foi até padrinho de casamento. E veja você, nem o Athiê foi convidado, hein?

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É. Essa foi uma mágoa que o Athiê carregou com ele para o túmulo.

 

P/1 – Mas por quê? Foi uma cerimônia muito reservada?

 

R – Foi. Foi uma cerimônia bem restrita na casa onde eles... Aqui no Macuco. E o Pelé, ele não queria muito alvoroço político, e ele achava que o Athiê era político e tal e coisa, ele queria a coisa mais fechada, mais íntima. E assim foi feito e assim se respeitou. Nicolau Mouran inclusive leva o nome da chácara aqui em São Bernardo, o nome dele. Nicolau Mouran também era um homem rico, independente e que trabalhou muito pelo Santos. Virgílio Pinto de Oliveira, o Bilu, foi outro igual ao Athiê, jogador - era zagueiro – e depois se transformou em diretor, nunca chegou a presidente. E se sucederam outros, como Otávio Espanholo era tesoureiro, era mão fechada, caixa segura, grande tesoureiro. Secretário Geral do Santos, José Horácio Pierre, ele era apelidado por nós como o eterno secretário porque passava-se eleição, entrava-se eleição e o Pierre sempre estava lá. Gerame, foi outro também que desempenhou papel de tesoureiro, também extraordinário. René Ramos, Florival Barletta, pai do nosso presidente do Conselho era outra formiguinha, gostava do Santos tanto quanto da família dele. E o Marcelo de Castro Leite, que esse, dessa turma toda que eu falei é o único que ainda está vivo. Marcelo de Castro Leite, ele era o representante do Santos em São Paulo, junto à Federação. Todos os assuntos referentes a papéis, registro de contratos, renovação de contratos, a maioria era tudo feito através do Marcelo de Castro Leite. Tivemos o Vicente Cassione, pai. Vicente Cassione, que trabalhou também no Santos, foi diretor da parte de campo, tivemos o Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho, foi deputado, mas era outro abnegado, outro fanático alvinegro, nunca chegou à presidência, mas esteve sempre nas diretorias, departamento jurídico, sempre colaborando para que o Santos tivesse êxito nas suas lutas. José Sanches, Pepito, também foi outro diretor, esse ainda está vivo também.

 

R – Diretor e conselheiro do Santos. E eu gostaria de fazer uma referência também, antes que eu acabe esquecendo, ao doutor Antônio Guilherme Gonçalves. Este sim foi o responsável pela vinda do Athiê para o Santos, foi presidente na década de 25 a 30, por aí, foi presidente que conquistou o título de campeão da técnica e da disciplina para o Santos Futebol Clube que até hoje o Santos ostenta. Não está lá muito técnica e disciplina, mas é galardão que o Santos conseguiu. No quadro de funcionários do Santos Futebol Clube desta época a gente gostaria de lembrar do Antônio da Costa Pinto, da sua mulher dona Maria José, dos dois rapazes que eu já falei, Alfredo de Lima e o Miguel Fernandes, esses dois ainda estão lá até hoje na secretaria do Santos, na figura do Salu, Salustiano da Costa Lima. O Salu era uma figura, vamos dizer assim, folclórica no Santos Futebol Clube. Ele estava como está hoje o Alemão no meio da torcida. Na época era o Salu. Ele comandava, ele armava as brigas, ele chefiava as delegações, caravanas, ele treinava, ele foi treinador dos juvenis, foi campeão aqui santista inúmeras vezes. O Salu tinha muita capacidade. Dedicou a vida dele toda ao Santos Futebol Clube e morreu pobre.

 

P/1 – Bem, em relação a essas pessoas, o senhor podia contar como era o Modesto Roma, o temperamento dele, como era a maneira dele trabalhar?

 

R – Sem dúvida. O Modesto Roma era um tipo, assim, bonachão. Falante, se tinha que esculhambar com alguém ele esculhambava, era homem de verdades, não era de meias-verdades, trabalhador. Graças a ele o Athiê fez uma boa administração, porque teve companheiros como ele. E é dele uma famosa frase que eu vou repetir. Numa célebre reunião ele declinou, para quem quisesse ouvir, que ele tinha sido obrigado a “vestir uma camisa de malandro e descer no covil dos ladrões.” Por que? Porque nós vivíamos numa época difícil! Foi aquela época em que se falava em suborno daqui, pra ali, pra acolá. E o Roma não aguentou, uma noite numa reunião ele declarou lá pra quem quisesse ouvir: “Meus amigos, eu fui obrigado a vestir uma camisa listrada de malandro e descer ao covil dos ladrões.” Este foi o Modesto Roma. Eu gostaria também de falar um pouco, lembrar, antes que eu esqueça e nós terminemos aqui a nossa palestra, Parque Balneário Hotel.

 

P/1 – Ah, sim. Vamos falar sobre o Parque Balneário.

 

R – Parque Balneário Hotel não foi lenda na vida do Santos, foi a maior realidade que podia existir na época. O Athiê vislumbrou que o jogo ia abrir. O Presidente da República da época disse ao Athiê: “Eu vou abrir o jogo.” A família Fracarolli já estava nos estertores da vida deles, cansados, e eles se dispuseram a vender o Parque Balneário. Como o Athiê era muito amigo dos Fracarolli, o Athiê  vivia lá, jantavam, ceavam quase todas as noites nasceu a possibilidade de se fazer um negócio com o Parque Balneário.

 

P/1 – Mas pra quem não sabe, o que é que era o Parque Balneário aí, na época, antes do Santos? Ele era um hotel?

 

R – Parque Balneário era um hotel e cassino. Hotel e cassino e boate, restaurante. Ali no Parque Balneário se apresentaram na época os maiores artistas do mundo. Eu lembro do Beniamino Gigli, Tito Schipa, Libertad Lamarque, uma mexicana, Elvira Ríos, tinha um vozeirão meio masculinizado. Parque Balneário era famoso, era um prédio de construção requintada. Todo o mobiliário, lustres, ar refrigerado, tudo importado! Era tudo coisa de primeira. Pra que se tenha uma idéia do que era o cassino do Parque Balneário, as fichas de jogo, de cinco, de 10, de 100, de 500 eram todas em uma baquelite pintada com a importância em ouro, gravadas a ouro. Essas fichas, quando foi feito o leilão do parque, eu sei onde estão ainda até hoje, foram adquiridas por um amigo meu quando o Parque Balneário foi a leilão, quando o Cláudio Donet e um grupo dele comprou o Parque pra fazer um empreendimento imobiliário. Mas voltando ao Athiê, quando ele quis comprar o Parque, a família Fracarolli, após inúmeras reuniões chegou a um consenso, na época de três bilhões e cem milhões de cruzeiros, parcelando, na época, parece que em cem milhões por mês. E tudo para o Athiê era possível. Fecharam o negócio, o Santos chegou a instalar lá uma parte da sua secretaria social e o Athiê estava na expectativa de que o jogo a qualquer momento explodiria. E era o sonho dele. O Athiê  teve em mente tornar a equipe a maior equipe de futebol do mundo! Conseguiu. E pretendia transformá-lo em clube social, o maior do mundo. E com o Parque Balneário ele faria. Era o sonho dele. Infelizmente a coisa foi se prolongando, o jogo não abriu, um dos credores do Santos começou a forçar pra querer receber o dinheiro dele de volta, não tinha perigo nenhum porque o patrimônio só garantia qualquer empréstimo que se fez na época. Senhor Carlos Caldeira Filho era o dono do empréstimo. Forçou, forçou, forçou... Nós nos reunimos, o Conselho Deliberativo, e acabamos concordando – foi o maior crime que nós cometemos – em vender o Parque Balneário para o grupo liderado pelo seu Cláudio Donet. Agora, vejam bem os valores. Nós pagamos três milhões e cem mil, ou três bilhões e cem milhões, vendemos para o grupo do seu Cláudio Donet por seis bilhões e 150 mil. Exatamente o dobro! Quer dizer, foi um mau negócio para o Santos? Não, foi excelente. Deu o dobro, deu 100% de lucro. É como a chácara Nicolau Mourã. A chácara Nicolau Mourã foi adquirida pelo Athiê de um clube que existiu em São Paulo por 225 milhões de cruzeiros. Se vocês fizerem as contas hoje, 225 pelo real, vai dar uns cento e poucos reais, foi quanto custou aquela chácara Nicolau Mourã. E outro detalhe, esses 225 milhões de cruzeiros, para serem pagos em 10 parcelas de 22 milhões e 500. Quer dizer, o Santos realizava bons negócios. O Santos tinha estrela, tinha proteção divina, tinha o Athiê, tinha uma diretoria que era soberba, trabalhava. Eu nunca ouvi, naquela época, se falar de um deslize de um diretor do Santos, tal o caráter, a honestidade desses homens, mas lamentavelmente a recíproca e a retribuição não foi igual. Eu me lembro de um médico do Santos, que eu esqueci, até não falei até agora, chamava-se doutor Hermindo Dalossa Lerno. Ele era um médico que hoje vocês vêem nos jogos aí, que entra em campo com enfermeiro, com massagista, vai lá e joga aquela água milagrosa na canela dos jogadores, e eles depois de gemer e chorar levantam sorrindo e vão jogar. O Daló era um medicozinho, ele era baixinho, miudinho, entrava correndo, parecia uma formiguinha atômica. Ele entrava em campo, em cinco minutos punha os jogadores de pé. Ele era diretor, chefe do departamento médico, morreu também. Olha, na missa de sétimo dia, eu não vi um diretor, na época, ninguém prestigiando o enterro do moço. E é isso, futebol é isso. A glória que você tem é aquela, no momento. A de amanhã não espere, é zero.

 

P/1 – Seu Angelo, vamos falar um pouquinho da carreira política do Athiê, que a gente ainda não comentou sobre isso?

 

R – Vamos.

 

P/1 – Ele, até chegar a presidente do Santos, então, em 45, ele já tinha...

 

R – Não, eu vou narrar a carreira política dele precisa, exata, exata, exata. Só que antes eu faço questão também de outro detalhe que eu ainda não citei. Quando o Pelé veio pra Santos e compramos o carro, causou um alvoroço no meio da família dele, porque eles eram humildes em Bauru, eles não tinham veículo, não tinham... E o Pelé comprou o carro aqui por meu intermédio, o Dondinho, que era o pai dele, sentiu necessidade... Porque eles eram muito unidos, viu? Família extraordinária! Sentiu necessidade de vir com a família pra perto do filho que se projetava. Mas ele era funcionário da Secretaria da Saúde em Bauru, e ele queria vir pra Santos, mas tinha que vir com a família e a rendinha dele de funcionário público. E o Athiê não conseguia a transferência dele, mas em hipótese alguma, de forma nenhuma. Foi quando eu cheguei para o Athiê e disse: “Olha, Athiê, eu sou funcionário da Saúde aqui, se o Jânio Quadros quer uma vaga...” sentei numa cadeira, pus uma folha de papel na máquina e bati ao Secretário da Saúde o meu pedido de demissão daqui do meu cargo de Fiscal Sanitário no Centro de Saúde para que abrisse uma vaga para que o meu amigo Dondinho viesse pra cá. E foi na minha vaga que ele veio, ficou aqui em Santos, trabalhou muito tempo na Delegacia de Saúde, ele era até muito querido, o próprio delegado de saúde gostava tanto do Dondinho, que o Dondinho trabalhava do lado dele. E ali ele se aposentou, na Secretaria da Saúde. Esse detalhe eu precisava contar. Depois, a carreira política do Athiê, ela praticamente se iniciou em 1948, quando ele foi eleito vereador da Câmara Municipal de Santos. O Athiê  levava na bagagem política dele praticamente quase nada, porque o Santos Futebol Clube impressionava muita gente: “Não, ele vai ser...” Não, hoje pra ser político não é só trazer nas costas uma bagagem de futebol, de clube, nada. O povo, eleitor vota diferente. Mas mesmo assim o Athiê  foi eleito vereador em 48, foi naquele ano famoso em que caçaram todos os comunistas e o Athiê de lá do meio da fila e veio pra ser o segundo ou primeiro mais votado. Mas caçaram uns seis ou oito aí, comunistas que tinham sido eleitos vereadores. Inclusive tinha uma senhora que era empregada de uma das figuras importantes da Praça de Café de Santos. O patrão não conseguia 10 votos, ela conseguiu se eleger vereadora, mas como ela estava pelo Partido Comunista na época ela foi caçada também. De 48 ele ficou até 50. Ele doou, diga-se também de passagem, que a grande atitude dele foi... Tudo o que ele recebeu como vereador ele doou para as casas de caridade da cidade. Eu recebia os ofícios, numa pasta eu catalogava em ordem numérica, seguia rigorosamente uma cronologia. Então todo mês tinha uma casa de caridade aquinhoada com o salário dele. Depois ele se elegeu, em 50 ele se elegeu Deputado Estadual, Deputado à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, e lá ele ficou de 50 até 62. A passagem dele pela Assembléia foi também uma passagem marcante. O Athiê conseguiu uma porção de coisas: criação de colégios estaduais, aqui na Baixada, no litoral, mas criação efetiva! Ele apresentava o projeto de lei, aprovava, ia à Secretaria com o secretário e conseguia instalar. Colégios, postos de saúde... E com isto ele galgou um prestígio maior como Deputado Estadual. Fez várias viagens de estudos como Deputado Estadual, pela Itália, pelo Oriente e em 62 ele se lançou a Deputado Federal. Deputado Federal em 62, aí a passagem do político já é mais restrita, porque lá o campo não é... Vereador são 21, Deputados Estaduais são 91, Deputados Federais são quinhentos e tantos. Então a possibilidade do Deputado Federal se projetar é bem mais remota, mas mesmo assim, todo órgão público de Santos, do litoral, de São Paulo que procuravam o Athiê ele era solícito, ele ia buscar no aeroporto, ele levava a falar com o Presidente, com o Ministro... Tanto é que na época ele foi cognominado como Embaixador de Santos na Câmara Federal. Na Câmara Federal os deputados tinham umas audiências, eu vou contar uma passagem até histórica, gozada. Tinham as audiências, e nessa audiência que ele foi nesse dia eu estava junto. Nós chegávamos ao Palácio e lá, na secretaria, na assessoria tinha um livro onde o deputado chegava e colocava o seu nome numa ordem cronológica de chegada para ser atendido pelo Presidente da República. E naquele dia eu me lembro que nós chegamos lá e nós éramos os vigésimos segundos, e adentramos o Salão Nobre lá do Palácio. Nisso vem um contínuo, chama o Athiê e “ZZZZ” no ouvido dele, fala qualquer coisa e leva o Athiê lá pra dentro. E foi lá com o Presidente da República. Foi o último a chegar, mas foi o primeiro a ser atendido. A turma aqui de fora, os deputados, notadamente um aqui de São Paulo, Cantídeo Sampaio, estava soltando fogo pelas orelhas, pelas narinas e eu observei tudo aquilo e fiquei quieto. Quando o Athiê saiu com o Presidente, na porta eu cheguei para o Athiê e para o Presidente e disse: “Excelência, os deputados aí estão meio aborrecidos porque o senhor chamou o Athiê na frente deles todos.” O Presidente era o Emílio Garrastazu Médici. Ele disse: “Não se incomode, deixa por mim, quer ver? Eu tomo conta do negócio. Pessoal, o Athiê veio aqui, passou na frente de vocês porque não foi ele que veio me pedir, era o Presidente que queria fazer um pedido a ele.” (risos) Eu sei dizer que, olha, a turma toda murchou, o Cantídeo Sampaio disse: “Não, Excelência, o que é isso? Não, em absoluto, o senhor está certo, isso, aquilo...” E puseram panos quentes em cima e a coisa passou. Mas na realidade o Athiê  tinha muito prestígio sim, com Presidente da República, ministros... Chegava num ministério adentrava logo ao gabinete do ministro. Era atendido de uma forma maravilhosa! Eu não sei como é que Santos teve o descuidado de não reelegê-lo em 82, porque mesmo sem grande atuação, só com o prestígio do nome, de grande presidente, de grande jogador, ele abria qualquer porta no ministério. Eu me lembro quando ele era Deputado Estadual, e mesmo Federal, nós íamos à Caixa Econômica aqui, Federal, em São Paulo, e nós arranjávamos empréstimo pra todo mundo que quisesse, em Santos, comprar casa própria. Eu fazia a relação, juntava os requerimentos todos, levava para o presidente da Caixa e o presidente: “Autorizo”. Me deu até um carimbo: “Angelo, vai carimbando e me dá só pra assinar”. E eu levava para o presidente da Caixa já carimbado, só o “autorizo” e ele assinava tudo para o Athiê. Numa dessas autorizações... Quer dizer, nós compramos, ajudamos aqui meio mundo a comprar casa financiada pela Caixa Econômica Federal. Eu faço até questão também de lembrar aqui um nome que passou na vida do Santos... dois nomes, mas o outro não, o outro ele não deve nada pra mim, quem deve pra ele sou eu, mas este outro aqui não, eu arrumei o financiamento, ele comprou uma casa ali na Praça Washington, na José Menino e, olha, foi acho que a única propriedade, o único bem que este homem teve, foi o maior jornalista esportivo do Brasil, chamou-se Adriano Neiva da Motta e Silva, o cognome dele era Devanei. O Devanei concorreu a 26 concursos esportivos e literários sobre esporte. Foram 26! Enfrentou todos os cobras de São Paulo e do Rio, como tal em São Paulo tinha na época o Tomás Mazoni, o Olímpicus, era o dono da situação. Pois bem, o seu Adriano Neiva da Motta e Silva, Devanei, nunca tirou um segundo lugar, os 26 primeiros lugares, para os senhores terem uma idéia da capacidade jornalística deste homem. Era meu amigo particular, tinha uma... eu não sei se defeito ou virtude. Ele era notívago, ele não dormia durante a noite. Às vezes ele me telefonava e eu queria morrer, porque ele me ligava à meia-noite, uma hora e ficava falando até duas, três horas da manhã no telefone. Mas foi extraordinário! E o outro, que toda a torcida do Santos gostava, era o maior defensor do Santos Futebol Clube nas brigas todas contra os jornalistas e radialistas de São Paulo. Chamava-se radialista Hernani Franco. O nome dele Vigilato Bacará, mas o Hernani Franco, meus amigos, era a Cachaça do meio dia e das sete horas da noite. Todos nós ligávamos na PRG5, Rádio Atlântica de Santos pra ouvir os comentários e as broncas do Hernani Franco. E tudo que ele afirmava à respeito do Santos, de jogador, de diretor, de quem fosse, acontecia. O Hernani Franco era extraordinário! E eu tive a honra, tive o privilégio de em 1959, quando eu me elegi vereador à Câmara Municipal de Santos eu fui o terceiro mais votado. O Athiê não estava no Brasil, o Athiê estava viajando pela Europa, mas o Hernani me deu uma mão, deu uma ajuda fabulosa. Ele colocava na Rádio Atlântica, de hora em hora ele anunciava a hora. E quando anunciava a hora ele avisava: “Não esqueça, antes de votar, Angelo Ramos pra vereador. São 14 horas e 30 minutos”. O dia inteiro. E aquilo parece que não, mas me ajudou sobremaneira. Eu sou reconhecido e grato a ele. Ele é falecido, a mulher dele é falecida, tem um filho ainda vivo aí, que trabalha numa emissora de TV, se eu não me engano... é TVMar ou é a outra? Trabalha numa emissora de TV.

 

P/1 – O senhor estava falando que foi eleito vereador. Por que partido foi? Quantos votos o senhor teve?

 

R – Ah, na época eu fui eleito pelo Partido Democrata Cristão. Era o Partido do Franco Montoro, era o partido de um ilustre, o professor Queirós Filho, que era Secretário da Justiça. E eu me candidatei por acidente, para preencher a chapa do partido porque não tinha nomes. E depois que eu entrei na luta... Eu não entrei pra apanhar, entrei pra ganhar. Com a ajuda de vários amigos eu fiz uma campanha belíssima e consegui ser eleito. Eu fui o segundo mias votado nessa eleição. Em primeiro lugar foi eleito o professor Arthur Rivot, do meu partido e em segundo lugar eu com cerca de mil votos e pouco, mas naquela época mil votos em Santos era hoje pra Deputado Federal 100 mil, era incrível a dificuldade! O Athiê, por sua vez, foi candidato inicialmente pelo MDB, depois ele passou pela Arena e no fim ele terminou no PDS do Paulo Maluf, que aí é que eu achei que foi o grande desastre da campanha dele. Naquela época o voto foi vinculado e o Athiê era candidato à reeleição à Federal e eu a Estadual, mas o voto era vinculado. Como o Athiê tinha saído do MDB e o Montoro é que estava disparando naquele ano, foi eleito governador, nós tivemos muita dificuldade. Basta dizer que o mais votado para Deputado Estadual aqui em Santos, dos partidos que não eram da oposição fui eu. Eu ganhei do Athiê, ganhei do Athiê em Santos, ganhei do Erasmo, do Álvaro Santos, do professor Jorge Monteiro e de outro que veio aí que era protegido do Maluf, Ernesto Correia Leite. Eu derrotei todos em voto. Tive aproximadamente 19 mil votos! Dezenove mil votos e não consegui me eleger não, eu fiquei lá na rabeira! Olhem a dificuldade que era conseguir se eleger deputado. Depois, agora, já no fim, depois que largamos tudo, em 88 eu fui de novo a vereador, mas eu fui sem entusiasmo. Tentei, fiz alguma forcinha, mas já bem mais cansado, desiludido com muitos problemas, eu ainda, mesmo assim, fui eleito terceiro suplente à Câmara Municipal de Santos. Não assumi porque os dois, os três que estavam na minha frente só sairiam se mortos, vivos não sairiam. (risos) E foi essa a nossa trajetória. Passei como diretor da Guarda Noturna de Santos em 1963. Na Guarda Noturna eu tive uma boa atuação. Eu me considero um bom diretor, atuante, porque naquela época, quando eu assumi, sentei-me à mesa de diretor da Guarda Noturna de Santos - era diretor da Secretaria da Segurança locado na Guarda Noturna – eu encontro uma reclamação trabalhista de todo o corpo de guardas, todos reclamando salário noturno, vale-transporte, fardamento novo... Que ninguém tinha. E naquela época a corporação tinha uns 80, 90 homens só. Eu devagar fui atendendo tudo que eles pediam, mudamos o fardamento, demos o salário noturno, a gratuidade nas passagens de coletivos em Santos eu consegui, e montamos na Guarda, na época, uma escola com quatro salas de aula. Eu inclusive muitas noites – e muitas noites! – dei aula, como tem umas fotos ali eu dando aula de Moral e Cívica, que para os guardas era importante. Aulas de Direito Penal, ensinando o guarda o que é legítima defesa, quando você pode sacar de uma arma e fazer uso, não é? De acordo com o que reza no Código Penal. E eu sei que devagarzinho nós fomos levantando a Guarda, a escolinha com as professoras, formamos uma quantidade enorme de gente que não podia pagar. Nós dávamos o ensino, dávamos o material escolar, lápis, caderno e o livro que vinha do MEC, era o tal famoso Projeto Minerva, que a minha mulher, a minha esposa que colaborou, ela era professora e ela foi nomeada pela Secretaria da Educação pra ir lá ministrar aulas do Projeto Minerva junto com mais outras quatro, cinco professoras.

 

R – E, olha, eu sei que com isso eu consegui levantar a Guarda Noturna, transformei os guardas todos eles em homens, conhecendo muita coisa, conhecendo muita coisa sobre civismo, cantar Hino Nacional, andar na rua, tratar o ser humano... Projetamos a Guarda de tal forma que nesta altura eu comecei a ser cobiçado, o meu cargo começou a ser cobiçado. Aí todo mundo queria, tinha uma meia dúzia de pretendentes ao meu cargo. Tentaram me tirar uma vez, não conseguiram, tentaram tirar a segunda, não conseguiram, aí, antes de acontecer a terceira eu elaborei um pedido de demissão, encaminhei e saí fora. Mas me orgulho porque quando eu saí da Guarda Noturna nós tínhamos aproximadamente na cidade 500 homens à noite, fardados na rua, armados, guardas “rondantes” apitando nas vias principais, vamos dizer, aqui: Ana Costa, Conselheiro Nébias, Siqueira Campos, Bernardino de Campos, Washington Luís, todas essas artérias principais o guarda, o “rondante”... Tinha um “rondante” que ia de ponta a ponta apitando. Olha, e pasme, parece até ironia. Eu recebia às vezes reclamações bravas: “Manda esse guarda parar de apitar! Onde é que se viu?! Manda ir apitar na sua casa!” E eu dizia: “Meu amigo, ele está na rua zelando pelo seu sossego e da sua família, porque se o ladrão está por aí nas imediações da sua casa tentando fazer alguma coisa, ele foge e vai pra outra onde não tem grande movimento e ele possa trabalhar mais à vontade, não é fato?” Realizávamos também os exames de trânsito escritos, eram feitos na Guarda Noturna. Eu tive dia de exame de trânsito, guarda, aluno... Entrar na corporação e sair cerca de 1500 pessoas. Senhoras de juizes, delegados, promotores, parentes que iam lá prestar o exame de trânsito escrito. Eu tive aluno formado na Guarda Noturna que hoje é engenheiro, tem uma professora que está... Eu não declino o nome por uma questão de ética, ela está viva, é amiga particular da minha mulher, da minha família, esta mulher foi Secretária da Educação na Prefeitura de São Vicente e foi nomeada, designada pela Prefeitura de São Vicente para ir fazer um estágio no Japão, onde ela ficou lá alguns meses. Eu faço questão de contar essas historiazinhas porque é para os senhores verem que nós realizamos. No meu tempo de diretor da Guarda Noturna não tinha um mendigo, um mendigo de noite abandonado nas ruas. Vocês vão dizer: “Por quê? Mas o senhor...” Eu não fazia milagre. Nós tínhamos seis viaturas carro de preso. Então eu as distribuía pela cidade, tinha mapa lá na Guarda e eu destacava: “O senhor vai atuar nesse bairro, o senhor nesse, o senhor nesse, o senhor nesse, o senhor nesse...” E durante a noite fazia recolha. Levávamos todos pra Guarda, fazíamos o cadastro deles todos: “Nome? De onde veio?” Porque – pasmem! - não tinha um de Santos. Sabe como é que eles vinham pra cá? Eles eram trazidos em carros aí, diversos e eram jogados aqui. Prefeituras aí de cima, de cima que eu digo São Bernardo, São Paulo, interior recolhiam na cidade deles: “Joga em Santos, lá é terra mesmo da caridade e da liberdade!” É mesmo, na bandeira da cidade de Santos está lá: “Patrea et caritatis et libertatis.” E eu tinha esse problema, mas eu, tranquilo, ninguém sabe disso. Até hoje nunca, nunca eu me lembro de ter recebido... Não digo um elogio, era a minha função, era a minha obrigação, mas, que diabo! Podia se fazer referência, poxa! Não tinha, a cidade estava limpa! Era fácil limpar. Eu recolhia 20, 25 numa noite. Cinco para as seis saía o primeiro trem na Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. Eu levava-os todos até lá nos vários carros, fazia um vale-passagem que a Secretaria da Segurança me dava e embarcava todo mundo de volta. E avisava: “Olha, por favor, se quiserem voltar pra cá, Santos está aberta, de braços abertos, praia, cidade, mas venham pra ter onde ficar, dormir debaixo de marquise, debaixo de ponte não é recomendável.” E eles... Eu tenho a impressão de que eu era bem atendido, obedeciam. Eu me lembro de um loirinho – essa eu faço questão de contar porque a história foi até pitoresca. Eu me lembro que nós recolhemos um loirinho com duas mulheres, uma loira e uma senhora de cor. Quando ele foi preso, a primeira coisa que ele fez foi abrir o peito e mostrar um corte de cirurgia daqui de cima até o umbigo. Aquilo parecia corte de conserto de bola de futebol, corte horroroso! A primeira vez ele foi bem tratado, tomou um cafezinho, tomou um banho, recebia roupa... Eu disse pra ele: “Olha, vai, cuida da tua vida, se você quiser vir pra Santos vem pra casa de algum parente, casa de alguém, teu conhecido.” E ele não acreditou, acho, que em mim. Ele foi e uma semana depois ele estava de novo em Santos. Aí eu já fiquei bravo, briguei com ele, o tratei mais rispidamente, e avisei: “Olha, não volta porque se voltar você vai se arrepender.” E naquela época era governador no Rio de Janeiro o Carlos Lacerda, não sei se vocês estão lembrados do episódio? O Lacerda no Rio fazia a mesma coisa, só que diziam que o Lacerda recolhia todos e jogava em alto-mar. Foi boato, ninguém provou nada contra o Lacerda. Mas eu aproveitei o embalo e disse: “Olha, vou fazer igual ao Lacerda, hein?” E não teve dúvida, a terceira vez, de dia, quatro horas da tarde eu vou descendo a Avenida Francisco Glicério eu vejo o cidadão com as duas. E ele explorava as duas mulheres, ele fazia com que elas entrassem nas residências e nos varais de roupa, objetos de valor... Ele mandava elas recolherem. Aí eu o peguei a terceira vez, meti ele no carro de preso e disse: “Hoje acabou, eu vou me livrar de você.” E ele ficou dentro da viatura, era meia noite e eu chamei o chefe dos guardas na porta da viatura pra ele ouvir: “Comandante, este artista que está aqui que não acreditou em mim, o senhor vai e faz igual ao Lacerda, no Rio. Atravessa a Ponte Pênsil e lá no Mar Pequeno e joga esse vagabundo! Pega esse saco aqui de café – levei um saco de café, levei três ou quatro paralelepípedos, pedaço de arame – põe ele aí dentro, põe os paralelepípedos pra ele afundar e não voltar mais, amarra a ponta do saco com arame e joga ele lá.” Ah, meu Deus do céu! O homem dentro do carro de preso se debatia, gritava, chorava... “Doutor, pelo amor de Deus, não faz isso, eu sou um cristão, eu sou brasileiro, eu preciso viver, eu quero... prometo para o senhor que eu não volto mais.” Eu digo: “Não, agora eu não acredito mais em você, você vai.” Aí eu chamei o chefe dos guardas e digo: “Olha, você atravessa, faz toda a encenação, pega o saco, pega um ou dois macacos e você vai para o lado da... Fica olhando para o lado da Ponte Pênsil e deixa o lado da Praia Grande aberto pra dar uma chance pra ele fugir. Se ele não fugir você vai mais adiante e solta ele.” O chefe dos guardas fez isso. Passou a Ponte Pênsil, abriu o carro de preso, fez que foi pegar o saco, as pedras, ele meteu a cabeça de fora da viatura, olhou, viu o chefe ali arrumando o saco, olhou pra esquerda e viu a Praia Grande lá no fim do mundo. Desabalou a correr, deve estar correndo até hoje! (risos) Nunca mais voltou em Santos. Eu contei essa historinha pra vocês terem uma idéia de como foi o meu trabalho na Guarda Noturna. Hoje eu ando por aí encontro o guarda que trabalhou no meu tempo, vocês precisam ver a reverência que eles fazem a meu respeito. Há pouco tempo dois ou três ali na Avenida Conselheiro Nébias: “Doutor, volte pelo amor de Deus! Diga o que nós precisamos fazer para que o senhor volte.” Eu digo: “Eu não volto, o meu tempo já passou. Eu já cumpri a minha parte, agora quem estiver lá que cumpra a sua.” E aí saí da Guarda Noturna, passei um período na Cosipa, como analista supervisor. Na Cosipa também a minha passagem... Onde eu passei eu paguei o meu preço, paguei mesmo. Peguei a Cosipa, fui trabalhar num setor onde havia uma barbaridade. Tinha funcionário que tinha entrado pra trabalhar, já estava lá há quase um ano e não tinha trabalhado um dia, era atestado médico em cima de atestado médico. Existia a indústria dos atestados médicos. E eu quietinho me dispus, fui a campo, saí na rua, relacionei os nomes de clínicas que facilitavam os atestados e fui falar uma por uma: “Olha, eu vim aqui em missão de paz. Vocês têm facilitado atestados médicos. Olha, esse aqui vai quase seis meses, ainda não trabalhou um dia, ele vai lá, marca o ponto e vai para o departamento médico.” E exemplifiquei com meia dúzia de casos. Acabou. Depois dessas visitas nessas clínicas eles sentiram o peso da responsabilidade e a coisa abrandou mesmo. Olha, o número de faltas era aproximadamente por dia, olha, 10%, 15% a 20% por dia! O negócio abaixou pra um, pra zero, quase zero. Então eu sempre paguei o que eu ganhei. Com o Athiê... Mas nunca abandonei o Athiê, nessas andanças todas.

 

P/1 – O senhor sai de trabalhar formalmente com ele no escritório quando?

 

R – Nunca saí.

 

P/1 – Ah, nunca saiu?

 

R – Nunca saí. (risos) Nunca saí, a vida inteira eu fiquei lá. É que eu encaixava... O meu dia não tinha 24 horas, o meu dia... Eu emendava às vezes... Quantas vezes eu saí da Guarda Noturna de madrugada, ia em casa, tomava banho, tomava café e voltava pra luta. Quantas vezes eu dormi no escritório! Quando foi instituída uma subcomissão geral de investigação e caíram em cima dos políticos, o Athiê na época foi notificado, eu fui notificado por ser vereador a fazer um balanço da nossa vida, balanço financeiro dos últimos 10 anos. E eu tive que fazer o meu e o do Athiê. E na hora de ir lá levar para um coronel-aviador, eu ainda perguntei pra ele: “Quando é que os senhores vão devolver o que devem pra nós?” Que eu entrei razoavelmente bem e saía pobre.

 

P/1 – Seu Angelo, o senhor tinha dito em relação ao Athiê dos partidos que ele tinha pertencido depois da Revolução de 64. E antes?

 

R – Mas basicamente sempre foi esse. Primeiro foi o PSD, em 1948, depois foi o PSP, depois foi o MDB, Arena e PDS. Foram os partidos pelos quais ele passou. Eu não, eu passei pelo PDC, pelo PTB e pelo PDS. O PTB foi o último, o PDS foi em 82.

 

P/1 – Tá. E ele também foi candidato a Prefeito de Santos, não?

 

R – Foi, duas vezes. Foi duas vezes. Isso também marcou muito na vida dele, porque ele era um homem de um prestígio em Santos, fabuloso. Prestígio igual a ele não tinha. Mas aí, o que ele... Palavras dele, não vou dizer eu o que foi: “O povo não quer eu como prefeito.” Palavras dele. Acabou. Eu acho que nisso eu sintetizo tudo do que foram as não eleições dele para prefeito nas duas vezes. Numa das vezes inclusive um dos candidatos era o Mário Covas, esse, o atual governador. Silvio Fernandes Lopes, e a coisa pra prefeito pra ele era difícil, porque eu acho que criaram na mentalidade... E aí foi culpa do Antonio Ezequiel Feliciano da Silva. O Antonio Ezequiel Feliciano da Silva quando foi candidato a prefeito contra o Athiê, foi a primeira vez, a eleição do Athiê estava ganha. Todas as pesquisas, às vésperas da eleição davam o Athiê como vencedor. Mas aí aconteceu uma sujeira política grossa, prejudicou muito o Athiê, prejudicou... E o Athiê  que estava em primeiro nas pesquisas perdeu a eleição por aproximadamente 800 votos de diferença do Antônio Feliciano. Mas naquela eleição o prefeito pra mim... Pra mim o prefeito era o Athiê tranquilo.

 

P/1 – E como é que era o temperamento do Athiê?

 

R – Ah, você fez uma pergunta interessante! Nem sei aonde é que você foi buscar isso. O temperamento do Athiê era o maior temperamento do mundo! Temperamento diferente de todo o mundo e de toda a família dele. Basta dizer que nós costumávamos brincar com ele que ele era um homem incapaz de usar... No dicionário da vida dele não tinha a palavra “não”: “Não, não posso fazer. Não, não vou fazer. Não, não vou te atender.” Porque tudo que se pedia pra ele, ele dizia: “É, vamos lá. Sim, vou te ajudar.” A palavra “não” ele não usava. E eu quantas vezes eu cutucava, dizia: “Mas Athiê, não dá pra fazer isso.” E ele dizia: “Não, mas não vamos criar um inimigo, coitado. Ele tem esperanças. Se ele veio nos procurar é porque ele almeja. Pelo menos vamos tentar, vamos ajudá-lo. Quem sabe dá um azar e a gente consegue?” (risos)

 

P/1 – Bem, eu queria agora passar para aquela questão daquelas perguntas que a gente levantou. Então uma delas seria essa questão da época que tinha esse suborno de jogadores de futebol, o senhor tem uma passagem a contar aí.

 

R - Veja bem, eu tomei conhecimento de muitas passagens, mas fica difícil contar, narrar e dar as origens delas, porque eu vou criar muito problema e muito caso. Existe uma até que essa eu vou contar porque eu não vejo grande comprometimento, mas enfim, existia e essa existiu também. Denunciaram a nós que o Santos tinha um jogador subornado pra um jogo contra o Corinthians. E nós ficamos tudo de orelha em pé e fomos averiguar. E por incrível que pareça o fato que nos informaram estava confirmando. Viria um veículo de São Paulo na casa do jogador acusado pra fazerem, assim, uma espécie de voto de confiança, de apoio pra ele não acreditar naquilo que estavam falando. Ora, eu estava lá a serviço do Santos, eu vi aquilo, fui pra diretoria e disse: “Olha, realmente veio um veículo de São Paulo, presidente do Corinthians, senhor Ignácio Trindade, parece que está tudo casando.” Não teve dúvida, no domingo sacaram o jogador do Santos fora e o reserva é que tomou seis gols. (risos)

 

P/1 – Quer dizer, ele é que estava? (risos)

 

R – Não sei. Não sei. Se estava foi um golpe muito bem dado.

 

P/2 – O senhor mencionou pra gente que recebeu um presente do Pelé?

 

R – É, recebi.

 

P/1 – Conta essa história pra gente, então.

 

R – Olha, costumavam dizer por aí, na cidade, nos quatro cantos, que o Pelé não era de presentear ninguém, não pagava café pra ninguém, o que eu discordo e peremptoriamente, inclusive fazendo uma declaração. O Pelé é mão aberta sim, tanto mão aberta ele é que na Copa de 70, quando foi inaugurado o sistema de colorido, existia aquela rede de televisão colorado RQ Colorida e o Pelé era uma espécie de garoto-propaganda da Colorado, não sei se vocês recordam. E eu manifestei a ele, assim, numa das conversas informais que nós tivemos que eu gostaria de ter uma televisão colorida e tal e ficou naquilo. Pra minha surpresa, na véspera do início dos jogos da Copa do Mundo pára um caminhão baú na porta da minha casa, aqui na Fernão Dias, no Gonzaga, e dentro daquele enorme baú, lá dentro, no fundo, uma TV Colorado colorida RQ de 20 polegadas. Essa televisão eu guardei com muito carinho durante muito tempo, inclusive com a nota fiscal em nome dele. Edson Arantes do Nascimento, Rua Fernão Dias, 12, que era onde eu morava, pra ninguém duvidar de que eu tinha ganhado o presente dele. E eu fiquei muito grato porque eu vi que ele é um moço que não só tem valor e sabe retribuir.

 

P/2 – Agora, o senhor contou que teve um atentado na casa do Pelé?

 

R – Ah, sim. A história do atentado. Ele viva preocupado nessa fase. Foi quando ele inaugurou, ele morava na Ponta da Praia, aquela mansão.

 

P/2 – Isso quando? Década de 60?

 

R – Não, já 70, quase 70, é. Ele morava com a família dele ali. E já tinha... Os filhos dele já estavam todos nascidos, as duas moças e o rapaz. E eu me lembro que ele me telefonou e disse: “Olha, Angelo, eu estou preocupado porque nós estamos recebendo uns telefonemas anônimos, jogam pedras, passam de madrugada fazendo algazarra de fronte à minha casa e eu fico preocupado porque eu tenho que ir para a concentração e a minha família fica praticamente sozinha, o que é que você pode me fazer?” E eu digo: “Não, vamos destacar um guarda pra ficar lá. E vai dar cobertura pra sua família.” Esse guarda foi destacado, inclusive depois ele foi sacado da Guarda Noturna e ficou como empregado dele, Pelé. E uma noite, véspera até, antevéspera de um jogo com o Palmeiras, na madrugada ouve-se um estampido de tiro de revólver e estilhaço de vidro. Nós fomos lá ver, realmente, não no pavimento térreo, no pavimento superior... Que a casa do Pelé, não sei, acho que vocês não conheceram por dentro? Ele tinha elevador, tinha térreo, primeiro e segundo andar e tinha um elevador. E a bala veio no... Tinha uma, a sacada da janela dele não era janela lisa, tinha uma mureta grande. Depreendia-se, olhando onde a bala bateu no vidro, que a bala não teria vindo de baixo e sim de cima pra baixo. Nós fomos lá, tomamos providências, pusemos lá, reforçamos o policiamento, pusemos um carro de preso nas imediações da casa dele e, olha, não demorou muito, questão de uma semana, outra madrugada, outro tiro. Mas aí nós já estávamos, pela trajetória do projétil nós já estávamos na mira. Era o Colégio do Carmo, ali na ponta da praia, Colégio grande e tinha os corredores tudo aberto. O vigia passava pelo corredor de madrugada, com medo, sozinho, experimentava a arma dando tiro. Punha a mão pra fora da murada e atirava pra experimentar a arma. Não tivemos dúvida, fomos correndo lá: “Cadê o vigia?” Pegamos o vigia, a arma ainda estava quente, cheirando a pólvora do tiro que ele deu. Prendemos ele, falamos com o Pelé, e aí entra de novo aquele espírito altruísta do Pelé. O Pelé ficou condoído da situação do rapaz, casado, vários filhos, e me pediu pra que não autuasse, não levasse o rapaz pra ser autuado. Não foi autuado e passou por isso. Esse guarda que eu coloquei na casa dele ficou lá definitivamente.

 

P/2 – Quer dizer, em 84 ele também jogou, né?

 

R – Certo. Você está falando do fim da Copa?

 

P/2 – No Santos Futebol Clube...

 

R – Sim, mas na Copa de 74 foi a que ele não jogou mais, é isso? Esse episódio inclusive eu tive o privilégio de telefonicamente bater um papo com o Pelé, porque como todo brasileiro, pô, a gente ficava preocupado. A Seleção Brasileira sem Pelé! Era o fim do mundo. Era o jogador que valia quase pelos outros 10. E aí numa bela tarde o Pelé me telefonou e na conversa que nós mantínhamos ele me contava: “Angelo, você acha que... como é que eu vou atender essa convocação do seu João Havelange se a CBF, a CBD me deve dinheiro e não me paga? - primeiro. Segundo: eles querem formar uma Seleção que vai excursionar. Essa Seleção excursionando ela vai receber por jogo cento e tantos mil dólares comigo. Sem eu a coisa cai vertiginosamente. Então eu tenho dinheiro de um por fora.” É o que chamavam, não sei se era direito de arena, mas era uma taxa por fora: “E ele não quer me pagar o que me deve, não quer me pagar o que eu valho, o que eu mereço, eu pergunto pra você: o que é que você faria no meu lugar?” Eu digo: “Bom, agora mudou de figura. Eu no seu lugar também não vou porque eu preciso pensar no meu futuro.” Aí ele até me contou uma história interessante. Ele disse: “Angelo, imagine você, se eu começar a ser tão bonzinho, tão gentil pra CBD e pra todo mundo, amanhã, o dia que eu estiver na rua da amargura ou na miséria, alguém vai vir me socorrer e me trazer dinheiro? Não.” E aí ele me contou um fato interessante de um jogador de futebol que tinha sido do Santos e que naquela época – era jogador antigo – tinha acabado de falecer e morreu na mais negra miséria, inclusive foi enterrado como indigente. Ele disse: “Angelo, essas coisas me assustam, eu tenho mulher, tenho filhos, eu tenho uma vida pela frente, eu preciso pensar em mim, o meu futuro é o meu nome, a minha marca é o meu nome e eu preciso explorá-la, no bom sentido, pra que eu possa terminar a minha vida, os meus dias velhinho com alguma tranquilidade.” No que eu aplaudi, dei total razão pra ele e, olha, não fiquei muito simpático ao seu Havelange. E vocês notam que existe uma pequena rusga entre o Pelé e o seu João Havelange? E por tabela o seu Ricardo Teixeira que é o atual presidente? Justamente por isso, porque o Pelé não comeu enrolado como o seu João Havelange pretendia. O Pelé sempre teve cabeça e sempre soube fazer valer o seu valor.

 

P/2 – Tem uma história também da mala preta.

 

R – Mala preta. A mala preta atormentou e até hoje, de vez em quando, quando eu vou a alguma reunião social ou alguma festa, sempre aparece um gaiato que toca na mala preta. E eles dizem, mas dizem assim à boca miúda que a mala preta entrou no avião e sumiu, como se tivesse cabimento que uma mala com mais de 100 mil dólares na época, tivesse entrado no avião e tivesse sumido. Então alguém teria, daqueles que estavam na delegação, teriam carregado a mala. A verdade é outra, a mala nunca existiu. O que existiu - e que vocês sabiam disso - é que na época o câmbio, o dólar aqui valia uma coisa, certo? Valia uma coisa, valia muito alto no câmbio negro. E lá fora você o trazia, pra mandar pra cá via oficial, você tinha que mandar via Banco do Brasil, órgãos oficiais. E aí você ia receber o dólar aqui, que valia, vamos dizer hoje, três mil cruzeiros, você tinha que chegar aqui e entregar por mil. Ora, você perdia duas vezes o valor dele. Então, o que é que os clubes... Isso foi regra geral: Santos, São Paulo, Palmeiras, Botafogo, Vasco, Flamengo, todos eles. Eles iam jogar lá fora, arrecadavam o dinheiro todo e entregavam pra uma empresa que se encarregava de entregar pra você ou no avião ou no Brasil, na tua cidade, ou no Rio de Janeiro. Foi assim o caso da mala preta. Eles acertaram lá com uma agência, na Espanha, eles ficaram de entregar o dinheiro ou no avião ou no Rio, cento e poucos mil dólares. E a verdade é que eles chegaram e os empresários da tal agência não chegavam e não apareceu. E foram atrás deles e os homens sumiram. Então esta é a verdadeira história acontecida com a mala preta. Acusaram tanta gente na época...

 

R – Cometeram tanta indelicadeza que eu acho que é uma injustiça. O Santos foi vítima, como eu, você, qualquer um pode ser, de um estelionatário aí fora. Você só vai se dar conta de que foi tungado quando você já não tem mais aonde recorrer. E com o Santos aconteceu isso.

 

P/2 – E o senhor queria contar pra gente também aquela história do Athiê? Do fim da carreira do Athiê no Santos?

 

R – É, aí eu repito... Eu cognominei como Waterloo do Athiê no Santos Futebol Clube. Foi em 1971. Ia haver eleição do Conselho Deliberativo. O Conselho Deliberativo eleito é quem elege o presidente no começo de Janeiro. E naquela época estava havendo, tomava fôlego uma oposição no Santos Futebol Clube, não contra o Athiê diretamente não, viu? Isso é importante que se diga. Era uma oposição criada entre membros do Conselho, membros da diretoria. O Santos tinha na diretoria uma pessoa que não estava sendo admirada pelos opositores e eles, querendo derrubar aquele cidadão tinham que derrubar o Athiê também. Organizaram uma chapa na época, era até famosa a chapa... Tinha uma cor: rosa, Chapa Rosa. Eu nunca concordei com essa cor, rosa, eu achei que sempre devia ser tudo branco. E aí o Athiê me mandou pra uma reunião que ia ser realizada lá no Santos e que lá eu providenciasse indicar uns nomes que ele me deu pra fazer parte da nova chapa do Conselho e que eu sacasse e participasse como bem entendesse e fizesse em nome dele que estava bem feito. Ora, eu fui pra lá com essa missão. Tentei começar a incluir os nomes que ele me deu. Aí eu sabia o que a oposição estava fazendo. A oposição ia vir com uma chapa e com conselheiros e com associados que iam comparecer. E na nossa estava cheio de figuras que não compareciam nem pra votar neles. E aí eu comecei a queimar o primeiro, queimar o segundo, queimar o terceiro, quando o Esmeraldo Tarquínio, falecido, que Deus o tenha, meu bom amigo, se insurgiu, dizendo: “Não, esse você não pode retirar.” Depois outro, meu amigo Salvador Castilho, Eduardo Salvador Castilho protestou também contra outro que eu estava alijando. Mas o meu objetivo não prejudicar aquela pessoa, era pôr no lugar dela quem realmente fosse lá votar, que não adianta eu encher de figurões e na hora de chegar lá ninguém aparecer pra votar. Isso é coisa muito séria. Vai numa eleição e acompanha, vê. Hoje não, hoje deve estar diferente, hoje a turma deve estar comparecendo. Mas eu sei dizer que aí começamos a bater boca, eu, o Esmeraldo e o Castilho e a coisa tumultuou e a sessão foi encerrada. Era reunião informal, não era oficial. E eu saí de lá e fui pra casa do Athiê e fui dar contas da minha atuação. Contei: “Olha, Athiê, houve isso, isso, isso, isso, fulano não concordou, cicrano também, nós batemos boca, e aí o general Osman suspendeu a nossa reunião.” Mas eu chego à casa do Athiê, antes do Athiê me ver ele está no telefone com o general Osman no telefone: “Não, general, pode deixar que do Angelo eu me encarrego. Eu dobro ele, pode deixar, ele não vai brigar, não vai criar caso.” Desligou o telefone, eu ouvi aquilo, eu disse: “Deputado, fui lá, tudo bem, aconteceu isso, isso, isso. Até logo.” Virei as costas e fui embora, eu vi que já estava jogado no poço das cobras. Fui embora pra casa, reuni a minha família, arrumamos as malas, peguei o meu carro e fui viajar. Fui até a Argentina. Volto dois dias antes das eleições. Quando eu chego o Athiê correndo atrás de mim: “Angelo, por favor, corre aqui, preciso falar com você.” Eu digo: “O que é que foi, Athiê?” “A eleição, nós estamos correndo perigo.” Eu falei: “Ué, não é novidade. Eu falei para o senhor. Enquanto a oposição forma uma chapa coesa, pesada, nós estamos fazendo uma chapa de pó de arroz e não funciona isso. Eleição se ganha ali, no voto, na briga.” Aí o Athiê disse: “É, mas retoma as negociações, vê o que é que pode fazer.” “Athiê, dois dias antes? Não dá! Eu posso quando muito agora falar com meia dúzia, mas não vai resolver mais.” E dito e feito. Chegou no domingo, dia da eleição, olha, meus amigos, de cara. Toda Assembléia, quando ela é instalada os conselheiros presentes àquela hora aprazada se reúnem e indicam um presidente entre os presentes na Assembléia pra dirigir os trabalhos. Então ali eu já senti a coisa. A diretoria indicou um nome e a oposição indicou outro. Teve que partir para uma votação, quem seria o presidente da Assembléia, a oposição ganhou. E a oposição já ganhou com uma folgada margem. Aí o Athiê sentiu o peso. E transcorreu a eleição, no fim da apuração se confirmou o que nós já estávamos antevendo. O Athiê chegou pra mim e disse: “É, Angelo, você tinha razão, não deu mesmo, não deu.” Eu digo: “Mas Athiê, não adianta. Só o senhor não quis ver o que estava saltando aos nossos olhos.” Aí eu disse uma frase pra ele que eu não esqueço mais. Eu disse: “Athiê, eu não sei como é que o senhor ia se livrar do Santos. Eles, da oposição, conseguiram fazer o senhor se livrar do Santos.” E depois, mais um pouco no fim, já por volta das oito horas da noite, um ilustre conselheiro chega pra mim, isso também me magoou muito, chega pra mim e diz assim, mas se dirigiu mesmo assim, em termos pesados: “Angelo, tira o velho daqui porque senão eu vou dar um murro na cara dele.” Eu disse: “Olha, não faça isso. Se fizer, você dá o murro primeiro e foge, porque se você fizer e der chance dele dar o dele ele acaba com o teu rosto, tu vai ficar desfigurado.” E aí eu peguei o Athiê, pus ele no meu carro e disse: “Athiê, vamos embora porque a presidência do Santos Futebol Clube acabou.” E ele se conformou. Tanto é que toda vez que ele teve depois que sair de algum organismo... Presidente da Cruz Vermelha, ele foi quase 30 anos presidente. Um belo dia eu cheguei pra ele e disse: “Athiê, achei uma fórmula de nós sairmos daqui.” Ele disse: “Qual é?” “Aqui na cidade tem o presidente do banco tal, fulano, cicrano e beltrano querem a presidência. Athiê, vamos passar a presidência. Chega!” Pô, tinha meses que pra pagar a folha de funcionários da Cruz Vermelha eu tinha que programar churrasco, bingo pra arrecadar dinheiro e pagar os funcionários. “Aí vem um presidente de banco. Deixa, não vai ter problema arrumar dinheiro porque ele pega no banco dele e paga.” Passamos a presidência, olha, não ficou dois anos na presidência. Largaram, hoje a Cruz Vermelha brasileira, filial municipal de Santos vive por honra e glória de três, quatro abnegados: doutor Edson Alécio, presidente, Manoel Lourenço das Neves, provedor da Santa Casa, outro diretor, eu e mais um quarto que é o seu Hugo Paiva. Conseguiram acabar com uma instituição brilhante que prestava serviços à cidade, hein? A Cruz Vermelha formava, quando em atividade, samaritanas. Samaritanas, pra quem não sabe, eram enfermeiras de alto padrão. A solenidade ali na sede da Cruz Vermelha na Praça dos Andradas número 106 era acontecimento social da cidade. Banda de música da Força Pública, autoridades, prefeito, comandantes de destacamento militar, todo mundo prestigiava aquelas festas da Cruz Vermelha. Acabou.

 

P/1 – Seu Angelo, e como é que foram os últimos anos do Athiê?

 

R – Os últimos anos da vida dele foram gostosos, sabe? Eu vou dizer pra você por que. Porque eu inclusive tive oportunidade de usufruir mais de perto da vida dele e da companhia do Athiê. Olha, nós viajávamos América do Sul, Brasil, corremos o norte todo, depois outra viagem pra Europa, Portugal, França, Inglaterra, e eu tive oportunidade de ver um outro Athiê, quer dizer, aquele Athiê já em fim de jornada, com 89 anos de idade. Ele faleceu no dia 1º de Dezembro de 1992. Na campa dele no Paquetá tem um belo de um emblema lá, de uma placa que o Santos Futebol Clube mandou confeccionar pra colocar lá com o distintivo do Santos: Athiê Jorge Cury, o eterno presidente.” Mais ou menos isso, se eu não me engano. Gostaria... Eu tenho a impressão que já cansamos. Vocês já estão meio saturados de me ouvir e de me agüentar. Eu gostaria, antes que vocês se aborrecessem de mim, fazer um tópico final, pra encerrar. Se vocês me permitirem. Se vocês não permitirem vamos continuar.

 

P/1 – Claro.

 

P/2 – Eu gostaria de fazer uma pergunta com relação a essa impressão que o senhor tá tendo de estar sendo entrevistado aqui e estar colaborando para o Museu do Santos, para a memória do clube com quem o senhor esteve ligado muito tempo.

 

R – Bem perguntado e vai de encontro inclusive ao que eu justamente pretendia falar. Meus amigos, depois de tantos serviços prestados ao Santos e à cidade, tudo na calada, tudo em silêncio, pela primeira vez na minha vida eu recebo um convite como este que me foi formulado, pra poder falar da vida do Athiê, da minha vida e da vida do futebol. Eu me senti honrado, lisonjeado, é um patrimônio que eu quero levar pra minha família. (choro)

 

P/1 – O senhor estava falando então sobre qual é a emoção de estar entrando para o Museu do Santos.

 

R – Veja bem, como eu estava dizendo, a minha felicidade é a recompensa de tudo que eu acho que eu fiz na vida: na Guarda Noturna, na polícia, no Santos Futebol Clube, coisa que até então eu não havia recebido um presente como esse de fazer um depoimento para o Museu do Santos Futebol Clube que eu sei que vai ficar gravado perenemente por toda a história e enquanto eu estiver vivo e amanhã quando eu não estiver. Alguém vai poder me ver, ouvir e falar tudo aquilo que nós tivemos oportunidade de narrar hoje. É motivo de orgulho. Se vocês perguntarem: “Você ganhou algum prêmio?” Eu nunca ganhei nada. Tenho aí umas medalhas, umas comendazinhas, uns diplomazinhos, mais nada. Um depoimento assim, pessoal, ao vivo, contando de improviso tudo aquilo que eu senti nessa minha trajetória é confortante. Obrigado ao Santos Futebol Clube. Pergunta?

 

P/1 – Seu Angelo, agora, pra gente então terminar eu queria que o senhor falasse dos gols e partidas aí inesquecíveis que o senhor presenciou.

 

R – Muito bom! Presenciei, olha, presenciei gols maravilhosos, gols desse gênio chamado Pelé, que ficam gravados na memória da gente até hoje. Eu não preciso ver futebol mais, eu conto isso para os meus netos, eles querem brigar comigo. (risos) Eles dizem: “Mas avô, cada jogo é um jogo, é diferente.” Eu digo: “Mas espera aí, mas não jogos diferentes como o que eu assistia com os maiores gênios do futebol: Pepe, Dorval, Coutinho, Mengálvio, Pagão e esse extraordinário Pelé que encerra tudo.” Os maiores gols que eu vi na minha vida eu não sei qual deles é o melhor, mas quase todos foram feitos pelo Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. E tomei a liberdade, vocês não me pediram...

 

P/1 – Ah, da Seleção?

 

R – Tomei a liberdade de elaborar uma Seleção de jogadores do Santos Futebol Clube de todos os tempos, que a maioria eu vi jogar, excetuando aqui dois ou três só que eu não assisti mas eu os conheci pessoalmente e ouvia falar muito. Goleiros eu convocaria Athiê, Cejas, o argentino e Gilmar. Zagueiros: Élvio, Artigas, quem viu este homem jogar... Era um cavalheiro na boca na entrada da área, Ramiro, irmão do Álvaro, Mauro Ramos e Ramos Delgado. Meio de campo eu convocaria, eu chamaria para o meu time Zito, Clodoaldo, Calvet, Dalmo e Carlos Alberto Torres. Atacantes: Dorval, Mengálvio, o extraordinário Pagão, o fabuloso Pelé, Tite, Coutinho, Antoninho, o Antônio Fernandes, o Almir Pernambuquinho, famoso meia-esquerda que substituiu várias vezes o Pelé, Feitiço, o craque do Santos da linha dos famosos cem gols num campeonato, Camarão, Araquém e Arnaldo Silveira. Pra técnico eu fiquei em dúvida agora. Eu tinha escolhido o Aimoré Moreira, mas me lembrei também do meu particular amigo Lula, Luís Alôncio Perez, que o folclore de Santos dizia que ele não era grande treinador. Era. Tanto foi um grande treinador que todos esses maiores talentos do Santos Futebol Clube jogaram sob a sua orientação. Brincavam, diziam que ele não sabia escalar, que ele entrava no vestiário e jogava as camisas para o ar, quem pegasse era titular. Mas não era verdade. No fundo disso tudo tinha o trabalho, a inteligência, a malícia, a habilidade dele como treinador. E foi treinador de grandes jogadores e levou o Santos às grandes vitórias.

 

P/1 – Seu Angelo, a gente queria então agradecer o seu depoimento. Foi uma honra e um prazer estar conversando durante essa manhã toda aí com o senhor e esperamos que o senhor continue colaborando pra execução do...

 

R – Olha, eu é que fico grato, eu é que fico honrado, eu gostaria de poder ficar aqui hoje a tarde, a noite e falando feito a Sherazade fez lá pra um sultão na Arábia, ficar falando 1001 noites, mas não é possível, muita coisa nós tivemos que restringir, que cortar, porque a vida continua. Eu saio daqui hoje confortado, premiado. Podem crer, vocês estão me dando eu acho que o maior galardão, a maior vitória que eu consegui na minha vida. Levar um vídeo pra minha casa, pra minha família contando o que nós tivemos a oportunidade de fazer. E legar também à cidade, aos aficionados do Santos de hoje e do futuro o que foi o Santos Futebol Clube de ontem, o que é o grande Santos Futebol Clube hoje, que aliás eu costumo... Eu quero fazer outro depoimento, eu comparo a administração do Samir Abdul-Hak à do Athiê. O Samir é outro homem que tem tudo, tudo pra fazer o Santos um grande time, além de ele estar sob a égide, a proteção, o amparo do maior rei da terra, Pelé. O Samir vai ser um, vai ser não, está sendo um grande presidente e pra nós, da família alvinegra isso só nos enche de alegria, nos conforta porque o Santos andou correndo um período aí, a nave meio à deriva, arriscando aí à mercê de alguns piratas... O Santos esteve em perigo. Depois, com a vinda dos Teixeira, do Milton e do Marcelo Teixeira parece-me que o Santos tranqüilizou e despontou, acordou as forças vivas esportivas da cidade e aí eu encaixo o Samir e os seus diretores, todos trabalhadores, dedicados e vão levar o Santos a bom termo. Muito obrigado.

 

P/1 – Obrigado o senhor.

 

P/2 – Obrigado.

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