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História

De engraxate a diretor da empresa

História de: Osvaldo Vivanco
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2006

Sinopse

Com onze anos o Sr. Osvaldo Vivanco começa a trabalhar como engraxate. Cresceu profissionalmente, aprendeu diversas atividades, se conheceu melhor e definiu assim sua formação profissional em economia. Explica a variedade de projetos que trabalhou, as fusões que participou, sigilos que manteve e até mesmo como, mesmo aposentado, continuou trabalhando para a mesma empresa que o acolheu.

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História completa

P1 – Boa tarde, Sr. Osvaldo. 

 

R – Boa tarde. 

 

P1 – Sr. Osvaldo, eu vou pedir para o senhor dizer o seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R – O meu nome é Osvaldo Vivanco, eu nasci em 29 de outubro de 1946, em São Paulo, na Capital. 

 

P1 – O nome dos seus pais e a origem deles.

 

R – O meu pai era Viviano (?) Vivanco Garcia e a minha mãe Eulália Vivanco Vivancos, eles eram imigrantes espanhóis. Minha mãe ainda nasceu aqui no Brasil, mas o meu pai nasceu na Espanha. Eles vieram no início do século. Meu pai nasceu em Murcia, sudeste da Espanha e vieram, meu pai ainda menino, e minha mãe nasceu aqui e nós tivemos uma origem bastante humilde. Meu pai não tinha estudo, sempre trabalhou como operário ganhando salário mínimo, então nós tivemos uma infância assim, eu não diria assim de passar necessidade, mas foi bastante humilde. 

 

P1 – O senhor tinha irmãos? 

 

R – Eu tenho dois irmãos mais velhos, eu sou o caçula. A minha irmã Catalina, ela tem oito anos mais que eu. Depois de quatro anos veio o meu irmão e depois de quatro anos eu, que sou o mais novo.

 

P1 – O senhor nasceu já na região da Mooca? 

 

R – Nasci na Mooca. Os meus pais, meus avós moravam na Mooca, na região próximo até da Antarctica lá onde tinha uma colônia de espanhóis e italianos na região. Então, _______ o início dos estudos foi na Mooca, morei lá até praticamente, até me casar. 

 

P1 – E o seu pai trabalhava na Antarctica?

 

R – Não, não. O meu pai trabalhou em alguns empregos, mas como operário. Ele não tinha uma profissão definida, sempre ganhou praticamente salário mínimo e na Antarctica a gente só ouvia falar. Era um sonho da minha mãe que o meu irmão, eu, pudéssemos trabalhar numa empresa como a Antarctica porque eu tinha um primo bem distante que trabalhava lá. Então era uma situação assim, pros meus pais, principalmente pra minha mãe era um sonho até que a gente tivesse um emprego numa empresa assim grande, um emprego que desse alguma perspectiva, que fosse um emprego estável já que o meu pai não teve essa oportunidade. 

 

P2 – O senhor lembra, tem algum fato marcante da infância relacionada ao bairro, alguma coisa que tenha marcado?

 

R – Não assim que eu me lembre. Foi uma infância modesta, vamos dizer assim, onde era condizente até com a situação do bairro lá. Ali todo mundo tinha mais ou menos a mesma situação, um bairro humilde, mas de pessoas assim, de imigrantes, a maioria espanhóis, italianos. O interessante da região é que havia sempre aquela briga que era os espanhóis contra os italianos, os Palmeirenses contra os Corintianos. Então era uma situação, sempre havia... quando havia jogo de futebol sempre havia aquela alegria no bairro, alegria entre aspas, que era uma discussão. 

 

P2 – E as escolas que o senhor estudou?

 

R – Eu estudei no Grupo Escolar Eduardo Carlos Pereira, parece que ainda existe até hoje na Mooca, e era anexo ao Ginásio Estadual Felino de Proença, que era muito famoso até na época por ser, apesar de ser um colégio estadual era muito cobiçado pelo nível dele. Estudei nesse colégio, depois eu fiz o curso de Contabilidade no Colégio Piratininga que também era na região. Então esse primeiro ciclo, primeiro nível de estudo foram feitos na Mooca. 

 

P1 – E, assim, não só o sonho da sua mãe de trabalhar, de ter os filhos trabalhando na Antarctica, também existia nessa época o incentivo a estudar ou era uma coisa da época que tinha que trabalhar mais do que estudar?

 

R – Ah, sim. Eu sempre me lembro a minha mãe, como o meu pai não tinha essa profissão definida, eu sempre perguntava pra minha mãe, ouvia as pessoas dizerem que vão ser isso, vão ser aquilo, então eu dizia pra minha mãe o quê, que eu seria, o que é que ela esperava, o que é que ela gostaria que eu fosse. Então a ambição dela é que eu fosse um empregado especializado, fosse ______. Ela sempre citava o Torneiro Mecânico, que era uma coisa, na época era uma profissão boa. No padrão que nós tínhamos, o fato de ter uma profissão especializada era uma grande coisa. Então era essa a visão que ela tinha e passava pra gente, e era uma coisa, no nosso padrão era assim bastante satisfatório porque seria uma situação estável, um emprego, uma profissão vamos dizer assim, que não dependesse de estar com o empregado sem uma especialização como era o caso do meu pai. 

 

P1 – E qual foi o seu primeiro emprego, Sr. Osvaldo?

 

R – Bom, aí eu quero voltar um pouquinho. O meu irmão mais velho, quatro anos a mais, começou a trabalhar numa empresa lá perto de casa e sempre tinha aquele, minha mãe sempre, não era um emprego bom, não era uma empresa que... Ele, coitado, ele era Office-Boy, andava a cidade inteira, chegava cansado, tomava condução o dia todo. Era Office-Boy, mas Office-Boy assim que trabalhava, corria a cidade inteira. E minha mãe sempre dizia pra ele, com aquela esperança: “Vai na Antarctica, vai, pergunta.” E ele sempre passava lá e perguntava se estavam precisando, se não estava. Até que um dia ele veio muito feliz que haviam aberto perspectiva de ele fazer um teste. E ele fez esse teste e depois de algum tempo foi a maior alegria quando ele foi chamado e foi admitido lá como Office-Boy, Picão no caso. Na ocasião ele tinha 15 anos, eu tinha 11 anos, e ele comentava que lá na Antarctica tinha dois garotos que, já tradicionalmente, engraxavam sapatos do pessoal do escritório. Não eram registrados, nada, porque eram garotos, mas que trabalhavam exclusivamente lá dentro, indo nas sessões engraxando sapato do pessoal do escritório. E nós, naquela situação sempre difícil, meu pai na ocasião já estava doente e eu me propus, eu falei pra minha mãe: “Ah, eu gostaria de ir lá.” E um dia o meu irmão comentou que um dos garotos havia saído, um dos engraxates. Eu falei: “Não, eu vou, eu vou.” E minha mãe ficou preocupada porque eu tinha 11 anos, era criança. Mas a situação era difícil, e como eu havia me proposto, via isso como uma oportunidade de eu fazer alguma coisa, de eu poder ajudar. O meu irmão conversou lá na Antarctica com o chefe dele, que era o chefe da portaria, Sr. José Straubi (?), e ele falou: “Ah, traz ele aqui.” E eu fui lá, com 11 anos, e comecei a engraxar sapatos do pessoal do escritório. Então eu ia na escola de manhã, saia correndo da escola e já ia pra Antarctica e ficava até tarde engraxando sapato do pessoal do escritório. Então foi, já ajudava. Não era grande coisa que a gente ganhava, mas poxa, ajudava em casa, e de uma certa forma eu estava num ambiente de trabalho sadio, eu estava dentro da empresa. E isso foi durante dois anos engraxando sapato do pessoal do escritório. Nesse ínterim meu pai ficou muito doente, e, inclusive, eu já estava com 13 anos, meu pai veio a falecer. E o pessoal lá, que o meu irmão trabalhava na secretaria, muito próximo do Presidente, do Dr. Belian, da Dona Erna, e alguns colegas dele foram no enterro do meu pai e viram até a situação onde a gente morava. Era como se fosse um porão, era a parte de baixo de uma casa. Possivelmente comentaram isso com os superiores, com Dona Erna e ela, na sua grande bondade, determinou até que arrumassem uma casinha pra gente lá atrás da Antarctica, na Coronel João Dente, e nós fomos morar lá. Foi uma alegria muito grande, nós morávamos praticamente num porão e fomos morar numa casa sozinha, uma casa boa. Nossa, então foi uma alegria muito grande. E nessa ocasião também, eu já com 13 anos, foi aberta a exceção também pra que eu fizesse já um teste como Office-Boy, embora eu não tivesse 14 anos. E eu fui muito bem nesse teste e logo fui também convocado, de engraxate fui convocado pra trabalhar como Office-Boy e como não podia ainda porque eu tinha apenas 13 anos, eu obtive uma autorização, me encaminharam pra que eu tivesse uma autorização do Juizado de Menores pra poder ser registrado, e iniciei como Picão aos 13 anos, iniciando já uma carreira como empregado da Antarctica. 

 

P1 – Sr. Osvaldo, eu só queria voltar um pouquinho. 

 

R – Pois não. 

 

P1 – Como o senhor trabalhou de engraxate, quem pagava? Eram as pessoas ou a própria Antarctica?

 

R – Não, não. As pessoas, cada um pagava. E ganhava bastante gorjeta até. O valor era muito baixo, a gente sempre ganhava uma coisinha a mais e isso aí ajudava bastante. 

 

P1 – E o teste que o senhor fez pra Office-Boy, como que era esse teste na época?

 

R – Ah, o teste que era matemática, problemas. Era um ditado e uma prova de datilografia, uma redação e um teste de datilografia. E eu, na ocasião, fui muito bem. A escola que eu estava era ______, porque na época os colégios particulares eram bem melhores. Agora também alguns são, mas era muito forte o ensino no Estado, então eu fui muito bem no teste. Então, com 13 anos eu acabei sendo aprovado e, logicamente até pela própria situação que a gente estava, por eu estar dentro da empresa, fui admitido com 13 anos. 

 

P1 – E essa casa na João Dente era da Antarctica?

 

R – Era da Antarctica. Inclusive teve uma passagem muito interessante, que minha mãe também, na ocasião, precisou fazer uma cirurgia de varizes e foi aberta uma concessão também, ela fez essa cirurgia no Hospital Santa Helena que era da Fundação e, após a cirurgia Dona Erna foi no hospital e foi visitar a minha mãe. E minha mãe, nossa, não sabia como agradecer e falou pra ela: “Nossa, não sei como eu vou poder pagar isso pra senhora, tudo que a senhora está fazendo por nós”, e a Dona Erna disse pra ela: “Ah, os seus filhos vão pagar isso com os seus bons serviços pra empresa.” Isso nunca saiu da minha mente, então é uma coisa que todos os anos que eu trabalhei ficou gravado. E aí iniciou a minha jornada na Antarctica. 

 

P1 – E em que consistia na época esse trabalho de Office-Boy

 

R – Inicialmente nós começamos na Portaria. Na Portaria, que era o Sr. José Stráubio (?), um homem, um coração muito grande, mas um homem assim aparentemente ____, severo. E então esses garotos ficavam lá. Cada pessoa que entrava na empresa, os garotos acompanhavam pra área onde deveria ir, entregavam documentos ou iam servir café pra Gerência, serviços assim. O passo seguinte seria esses garotos, cada uma das sessões, cada um dos departamentos tinha um garoto próprio que fazia a distribuição de papéis, entregava papéis, tal. O passo seguinte era, quando alguém precisava era indicado um deles pra ir pra essa sessão. Eu fiquei quase dois anos na Portaria, e em seguida surgiu uma vaga na Gerência Geral, onde já praticamente não era um Picão da Gerência, era um Auxiliar. Então era um salto já que eu iria dar em relação aos outros, e eu fui indicado pra trabalhar lá. Trabalhei mais alguns anos nessa área e em seguida fui, trabalhei uns quatro, cinco anos na Gerência Geral pra depois ser transferido pra área tributária, Área Tributária Econômica. Chamava-se AITRI (?), Auditoria Interna pra Assuntos Tributários. Lá eu trabalhei alguns anos também. Nessa ocasião eu casei, casei com 21 anos, já fazem hoje 38 anos, e lá também eu pude já ter um contato maior com as pessoas que serviram até de exemplo pra mim, que eu podia avaliar aquilo que eu desejava, que em termos da minha formação profissional. Foi onde eu comecei a me dirigir pra área econômica - financeira. Inclusive já casado eu entrei na faculdade de economia e me formei ainda trabalhando lá na AITRI, mas já influenciado pelos trabalhos daquela área, já voltado para aquela área. Então a minha atividade é que encaminhou a minha formação profissional aí no caso. 

 

P1 – E a Antarctica incentivava a ir pra faculdade, a estudar?

 

R – Ah, sim, principalmente. Agora, a grande escola que eu tive foi o fato de você ter dentro da empresa os exemplos, as pessoas que se destacavam, as pessoas que estudavam, as oportunidades que surgiam. Aí que você, o maior incentivo era esse. E isso aí que foi muito importante na minha formação. Aliás, como homem, como chefe de família, como profissional, a Antarctica praticamente é que forjou toda essa... o que eu consegui ser, o que eu fui. Foi tudo influenciado pelo ambiente e pela escola que eu tinha dentro da Antarctica. 

 

P1 – E nessa época o seu irmão também ainda trabalhava na Antarctica?

 

R – Trabalhava. O meu irmão trabalhou todos esses anos, inclusive se aposentou praticamente junto comigo. Meu irmão seguiu já justamente dentro do mesmo escopo aí que eu citei. Ele trabalhava mais ligado à área jurídica, então ele fez Direito, se formou também, fez faculdade depois de casado e seguiu na área jurídica. Hoje continua sendo advogado, continua trabalhando por conta dele. 

 

P1 – A sua esposa o senhor conheceu na Antarctica?

 

R – Não, não, eu conheci fora da empresa. Mas me casei muito novo, tanto eu como ela tínhamos 21 anos. Tivemos três filhos e...

 

P1 – E os seus filhos não foram trabalhar na Antarctica?

 

R – Não, não foram não. Chegaram a estudar no colégio da Antarctica, dois deles estudaram na Escola Técnica Walter Belian. Agora, em termos de formação profissional, a partir dessa área onde eu estava, da área tributária, da área econômica, essa nova, vamos dizer assim, a partir da gestão do saudoso Dr. Belian e da Dona Erna, quando assumiram praticamente a direção da empresa o Dr. Victório, Dr. Gracioso, Sr. José de Maio. Essa nova gestão foi que me aproximou assim mais até do desenvolvimento profissional mais voltado pra área econômica porque eu aí passei a trabalhar praticamente, diretamente com o Dr. Victório e foi onde acabou minha área melhor definida assim pra mim, foi se definindo mais a área em que eu atuei. 

 

P2 – Desculpa interromper, Sr. Osvaldo. Em que época foi isso?

 

R – Isso foi a partir de 1972. A partir de 1972, quando eu me formei, aí foi criada uma área específica de planejamento econômico, de análises econômicas. Foi criado um grupo que assessorava mais diretamente o Dr. Victório e foi a área que eu pude atuar e lá, durante quatro, cinco anos foi que eu obtive esse maior direcionamento, vamos dizer assim, pra área econômica. E isso em 1984, aí eu já assumi o departamento, a chefia do Departamento de Programação Econômica e Financeira. Foram quase dez anos lá até que esse departamento pôde, pela projeção dele, pelo próprio crescimento da empresa, essa área foi transformada já num nível gerencial, num nível de assessoria do Conselho da Administração. E como Assessor do Conselho de Administração eu passei a ter uma participação mais efetiva, mais próxima de projetos, de assessoramento em alianças estratégicas, projetos estratégicos como na ocasião foi a parceria com a cooperativa agrária de Absur (?), de Entre Rios no Paraná, e que acabou a Antarctica constituindo, junto com essa cooperativa, uma empresa agrícola, uma maltaria. Isso foi o primeiro trabalho, o primeiro projeto assim relevante que eu teria tido oportunidade de participar. A partir daí vieram grandes projetos como a parceria com Anheuser-Busch, onde a Antarctica se associou com ela que é a maior cervejaria do mundo. Então eu participei desse projeto durante dois anos. Foram muitas viagens pros Estados Unidos. Eu acompanhei o Conselho, a Diretoria em todo o desenvolvimento desse projeto, tive uma participação muito forte mesmo, me marcou bastante também, foi muito importante na minha carreira. E nesse ínterim, em 1997 eu fui designado como Diretor de Planejamento e Preços e continuei nesse assessoramento direto ao Conselho de Administração trabalhando muito ligado ao Dr. Victório de Marchi, com quem eu pude aprender muito com a dinâmica toda dessa gestão dele, do Dr. Gracioso, do Sr. José de Maio que impulsionava muito a dinâmica do nosso trabalho. Esse foi um período assim de muita atividade. Paralelamente eu exercia outros cargos, eu participei do Sindicato da Cerveja como membro do Conselho Fiscal, participei como Diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e, também de algumas empresas controladas. Eu fui do Conselho de Administração da Antarctica de Minas. Cheguei a ser também, já no final da nossa gestão, Diretor da Polar e em 1999 com o desligamento, a aposentadoria do Sr. Stalin Favalli (?) eu assumi a Diretoria Administrativa da empresa controladora do grupo. Já um pouquinho mais adiante, já no início de 2000, também com a saída do então Diretor Financeiro, eu acumulei Diretor Administrativo e Financeiro da empresa controladora. 

 

P2 – Todos esses cargos que o senhor ocupou, essas responsabilidades o senhor exerceu aqui em São Paulo mesmo?

 

R – Tudo aqui em São Paulo. 

 

P1 – Mesmo quando foi Diretor da Polar?

 

R – Mesmo. Exato. 

 

P2 – E nos anos 70 que foi uma época de grande expansão da Antarctica, quais empresas que o senhor diria como bastante representativas, que foram incorporadas?

 

R – Ah, sim, foram Cervejaria Polar, a Cervejaria Niger na ocasião.

 

P1 – A Niger era de Ribeirão Preto?

 

R – A Niger era de Ribeirão Preto. A Serra Malte, também do Rio Grande do Sul, a Cervejaria Pérola, também do Rio Grande do Sul. Foi feito um projeto grande em Pernambuco que na ocasião era Ipeba. Esse foi um projeto próprio nosso, mas foi uma época de expansão assim muito disputada entre Brahma e Antarctica onde havia aquela competição, ver quem crescia mais, ou quem crescia mais rápido. 

 

P1 – Essa disputa, coisa de Brahma e Antarctica, o senhor lembra logo quando o senhor entrou na Antarctica, que o senhor era uma criança, né?

 

R – Sim. 

 

P1 – Isso já se falava?

 

R – Não, no início não. No início era assim um pouco mais uma situação, o mercado de cerveja pelo menos estava quase que dividido e estacionado, vamos dizer assim. Era Antarctica de um lado, Brahma de outro. Depois começou com a Skol, a Brahma comprando a Skol. A partir daí começou a haver essa disputa, e que veio realmente na década de 70 a explodir essa competição toda. 

 

P1 – Eu queria que o senhor falasse um pouquinho, a gente voltando um pouco. Eu fiquei muito curiosa, o senhor estava falando, eu estava pensando. O que foi pra uma criança de 11 anos quando chegou na Antarctica, entrou? Qual a sensação? Como que era aquilo?

 

R – Ah, foi uma coisa assim, era tudo novidade, não tinha ideia do que era uma empresa, nada. Então pra mim tudo me deixava assim fascinado em termos de ver a grandiosidade, as pessoas. Agora, sempre aquela, desde o início aquele pensamento de: “Poxa vida, um dia será que eu vou ter uma escrivaninha, será que eu vou ser um desses funcionários?” Então isso aí pra mim era uma coisa, um sonho. 

 

P1 – Mas era uma coisa que o senhor queria?

 

R – Queria, mas era uma coisa assim, quer dizer, que eu via como uma coisa assim até distante porque a gente, naquela ansiedade, parece que nunca vai chegar. 

 

P2 – Sr. Osvaldo, como que os colegas de escola viam o senhor já trabalhando na Antarctica?

 

R – Veja bem, pra dizer sinceramente eu não me sentia muito assim à vontade até de comentar que eu engraxava sapatos, entende? Então eu dizia que eu trabalhava na Antarctica, mas eu, no fundo, no fundo você tem aquela coisa de falar: “Poxa”. Eu sentia um pouco assim de... porque lógico... sabe como são as crianças. E outra, engraxate sempre foi aquela coisa do pessoal ver o lado assim até negativo, engraxate, de ser uma coisa que pudesse, sei lá, eu na realidade eu fazia com gosto, tinha orgulho daquilo mas, pra que não viessem, não me... coisa de criança, né, eu tinha um pouco assim. Então pra mim o grande, isso me deixava mais ansioso ainda pra eu um dia conseguir ser admitido, deixar de ser engraxate. Então aquilo pra mim era uma coisa muito importante que viesse a acontecer. Quando aconteceu foi uma coisa muito maravilhosa.

 

P1 – E como que foi pra sua mãe, que queria tanto?

 

R – Ah, a minha mãe. Nossa, pra ela ver os dois filhos trabalhando na Antarctica foi a glória. Então foi uma coisa muito especial, um sonho dela, vamos dizer assim, realizado, ver os dois filhos trabalhando na Antarctica. 

 

P1 – E, Sr. Osvaldo, nesse período assim dos 11 quando o senhor entrou até os 21, que eu acho que é o marco, quando o senhor se casou.

 

R – Isso. 

 

P1 – E como que era o ambiente na Antarctica, assim o dia-a-dia de trabalho?

 

R – Ah, sempre foi assim muito bom o ambiente, sempre foi uma coisa quase que familiar, entende? O ambiente que Dona Erna, Dr. Belian, aquela coisa que existia ali de família, de uma coisa que extrapolava o fato de ser um emprego. Não, a partir do momento que você estivesse lá dentro..., mas era engraçado que não havia assim, como pode se pensar, não. Então pessoal sabia que não ia ser mandado embora, abusava. Então não. O pessoal sabia que era uma coisa estável, porque era realmente, era dado um sentido muito familiar, mas não havia esse abuso por parte das pessoas. Era muito interessante, cada um fazia a sua parte, logicamente dentro das suas limitações, dentro das suas ambições. É onde eu falei, a minha formação foi muito em função de ver os casos em que havia progresso, havia chance, havia uma diferenciação entre aqueles que se destacavam. Então isso havia, mas não uma acomodação pelo fato de ser uma empresa conservadora, uma empresa quase que um ambiente familiar. 

 

P1 – E como era trabalhar pro Seu Walter Belian? Como que ele era?

 

R – Eu não tive oportunidade assim de trabalhar muito diretamente com ele e com Dona Erna, mas o fato de não estar próximo e não conviver no dia-a-dia com eles, quer dizer, existia um respeito assim, uma coisa muito grande pelo que a gente ouvia falar, pelo que você sabia. Você sabia até que, se precisasse, como até aconteceu o fato que eu citei da minha mãe que não era beneficiária mas ela precisou. Então eles tinham um carinho, uma coisa quase que paternal e maternal com relação aos empregados. Os empregados se sentiam assim amparados, como se tivessem um pai e uma mãe. Então era muito bom. 

 

P1 – E nesse período quais os produtos que marcaram, da Antarctica, que o senhor lembra?

 

R – É, a Antarctica tinha aquela... na ocasião, como a gente citou, o mercado era mais ou menos estável. Então você tinha aquela linha tradicional. A partir de um determinado momento começou a se lançar alguns produtos diferentes, tipo a Pop-Cola, PoP Laranja, coisas assim. Mas eram coisas assim muito esporádicas porque é mais, o que ocorria assim, era uma situação estável de cervejas, refrigerantes. Era aquela tradição, aqueles mesmos produtos, aquela mesma embalagem. 

 

P1 – A Antarctica, por ser uma empresa familiar, uma companhia familiar, tradicional, os funcionários sabiam, tinham noção de como tinha começado a Antarctica?

 

R – Tinham, porque era uma coisa assim que se comentava muito, como a gente citou até o caso de família. Então o fato de ser uma fundação, o fato de existirem os fundadores, o próprio nome da fundação que era Antonio e Helena Zerrenner, quer dizer, isso fazia parte da cultura da empresa, entende? A pessoa já entrava lá, já estava sabendo quem foram os fundadores, quando foi, quanto tempo a empresa tinha, como é que surgiu a fundação. Era uma coisa praticamente já arraigada dentro daquela, porque não havia uma rotatividade de pessoas, admissões, demissões. Então era uma coisa que ia crescendo, as mutações eram muito lentas com um mercado mais ou menos estável. Naquele período a coisa não tinha muita novidade, depois ocorreu a fase de crescimento onde dinamizou tudo, dinamizou a entrada, chegada de pessoas novas, de profissionais já qualificados, coisas que não eram praxe na Antarctica. Era muito difícil entrar alguém de fora ou algum técnico, alguma pessoa não formada na empresa. Os próprios fabricantes, a Antarctica pegava alguns da escola da Antarctica, formados, mandava pra Alemanha fazer curso de Mestre Cervejeiro. Então era uma coisa mais ou menos, os funcionários, na quase totalidade, vinham naquela rotina que a gente citou aí no começo. Entravam como Office-Boys na Portaria, como Picões, e depois iam pra sessões. A partir dali passavam a ser datilógrafos, escriturários, e iam se acomodando de acordo com a capacidade, com as oportunidades que iam surgindo. 

 

P1 – Sr. Osvaldo, o senhor lembra quando a Antarctica fez a aquisição da Bohemia?

 

R – Ah, isso é bem antigo. Isso, quando foi feita a aquisição, eu acho que é coisa bem antiga. 

 

P1 – Foi na década de 1960.

 

R – Não, eu acredito que é anterior. A aquisição da Bohemia...

 

P1 – Foi década de 1960.

 

P1 – Da Bohemia? 

 

P2 - A gente não sabe se foi 1960, 1961. 

 

R - É, pode até ter sido justamente nessa época porque eu entrei, quer dizer, como Office-Boy. Eu não cheguei a pegar essa negociação, isso aí, mas depois da Pérola, da Serra Malte, da Polar, sim, aí já foi aquela leva de... Porque a Bohemia, o que ocorreu, ocorreu já num período ainda daquela estabilidade, não foi na fase de crescimento, de reagrupamentos. 

 

P2 – O senhor tinha algum produto de sua preferência? Algumas dessas marcas mesmo que o senhor citou, o senhor tinha alguma preferência?

 

R – Ah, sim. Eu, em termos de refrigerante, eu sempre gostei da Soda Limonada. E com relação a cerveja, a cerveja Antarctica, sempre. Logicamente que uma Bohemia, assim, como é uma cerveja extra, mais forte, sempre, mas esporadicamente, mas a linha toda da Antarctica era muito especial. Quando garoto existia a Caçulinha e existia a Soda Champanhe. A Soda Champanhe era uma coisa assim diferente. A gente até brincava com o Sr. Orlando de Araújo que ela era uma mistura de guaraná com soda, mas realmente até hoje a gente fala: “Puxa vida, esse produto deveria ter ficado”, que realmente ela tinha um sabor diferente, eu gostava muito também.

 

P1 – E nessas _______ Polar, a Serra Malte, o senhor ia viajar ou o senhor fazia essas viagens pra ir, pra negociar, pra conhecer ou o senhor só ficava aqui?

 

R – Não, essas viagens, eu entrei mais nessas negociações não tanto na fase dessas aquisições. Eu, justamente quando eu passei a assessorar o Conselho nessas negociações, foi já na fase de associações estratégicas, caso da Anheuser-Busch, caso da Agromalte, caso assim mais de, não naquela. Ainda em 1970 ainda não participava diretamente dessas negociações, mas eu participei de alguns trabalhos bastante interessantes com relação ao planejamento estratégico da empresa. Nós trabalhamos, eu coordenei junto inclusive com o Edson Demark (?) a implantação do planejamento estratégico. Tínhamos dois professores da USP que nos davam apoio também. Então fizemos um trabalho bastante grande assim de iniciar, de permear essa cultura de planejamento estratégico na empresa. 

 

P2 – Isso foi em que época?

 

R – Isso foi em 1997, 1998. Isso já foi uma época mais recente. Agora, a última etapa aí de negociações importantes que a gente teve a oportunidade de participar, que o Conselho nos deu essa oportunidade, foi justamente a fusão entre a Brahma e a Antarctica onde fomos designados inicialmente. Foi bastante interessante essa fase, essa etapa porque quando iniciou a negociação entre a Antarctica e Brahma isso era uma coisa muito sigilosa. Então tinha que se chegar em números pra poder o Conselho decidir como é que seria feito o negócio e se seria, se era viável. Então foram segurados dois elementos pela Antarctica e dois pela Brahma. No caso da Antarctica fui eu e o Edson Demark (?), e na Brahma o Adilson Miguel e o João Castro Neves. Só que esse trabalho era extremamente sigiloso. Quer dizer, isso não podia vazar de forma nenhuma sob risco de a CVM [Comissão de Valores Mobiliários] impugnar, ou o próprio CADE [Conselho Administrativo de Defesa Econômica] impugnar porque isso iria vazar e iria dar um problema tremendo em termos do mercado de capitais, a bolsa de valores, tudo. Então isso não poderia vazar de forma nenhuma, assim nenhuma intenção que fosse, uma linha que fosse de intenção dessa fusão não poderia vazar. Nós fazíamos esse trabalho, fazíamos reuniões em lugares diferentes, fazíamos reuniões sábado, domingo, saíamos até à noite inclusive. O duro era, o pitoresco aí era que não podíamos, e realmente a gente manteve, lógico, nem em casa você poderia falar o que é que você ia fazer, o que é que você estava fazendo, onde você ia. Era uma coisa: “Estou a serviço”, né? Então você…

 

P1 – As pessoas não achavam engraçado, não desconfiavam de alguma coisa?

 

R – Eu simplesmente falava: “Oh, a gente está fazendo um negócio que depois eu falo. É um trabalho que a Diretoria determinou”, mas tanto que isso aí a gente conseguiu com pleno êxito, não vazou absolutamente nada. O dia que foi anunciado, e depois de a gente fazer esse trabalho todo de levantamento, de valores, quanto valeria o patrimônio de uma, quanto valeria o patrimônio da outra pra poder estabelecer a relação de troca de ações, a fusão. E o dia que foi concluído esse trabalho, que os conselhos das duas empresas chegaram a um acordo, que foi anunciado na imprensa, foi assim um estouro porque foi uma coisa que não havia sequer uma linha, nada que alguém tivesse publicado ou tivesse sabido. Então foi um trabalho de confiança, um trabalho de fôlego assim, vou até dizer, porque tínhamos que fazer aquilo correndo, sem que ninguém soubesse. 

 

P1 – Durou quanto tempo esse trabalho?

 

R – Esse trabalho durou, foi até rápido, ele durou uns três meses mais ou menos, dois meses, três meses de levantamento de dados, de valores, porque, após anunciado aí houve um prosseguimento com relação a..., mas aí já foi um anúncio oficial e através da CVM e tal, quer dizer, foi a coisa oficializada. Mas pra que se chegasse a esse ponto de poder se anunciar “Vamos fazer, interessa fazer?”, precisava-se fazer esse trabalho que nós fizemos. 

 

P1 – E quem fez o convite pro senhor, pra estar participando desse grupo?

 

R – Foi o Conselho de Administração. Eu trabalhava mais diretamente, por causa da área econômica e financeira você estava ligado ao Dr. Victório de Marchi, mas aí foi uma decisão do Conselho da Administração. Eu trabalhei aproximadamente uns 30 anos com ele nesta área, e a confiança sempre depositada ou o que eu aprendi. O dinamismo dele foi muito importante, foi fundamental na minha formação, na minha carreira dentro da empresa.

 

P2 – E depois? O que aconteceu depois?

 

R – Depois da fusão?

 

P1 – É. Pro senhor, como foi isso?

 

R – É, depois da fusão inicialmente estava previsto que eu continuaria na AmBev, até eu continuei algum tempo, mas já como havia uma possibilidade e eu já estava, uma época assim que eu poderia me aposentar. Eu estava assim com, havia tipo um pacote de acordos que poderiam ser feitos para aqueles que quisessem se aposentar e eu decidi então que eles, como havia essa ideia de continuar, que eu fosse contratado, que eu me aposentaria como Diretor, porque aí a direção da AmBev passou a ser outra. Tanto a diretoria da Antarctica como a diretoria da Brahma deixaram de existir, e assumiu uma nova diretoria. Então eu, por vontade própria, decidi que eu poderia continuar colaborando como contratado. E foi feito assim. Eu fui designado a ir pra atuar como Gerente de Patrimônio, respondendo pela venda dos imóveis inativos, porque nesse trabalho que nós fizemos de avaliar o patrimônio da Antarctica e da Brahma nós verificamos que existiam mais de 200 imóveis inativos entre as duas empresas, fábricas desativadas, terrenos, casas que não tinham sentido, não tinham nenhuma finalidade pra utilidade da empresa. Então são patrimônio parado que nós não vamos fazer nada, não vamos aproveitar, não serve pra nada, então vamos transformar isso em caixa que é muito mais interessante. E nós iniciamos esse trabalho, e durante dois anos eu fiz esse trabalho junto à AmBev, como contratado porque eu me aposentei na Antarctica. Então completei 40 anos como empregado da Antarctica, iniciei lá, me aposentei lá e fui contratado pela AmBev. Fiquei dois anos, e nesses dois anos, nós tivemos uma oportunidade de fazer um trabalho bastante interessante. Pra mim foi até uma experiência boa porque uma mudança de rumo assim, de área. Do administrativo e financeiro eu fui para o mercado imobiliário. Então foi uma guinada e uma experiência bastante interessante. E em dois anos nós vendemos 150 imóveis, foi uma coisa assim, um trabalho bastante grande. Foi muito interessante e foi um período muito produtivo pra empresa também porque gerou recursos e desencalhou aquilo imobilizado, parado. 

 

P1 – Sr. Osvaldo, como foi o dia que falaram pro senhor, convidaram pra fazer parte dessa comissão da fusão, o senhor ficar sabendo que Antarctica e Brahma iam estar juntas depois de tantos anos de Antarctica? 

 

R – Nós estávamos acabando de sair de um outro tipo de aliança que foi justamente com a Anheuser-Busch e que eu participei também. E como a gente via ali uma aliança a gente sabia que a própria globalização passou a gente. O próprio mercado estava indicando que essas fusões, essas junções de grandes corporações fatalmente iriam ocorrer. Quer dizer, se ocorre entre empresas nacionais vai acabar ocorrendo com empresas, com as gigantes multinacionais. Então, sinceramente, nós já vínhamos com essa gestão com a Anheuser- Busch que acabou depois de ser feita, depois de alguns anos até trabalhando juntos. Então não foi uma surpresa assim, mas eu via inicialmente como uma coisa assim um pouco, um negócio que nunca... como é que vai se pensar um negócio desses? A Brahma sempre foi nossa inimiga, né? Então, de uma hora pra outra..., mas a gente percebeu que as pessoas haviam mudado, o mercado mudou, o mundo mudou. Então nós estávamos com pessoas, com um Conselho com uma cabeça bem voltada pra uma realidade, da mesma forma que do outro lado a Brahma também com investidores, com pessoas já com a mentalidade já voltada pra esse sentido de globalização, de que: “Opa, se nós não crescermos alguém vai crescer pra cima de nós”, entende? Então ficou uma coisa assim, não chegou a me espantar. 

 

P2 – Sr. Osvaldo, eu queria só entender um pouco, um pouquinho antes, a questão da Anheuser-Busch, como é que foi esse processo, essa iniciativa de tentar fazer essa fusão? De quem que partiu isso? Foi da Antarctica?

 

R – Isso podemos dizer que foi das duas. A Anheuser-Busch inicialmente tentou uma parceria com a Brahma e não foi bem sucedida. E posteriormente... isso ocorria naturalmente assim essas sondagens em termos da própria Miller, entende? A gente sabia que o mercado estava em movimento, então a gente sabia que fatalmente muita coisa iria ocorrer e as empresas começaram a se movimentar nesse sentido. Então, depois da tentativa com a Brahma, a Anheuser-Busch, com o interesse da Antarctica, acabou conversando, porque essa conversa sempre existiu em termos de grandes corporações, de surgirem ideias de um lado e de outro, e é uma questão apenas de aproximação e quando houve essa aproximação começou esse namoro e se viu essa possibilidade. Esse processo foi bastante longo porque a Antarctica, como tinha a fundação, logicamente impôs restrições à própria participação da Anheuser-Busch. Então foram feitas muitas conjecturas de formas de se fazer essa associação sem que houvesse prejuízo da participação da fundação e pra tanto foi criada uma empresa. Essa empresa foi criada abaixo da Antarctica. Vamos supor, a Antarctica tinha todas as controladas e a Antarctica era a controladora. Então o que é que se fez? Criou-se uma empresa entre a Antarctica e essas controladoras onde a Anheuser-Busch participava, dessa holding que estava abaixo da Antarctica. Então a Anheuser-Busch participava não da Antarctica, participava dessa empresa que chamava NEP, Antarctica Empreendimentos e Participações, que comandava todas as outras controladas, entende? Que o interesse da Anheuser-Busch era justamente participar do mercado brasileiro, ela queria entrar no mercado brasileiro, e a oportunidade que ela tinha era vir através de uma empresa que já existisse, principalmente pela rede de distribuição, pelas fábricas já implantadas, tanto que nós produzimos a cerveja deles durante algum tempo. Recebíamos a matéria-prima, envasávamos, distribuíamos, já fruto dessa parceria. Foi criada também uma Join Venture que era Budweiser Participações. Eu fiz parte da direção dessas duas empresas também, e foi um trabalho longo essa parceria. Os americanos são um pouquinho complicados, a gente sabe. Pra fazer os negócios, os contratos são quilométricos. Então demorou dois anos, tivemos dois anos de negociações e idas e vindas. No fim tivemos um tempo de parceria. Dentro dessa parceria existiu um negócio que se chamava ‘melhores práticas’, o intercâmbio de conhecimentos, vamos dizer assim, onde funcionários da Antarctica iriam na Anheuser-Busch participar, aprender ou ver como é que funcionava lá e vice-versa. Eles implantariam aqui o que eles tinham de bom, nós transferiríamos pra eles o que eles julgassem também bom pra eles, e essa parceria funcionou durante algum tempo. Existiam algumas opções de futuro, ampliação dessa participação, mas no fim, por questões negociais a coisa acabou não dando certo ou interrompendo, vamos dizer assim. E foi desfeito tudo dentro da normalidade, tudo de uma forma sem maiores traumas, vamos dizer assim. A partir daí, quer dizer, nós já ficamos já sem esse vínculo com a Anheuser-Busch. Então nesse ínterim a Brahma havia feito um acordo parecido com a Miller que seria a segunda cervejaria dos Estados Unidos. Nós tínhamos com a Budweiser, com a Anheuser-Busch e a Brahma com a Miller. E desfeitas essas parcerias, aí surgiu entre o Victório e o Marcel, numa conversa entre os dois, aí surgiu essa ideia aí que de um bate papo surgiu já aquela: “Vamos começar a materializar isso.” Foi onde nós entramos no circuito. Vamos levantar _______ e ver como é que fica, como é que pode ser feito isso pra, a partir daí, o Conselho poder decidir em cima de números, de fatos. 

 

P2 – Sr. Osvaldo, o senhor está falando de todo esse movimento, que a década de 1990 foi bem movimentada, né?

 

R – Foi muito. 

 

P2 – E uma coisa que a gente não conhece muito bem como foi esse processo, da marca Dubar, porque a Dubar tinha uma fábrica. 

 

R – Tinha uma fábrica em Jundiaí.

 

P1 – E no final dos anos 1990 se dissociou da Antarctica. 

 

R – Foi.

 

P2 – E como foi isso? O senhor sabe contar pra gente?

 

R – É, eu participei também dessa negociação. A Antarctica, o foco dela era cerveja e refrigerante. A Dubar, embora fosse uma linha extraordinária de produtos, de licores, de aguardentes, assim de produtos alcoólicos, mas havia uma falta de foco, vamos dizer assim. E logicamente nós estávamos num mercado extremamente competitivo de cerveja e refrigerantes, então a Dubar acabava ficando, entrando assim como uma coisa que a gente mantinha mas nunca foi assim foco, vamos trabalhar em cima dessa linha de produtos. Então acabou sendo, não havia interesse em manter aquela linha. 

 

P2 – E quando que foi definitivamente vendida?

 

R – Foi nessa época, acho que 1995, 1996, salvo eu. Então foi também nessa época. 

 

P2 – Nessa mesma época foi o processo de transferência da produção da Mooca pra Jaguariúna, né?

 

R – Isso. 

 

P1 – E como é que foi essa opção pra ir pra Jaguariúna?

 

R – É, aí é questão de escala, né, de ganho de produtividade. O problema é que, quanto maior _______, depois de vários estudos aí nós vimos que as pequenas fábricas o custo era muito maior. Logicamente você tem um custo fixo independente do volume. Então a produção é pequena, aquela produção se você colocar mais na outra fábrica, simplesmente você vai usar o que? Mais algumas horas de linha de engarrafamento, mas você tem aquela capacidade. Não havia razão pra que se mantivesse aquela fábrica funcionando com todos aqueles custos fixos, então esse ganho de escala foi fundamental. Inclusive nós tínhamos um software muito interessante que nós usamos muito nesse final da década aí de 1990, de localização de fábricas onde era feito o cálculo de todas as variáveis, vamos supor, de logística, pra você, bom, se eu vou fabricar lá , o meu mercado está aqui. O quanto vai custar esse frete de lá pra cá? Quanto vai custar a matéria prima pra ir até lá em relação ao custo que tem aqui, entende? Então existia um software próprio que fazia esse mapeamento e te dizia que lugar é melhor você produzir. É melhor você produzir aqui nessa fábrica ou é melhor você passar pra lá e arcar com o frete? Isso aí passou a ser muito importante até no fechamento de algumas fábricas. Você tinha ____ grandes fábricas como Jacarepaguá, como Jaguariúna, e você tinha fábricas pequenas operando. Você tinha todo o custo fixo da fábrica, desnecessário, né?  Você tinha espaço pra produzir aproveitando todo o custo fixo. 

 

P2 – A decisão de fechar a fábrica em Ribeirão Preto foi baseado nisso?

 

R – Foi baseado nesse trabalho.

 

P2 – Que era uma fábrica pequena com os custos muito altos.

 

R – Exatamente. Lá ouve um certo barulho vamos dizer, por causa da tradição liberal, aquele negócio todo, mas economicamente, quer dizer, é aquilo que nós citamos do movimento, de fusões, de incorporações. Ao mesmo tempo que ocorria isso, havia uma luta muito grande em termos de reduzir custos e de aproveitar plantas maiores.

 

P1 – E, desculpa, Sr. Osvaldo, mas nessa linha saiu, porque as coisas sempre estão voltadas nessa coisa, o que é benefício, a questão financeira. 

 

R – Sim. 

 

P1 – Saiu mais barato fazer a fábrica de Jaguariúna, deixá-la mais moderna, transferir tudo pra lá, do que fazer da Antarctica do Presidente Wilson, de reformá-la, de...

 

R – Ah, sim. É uma fábrica moderna e que você lá, com pequenas adaptações você tinha um ganho de produtividade muito grande. Você aproveitava a ociosidade da fábrica lá com o mesmo custo fixo, quer dizer, você tinha todos... E outra, uma coisa fundamental também com relação à Mooca que você citou. E o custo da água? O custo da água aqui em São Paulo é um absurdo, por quê? Porque nós, um dos grandes fatores de custo aí, por incrível que pareça é, no caso, principalmente São Paulo, era a água. Então o que é que acontecia? Todas as fábricas novas, fábricas mais recentes, elas foram construídas onde se tinha acesso à água, no caso rios. Então a fábrica é construída próximo a onde você podia captar água. Então você captava água, fazia o tratamento da água e produzia e despejava. Quer dizer, esse tratamento da água e o tratamento do despejo saía infinitamente mais barato do que você usar a água pública. O custo da água pública inviabilizava a fábrica aqui da Mooca, que era um absurdo. Então Jaguariúna, embora lá não seja aquela coisa assim, mas a captação, o tratamento... o tratamento de água da fábrica lá era maior e melhor do que o da cidade de Jaguariúna. 

 

P1 – Enquanto você estava falando, era o seu trabalho, o senhor tinha essa visão de estar olhando o mercado, de estar vendo como... Eu estava pensando que no final da década de 80 já estava bem consolidada, já tinha essa guerra da publicidade entre as cervejas Brahma e Antarctica. Como foi olhado quando o Garantia entrou na Brahma, deu um fôlego, né?

 

R – Sim. 

 

P1 – Como é que foi isso pra Antarctica?

 

R – É, foi assim um choque grande. A gente sabia que a Brahma era muito parecida em termos de estrutura, de história, tudo, com a Antarctica. E de repente você vê um grupo assumindo, que chega lá e toma decisões radicais. Chocou um pouco. Você via pessoas, vamos supor, Antarctica, como era a Brahma aliás, todo mundo de gravata. Foi uma coisa, tudo. De repente chega o Marcel lá com os pés em cima da mesa, trabalhando de Jeans e tal. Quer dizer, então eu acho que em termos de cervejaria se pra nós foi uma coisa que chocou, imagina na Brahma então o que deve ter ocorrido pro pessoal de lá, né? Mas foi aí já o início de uma mentalidade voltada totalmente pro lado do investimento, investidor, retorno, que é o que, esse pessoal vinha vindo da área de investidor, ____ todas. Então mudaram totalmente o foco. Aquela tradição, aquela coisa das fábricas antigas, dos alemães, aquela coisa quase que, sei lá, uma tradição de cervejeira, essa coisa, de repente ela passa a ser olhada pelo outro lado, pelo lado do resultado. Logicamente sem depender de foco a parte de qualidade. Seria suicídio se você volta pro lucro sem...

 

P1 – É lógico. 

 

R – Foi chocante assim em termos da gente saber que era uma coisa muito igual à Antarctica e teve uma transformação radical, que a gente ouvia falar, que chegaram e mandaram o pessoal embora, mudou isso, mudou aquilo.

 

P2 – Até a sede deles veio para São Paulo?

 

R – É, foi uma...

 

P1 – Foi uma nova fase. 

 

R – Uma nova fase. Foi uma mudança da mesma forma que aconteceu com a AmBev, com a Antarctica. Foi eu acho que...

 

P1 – Em termos de Antarctica, eu acredito que deva ter, todo mundo ter ficado atento porque veio uma nova fase e pelo que veio era como se viesse com tudo. 

 

R – É uma coisa assim. Nós ficamos em alerta e na expectativa de ver o que é que ia acontecer com aquilo. E realmente você vê uma administração, uma dinâmica diferente, né, assim quebrando alguns paradigmas que existiam. 

 

P1 – E conquistou o mercado também um pouco assim. 

 

R – Não tem dúvida, em termos de agressividade sim. Sempre você viu. A partir disso a Skol passou a ser a cerveja mais vendida. Não a Brahma, a Skol. A Skol passou a ser a cerveja mais vendida no país. Por outro lado, nós tínhamos a Schincariol. A Kaiser incomodando, a Schincariol crescendo. Então foi uma fase assim também bastante dinâmica em termos de mercado, de busca de soluções, de reestruturação onde a gente fez toda essas mudanças de produção, de fechamento de fábricas pra reduzir custos, pra se tornar competitivo. Que os outros vinham que vinham, cada um no seu estilo, Brahma com novo estilo, os concorrentes com estilos nem sempre muito éticos, mas foi. Então eu acho que foi válido porque dinamizou o setor aí, tanto que, nessa parceria com a Anheuser-Busch também estava muito focado nisso, a competitividade de buscarmos coisa nova, ampliar, inclusive ampliar o mercado externo, principalmente o guaraná. 

 

P2 – A NEP, desculpa Sr. Osvaldo, a NEP que foi essa empresa entre a Antarctica, ela foi responsável pela exportação de vários produtos, do guaraná...

 

R – Sim. 

 

P1 – Se não me engano, né, _______

 

R – Sim, sim. Ela era a holding de todas as controladas. Acima dela só estava a controladora, a Antarctica. Então ela foi a, tudo que era produzido, inclusive pela Anheuser-Busch, porque na ocasião foi constituída também uma Budweiser Brasil que era uma empresa onde a NEP era sócia, inclusive eu fazia parte da direção dela, Anheuser-Busch  também, onde ela importava as matérias-primas da Anheuser-Busch, da Budweiser, da cerveja Budweiser, mandava pras cervejarias da Antarctica produzir sob encomenda. A Antarctica industrializava, enlatava, devolvia pra ela e ela distribuía pro mercado através dos nossos distribuidores. 

 

P2 – Eu acho que teve uma marca que fez parte desse acordo com a Anheuser, uma marca que a Antarctica criou pra entrar no mercado americano, se não me engano a Rio Cristal. 

 

R – A Rio Cristal foi uma cerveja que a gente, já dentro dessa parceria de marketing e tudo... porque a Anheuser-Busch, pra quem esteve lá e viu e até conhece, de ver o que é que eles fazem, você não sabe se eles são uma cervejaria que tem marketing ou se são uma empresa de marketing que faz cerveja porque eles têm uma estrutura de marketing muito grande. E eles, com essa parceria, nós criamos essa marca pra justamente... teve uma boa aceitação inicial no mercado americano colocada por eles. Então a gente faria essa troca, nós estaríamos aqui patrocinando a colocação e o apoio deles e eles lá colocando o nosso. Mas, com o desfazimento da parceria...

 

P1 – Sr. Osvaldo, eu queria que o senhor contasse um pouquinho a coisa do Sindicato da Cerveja. Você podia falar a respeito? 

 

[Pausa]

 

P1 – Eu falei do sindicato.

 

R – É, o sindicato nacional tinha uma importância, tem ainda eu acredito, embora eu esteja já afastado, mas com representatividade do setor de cervejas. Então o sindicato nacional congrega todos os fabricantes, ele tem uma atuação muito forte na parte política, onde o acompanhamento daqueles projetos que às vezes surgem. “Ah, não pode fazer propaganda de cerveja ou não pode vender bebida alcoólica ou enquadrar a cerveja como bebida alcoólica.” Pra efeito de tributação surgia esses projetos mirabolantes aí de aumentar a arrecadação aumentando o imposto da cerveja, então o sindicato tem uma participação muito importante na representação do setor, ele fazia a gestão política e técnica até pra, junto aos órgãos, aos políticos, pra defender o setor. E ele teve também uma participação muito forte na época. Eu participei também, que eu era Diretor de Planejamento de Preços, que era na época do CIP [Câmara Interbancária de Pagamentos], que os preços eram controlados. Então era uma luta terrível que o Governo tentava, por um lado ele queria aumentar o IPI [Imposto sobre os Produtos Industrializados] porque a cerveja é uma das maiores fontes de arrecadação de impostos, por outro lado, não queriam repassar os nossos custos e deixar aumentar o preço porque tinha um peso grande não no índice de inflação, mas sim na percepção do público com relação à inflação. “Aumentou a cerveja.” “Oh.” Quer dizer, aumentar o gás de cozinha não tinha tanta repercussão como quando aumentava a cerveja, então era uma luta, e eu participava diretamente disso, e nós nos reunimos sempre no sindicato pra fazer os pedidos junto ao CIP, pra fundamentar esses pedidos, pra fazer as planilhas, encaminhar. Então o sindicato teve nessa época uma participação muito forte. Hoje faz parte, hoje não nessa parte de preços, mas na parte dos impostos, na parte de proibições, na parte dessas campanhas que se fazem contra a cerveja, o sindicato tem uma participação relevante. Da mesma forma existe a associação dos refrigerantes, a Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes, eu também fui Tesoureiro, o Danilo era Primeiro Tesoureiro e eu era segundo. É a mesma representatividade, representa as empresas de refrigerantes junto ao Governo, junto às autoridades, imprensa. Às vezes a oposição do setor é sempre dada através do órgão de classe. Agora, a luta do sindicato, da associação de refrigerantes na minha época era contra as tubaínas, os refrigerantes de baixo preço. Isso aí era uma coisa terrível porque a gente sabia que a competição era desigual porque os pequenos fabricantes não pagavam impostos, então eles tinham condições de competir, quer dizer, enquanto eles vendiam uma Tubaína, uma garrafa grande por R$ 0,50 nós éramos obrigados a vender um guaraná, um refrigerante, uma Coca-Cola pelo dobro do preço porque tínhamos que pagar impostos. E sem contar com relação à qualidade, o que está dentro da garrafa, a higiene, esses problemas todos. Então esses órgãos de classe aí têm uma importância fundamental à medida em que eles dão força ao setor, quer dizer, não é a AmBev, não é a Antarctica, não é a Brahma, não é a Coca-Cola que está pedindo, é um órgão de classe.

 

P2 – Não tinham umas brigas internas _____________?

 

R – Existe, existe, principalmente na cerveja. Existiu muito, tanto que a Schincariol, na ocasião, não fazia parte. 

 

P2 – Por opção?

 

R – É, chegou a não fazer parte por causa do que é esse problema que ocorreu agora, tudo, já era uma percepção, já era uma constatação, vamos dizer assim, era uma coisa com que o sindicato se debatia, entende, e que só agora é que houve essas providências todas aí. Então havia nesse sentido. Agora, com relação à Brahma e à Antarctica, como sempre, nessa parte sempre muito religiosos, vamos dizer assim, com relação a pagamento de impostos, a cumprir os preços tal. Com relação a altas de preço nós sempre estivemos muito unidos, embora toda a rivalidade no mercado, mas com relação à ética, aos interesses comuns, sempre juntos. Isso acho que até foi muito importante, favoreceu muito a associação essa fusão que resultou com a AmBev. São empresas que sempre, quando você vai fazer uma fusão, se você sabe que tem alguém que não trabalha direito você vai com um pé atrás, mas eu acho que o fato de Antarctica e Brahma se conhecerem mutuamente, inclusive com, principalmente com relação a procedimentos, à forma de trabalhar, eu acho que isso facilitou muito. 

 

P1 – E, Sr. Osvaldo, o Sindicato da Cerveja e a Associação dos Refrigerantes tinham basicamente a mesma função. Por que um é sindicato e outro é associação?

 

R – Boa pergunta. 

 

P1 – Porque o senhor está falando, eu fico imaginando, ________________.

 

R – É, havia qualquer coisa nesse sentido porque já havia um registro de um sindicato de refrigerante, alguma coisa assim, entende? Então essa história é bem mais antiga até que a minha participação, é coisa de... Já existia um sindicato, então eu acho que houve uma coisa que, pra se criar um órgão que representasse mesmo, já que existia já um registro, deve ser uma coisa mais ou menos assim. 

 

P2 – ____________ acho que é de 34, quando começaram.

 

R – A coisa é bem antiga. 

 

P1 – E o Sindicato da Cerveja tem quantos anos? O senhor sabe?

 

R – Ah, não sei, mas é bem antigo. Eu conheço assim a coisa há mais de 50 anos.

 

P2 – Interessante.

 

P1 - Não pegamos nada. 

 

R – É, agora a sede dele mudou pra São Paulo também. 

 

P1 – Era no Rio?

 

R – Era no Rio. Agora a de refrigerantes continua no Rio. 

 

P2 – Em São Paulo onde fica?

 

R – Em São Paulo é aqui na Rua Tabapuã. 

 

P1 – Mudando agora um pouquinho e voltando. Eu estou lembrando, por conta do sindicato, eu lembrei das fotos, e o senhor falou daquela foto da sua primeira viagem pela Antarctica. Eu queria que o senhor falasse um pouquinho como é que foi isso. 

 

R – É, essa... era uma coisa aliás que eu também tinha muito assim vontade, via o pessoal todo viajar e tal, sempre pela empresa, pra lá pra cá. Eu tinha essa... e um dia surgiu essa oportunidade, foi quando foi criado, o Governo permitiu que se destacasse a embalagem do preço pra efeito de IPI, porque o IPI incide sobre o preço total. Então, na ocasião foi conseguido que a embalagem fosse cobrada à parte, não fizesse parte do produto pra efeito de tributação do IPI. Então a rolha metálica e o rótulo podiam ser faturados na nota fiscal separado. Então, cerveja tanto, embalagem tanto. Isso foi conseguido porque havia precedentes de empresas, de setores que já faziam isso. Foi uma coisa conseguida, então foi, de uma hora pra outra teve que todo mundo sair correndo pras unidades pra implantar isso, pra mudar, porque isso representava muita coisa em termos de valor, você implantar isso no sistema, na emissão de notas fiscais. Aí foi cada um pra um lado e apareceu a oportunidade de eu ir pra Manaus. Eu fui correndo, né? Então pra mim foi uma, eu aliás, eu se não me engano acho que nunca tinha nem viajado de avião. 

 

P1 – Isso foi em que ano?

 

R – Acho que foi em 1974, 1975, acredito. 

 

P1 – E quando o senhor esteve em Manaus o senhor visitou as plantações de guaraná?

 

R – Não, isso aí é em Maués, é muito distante. A plantação da Antarctica é bem distante de Manaus, parece que era coisa assim de 24 horas de barco, entende, ou então não sei quantas horas de avião. É daqueles aviõezinhos lá, né, que bate asa. Não tive oportunidade de ir lá nas plantações, que é bem distante, mas foi também uma viagem rápida. Coincidentemente eu encontrei o pessoal que estava fazendo auditoria lá, que eram daqui também, e encontrei eles no hotel, então no dia da viagem ainda dei uma voltinha lá pela cidade rapidinho e vim embora. 

 

P2 – Bom, eu acho que é outra pergunta, já encaminhando pro final. Como foi a notícia da fusão com a Interbrew ano passado? O que o senhor achou dessa?

 

R – Sinceramente, como a gente falou naquela mudança de espírito, vamos dizer assim, em que a Brahma mudou totalmente daquela cultura de cervejeiros pra investidores, e a partir do momento que você fala em investidores, o controle está nas mãos deles. Logicamente a qualquer momento você espera que a ______ está nas mãos deles e está nas mãos de outros porque eles, como investidores logicamente numa boa oportunidade vão fazer negócios, são investidores. Aliás, é a regra do mercado. Hoje a gente, é muito difícil até você hoje, praticamente a maioria das empresas, até o caso do Pão de Açúcar, você veja, hoje são investidores que, na oportunidade de fazer um bom negócio, fazem mesmo. Então, como eu sabia que o controle da AmBev estava com investidores eu esperava que a qualquer momento pudesse ser feito. Agora, logicamente preservando tudo aquilo, inclusive que foi forjado com a constituição da AmBev, no caso da fundação. Quer dizer, tudo isso logicamente foi respeitado e a gente sabia que, independente de respeitar, a negociação do controle podia ser efetuada desde que fosse um bom negócio. 

 

P1 – Sr. Osvaldo, qual que pro senhor é o produto símbolo da Antarctica?

 

R – O produto símbolo da Antarctica é o guaraná, né? É o guaraná. Cerveja Antarctica também, mas eu acho que o guaraná, quando você fala no guaraná você já não precisa nem falar Guaraná Antarctica, se fala guaraná subentende-se que seja Antarctica. Então eu acho que o guaraná é inquestionável. Aliás o guaraná muito ambicionado aí por outros, principalmente Coca-Cola. 

 

P1 – Todo mundo gostaria...

 

R – Todo mundo gostaria de ter. Mesmo no caso, a própria Anheuser-Busch embora nunca teve nenhum interesse de entrar nos refrigerantes, mas ela via o guaraná também como uma boa expectativa. 

 

P1 – E, Sr. Osvaldo, nesses anos de trabalho na Antarctica, agora nos últimos tempos AmBev, qual foi o momento mais marcante pro senhor, assim? Uma coisa que marcou muito, ou mais de um. O que o senhor diria?

 

R – Pra mim, assim, pessoal, marcante, eu tive, eu acho que assim pessoal mesmo foi a indicação pra Diretor da empresa. Isso pra mim foi uma coisa que nunca passou pela minha cabeça, quanto mais com relação ao que minha mãe tinha… expectativa forte, né? Pra mim pessoalmente foi isso, agora profissionalmente assim, embora isso também seja profissional, foram essas indicações pra essas alianças estratégicas, essa confiança que o Conselho depositou. Eu, sinceramente, eu entendo que eu fiz a minha parte, que eu sempre agarrei essas oportunidades com muita determinação, com muita vontade. Eu nunca neguei, você precisa. Viagens assim que eu fazia inesperadas: “Vamos pra Brasília? Precisa ir pra não sei aonde, precisa ir pra tal lugar”, quer dizer, coisas. Eu ligava às vezes pra casa, pra minha mulher, e falava: “Oh, eu estou em Brasília.” Ela nem sabia onde eu estava. Então tudo que me era confiado, pra mim, sempre foi questão de muito orgulho em ver a confiança e em poder corresponder, poder estar participando de uma coisa tão importante. Então eu acho que toda carreira na Antarctica, como eu falei, a minha formação como homem, como chefe de família, profissional, foi tudo formado na Antarctica e direcionado até dentro da Antarctica. Desde ambiente que eu encontrei quando eu cheguei lá com 11 anos, as possibilidades que eu tive de estudar, as possibilidades que eu tive de espelhar em pessoas de sucesso, em pessoas com garra, com determinação, isso aí pra mim foi fundamental na formação. Eu _____, então não dá pra falar a meu respeito sem falar em Antarctica já que eu tive uma infância. A partir daí, de 11 anos, já só se falava em Antarctica. 

 

P1 – Você nunca imaginou sua vida diferente, em nenhum outro lugar?

 

R – Não, não, nunca tive essa, isso pra mim nunca passou pela minha cabeça não.

 

P1 – E como que o senhor vê essa iniciativa da AmBev hoje de estar construindo esse acervo, de estar preocupada com a memória?

 

R – Ah, isso aliás é uma grande preocupação que eu tinha, preocupação que não estava ao meu alcance fazer nada a respeito, mas eu tinha isso realmente como, eu tinha uma certa até mágoa de dizer: “Puxa vida, tudo aquilo que nós tínhamos, tudo aquilo que, mais de 100 anos de história, uma coisa tão bonita, tão importante”, quer dizer, não só na minha vida mas na vida de milhares de pessoas, simplesmente desaparecer ou estar lá estragando. Isso realmente... eu tinha isso como uma preocupação, mas eu sabia que mais dia, menos dia nós íamos resgatar tudo isso aí porque não pode ser desprezado. 

 

P1 – E, Sr. Osvaldo, nós estamos chegando no final. O senhor queria falar alguma coisa que nós não abordamos? “Nossa, mas aquilo é importante e eu não falei, não tocamos no assunto”?

 

R – Não, eu acho que em linhas gerais nós abordamos tudo assim, quer dizer, são detalhes, é tanta coisa que a gente se perde. Peraí. Tudo é importante, quer dizer, são tantas coisas, tantas emoções. Tem algumas passagens curiosas aí que, algumas peripécias aí que a gente fez assim nesse trajeto todo. Eu poderia citar, por exemplo, uma ocasião pitoresca, um fato aí que... tinha uma época em que o CIP controlava os preços e o preço da Antarctica era menor que o da Brahma, era um pouquinho menor. Não sei por qual razão tinha havido lá um certo, na área técnica lá, um certo descompasso e que dava um preço um pouquinho maior pra Brahma e não se justificava. “Bom, precisamos mudar isso, mudar isso, mudar isso.” Então fizemos um memorial, que iria haver uma reunião do CIP e que nós precisávamos mostrar pras pessoas que decidiam sobre isso que não havia razão de ficar dando preços diferentes, os produtos são iguais, as estruturas são compatíveis, tudo. E então foi feito assim um tipo de um descritivo, de um pró-memória, explicando tudo pra que nessa reunião que iria haver fosse solucionado, fosse corrigido essa distorção. E eu saí com a incumbência de entregar esse material pra cada um dos membros que iria participar e que geralmente eram Assessores de Ministros, pessoas de Brasília que faziam parte do Conselho. Eu teria que levar, tentar condensar e entregar aquilo pra que na reunião ele fosse consciente de que iria corrigir aquilo. E eu fui pra Brasília, fui à ocasião com o Dr. Manoel, um Assessor que dava assessoria pra nós nessa parte. Fui pra lá e tivemos tal, e tentamos e conseguimos ir com alguns chaveirinhos, algumas coisas, sem agenda sem nada, conversar com essas pessoas. É difícil, mas conseguimos. Agora, tinha um que era o mais importante, não me lembro... até porque, e a hora que eu fui, nessa hora eu já estava sozinho, o Dr. Manoel já não estava, a hora que eu fui falar com a secretária ela falou: “Acabou já de ir pro Rio.” Tinha ido de São Paulo pra Brasília, estava com a passagem de volta pra Brasília. Ela falou: “Ele acabou de sair, ele já está indo pro Rio.” A reunião ia ser no dia seguinte cedo. Eu falei: “Puxa, como é que eu faço agora?” Aí deu na ideia, eu falei: “Como é que ele é?” Ela me deu a descrição dele: “Ah, é calvo assim, tal.” E eu saí correndo pro aeroporto e fiquei cercando lá ____. Na hora que eu vi o sujeito com aquela descrição, eu fui, comprei um bilhete e fui, conversei com a moça que havia marcado lá o bilhete, pra marcar pro Rio, porque eu tinha embarque pra São Paulo, mas eu comprei o bilhete pro Rio. E perguntei pra ela e ela me falou que lugar tinha dado pra ele, e eu pedi se estava vago o lugar ao lado dele no avião. E ela me deu e eu viajei de Brasília pro Rio do lado dele. E eu peguei e conversei até mais do que precisava.

 

P1 – Sorte.

 

R – Foi, foi. 

 

P1 – Do lado dele. 

 

R – Do lado dele, o mais difícil. Eu viajei com ele pro Rio e deu certo, foi naquela reunião que houve do CIP, foi corrigida aquela distorção.

 

P1 – Quer dizer, esse tipo de coisa, não é a mesma coisa, mas assim aconteciam coisas inusitadas no dia-a-dia.

 

R – É, é, exato. Uma outra também. Eu tinha uma reunião em Brasília, o Dr. Victório não pôde ir, pediu pra que eu fosse, era importante também, era com relação a preços também. Eu, na ocasião Congonhas só tinha ponte aérea. Foi aquela época que passou tudo pra Guarulhos, só tinha ponte aérea, pra Brasília não tinha vôos. Estou indo pra Guarulhos e tinha chovido, estava tudo inundado pela Marginal, e eu estava indo de táxi pro aeroporto. A reunião era quatro horas, já era coisa de quase duas horas da tarde. Eu chego lá, chegamos na Marginal, tinha quase um metro de água, o táxi lá. Aí eu tive a ideia, falei: “Você consegue ir pra Congonhas?” Ele falou: “Ah, podemos tentar.” Eu falei: “Então manda bala.” Eu lembrei que no Santos Dummont tinha a ponte aérea Rio - Brasília. Então eu consegui ir pra Congonhas, peguei a ponte aérea, no Rio peguei a ponte aérea pra Brasília. Cheguei na hora da reunião, mas cumpri aquilo que foi determinado. Aquela coisa, quer dizer, então são essas coisas que a gente, na obrigação, na ânsia de cumprir aquilo que é confiado à gente, a gente inventa. Se não dá pra fazer normal a gente cria. 

 

P1 – O senhor quer deixar, Sr. Osvaldo, um recado, alguma coisa pra AmBev em relação aos projetos, com relação ao trabalho da AmBev em si?

 

R – Trabalho da AmBev, com relação a esse trabalho?

 

P1 – A esse trabalho ou ela mesmo como Companhia, a atuação que ela tem hoje. 

 

R – É, a AmBev, a gente como participa, fico muito contente em continuar participando da fundação que, como membro da COPEBS porque continuo de uma certa forma ligado porque eu sinto que eu nunca me desliguei da AmBev. Eu sei o que eu desejo e acompanho pelos jornais, tudo. A AmBev que continue com essa pujança toda, que aliás é o que a gente esperava quando foi feita a fusão, esperava que essa fusão foi pra justamente alavancar essa posição no mercado não só brasileiro, mas mercado internacional. Então eu acho que está sendo cumprido rigorosamente aquilo que se propôs ou que se pretendia, que foi o objetivo da criação da AmBev, da fusão das empresas e da criação da AmBev. Então eu acho que o que tinha que ser feito está sendo feito e desejamos que continue assim pra que não só a fundação, como todos que dependem da AmBev continuem usufruindo dos bons produtos que também como consumidores continuamos apreciando e vamos continuar. Com relação ao projeto, como eu disse, era uma preocupação que eu tinha de não ver nada acontecendo nesse sentido de restaurar e até pelo menos guardar ou conservar aquilo que existia. Pelo que eu estou vendo, eu acho que está sendo feito algo melhor ainda, que além de se preservar o que existia, está se dando uma forma, se criando uma coisa maior. Pra gente é um orgulho, né?

 

P1 – O senhor queria falar mais alguma coisa?

 

R – Não, é só isso. 

 

P1 – Então nós agradecemos o senhor ter vindo dar o seu depoimento e ter ficado com a gente. 

 

R – Tá, obrigado. Eu que agradeço. Não sei se eu atendi.

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