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História

De catraia entre o Pará e o Amapá

História de: Docivaldo Pereira Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/09/2013

Sinopse

Docivaldo recorda sua infância em Laranjal do Jari onde brincava com seus irmãos e ajudava o pai e a mãe nas tarefas de casa. Fala sobre o período de juventude e como casou-se muito cedo. De como se separou e casou novamente. Com entusiasmo fala de seu trabalho na catraia, transportando pessoas entre o Pará e o Amapá. Seu sonho é voltar a estudar e conhecer o Rio de Janeiro.

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História completa

Eu nasci no dia 21 de outubro de 1977, eu nasci aqui mesmo, em Laranjal do Jari, mas na época era chamado de Vila Laranjal do Jari. O nome mudou porque, depois do Projeto Jari, muitas pessoas vieram pra trabalhar. Com o tempo virou Laranjal do Jari, município, municipalizado. O meu pai é João Batista Lopes e minha mãe é Corina Pereira Maciel. O meu pai nasceu em Gurupá, no Estado do Pará. Foi seringueiro e na época trabalhou na seringa no Amapá. Depois trabalhou em serraria, quando começou a trabalhar aqui, em Laranjal do Jari. Trabalhou em mercado e no porto de catraias como vigilante. Ele conheceu a mamãe em uma festa que teve e começaram a namorar e se casaram. Mas ele casou duas vezes, eu sou filho da segunda mulher. No total nós somos 14 irmãos, dez com minha mãe e quatro com a outra mulher. Conheço todos os meus irmãos.

 

Deusa, Graça, Raimundo Nonato, que é o Bidinho, Jorge Luís, Deusamor, Deusilene, Deusivânia, David, Deusiane, a Deusiane, faleceu já há 14 anos, Deusiane, Gracilene, Jorge Aldo, Claudia Amor, esses nomes, acho que eu não esqueci nenhum. Eu sou o terceiro de mãe e pai, o terceiro mais velho, no geral acho que eu sou o sétimo. As primeiras lembranças foram o primeiro dia na escola. Eu me lembro também da primeira bicicleta que eu ganhei. A escola ficava perto da minha escola, e no primeiro dia eu fui nervoso, eu fui com medo assim, que eu não era acostumado. Por causa do meu nome também, que todo mundo bagunçava, Docivaldo. Me apresentaram lá, Docivaldo, o pessoal começaram a bagunçar comigo, no outro dia eu fiquei com vergonha de voltar lá. Mas o incentivo dos meus pais me fez voltar. Minha mãe me arrumava para ir para a escola, mas quem me arrumou mais foi a minha irmã, Deusilene. Ela é a segunda mais velha das mulheres, dava banho, esses negócio, arrumava, era ela. Minha mãe era dona de casa mesmo, cozinhava, lavava roupa, esses negócios. Nessa época tinha o café da manhã, e tinha a merenda das dez horas, ovos, conserva, esses negócios, uma merendinha, depois que vinha o almoço, feijão, charque, galinha e peixe. Meu pai, meus irmãos mais velhos pescavam. A gente morava dentro da vila. Acho que na faixa dos oito anos, nove anos já ajudava a pescar e trabalhava, ajudava o pessoal. Às vezes o meu pai saía, deixava uma tarefa ali: “Passa o pano na casa, limpa o quintal”, esses negócios. Ele era rígido, se deixasse uma tarefa, se não fizesse na volta ele chamava a atenção. Às vezes batia em nós. Eu lembro de uma surra. Eu não fui pra escola. Eu falei que fui, mas não fui e o pessoal foi lá, falaram pra ele, não teve como livrar a cara. Ele batia com a sandália mesmo, dava umas lapada, mas era pouco, não batia muito. Era difícil, porque nós sempre fomos criados com rigidez. Logo ele explicava o que era pra fazer, o que não era pra fazer.

 

A gente entendia. Graças a Deus em toda a nossa família, nenhum deu pra vagabundo, deu pra matador, deu pra ladrão, todo mundo é trabalhador. Todos os meus irmãos e irmãs iam para a escola, e os maiores trabalhavam em serraria. A partir dos 13 anos, 12 anos, eles já iam carregar moinho no carrinho. Com 13 anos também fui trabalhar na serraria. Depois disso papai e o meu irmão mais velho, fizeram um empreendimento, um mercado. Eu trabalhei no mercado de embalador. O trabalho na serraria era um pouco ruim, era duro. Eu pegava às vezes sete, largava meio dia, aí pegava de tarde, pegava duas horas e largava cinco horas, seis horas. Eu já tava estudando à noite essa época aí. Eu gostava de estudar tudo. A matéria que eu mais gostava era Física, Química, gostava muito de cálculos, era pra mim fazer uma faculdade. Só que eu comecei a namorar, engravidei a mulher e não tive como estudar. Tinha que trabalhar pra sustentar a família. O nome da minha primeira esposa é Alcilene. Eu conheci ela através de quadrilha, festa junina, sempre eu ia.

 

Acho que eu tinha uns 20 anos. Começamos a namorar, nessa época que eu estava, tinha uma irmã, a irmã que morreu, ela me deu muita força. Eu engravidei ela, o meu pai me chamou: “Tem que assumir”. Tive que casar com ela, mas não foi forçado, eu gostava dela também. Não deu para voltar para a escola. Passou um tempo, voltei a estudar de novo, parei na oitava série, depois continuei a estudar, agora terminei o ensino médio. Me casei de novo, eu me separei dela porque não deu certo, muita briga e eu tinha ciúmes. Passei um ano solteiro e comecei a trabalhar na catraia, onde eu era embalador, aí de embalador passei a trabalhar no mercado mesmo, de repositor. Até que o meu irmão faliu, faliu o mercado e passamos tudo pra catraia. Eu gosto demais de trabalhar aqui, pintou muita oportunidade pra sair daqui, mas só que eu me acostumei muito. Trabalho todo o dia, com tem duas folgas no mês. A gente pega quatro e meia da manhã, tem uma hora de intervalo, aí larga uma hora, uma hora da tarde, aí pega só no outro dia.

 

É sempre travessia entre o Pará e o Amapá. Mas a gente faz turismo também, levamos o pessoal na cachoeira, pela mesma empresa. Ganho razoavelmente. Também sou fiscal. Eu fico só supervisionando as catraias. Quando dá uma hora, eu vou pra casa. Dia de quinta-feira bato uma bola lá no Beque, e às vezes bebo uma geladinha. Minha mulher fica em casa e eu estou incentivando ela a fazer faculdade de enfermagem, o sonho dela é ser enfermeira. Aqui em Laranjal é bom porque todo mundo conhece todo mundo, é bom pra conversar. A maioria das pessoas é do Maranhão. Na minha família, a maior parte é do Maranhão. Chegaram para trabalhar na Jari Celulose, na fábrica de papel há uns 50 anos. Nenhum dos meus irmãos trabalhou em fábrica porque nós trabalhava mais terceirizado, trabalhava mais prestando serviço. Hoje em dia se parar a fábrica, ela está parada. A sorte foi que a região não sentiu muito o abalo porque começou a hidroelétrica e a fábrica vai voltar agora, vai voltar agora em outubro em diante, já começa a melhorar de novo. A hidrelétrica é dividida entre Pará e Amapá, entre a cachoeira, a barragem que tão fazendo. Minha filha mais velha tem 12 anos, com a primeira mulher.

 

Os outros, uma tem seis e o outro tem quatro, o nome da primeira é Andrela Deusiane, da segunda é Maria Eduarda, o terceiro é o Mateus. É na da beira mesmo que a minha filha maior estuda, Andrela, ela está na sétima série já, 12 anos, os outros dois estudam no Dinâmica, é no Agreste, bairro do Agreste. A maior estuda do estado, os dois menores em particular. Eu tenho que me virar nos 30. Às vezes faço hora extra aqui. Tem bastante gente de fora nessa época da hidroelétrica. Veio gente de Paraná, veio de todo lugar do Brasil. Mudou pra bom a cidade, pra ruim não, porque correu mais dinheiro na cidade. A maior parte do povo que vai de cá pra lá é de Laranjal do Jari, que trabalha pra esse outro lado aqui. Eles trabalham pra fábrica. Às vezes, nós trabalhamos mais com transporte de pessoas, vão fazer algum trabalho, a gente leva e traz.

 

A maioria das vezes é de manhã, às vezes eu fico o dia todo pra lá, às vezes vou lá e volto. Eu gosto demais de fazer isso. Mas o meu sonho é fazer uma faculdade para dar melhor vida pros meus filhos, pra dar um futuro pra eles. Queria fazer faculdade de Física, Química, ser professor. A faculdade que eu queria fazer tem em Macapá. Eu tenho um irmão lá que tem uma loja de informática, mas às vezes eu estou de férias, eu passo dez dias, cinco dias lá, com ele lá. Gosto de lá. É mais agitada a vida lá, o trânsito, muita gente. Eu gosto pra passear, agora, pra morar eu gosto mais de vida pacata. Fui de ônibus, é 250 quilômetros daqui pra lá, tira seis horas, sete horas de ônibus, de barco é um dia e meio.

 

De barco é muito bonito, só olhando, viajando, passa em muitos lugares bonitos.Tenho vontade de conhecer Ceará, as praias. Nunca vi o mar, só pela televisão. Gosto de ver Futebol, novela também, eu gosto de assistir novela. Eu gosto de fazer na vida é tanta coisa, ficar com a família. Hoje eles estão viajando em Macapá, porque a minha sogra mora pra lá, se mudou pra lá. Faz uns oito dias que eles estão pra lá. Estou agoniado, chego em casa assim, é um vazio, nem paro em casa quase, de saudades. Como lá na casa da minha mãe. Não gosto de ficar sozinho em casa, eu gosto mais de conversar com pessoas do que ficar sozinho, no futebol, assim, eu gosto de assistir com pessoas, minha mulher assiste comigo, ela não gosta de futebol, mas ela fica lá do meu lado, lá assistindo, aí eu desço aqui pra parte de baixo da cidade, eu fico com a minha família assistindo.

 

Adoro demais meus filhos também, sonho em ver eles formados tudinho. Não desisti ainda da faculdade. Eu tenho um irmão que está em Macapá, Dacimar, ele fica pedindo a nós pra ir pra lá, trabalha, fazer faculdade, muita promessa, eu estou pensando em ir e levar os meninos. Dacimar fala que é melhor, que lá ele vai me dar oportunidade de trabalhar porque ele trabalha com informática, é a área que ganha mais. Ele tem uma loja, abriu outra agora no shopping. Ele tem pessoas, mas pouca de confiança lá, que nós vamos pra lá trabalhar com ele. Meu pai dá força pra ir, se for pra crescer na vida ele apoia. Hoje ele trabalha lá no porto de catraia com nós lá, tomando conta do almoxarifado lá, negócio de peça de motor, é material de limpeza, tudo ele que toma conta. Aqui tem um período, é a partir de agosto agora o período de pesca, é autorizado. Tem época aqui que não é autorizado pescar, pesca só o pessoal da comunidade mesmo que precisa comer, o pessoal ribeirinho. O período, acho que vai até dezembro, janeiro.

 

Pega peixes como tambaqui, piracutinga, pescado, aracu, pacu. Pega mais lá na, perto da cachoeira lá, um pouco de sabão, tapuru, tudo é bom de peixe. É muita gente pra pegar o peixe lá, mas nessa época. Fora essa época os peixe vem tudo de Santarém, que fica no Pará, tem a colônia dos pescadores na Beira. Aqui não dá muito peixe pra o pessoal vender, não dá muito, assim, pra suprir as necessidades da cidade, vem mais de lá. Tem muitos pobres aí, tem muitas pessoas que passam fome, passa necessidade, muita mesmo. Esse pessoal não tem trabalho, até essa época, época assim que estão empregados, um dia eu fui com o pessoal lá da Fundação, era umas três horas da tarde, uma criancinha não tinha comida, deu uma pena, eu comprei comida pra ele, estava descalço, só de cueca, a cuequinha rasgada. O pessoal mais pobre está nas comunidades.

 

Eu só faço levar eles, eu ajudo eles, assim, tem alguma tarefa, me dá pra mim fazer. Tem um projeto que eles fazem, eles trocam latinha, saco de lixo, esse negócio, com roupa, com cesta básica, eu gosto de ver quando eles fazem isso aí, às vezes a catraia vem cheia de latinha de lá das comunidades, que eles trocam. Até que nessa época agora dificilmente vê um homicídio, mas antes, antigamente era cruel, não podia nem sair. Quando eu era adolescente tinha uma época que tinha muitos garimpos por aqui, havia muita pistolagem, matava muita gente por causa de intrigas deles. Nessa época não tinha droga, depois que passou negócio de droga e de gangue, melhorou.

 

Agora a pessoa pode andar aí de noite. De vez em quando tem assalto também. Nunca está cem por cento, sem nada de violência, de vez em quando assalto, faz umas duas semanas que assaltaram os Correios e levaram 93 mil reais de lá. Foi violento. Acho que uns dois dias ele abriu, já abriu de novo. Os Correios é importante porque hoje em dia a gente paga conta, lá tem banco, lá tem o Sedex. A empresa usa muito, porque a gente compra peça lá em Manaus, em São Paulo, motores, aí vem, chega rápido, aqui não tem. Também pagamos conta de energia, de luz. É tudo feito, a maioria é nos Correios. O hospital também é importante. Antes do hospital a gente dependia do hospital aqui do Pará. Aqui não tinha, só era o posto, e agora a maioria do pessoal depende do pessoal de lá. Daqui ficou só o pronto-socorro aqui que funciona, lá não, lá pode internar, faz cirurgia, faz tudo lá. A política aqui está péssima. Muitas coisas erradas, você vai dar uma volta na cidade pra você ver lá como é, a rua como é que está, cheia de buraco.

 

Até que um tempo com a falta de energia antes, racionamento, o povo se reuniu e fizeram uma manifestação, até que melhorou. Tinha dia que a gente ficava dois dias sem energia, uma noite, é quente aqui a região, ficava ruim demais. Acho que uns 40 por cento tem ar condicionado, hoje em dia ar condicionado é uma necessidade, assim, não é boçalidade, é necessidade porque você dormir só com o ventilador não dá, não. A época do verão é mais quente, no inverno é quente, mas não estão quente que nem no verão. Se eu pudesse escolher outro lugar do Brasil, escolheria o Rio de Janeiro, porque aquela praia, Copacabana, tenho vontade de ir lá, só vontade. Vi pela televisão só, tomar um banho no mar lá, é o meu sonho.

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