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De Cafuringa a Cafu

História de: Cafu (Marcos Evangelista de Moraes)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/10/2013

Sinopse

Cafu teve uma infância humilde e agradece aos pais pelo apoio que deram a sua carreira de futebolista, alegando que sem esse apoio ele nunca teria chegado aonde chegou. Na escola fez suas maiores amizades e sempre adorou futebol, praticando desde cedo. Sua entrada no SPFC foi duríssima, sendo recusado quatro vezes pelo treinador Seu Firmo de Melo. Percorreu um árduo caminho até chegar ao São Paulo, passando por times da terceira divisão, como o Itaquaquecetuba (um dos times que mais gostou de jogar e fez boas amizades), para depois ser aceito no clube tricolor. Relembra suas idas ao estádio, quando sentava na arquibancada e era um admirador do jogador Silas. Comenta da atuação com a seleção brasileira, destacando o time de Parreira como uma equipe próxima e que todo o sucesso era resultado disso. Na época da entrevista tinha como sonho ser campeão mundial com a seleção brasileira. Fala sobre a origem do seu apelido, Cafu, quando jogava no Itaquaquecetuba e era comparado com o ex-jogador Cafuringa.

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História completa

R- Cafu, fale um pouco de você... Onde nasceu, quando nasceu, de seus pais, a sua infância...

P - Em primeiro lugar, o meu nome é Marcos Evangelista de Moraes. Tive uma infância como a que a maioria das pessoas pobres tem nesse Brasil. Não foi uma infância muito boa, mas graças a Deus eu tive uma estrutura muito boa do meu pai e da minha mãe, excelente, né? Eu acho que isso me deu bastante força para que eu pudesse chegar onde eu estou. Tenho 23 anos, morei num bairro pobre do Jardim Irene, mas um bairro onde tinham pessoas de caráter e junto com eles eu consegui vencer.

P - E seus pais?

R - Meu pai se chama Célio e minha mãe Cleuza, foram as pessoas que mais me deram força para o futebol. Eu acho que se eu estou onde estou hoje eu tenho que agradecer muito a Deus e a eles também, pela força que eles me deram.

P - A sua família, seus irmãos, quantos são?

R - Nós somos em seis. Quatro homens e duas meninas, e a maioria dos irmãos também jogam bola. Uns jogam só pelada, outros jogam profissionalmente como eu. Meu irmão mais novo, o Mauro, joga em Santa Catarina no time do Blumenau.

P - Lembranças da sua infância?

R - Eu tive uma infância muito boa e muito gostosa também, né? Apesar de não ser uma pessoa de uma estrutura muito alta em termos financeiros, mas foi uma infância rica em termos de amizade e em termos de saúde. Nós saíamos muito para bagunçar, pra brincar, e eu fiz diversos amigos, amigos que graças a Deus eu tenho até hoje.

P - Como é que eram as brincadeiras que vocês faziam?

R - É. Eram brincadeiras de moleque mesmo, subir em árvore, correr atrás de pipa, jogar bolinha, rodar pelo... Foram brincadeiras sadias e até hoje eu tenho amizade com esse pessoal, a maioria delas está casada, tem seus filhos, a sua família, e continuam trabalhando honestamente, e isso é que é o mais importante.

P - O que você preferia? Brincar de quê?

R - Eu gostava muito de soltar pipa, gostava de correr atrás de pipa, acho que é por isso que eu devo ter essa velocidade.

P - E a sua escola? A época de escola?

R - A minha época de escola foi uma das melhores épocas da minha infância, onde eu fiz excelentes amigos. Tanto professores como professoras, diretores e diretoras. Eu conhecia todo mundo na escola, entrava em todas as salas de aula. Assistia a aulas que não eram, não tinham nada a ver comigo... Nós fomos cultivando ali a amizade com todo mundo, o próprio bairro. Passamos a conhecer todos e por isso foi muito gostoso. Estudei na Escola Ronaldo Laipot Perete que fica no Jardim Irene.

P - E o começo do futebol? Quando é que você começou a jogar bola?

R - Eu já gostava de jogar bola há muito tempo. Sempre adorei futebol, tanto é que eu ia ao estádio ver jogo. Aconteceu até um fato que eu lembrei... O Muller, há um tempo atrás, quando eu fui ao Morumbi assistir a um jogo onde o São Paulo venceu o Palmeiras, eu acho que por quatro a dois, e que o Muller perdeu um pênalti. Aí eu falei para ele: “Você lembra um pênalti que você errou contra o Palmeiras?” E ele falou: “Lembro”. Eu disse que estava na arquibancada assistindo porque eu adorava não só o São Paulo como o futebol. Tive a oportunidade depois de jogar futebol, com doze anos já atuar nas escolinhas de base com o professor Pedro Rocha, que todo mundo sabe que foi um grande jogador do São Paulo. Trabalhei na escolinha dele sete anos e de lá eu fui dando seqüência a minha carreira, e hoje eu sou um profissional, graças também a Deus.

P - Quem levou você ao futebol?

R - Eu já adorava, amava o futebol, e por isso eu acho que estou onde estou. Eu também conheci uma pessoa que me ajudou bastante dentro da minha carreira futebolística, que foi o João Alemão que me trouxe para fazer um teste no São Paulo.

P - A entrada para o São Paulo, como se dá?

R - Olha, a entrada para o São Paulo foi um pouco difícil. Se eu for lembrar um pouquinho, antes de eu me formar no São Paulo, eu já havia sido mandado embora do clube por quatro vezes pelo treinador Seu Firmo de Melo, e na oportunidade que eu vim fazer teste, era o peneirão, o São Paulo tinha um campo chamado terrão, e o treinador me dispensou por quatro vezes do São Paulo. Não sei se foi isso que me deu mais força ainda para continuar lutando, porque eu sabia que eu tinha potencial e sabia que tinha qualidades, só faltava a oportunidade.

P - Por que ele te dispensou?

R - Ele dizia que eu não tinha tamanho para jogar futebol, que o time dele já estava completo e que eu não teria chance na equipe dele. Então eu fui mandado embora, voltei, fui, voltei e graças a Deus hoje eu estou aqui. Peço a Deus que possa iluminar a carreira do Seu Firmo, não tenho nada contra ele.

P - O que é que seus pais falavam disso?

R - Meu pai me dava bastante força, mas a minha mãe era daquelas "não, vai trabalhar, não vai dar certo" e o meu pai dizia “vai, você tem condições, tem qualidades”. Eu acho que foi isso que me deu força. Hoje minha mãe é a fã número um não só do Cafu, como também do futebol.

P - Outros fatos marcantes na sua infância que você gostaria de falar?

R – Gostaria. Tem alguns fatos bastante importantes e até meio chatos. Eu tive fazendo teste na Portuguesa de Desportos, e por uma semana eu fui. Fui na segunda, o Seu Picho mandou voltar na terça, fui na terça e ele mandou voltar na quarta, fui na quarta e ele mandou voltar na quinta e ia indo. Aí eu fui no sábado e ele mandou voltar na segunda, então eu falei: “O senhor estar brincando comigo, né? Ou o senhor me dá uma oportunidade ou o senhor não quer nada comigo”. Aí ele me mandou embora. Fui fazer testes em outros clubes, fiz testes no Palmeiras, fiz teste no Corinthians, no Atlético Mineiro, fui até Foz-do-Iguaçu e voltando de Belo Horizonte, onde fiz teste com o Atlético, voltei com o Nacional, Comendador de Souza, nosso vizinho aqui. Tinha um treinador que era amigo meu, se chamava Vanderlei, que me chamou. Meu irmão já estava jogando no Nacional, o irmão mais novo, e me chamou. Eu falei: “Tudo bem, eu vou”, por incrível que pareça o treinador da minha categoria era o Seu Picho, o mesmo da Portuguesa. Adivinha o que ele fez? Me mandou embora de novo. São fatos que eu não sei, acho que tive forças para vencer no futebol. Não tenho nada contra ninguém, sempre que posso peço a Deus que ilumine a vida de todas as pessoas, porque a gente sempre procura o melhor e eu nunca desejei mal a ninguém.

P - Depois de toda essa viagem, como é que você entrou no São Paulo?

R - Aí, do Nacional eu fui para o Itaquaquecetuba, time da terceira divisão, e por incrível que pareça foi um dos times em que eu mais gostei de jogar. Claro que depois do São Paulo. Era um time onde só tinha jogador simples, humildes, que não tinham nem condições para pagar uma condução, o ônibus ou o próprio trem. E a gente descia muito pelo lado do trem, passava por baixo da catraca do ônibus porque não tínhamos dinheiro para treinar. E fizemos uma amizade muito boa de pessoas que são na maior parte simples, iguais a mim. Foi um time também vencedor. Fiquei lá um ano e meio, foi um time gostoso, todo mundo lutava, todo mundo corria. Ai, viemos fazer um teste aqui no São Paulo, eu, o Gilmar e o Ademir. Hoje o Gilmar está aqui e o Ademir infelizmente está em outro time, no Marília. Passamos no teste, fomos aprovados pelo Seu Carlinhos e ficamos no São Paulo até hoje.

P - Que ano foi isso?

R - Isso foi em 88.

P - Você sempre jogou na lateral?

R - Não, eu cheguei no São Paulo e era volante. Jogava no meio de campo, não fazia gol, era volante pegador... O Seu Popo falava que queria eu como pára-brisa no meio de campo, só pegando ali. Dificilmente eu ia para o ataque. Com o decorrer do tempo eu fui me adaptando aos poucos com cada posição até chegar à lateral.

P - Em que momento você sai da sua casa?

R - Eu morei bastante tempo na concentração do Morumbi e nessa aqui do CT. Mas foi uma decisão que nós tínhamos que tomar, ou eu morava com meus pais ou eu ia jogar futebol. Então eu tive que largar, em termos, a minha família, meu pai, minha mãe e meus irmãos, os estudos eu também tive que largar para poder seguir a minha carreira.

P - Como é que é a vida na concentração?

R - Olha, a vida é boa. A concentração é ótima, as amizades eram boas também, por isso tudo se tornava mais fácil. Mas a concentração é ótima. Uma das melhores.

P - E quando você se casou?

R - Eu casei há quatro anos atrás, com a Regina. E com ela tenho três excelentes filhos.

P - O que muda a partir disso na sua vida?

R - Acho que não mudou muita coisa porque eu continuo do jeito que eu sou. Só mudou a responsabilidade. Nunca deixo faltar nada em casa, nem na dos meus familiares e eles nos ajudam bastante também.

P - Como a sua esposa vê essa sua vida de concentração?

R - Bom, ela não gosta muito, mas sabe que é a profissão. É o nosso ofício, e nós temos que fazer isso. Às vezes até deixar a família de lado para poder seguir a nossa carreira. Mas são coisas que fazem parte do nosso cotidiano, do nosso dia-a-dia, e ela teve que se conformar com isso. Hoje ela me dá bastante força, uma das pessoas que mais me ajuda.

P - E os filhos?

R - Os filhos são maravilhosos. Tenho o Danilo de quatro anos, Wellington de três e a Michele, a caçula, com dois. O Danilo e o Wellington entram em campo comigo, jogam bola comigo aqui no Centro de Treinamento, e eu acho que isso me dá força para correr mais, lutar mais, para poder dar tudo de bom para eles, para eles não passarem por tudo aquilo que a gente passou algum tempo atrás.

P - E essa força física que você tem? Esse destaque seu, de onde vem?

R - Eu costumo fazer uma brincadeira quando eles falam da minha força física... Que os meus filhos quebram muito as coisas em casa, então tem que correr muito atrás deles para eles não quebrarem, e correr depois que eles quebram porque tem que ganhar para poder comprar tudo de novo. Mas eu acho que é um dom que Deus me deu. No próprio Itaquaquecetuba eu treinei com um preparador físico chamado Nelson e ele passou muita coisa boa pra gente, coisas positivas para a preparação física. Aqui no São Paulo fui aprimorando com o Moracy e com o próprio Altair.

P - Você tem cinco anos de profissional, né?

R - Tenho. Cinco anos de profissional.

P - Teve alguma mudança nesses cinco anos na preparação física?

R - Ah, claro que a preparação física vai aumentando, né? Mas com essa seqüência de jogos que o São Paulo está sofrendo agora, jogando segunda, quarta e sexta, quase toda semana, é claro que a tendência é cair um pouco por causa do próprio desgaste, né? Mas a gente procura sempre manter uma média, para que nós possamos correr bem dentro de campo e colaborar com a nossa equipe...

P - E uma alimentação especial, né?

R - É claro. Nós temos uma alimentação balanceada, né? Até em termos de vitaminas, aminoácidos, e isso ajuda bastante também a própria recuperação dos atletas.

P - Desde que você entrou no São Paulo, que título ou que títulos você destacaria?

R - Olha, acho que eu destacaria todos, né? Porque são títulos, e títulos não são fáceis ganhar, né. O São Paulo veio de várias maratonas, tanto é que atualmente nós estamos disputando aí três campeonatos, sendo que um já temos o título e tem mais dois ainda. Mas é claro que você ganhar um título mundial sempre é um destaque, como nós ganhamos o ano passado e esse ano se Deus quiser nós vamos tentar o bi.

P - Como era... Como você participava na torcida quando você ia na arquibancada?

R - Ah, eu gostava mais de assistir mesmo, né? Não de ir lá pra fazer igual a esse pessoal vai, pra ficar xingando os atletas... Ficar "coelitando", como nós falamos na nossa língua dos atletas. E eu achava que eles estavam lá dentro, eles deviam estar mais desesperados que nós aqui fora, né? Porque são eles que jogam, eles devem saber o que estão fazendo lá. Mas eu sempre admirei, sempre gostei. Gostava de ficar na arquibancada que dava pra ver todo mundo lá embaixo, né? E aí torcia muito.

P - Você jogador, como é que você sente essa coisa da torcida? Quer quando aplaude, quer quando vaia.

R - Olha, desde o momento que você vaia o seu time, eu acho que você tem um motivo, né? Eu acho que o São Paulo até hoje não deu motivo para a torcida vaiar, porque nós só estamos dando glória pra essa torcida. É, conquistamos todos os títulos que nós disputamos, e essa torcida está muito feliz. Os aplausos, é claro, todo mundo gosta de receber aplauso, os elogios. Eu sou uma pessoa que tenho um crítico e um auto-crítico. Eu sei quando eu to mal, quando mereço uma vaia, e sei quando mereço um aplauso também. Então acho que todo mundo deve saber um pouco disso, né, o momento de aplaudir e o momento de vaiar.

P - No futebol precisa muita concentração, mas quando a torcida taí, quando estende a bandeira, como é que... Vocês vêem isso, assistem isso, ou...

R - Às vezes, dentro de campo dá pra gente dar uma olhadinha rápida, né? Na arquibancada, na geral e na numerada. Você sempre vê uma bandeira maior, uma bandeira menor... Mas desde o momento que você entra dentro de campo você já sabe da sua responsabilidade e sabe de seus objetivos. Quando você vê uma torcida ainda gritando seu nome e estendendo uma bandeira, eu acho que dá um tchauzinho a mais pra que você possa render mais dentro de campo.

P - Sobre a torcida ainda, a violência que esses...

R - Só de falar em violência já me dá até um arrepio, né. Eu sempre fui uma pessoa muito calma, uma pessoa muito tranqüila, e quando você vê que nem... É, uma torcida brigou com a outra, se encontrou no terminal de trem, destruíram trem, saiu não sei quantos feridos, né? E teve aquela vez também, que teve aquele garotinho que morreu com uma bomba num jogo do São Paulo e Corinthians... Isso tudo nos chateia, nós jogadores, porque ficamos sabendo de tudo isso que acontece e de repente queremos entrar dentro de campo pra passar o quê, uma coisa boa pra torcida, uma coisa positiva, e do lado de lá a gente vê as torcidas brigando, isso eu acho que não é bom pra eles e não é bom pra nós também. Só prejudica a eles e, é claro, a nós também.

P - Você quando começou no futebol se inspirou em quem? Em quem você pensa?

R - Olha, eu sempre fui um fã e sou ainda um admirador do Silas, né? Ia ver o São Paulo jogar. Adorava ver o Silas jogar, porque o Silas sempre foi um jogador inteligente, um jogador tranquilo, um jogador que pensava muito dentro de campo. É claro que naquela época também tinha o Pita, que era um ótimo jogador, mas sempre fui um fã do Silas, sempre vou ser, independente de ele estar jogando futebol ou não, independente de ele estar no São Paulo ou não. Um jogador que passei a admirar como pessoa e como jogador.

P - Desde quando você vai ao estádio?

R - É, quando eu era moleque eu ia bastante, né? Agora eu vou só pra jogar. Desde quando eu tinha uns 12, 13 anos. 

P - E que outro jogador você destacaria desde aquela época que você...

R - Ah, naquela época nós tínhamos excelentes jogadores, né? Como temos agora também, né. Tinha o próprio Falcão, que era um excelente jogador, o São Paulo tava naquela fase de ouro, né? Com o Silas, Pita, Sidney, Careca, todo mundo ali, tinha excelentes equipes do lado de lá também... Eu destacaria todos aqueles do São Paulo.

P - E momentos marcantes na sua carreira.

R - Um dos momentos marcantes na minha carreira foi quando nós ganhamos a final contra o Palmeiras, onde eu tive a oportunidade de fazer o primeiro gol e dei o passe pros outros três. Eu acho que ali foi o momento de emoção que eu até chorei de ter visto, claro, o São Paulo ganhar e eu ter feito as jogadas.

P - E na hora que você faz gol, por exemplo, aquele primeiro gol que você pegou em cheio, qual a emoção que você sente?

R - É uma emoção gostosa, uma emoção bonita. Na hora você tem vontade de gritar, de xingar, de pular... Como eu tenho mania de fazer, dar cambalhota, quando eu faço os gols, né? É uma emoção que só quem está ali dentro mesmo sente.

P - Mas às vezes você vai na arquibancada ou no banco?

R - Vou no banco, né? Eu sempre vou no banco cumprimentar companheiros que estão no banco, que a gente sempre combina alguma coisa antes, e a gente sempre vai lá comemorar com eles.

P - E as frustrações como jogador?

R - Ah, frustração nós temos bastante, né? Acho que violência dentro de campo, isso deixa a gente bastante frustrado. Eu acho que não precisa disso, são todos profissionais e, claro, seres humanos também.

P - Você falou em violência. Telê é uma pessoa que combate isso. Fala um pouquinho do Telê.

R - O Telê... Todo mundo sabe, né? Acho que não tem nem o que falar. Um excelente treinador... É como um pai para todos nós, né? Uma pessoa que quer ver tudo em seu devido lugar, uma pessoa que quer as coisas todas corretas. E isso ajuda também é, nós, é uma pessoa bastante exigente, né, que quer que você faça tudo com perfeição, e isso você vai aprimorando. Nessa perfeição dele, você acaba acertando.

P - E os adversários?

R - Nossos adversários, de um modo geral, são todos adversários difíceis, né? Principalmente jogando contra o São Paulo. Que só de falar que é contra o São Paulo, não sei, eles se desdobram dentro de campo, eles correm mais, só pra tentar arrancar um pontinho ou uma vitória do São Paulo.

P - Fora do futebol, o que você gosta de fazer?

R - Ah, eu adoro passear com os meus filhos, né? Adoro gravar, escutar música também.

P - Que música?

R - Pagode, de preferência, e adoro também Fórmula 1, né? Acho que eu gosto de ver grandes emoções. (Risos)

P - E sobre as arbitragens, que opinião você tem?

R - Eu não tenho nada a falar sobre os árbitros, não. Desde o momento que eles entram dentro de campo pra agir com honestidade e com dignidade, acho que não há problema nenhum.

P - Como que a sua vida profissional mudou a sua vida pessoal geral? Teve alguma mudança grande?

R - Não, eu acho que a única mudança grande que deve ter acontecido foi no estágio financeiro, isso é lógico. Porque no restante eu mesmo procurei fazer que não mudasse nada. Sou a mesma pessoa hoje que era antigamente... Vou no bairro onde morava antes, converso com todo mundo, brinco, vou na casa de todo mundo, e eu acho que isso é mais importante. Eu sempre passo isso pra essa garotada nova que tá subindo. O dinheiro é bom quando você sabe usá-lo, né? Quando você não sabe usá-lo não é bom. Eu sei usar, nunca deixei o dinheiro afetar minha vida particular, a minha vida profissional e nem os meus amigos, né? E por isso que hoje nós estamos onde nós estamos, graças também a essas pessoas que ficaram atrás e dão bastante força.

P - Você é "Atleta de Cristo"?

R - Não, não sou, mas eles estão loucos pra me levar pra igreja. (Risos)

P - Antes de você chegar a seleção brasileira, você “sentindo chegar”, como é essa expectativa?

R - Bom, sempre que você está pra ser escalado para seleção a expectativa é muito grande, a ansiedade é enorme, você sempre fica naquela se vai ser convocado ou se não vai, se você deve ir, não deve ir, mas a decisão é sempre do treinador da seleção. Acho que eu merecia ser convocado para a seleção, não só. Eu acho como todo mundo que jogando acha que merece ser convocado pra seleção, assim, a decisão é do treinador, autoridade máxima ali frente a seleção. E sempre trabalhei no São Paulo pra isso, independente de estar no São Paulo ou não. Eu ia trabalhar sempre visando a Seleção Brasileira, meu objetivo sempre ia ser a Seleção Brasileira, e um dos meus maiores sonhos é ser campeão pela Seleção Brasileira e campeão do mundo. E acho que esse sonho não só meu como de todos, de jogar uma excursão por aqui, como pela Europa também. Esse mesmo pensamento, esse mesmo objetivo que eu tenho de ser campeão pela seleção, porque eu acho que a consagração máxima dentro do futebol é você ser campeão mundial como outros amigos nossos da época passada foram campeões, e claro alcançar objetivo de um dia ser transferidos pra um clube da Europa, porque lá você tem um marginalizado, são menos jogos, o calendário lá é bem melhor do que aqui e você pode aprimorar o seu futebol.

P - A chegada na seleção?

R - A chegada na seleção foi das melhores possíveis. Eu acho que eu nunca ia imaginar que ia ser tão bem vindo assim numa seleção. Eu fui convocado pela primeira vez, a primeira seleção, aliás, que fui convocado, uma seleção paulista. Nós fomos pro Japão, em 24 jogos, acho que isso é inédito. Em 24 dias fizemos 14 jogos, jogava dia sim, dia não, acho que ninguém fez isso e nós com a nossa seleção, tivemos o êxito em quase todos os jogos. Desses jogos nós ganhamos treze, perdemos um, empatamos um, num total de 15. E de lá pra cá foi só alegria, fui sendo convocado já pra outras seleções de base, a seleção brasileira, até chegar a seleção do pré-olímpico. Seleção de novos, seleção de novos eu tive oportunidade de ser convocado pra seleção principal.

P - Quando foi?

R - Isso foi em 89. É a primeira vez que eu fui pra seleção. Em 88 eu já tinha ido pra seleção paulista, onde eu tive a oportunidade de ser convocado pra seleção de novos. Aí nós fomos disputar um torneio em Toulon, na França, não fomos muito bem, fomos desclassificados nas semifinais da competição, foi uma competição muito difícil, nós tínhamos excelentes jogadores lá também.

P - E sobre as últimas eliminatórias, o clima como você diz?

R - É num clima de eliminatórias, não é um clima muito bom... É um clima de tensão, um clima onde você fica preso em concentrar na obrigação de vencer, na obrigação de representar bem o seu país, que é o Brasil, e você fica na ansiedade, tá todo mundo te olhando, tá todo mundo te vendo, então você carrega uma responsabilidade a mais qual é a responsabilidade é vencer e classificar a seleção. Nós não tivemos muito bem no começo dessa competição e ninguém mais acreditava nessa seleção a não ser nós mesmos, os jogadores. E eu acho que com a nossa própria força, que com as nossas próprias esperanças é claro, com o nosso próprio futebol nós acabamos classificando o Brasil em primeiro até a Copa do Mundo de 94.

P - O grupo... O que você pode falar sobre a intimidade do grupo?

R - O grupo era excelente, era um dos melhores grupos. Acho que o professor Parreira deve ter convocado todo mundo simples, todo mundo tentava passar uma humildade, aquelas pessoas mais novas principalmente... O pessoal que a gente considerava estrangeiro, que para nós não existia estrangeiro, era todo mundo brasileiro. E eles passavam para nós o que eles viviam no momento, vivem no momento, num país europeu, num clube italiano, espanhol... E prá nós era bom, porque apesar de eu ser um jogador novo, o que eles falavam pra mim, eu prestava atenção. Fazia perguntas a eles em termos de cidade, país, adaptação, custo e tudo o mais. Para que se um dia eu for por um lugar desse eu já sei o que o custo de vida lá, se é frio, se é calor, e o clube se é bom se é ruim e nós trocávamos bastante idéias, fazíamos bastante palhaçada, se descontraia. Eu acho que foi isso que ajudou a seleção a vencer essa batalha aí, que foi a eliminatória e classificar pra Copa do Mundo.

P - Mais alguma coisa?

R - E na seleção também como num clube, tem brincadeiras, tem palhaçadas, nós fazíamos bastante churrasco também. Quase toda quinta-feira nós fazemos churrasco pra unir mais a moçada, nós tocávamos um pagodinho, cada uma fazia um sambinha, e isso ia tornando um clima bom, tornando até um clima diferente de seleção brasileira. Porque você ficava, você ficava preso em cima daquilo, em cima do futebol, em cima da concentração e o jogador chega uma hora que não aguenta mais ver concentração. Ele está concentrado toda hora, todo dia, toda hora e sempre as mesmas perguntas: se vai jogar, quem joga, quem não joga e fica preso aquilo e você acaba nem pensando direito no resto das coisas, porque você não tem nem tempo pra pensar mesmo na seleção brasileira. Em Teresópolis era uma excelente cidade, era uma cidade muito boa, uma cidade turística, aonde deu pra adaptar muito rápido apesar ter bastante sensação.

P - Além do samba e churrasco...

R - Treinava bastante, ficava nos quartos, eu gostava. Como já falei, gostava de ouvir música, gostava de gravar, telefonava bastante pra casa além de ver televisão, jogar bilhar, fliperama e as coisas mais que tinham.

P - As viagens? O quê você pode falar das viagens da seleção?

R- Viagens são quase iguais as outras. A seleção onde parava tinha mesmo aquele clima de seleção. O povo queria autógrafo, queria tirar foto, queria ficar perto dos seus ídolos... Nem sempre nós podíamos colaborar com eles do jeito que eles queriam, queria abraçar, queria fazer tudo, às vezes não dava tempo, nós tínhamos que chegar ao aeroporto ir direto pro hotel, pro treinamento, e ai não dava tempo da gente dar atenção total aos nossos fãs. Eu acho que seria a melhor coisa do mundo poder atender todo mundo, mas não dá. Às vezes o nosso horário é curto também, nós não temos quase tempo de fazer nada.

P - Qual a coisa que mais marcou na sua vida?

R - Acho que a coisa que mais marcou foi o título. O título mundial. Não só o título mundial como os outros títulos que nós disputamos. Eu acho sempre que ganhar um título é uma coisa marcante. É uma coisa que nem uma marca que você tem de natureza. Uma coisa que te deixa marcado pelo resto da vida.

P - Você tem um sonho, uma coisa que você gostaria que acontecesse?

R - Sonho que eu tenho é ser campeão mundial pela Seleção Brasileira. Eu acho que não é só meu sonho, mas é o sonho de todos aqueles que praticam futebol. Não é uma missão fácil, é uma missão difícil, tem excelentes seleções por aí, e... Mas é um sonho não deixa de ser um sonho, eu espero um dia tornar esse sonho uma realidade.

P - O que você acha de ter dado este depoimento para o Memorial do São Paulo?

R - Eu acho ótimo, e queria parabenizar todos vocês também por esse evento. E se pudesse fazer com mais pessoas seria interessante também, porque é uma maneira de nós expressarmos tudo aquilo que nós passamos. Porque a maioria do pessoal acha que jogador de futebol está rico, está milionário, está bem de vida... Não, às vezes é bom porque eles vão ver o que nós passamos interiormente e principalmente eu. Como outros olham pra trás pra ver o pessoal que tá atrás, porque a imagem que eles tem do jogador é essa: milionário, rico, tem carro bom, tem apartamento bom... Mas se nós temos o que temos hoje é porque nós lutamos, nos batalhamos, porque nada cai do céu. Eu procuro, apesar de meus filhos estarem pequenos, eu falo isso pro Danilo que já tem quatro anos, já entende um pouquinho, nada é fácil. Falo isso pra minha esposa também. Se hoje nós estamos assim, a gente tem erguer as mãos pro céu e agradecer a Deus, porque uns dois, três anos atrás nós não tínhamos isso e nós batalhamos. Eu falo pra ela. Você viu o quanto foi difícil nós chegarmos aonde nós chegamos? Eu acho que o problema agora é a gente tentar manter essa estabilidade pra que isso não possa cair.

P - Cafu, você pode escalar o seu São Paulo de todos os tempos?

R - O meu São Paulo de todos os tempos eu acho que é o São Paulo da atualidade, né? Um São Paulo vencedor, um São Paulo ganhador, um São Paulo que tá ai dando muitas glórias, né? Não só aos torcedores são paulinos, como torcedores brasileiros, né. Porque nós conquistamos muitos títulos internacionais também, e isso é bom não só para o São Paulo como no aspecto geral pro povo brasileiro, né? É uma missão bastante importante também pra saber que você tem o carinho não só dos torcedores paulistanos como de todos outros torcedores também.

P - Se você pudesse mudar alguma coisa nesses cinco anos de sua carreira, você mudaria?

R - Não, acho que eu não mudaria porque eu não mudei, né? Pra ser sincero eu sou o mesmo Cafu de antigamente. Sou o mesmo Cafu de sempre. As pessoas me conhecem, meus amigos sabem disso. Sempre que eu posso, eu procuro encontrar um ou outro, mas é difícil, né? Porque cada um tomou um rumo. E sempre quando nós podemos, nós fazemos um churrasco na casa um do outro, pra reunir a moçada, colocar as crianças pra ficar bagunçando e você contar as histórias do passado, né. Porque são histórias boas, histórias assim que você dá bastante risada, entendeu?

P - De onde vem Cafu?

R - Cafu vem de Cafuringa, né. Era um ex-jogador, acho que todo mundo conhece, quem não vai conhecer o Cafuringa, né? E me apelidaram em Itaquaquecetuba no... Num time que eu joguei que já falei antes. Todo mundo lá tinha apelido, ai eles tinham que inventar um apelido pra mim. Como eu era o mais novo que tinha chegado naquela época, eles tinham que arrumar um apelido pra mim. Ai o... Ele me colocou pra fazer o teste, o João Alemão treinador, eu dei dois dribles no zagueiro, no Juca, e falaram: “O Juca, dei dois dribles em você”. Ai me apelidaram de Cafuringa, e com o tempo foram acostumando só com Cafu, Cafu, Cafu, ai tiraram o “ringa”, né, deixaram só o Cafu só.

P - Cafu, muito obrigado.

R – Olha, eu que peço. Agradeço a vocês também essa oportunidade de poder mostrar não só meu lado profissional, né? Porque eu acho que poucas pessoas vão ter essa oportunidade de mostrar o lado ser humano, lado homem, o lado menino, o lado moleque, que apesar de tudo eu sou uma criança também. Porque eu adoro brincar com meus filhos e procuro sempre entender as pessoas. E desde já deixar um abraço a todos vocês.

P - Obrigada.

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