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História

De cachimbos às imagens religiosas

História de: Nelson Ferreira Dias Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/06/2005

Sinopse

Infância em São Paulo. Descrição dos pai, imigrante português que trabalhava na distribuição de pães. A escola e das atividades esportivas. Ida para Portugal e retorno a São Paulo. Revolução de 1932. Trabalho em escritório de representação de artigos importados. Trabalho em fábrica de cachimbos e em laboratório farmacêutico. Aquisição de leiteria e loja de velas. Fornecimento e distribuição do leite. Processo de fabricação das velas e formas de embalagem. Perfil do consumidor e costumes da época. Comércio de imagens religiosas e profanas e fundação da fábrica de imagens. Casamento e filhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Nélson Ferreira Dias Rodrigues, nasci em São Paulo, em 4 de novembro de 1921. Meu pai é Gaspar Ferreira Dias, ele nasceu em Portugal. Minha mãe é Laura Augusta Dias, nasceu em Lisboa, Portugal. TRABALHO DO PAI Meu pai veio ao Brasil para trabalhar em padaria não como proprietário, mas como distribuidor de pão, com carrocinha na rua. Posteriormente, ele passou a ter um armazém de secos e molhados e depois voltou à padaria. INFÂNCIA Nasci na Vila Mariana. Depois de 1923 fomos para a Liberdade, em 1924 fomos para Portugal, onde que eu vivi até 1927. Voltando de Portugal, em 1927, fui morar em Vila Mariana. Posteriormente, morei no Ipiranga e, desde 1936, voltei a morar na Liberdade. MUDANÇA PARA PORTUGAL Fui para Portugal com três anos, voltei com sete, então não tenho essa lembrança. Lembro da casa do meu avô, que era um comerciante em Lisboa. Era um armazém de móveis, de venda de móveis, e ele tinha a residência junto. Lembro que, na volta, quando passamos do Rio de Janeiro para Santos houve um grande temporal, então o navio balançava muito, era o pavor. EDUCAÇÃO Comecei a estudar no Colégio Coração de Jesus, das freiras, em Vila Mariana. Quando fui para o Cambuci – meu pai se estabeleceu no Cambuci com um bar –passei a estudar no Colégio dos Irmãos Maristas. Lá eu jogava futebol. ESPORTES Eu joguei no colégio, fui campeão no torneio dos internos. Depois joguei no Independência do Cambuci, um clube, na categoria juvenil. Também joguei no Ipiranga Atlético Clube e fazia alguns jogos pra Liga Bancária. Joguei pela Associação Comercial de Esportes e joguei pela fábrica de cachimbos que era o Argol Atlético Clube. Então, a minha atividade esportiva foi essa. Depois de deixar o futebol, ingressei no Esporte Clube Pinheiros, onde pratiquei natação, não competitiva, mas ensinei os meus filhos a nadar e posteriormente fui para o Departamento de Dente de Leite. Estive como subdiretor durante quatro ou cinco anos. Depois passei para o Departamento de Vôlei Veterano, onde eu fui mesário durante vários anos e fui também coadjuvante da diretoria. EDUCAÇÃO Estudei em alguns colégios pra depois entrar na Escola Técnica do Comércio e fazer o curso de Contabilidade. Fui presidente do Centro Acadêmico durante três anos, três últimos anos de meus estudos lá. REVOLUÇÃO DE 1932 Na Revolução de 32, eu estudava no Colégio das Irmãs Maristas, no Cambuci, e era escoteiro da Tribo de Escoteiros Tiradentes, também no Cambuci. Uma das grandes lembranças que eu tenho dessa época da revolução foi que o governador de São Paulo, Pedro de Toledo, foi visitar o campo de treinamento dos soldados e eu fazia parte do grupo de escoteiros que estavam ao lado do governador. No discurso, eu estava na frente dele e ele me agarrou pelo queixo. E lembro do fato histórico da revolução em si. A saída das tropas de São Paulo, as mulheres, as famílias todas colaborando para a confecção de gases, de medicamentos, da confecção de fardas para os soldados. A gente como escoteiro ia buscar na casa das costureiras os uniformes pra levar pros pontos de reuniões dos soldados. PRIMEIRO EMPREGO Em 1934, comecei a trabalhar no comércio de São Paulo. Foi o primeiro emprego. Como auxiliar de escritório eu tinha de ir ao correio diariamente buscar correspondência e de quintas-feiras e de sábados eu ficava até o fechamento da mala postal, das companhias Air France e da Lufthansa, que era pra Alemanha ou para a França. Eu era muito loiro, falava francês corretamente porque aprendi no escritório e, de vez em quando, alguém falava comigo em alemão pensando que eu fosse descendente de alemão. Eu respondia em francês. Esse era um escritório de representações na Rua São Bento, onde que tinham várias representações de artigos fabricados na Itália. Tinha relógios, despertadores, pelo de coelho para a fabricação de chapéus. Então eu tinha de ir às fábricas de chapéus pra levar os pedidos pra eles assinarem. A minha patroa me comprou um chapéu pra eu poder ir, porque não entrava nas fábricas se não tivesse chapéu, era o uniforme obrigatório. Tinha perfumes, essências que vinham da Bélgica, queijos que vinham da Alemanha, champanhe da França, casimiras que vinham da Inglaterra. TRABALHO NA FÁBRICA DE CACHIMBOS De lá eu passei a trabalhar na fábrica de cachimbos em 1938. Fui como auxiliar de escritório e auxiliar de contador. Me interessei bastante pelos cachimbos, cachimbo que parece tão simples é uma atividade muito interessante. Nós recebíamos a madeira em tora e tornávamos aquilo num objeto de arte. Um cachimbo tem 34 operações e vai transformando. A indústria de transformação me apaixonou. Em 1941, houve uma exposição em Nova York e por convite do governo brasileiro nós tivemos um stand de exposição, o que redundou em algumas exportações. Nós, durante a guerra, fornecemos cachimbos para o exército inglês. Feito com madeira nacional, que é bem diferente da madeira usada tradicionalmente nos cachimbos europeus. Aqui usamos ipê, embuia, são madeiras menos porosas, têm uma resistência grande ao calor. FUNÇÕES NA FÁBRICA DE CACHIMBOS Comecei como auxiliar de escritório, como auxiliar de contador e passei posteriormente pela produção e cheguei a gerente da fábrica. Toda a produção passava pela minha mão, os pedidos que vinham do Brasil inteiro e exportação vinham ter comigo. Nós tínhamos lá um diretor, o senhor Cornélio, que era o técnico, era a pessoa que mais entendia, mas que ele tinha de estar sempre olhando as ferramentas com o pessoal. Tínhamos uns 30 funcionários nessa atividade. Então, a minha função era cálculo de preço, produção e vendas. EXPORTAÇÃO DE CACHIMBOS PARA A INGLATERRA Pra Inglaterra nós fornecemos ao exército inglês durante a guerra. Nós recebemos pedido por intermédio de um departamento do governo. Nós trabalhávamos até fora de horário pra poder atender. Acho que foram duas remessas que nós fizemos para a Inglaterra. Na época, à noite, tinha os treinamentos de blecaute. Só parávamos as atividades naquele momento em que as sirenes tocavam, tínhamos que fechar as luzes. Parava durante uma meia hora e começava a trabalhar novamente. EMPREGO NO LABORATÓRIO FARMACÊUTICO Da fábrica de cachimbos fui trabalhar no Vicente Amato, que era um laboratório farmacêutico. Fui contratado para organizar o arquivo da empresa. Na época, os papéis eram todos deixados de lado, demorava muito pra ser arquivado. Me deram uma sala, eu organizei todo o arquivo, bolei as pastas, porque na época não existiam arquivos de aço como tem hoje. Tive que mandar fazer prateleiras. Fiquei lá durante dois anos e meio ou três anos. O escritório era na Praça da Liberdade, onde tinha o escritório e distribuição de amostras. Tinha os propagandistas que iam visitar os médicos e lá se controlava tudo. A produção era em Vila Mariana, no laboratório. Minha atividade nunca foi o laboratório, eu ficava sempre restrito ao escritório. De vez em quando fazia alguns serviços para o departamento de compras e para o departamento de amostras do laboratório. Organizei também controle de estoques, é uma atividade bastante interessante. Para sair do Vicente Amato precisei esperar um diretor viajar pra pedir minha demissão, porque eu precisava ir pra loja. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – LEITERIA E VELA A loja era leiteria e velas. Parece meio estranho, mas as velas na época eram feitas de sebo de gado e o leite também vinha do gado, então há um correlato. Aí eu fui pra loja, fui desenvolver um negócio, acabei com o leite e passamos a desenvolver o ramo de artigos religiosos. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – LOJA DE ARTIGOS RELIGIOSOS A loja já existia quando eu trabalhava no laboratório. Nós compramos a loja, meu pai ficou trabalhando e eu ia para o Vicente Amato, que era perto. Nas minhas horas de folga eu estava na loja. Não existia sábado nem domingo, a gente ficava ali, eu, meu pai e meu irmão, que era bem mais novo do que eu. O leite vinha em vasilhames de vidro, umas garrafas que hoje só existe talvez em museus. Tinha umas medidas para meio litro e pra um quarto de litro também. Quem ia buscar levava uma vasilha. Quando acontecia de quebrar um litro cheio tinha-se o prejuízo do dia, porque a reposição do vasilhame e mais o líquido que se perdia era grande, então era um comércio pouco lucrativo e muito trabalhoso. Um dos motivos de acabar com a leiteria foi que tínhamos de distribuir leite aos moradores. A Liberdade era um bairro residencial e com a expansão de São Paulo ela foi perdendo esse vínculo de residência. Então, comecei a desenvolver a parte religiosa. VELAS As velas eram feitas de estearina, é um subproduto do sebo. Do boi tudo se aproveita, inclusive a gordura. Ela era destilada e era feita a estearina. Estearina que vai não só para as velas, mas também para cosméticos, cremes de beleza, cremes de barbear, pasta de dentes. Anteriormente, as velas eram feitas da gordura da baleia, mas o consumo era muito grande, então não dava pra destilar e aproveitar. Depois do fim da guerra, em 1945, as velas passaram a ser fabricadas de parafina, que é uma gordura tirada do petróleo. EMBALAGENS As velas sempre vieram em maços de oito velas, o porquê ninguém sabe me explicar. E vinham em caixas de madeira, nosso grande fornecedor era do Paraná. Vinha de onde tem os maiores matadouros e o aproveitamento do sebo era grande. Eles fabricavam lá e nós recebíamos aí caminhões carregados de caixas de velas. Hoje a caixa é de papelão. Antes as caixas eram de 200 velas, então dava 25 maços em uma caixa. Hoje são 24 maços de oito velas. As velas já vêm de fábrica amarradas de acordo com a nossa necessidade. Nós pedimos de acordo e nos fornecem. A caixa de velas hoje tem 192 velas. Tem várias espessuras, de vários tamanhos, dá uma durabilidade variada de acordo com o tamanho. O nosso consumo na loja é com o fito religioso, tanto católico como espírita. Quase todas as religiões usam a vela para iluminação e para a propagação da fé. Mas no Brasil o grande consumo de velas ainda hoje é para a iluminação, porque não existia a luz elétrica. IGREJA DOS ENFORCADOS Nós estamos ao lado da Igreja dos Enforcados. Essa igreja começou uma grande devoção em 1821. No mesmo local em que está a igreja, havia uma capelinha onde tinha uma forca. Havia pena de morte e ali chamava-se Largo da Forca. Houve um determinado movimento de grevistas de soldados que se revoltaram. Estava um que era José Chagas, ele foi enforcado e a corda arrebentou. Quando a corda arrebentava, a pessoa era perdoada, mas nesse caso, como se pretendia punir o faltoso de qualquer jeito, foi enforcado novamente. O Palácio do Governo, que era no Pátio do Colégio, foi consultado sobre como fazer com esse condenado e mandaram enforcar novamente. Pegaram uma corda feita de couro de boi, que era mais resistente, para tentar enforcar. A corda tornou a arrebentar e o povo então carregou o Chaguinhas. Não se sabe bem qual foi o destino dado a esse corpo, se ele realmente sobreviveu. Dessa época começou a devoção aos enforcados e, posteriormente, a devoção às almas. Todas as pessoas que têm uma alma, um parente morto, e quer homenagear, vai acender uma vela. Começaram a acender ali na Liberdade, foi edificada a igreja. Posteriormente, tinha uma grande procissão em São Paulo, as festas de Santa Cruz, isso talvez tenha sido até 1935. Eram as festas de Santa Cruz e o povo ia lá, fazia homenagem aos seus mortos. Esses são os meus clientes, são aquelas pessoas que vão pedir graças, outros vão pra homenagear seus mortos. ABERTURA DA FÁBRICA DE IMAGENS RELIGIOSAS Com o tempo, fomos ampliando a loja. Então, começamos a desenvolver a seção de umbanda. A pedido de alguns clientes começamos a trazer imagens, inicialmente íamos buscar no Rio de Janeiro, que era o centro mais desenvolvido nos artigos de umbanda, nos artigos espirituais. Fomos desenvolvendo, montei a fábrica de imagens. Inicialmente era só para consumo nosso, mas com o desenvolvimento do ramo passamos fornecer a outras pessoas. Hoje nós fornecemos ao Brasil inteiro e exportamos, principalmente para Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Estados Unidos, África, Líbano, Itália. A fábrica chama-se Imagens Bahia. Nós começamos a fábrica em 1956, num fundo de quintal no bairro do Belém. Fomos ocupando o fundo de quintal, alugamos a casa inteira, alugamos a casa vizinha. Até que em 1968 nós mudamos para Aricanduva, onde temos hoje o depósito. De início nós fabricávamos só imagens de umbanda, algumas imagens religiosas católicas e do candomblé. Na década de 1970, não lembro bem a data, devido à passagem da Avenida Aricanduva, fomos desapropriados. Fomos para Ferraz de Vasconcelos, município da Grande São Paulo. Lá construímos uma fábrica relativamente grande, são 2.700 metros quadrados de área construída em um terreno de 7.000 metros quadrados. Temos mais ou menos 5.000 modelos, 80 operários, já tivemos até 120, e de lá é que saem as imagens todas. PRODUTOS Cada nação na umbanda, no candomblé, tem algumas coisas, alguns produtos diferentes que são usados no ritual. As imagens também têm e se procura fazer de acordo com o ritual do candomblé e o ritual da umbanda, então é essa maior diferença entre os produtos, não na confecção. Pra nós fabricarmos uma peça de candomblé ou uma peça de umbanda, o sistema é o mesmo. CURSOS NA LOJA Nós começamos já há bastante tempo, como nós fabricávamos gesso e uma das linhas do gesso são as peças em branco, tanto religiosas como profanas, temos uma série infinita de peças em branco e nós começamos a ensinar as pessoas a pintar. Essas pessoas que aprendem a pintar vão comerciar suas peças em bazares, em feiras de artesanato. É uma terapia para a mente. Nós ensinamos várias técnicas de pintura, vendemos todas as tintas necessárias, pincéis, material. VENDAS NO VAREJO E NO ATACADO Na loja nós só vendemos no varejo, agora, nós vendemos no atacado diretamente da fábrica. A fábrica tem uma estrutura maior, porque quem compra no atacado não compra pequenas coisas. CASAMENTO Os pais da minha esposa também eram padeiros, amigos do meu pai. A gente começou a se relacionar por conhecimento da família. Na época, ela lecionava piano e eu tinha a minha atividade, meu comércio. Passamos a namorar e o noivado e casamento foram quatro anos, cinco anos. Agora já são 47 anos, sempre vivemos bem, é uma grande companheira. Eu sou rotaryano e a minha atividade no Rotary é grande. Minha mulher também acompanha a gente nas atividades, temos feito uma vida muito agradável. Viajei bastante. Quando os meus filhos eram pequenos, a gente jogava no porta-malas do carro e ia embora. Conheço metade do Brasil. Tenho viajado pra Europa também e temos tido uma vida boa, uma vida "tipão" namorados. FAMÍLIA Tenho três filhos, sendo Míriam a mais velha. A Míriam é formada pelo Santa Marcelina, em Belas Artes, ela já defendeu tese. É professora da Unesp, tem dois, três livros publicados, tem ido fazer muitas conferências no Brasil inteiro, vira e mexe está viajando a convite de faculdades de Belas Artes para dar aulas. A Elisabete foi minha secretária durante alguns anos, depois casou com o cunhado – são duas irmãs casadas com dois irmãos. A Míriam tem dois filhos e a Bete tem dois também. O Nelson, que é o meu neto mais novo, numa das minhas viagens ficou tomando conta da fábrica. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Sempre procurei na minha vida ser um exemplo pra muita gente que está começando. Sempre fui amigo dos meus auxiliares, tenho empregados há mais de 30 anos trabalhando comigo. Se isto foi proveitoso pra alguém eu acho que é válido.

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