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História

De Bau: livro que não acaba mais!

História de: Roberto Francisco de Bau
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/03/2021

Sinopse

Infância em São Paulo capital. Relembra muitas brincadeiras de rua, como o pega-pega. Migração com o pai para Bauru devido a uma doença. Conta sobre o seu casamento e a troca de alianças. O seu pai vendia próximo da Sé álbuns de figurinhas e gibis, foi também zelador. Lembranças da escola. Roberto trabalhou por um tempo como moto entregas. Lembranças da Elis Regina e do seu filho, João Marcello, que conheceu pessoalmente e eram amigos. Em sua loja há a venda de vários discos raros. Hoje trabalha com publicidade on line. Chegou a vender muitos livros para outros países como Portugual e Japão.

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História completa

          Meu nome completo é Roberto Francisco de Bau, nascido dia 4 de agosto de 1962. Sou da gema, pois nasci no Itaim Bibi, em São Paulo. Meu pai é João Francisco de Bau. Ele faleceu com 94 anos no ano passado; morreu trabalhando no outro sebo aqui do lado, meu vizinho. Ele que construiu tudo isso aqui, e eu estou dando continuidade. Minha mãe se chama Maria Estela da Silva Bau. Meu filho andou puxando o nome, e o sobrenome é judeu. Ele foi atrás da árvore genealógica e chegou até aquele filme, A Lista de Schindler. Mas a minha família, do meu pai, meu avô, são todos negros. Eles são altos, e só eu que nasci pequenininho, mas o meu avô era muito alto.

          Meu pai fez a vida em São Paulo, viveu em São Paulo e amava São Paulo. Fez a vidinha dele, através de ser zelador - sempre trabalhou na área. E em São Paulo ele começou a trabalhar em banca de jornal e zelador, na Rua Barão de Campinas, esquina com a Alameda Glete - foi a minha infância ali, perto da Folha de São Paulo. Na esquina na Alameda Glete tinha uma banca de jornal que era do meu pai. Eu era pequenininho, e meu pai que contava isso aí para mim. Vendia muita figurinha, tinha muito Tarzan, aqueles álbuns antigos que agora, no sebo, são raros.

          E numa época, a Elis Regina comprou um apartamento lá no Edifício Melo Alves, onde meu pai era zelador. Todos os zeladores de São Paulo, antigamente, podiam morar lá em cima, no último andar ou no térreo – e a gente morava no térreo. A Elis Regina mudou para lá com os filhos: João Marcelo, Maria Rita, Pedro Mariano. E meu pai, sempre cativante, comunicativo... a Elis Regina gostou do ‘seu’ João. Então o João Marcelo descia para andar de bicicleta, e eu tinha um black power enorme, (risos) tinha uma Mobilete vermelha, andava com aquela jaquetona, calça Lee, frequentava a Chic Show, com aquelas danças dos anos 80... aí ele começou a descer direto e não desgrudou mais de mim, o João Marcelo. Ele falava muito de música, de James Brown, Earth, Wind and Fire, tudo ele tocava. Aí eu tinha que falar com a Dona Elis Regina: “Dona Elis, seu filho quer ir comigo”. Eu subia lá, e ela estava toda descabelada, com aquele cigarrão do lado assim (risos). Ela não estava nem aí com a vida brava.

          E assim foi, que meu pai conjuminou o trabalho de zelador até eu casar. Casei, e meu pai continuou como zelador, ficou lá mesmo em São Paulo, e a minha esposa resolveu vir para Bauru. Cheguei aqui e comecei a minha vida em Bauru. Quando eu vim, olhei o céu - é um céu diferente, no interior é um céu azul, e em São Paulo é mais nubladão. Eu me encantei com o céu de Bauru. Aí eu comecei a trabalhar aqui na Editora Alto Astral, nas empresas daqui.

          Foi aqui em Bauru que eu comecei a me apaixonar mesmo por sebo. Meu pai veio pra cá também e começou a trabalhar de porteiro. Aí ele comprou uma banca de jornal na Rua Treze de Maio, onde eu tenho o meu sebo aqui agora, mas era mais para cima um pouco, na mesma quadra. Uns 30 anos atrás, ele começou na banca: fazia jogo de bicho, vendia Julia, Sabrina, aqueles livrinhos de bang-bang. Ele era muito cativante, devido à recepção do zelador em São Paulo, ajudava as pessoas - a comunicação dele era excelente, maravilhosa. E aí foi que o pessoal descia para o centro e: “Senhor João, uma doação para o senhor”. E começaram a doar livros, deixavam lá - eram saquinhos, eram caixas, começou a encher a banca e não cabia mais.

          E aí meu pai, como ele não para quieto, começou a aumentar a banca atrás. O serralheiro vinha e aumentava um pedacinho. Parecia um João de Barro: fazia os pedacinhos e tampava, tudo do jeito dele, meio rústico. E aí eu fiquei desempregado e comecei a ajudar lá. Eu que manobrava os carros do estacionamento que havia atrás, e livro chegando, livro chegando, colocava nas paredes, arrumando como dava... começamos a vender, e eu passei a olhar com outros olhos os livros.

          Meu pai conversava com todo mundo, desde um doutor, desde um promotor, até uma pessoa humilde - todo mundo que encostava ali, parava e conversava com ‘seu’ João. E agora ele faleceu, mas até hoje chega gente para falar do ‘seu’ João, para falar meus pêsames, pois um ano já passou, mas as rádios aqui o homenagearam: a Jovem Pan News, a 96 FM, o Facebook, os estudantes... eu não sabia que a proporção era tão grande, os estudantes falando do ‘seu’ João, que eram gratos. Inclusive, quando o pessoal não tinha dinheiro para comprar, meu pai falava: “Leva, vai estudar e me traga o diploma. É isso que eu quero, vai estudar lá, me traga o diploma e está tudo certo”.

          Mais tarde, um grupo grande de Bauru comprou o terreno para fazer um shopping, e eu aluguei o prédio aqui, de dois andares. Comecei a trazer o material da banca, mas o rapaz falou que eu tinha direito à parte de cima também, que eu não conhecia. Lá em cima é enorme, e eu falei: “Como é que eu vou encher isso aqui de livro?” Mas aí foi indo, e eu enchi, estou transbordando de livro, pois não tem nem onde andar aqui dentro.

          Mas aí meu pai não quis ficar comigo e abriu o outro sebo na Avenida Rodrigues Alves; ficou uma par de tempo lá - quase 23 anos lá, sempre competindo comigo.

          Catalogar livro, a gente cataloga. Tem uma mocinha que está há muito tempo com a gente que cataloga - já temos quase 200 mil itens catalogados aqui. Mas isso é mais ou menos um quarto do acervo, porque o acervo é muito grande, então não dá para catalogar tudo. A gente tenta colocar nas prateleiras por áreas, mesmo assim transborda. Entrei também na Estante Virtual e estou há quase 15 anos com eles lá. Isso aí que está me ajudando um pouco a sobreviver. E os discos também, tudo por caixa: eu ponho nos engradados, porque eu tenho pouco espaço, e divido em MPB, rock, sertanejo, tudo assim, tudo em engradado de frutas.

          Eu também tenho essa linha de materiais antigos, raros. Fica num saquinho plástico, de 1800 e pouco, uns livros bem antigos mesmo, de vários temas. Tem muita coisa interessante. Eu já mandei livro pra Austrália, já mandei livro para o Japão, para Portugal, fora do Brasil mesmo, né? Para o Japão, eu mandei por muito tempo e deu uma parada agora. Para a Austrália, eu achei interessante: uma pessoa comprou um livro, um romancinho lá de Sidney Sheldon, mas pagou quase sete, oito livros a mais, (risos) para poder mandar esse livro. Eu achei: “Mas porque uma pessoa quer comprar um livro, né?” Comprou um livro de dez reais, para pagar quase cem reais de frete. Portugal também, eu sempre mandei bastante coisa pra lá.

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