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História

De agora em diante você vai ser o Belmiro Maluco

História de: Sebastião Romeu da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Belmiro é o nome de guerra de Sebastião Romeu da Silva, carioca da gema, nascido no ano de 1934. Ele se tornou bombeiro quando o Rio de Janeiro ainda era a capital do país e foi transfeiro para a nova capital quando Brasília foi inaugurada. Foi assim que ele recebeu a nova alcunha de Belmiro.

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História completa

Nasci em 28 de dezembro de 1934, natural do Rio de Janeiro. A lembrança que eu tenho de meu pai é que era um cidadão muito bom, foi um bom pai pra nós, por isso que eu estou com essa idade hoje e seguindo tudo o que ele fazia no Rio de Janeiro. Ele também era um lutador em um bairro no Realengo que chamava Vila Vintém, hoje Padre Miguel. Eu queria ser era marinheiro, a minha avó não queria. Ela dizia que meu pai era bombeiro, a minha família quase tudo era bombeiro e ela não queria, porque ser bombeiro era perigoso, ela tinha medo. “Então vou pra Marinha.” “Não, pra Marinha tu não vai, não, que tu vai viajar e vai ficar fora de casa.” Daí que eu fui para o Exército. Quando eu saí do Exército, me inscrevi no Corpo de Bombeiros, fui chamado e fui pra lá. E tem um detalhe muito interessante. Pedi a meu pai para assinar a carta para eu ser bombeiro. Ele disse: “Eu não vou assinar, não.” “Por que, papai?” “Porque você é muito boêmio e lá tem que ser sério, você tem que estar lá na hora e tu vai ficar preso nesse troço todo dia, eu não vou assinar nada que eu não vou passar vergonha”, que ele era capitão do corpo de bombeiro reformado. Eu: “Tá legal, não tem problema, não”. Fui passando no beco, tinha o meu tio que era dono da oficina: “Ô rapaz, o que tu tá fazendo aí?” “Eu vim pra pedir a papai assinar para ser bombeiro e ele não quer assinar.” “Me dá esse troço aqui!”, e assinou. Fiz as provas, passei. Quando cheguei em casa com a farda de bombeiro, meu pai me disse: “Eu vou te prender! Tu saiu do Exército, está vestindo a farda do teu irmão!”, que meu irmão também era cabo do bombeiro. E eu tirei os 30 anos de bombeiro.

  A história mais engraçada que me lembro dos bombeiros foi de um maluco aí, que eu sou Belmiro até hoje por causa dele. Teve um chamado, aí fomos para um bairro e chegou lá o camarada estava em cima do telhado, querendo se suicidar. Primeiro ele queria cortar a mãe dele com a gilete, aí correram atrás dele, ele subiu para o telhado e ficou lá. E nós fomos pra tirar ele. Chegou lá, estava polícia, todo mundo cercando a casa.  Aí colocava a escada e ele empurrava. Eu disse para o tenente: “Vou subir lá, pode deixar”. Eu estava já pensando no que ia fazer. Peguei a escada, subi. Quando cheguei perto, eu disse a ele: “Não empurra não, eu sou teu amigo. Você está vendo que eu não sou polícia, não tenho arma, não tenho nada”. Depois de muito tempo deixou passar pra perto dele, pro telhado. Eu falei assim: “Você quer descer daí?”. “Não, eles vão me matar lá embaixo, vão me prender, vão me matar.” Eu disse: “Ninguém vai te matar. Tu vai fazer o seguinte, eu vou tirar a minha farda e vou vestir em você, tá legal? E você vai me dar a tua bermuda para vestir”. E assim eu fiz. Aí eu disse: “Faz o seguinte: quando você for descer a escada, diz: ‘Ó, segura a escada que o Romeu vai descer’”. Ele disse: “Mas eu não sou Romeu, não, eu sou Belmiro”. Eu disse: “Não, rapaz, você é Romeu, desce, rapaz”. Aí ele desceu. Aí tinha um cabo que era muito gozador, gostava de botar apelido nos outros: “De agora em diante você vai ser o Belmiro Maluco”. Quando chegou no quartel, o comandante: “Conta a sua história pra mim”. Aí eu contei. Ele disse: “Então de hoje em diante”, arrancou a tarja do meu peito, “agora eu vou botar é Belmiro aqui”. E até hoje, qualquer um que chegar dentro do Corpo de Bombeiros e perguntar pelo Sebastião Romeu da Silva, ninguém vai conhecer, só conhece por Belmiro.

  Eu saí do Rio de Janeiro pra vir pra Brasília, que o Corpo de Bombeiros daqui é federal. Nós fomos transferidos pra cá, em 60, na inauguração da Capital. Mas eu só vim pra cá em 64, passei quatro anos indo e voltando. Quando os quartéis começaram, aí viemos todo mundo embora pra cá. Morei em Sobradinho, na Quadra 14. Eu pensei encontrar uma cidade igual ao Rio de Janeiro... encontrei foi mato. E até 68, 70, não tinha nem o Eixão. O Lago Sul, Lago Norte, era tudo mato, não tinha nada lá. O que tinha era somente o Palácio da Alvorada, o Congresso Nacional e alguns ministérios. Fiquei surpreso, porque aqui não tinha nada mesmo. Lá no Rio tinha lugar pra gente dançar, aqui só boteco pé-sujo. Tinha uma escola de samba, a Unidos de Sobradinho. Aí eu digo: “Quer saber de uma coisa?”, reunimos lá os bombeiros, “Vamos fazer uma escola de samba aqui?”. “Vamos.” “Vamos escolher o nome.” Nome daqui, nome dali, eu disse: “Vou botar Bola Preta”. E está aí até hoje. Ainda existe em Sobradinho, cresceu e muito. Esse ano mesmo ela foi vice-campeã em Brasília.

  Já tinha ouvido falar da Fercal mas só no capim-gordura que existia aqui. E a Pedreira Contagem. Aí depois foi feita a fábrica de cimento Tocantins. Cheguei na Boa Vista em 83. Aqui só tinha cinco famílias, tradicionais daqui. Tanto que eu entrei aqui como estrangeiro. Quando dona Maria Alice me chamou pra fundar a associação, eu disse: “Dona Maria Alice, mas eu não sou daqui”. “O senhor não é daqui, não, o senhor mora aí, o senhor é daí. O único que tem aqui pra ser presidente e fundar a associação é o senhor.” Foi como a gente começou, fizemos uma reunião, fizemos um estatuto e fundamos. E aí, como é que vai ficar isso aqui? Porque aqui era uma fazenda, Fazenda Boa Vista. Eu digo: “Bom, vamos fazer o seguinte, vamos botar um nome nela, ‘Comunidade Boa Vista’”, está nos estatutos de todo lugar.

  E eu cheguei aqui por acaso... Aí eu me aposentei e vim pra cá. Pra fazer o que hoje estão vendo aí foi muita luta. Eu não parava em casa. Estava lá no Palácio da Alvorada, estava no Buriti, estava andando atrás de benefícios para aqui... Juntou o pessoal mais antigo, me elegeram por aclamação presidente da associação. A primeira eleição foi por aclamação, a segunda e a terceira por voto.

  E estou até hoje, porque qualquer coisa que precisa da comunidade, sou eu que tenho que resolver. Até eu estar bem de saúde e poder. Eu nasci numa chácara. Então eu voltei para uma chácara. Tanto que quando eu estava no Corpo de Bombeiros e o pessoal perguntava: “Quando você reformar, Belmiro, você vai voltar para o Rio de Janeiro?”, eu dizia: “Não, eu vou comprar uma chácara e vou criar galinha”. É o que eu estou fazendo hoje.

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