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História

Das seringueiras nasceu Iara

História de: Iara Souza Vicente
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/02/2020

Sinopse

Em seu depoimento Iara conta como brincava de expedições e lia livros, enquanto escutava conversas sobre política e meio-ambiente na varanda da casa da sua vó. Compartilha histórias sobre os povos da floresta, que ouviu e vivenciou: que o seringal onde seu tataravô morou é o único seringal urbano do mundo; que conheceu a escola original do Projeto Seringueiro do Chico Mendes; que ouviu da boca de Marlene Mendes como ela criou o empate, a técnica que os seringueiros criaram para a não-violência; que acompanhou de dentro do Congresso Nacional as votações do código florestal; que denunciou os retrocessos ambientais na conferência internacional Rio+20. Faz questão de dizer que em meio a sua trajetória, além de muitas conquistas, teve muito medo e insuficiência, e que não devemos fingir que essa parte não é relevante na nossa vida. Narra com orgulho e carinho as histórias de luta e senso de comunidade do estado Acre, e como a curva do rio do seringal Pirapora, para ela sua família, é um lugar de felicidade.

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História completa

P/1- Então, você pode falar qual o seu nome, o local e a data de nascimento, a sua data de nascimento?

R- Meu nome é Iara Souza Vicente, nasci no Acre.

P/1- E a data?

R- A data? No dia vinte de abril de noventa e dois. 

P/1- Tá. E qual que é o nome dos seus pais? Do seu pai e da sua mãe.

R- O nome do meu pai é Carlos Antônio Rocha Vicente e o da minha mãe é Sônia Amélia Pontes de Souza Vicente.

P/1- E o que os seus pais faziam? Em que que eles trabalhavam?

R- Minha mãe foi militante durante um tempo, né, trabalhava tanto em política, quanto serviços relacionados, assim, já deu aula também, mas ela é professora de formação e o meu pai é engenheiro florestal de formação, mas também vivendo nesse mundo, né, dos movimentos sociais ambientalistas. Então, ele foi secretário de Floresta e Extrativismo do primeiro governo lá, né, do PT, lá no Acre e tem trabalhado nesse tipo de projeto.

P/1- E o que vocês costumavam fazer juntos? Contar uma história, assim, que te lembra de você e seus pais, essa vida de vocês, como você cresceu. 

R- Hmmmm, tá. Desculpa, eu estou nervosa. (risos)

P/1- Não, não tem problema, imagina. A gente está conversando. O que você quiser contar: quais os costumes da sua família, o que você lembra...,

R- Bom, eu cresci na casa, uma casinha de um cômodo só, que ficava no fundo da casa da minha avó, né, lá no Acre. Depois que o meu pai voltou do mestrado dele, a gente foi morar lá, que a minha família tinha vendido tudo e acabamos morando lá durante um tempinho, mas são essas as memórias mais felizes que eu tenho, assim, da minha infância. Porque tinha um quintal enorme e o meu pai inventava várias coisas, várias escavações, caça ao tesouro e era muito próximo do epicentro da minha família, né, da minha avó, dos meus tios. Então, a gente passava muito tempo juntos. E, como eu era a primeira criança, todo mundo me tratava mais ou menos como um adulto. Então, como a família toda estava meio que na militância, tinha os debates de conjuntura, né, as brigas, as separações entre, enfim, os movimentos, nanana. E eu estava ali, vivendo tudo aquilo e me achando parte, dando opinião, sabe, então, foi uma época que eu brinquei muito, na minha família, eu sempre brinquei muito, mas sempre brinquei muito com coisa séria também. Eu lembro que uma vez, quando a gente morava nessa casinha, meu pai chegou pra mim com um livro, Como ler o Pato Donald, que é uma crítica, né, ao colonialismo implícito dentro das histórias. Então, eu estava lendo Turma da Mônica, aí eu ia ler o Zé Carioca, né, aquele personagem da Disney e lia isso e lia O Mundo de Sofia também, que aliás, o meu pai ganhou de presente, mas eu pegava os livros deles, porque eu não entendia que tinha essa coisa, né, de livro pra adulto, livro pra criança. E eu brincava com aquilo como se fosse uma coisa, como se fossem coisas todas do mesmo mundo. Então, eu lembro de brincar... no livro O Mundo de Sofia a protagonista tem uma troca de cartas, né, com esse estranho e ela troca as cartas no jardim e aí eu fazia isso no jardim da minha vó e brincava de fazer comício, sabe, imitando a Marina Silva, brincava de... ‘ah, vamos”, tipo a Argentina estava em crise na época e aí eu juntava assim os meus tios e dizia: “Vamos resolver a crise da Argentina”, sabe? (risos) Mas ao mesmo tempo com muita leveza. Eu fui uma criança muito feliz, meus pais sempre me deram muito, a gente não tinha muito, mas sempre fui muito acolhida, assim, então tenho uma lembrança muito feliz dessa época. 

P/1- E essas brincadeiras você fazia com quem, que você brincava? Que você mencionou o seu tio, com quem mais você brincava?

R- O comício eu botava todo mundo pra assistir, (risos) até o dia em que eu fui proibida pela minha mãe, porque eu brincava de Marina Silva, mas eu era uma Marina Silva mais hardcore, assim. (risos)

P/1- É? E como que era isso?

R- É porque a gente tinha um problema muito grave da corrupção, né, enfim, de políticos famosos que eram envolvidos com desrespeito aos direitos humanos, com violência na cidade contra ativistas e tal. E aí, eu falava sempre nos meus discursos, no comício, que eu ia prender fulano de tal, que fulano de tal era um ladrão. E até aí tudo bem, ficava todo mundo da minha família, porque são cinco irmãos, mais os primos, mais os tios, né, todo mundo, eu assim, na varanda da casa da minha vó e eles lá embaixo e eu lá discutindo: “Porque eu vou mandar prender o fulano de tal, o fulano de tal é um ladrão”, eu gritando pra rua, e era uma casa no centro da cidade (risos). Naquela época, né, que não era, quando eu era criança, tão violento, mas ainda não era assim tranquilo de se fazer esse tipo de coisa. Mas, enfim, aí a minha mãe, um dia, cortou essa brincadeira, porque eu estava achando muito monótono, né, os meus discursos, aí eu disse: “Ah, eu vou mandar prender o fulano, prender não, eu vou mandar matar!”. E aí eu estava com uma... o meu microfone era uma escova dourada, sabe, daqueles kits de princesa que vendem de um e noventa e nove? Aí a minha mãe subiu no palanque e tirou o microfone da minha mão e disse: “Acabou! Você não vai é matar mais ninguém, não vai brincar disso nunca mais!”. E aí eu tentei fazer comícios depois sozinha, mas a minha base disse: “Não, minha irmã, tua mãe não deixa, Iara, a gente não vai mais fazer isso” (risos). E assim acabou a minha carreira na política. (risos)

P/1- E que época era essa? Você falou essa época que não era tão...

R- Ah, isso foi já... eu tinha, deve ter sido em 99, né? Em que, enfim, o Brasil já estava... não era mais aquela coisa que era tão fácil desrespeitar os direitos das pessoas, assim como no Acre era muito comum de terem represálias físicas, de violência aos ativismos vários, mas também, enfim, na Amazônia, esse tipo de ambiente nunca meio que se dissolveu, essas tensões. Então, claro que não... (risos)

P/1- E que histórias, seus pais, seu pai e a sua mãe te contavam, que você mencionou ali, né, nas fotos, que eles te levaram à uma casa, né, do projeto lá dos seringueiros. Você pode... que tipo de histórias contavam, de como que era o Acre?

R- Ah, sim. Eu participei de muitos desses momentos, assim: estava rolando reunião, eu estava sentada embaixo, brincando de (barra?) _____________ [8:16], sabe embaixo da mesa, e também os pós-reuniões, né? Enquanto eles iam vivendo os desafios da política, de, enfim, sair daquela coisa muito ideológica, pra algo que fosse mudar na prática a vida das pessoas, tinha muitas conversas até tarde da noite, né? Nós, ali, na varanda da minha vó, embalando nas cadeiras de balanço e, enfim, discutindo com amigos e eu sempre lá, ouvindo, procurando pegar, né? E também os meus pais, ao longo da vida, assim, sempre gostaram de contar com um certo saudosismo. Inclusive, eles se conheceram, estiveram no mesmo congresso da UNE, que ambos estiveram, mas eles não se conheciam ainda, não foram se conhecer ainda por mais de dez anos depois. Minha mãe estava lá porque ela era militante partidária, e o meu pai estava lá porque ele era muito humilde, né, então era a chance dele viajar e ele entrou no ônibus e foi. E era isso. (risos). E os dois estavam lá nesse congresso, no qual... olha a história! O meu pai (risos) não entendia muito o contexto, né? Era aquele restinho da ditadura, ainda tinha muita repressão, mas ele tinha anotado, tinha feito amizade com alguém no ônibus, indo nesse congresso, né, que era um congresso ilegal e essa pessoa era um policial infiltrado. E aí o policial começou a roubar as coisas dele, as anotações. Só que meu pai não era uma pessoa politicamente engajada, né, então a caderneta que o policial disfarçado roubou dele, tinha coisas tipo listas de compra, né, cenoura, batata, coisas que ele ia comprar quando voltasse pra Universidade Federal do Rio de Janeiro, né, pra continuar a vida dele de estudante, enfim, lista de supermercado. E aí o meu pai estava me contando essa história do dia que o policial, né, roubou a lista de compras dele no meio do congresso da UNE e a minha mãe veio do outro lado da casa, já em Brasília, falando assim: “O quê? Aquele era você? Eu não acredito!” E começaram a discutir, assim, amorosamente, mas discutiam, eles descobrindo que estavam nessa mesma coisa. E a lembrança que a minha mãe tinha desse dia foi... porque os estudantes descobriram, né, que o cara era uma pessoa infiltrada e aí eles lincharam esse policial que estava lá disfarçado e tudo. E aí foram pegando na bolsa do rapaz objetos que ele tinha roubado, né, tentando incriminar as pessoas, inclusive essa caderneta do meu pai. E aí eles abriram a caderneta e começaram a ler, assim: cenoura, batata. O pessoal do lado da minha mãe pensou que eram codinomes, coisa táticas, enfim, códigos e o meu pai sabia que era basicamente uma lista que ele tinha feito pra voltar e se alimentar quando voltasse pra casa. E aí ele foi, o pessoal perguntou: “De quem é isso aqui?” Ele levantou a mão e aí ele foi ovacionado: “O companheiro que estava sendo perseguido, mas nós conseguimos! Companheiro, não tema, estamos juntos!”. (risos) E minha mãe estava lá, né, na militância, enfim. Então, esse tipo de história, essa foi uma história que os dois me contaram em momentos diferentes, por pontos de vista diferentes e aí, depois, eles descobriram que eram personagens da mesma história. E como essa, teve várias, assim. Inclusive a que eu te contei na outra sala, do Projeto Seringueiro, que foi uma história que eu ouvi de várias pessoas, assim, mas nesse dia a gente estava no Seringal Cachoeira, que foi onde o Chico Mendes morou, né, e lá eles me levaram pra ver a escola do projeto Seringueiro, a escola original. Hoje em dia não existe mais, demoliram, reformaram. Mas aí eles me contaram, né, que a estratégia do Movimento foi pegar esse dinheirinho que tinha pra construir uma escola de alvenaria, duas no máximo, e usar todos os materiais de construção que eles pudessem, da floresta, pra maximizar aquele dinheiro ao máximo. E, no final das contas, acabou virando um projeto que levou escola para todos os seringais do estado do Acre, e depois, essa rede de escolas foi incorporada à rede pública, muito antes do pessoal ligado ao Chico Mendes entrar no governo, muito antes, né, de ter eleito sequer um vereadorzinho. Então, é uma coisa que foi uma grande lição, assim, pra mim, porque dentro desse jeito meio improvisado de fazer política, né, que as mesmas pessoas que têm uma convicção enorme, às vezes, simplesmente são perseguidas por estar com uma lista, né, de compras. (risos). Mas essas coisas, essas anedotas, o lado real, né, do que depois virou história, foram muito importantes pra eu começar a entender como eu, como uma pessoa normal, poderia, um dia, tentar mudar o mundo, né?

P/1- E o que você lembra, assim, dessa escola? O que você sentiu, o que você viu, quando você conheceu?

R- A minha sensação foi: “Nossa! Existe mesmo!” E aí eu já os mandei sentarem na escadinha, né? Eu tirei essa foto, que emocionou muitos dos outros companheiros deles também, porque acaba que foi um dos últimos registros antes da estrutura original ser demolida, né, e ser construída em alvenaria, assim. Mas é isso: eu lembro de ter sentido uma emoção muito forte e tinha uma diferença, porque na época eu já estava morando em Brasília, já estava militando, né, e já era adulta. Mas eu via que tinha uma coisa ali, uma certa integridade, algo assim genuíno que, muitas vezes, falta nesse contexto de movimento mais urbano, principalmente na minha época de universidade, né, no movimento estudantil, assim, eu percebia diferença entre as palavras que eu me esforçava pra aprender ali, que eram coisas da tática, mas da tática local, vivencial, sabe, comparado com os nossos intelectualismos de universidade, olhar em volta e perceber, mesmo, no território, foi um dos meus grandes marcos, assim, porque eu pensei: “É isso, é isso. Esse é o tipo de legado que se constrói, que muda a vida das pessoas”, né? Pra além de uma crítica que você vai escrever e alguém vai ler e dizer: “É, é, é mesmo. Concordo”, sabe? Foi aí que eu comecei meio que a perceber: é isso, a gente tem que fazer vários “projetos seringueiros”, sabe, as pessoas precisam saber que isso é possível, a gente precisa contar essa história. Mas tinha também as histórias, eles contavam muitas histórias da época jovem de militância, né? Tinha um lugar lá no Acre, chama O Casarão, hoje é até um centro cultural, mas era um lugar onde diziam que era proibido falar de política, proibido brigar por política na verdade. Então, todos os setores de esquerda acreana, do PV ao PC do B, o PCB, as várias tendências do PT, todo mundo ia pra lá pra encher a cara, dançar forró, conversar e deu muito certo, assim, que é uma coisa que a gente, durante muito tempo no Brasil não teve, né, pelo menos, assim, na minha geração, essa convivência saudável entre pessoas das diversas tendências e tal. E eles falam disso com muito saudosismo, embora tivesse os seus momentos também, né? Eu lembro de um pai de uma amiga conversando: “Ah, porque O Casarão funcionava assim, assado e dava tudo certo, ninguém brigava, até o dia que o Silvio Margarido, que é um cineasta acreano, atacou uma bomba lá. Mas, tirando isso, tudo bem”. (risos) E eu achava muito incrível, assim né, como essas pessoas normais, né, uma hora estavam fazendo bombas, a outra estavam discutindo se a revolução deveria ser democrática ou armada, e realmente discutindo isso, sabe? Sem aquela arrogância desonesta de quem finge estar discutindo uma coisa que, na verdade, todo mundo sabe que não acredita, todo mundo sabe que não se considera mesmo realidade. Eles consideravam, né? Tanto que tudo o que estava ao alcance do Movimento ali, foi feito. Antes do PT eleger um vereador, a gente já tinha todas as reservas extrativistas do Acre demarcadas, né? Isso, enfim, esse microcosmos assim da política lá na nossa esquinazinha da floresta, eu lembro com muito carinho sempre. 

P/1- E aí, retomando, e as origens do seu pai, da sua mãe, né, pra eles chegarem? O que eles te contavam? Como que eles chegaram até aí? Quem são?

R- Minha mãe é filha de uma família que veio do nordeste, né, na verdade. Espera, deixa eu recomeçar. A família da minha mãe é do Acre mesmo, o meu pai vem de outro estado, vem de Cabo Frio. E a família da minha mãe esteve sempre muito envolvida na história do Acre, inclusive, assim, na própria guerra, no conflito que teve, né, entre os bolivianos e os brasileiros, pra que o Acre fosse parte do Brasil, então. E aí nós fomos um país por três meses, porque mesmo tendo vencido a Bolívia, o Brasil não queria integrar o território com plenos direitos pro cidadão, né? O que eles queriam, eles disseram assim: “Ah, não. Tudo bem, esse lugar é Brasil, mas vocês não são brasileiros”. E aí, escreveram, o pessoal disse: “Tudo bem, se a pátria não nos quer, criamos outra. Viva o Estado Independente do Acre”. E o Acre foi um país por três meses. E meu bisavô lutou na Revolução Acreana. O seringal onde ele morou e onde a minha bisavó morou - aliás, o meu tataravô, né, o meu bisavô era filho dele - ainda existe, é o único seringal urbano do mundo, na verdade, que é o Parque Capitão Ciríaco. Então, a minha mãe cresceu assim, na floresta, o lugar dela, não tem aquela coisa que o pessoal fala assim: “Ah, o meu lugar !”. As pessoas não têm o seu lugar feliz, mental? O lugar de felicidade mental da minha mãe é na curva do rio do seringal Pirapora, que é onde muitos familiares meus ainda moram, tem um banquinho, assim, e você fica olhando a curva do rio ali. Então, a minha mãe é uma pessoa que tem essa vivência, né? Ela cresceu ali, nos seringais, e muito próxima à floresta, muito próxima à vida rural. E aí, na adolescência, com o meu tio que era o mais velho, o tio Marcos Afonso, começou a se interessar por política, começou a ler os livros que vinham contrabandeados, vamos dizer assim, e começou. Aí ele lia e obrigava todas as irmãs, que eram mais novas, a ler também. Inclusive, minha mãe disse que começou a perceber que a família dela não era muito normal, quando... sabe aquelas feiras que o pessoal na escola manda uma criança ler um livro e aí ela, depois, tem que fazer uma maquete, né? Aí tinha gente fazendo da Cinderela, Chapeuzinho Vermelho. E o trabalho das minhas tias, que elas eram de uma idade próxima uma da outra, era sobre o socialismo na Albânia. (risos) Então, era uma maquete que tinha a indústria e aí tinha os camponeses, sabe? (risos) O meu pessoal sempre levou muito a sério. Então, no momento que o meu tio começou a perceber isso e começou a militar, ele colocou a minha mãe dentro desse mundo e eles foram, seguiram, né, trabalhando por essa mudança que tanto acreditavam. O meu pai já chega no Acre um pouco depois, ele cresceu no Rio de Janeiro, né, no interior do Rio de Janeiro, na cidade chamada Cabo Frio, na Rua Turquia, onde a minha avó mora até hoje, que é um bairro bem simples. Meu pai já passou por muitas, muitas dificuldades financeiras, crescendo, né? A minha família, é família trabalhadora de ambos os lados, assim, mas a minha mãe, apesar dela ter tido muitas dificuldades, a minha avó se separou do meu avô e eles já tinham pouco juntos e separados aí não tinham quase nada, mas era aquela coisa: você ser pobre numa cidade pequena, com uma certa proximidade à natureza, é muito diferente de você ser pobre na cidade grande. No contexto urbano, tudo o que você precisa ter, pra ter o mínimo de coisinha, o mínimo de condição de viver e tal, você tem que pagar, tem que , enfim, estar inserido naquele lugar. Então, o meu avô trabalhou nas minas de sal, né, nas salinas, durante muito tempo e a minha avó trabalhou de tudo um pouco. E o meu pai trabalhou muito quando era criança também, trabalhou em feira, catou latinha pra ajudar a família, porque era muito difícil mesmo a condição financeira. Apesar de tudo conseguiu, com a ajuda da minha avó, que conseguiu uma bolsa de estudos pra ele naquela escola dos ricos, né, e o levava todos os dias na garupa da bicicleta dela, cortava a cidade, contra o vento, pra leva-lo pra escola e aí o pegava todos os dias. E lavava as roupas do diretor da escola como pagamento pelo estudo do meu pai e isso, além de todo o serviço que ela já fazia como empregada doméstica pra sustentar, né, a casa, enfim. Meu pai, mesmo com essa dificuldade toda, conseguiu fazer universidade, foi o primeiro da família, mas pro choque da família, ele foi fazer Engenharia Florestal, que era uma época que ninguém sabia, era um curso que nem ele mesmo sabia o que era, assim. Então, foi a mão do destino mesmo guiando, porque foi isso que o levou ao Acre, né? Foi aí que ele conseguiu encontrar a minha mãe, e por isso eu nasci.

P/1- Uau! 

R- Mas, uma história que tem muita dor no meio também, assim. Ele se formou Engenheiro Florestal, nesse meio tempo conheceu o Jorge Viana, que era, na época, só um menino jovem que falava dos seringueiros, na época que todo mundo na Engenharia Florestal só falava de pinus e eucaliptos, tinha um maluco lá que falava dos seringueiros. Esse era o Jorge, né? E aí, num momento muito difícil da vida do meu pai, onde ele volta pro Rio de Janeiro pra trabalhar e aí enfrenta aquela... ele percebe que, mesmo tendo estudado, a forma como o sistema trata não muda tanto, né, ainda mais uma pessoa negra, num ambiente de trabalho daquela época. E, após ser injustamente acusado de furto no ambiente de trabalho, ele resolve voltar pra casa dele e ser pescador, depois de tudo o que passou, né, das várias dificuldades pra poder estudar. E quando ele estava lá, sem perspectiva nenhuma de vida, liga uma pessoa e fala que tem uma oportunidade de trabalho pra ele ir pro Acre. Naquela época, né, não tem internet, mal tem telefone, principalmente as pessoas mais humildes, e ele se tacou pra lá, porque ele disse: “É isso, não tem nada pra mim aqui, essa é a minha chance de fazer alguma diferença”. E foi pra lá e conheceu a minha mãe e conheceu o Movimento e aqui estamos.

P/1- Ele conheceu como a sua mãe?

R- Olha, ele disse que conheceu a minha mãe dentro de um ônibus, que a viu e aí ela desceu algumas paradas antes dele e ele disse que era a coisa mais linda, a mulher mais linda que ele já tinha visto na vida dele. Então ele desceu antes e a foi seguindo. Depois descobriram que trabalhavam no mesmo local. E aí começaram esse romance, assim, meio escondido, (risos) mas já sempre muito vinculado ali com as coisas da floresta, né? E aí, depois de três meses, se casaram (risos) e eles estão juntos até hoje. São, acho que trinta anos de casado, já.

P/1- Uau. E você tem irmão, irmã?

R- Tenho, tenho um irmão, chama Daniel, ele é sete anos mais novo. Daniel já nasceu quando a situação já era um pouco melhor, né, financeiramente. Ele também fez Ciências Sociais, está lá estudando na mesma universidade que eu estudei. Mas eu até tenho, eu sinto, assim, por ele, porque ele não chegou a pegar, sabe, essa efervescência. Isso é uma coisa que eu me considero muito privilegiada por ter vivido, porque eu tive, sabe, quando o sonho ainda estava muito latente, era no momento que eu estava crescendo e aí, quando o Daniel nasceu, já estava naquela fase mais complexa, né, de, enfim, das crises, mesmo, que todo projeto político passa. E no Acre não foi diferente, né? É, então ele não teve essa coisa, assim, da aventura. A política sempre foi uma aventura pra mim, sabe, uma chance de mudar o mundo, de mudar tudo. E tinham muitos outros adultos quando eu estava crescendo que estavam nessa vibe, vamos dizer assim, e isso é muito inspirador sempre.

P/1- E só mais um irmão você tem?

R- Só um irmão.

P/1- E você contava pra ele, porque você falou que ele não vivenciou, né, mas os seus pais ou mesmo você contavam? Teve essa mesma experiência de contar?

R- Ah, a gente sempre conversou sobre tudo lá em casa, todo mundo junto, né? Então, eu acho que eu ouvi mais, porque foram coisas que estavam acontecendo enquanto eu estava crescendo, né? Mas ele conhece também. Inclusive, a gente sempre senta lá em casa para discutir política, conhece bastante a história. Mas eu acho que, quando a gente veio morar em Brasília ele tinha três anos, então pra ele já foi um pouco mais diferente, sabe? Não teve aquela convivência tão forte ali com os tios e tudo. Mas é uma pessoa que se identifica também com a luta, com certeza. 

P/1- Até quantos anos você ficou, antes de mudar, no Acre?

R- Eu fiquei até, acho, que nove, nove anos. Mas sempre, sempre a gente voltava, passava vários meses no Acre, vários meses no Rio.

P/1- E você mudou. Então, você cresceu até os nove anos no Acre, depois você foi pro Rio e aí você ficou no Rio até quando?

R- Não, não, a gente passava, ia no Rio conhecer, ia visitar a família.

P/1- Ah, visitar a família.

R- Na verdade, foi assim: eu nasci no Acre, aí o meu pai foi fazer mestrado na Costa Rica, a gente foi pra lá, moramos em Costa Rica durante um ano, dois anos, eu aprendi a ler lá, depois voltei pra cá. Aí a gente voltou pro Acre e eu fiquei até uns nove, mas sempre fui um pouquinho adiantada na escola, né? Então, apesar de que eu repeti um ano por causa disso que tinha aprendido, tinha feito a alfabetização em espanhol, e aí tinha que fazer em português de novo. E aí, depois, aos nove, dez anos eu mudei pra Brasília.

P/1- E qual que é, agora pensando na escola, né, qual que é a sua primeira lembrança, assim, de escola? Que você contou bastante as suas lembranças de vivências, né, que você tinha fora da escola, na sua convivência. E a escola, no meio disso? Como é que era?

R- Ah, sim. A escola, eu, o meu pai sempre tentou me dar o que ele não pode ter, né, no sentido de melhor educação possível, apesar da gente viver numa situação bem desafiadora financeiramente, eu sempre estudei nas melhores escolas, e lá no Acre, inclusive, né? Então, isso era até um pouco engraçado, porque eu estudava com figuras assim, da elite, né? E, na escola, isso era um pouquinho visível, assim, tinha os seus... as pessoas se tratavam diferente, assim. Mas a escola que eu estudava, apesar de ser uma escola bastante cara e onde só, né, as pessoas da elite conseguiam colocar seus filhos, era uma escola de método montessoriano, tinha um zoológico lá, sabe, tinham várias árvores. O Acre é um lugar diferente. Até, vamos dizer assim, a burguesia do Acre é diferente. (risos) Então, as minhas lembranças da escola, tinha essa tensão, eu me sentia, eu lembro de me sentir um pouco fragilizada, assim, mas também lembro de uma, de várias situações meio diferentes, assim. Por exemplo: na minha escola, a gente tinha aula, tipo, olhando pra janela. A professora ficava aqui, a janela ficava aqui e as pessoas ficavam passando lá do lado de fora, que era pra gente aprender a se concentrar. (risos) Aí tinha um zoológico com macaco. Nem sei se isso, inclusive, é legal, enfim, (risos) que a gente cuidava dos macacos. Tinha aula de... não lembro o que era, mas era alguma coisa tipo habilidades para a vida, sabe, que botavam a gente, a gente que limpava as salas de aula. Então, era um método bem humano que deixava, que dissolvia um pouquinho essas coisas da parte mais, um pouco cruel, vamos dizer assim, da convivência entre crianças. Mas pra mim eu sempre achei a escola uma coisa assim fácil, só que às vezes eu me sentia um pouco oprimida, vamos dizer assim, por estar sempre ali convivendo com pessoas muito ricas, né, pessoas que traziam todos aqueles hábitos meio elitistas ali pro ambiente escolar, e que tinha, sim, um certo prazer... por exemplo: por causa do meu cabelo, eu sempre era deixada por último em todos esses grupinhos, coisa de equipe, eram umas coisinhas assim muito provincianas, né? Então, na escola eu quase que como eu entrava em contato com o mundo real (risos) e todo o resto era no meu, no mundo dos sonhos, né, do sonho prático, vamos dizer assim.

P/1- Dos sonhos da política. E tem alguma outra situação que te marcou na escola? Você lembra?

R- Rapaz, faz muito tempo que eu não penso na escola. Fazia muitos anos mesmo, eu estou assim, chega, andando pelos corredores. (risos) Ai, tem algumas coisas. O problema é que o Acre é um lugar muito pequeno e as pessoas que se conhecem fora, elas são muito notáveis, entendeu? Então, essa parte aqui vocês vão cortar, mas só pra vocês entenderem, tirar isso da minha cabeça e conseguir pensar em outra coisa. Eu estudei com aquele menino do Acre que sumiu, lembra? Não? O menino do Acre que escreveu na parede, sumiu? Pois é, esse tipo de coisa. Mas, deixa eu ver. Na escola eu sempre andava com meninos, né, tinha, acho que duas amigas, mas tinha um amigo que hoje em dia até entrou numa onda muito diferente, assim, de vida. No Acre teve uma época que teve muita gente que se converteu, né, virou evangélica e esse amigo era evangélico. Não sei, não tenho assim nenhuma anedota pronta, nenhuma história muito clara. A escola, pra mim, era um espaço um pouco de... que era um lugar que eu sabia que eu tinha que aproveitar, que era um oportunidade rara que eu estava tendo, sabe, sabia que não era uma oportunidade que meus pais tiveram. Então, tinha toda essa coisa de: “Não, eu preciso estar aqui e aproveitar essa oportunidade”. Mas não era o lugar mais feliz pra mim. Era mais essa coisa do dever mesmo, né?

P/1- E o lugar mais feliz, qual que era?

R- Ah, era a casa da avó, era a sede do PT (risos), eram as feijoadas do treze, sabe? Quando o meu pai virou secretário de Floresta e Extrativismo, né, está lá, nossa, o único prédio, eu acho que era... é claro que tinha outros prédios, mas na minha mentalidade de criança o prédio do Basa, do Banco da Amazônia, que era onde ficava a Secretaria de Floresta e Extrativismo, aquele era o único prédio da cidade de Rio Branco, sabe? Tinha ele e um outro. E o meu pai trabalhava lá, ahhh! E ele trabalhava lá ajudando os seringueiros! Sabe, então, é aquele era o meu momento de glória, assim. Entrar num prédio daquele, subir e ver, sabe, os trabalhadores rurais, gente simples, saindo das suas colônias, das suas colocações, pra ir lá ser atendido com dignidade, sabe? Era muito... eu acho que isso me fortaleceu muito crescendo, porque apesar de sempre ter essa convivência, assim, com pessoas que eram de outras classes sociais e, por causa disso, têm uma tendência de me tratar meio mal, eu sentia que a gente ia vencer, sabe, que a gente estava vencendo, mesmo quando eu era criança, assim. É como se, porque os meus pais e meus tios se dedicaram tanto a criar esse sonho prático, sabe, a pensar assim, até literalmente... Rio Branco era uma cidade muito destruída antes do Movimento, e aí eles começaram a agitar a cidade, sabe, coisa que eu me sentia sempre muito... eu sentia que tinha gente lutando por mim. Então, sabe, aquelas picuinhas, coisinhas de escola, hoje o pessoal chama de bullying, vamos dizer assim, eram muito pequenas comparadas com isso tudo, assim, e ocupavam um espaço menor também na minha subjetividade, nas minhas sensações, né, em geral.

P/1- Mas e o que você queria ser quando crescesse, então? Você pensava nisso?

R- Ah, eu pensava. Eu queria ser escritora, cientista maluca e inventora, né, era isso que eu queria fazer. Eu gostava muito de O Mundo de Beakman, Castelo Rá-Tim-Bum. Então, meu ponto ideal era alguma combinação dos dois. Era isso: eu gostava muito de ler, sempre fui de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Então, pegava assim, tipo, minha mãe ficava: “Menina! Pelo amor de Deus, que menina doida!”, porque eu ficava ouvindo música, com três livros abertos e a TV ligada, sabe? (risos) E gostava muito desses estímulos múltiplos. Então, era isso que eu queria fazer quando eu crescesse: pegar essas coisas todas e inventar coisas novas. 

P/1- E aí, quando vocês mudaram pra Brasília, isso continuou? Como é que foi essa transição do Acre pra Brasília? Por que vocês mudaram, como é que foi?

R- Foi duro, assim, porque o Acre era quase como se tivesse uma vila, sabe, me cuidando, né? E aí gente vai pra Brasília, Brasília é o oposto disso: as pessoas são totalmente individualistas, é uma cidade fria, é uma cidade que é difícil de você fazer amigos, então, toda a família sentiu muito. Aí eu saí da minha hegemonia anti hegemônica, se isso faz algum sentido. Faz? Porque no Acre eu sentia assim: pô, esse breve momento que eu tenho aqui, que eu encontro, sabe, com essas pequenezas da elite, com essas pequenezas das pessoas que acham que são melhores que as outras por algum motivo, isso era uma pequena parte, né, do meu dia, e Brasília é isso. (risos) A gente estava lá representando, o meu pai foi pra trabalhar no primeiro governo do Lula, né, lá como parte do Ministério do Meio Ambiente da Marina, e eu sabia que era importante e eu via como uma continuação, mas não tinha aquela coisa, não era um ambiente empoderador, era um ambiente que me fazia sentir muito ameaçada e que não foram anos muitos felizes, assim, foram anos sempre meio... foi aí que eu acho que eu mudei, assim, tipo: tá, então, antes eu estava lá, sabe, vivendo aquilo e o meu plano, quando eu era criança, também, quando eu crescesse um pouquinho mais, era de ser mais assim, eu vou ser... o meu negócio é crescer aqui e ajudar no projeto, né, no projeto do pessoal, do Movimento dos seringueiros, eu não queria criar nada independente, sabe? Só que aí, quando eu fui pra Brasília, e as coisas, enfim, né, a história foi se desenrolando, algumas das contradições começaram a aparecer, eu comecei a ver que talvez aquela história que a gente começou lá no Acre, não fosse ter um final feliz, sabe? Então, que a estratégia não era, não estava consolidada e a estratégia precisaria ser revista, e que a luta precisaria continuar e que não ia ser agradável, legal, como era ali quando eu estava, né, com todas as minhas referências, num lugar que eu amava, num  lugar bonito, cheio de floresta. Brasília era bem o contrário disso, né? Então, foi um momento difícil, assim, pra família toda, mas que me botou nessa quest, vamos dizer assim, de procurar o meu espaço de contribuição, tipo, tá. Eu ficava sempre vendo, lembrando do meu Eldorado, lembrando do meu país das maravilhas, e isso me dava força pra continuar, porque eu falava: “Não. É possível, olha o que eles fizeram, olha o ambiente que eles criaram pra mim”, sabe? Então, né, isso me ajudou a não cair numa apatia, a qual eu me sentia muito convidada, porque é uma cidade esmagadora, assim, ainda mais pra gente que tem essa cultura do norte, muita família, de abraço, contato físico. Mas a gente estava lá, foi mais um desses passos por um ideal, sabe? Então, foi quase como isso, né, um sacrifício coletivo por um ideal, algo nesse sentido.

P/1- E a partir dos nove anos, né, que você disse que morou em Brasília?

R- Isso.

P/1- E você lembra de alguma história, algum momento que te tirou dessa apatia que você falou, os momentos de contraponto disso? O que você costumava fazer pra, lá em Brasília?

R- Tô tentando lembrar. Acho que a minha adolescência, foi, foi um pouco triste, vamos dizer assim, passei muito tempo lidando com umas coisas desagradáveis, mas eu lembro de um dia muito feliz, que foi um dia que os meus amigos adolescentes... eu andava com um monte de homens, um monte, um monte, um monte, era assim uns vinte meninos e eles... foi o dia que o pessoal, meio que ahhh, saiu com sede de destruição, sabe, aquela coisa meio adolescente destrutivo, rebelde e a gente saiu - era época de eleição - quebrando várias placas na cidade, sabe? (risos). Engraçado, né? Eu sou um ser muito político, eu sei que sou, mas eu sentia falta disso, sabe, dessa utopia e tal. Então, quando acontecia de encontrar pessoas com essa mesma... mesmo que fosse uma coisa breve. Mas, tirando isso, a adolescência sempre foi muito... minha adolescência foi muito marcada, também, por discos e livros, né? Se juntava eu e esse monte de meninos, se juntava pra ouvir Pink Floyd, ficar olhando pro teto, (risos) lendo gibis e lendo quadrinhos. E nessa época que eu me convenci mais ainda de que, talvez, eu fosse isso, por isso que eu resolvi fazer Sociologia, né? Eu disse: “Não. É isso, essa é a minha ponte, é isso que... foi com os livros chegando no Acre que o meu tio embarcou nessa, né? Então os livros são o condutor, preciso entrar nessa dos livros”.

P/1- O que mais você lia, você ouvia? Você falou Pink Floyd.

R- Tô tentando me lembrar aqui. Ah, a gente ouvia muito rock and rol, né? Ouvia Sex Pistols, The Clash, ouvia Pink Floyd e parece que, assim, a gente, na sala tinha lado A e lado B, né? O lado A era o que você pode esperar, né, era o High School Musical, vamos dizer assim: (risos) o pessoal bem... o contrário de outsider. E aí, no fim, tinha todo mundo que não se encaixava naquilo ali meio que andava junto, né? E eu entre eles, assim. Mas acabava que era um pessoal que a gente lia muito mangá, a gente lia muitos livros, tipo, Eric Hobsbawm, essas coisas, sabe? Não tinha muito uma linha consistente, a gente procurava tudo que não fosse aquilo ali, sabe, que não fosse aquela coisa chicletada da elite brasiliense. Porque meus pais continuaram fazendo esse esforço, né, hercúleo pra me botar nas melhores escolas. Uma coisa é a melhor escola no Acre, outra coisa é a melhor escola em Brasília, né? Os valores. Então, também, vamos dizer assim, o grupo, né, de convivência ali, muda, e  aí os meus amigos, os amigos que eu tinha nessa época eram mais, assim, essa galera dessas pessoas privilegiadas , mas que não estavam tão partes daquela coisa, daquela burguesia uníssona, vamos dizer assim. E nos divertíamos muito, construíamos foguetes. (risos)

P/1- Foguetes? Conta mais.

R- Explodíamos coisas. (risos)

P/1- Durante a aula, assim? 

R- Não, não. É foi numa aula de Física, aí, tipo, aprendeu a fazer um foguete e aí descobriu que um amigo nosso estava guardando pólvora de estalinhos pra fazer um foguete bem grande e um dia a gente foi prum campo lançar o foguete. (risos) Fez o maior barulho de tiro, e a gente saiu correndo, enfim. (risos)

P/1- Mas nessa escola que você disse que mudou, né, o que mais você pode dizer que mudou, assim, o que era diferente?

R- Diferente com relação ao Acre?

P/1- Com o Acre, é, que você falou que mudou, né.

R- Ah, é nessa parte que a política, ela fica meio escondida da minha vida, né? Não tinha muito com quem conversar sobre esse tipo de coisa, então, eu continuei dando várias opiniões, mas ficou assim, quase como uma memória distante, né?  E, inclusive, o colégio que eu estudei foi o mesmo colégio que o Renato Russo estudou. Então, eu ficava - ouvia muito Legião também - procurando os paralelos, sabe, entre as coisas da escola e acho que aquela música Tédio com o T bem grande pra você, é o que define a minha vida em Brasília. (risos)

P/1- Qual, desculpa?

R- É uma música que chama Tédio com o T bem grande pra você. (cantando): “Não saco nada de Química, Literatura, Gramática, só gosto de educação sexual”. E eu odeio Química, era muito maçante, sabe? Então, a gente ficava perambulando pelas quadras, procurando qualquer coisa que não fosse aquilo ali, né, aquele entretenimento chicletado da elite de Brasília, mas era vazio e angustiante, mas divertido na medida do possível, só não foi assim muito especial. Mas eu acho que principalmente nessas escolas mais elitistas, né, ensino médio, adolescência, é sempre o momento que a gente sofre pra depois, o resto da vida, a gente viver e ter a nossa vingança, vamos dizer assim, o resto da vida é a vingança dos nerds. (risos) Então, estou nessa parte, mas a época não foi uma época muito boa, não. Era muito, todos os dias eram iguais, a escola, a cidade é uma cidade muito parecida, né? Todo lugar que você passa em Brasília são os mesmos prédios, a mesma estrutura, sabe? Então, eu lembro de estar andando, longas caminhadas numa cidade que não tem esquinas. Então parece que você nunca vai chegar em lugar nenhum, sabe? Foi uma época muito vazia, assim.

P/1- E como era sua casa em Brasília, onde você morava?

R- A gente morava num apartamento, depois foi morar num apartamento um pouco menor. No início era um apartamento de quatro quartos, aí depois a gente foi prum apartamento de dois quartos. Não, desculpa, o primeiro era um apartamento de três quartos, quando a gente tinha mais condição, né, depois fomos prum menorzinho, onde eu dormia com meu irmão e o meu pai dormia com a minha mãe, claro, e era bem apertadinho, assim, bem apertadinho.

P/1- E o que vocês costumavam fazer no apartamento, quando vocês estavam no momento família?

R- Ah, a gente sempre ia muito pro Parque da Cidade e ficava brincando lá, né? Meu pai gosta, nós gostamos muito de água, de correr, de estar nas coisas, sabe? Então, meus pais levavam pra esses locais, pra gente ficar um pouco fora, né, daquela coisa, daquele ar de apartamento. E também foi uma época que a família estava numa onda muito religiosa, assim, então tinha muito, a igreja era uma parte grande, não opcional, sabe, da qual eu não me identificava muito. Então, eu acabava que estava assim quase que... sabe aquelas matérias da faculdade que você aparece só de corpo?  É isso. (risos). Foram muitos momentos em que eu aparecia só de corpo, sabe, pra fazer várias coisas. Mas os momentos em família, fora da igreja, assim, eram sempre muito especiais. Os meus pais são pessoas que tentam muito, sabe, sempre tentaram muito ensinar a gente a ser feliz, e esse processo é muito rico, muito proveitoso, sempre teve muita brincadeira, muito: “Ah, vamos explorar a cidade”. Meus pais são pessoas muito engraçadas também, e contando muita história, né, nesse processo. Deve ser muito surreal você ser o pai de alguém porque eu sentia, sabe, esse esforço: “Ah, nós estamos, incubando essa pessoa, a ensinando a ter hábitos”. Só que isso era uma coisa muito transparente, assim, né? Ainda mais, quanto mais eu crescia, mais transparente ficava esse esforço, né, dos meus pais, de gerar um ambiente agradável pra gente, de ensinar a gente a ter fontes singelas de felicidade, como simplesmente estar numa área de natureza, ou estar, sabe, no sol, estar entre família, estar entre amigos. Então, é mais ou menos por aí.

P/1- E qual era a sua brincadeira favorita?

R- Ai, Brasília tem um parquinho muito esquisito que é dentro do Parque da Cidade e foi uma das últimas vezes que eu brinquei, assim, como criança mesmo, sabe, porque ele era... são vários labirintos, um dentro do outro, eu adorava, mas depois passei a não caber mais dentro dos buraquinhos que as crianças entravam pra explorar. (risos). Mas eu sempre gostei desse tipo de coisa: de explorar, de procurar coisas escondidas, sabe? Resolver mistérios, conspirações. Então, essas brincadeiras de faz-de-conta, de procurar pessoas escondidas, era o que eu gostava de fazer.

P/1- E qual mistério mais legal que você descobriu, dessas explorações?

R- Tô tentando lembrar aqui. Mas, acho que um muito legal, foi o dia, isso ainda no Acre, que o meu pai enterrou um tesouro. Ele foi num um e noventa e nove, comprou tudo o que tinha de dourado e prateado, botou dentro de uma caixa (risos) e enterrou a caixa no quintal, fez um mapa, sabe? (risos) Queimou o mapa pra ele parecer envelhecido, uma onda! E aí botou lá o mapa dentro de uma garrafa e eu encontrei o mapa e mobilizei todos os meus colegas, na época, eram os meus tios, né, todo mundo, porque eu era a única criança, fui a primeira da família. Então, ai, era muito legal. E ele também, tinha uma época também, assim, minha família tinha muitos... o pessoal inventava uns projetinhos assim, por exemplo: “Ah, vamos fazer o documentário do ano novo”, sabe? Ou então: “Ah, vamos fazer um filme. A Iara e a Larissa” - que era minha prima – “vão ser as bruxas”. Aí a gente fazia efeitos especiais tipo transformar a minha avó num telefone, (risos) tipo desliga a câmera, aí a minha avó sai, aí entra um telefone, liga a câmera de novo. (risos) Essas coisas assim meio elaboradas. (risos) 

P/1- E como foi, então, daí, o passo pra universidade, como você passou pra universidade? Você falou que decidiu fazer, né, Sociologia, por conta dos livros e como é que foi, o que mudou?

R- Ah, a universidade foi uma transição bem linda, eu consegui me reconectar, assim, mais com o estilo de vida que eu realmente gostava, né, estar entre pessoas que valorizavam coisas mais intelectuais, tinham mais sonhos. Então, quando eu... a minha família se preocupava assim, porque ficavam perguntando: “Como é que você vai viver com o salário de cientista social?” Preocupações várias, inclusive. Mas eu dizia: “Não, eu vou dar um jeito”. Eu sempre queria fazer Teoria Crítica, eu queria estar no meio daquilo ali, entendeu? Eu queria estar escrevendo a história, eu queria, porque eu sempre pensei: “Nossa, é um poder enorme a pessoa que chega e escreve uma letra dentro de um livro, né?” Eu lembrava, a minha avó tinha uma coleção de enciclopédias gigantesca, e aí era uma estante bonita que a minha mãe desenhou pra ela, mandou fazer. Aí tinha três coisas na estante: era fotos de momentos da família, né, a coleção de enciclopédias enorme e a televisão. E a gente passava, assim, tipo, a minha avó passava tardes e tardes sentada na frente daquilo ali e eu, pra fazer companhia à ela, ficava lendo as enciclopédias. E eu ficava: “Nossa, quem escreve isso?”, sabe?  “Quem é a pessoa que chega e decide: “Ah, eu vou contar aí a história e foi assim que aconteceu, e aquilo ali vira verdade”. Nossa, eu achava aquilo muito louco, aí eu pensava: “Não. Eu preciso estar dentro desse seleto grupo, entendeu? Eu preciso também escrever essas coisas”. E aí eu olhava na universidade, como já vinha esse sonho mais, assim, essa minha ânsia de voltar àquele mundo da infância mais idealista e tudo o mais, eu fazia o seguinte: eu pegava todo o trabalho que eu ia fazer, eu pegava os cânones, né, da Sociologia, ia imitando a estrutura, sabe? Porque eu pensava: “Não. É isso, eu quero chegar nesse nível aqui, eu quero fazer esse tipo de coisa”. Então, foi interessante estar ali, né, na Universidade de Brasília, o sonho de Darcy Ribeiro. A minha mãe militou no Movimento Estudantil sob a direção de Honestino Guimarães, né, que foi um militante que desapareceu, lá de Brasília. Hoje em dia o DCE, a sede do Diretório Central dos Estudantes, não tem mais nada de histórico, mas eu ainda cheguei a pegar como era naquela época, sabe? Então, pra mim, foi muito forte.

P/1- Como era?

R- Foi tipo, voltei, sabe? 

P/1- E como que era?

R- Era, nossa, tinha cartazes, sabe, de todas as grandes greves, de todos os grandes Movimentos, das marchas pela Amazônia. O Centro Acadêmico de Sociologia até hoje é assim. Mas hoje em dia, infelizmente, o pessoal que está lá, acabou. E aí eu entrei com a minha mãe, né, lá e a gente foi no DCE, DCE Honestino Guimarães, juntas, ela: “Nossa, o Honestino! Ele que dava, que a gente seguia lá no Acre, a gente seguia as direções dele”. Então foi uma coisa assim: “Então, ok, agora liberdade, liberdade de pensamento, liberdade, né, vamos voltar a explorar”.

P/1- Como foi o primeiro dia, assim, o primeiro dia de aula?

R- Ah, o primeiro dia foi muito louco. A gente teve um trote muito elaborado, como é de tradição das Ciências Sociais, só que eu levei o trote a sério. (risos) A gente teve uma aula, uma aula fake, né, e com uma ementa fake, que tinham coisas absurdas. Inclusive, assim, ah, tipo, na ementa tinha assim: um livro falso, óbvio, né, tipo Marxismo Histérico, tipo Diálogos entre Foucault e Lenin, sabe? (risos) Umas coisas assim: Análise da Sexualidade das Lulas em Mangás. Só que eu estava assim, tipo: “Nossa, finalmente estou livre de tudo, livre desse mundinho pequeno, né, aquele povo que eu era forçada a conviver, com quem eu não me identificava, do ensino médio”. Então eu estava assim: “Não.  É isso, vamos lá”. E aí o professor disse assim: “Vamos ler O Capital. Vocês têm três dias pra ler O Capital”. E eu tipo: “Beleza, vamos lá” (risos). E aí todo mundo assim, né, mas eu: “Não. Tô na pista, vamos, né, continua, a vida continua”. Mas aí depois, eu demorei pra entender que aquilo era um trote, entendeu, mesmo quando o professor saiu e a gente foi pra um ritual antropológico. (risos). Enfim, coisas estranhas de universidades federais, né? E fizeram todo o batismo e tudo o mais. Mas eu continuava achando que era pra gente ler O Capital em três dias. E como eu cresci lendo O Mundo de Sofia várias vezes, sabe, ou A Era dos Extremos várias vezes, sempre lia muito rápido, pra mim aquilo não era uma coisa muito impossível de se fazer, eu estava topando, tudo bem, tudo bem. Aí depois eu cheguei pra esse colega que é um veterano, e disse assim: “Ai”... fiz alguma pergunta sobre o relatório que a gente tinha que escrever sobre o livro, e ele tipo: “Não, cara, eu não sou um professor”. Mas eu tenho lembranças bonitas. O Leonardo Boff... aliás, o Eduardo Viveiros de Castro deu a minha aula da inquietação, né? Aula da inquietação é uma aula de conteúdo social, assim, que a UNB faz assim pra dar as boas-vindas pros alunos, e foi muito bonito, eu me senti muito livre.

P/1- E quando você começou a trabalhar? Foi na universidade? Como é que...

R- Foi. Aos dezesseis anos eu comecei a fazer um estágio voluntário no Instituto Socioambiental. Porque eu sabia, né, que já que tinha escolhido uma carreira meio alternativa, que eu tinha que, enfim, trabalhar dobrado, (risos) me esforçar a mais, para que não me faltasse as oportunidades, né, depois. E aí eu comecei a trabalhar lá, voluntária, no Programa de Política e Direito Socioambiental, com a Adriana Ramos, que foi outra grande escola pra mim, então. E foi nessa época que começa a discussão no Congresso da mudança do Código Florestal. E aí foi uma época meio que todos os setores, assim, dessa galera, né, do Chico Mendes, que estavam meio dispersos, começam a se rearticular, e aí eu pensei: “Opa, espera, é agora, né? Essa é a fase dois, isto é o meu momento, né, isso, vamos lá”. E aí foi a época que eu começo a militar nos movimentos sociais também, né, não só no movimento ambientalista, mas no movimento antirracista, o movimento feminista. Inclusive, fui parte da primeira gestão feminista da história do Centro Acadêmico de Sociologia, o que não era pra ser nada de mais, mas na época tinha um rapaz   que era famoso por agredir pessoas, enfim. E na época da Marcha das Vadias, né, o iniciozinho desse movimento feminista do dois ponto zero, né, que tinha uma linguagem mais popular, vamos dizer assim. E aí a gente era organizadora da Marcha e tal e aí esse cara tinha um blog horrível, que fazia todo tipo de ameaça pra todo tipo de gente, mas aí ele disse que ia aparecer lá no Centro Acadêmico e metralhar. E ele foi preso, tinha o mapa de uma casa de um amigo, onde aconteciam festas da universidade, do nosso curso, né, e tinha duas armas, na posse dele. Foi uma coisa, assim, meio surreal, mas nem sei porque eu lembrei dele. Mas foi uma das coisas, né, dos movimentos que eu participei, que na época era o movimento feminista. Nessa época também, que eu era estagiária do ISA, fui também estagiária, escrevia voluntariamente pra um veículo chamado Outras Palavras e foi nessa época que eu pensei: “Pronto, agora a gente tem uma pauta, sabe, que fala dessas coisas todas, da floresta, dos povos da floresta, né? Esse é o nosso legado, o nosso legado tem jogo e é a minha oportunidade de encontrar esse meu espaço de contribuição”. E aí comecei a mobilizar na universidade, no ISA eu trabalhava fazendo um subsidiozinhos técnicos, tipo, coletando notícias, acompanhando o que acontecia no Congresso, sobre esse tema também. Então, a minha universidade acabou virando uma força tarefa, assim, em torno desse Código Florestal. Eu virei, fiz pesquisa nessa linha também. Foi maneiro.

P/1- Tem algum outro marco nessa luta do Código Florestal, que você lembra que participou?

R- Ah, foi uma época muito, assim, renovadora pra mim, porque a minha impressão, quando eu era criança, que eu estava na mesa dos adultos, sempre, né, e aí teve aquele momento da adolescência, de pagar o preço pra poder, enfim, entrar numa universidade federal, mas que era uma coisa meio em branco. Mas quando o Código Florestal volta, pela proximidade com o Congresso Nacional, né, aquilo me deu uma oportunidade de estar envolvida, de sentar na mesa dos adultos de novo, sabe, de mexer com algo que eu tinha alguma possibilidade de fazer um impacto num tema relevante, a nível nacional, né, pra uma coisa que, apesar de ser muito jovem, mas eu cresci com esse costume, né, e era uma coisa que eu sentia  muita saudade. Então, pra mim ficou muito marcado os protestos que a gente fez, ficou muito marcado as violências que a gente sofreu, né? Mas a gente fez, por exemplo, na Rio+20 fizemos uma marcha histórica, né, que foi a Marcha a Ré, denunciando os retrocessos socioambientais. E nesta época eu conheci grandes amigos, que continuam comigo até hoje, e encontrei, né, essas outras pessoas que, apesar desse sistema que foi desenhado pra deixar a gente adormecido, né, ante a tudo, achei essas outras pessoas que, dentro da sua própria, cada um do seu próprio jeito, também desde novinho, na época era todo mundo novinho, né, sabia que eles queriam mudar o mundo, queriam dar uma contribuição, sabe, que tinha um causa, queria lutar por alguma coisa. E foi nessa época que eu conheci vários amigos, inclusive o amigo que me trouxe para cá hoje, né? Então, isso foi uma época importante pra mim também, mas depois foi uma derrota muito grande, né? A gente passou quatro anos aí lutando sem parar, pra uma das derrotas mais humilhantes do movimento socioambiental brasileiro, assim. E, na época, tinha essa questão... não era, né? Hoje em dia a gente tem essa oposição com o Bolsonaro. Na época a gente era uma oposição com o pessoal que teoricamente devia estar do nosso lado, né? Então, foi muito dolorido, assim. Teve muitos momentos muito emocionantes, em que a gente realmente sentia: “Poxa, a gente conseguiu, entregou mais de dois milhões de assinaturas contra o projeto e fez grandes marchas e fez grandes coisas, né, e fiz pesquisa e tipo: ahh, estava tudo em movimento, mas tudo isso foi pra nada. Não adiantou nada. Todas as lutas que a gente se envolveu, que eram principalmente três, né: Código Florestal, Belo Monte e aquela coisa ali contra agrotóxicos, pela Reforma Agrária e tal, todos eles nós perdemos assim, derrotas cavalares. E isso teve um impacto, assim. Eu precisei, depois... todo mundo, né? Cada um foi pro seu lado e gerou esse hiato, assim, no movimento político socioambiental, que foi a sensação de tipo: “Nossa, com companheiros desses, quem precisa de inimigos?”, sabe? E foi difícil pra caramba, porque depois que o Código Florestal foi aprovado, né, Belo Monte já tinha sido também ratificado, a gente que tinha dedicado anos de nossas vidas, né, por uma causa que tinha, assim, o seu contexto, a sua importância simbólica pra mim na minha vida, tinha assim essa coisa sentimental, mas também era tinha um lado racional muito grande, era uma decisão estratégica para o país. E o Brasil ficou do lado errado da história, né? A sensação de frustação que se apossou de todo mundo que estava se mobilizando naquela época, né, foi muito forte, muito pungente. 

P/1- E como foi esse dia símbolo, como você descreveria esse dia símbolo, de uma dessas grandes derrotas? Onde você estava, com quem você estava?

R- Ah, eu estava, numa das votações eu estava lá assistindo, né, porque foram várias: teve a votação do Senado, teve a votação no nanana, no final das contas a Dilma não vetou e o projeto virou lei. Mas teve uma dessas votações no Congresso Nacional que foi bem pesada, assim, a gente acabou voltando, eu estava lá como militante, mas também trabalhando, que eu trabalhava no ISA, né, e uma sensação de impotência enorme. A gente estava no Congresso Nacional, na Câmara tem tipo um poleiro, né, que os deputados ficam aqui e a gente fica aqui, assim, então estava lá assistindo, tinha os lobistas, né, do agronegócio de um lado, uma galerinha ambientalista do outro, alguns indígenas, alguns representantes do movimento social e as coisas que a gente ouvia, sabe, o nível do debate era uma coisa assim, tão baixo nível, tão baixaria. Eu lembro que eu, com esse cabelo grande, né, que eu subi, assim, pra olhar alguma coisa que estava acontecendo lá em baixo e aí um cara assim, que estava atrás de mim, gritou: “Ei, juba, senta, ninguém está conseguindo ver nada, você não era nem pra estar aqui. E esse cabelo de preto”. E começou a esculhambação no meio do Congresso Nacional, sabe? Eu fiquei tipo: “Nossa, como é que a gente chegou até aqui?” Porque o grande drama era isso, né? Tudo bem, sempre existiu o pensamento retrógrado no Brasil, mas como é que a gente, na época, né, o PT tinha a maioria nas Casas, tudo, e como é que esses eram os caras que estavam ditando os rumos do país?”. Ai, fiquei arrasada e aí, quando eu vi mesmo que ia perder, né, estava lá, comecei a gritar, enfim, puxando palavra de ordem e tal. No dia seguinte apareceu um trabalho que saiu no meio da semana, mas eu estava assim, branca. O pessoal chegava: “Tá tudo bem?” Mas a sensação era essa, sabe? É impossível, o sistema é impossível, sabe? A sensação era... tem aquela frase, né: “Nada deve parecer impossível de mudar, o contrário disso. E aí tem aquele outro poeminha do Leminski, né: “Isso da gente querer ser exatamente isso que a gente é, vai nos levar além”. Aí eu fiquei com a sensação assim: isso da gente querer ser exatamente o que a gente é, tem consequências, sabe? E enfim, foi muito humilhante. Eu lembro de estar, assim, de ficar meio paralisada por alguns meses depois disso, até porque... aí depois passou a paralização, a gente foi, (risos) continuou lutando pra depois perder mais, né? E aí foi cada um... eu tenho amigos que foram pra o meio do mato ser guarda florestal. (risos). Teve amigos que entraram na militância partidária porque: “Ah, então a gente vai ser a gente lá, um dia”. Eu entrei meio que num cinismo, assim, num negacionismo, porque eu achava que a gente estudando o problema, isso ia nos dar um insight sobre as melhores estratégias pra reverter, sabe, essa situação. Mas, não foi isso. Depois de passar tanto tempo ali, próximo, né, a quem? Aos campeões do atraso, o pessoal que realmente queria que as coisas continuassem do jeito que são ou então piorassem do ponto de vista ambiental. Estudei, fiz uma monografia, uma análise de discurso da bancada ruralista, fiz uma proposta também, porque até então a maioria dos estudos que tinham sobre a bancada ruralista eram muito datados, né, coisa da época da Constituinte. Aí eu peguei e dei uma revisão na literatura pra propor: “Tá, quando a gente fala de ruralista hoje, de quem que a gente está falando?” Fiz tudo, foi uma época da minha vida que eu fiz tudo o que eu podia pensar... eu não tinha certeza, sabe, eu era muito jovem, então não sabia se o que ia realmente mudar o equilíbrio do poder era voluntariado, ou eram protestos pacíficos ou era a ação direta, ou era, sabe, pesquisa, ou era lobby, né, (advocace?) __________ [1:13:35]. Aí eu pensei, vou fazer tudo, então! E a sensação de você fazer tudo o que você consegue pensar, possível, e ver que nada teve o menor impacto, é muito ruim, (risos) muito frustrante. Então, aí depois eu fiquei com isso, assim, ainda mais que eu resolvi fazer análise de discurso, né? Aí eu fiquei tipo: “Puts, pô, eu fiquei aqui ouvindo esses caras, sabe, transcrevendo o que eles escrevem, e isso só me fez perceber o quanto eles são mais poderosos do que eu imaginava e o quanto, sabe, o problema, o buraco é mais embaixo, e quanto as nossas armas não são suficientes”. E me levou a uma reflexão radical, assim, tipo: “Bom, isso daqui não tem futuro”. Foi o que eu, a minha... claro, né, não vou entrar no mérito de se isso é uma coisa, se isso é uma declaração que vale pra todo cientista social, não. Estou falando da minha experiência, certo? 

P/1- Claro.

R- Mas é isso: ficar olhando pro problema não tem futuro, isso não vai ajudar a gente a fazer nada. Isso vai deixar, vai dar uma sensação, temporária, sabe, de, sei lá: “Luta, eu estou aqui, eu tenho um inimigo”, mas não ajuda em nada no longo prazo. E aí eu fiz, a pesquisa ficou super bem feita, tal, assim, como experiência acadêmica foi ótima, mas foi um ponto de mudança, assim, eu pensei: “Bom, então, tudo, o foco não tem que ser no inimigo, o foco tem que ser na solução”. E comecei a pensar bastante sobre isso. 

P/1- E como você começou a pensar sobre isso?

R- Foi aí que eu comecei a gestar a minha pesquisa de mestrado, né? Que aí eu comecei a entrar muito em... eu não diria depressão, mas eu comecei a ficar muito triste mesmo, a minha família. E aí, foi nessa hora que eu comecei a pensar assim: ”Poxa, mas a política era uma coisa que me dava esperança. Por que me dava esperança?” E comecei a lembrar de que porque as pessoas faziam coisas que realmente geravam mudanças concretas, né? Não mudanças concretas, falar: “Pra próxima geração, depois, talvez, um dia alguém vai fazer uma revolução e tal, e depois de muitos e muitos ciclos essas pessoas vão viver em igualdade”. Não. Era tipo um bando de gente normal do Acre, pessoas trabalhadoras, não eram grandes gênios com PHD, sabe? Pessoas ali, tinham uma educação básica, enfim, cada um usando a sua experiência que tinha ali na hora, pensaram assim: “Não. A gente tem que fazer isso aqui. Como que a gente faz pra isso daqui, pra o Acre que está hoje assim, estar diferente daqui a um ano?” E foram atrás de fazer. E eu pensei: “É isso”. Só que, na época, eu não tinha, ainda, percebido que isso não é só uma disposição emocional, sabe, uma expectativa, uma decisão mental. Que, da mesma maneira que a cultura da teoria crítica paralisante é elaborada e ela tem um monte de rituais, e é uma tecnologia, né, de fato, o nosso também era. Então, não adianta você chegar nos projetos com a expectativa de que eles vão te dar um retorno, sabe, transformador, se não tem aquela ética, aquela práxis, aquela pegada de transformação dentro de um contexto pedagógico. Porque senão são só pessoas ali. É que nem, não sei, eu acho que é que nem perdoar, sabe? Mudar é que nem perdoar, é que nem sentir. Você pode falar muito sobre essas coisas todas, mas pra você, de fato, experenciar, não é um processo trivial, né, tem passos, tem coisas que você precisa fazer, tem escolhas que precisam ser feitas. E aí eu percebi isso, que boa parte dessa minha sensação de peixinho fora d’água em Brasília, era porque a minha... fui ensinada a pensar e a sonhar com parâmetros muito diferentes do que os outros meus colegas tinham acesso, porque eu tinha acesso à teoria crítica, eu tinha acesso aos livros, mas também tinha acesso ao saber oral, tinha acesso ao pragmatismo das pessoas ali, ao pragmatismo do pobre, que eu gosto de falar, sabe? Porque a esquerda acreana não era um clube do livro, que o pessoal fica, sabe, tipo: “Ah, eu vou ler várias paradas aqui e depois eu vou pro bar”. (risos) Com todo o respeito aos que vão pro bar e leem várias paradas, mas era mais que isso, porque as pessoas, tipo, a única chance que eu tinha de ser uma pessoa que um dia tivesse uma vida empoderada, era se os meus pais realmente mudassem ali aquele contexto que a gente vivia. Não é tipo: “Ah, eu...”. É muito diferente de você simplesmente ter um lugar de privilégio e pensar: “Hum, não é bacana, deixa eu pensar sobre isso, deixa eu pensar como é que a gente pode fazer pra mudar essa situação pros outros”, né? Porque se você resolver parar de ler esses livros, ou ler esses blogs, ou, sabe, a sua vida vai continuar do jeito que era, você não vai perder nenhuma oportunidade por causa disso, pelo contrário. Pra nós, não, sabe? Qual que é a chance?  Quando eu entrei na Universidade de Colômbia pela primeira vez como aluna, eu chorei tanto, que o guarda da universidade veio perguntar se alguém tinha feito alguma coisa comigo. Porque eu fiquei fazendo a conta, sabe, tipo: “Nossa, quando que a filha de um cara que precisou catar latinha pra poder ajudar, né, a família a comprar alimentos, quando que uma menina simples do Acre, enfim, um caboclinho, né, que sou, estaria aqui estudando numa das escolas mais importantes do mundo, junto com os filhos dos reis, vamos dizer assim, né, junto com os herdeiros dos grandes impérios modernos?” Eu só tive essa chance porque os meus pais resolveram lutar contra o sistema, e mudaram o sistema, afrouxaram as bases, pra que gente como eu pudesse ter outro tipo de perspectiva de vida, sabe? Só que eu, graças a Deus, cara, eu tive essa oportunidade de viver isso. Os meus colegas de Brasília, mesmo os que não vieram de famílias ricas, não tiveram isso, né? E aí foi aí que eu comecei a me tocar, eu disse: “Não. Não posso simplesmente me ressentir, porque as pessoas não respeitam e não se inspiram numa história que elas não conhecem, que não foi contada de uma forma apropriada”. Porque hoje em dia, quando a gente fala de movimento seringueiro, movimento indígena, tende-se a ser... ultimamente não, né, principalmente depois que a Marina concorreu a algumas eleições, teve mais espaço pra ela falar da jornada do Movimento. Mas muitas vezes, quando se fala assim: ”Ah, o Chico Mendes, nanana”, parece que alinharam-se as estrelas e o povo da floresta recebeu uma iluminação, e aí eles fizeram aquelas paradas todas e mudaram tudo. Taramm! Não é assim, né? Eles foram pessoas que tiveram que fazer transições difíceis, e criar lógicas internas, e criar filosofias, até mesmo categorias sociais, categorias sociológicas porque, na época, né, o grande dilema do movimento marxista, vamos dizer assim: você é proletário ou você é camponês? Ou você é camponês, ou você é proletário. Onde ficam os indígenas nisso, onde ficam os seringueiros nisso? E aí veio o Chico Mendes e disse: “Não, cara, a gente é ‘povos da floresta’ e para os povos da floresta é que nós vamos construir as táticas, o movimento, as políticas públicas”. Isso fez toda a diferença do mundo, sabe? E, enfim, essa praticidade que existia no Movimento Seringueiro, foi um processo de educação mesmo, cívica, pra mim. Não foi uma coisa assim, não é uma capacidade moral, não é algo essencialista, né? Não é, e eu acho que isso que às vezes a gente peca enquanto movimento social, porque não basta simplesmente você ser aquilo que o sistema combate, a gente tem que ter os nossos mecanismos pra poder florescer em conjunto, sabe, que senão a gente vai reagir com as ferramentas que tem ali, com o que a gente foi socializado, né, que é a competitividade, que é o individualismo, o machismo, é o elitismo. Como é que a gente vai substituir isso? Você não substitui isso simplesmente pela ausência disso. Não, tem que ter outro, outros e, ao invés de começar do zero, poxa, sabe, tem esse pessoal que já fez ali e de uma forma tão singela, inclusive, de falar assim que o grande símbolo do movimento ambientalista do Acre é o seringueiro, né, que é uma categoria que não existia em livro nenhum antes, porque essa coisa de você escravizar as pessoas, jogando-as dentro de uma floresta tropical e dizendo: “Você tem que extrair borracha, senão a gente mata você, senão você não vai comer”, né? Isso é coisa imprecedente, infelizmente é uma coisa que o Brasil inventou, né, de um dia pro outro. Então, o pessoal lá olhou pra essa história e transformou essa história em símbolo, e ressignificou esse símbolo, né, e pegou o nosso hino, que fala sobre os seringueiros que lutaram, né, pra que o Acre fosse considerado brasileiro e incluíram nisso também os valores dos seringueiros que foram lutar pela floresta, os seringueiros que foram lutar pela sua própria gente, pelo direito à educação, e tal, sabe? Nossa, olha a profundidade disso! E aí foi, pra mim, esse contraste, assim, sabe, de ver ali tipo: “Agora a universidade, vamos pegar essas coisas novas que eles estão aprendendo aqui, tal”, que foram ótimas, não estou dizendo que o conhecimento formal não seja útil, ele é útil, mas ele não é suficiente pra realmente mexer no zeitgeist de uma sociedade, né? Assim como só os nossos sistemas orais também não são suficientes. Eu acho que eu comecei a perceber, né, que é uma coisa, uma questão de bordar de novo os mundos, criar um significado ali que esteja... mas aí, como fazer isso? Eu não sabia. Aí fiquei batendo cabeça, entendeu? Pensando (risos) e testando várias coisinhas, até achar algumas coisas que funcionassem, né? Mas foi um momento assim, foi muito existencial, foi muito... teve que ter uma crítica muito intensa pra perceber os limites do que eu, do que a gente estava fazendo. Era sempre, é muito mais fácil ver os limites do que os outros estão fazendo, né, o erro do outro, problematizar o outro é muito fácil. Agora, o problema é problematizar você, você enquanto liderança, você enquanto... é dose, é dolorido, e não tem uma resposta, não é uma coisa que tem uma gratificação instantânea, né? Pelo contrário, anos depois de me entregar à essa jornada, sabe, de ouvir mais, falar menos, trabalhar mais e opinar menos, construir coisas, ajudar pessoas, ajudar projetos, sem que eu fosse, sabe, sem aquela coisa do protagonismo, me ensinou muito, mas foi um processo, uma jornada.

P/1- O que que você falou que tem algumas coisas que funcionaram, o que funcionou?  Podia dar um exemplo de coisas que funcionaram?

R- Claro. Então, um exemplo fácil de identificar é o próprio... a questão dos produtos florestais não-madeireiros, né? Açaí. Açaí é uma coisa que você só consegue cultivar dentro da floresta, é uma coisa que gera dinheiro pras comunidades, assim como coleta de castanha, assim como a extração de andiroba, copaíba, né, os óleos da floresta, a própria extração de seringa. Mas esse material que, se beneficiado, consegue gerar ciclos de prosperidade que não dependem de você derrubar a floresta pra botar um boi, ou você derrubar a floresta pra vender a madeira, né? Então, um dos capítulos da minha pesquisa, inclusive, é sobre isso, assim, é sobre esse pessoal que pegou isso: “Não. Vamos fazer dinheiro com a floresta em pé, e não só no discurso. Vamos ver o que funciona, como é que a gente faz uma cooperativa aqui com esse povo”, entende? E hoje, graças a Deus, até hoje a gente tem algumas dessas cooperativas, inclusive a Cooperacre, né, que está até hoje vendendo castanhas, em vários pontos da Amazônia, assim. Castanheiros que antes eram sujeitos, né, a vender seus produtos tão duramente obtidos, pra atravessadores que iam, depois, lucrar muito mais com aquilo ali, do que com eles. Lá no Amazonas eu vi, assim, um pessoal de uma cooperativa de beneficiamento de castanha negociando numa casa de câmbio, um pessoal que mora dentro, sabe, bem dentro de uma unidade de conservação isolada, indo pra cidade, negociando. Cidade do interior, não em Manaus, negociando na casa de câmbio, volta pra sua vida, continua, comunidade. Ahh, isso é isso é muito legal, né! Porque é uma coisa que foi muito teorizada, mas o pessoal está vivendo, só falta documentar. Outro exemplo que funcionou foi o próprio empate, né, o empate é a técnica que os seringueiros criaram para a não-violência. Que, na verdade foi ideia de uma mulher. Estava aquela tensão, né, os seringueiros não queriam sair dos seus locais, mas também o pessoal estava vindo com jagunçada e tudo, né, com os esquemas paramilitares dos fazendeiros, e aí a Dona Marlene Mendes, prima do Chico Mendes, disse assim: “Quer saber?” Porque o pessoal, tinha muitos seringueiros querendo radicalizar, né, pegar e enfrentar com as arminhas, mas aquilo tinha tudo pra ser um massacre, né? Porque você com uma espingarda de caçar capivara, (risos), tentar né, de caçar, enfim, animais silvestres, enfrentar uma polícia militar, é pedir pra morrer todo mundo. Aí a Marlene Mendes teve essa sacada e disse: “Não. Quer saber? A gente vai fazer o seguinte: a gente vai botar as crianças na frente, atrás as mulheres com as crianças de colo, e atrás das mulheres, os homens armados. Se eles tiverem coragem de matar as crianças, matar as mulheres, matar os bebês de colo, pra poder chegar e matar os homens e ir pra floresta, beleza, a gente não ganha, mas pelo menos a gente dá um grito”. Isso eu ouvi da boca dela, na casa dela, uma vez.

P/1- Como foi?

R- Foi lá no Seringal Cachoeira, numa dessas expedições filosóficas que o meu tio organiza pra gente discutir Filosofia com os seringueiros e os indígenas, né? E aí, o que que eles descobriram? Pô, mesmo o jagunço, mesmo aquela pessoa que está ali engajada na violência sem sentido, tem um limite também, ela ainda é um ser humano, né? E eles transformaram essa sacada numa tática, que foi o que permitiu...porque as comunidades começaram a perceber que isso funcionava, e começaram a fazer isso no Brasil inteiro. Tenho até o mapa. Se você comparar, né, antes da morte do Chico Mendes e depois, assim, é um contraste visual absurdo em termos de unidade de conservação que foram criadas, né, dessas de uso sustentável principalmente, que permitem as pessoas morarem junto à floresta e tudo. Então, também tem o pessoal do front da ciência, que, inclusive, foi um pessoal do Imazon, eu trabalhei lá nessa ONG, e eles foram pioneiros no monitoramento do desmatamento, fazendo uma coisa que era o dever de casa que ninguém no Movimento estava muito a fim de fazer, porque o seguinte: antes da gente ter essa possibilidade política, né, de você fazer um plano de combate ao desmatamento que realmente enfrentasse os locais, eles começaram a coletar os dados. Se eles não tivessem feito esse trabalho de localizar os focos de desmatamento, né, de ter um subsídio científico consistente, sabe, pra que, na hora que a gente tivesse oportunidade dentro da política, pudesse ser elaborado um plano, o plano, possivelmente, não teria sido tão eficaz. Mas aí foram pessoas que tiveram essa visão, né, e que resolveram começar a fazer o dever de casa antecipado. E toda escolha tem seu custo de oportunidade, né? Porque, pô, podiam estar acontecendo várias outras coisas ao mesmo tempo. Claro que as outras modalidades de luta também são importantes e pode até parecer entreguista, ou reformista ou pelego, né, pra alguns grupos, você estar ali fazendo pesquisa, enquanto o pau está comendo, né? Mas se eles não tivessem feito a pesquisa, a gente não teria conseguido criar as bases pra o que o governo está tentando detonar hoje. Então, assim, foi isso que eu comecei a me tocar, sabe? Pô, essas coisas funcionam. Inclusive, depois, aí tá, me formei, a gente perdeu, (risos) perdemos várias vezes, várias circunstâncias diferentes, fui morar no Pará. No Pará, eu fui trabalhar no Imazon, né, e aí eu fui trabalhar na calha norte do Pará, que é a margem norte do Rio Amazonas. Lá, essa organização não governamental conseguiu demarcar, articulando localmente, certo, o maior contínuo de unidades de conservação em florestas tropicais do mundo. Então, deu um choque, sabe? Nossa, enquanto eu estava lá em Brasília querendo estar morta, achando que nada - e toda a análise que eu lia só reforçava esse meu sentimento -  presta, de que não tem solução, de que nada é estrutural o suficiente, os caras estavam lá, entendeu, boca miúda, interagindo com o governo local, convenceram os caras a criar uma... são vinte e dois milhões de hectares de floresta, onde moram quilombolas, indígenas, ribeirinhos. Tem suas dificuldades? Tem. Tem suas contradições? Tem. Mas, pô, isso botou em dúvida todos esses meus achados anteriores, né, totalitários, inclusive: “Não. O capitalismo sempre vai vencer, o sistema. Não há...” Porque, inclusive, especialmente naquela época era muito assim, né? Toda vez que alguém chegava com uma ideia de uma solução, aí vinha um exército de outras pessoas pra dizer assim: “Ah, mas essa é uma solução que não mexe nos pontos estruturais das diferenças de classe, tarará”. Em certa medida tem razão, mas o pessoal do Imazon também tem razão. E eu comecei a perceber que eu tinha mais a aprender com eles. Apesar de que essas pessoas não vão, necessariamente... e aí eu falo isso como uma pessoa que cresceu nesse mundo, nesse ambiente onde a narrativa de esquerda dos movimentos sociais era muito valorizada, eu gostava muito, eu acho uma coisa mais linda do mundo. O pessoal no meu partido atual, que eu construo, Rede, tem muita gente que não gosta, né, da estética do sindicalismo, porque, enfim, acha que, às vezes, aqueles grandes discursos não agregam mais como conteúdo. Eu adoro, adoro, achava a coisa mais linda, assim. Eu começava a ouvir um comício, um carro de som, chega ficava arrepiada, me trazia ótimas memórias. Mas eu comecei a ver que existem coisas bastante revolucionárias fora daqueles, que não interagem com esses sistemas simbólicos, sabe? E que eu ia precisar de uma dose de humildade pra conseguir aprender com eles, sabe? Porque vinha - você vem militante, né, socióloga - cheia das análises, tudo tinha uma análise. Daí eu percebi que, pô, essas análises não podem totalizar a experiência do outro, de modo a me impedir de aprender o que ele traz de bom, sabe? E aí comecei, com isso, a refletir mesmo, assim, sobre a necessidade da gente ser mais inclusiva, da gente ser mais... ouvir com o coração, sabe? E comecei a pensar, a escolher os meus aliados de forma diferente: ao invés de me impressionar com os grandes discursos do pessoal que manja da teoria crítica, né, que sabe todas as referências e tal, eu comecei a procurar estar junto com as pessoas que entregaram de volta pra sociedade, sabe? Porque tem muita gente que escreve sobre a ecologia, escreve sobre muitas coisas bonitas, e eu tenho certeza que tem muita, muita riqueza nisso, mas eu comecei a me interessar pelas pessoas que estavam, de fato, demarcando as áreas, né, de fato ajudando as comunidades a vender castanha e viver uma vida massa, vendendo castanha, né? E as pessoas que estavam, sabe, no front, fazendo as coisas acontecerem. E percebi que essas pessoas são muito criticadas, porque você só consegue criticar o que existe, né? Então, toda vez que você vai fazer alguma coisa, ela vai começar numa escala pequena e ela vai ter um monte de limitações. E a pessoa que está do outro lado, que não pagou o preço, não fez nada, ela vai ver um monte de coisa. Algumas críticas dessas podem ser construtivas, mas boa parte nos impede de ver o real potencial transformador de quem, de fato, deu alguma contribuição, sabe? Aí eu pensei: “Não. É isso”. Comecei a procurar formas de estar perto do pessoal que estava fazendo alguma coisa, né, nas várias causas que eu atuo, nas várias causas que eu acredito. E comecei a me empolgar de novo, comecei a me empolgar de novo com a vida, comecei a ter sonhos, sabe, a gostar mais de estar no sol, assim. Eu acabava ficando, me sentindo muito culpada, sabe, pô, se você não tem esperança de mudar isso, sabe, qual é o ponto, pra que ficar feliz? Isso é uma... sabe, ficar feliz é uma ilusão ou então, é ser alienado. Enfim, nessas espirais que mostravam ser mais uma armadilha do que algo emancipador, pra mim, né? Então, lá no Imazon eu comecei a mexer com políticas públicas, tive que aprender várias coisas diferentes que eu tinha mexido até então, né, que eram mais de pesquisa e métodos qualitativos, me botaram pra mexer com números, me botaram pra mexer com o mapa. E, no ápice dessa experiência, depois que terminou o meu contrato lá, eu tive a oportunidade de desenvolver uma política pública pela primeira vez. Assim, meio por acaso, que a verdade seja dita, porque um amigo querido que estava lá, que é um consultor muito respeitado na Amazônia, estava sobrecarregado, tinha mais, muitos contatos, aí disse: “Ah, então, eu vou passar isso daqui, eu vou te subcontratar. Você que vai fazer o subsídio técnico desse negócio aqui”. E é um projeto, um programa superlegal, que é o Programa de Agentes Ambientais Comunitários do Pará. Que tem o do Amazonas, né, que eu estudei e aí tem o do Pará. E aí disse: “Oh, se vira”, entendeu?” (risos) Não, claro que não. Muito sério, né, porque era a galera que já estava mais acostumada, né? Mas pra mim, que estava sempre da arquibancada fazendo comentário social, rapaz! E aí? Ter que pegar e com o orçamento real, com as limitações reais de uma Secretaria de Meio Ambiente, de uma realidade, né, de uma estrutura de governo, realizar todos aqueles sonhos e todas aquelas coisas holísticas, né, que tanto eram necessárias, na minha opinião. E aí foi massa. Eu sofri pra caramba. Foi nesse processo que a minha avó faleceu, inclusive. Ela faleceu, eu estava terminando de escrever o programa e aí eu fui pro Acre, e fiquei lá escrevendo na varanda, onde a gente, onde eu tive todas as grandes conversas da minha vida, inclusive, as conversas de política e tal. Estava lá, morrendo de chorar, com o computador no colo, escrevendo um projeto de lei, (risos) fazendo orçamento. E, só que morrendo de medo de fazer alguma coisa que fosse altamente questionável depois, e que foi aí que eu percebi, sabe? Nossa, ideias são muito legais, mas aí quando você vai chegar, assim, dizer assim: “Não. É esse o caminho que você tem que tomar”... e eu estou dizendo isso enquanto especialista técnica, né, enquanto responsável. E você se responsabiliza por aquilo, mesmo, né? Então, nossa, muito choro, muito desespero, medo, enfim, de induzir as pessoas ao erro, né? Mas deu tudo certo, graças a Deus, até hoje o programa existe! (risos) E está sendo implementado e eu preciso dizer: “É isso!”. Não mudei as bases do capitalismo, dararam, mas agora eu pude dar uma contribuição pra que as pessoas que moram nas Unidades de Conservação tenham acesso à educação técnica, né, porque, a ideia é: vamos pegar esse pessoal das comunidades e envolve-los na estrutura de governo, pra que eles ajudem a gerir os seus próprios territórios, que antes eram simplesmente abandonados porque eram muito distantes, né e enfim, os orçamentos públicos não são suficientes. Então, acaba que, nesse processo, a gente conseguiu levar também Educação, porque você não pode simplesmente pegar uma comunidade rural, uma comunidade extrativista e dizer assim: “Ó, agora você vai ajudar o Governo, em funções de gestão executiva”, quando aquelas comunidades muitas vezes são excluídas do próprio processo escolar básico, né, não têm acesso, não têm escola, as coisas não chegam. Então, pra elas poderem contribuir com o governo, elas têm que também ter acesso a esse tipo de formação. E a gente conseguiu casar isso e, sabe, eu tenho certeza, cara, que pra aquelas pessoas que tiveram, fez uma diferença. E é uma diferença que não vai ser só um: “Ai, o lindo, é isto aí”. Eu falei: “É, pode crer”, sabe? (risos) E eu pensei: “É isso, é isso que eu vou fazer na minha vida e vamos embora”. E aí, depois, acabei entrando nesse mestrado de Columbia, com bolsa e tudo, que foi aonde eu descobri que tinha uma escola pra você aprender a fazer política pública, né, e não precisava ser só no choro e no auto EAD, vamos dizer assim. E aí aprendi bastante, foi importante, assim.

P/1- E como você chegou nesse mestrado? Como você ficou sabendo, foi até lá?

R- Rapaz! O meu pai tinha ido pros EUA a trabalho, né? Marina Silva foi também, ele foi acompanha-la e aí a gente estava lá, ele deu jeito, levou a família inteira. Ficaram um mês fazendo um convenio no MIT e aí eu usei aquela lábia clássica, né: “Sou uma estudante da Amazônia”, mandei e-mail pra vários  professores, pedindo pra assistir as aulas deles e aí me deixaram assistir várias aulas, eu entendia muito pouco porque o meu inglês era tipo noventa por cento... ainda é, mas na época era mais ainda, né... cem por cento Law & Order, de... sério mesmo, de Netflix. Então, eu só sabia falar de coisas policiais, que era o que eu gostava de assistir na época. (risos) Mas eu estava lá, aproveitando, né, a oportunidade, enfim, estava ali naquele ar rarefeito. E aí eu recebi um convite, no final dessa minha... metendo, né, a cabecinha em toda fresta que se abria lá, uuu, o diretor do Programa de Ciência Política lá de MIT me convidou pra aplicar um PHD lá, isso eu estava no meio da universidade. Aí eu tentei, ele mudou de universidade, eu apliquei pra essa outra universidade, só que no MIT, ele tem essa coisa mais vanguarda, né? E aí, essa outra universidade, pra onde esse professor que tinha feito o convite, foi estudar, era a Universidade Brown, e eles são mais catedráticos. Então, pra eu fazer um doutorado, eu teria que fazer um mestrado. E aí foi, eu apliquei pro doutorado uma vez e não consegui, aí, pensei: “Não, tudo bem, vou tentar o mestrado, né?” Só que aí teve uma outra oportunidade, eu acabei viajando pros Estados Unidos pra conversar sobre essas coisas, né, pra ver, o meu pai me ajudou pra eu ir, porque me disseram que era muito importante ter um contato ao vivo com as pessoas que iam te avaliar. Então, eu fui lá, né, dar uma conversada. Mas eu acabei caindo em Columbia, que estava tendo um evento de brasileiros, e Marina também ia dar uma palestra lá. E aí eu estava lá e eu marquei uma conversa com uma professora de Ética, falei sobre a minha ideia doida, né, sobre essa viagem, inclusive mostrei aquela colagem que eu fiz: “Essa é a minha ideia”, (risos) já esperando o pescotapa, né, porque, enfim, aqui na Academia a gente tem uma rigidez excessiva, uma coisa assim. Inclusive, eu imagino que hoje já deve ter mudado, mas na época que eu estava me formando em Sociologia, era muito assim. Eu lembro que teve uma professora, dos vários bons professores que eu tive, mas ela botava a gente pra escrever, assim, e aí todo mundo, tipo: “Ah, vocês vão escrever sobre uma questão social”, disciplina de Teorias Sociológicas Marxistas... não, era alguma disciplina assim. Aí a gente, todo mundo fez tipo estudo de caso e ela: “Mas, por que vocês não escrevem algo só sobre os pobres?” Aí a gente: “Ué, porque se a gente escrever isso, nossos professores vão nos matar, né? Vão dizer: ‘Quem é você para fazer uma coisa geral? Quem é você pra escrever nas grandes letras da História?’”, como era o que eu sempre quis fazer desde criança. Aí eu pensei: “Bom, estou aqui, né, vou falar, aí sentei, comecei:”Papapá papapa papapa”, aí a mulher disse: “Ah, eu acho ótimo, pode vir fazer assim”. Aí eu falei assim: “Quê?”  (risos) Aí eu: “Mas você entendeu direito? Porque o meu inglês ainda...”, né? Aí falei de novo e aí ela disse assim... e aí eu fiquei mais, foi uma coisa assim bem libertadora, porque foi uma coisa que aconteceu, assim, pra mim, quando eu estava meio só, sabe? Graças a Deus, né, sempre andei por aí nos ombros de gigantes. Eu não tenho dinheiro, mas tenho muitas pessoas corajosas, próximas a mim, que me ensinam várias coisas. Marina Silva é uma delas. E aí eu fiquei assim: “Pô, eu não quero dar uma ilusão, né, de que isso vai ser uma coisa atrelada à ela, sei lá”. Mas, no caso, a mulher me ouviu falar, aí ela era uma pessoa muito familiarizada, assim, com política brasileira e tudo e topou. E aí eu acho que eu comecei a perceber o efeito também, a oportunidade que tinha tido com esse trabalho, né, no Programa de Agentes Ambientais, porque isso começou a me abrir várias portas também. Enfim, foi quase como se eu tivesse, eu me sentia como se fosse um furão, sabe, eu estava lá embaixo da terra cavando, cavando, cavando, cavando, cavando e aí você olha pra trás: “Nossa, andei pra caramba”. (risos) E aí, conheci vários professores, fui convidada pra várias aulas, fui assistir, inclusive... e aí as pessoas eram muito críticas e era uma época no Brasil em que, por ser um governo de situação progressista, que aparelhou muitos movimentos sociais, né, tinha uma certa limitação nas análises do pessoal: tudo que o governo fazia era ótimo porque, enfim, né, estamos todos do mesmo lado, blablabla. E até mesmo algumas coisas erradas que aconteceram, eu ficava, tipo: “Gente, não é possível que a nossa elite intelectual não tem nada a dizer que não seja “joinha”. Não, eles fizeram, está certo, eles fizeram, está certo”. E aí eu fui lá e eu percebia que tinha uma... eu disse: “Não. Isso, aqui o pessoal está analisando os fatos. Massa! Esse é um lugar que pode me ajudar a ter mais elementos, né, pra eu voltar e fazer a mudança, mesmo”, que era, no final das contas, o que me interessava. Aí, tá, aí fui, mandei, apliquei. (risos) Aí passei, passei em Brown, passei em Columbia e só que, né, as minhas economias da vida inteira somavam a dois mil reais. Então, obviamente não dava pra pagar a mensalidade. Mas aí, consegui uma bolsa da Fundação Lima, e essa bolsa cobriu todos os meus estudos lá, né, e ajudou a eu ter essa chance. E, quando eu cheguei lá, eu pensei: “Bicho, é agora, eu vou”. Que foi nessa hora, né, que eu entrei na universidade e aí eu fiquei fazendo a conta, eu me encostei num daquelas pilastras, assim, e fiquei olhando em volta, e começou a me dar uma vontade de chorar, uma vontade de chorar, e comecei a lembrar de todo mundo que veio antes de mim, né? E eu acho que, assim, isso é uma coisa que precisa ser dita, eu acho que a gente precisa conversar mais sobre isso, a gente que vem de família da classe trabalhadora, né? É difícil, a gente tem um monte de insuficiências, e essas insuficiências fazem a vida das pessoas ser mais difícil, e as pessoas ficam mais feridas no processo, sabe? Não é só uma coisa de você não ter dinheiro, mas de que vai ter muitas coisas, muitas insuficiências emocionais, que por causa daquela coisa difícil que está todo mundo passando ali, as pessoas, sabe, têm mais trauma, têm mais... então, não é, apesar de ser todo mundo muito valoroso, nem sempre as pessoas serão perfeitas, né, não é uma coisa, assim, harmoniosa. É como às vezes eu vejo, eu vejo muito, eu vejo pessoas falando. Mas, enfim, na minha experiência, né, a minha família é incrível, incrível, mas é todo mundo humano e tem vários dramas entre tudo, sabe? Então eu fiquei pensando: pô, tenho essa sensação de  que meu pai e a minha mãe eram dois santos, apesar de todas as suas venerações, eles são o máximo, sabe, mas a gente não vem, não é perfeito, não vem do contexto perfeito, sabe? Não tinha nem aquela... eu ficava pensando: “Como é que eu vim parar aqui?” Porque não sou nem sou filha dos ricos, nem o exemplo do pobre perfeito, entendeu? Que merece, sabe, aquela família? Porque nas universidades americanas tem muito disso, né, tipo: tem as pessoas que podem pagar pra estar lá, e tem as pessoas que são escolhidas por mérito. Eu não me sentia escolhida por mérito, sabe? Eu não sentia, cara. Eu não sou a Cinderela versão ambientalista, o que eu estou fazendo aqui? Como isso aconteceu? Como uma pessoa de um movimento social, né, caiu aqui pra estudar com as pessoas mais poderosas do mundo? O Obama estudou em Columbia. E aí, enfim, fiquei chorando, chorando, chorando, apareceu um cara, (risos) aí ele: “O que aconteceu com você?”, aí eu: “Não. É Porque eu comecei a fazer as contas aqui, eu comecei a me emocionar”. Aí eu comecei a explicar pra ele, aí ele começou a se emocionar também, porque ele era um piloto lá no país dele, um país aqui da América do Sul e foi, né, enfim, essas histórias, histórias decoloniais. Aí ficou tudo bem e ele me deixou lá, chorando. (risos) Mas, super me perdi, posso parar pra tomar uma água?

P/1- Então, a gente estava falando de Columbia, você estava falando como você chegou lá, estava falando que você chorou, e que o piloto da América do Sul te deixou chorando lá. E como é que foi depois desse desabafo?

R- Foi um momento tão forte, assim, emocionalmente, pra mim, que sinceramente eu não me lembro direito o que aconteceu depois, mas eu me lembro do meu primeiro dia, assim, na orientação lá. Eu já tinha a minha empresa, né, mas eu entrei, eles fizeram brunch para gente se apresentar e tal, e eu acabei sendo a primeira pessoa que ia falar, cara, com aquele inglês de Netflix. Aí, eu falei umas coisinhas assim, pedi várias desculpas, e aí o pessoal, tipo: “Ah, não era pra estar pedindo desculpas, você está aqui, você merece estar aqui”. Mas pra eu poder me convencer disso, rapaz, foram anos. Inclusive, depois que eu terminei o mestrado, apesar de ter me formado com distinção e tudo. Mas foi uma experiência que exigiu muito de mim, muito. Eu comecei, lá foi tipo, foi meio que... ai, espera, deu uma palpitação aqui, deixa eu recomeçar. Certo. Então, Columbia, quando eu cheguei nessa orientação, nesse brunch de boas-vindas, tinha que se apresentar todo mundo e aí eu fui, me apresentei assim toda cabisbaixa, pedindo desculpas, depois cheguei pra orientadora do curso e perguntei: “Vocês não fizeram algum tipo de erro, não? Porque, cara, eu mal consigo falar aqui”. Aí ela, tipo, pegou o (carômetro?) __________ [1:57:36], olhou o meu currículo e falou assim: “Não, ué! A gente escolheu mesmo, você”. E eu: “Ai, meu Deus! Como isso aconteceu?”, me sentindo a pior pessoa daquela sala. E aí foi engraçado que mais, um pouco depois, o pessoal foi apresentando, né, os professores se apresentaram, o pessoal do _____________ [1:58:02] Services, que é tipo os orientadores profissionais, né, chegaram lá, aí eu perguntei, eu levantei a minha mão e perguntei: “Mas, esses serviços que vocês disponibilizam são só pra gente como pessoa física, né, ou vocês também podem ajudar pra quem tem empresa?”. Aí a mulher: “Você quer trabalhar numa empresa?” Aí eu: “Não. Eu tenho”. Aí ficou nisso, assim, uns cinco minutos, os cinco minutos mais longos da minha vida. Aí depois, aí o pessoal todo falou assim “She has a company”, aí ela: “Ham!!”, aí eu: “Ham!” Tomei um susto, pelo susto da pessoa, sabe? Não estava acostumada a  ser reconhecida. Todas as coisas que eu tinha feito até então, pra mim eram muito, assim, lembro daquela coisa da luta, da sobrevivência mesmo, né? Porque eu sempre fui uma pessoa que preciso de liberdade, preciso de inovação, de estar vivendo. E eu pensei: “Cara, a única forma de eu viver uma vida assim, que seja sustentável, do ponto de vista de não dar despesas apenas pros meus pais, vamos dizer assim, é se eu for muito boa no que eu faço, né? Mas, enfim, isso era uma coisa tudo muito inconsciente, eu não tinha percebido ainda o nível das minhas conquistas, até chegar nesse momento, assim. Mas o programa era um programa muito intenso, e foi uma experiência parecida com o que o meu pai passou também. Ele foi fazer um mestrado numa filial de Harvard em Costa Rica, chama Incae. E a gente foi lá, né, eu morei lá em Costa Rica e tal e, na época, foi muito difícil pra ele, muito difícil mesmo, porque o ambiente é super competitivo, o negócio é desenhado pra você falhar. Então, a gente ficou até bem próximo, porque começamos a conversar sobre essa dificuldade, né? Uma coisa que eu aprendi lá, é que tem um teatro, de certa forma, no sentido de que, é difícil de explicar, mas é que tem todo um ritual, toda uma pompa, aquela coisa, mas é uma coisa, de certa forma, ensaiada, sabe, feita pra você aprender a se comportar daquela maneira e não é uma coisa a qual só alguns pertence. O que eu percebi foi que pessoas que conseguem penetrar esses ambientes, foram mais, receberam esse treinamento em algum momento da vida e não é aquela, sabe, coisa de simplesmente tem uma, sei lá, muralha entre você e seus sonhos, (risos) eterna. Mas até então foi, até eu perceber que eu poderia, que esses ambientes eram permeáveis, se eu conseguisse entender as linguagens dos quais, sabe, eram organizadas, foram muitos meses de tentando, assim, trabalhar mais, o triplo, o quádruplo, sabe, de todo mundo, pra eu me sentir  capaz, pra eu me sentir no mesmo nível, pra eu me sentir que eu merecia estar ali, sempre meio que tentando compensar pra aquela coisa mental de tipo: “Ah, mas eu sou, né, enfim, uma pessoa pobre, do Brasil, do movimento social, bolsista”. Tinha uma sensação de inferioridade, assim, que eu precisava sempre estar manejando. E aí, a minha forma de lidar com isso era fazer, me impor desafios, né? Inclusive, por exemplo, a gente teve uma aula de mapas. Aí eram grupos, assim, quinze pessoas pra fazer um trabalho. Eu resolvi fazer sozinha e usei os mapas pra minha pesquisa depois, sabe? Esse tipo de coisa que foi legal depois ter feito, mas foi momento de autoconhecimento também, pra ver que não é necessário, né, você estar sempre dando nó em pingo d’água pra sentir que tem valor enquanto ser humano. Mas foi uma experiência, assim, empoderadora, mas difícil também, porque eu tive que me confrontar com vários medos. Mas, depois que saí, eu acho que foi um momento em que eu pude dar essa contribuição, no sentido de ajudar a validar o legado do Movimento Socioambiental, sabe, chegando lá não como Iara, a pessoa que surgiu do nada e que é massa, mas eu fui lá pra falar da minha história, falar de quem me ensinou até aqui, né? Tanto que o pessoal brincava assim: toda vez que eu levantava a mão, aí a galera, às vezes, o pessoal falava assim nos corredores: “Vamos imitar a Iara: ‘Em Brasil’” (risos) Porque eu sempre trazendo as coisas pra cá, sempre pensando no contexto daqui, e como podia usar, sabe, e como se aplicava. E eu vejo que isso, no final das contas, foi muito importante, porque eu voltei com outra visão, conseguindo tomar decisões executivas muito mais simplesmente, com muito mais facilidade, duvidando muito menos, sabendo analisar as situações com mais rapidez. Mas, isso por quê? Em um ano, me botaram pra estudar Toxicologia, Biologia, Química, Microeconomia, Contabilidade, sabe? Análise de Risco, Climatologia, Hidrologia. Eu sou socióloga, entendeu? Química Ambiental. Foi, assim, muito, uma impressão de que toda vez, que tipo, a cada cinco minutos alguém estava jogando um balde de água com gelo na minha cara, sabe? Toda vez, aquela coisa de você ter que estar aprendendo tudo, o tempo inteiro. E o legal de Columbia é que eles, apesar de ser uma escola muito de elite, abandonaram essa coisa, um pouco, que as _____________ [2:05:03] têm de incentivar a competição, sabe, aquela competição que desumaniza e tal. Eles não, eles diziam assim: “Esse curso é impossível de você dar conta sozinho. Você vai ter que aprender a trabalhar em grupo pra fazer as coisas aqui, porque senão você não vai se formar”. (risos) E eu achei isso muito maneiro, porque vários problemas que eu vi aqui no Brasil, sabe, em todos... amo o Brasil, o Brasil é maravilhoso, mas a gente tem uns problemas, que eu vi que podem, que são questões educacionais mesmo. Até mesmo na nossa capacidade institucional de responder as coisas, sabe? No sentido de tipo: por que a gente tem tantos documentos analisando políticas públicas e a resposta do Poder Público é uma coisa tão primária? Porque a gente não tem a cultura do feedback, vamos dizer assim. É aquela coisa do tipo: “Ah, fiz uma ressalva pra isso daqui”, e a pessoa vai pegar no mérito e responder no mérito. Não, isso gera toda uma animosidade no ambiente de trabalho, animosidades políticas, às vezes, simplesmente, as discussões não avançam. E eu comecei a perceber lá, que por a gente não ter opção, a gente tinha que entregar os resultados, você não podia se prender a esse tipo de armadilhas, sabe? Eu ficava toda hora fazendo paralelo com movimentos sociais, né? Tipo, a gente tinha uns grupos que você atendia clientes reais. Então, por exemplo, eu trabalhei com o Sierra Club, e teve gente que trabalhou com a prefeitura de Nova Iorque. Então, eles vinham, davam um problema e você fazia uma consultoria, mas só que era todo mundo junto. Eu percebia que, às vezes, tipo, é tentador você simplesmente ignorar a questão que está sendo colocada, sabe, ou então mudar o assunto, ou tentar maquiar de certa forma, ou fazer aquilo, uma coisa que é técnica, parecer pessoal, pra que seu ego não se sinta ferido, esse tipo de coisa assim. Como a gente não tinha escolha, ou era isso ou a gente passava por cima disso pra entregar uma coisa que fizesse sentido na vida real, ou a gente ia, né, ser reprovado nos cursos, tivemos que, todos, aprender a segurar nosso ego, a resolver as nossas diferenças culturais. Na minha turma tinha, tipo, gente de praticamente todos os continentes, eu acho que só não da Oceania. Ah, não, tinha gente da Oceania, sim. Mas assim, pessoas de temperamentos diferentes, culturas diferentes, de zonas de conhecimento diferentes, né? Porque tinha gente tipo, eu sou socióloga, mas tinha muito engenheiro, advogado, cientistas dessas áreas, né, da ciência mais tradicional, vamos dizer assim. E aí, isso foi uma experiência muito boa, porque eu via que, tipo: não, dá! Claro, a minha experiência da... mesmo, eu percebi, né? A cooperação é uma técnica. E, mesmo sem nada ideológico no meio, você ainda pode cooperar com algumas pessoas. Aí eu pensei: “Massa! Preciso levar isso de volta pra casa”. Porque eu acho que todo mundo que trabalha em coletivo, ou em movimento social, já teve alguma reunião daquelas que você fica, tipo: “Cara, o que a gente está fazendo aqui?”, sabe? “Esse povo louco”. Ou então, enfim, que uma pessoa problematiza um trecho. Enfim, que você discute tudo, menos o objetivo mesmo ali daquele movimento e tal. E isso não é exceção, né, é um problema, é um sintoma de uma coisa estrutural mesmo, de uma parte. Aí eu percebi, né, que é uma coisa que faltou na nossa educação, com essa democratização do acesso à educação, a gente não foi ensinado a cooperar, trabalhar juntos, ser objetivo, sabe? E aí eu comecei a sentir essa necessidade também, de trabalhar mais isso no dia-a-dia e de criar processos nos quais as pessoas que trabalham comigo, tenham acesso a esse mesmo tipo de formação. Inclusive, comecei a... as formações que eu faço, né, lá na minha empresa, são inspiradas nesse curso que eu fiz nos Estados Unidos, porque isso é uma outra coisa que a gente tem aqui, né, que eu percebi que impede muito o Brasil de avançar, que é um certo muquiranismo com oportunidades, sabe, tipo: “Ah, eu sei onde estão essa coisas aqui, eu sei onde estão os cursos, eu sei nanana”. E todo mundo senta naquilo ali e fica protegendo, porque aquilo é a sua reserva de mercado, se você sabe aquilo ali, você é mais valioso, as pessoas vão ter que te contratar, blablabla. Mas isso gera uma mediocridade sistêmica, porque você não aprende, você não ensina o outro e você não deixa aprender com o outro também e você não vai conseguir um bom professor pra aquilo que você não vai conseguir aprender, porque tens uns gaps que só a mentoria consegue ensinar. E a mentoria é o quê? Você ser o honesto com a pessoa: “Senta aqui” e dizer: “Ó, eu vou explicar os meus erros, pra que você não cometa esses erros de novo”. Então, foi isso, assim, esse foi um dos grandes aprendizados lá em Columbia. Bem como eu disse, né, tem sido uma jornada muito antológica, muito de quebrar a cabeça, de quebrar o ego, e pensar como que a gente realmente consegue gerar os benefícios a longo prazo, né? Porque no meu caminhar aí, eu vi muita gente fazendo coisas muito incríveis, mas os projetos morriam na beira da praia, muita coisa legal morrendo na beira da praia. Ou porque o pessoal não consegue trabalhar em conjunto, ou porque falta uma parte crucial ali do dia-a-dia de gerir um projeto qualquer, seja cultural, cientifico. Por exemplo: você não manja do orçamento, ou se você não consegue lidar com a articulação institucional, o seu projeto vai morrer. E eu comecei... e com isso morre ações das pessoas também, né, com isso as pessoas ficam sentindo que: “Pô, eu dediquei uma vida inteira pra uma coisa que não deu em nada”. E isso me doía muito, assim. E aí, foi bom que lá em Columbia eu comecei a ver que, se isso é uma... se esse tipo de insuficiência, de falta de posicionamento de mercado é uma coisa que não é da capacidade inata, mas que são técnicas, então todo mundo pode aprender, então todo mundo pode melhorar, então o Brasil pode melhorar, então os nossos movimentos sociais podem melhorar, né? Enquanto, se a pessoa está viva, ela pode aprender coisas novas e pode ensinar coisas novas. Então, voltei muito nessa lógica do serviço, assim, foi lá que eu me toquei, sabe? O jeito como eu vou trazer os ideais do Chico Mendes, né, continuar aí com esses ideais: Marina Silva, Marcos Afonso, Washington Pinheiro, todo mundo que... Antônio Alves, todo mundo que trabalhou ali no Movimento, não vai ser todo mundo, sabe, tipo: “Ah nós vamos ser a nova hashtag do momento”. Acho que não. Acho que não vai ter esse momento que todo mundo vai chegar assim: “Ah, empate, agora é florestania, nós vamos falar que nem os amazônicos”. Mas é o jeito de fazer as coisas, sabe? É o jeito de cooperar, é o jeito de ver a pessoa naquele inimigo que está ali te ameaçando, de buscar o conhecimento técnico, agora também incluindo o conhecimento técnico, _____________ [2:13:32] da cooperação e aliar isso com as causas dos movimentos sociais pra poder entregar essas mudanças que a gente  realmente quer, sabe? E aí foi por isso que voltei, continuar com a minha empresinha, e é isso que eu faço hoje da minha vida, né, tipo: pego um projeto e esse é um desafio que eu me propus, sabe? Eu quero ver se eu consigo servir, entende? Não ser a pessoa que diz assim, por exemplo, eu não sou a idealizado do Festival de Música Indígena, não é o meu festival, não é um negócio que eu inventei, mas eu sou a viabilizadora. E isso, cara, sabe, eu acho que eu quero começar um movimento de viabilizadores, porque isso é uma coisa que é a melhor sensação do mundo, saber que vai ter um Festival desse e que não é por causa da minha  brilhante, sabe, do meu brilho intelectual, da minha visão, não. É uma coisa ali, cara, que é fruto da visão artística de outras pessoas, mas onde está o legado da florestania, nisso? É a forma de construir, é a forma de sonhar com a responsabilidade, de gerir os recursos, né, de considerar tanto o lado social, quanto o lado ambiental, enfim, de ir replicando esse DNA da vida, né, que me foi ensinada ali naquele contexto de pessoas que estavam sonhando com um mundo diferente, radicalmente, inclusive, ao ponto de negar o capitalismo. (risos) Então, foi essa a minha forma de customizar, assim, pro ponto de vista empresarial, vendo as startups, os negócios, como uma possibilidade de mobilização e de convocar as pessoas para servir. E é isso que eu tenho feito com o pessoal da rádio Yandê, com os Criativos Africanos que estamos fazendo aí um Netflix de quadrinhos africanos, sabe, encontrar a boa ideia e ir. Hoje eu acho que estou chegando naquele momento que, antes eu tinha um monte de opiniões, sabe, muito consolidadas e hoje eu pauso um pouquinho mais antes de ter essa opinião super consolidada. Até porque é um desafio de você sonhar junto com a pessoa, né? Às vezes eu fico, acho tão estranho, cara, que as pessoas... é tão difícil um movimento social ter base hoje em dia, ter apoiadores, porque todo mundo... você só quer apoiar uma coisa que seja perfeita ou alguém que você não conhece de jeito nenhum, né? Tipo assim:, ah, é muito fácil, vamos dizer assim, ah, pessoas que não conhecem, não militaram, não são do Acre, apoiarem a Marina, porque ela é um ícone, é uma ideia, né, não é uma pessoa que teve uma jornada, (risos) erros, acertos, né, vai descobrindo ali. E a gente, dos movimentos sociais, que vai construindo as coisas ali, é essa relação, né, que a gente tem com a nossa base: nós somos pessoas imperfeitas, fazendo coisas imperfeitas, mas essas coisas imperfeitas merecem ser apoiadas também. Mas, não, a gente ainda não tem essa cultura do vou sonhar junto com você, sabe, vou ver as coisas que você está fazendo certo e potencializá-las e te ajudar as coisas que você está fazendo errado, sabe, pra que o seu projeto possa existir a longo prazo. E é um exercício que eu tenho me testado, assim, e tem sido muito bom, porque é uma estrutura que funciona, sabe, é uma estrutura de longo prazo. Desse jeito eu não preciso que as pessoas me adorem ou me tenham como uma referência última, sabe, pra tudo que é certo ou tudo que é errado. Eu não preciso ter a última palavra em nada. Posso, simplesmente, como diz o Gilberto Gil, né: “Um pequeno grão de areia, é o que eu sou; e o grão de areia conseguiu, sendo tão grande ou maior do que eu, ser bem pequenininho e não precisar se mostrar lá mais”. Está lá, trabalha em silêncio. E eu tenho chegado a esse momento, assim, da minha jornada, de encontrar o equilíbrio entre servir e existir também, que é importante, né, mas, nossa, eu super recomendo, é libertador. Isso vem de um contexto também de tipo... o movimento que eu participo na Rede Sustentabilidade, o pessoal fala sempre assim: “Queremos ouvir dos jovens, queremos ouvir dos jovens, queremos ouvir dos jovens”. E durante muito tempo eu falava, mas depois eu parei pra pensar que eu, tipo, cara, não, quando eu tiver uma coisa pra falar, eu vou falar, mas também é importante que eu tenha os elementos pra avaliar a minha fala, sabe, que eu tenha os elementos pra procurar sabedoria fora de mim também. A gente tem agora o debate do protagonismo que é importante, mas também é importante você compor. Enfim, aí eu fico viajando nessas coisas, desde que eu saí de Columbia eu tenho pensado bastante nisso.

P/1- E quando você saiu de Columbia, que ano?

R- Eu saí no dia, eu saí em 2017, foi só um ano.

P/1- Foi só?  

R- De 2016 a 2017. Um mestrado de três anos condensado em um, com onze matérias extras, porque o mestrado é em Administração Pública, ênfase em Ciência e Política Ambiental. E aí a parte da ciência, não tem nos outros mestrados de administração pública, né? Então, a gente tem que ir no verão e fazer essas matérias. E eu ainda inventei de fazer a pesquisa, né? 

P/1- Sobre?

R- A pesquisa sobre os... essa pesquisa, sintetizando o saber oral do movimento amazônico.

P/1- Ah, o da análise do discurso, que você falou?

R- Não, a análise do discurso eu fiz com os ruralistas. Eu me arrependo amargamente.

P/1- Ah, na graduação, desculpa, verdade. Me confundi.

R- E aí a minha tese de mestrado que foi, eu fiz como se fosse um dicionário, assim, inspirado mesmo nas enciclopédias, né, que eu sempre gostei muito, de táticas e de coisas que deram certo.

P/1- Das doze, né, que você mostrou lá nas fotos.

R- E aí tem o empate, aí tem a ciência, né, tem os produtos florestais não-madeireiros. E aí, depois, eu resolvi fazer mesmo. Não era recomendado você fazer uma pesquisa enquanto estava, né, fazendo esse curso, que era muito intenso. Mas aí eu inventei de fazer, botei na cabeça e já era. (risos) 

P/1- E já que foi tão importante essa sua passagem por Columbia, você lembra como foi o último dia que você estava lá, antes de voltar?

R- Lembro. Não antes de voltar, mas eu acho que o que mais me marcou foi o último dia na universidade mesmo, porque eu tinha passado esse ano todo me sentindo mal, né, me sentindo menos, com aquela galera ali, sofrendo. E é uma coisa curiosa, assim, o ambiente, aquele ambiente, mesmo que a escola incentive a desconstrução, mas ainda tem uma certa competição, sabe, as pessoas são difíceis. Então, eu andava muito, eu me sentia muito acuada em geral, apesar de ter esse espírito meio guerreiro, né, de botar as coisas na cabeça, e vai, mas só eu sabia como eu estava por dentro. E aí, no último dia a gente fez uma prova, era um professor brasileiro de Microeconomia II que, cara, a nossa turma de mestrado, eu não sei, eu acho que eles não se identificavam muito com o estilo do cara dar aula, sabe, mas _____________ [2:22:14] essa prova e todo mundo foi muito mal e saíram arrasados e tipo: “Ai, será que eu vou me formar depois disso?” E eu saí normal, sentei num sofazinho, liguei pra minha mãe e fiquei olhando a galera passar assim, com as provas assim, chorando, tadinhos. E depois disso eu fui pra minha casa que, na verdade, nossa, nem era uma casa, eu morava num dormitório lá, né, só que era um dormitório desses que você divide cozinha, divide o banheiro e eu dividia com muitos adolescentes, então, era meio, meio difícil, porque o pessoal não tinha muitos hábitos, né, de limpeza, então... mas a sensação que eu tive foi a seguinte: voltando, saindo lá, né, desliguei o telefone com a minha mãe, tal, fui voltando, assim, pensei: “Era isso? Eu venci, eu dei conta!”, sabe? “Terminou”. E, no último dia nem era eu chorando, esperneando, achando que não ia passar. Eu sei que eu fiquei assim... aí até eu entrei, eu perguntei pra moça: “É isso? Aí depois a gente vai lá, pega a beca e vai embora?” Aí eles: “É” “Então, tá”. E fiquei nessa perplexidade, assim, até o dia da cerimônia mesmo e aí foi muito importante pra mim, porque no brunch de cerimonia, os professores... tinha um amigo do meu pai que é professor lá em Columbia também, chama Reynold, mas ele é um psicólogo, que mexe com pacientes transgênicos, outra área, né, e aí ele foi também, porque ele foi uma pessoa que me ajudou muito enquanto eu estava lá na universidade, aí ele ficou: “Nossa, eles gostam muito dela! Eles gostam muito dela!” Porque os professores vinham me cumprimentar e tal, e vários colegas vindo agradecer, e aí foi que caiu a ficha, assim, tipo: era um teatro, feito pra realmente te testar e te deixar, te fazer explorar os teus próprios limites, né? Mas foi meio surreal, assim. Aí eu voltei lá esse ano, e a sensação completamente diferente, assim. Antes eu sentia que os prédios iam cair em cima de mim, sabe? E aí hoje não,  me sinto parte daquilo ali, e isso é uma loucura, (risos), porque estatisticamente não era, né, pra eu fazer parte, mas acho que a lição da história é: cara, se eu consegui, qualquer um consegue, e é uma questão da gente ser honesto com os outros na hora de explicar, nessas coisas legais que a gente conquista na vida, sabe? Qual que é o verdadeiro processo! Porque eu poderia sentar aqui e falar, sabe, de uma perspectiva heroica, passando por tudo isso, mas não é só isso, não é verdade pra ninguém, todo mundo faz as coisas morrendo de medo, achando que não deu certo, as coisas parecem desencontradas, sabe? O Lacan que fala: o sentido só vem depois, e é isso mesmo. Então, dentro dessa trajetória que eu tive, dessas conquistas, né, todas, eu acho que o mais importante de ser dito, de verdade, é que teve muito medo, teve muita insuficiência, eu tive que aprender  um monte de coisa, sabe, e o processo de aprender foi difícil, foi doído, deu trabalho enorme e estamos aqui, e essa é a verdade. E eu acho que, sinceramente, qualquer um que finge que a sua vida, sabe, que essa não foi uma parte relevante da vida, essa parte da incerteza, de você ficar meio ali batendo cabeça, se deparando com a sua própria mortalidade, com a sua própria insuficiência, sua própria humanidade, né, acho que qualquer um que tenta omitir isso está equivocado, está mentindo não só para todo mundo, né, mas pra si mesmo. Então, eu gosto de ter esse cuidado, porque o meu foco realmente é o mundo, sabe? Já eu quero continuar subindo, subindo, subindo, e deixando a porta encostada, sabe, pra que mais venham subindo junto e subindo e organizando os negócios dos amigos, pra que eles também possam sair arrasando, e a gente consiga o nosso lugar na História, com h maiúsculo. Mas eu faço isso sendo uma pessoa, sabe, só mais uma pessoa, cheia de medos, cheia de traumas, cheia de insuficiências. E consegui, estou aqui e vou mais longe, sabe? Eu acho que essa é a minha mensagem, sem entrar nos detalhes das tragédias que todo mundo tem, né, mas mencioná-las, porque elas existem, elas machucam a gente. E uma coisa que meu pai falou, que me ajudou muito, nessa minha trajetória, eu acabei lidando com pessoas que são muito respeitadas, né, que são muito... e aí eu ficava: “Ai, meu Deus! Pai, como é que eu falo com aquela pessoa, ah nanana” Aí o meu pai: “Filha, é gente, é gente. Vai no banheiro, ri, é uma pessoa normal”. E é louco, né, que a gente vive num sistema que faz a gente esquecer que as outras pessoas, só porque elas têm alguma coisa que a gente não tem, não são pessoas como a gente, enfim. Mas é um processo contínuo, até mesmo pra mim mesma, assim, porque hoje em dia, quando a gente vê, principalmente nesse mundo do startup, né, da cultura. O founder, nossa, o founder sempre é o cara, aquela pessoa que teve uma visão, saiu, né, dando estrelinha, nada fazia parar. Não foi assim comigo. Tive que trabalhar em momentos de pesar, em momentos de luto, trabalhar sem vontade, e deu certo, estamos aqui, vamos fazer o primeiro Festival de Música Indígena, sabe, contemporânea, na Oscar Freire!

P/1- Conta mais. Conta mais do festival.

R- Dia vinte e nove, e trinta de novembro. (risos) Ah, o festival foi uma ideia da rádio Yandê, né? Eu estava no Rio e uma amiga minha que também é do Acre, também com esse_____________ [2:29:43]  (risos), ela me apresentou pro coordenador da rádio Yandê, que é a maior rádio indígena do Brasil, mas que eu conhecia por causa dos Brô MC’s, que são o primeiro grupo de rap indígena, são guarani kaiowá. E aí a gente descobriu isso na internet, né, o poder da internet, e aí aprendemos a cantar as músicas, enfim, né? E eu só cheguei pro cara e disse: “Olha, nossa o trabalho de vocês é demais!” E só, enfim, fiquei conversando um pouco. No dia seguinte ele me convida, começa a fazer umas perguntas sobre a minha carreira e tal, e aí eu falo, né, dessa ideia de trazer esse conhecimento executivo, porque eu acho que essa é a minha missão no momento: ser o braço administrativo pra garantir a consolidação institucional das iniciativas que podem mudar o mundo, sabe? Não é pegar a visão, é ser a pessoa que vai ali segurar a onda, dia após dia, pra que se consiga ter uma coisa sustentável a longo prazo. E, enfim, ficamos conversando sobre isso e ele veio com a ideia do Lollapalooza Indígena, né? Aí eu tive o meu grande teste dessa ideia que era, né, de você estar a serviço de uma causa, e a serviço de uma visão, né, de um grupo, que não necessariamente vai ser a sua. A filosofia nossa, do Terra Firme, é trabalhar pelo multiverso, né? Então, não estou trabalhando, não acho que o Festival de Música Indígena vai resolver tudo, sabe? Também não acho que o Netflix para quadrinhos vai resolver tudo, mas vão ser várias iniciativas, assim, que vão criando um outro tipo de mundo, né, pra gente viver. E aí eu conversei com ele, e aí ele me chamou, e a gente começou a tentar viabilizar, né? Nossa ideia inicial era fazer no auditório do Ibirapuera, ali atrás, né? Mas aí era muito caro, não deu certo. E a gente vem, aos trancos e barrancos, aí, viabilizando essa ideia. Temos começado, eu sei que a gente está fazendo história, assim, mas o preço, meu irmão, ô preço alto! Eu me vi em cada situação! As pessoas, a verdade é essa: grande maioria das pessoas não investe seu tempo, seu dinheiro, em uma iniciativa como essa, que é baseada no futurismo indígena, vamos dizer assim. Então, a gente precisou inovar, assim, muito e principalmente, acho que foi por isso que eu trouxe aquela foto, a gente precisou trabalhar e depender de pessoas que foram colando no movimento, pessoas que a gente não conhecia, sabe, porque as pessoas que a gente conhecia, que achavam que ia ajudar, em princípio, não estavam tão disponíveis quanto a gente achou que iam ser. Então, os nosso aliados todos vieram de lugares super improváveis, e aí a gente tinha duas escolhas, né: ou ficar esperando que o cenário ideal que a gente esperou que acontecesse, que os aliados, né, da causa e papapa, aparecessem e viessem salvar a gente, ou a gente trabalhava com quem apareceu pra trabalhar e criava uma liga a partir dali, né? Tem sido um desafio, mas tem sido maravilhoso, porque faz tempo que eu não via um movimento nascer, assim, sabe? E a verdade é isso: quando está começando qualquer coisa nova, você não conhece as pessoas há muitos anos, mas é um desafio, especialmente porque agora, esses movimentos, tomam um caráter de negócios, né? Então, exige toda uma estrutura que é diferente, assim, não dá pra simplesmente: “Ai, cansei. Vou deixar isso pra lá”. Tem um compromisso e uma logística, e as consequências também, né, são diferentes, você tem uma reputação a zelar. E aí, como equilibrar isso, com essa cultura mais coletiva. Tem sido um desafio, mas a gente tem criado várias coisinhas, assim, vários mecanismos pra ver se consegue fazer isso a longo prazo, né? O que a gente conseguiu até hoje foi porque a gente soube abraçar e agregar quem chegou querendo doar o que podia doar. Teve gente que pôde doar o seu tempo, teve gente que pôde emprestar um HD, (risos) sabe, teve gente pôde ser um DJ. E se, cara, a gente não tivesse conseguido realmente orquestrar isso, pra que as pessoas se sentissem parte, sabe, e conseguissem dar a contribuição com que elas queriam contribuir, a gente não teria conseguido que elas nos ajudassem também, com que a gente precisava que elas contribuíssem. Acho que foi bem-vindo eu ter essa oportunidade de trabalhar no festival, depois de eu ter passado esses anos aí em crise existencial, (risos) porque eu percebi que a cultura política cria líderes difíceis de lidar, né, porque é uma linguagem da força mesmo. E os líderes que rompem com isso, enfrentam muitas dificuldades, mas o mais intuitivo é você ser aquela pessoa ríspida, que vai, sabe, botar as coisas, a ordem nas coisas na base do grito etc Só que o grito funciona pra quem, quando você tem uma moeda de troca ali, né? A gente, no caso, a gente, zero reais. (risos). E, nossa, o dia que eu consegui o meu primeiro patrocínio, meu Deus! Sabe, um patrocínio de mil reais do Congresso de Felicidade. Nossa! Mas, sabe, pra quem não tem nada, isso é muito pedagógico também, porque a maioria dos meus amigos, né, estão por aí trabalhando, ganhando muito dinheiro, trabalhando na ONU, ou trabalhando... enfim, esse pessoal que passou por esse processo no mestrado comigo, né? Só que, quando você resolve se dedicar a um trabalho social e você não vem de um espaço de privilégio... e olha que os meus pais me ajudam muito, eles ajudam a não deixar a peteca cair, né, quando tem esses momentos de dificuldades mais graves, assim, mas o preço da oportunidade é muito mais alto, né? Então, tem sido um processo assim, de semear sem previsão de quando vai ser colhido. Mas agora a gente está começando a colher, a gente fez um evento na Virada Sustentável, que foi das sete da manhã às nove horas da noite, cheio de gente, muito legal, e as pessoas, assim, muito encantadas, comprando tudo direto dos produtores indígenas, sabe, de livros. A Livraria Maracá vendeu tudo o que trouxe, voltaram pra casa com a mala vazia. Então, tem sido um processo, assim, de construir um ambiente empreendedor, mas com amor, sabe, com senso de comunidade. Porque, se não fosse isso, a gente não teria conseguido erguer esse festival, de verdade. Não tem outra linguagem mais poderosa do que o amor, é isso.

P/1- E tem mais alguma coisa que você quer deixar registrado, dos marcos da sua história de vida?

R- Estou pensando aqui. Não, eu acho que essa é a minha mensagem, assim. Claro que a história da vida da gente tem de tudo, né? (risos) Mas eu acho que, no final das contas, da minha história de vida, o meu pai sempre me... o meu pai me chama de Mister Magoo, porque ele diz que eu sou uma pessoa que anda, assim, pelos lugares perigosos, sabe, e nada acontece. (risos) E esse humor em família, da gente passar pelas coisas. Por exemplo: quando eu fui passar, quando eu fui fazer meu mestrado, as entrevistas, né, do mestrado, em Brown, eu tinha escolhido as minhas roupas em Belém do Pará, e era inverno, eu quase tive frostbite.

P/1- O que é isso?

R- É quando as suas extremidades congelam e ficam roxas e você perde... porque eu voltei pra casa tarde da noite, e estava escuro, e eu estava com as roupas do verão amazônico. (risos) Eu tive que sair correndo no meio do... sabe? (risos) Até tem que economizar nas anedotas, porque elas são muito frequentes, assim, mas é uma parte importante que fica registrado, sabe? Tem uma parte do desajeitada, improvisada, (risos) sabe, que é uma constante na minha vida, e que isso não me diminui na minha capacidade intelectual em nada, sabe? Pelo contrário, me torna mais resiliente, me torna mais competente pra lidar com os imprevistos. E eu acho que isso é uma coisa que todo mundo que vem de família pobre, a gente é abençoado com essa capacidade. Porque se você não conseguir se virar, né, com o que a vida te joga no seu colo, ninguém vai vir ali, sabe, não tem quem vai salvar, você tem que mudar o sistema inteiro, como os meus pais fizeram, né? Então, acho que é isso que eu queria deixar registrado, é mais disso mesmo, de que as conquistas até hoje foram doídas, mas foram também sempre muito engraçadas, (risos) E tem um componente do milagre, tem um componente, sabe, da graça de Deus, da graça da vida, dos orixás, sem a qual não é possível falar da minha história de vida, assim.  É isso.

P/1- E só uma última pergunta que eu lembrei: quando você voltou de Brown, você voltou pra onde? Pro Acre ou pra Brasília? Você voltou pra onde?

R- Eu voltei pro Pará? Tô tentando lembrar aqui. Espera. São muitas viagens. Nesse meio tempo eu fui pro Haiti, fui pra Nigéria, sabe? Fico aí, na pista. Mas eu estava morando no Pará, voltei pro Pará, eu estava trabalhando no Pará. Lembrei. (risos)

P/1- Voltou pro Pará, e você está lá até hoje? Não? Você ficou de lá pra cá?

R- Não, não, agora eu não tenho casa, eu sou nômade, (risos) nômade cívica. Então eu estou em São Paulo, produzindo o festival, né, mas também agora, com essa história dos quadrinhos africanos, tenho bastante coisa rolando na Nigéria, e gosto muito do Haiti também. Também estamos com umas ideias aí, prêmio de educação ambiental voltado pra comunidade travesti em Belém, então talvez eu volte pra lá. Tem esses movimentos, aí.

P/1- Legal. Vocês querem perguntar alguma coisa, meninos?

P/2- Como foi contar a sua história aqui pro Museu?

R- Aterrorizante! Mas não por causa de vocês. É porque, especialmente depois... lá nos Estados Unidos tenho a impressão que o pessoal tem um script pra tudo, tipo: se você teve câncer, você é um sobrevivente; se você vem de uma família pobre e consegue entrar numa universidade, você é first generation, sabe, primeira geração; se você voltou da guerra, você é um veterano. Tudo eles têm nome, cara! E eu, sinceramente, não sei. Não tinha mesmo... claro, eu tentei parar pra pensar, né, no como que eu ia me definir, tal, mas eu não sabia até chegar aqui, então foi um processo, mesmo, de eu descobrir enquanto eu estava falando com vocês, qual que era a minha mensagem. E isso é uma coisa, que eu tenho a impressão, que é só essa, esse momento de escuta que pode realmente proporcionar, sabe, porque eu, a gente tem amigos, aí eu fico pensando, né, que todo mundo pensa muito na sua própria vida, agora, explicar o sentido (risos) pra outra pessoa e pra eternidade, rapaz, isso leva a gente prum outro nível de reflexão, e até mesmo de generosidade mesmo, eu saio muito grata, muito feliz, apesar de todas as dificuldades, sabe, com tudo, acho que estar aqui me ajudou. Eu me sinto, saio com uma sensação de vitoriosa, mesmo.

P/1- Nossa, obrigada, Iara, muito obrigada por contar a sua história pra gente e o Museu fica muito feliz de receber todo mundo aqui e poder continuar com essa missão de escuta, né, que nem você falou. Obrigada, mesmo.

R- Eu que agradeço, de verdade, foi incrível.


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