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História

Das salas de aula às caminhadas na América Latina

História de: Suzi Soares
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2019

Sinopse

Suzi é professora da vida, tendo desde jovem o livro como amigo inseparável. Conheceu e namorou Binho, desse namoro surgiu um bar, de um bar surgiu sarau, do Sarau do Binho diversas expressões da cultura da periferia como a Felizs, que há anos agrega essa cena cultural. Quem são essas pessoas por trás do movimento? Suzi foi professora de escola pública reinventando as formas do ensino, pois sua matéria era o inglês, mas o ensino a humanidade. Acompanhe a narrativa de vida de uma das pessoas que ajuda a construir a cena cultural da periferia de São Paulo.

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História completa

O meu nome é Suzi Soares e  eu brincava muito de escolinha também, no quintal de casa. A gente montava a escolinha e eu falava que eu era professora e eu gostava muito de brincar disso. Depois gostei muito de ler, lia muito. Naquela época não tinha muito acesso a livros em casa, bibliotecas também não tinha no bairro, mas a minha mãe... eu não sei, lá em casa sempre apareceram livros e eu lia. Meu pai falava: “Você não cansa de ler? Você acabou de comer, você está lendo”. Meu avô falava assim: “Menina, não pode fazer isso porque acabou de comer, garrolê, morreu” e eu falava: “Garrolê, o que será que é garrolê?” Depois de muito tempo que eu fui entender que era agarrou a ler e morreu. Que ele dizia que não podia ler depois que comesse porque fazia mal. Então ele falava: “Acabou de comer, garrolê, morreu”. Mas eu achava que garrolê era uma palavra, né? E depois que eu fui entender que era agarrou a ler e morreu, né? Porque eu estava sempre lendo

Meu pai,  ele trabalhava em prédios, sempre, assim, de segurança ou porteiro. Ele até conta que ele foi porteiro em um prédio onde morou o Tim Maia. E ele disse que ele sempre estava emprestando dinheiro para o Tim Maia , que estava sempre duro. E aí eu lembro que depois, na casa da minha mãe, tinha uma fôrma de bolo que tinha sido do Tim Maia, mas não sei mais onde está essa forma de bolo.



Eu virei professora, por exemplo, eu estava na sala de aula e eu via um aluno tratando o outro com racismo. Eu falava: “O quê? Para tudo” e falava: “Agora vai parar as lições de inglês e agora são lições de vida”. Eu começava a falar sobre o racismo. Ou falar sobre o bullying. Ou falar sobre várias outras questões. Muitas vezes eu fiquei a aula inteira falando sobre outras questões... Ou alunos que chegavam chorando porque: “Professora, ontem eu pensei em me matar”. Eu falei: “Como assim você pensou em se matar? Então, vamos conversar”. Eu lembro de uma vez que o João me falou isso: “Ontem eu pensei em me matar”. Eu tinha duas aulas naquela sala e eu falei: “Hoje é lições de vida, vamos conversar”. Ficamos as duas aulas conversando com o João, pra entender o que ele estava vivendo. E foi muito lindo porque todos os alunos começaram a falar dos seus problemas. Porque o João começou: “Porque meu pai não gosta de mim. ” e aí os outros alunos começaram: “João, sabe o que acontece na minha casa? O meu pai bate na minha mãe”. Aí o outro começava: “Na minha casa não tem o que comer. Eu moro em um barracão”,. Todos começaram a falar dos seus problemas. E  o João, o problema dele foi diminuído diante do problema dos outros, foi uma terapia em grupo que a gente fez ali na sala, que todos saíram dali bem. E que importância teria eu ficar dando aula de inglês em um momento como esse ? E eu passei por isso muitas e muitas vezes, de alunos que estavam com problemas e eu parar a aula pra gente tratar daquele problema, talvez, eu não tenha ensinado inglês quase nada. Mas eu acho que eu contribuí na vida de alguns alunos de outras formas. Tanto é que eles vêm me falar isso. E na parte cultural também porque eu já estava envolvida com o processo dos saraus e esse movimento cultural ali na zona sul e aí eu percebia que os professores não tinham a mínima noção do que estava acontecendo ao redor da escola, no entorno da escola. E eu queria levar tudo isso pra escola. Então, eu levei o sarau, grupos de teatro, muitas coisas e os alunos falavam: “Professora, nunca vi isso na minha vida”. Quando eu levei a Trupe Lona Preta pra minha escola, os alunos falaram: “Professora, foi a coisa mais maravilhosa que eu vi na minha vida”. E depois que eu saí de lá, eles não tiveram mais isso. E eles vinham me falar: “Professora, nunca mais a gente teve nada diferente na escola”. E eu indicava livros. Às vezes eu matava aula, mesmo, com os alunos. Os alunos gostavam. Eu sentava e eles vinham e sentavam em volta,  era uma estratégia deles também pra matar a aula. Um deles me falou isso recentemente: “Professora, a gente gostava de te enrolar porque a gente sentava lá pra conversar com você, mas eu aprendi muito ali conversando com você”. Então, eram outros aprendizados. Eu não dava aula de inglês, mas eu ensinava outras coisas pra esses jovens. Muitos se tornaram meus amigos, assim. Um foi fazer Biblioteconomia. Ele disse que foi por minha causa que ele foi fazer esse curso

 

 O Binho foi o meu primeiro namorado e é com ele que estou até hoje. Então, eu e o Binho voltamos da Inglaterra em 1993, eu estava grávida da Naiana e a gente voltou com um pouco de dinheiro, mas sem saber o que ia fazer... Quando eu voltei eu estava grávida, eu estava acho que com seis, cinco meses de gravidez e nós voltamos para um bairro e a gente falou: “E agora? O que nós vamos fazer pra sobreviver agora, que trabalho nós vamos fazer?”  Um dia, passando de carro em frente a escola onde nós tínhamos estudado, a gente viu uma porta com uma placa de aluga-se e aí a gente falou: “Vamos montar um bar aqui nesse lugar”, . A gente nunca tinha tido um bar, mas a gente falou: “Vamos fazer”. Alugamos esse espaço, fomos reformando, pintando.

 Eu lembro que o dia que inaugurou a gente ainda estava pintando, nosso cunhado estava fazendo um desenho na parede e as pessoas: “Vamos abrir logo”. Os alunos da escola não viam a hora de abrir aquele espaço, né? Aí levantamos a porta e trabalha, trabalha, trabalha. Eu lembro que a Naiana nasceu dez dias depois que a gente abriu o bar. Então, a gente montou o bar, eu estava de barrigão, assim. E aí deu muito certo porque os jovens dali não tinham opção de lugar pra ir, né? E a gente começou a fazer coisas naquele bar que não era só vender o pastel ou uma bebida. A gente estava sempre falando de livros, o Binho estava sempre indicando livros, a gente tinha um toca discos que a gente colocava lá para as pessoas colocarem as músicas pra ouvir e aí começamos a inventar coisas, né? Porque a gente não queria só um bar. Aí começamos a fazer,  o Binho sempre tinha uma ideia maluca. Quando o movimento caía ele falava: “Preciso inventar alguma coisa”. Aí ele criava uma promoção maluca, assim, era um pastel e um suco de laranja. Promoção Apelação. E a gente vendeu muito pastel com suco de laranja. Isso dava uma levantada. Aí ele punha umas faixas no bar tipo: Bob Marley nunca esteve aqui. Porque você vai em alguns lugares, tem fotos de famosos: fulano famoso esteve aqui. E ele fazia o contrário. Sempre foi a anti propaganda: Bob Marley nunca esteve aqui. E outros caras, assim, ele colocava. Depois também no bar a gente tinha uma placa que era: Nós fazemos o pior pastel de São Paulo. Nós temos a pior cerveja, a pior panqueca e o pior atendimento. Era uma placa. Eu tenho foto dessa placa. Vou mandar pra vocês. Que ficava na porta do bar, né? E as pessoas paravam pra tirar fotografia. As crianças queriam ir lá comer o pior pastel. “Mãe, eu quero ir lá pra comer o pior pastel”. Mas não era o pior, era o melhor, né? Mas a gente ia sempre na anti propaganda ora atrair as pessoas, Então a gente começou a fazer a Noite da Vela, que a gente apagava. Também, a Noite da Vela começou de alguns momentos de crise financeira. Então, a gente falava: “Vamos fazer um jantar”, né? Ao invés de vender pastel, a gente fazia um jantar e vendia os convites antecipados, eu fazia panquecas e a gente apagava as luzes do bar, colocava luz de vela, decorava, forrava assim com um pano preto, assim, pra criar um ambiente assim e a gente colocava aquelas músicas pra tocar no disco de vinil e aí, nesse momento, foram surgindo as poesias. As pessoas, entre uma troca de música e outra, no vinil, que dava tempo, vai trocar um disco: “Posso falar um poema?”, né? Então, tinha algumas pessoas que frequentavam o bar que eram pessoas que gostavam de literatura e aí começou a surgir isso, de falar poesia. E aí eu lembro que em uma dessas noites da vela foi um sarau, mesmo. A gente tem isso gravado em VHS, mas é um material muito ruim, assim. Qualidade péssima. As fotos também eram escuras. Naquela época tinha pouco recurso pra isso, né? E aí começou e então a gente fazia esporadicamente a Noite da Vela, né? Depois, com esse nome de sarau, mesmo, a gente começou a fazer em um segundo bar que a gente fechou o primeiro bar, ficamos um ano parados e abrimos um segundo bar. Nesse segundo bar a gente começou a fazer toda segunda-feira, mas aí já existia a Cooperifa com esse nome de sarau. A gente começou fazendo antes, talvez, mas sem o nome de sarau, que foi a Noite da Vela. E depois a gente começou a fazer toda segunda-feira no bar e era o dia que o bar mais lotava, praticamente.

 

Se você fala: “Suzi, eu estou precisando disso, disso e disso”, na hora eu quero resolver aquilo. Eu vou acionar os contatos que eu tenho, as pessoas que eu conheço, eu vou tentar resolver o seu problema. Eu não fico ali: “Está bom, amanhã eu vou pensar como é que eu vou te ajudar”. Não, é pra agora. Você está precisando de ajuda é pra agora, né? Então, da mesma forma, por isso que as pessoas que eu levei pra morar na minha casa, sempre em comum acordo com o Binho e com a Naiana, né, mas geralmente vem na minha cabeça primeiro, eu falo: “O que você acha da gente trazer o fulano pra morar aqui? Ele está precisando!” E os dois, de cara, topam. A gente sempre pensa da mesma forma. E eu acho que é tão importante isso, você abrir  as portas da sua casa para as pessoas, né? O quanto você agrega, o quanto você soma, pessoas que você nem conhece. Tem gente que fala: “Você é louca! Levar um cara pra morar na sua casa? Você tem uma filha que dorme lá e não sei o que”. Nunca me arrependi, nunca deu errado, são pessoas que viraram pessoas da minha família, né? E é engraçado porque a gente tem uma amiga, a Dora, que agora ela recebeu recentemente dois irmãos do Peru na casa dela. Hospedagem solidária. E ela falou: “Suzi, como foi importante eu ter visto essas coisas que vocês fazem pelas pessoas e como eu fui me abrindo para as pessoas também”. Ela falou: “Como isso me fez bem!”, né? Então, ela recebeu esses dois irmãos e ela ficou tão feliz. E ela veio me agradecer: “Obrigada por você me ensinar a fazer isso porque eu não tinha coragem de receber pessoas na minha casa”. Então, eu falo para as pessoas: “Se abram mais, abram suas portas, sejam mais solidárias com a dor do outro e com a necessidade do outro”. 

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