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História

Das plantações aos postes

História de: José Reinaldo de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/12/2004

Sinopse

José Reinaldo nasceu na zona rural de Uberaba. Na adolescência, veio morar com a família na área urbana da cidade. Nesta entrevista, ele nos conta como foi sua adaptação à cidade e à mudança de trabalho, da lavoura ao trabalho com cabos e postes na CTBC.  

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História completa

P/1 - Boa tarde, seu José Reinaldo, obrigado por ter aceito nosso convite. Eu queria que, por favor, o senhor começasse essa conversa nos dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - Está bom. O meu nome é José Reinaldo de Oliveira. Eu nasci em 28/9/54. Nasci no município de Uberaba, mais precisamente numa fazenda...

 

P/1 - Como é que se chamava a fazenda?

 

R - Fazenda Santa Rosa.

 

P/1 - O nome do seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R - Meu pai, Apolinário Antônio de Oliveira, [minha mãe] Iraídes Abadia de Oliveira.

 

P/1 - A atividade do seu pai, qual é?

 

R - Lavrador.

 

P/1 - Proprietário?

 

R - Arrendatário.

 

P/1 - Nessa fazenda?

 

R - Santa Rosa, isso.

 

P/1 - O senhor conheceu os seus avós?

 

R - Os meus avós paternos... O meu avô eu conheci muito pouquinho, eu era bem pequeno quando ele faleceu. A minha avó paterna eu conheci bem, ela faleceu nos anos 81, 82, por aí. E avó materna… Meu avô eu conheci bem, minha avó eu conheci bem; ambos falecidos, também.

 

P/1 - O senhor teve notícias da origem dos seus avós, se eles eram da região, se vieram para cá?

 

R - Sim. Meus avós paternos eram da região nossa, do município de Uberaba mesmo. Os meus avós maternos... A minha avó, por exemplo, ela era filha de índios - inclusive a mãe dela, que era a minha bisavó, foi pega lá. Então, ela... A região dela me parece que era o Mato Grosso, se não me falha a memória. O meu avô materno era do município de Sacramento; era filho de portugueses, o primeiro brasileiro filho de portugueses. O pai dele era português legítimo, [da] região de Sacramento.

 

P/1 - Você se lembra do nome deles, dos quatro avós?

 

R - Lembro? Lembro, lembro! A minha avó por parte materna, ela chamava... (pausa) Nelsa Umbelina de Jesus, é isso mesmo. O meu avô paterno… Era José...? (pausa). Eu me esqueci... Era José Antônio, me parece que era isso. Minha avó materna era Lórdia Umbelina... Lórdia Madeira, Lórdia Maria Madeira, e meu avó era José Madeira.

 

P/1 - Certo. O senhor tem irmãos?

 

R - Tenho cinco irmãos.

 

P/1 - Na escala, o senhor...

 

R - Eu sou o mais velho.

 

P/1 - É o primogênito?

 

R - Eu sou o primeiro. 

 

P/1 - Mais responsabilidade?

 

R - É...

 

P/1 - (risos) Seu José Reinaldo, como era essa casa da sua infância, esse local onde o senhor nasceu, onde o senhor viveu a sua primeira infância. Como é que era esse lugar?

 

R - Olha, era um lugar bem simples, muito gostoso. Deu até saudade daquilo, da época, né? Era [em um] município de Uberaba, fazenda. Uma casinha muito modesta, uma casinha de chão e meus pais, na época, a gente era uma... Foi nascida aquela escadinha e ele... Eram seis irmãos, seis comigo; o mais velho sou eu, da mais nova a diferença é de sete anos, então o meu pai sofreu muito, era uma dificuldade danada na época. E eu lembro direitinho, a gente... (pausa) Chegava de manhã, ele levantava cedinho; a gente levantava, ia atrás, molhava tudo de orvalho. 

É uma época boa que dá saudades. Era difícil, mas dá saudades daquela época. 

 

P/1 - A atividade do seu pai tinha alguma especialidade? A lavoura dele era específica, como era o trabalho dele?

 

R - O pessoal, de primeiro… No caso do meu pai, ele fazia quase de tudo, mas o fim dele mesmo era a lavoura. O meu pai era marceneiro, era encanador,  eletricista, sendo que nunca teve uma formatura, aprendeu por aprender. Ele fazia tudo isso, mas o fim dele era lavoura mesmo. Era arar com carro de boi na época, plantava, enfim, capinava com cavalo, essas coisas. São coisas bem complicadas, bem antigas, que ele gostava muito. E depois nós fomos crescendo, fomos ajudando. 

 

P/1 - E tinha alguma cultura que ele se especializava mais, algum produto, sei lá, arroz, milho...?

 

R - Era mais arroz e milho, mesmo. Eram produtos específicos da época, mesmo, que eles plantavam. 

 

P/1 - Certo. E na sua infância, essa meninada tinha algum tipo de responsabilidade na casa, tarefas para fazer? 

 

R - Ah, tranquilo. A minha responsabilidade era o quê? Depois de... Eu, com sete anos de idade, já trabalhava. Com sete anos de idade eu... 

Meu pai, na época... Na época, na roça, a gente trabalhava; a gente não tinha quem trabalhasse para a gente. Quando estava folgado, trabalhava para os outros e trocava dia, aí depois a pessoa ia trabalhar para nós. Pagava um dia, pagava outro, não recebia em dinheiro, não. Eu, com oito anos, já ganhava um dia de homem na época, porque a gente era menino, né? Então eu lembro muito bem, não me esqueço: às vezes a gente ia capinar arroz - eu não sei se vocês conhecem o arroz - ______ não vai capinar. Hoje você não capina mais... Só planta, joga um veneninho e pronto. 

Meu pai... Ia cada um com uma linha, eu ia e ficava ali no meio. Ele chegava, voltava, me ajudava, para eu tirar uma linha igual todo mundo. E isso com oito anos de idade. E assim veio.... Eu, com os meus dez anos de idade, eu já arava com boi. Eu, quatro bois, um arado, sozinho. Eu era tão moleque, não dava conta de pôr a canga no boi. 

 

P/1 - Desculpa, não entendi.

 

R - Eu era tão grande, que eu não conseguia erguer uma canga e cangar o boi, de tão pequeno que eu era na época. Eu já fazia isso sozinho, o meu pai tinha problema de coluna. O arado de disco, que o boi arava na época, eu pegava isso, com dez anos de idade eu fazia isso sozinho. E assim foi toda a vida, minha vida inteira, praticamente. A minha infância foi isso, trabalhar. Eu praticamente não tive infância.

 

P/1 - Que tipo de brincadeira, de lazer, que eventualmente rolava ali nessa…?

 

R - O que rolava para nós era uma bolinha depois que o sol entrava, até de noite. Bolinha de pano, aquele negócio. Até que meu pai comprou uma bola para nós. Eu não me esqueço, eu deveria ter uns treze, quatorze anos, foi o melhor presente da minha vida. A gente logo fez um golzinho, um campinho, umas travinhas de madeira, ficamos jogando... Jogava em dupla, aqueles brinquedos, aquele campinho era bom demais. Isso era o hobby nosso de menino, quando eu era pequeno era isso. 

 

P/1 - E a meninada ali de volta, a vizinhança...

 

R - Ah, juntava tudo. À tardinha, ia oito, nove, dez meninos lá, para jogar bola. 

 

P/1 - O seu pai e a sua mãe tinham hábito, faziam questão de fazer refeição juntos, aos domingos, ou durante a semana comiam na roça mesmo?

 

R - Não. Durante a semana, a minha mãe... O almoço sempre chegava na roça às nove e meia da manhã e a janta, [às] duas e meia, três horas. E à noite, a gente esquentava para comer e comia de novo. Isso por uns tempos. Depois a gente foi crescendo e foi mudando um pouco o hábito: a minha mãe levava o almoço de manhã, tipo [às] duas horas levava um lanche, e a gente jantava à noite em casa. Aos domingos, sempre aos domingos era um almoço especial: era um frango caipira, uma coisa nesse sentido, sempre era diferente aos domingos.

 

P/1 - Como era essa sua casa fisicamente? Como ela se dividia, como é que era o funcionamento dela?

 

R - A minha casa tinha três quartos, não tinha laje - nem existia isso na época. Era uma casa de telhas, de tijolos - nem é tijolo, é adobe, não sei se você conhece adobe. É feito da própria terra, né? O chão, ultimamente meu pai tinha cimentado, mas no início era terra. 

Ela tinha três quartos, sala, a cozinha e uma despensa. A despensa é onde guardava os mantimentos, essas coisas, tipo banha, e também era onde tomava banho. Tomava banho na bacia, não tinha nem banheiro, não tinha isso não... Eu chegava, trabalhava o dia inteiro, lavava o pescoço e as pernas e estava tomado o banho. 

Naquela época era isso. Isso em 1960, 62, 64...

 

P/1 - E a escola, seu José Reinaldo, tinha escola ali na fazenda? Como é que...

 

R - A escola... Tinha uma escolinha rural, na época. Ela funcionava numa distância de uns dez quilômetros, mais ou menos, da minha casa. A gente saía de manhã cedo, quando estudava, tipo [às] seis horas da manhã. Ia à pé, [às] oito horas estava chegando lá. E assim, vice-versa, ia e voltava. 

Tinha ano que passava para a tarde. Eu tirei [o] quarto ano primário, eu tenho meu diploma lá em casa do quarto ano primário, nessa escola. Chamava Escola Pena Branca, hoje já não existe mais lá.

 

P/1 - Tinha algum professor ou professora que tivesse ficado marcado na sua memória?

 

R - Tem, tem. Tem uma professora, eu acho que ela já é falecida, chama Lucília; essa professora marcou muito. Ela era superdedicada aos meninos, às crianças... Porque naquela época os meninos eram... Era costume, eles brigavam dentro da sala. Ela [os] punha de joelhos, ficavam de joelhos; e eu fui várias vezes, era uma das pessoas… Eu fiquei mais de meia hora de joelho em ______ de milho; tinha de ficar, se não ficasse, apanhava. Então, aquela época ali era essa.

 

P/1 - No grão de milho?

 

R - No grão de milho... Não tinha disso não. E os pais não achavam ruim, também. Não tinha jeito. Não é igual a hoje, que [se] você puxar a orelha de um filho você pode até ir preso disso, é complicado...

 

P/1 - Esse trajeto de ir e voltar da escola… E quando chovia?

 

R - Molhava. Não tinha capa, não tinha guarda-chuva. A única coisa que tinha era um saquinho, aquele saco branco de plástico; a mãe dava e você punha na cabeça. Mas normal, molhava. Meu pai não tinha condição de comprar nem um guarda-chuva, na época. Guarda-chuva, aquele guarda-sol, nem aquilo ele tinha condições de comprar, na época. Era bem rústica mesmo a coisa...

 

P/1 - E depois, como é que continuou a sua vida escolar?

 

R - Não. A gente não tinha... Porque na época, na roça só tinha até o quarto ano primário. A gente saiu da escola, o meu pai não tinha como manter a gente na cidade para estudar; tinha que vir para cá e morar para estudar, então não tinha como manter. 

Bom, ficamos até 76, aí eu estava com 21, 22 anos. Nós resolvemos deixar essa vida sofrida da roça e mudar para a cidade. Foi quando, no fim de 76, começo de 77, eu entrei na CTBC e comecei a estudar depois de 22, 23 anos.

 

P/1 - Essa decisão de mudar de cidade, foi para Uberaba mesmo?

R - Exatamente, mudamos para cá. Cidade quer dizer Uberaba. 

 

P/1 - E veio a família toda?

 

R - Veio todo mundo para cá. Na época, a gente mudou em agosto.... Minto, não foi 76, foi agosto de 77, nós mudamos desse município para cá, para Uberaba, aí a gente ficou... Eu entrei na CTBC, parece que em outubro de 77. Nesses dois meses ou três, eu quase voltei para a roça. Eu não era acostumado a ficar à toa, né? Trabalhava... 

 

P/1 - Isso que eu queria que a gente pensasse um pouco melhor. Como é que era na cabeça desse jovem chegar na cidade depois de todo esse tempo na roça?

 

R - É, eu fui criado de uma forma... O meu pai era aquele regime antigo, ele só olhava e a gente já nem falava. Eu, com 22 anos de idade, nunca tinha recebido um dinheiro meu. Eu trabalhava, meus irmãos também e quem recebia era o meu pai. E a gente plantava muito lá; como tem muita coisa, muito caminhão de arroz, parece que tinha mil, mil e quinhentos sacos de arroz batidos na banca - eu não sei se você sabe o que é banca; banca é quando você bate o arroz na mão -, aí o meu pai vendia e o dinheiro ficava com ele. [Se] a gente queria vir na cidade dar um passeio ele dava o dinheiro. 

Quando a gente mudou para cá, quando eu entrei na CTBC, recebia por quinzena… Eu não me esqueço que o primeiro dinheiro que eu recebi. Eu cheguei para ele: “Meu pai, o dinheiro. Recebi.” Aí ele falou para mim: “Não, meu filho. Esse dinheiro é seu.”

Eu não sabia gastar dinheiro. Dinheiro para mim era... Eu gastava assim: quando eu pensava [em vir], de mês em mês, aqui na cidade, o dinheiro que eu trazia gastava tudo, deixava só a passagem e tal. Eu falei: “O que eu vou fazer com isso?” Na época, eu recebi 74… Não sei se eram mil cruzeiros, que dinheiro que era aquele, em 77? Era uma quinzena, né? Eu me lembro que chamei minha mãe e falei: “Minha mãe, a senhora quer comprar alguma coisa?” Nós tínhamos vindo da roça naquela época, naqueles dias, e tinha de tudo: arroz, muito; feijão, muito; banha, várias latas - a gente usava banha naquela época e até hoje eu uso. Eu saí da roça, mas a roça não me largou, não. Eu vou sempre para a roça, né? 

Eu lembro que ela foi no supermercado - não é supermercado, é vendinha da esquina; supermercado não tinha, também, naquela época. E fomos por lá, trinta e poucos cruzeiros… Daquele dinheiro, de setenta compramos trinta e poucos por lá. Quando passou quinze dias, que eu recebi de novo, eu tinha gastado cinco. Aí eu cheguei para o meu pai e falei: “Agora eu vou ficar rico!” Mas aí foi, foi e a gente começou a viver, começou a aprender a viver. E hoje nós estamos aí, graças a Deus, essa é minha vida. Por isso que eu sempre falo que venci na vida.

 

P/1 - Vocês vieram para Uberaba para onde, para que casa? Como era essa casa?

 

R - Primeiro, quando nós mudamos, nós fomos morar num bairro aqui em Uberaba que [se] chama Boa Vista. Ele é de saída para Nova Ponte, eu não sei se você conhece o lugar. Era uma casinha simples. Meu pai, na época, alugou essa casa; ele veio alugando, nós ficamos lá por uns tempos. Eu me recordo bem, [foi por] quase um ano. Depois, a minha avó tinha uma casa na [Rua] Osvaldo Cruz, aqui no bairro dos Estados Unidos, e nós fomos lá para essa casa da minha avó. Essa casa era da minha avó, quer dizer, é dos filhos, então nós fomos para lá, moramos lá até 80. 

Em 80 o meu pai faleceu, nós já morávamos lá, aí de lá nós mudamos. Minha mãe não quis ficar mais na casa, a gente acabou saindo, indo de um lugar para o outro. Era quase todo mundo solteiro, só tinha uma irmã casada.

 

P/1 - Dessa mudança, como era a cidade que vocês encontraram aqui? Como era Uberaba?

 

R - Uberaba, para mim, na época, era trem de louco. Eu era... Eu vinha em Uberaba, a gente vinha às vezes no fim de semana; ia na casa da minha tia, vinha em algum lugar, e voltava. Nunca passou na cabeça de estar radicado aqui, sabe? Naquela época, a gente pensava que aqui era uma coisa e na realidade era outra. E isso em 87, imagina hoje. Hoje é diferente. 

A gente não tinha instrução nenhuma, conhecimento nenhum em relação à cidade. Uberaba já era Uberaba, é uma cidade boa, tranquila. Mas para a gente, com o pensamento… Foi muito difícil [se] habituar aqui, quando você vem para ficar e acostumar, né?

 

P/1 - E para fazer as amizades...?

 

R - Isso. As amizades [foram] através de uns primos que moravam aqui, mais ou menos da mesma idade. A gente saía junto e fomos fazendo amizade. Aí com o espaço de quatro, cinco meses, a gente era... A gente tinha umas ignorâncias, aquele ditado… Muito burros, né? A gente tinha até vergonha de conversar com as pessoas; e foi se soltando, foi melhorando, né? Com o espaço de um ano, dois anos, era o contrário de hoje: “Eu não volto para a roça mais, nunca.” Hoje eu tenho vontade de voltar para a roça. Hoje eu já penso assim. Quer dizer, eu já volto [em] fim de semana, já não fico fim de semana...

 

P/1 - Como é que foi a sua chegada à CTBC? Foi o seu primeiro trabalho fora da lida familiar?

 

R - [Foi] o primeiro emprego que eu arrumei na minha vida. Sempre trabalhei, mas para o meu pai, para minha mãe. Foi o seguinte: em outubro, eu estava já desesperado; eu ia voltar para a roça porque eu já não achava nada para fazer. Eu sempre caçando emprego, mas não tinha formação nenhuma.

 

P/1 - Você está falando do ano de 77?

 

R - Do ano de 77. A gente… Como não tinha formação nenhuma, é difícil você conseguir alguma coisa. Eu tinha arrumado… Aqui na Avenida Belo Horizonte, perto do aeroporto de Uberaba, tem uma fábrica de fazer manilha, cimento. Eu tinha arrumado serviço lá para começar na segunda-feira, trabalhar... Fazer massa de cimento, fazer manilha. Beleza, eu mesmo consegui. 

Eu tinha um tio, [ele se] chamava Oliveira, é falecido; ele trabalhava na CTBC na época, e chegando no dia de sexta-feira lá em casa... Não, foi no meio da semana, eu falei: “Tio, eu arrumei um serviço.” A gente morava perto. Ele falou: “Olha, meu filho, a CTBC está precisando para abrir valeta. É serviço braçal, serviço contratado.” Aí eu falei: “Ah, tio, eu acho que eu não vou, não, porque eu arrumei com um cara lá, já combinei com ele.” Naquela época, uma palavra da gente era muito mais do que um documento, a gente sempre respeitava esse tipo de coisa. Ele: “Não, larga isso, vamos lá para CTBC. Lá é bom, eu estou lá.” Eu falei: “Então vamos.” Aí eu fui para CTBC. 

Comecei no dia de sábado na CTBC, olha, para você ver. Naquela época trabalhava até o meio-dia. Comecei no dia de sábado, nem pegaram meus dados, nem nada. Já fui trabalhar; peguei o enxadão, a picareta, e fui abrir valeta na rua, as canalizações subterrâneas. Eu trabalhei; na segunda-feira eu cheguei, vim ao escritório, aí pegaram minha ficha, eu preenchi e fiquei. E fiquei por quinzena. Até 78 me parece, eu não me recordo, mas eu não fiquei durante um ano, não. 

Esse fim de ano… Meu tio era valeteiro. Depois, esse tio meu - ele era pedreiro, nós fazíamos essas caixas subterrâneas, onde passam as calhas - ele... Eu passei a trabalhar de servente para ele, aí maneirou. Eu fazia um barrinho, uma massa lá, ele assentava o tijolinho dele, fazia aquelas caixas, e eu ali, tranquilo. Por ser sobrinho, deve ter sido, não sei porque me escolheram, aí eu fiquei lá por uns tempos com ele. 

Depois o seu Manoel Ernani, o supervisor que eu tinha na época - por sinal, uma pessoa muito querida, eu gosto dele demais até hoje. De vez em quando eu encontro com ele -, ele chamou e falou: “Olha, você vai trabalhar de ajudante com um rapaz; você vai ligar telefone.” Eu nem sabia que ia subir em escada. [Pensei:] “Eu vou subir nessa escada e vou cair desse trem.” “Vai subir, tem de subir.” “Então vamos.” 

O primeiro telefone que nós ligamos, eu ajudando esse rapaz, foi lá no bairro Boa Vista - eu não me esqueço, isso me marcou. Eu sei que cheguei e perguntei: “Como é que faz, solta esse fio aqui?” Era aquele rolo de fio, né? Você vai e solta de um lado, depois você vira e solta do outro para ele não ficar torcido e ele fica lá. Na época, tinha que subir rente à casa, passar o fio, descer junto, ligar na tomada, ____________, tinha que fazer tudo. Ele subiu, eu fiquei embaixo, aí puxei: “Saiu aqui, Donizete” - ele [se] chamava Donizete. Desceu e ficou lá. Eu falei: “Vou soltar esse fio lá na rua.” Ele falou: “Cuidado! Você não dá conta.” Eu falei: “Eu dou conta. Por que eu não dou conta de soltar um fio?” Soltei esse fio e peguei ____________________________________ estava na caixinha. 

Já estava... Eu não tinha ligado porque não sabia, lá tem dez ou dois pares e eu não sabia o que era um, o que era outro, então não tinha ligado. “Você fez, filho? Mas como é que você fez?” Eu falei: “Oh, Jesus. Outro faz, eu fiz, isso não tem muita dificuldade, né?” 

Fiquei uns tempos com ele, trabalhando de ajudante para ele. Depois, ele foi para o CPCT, que era a parte de equipamento de PABX na época; fiquei no lugar dele como responsável pela equipe. O doutor Weber, era meu gerente, o coordenador, na época - na época não era coordenador, era gerente ou o diretor da empresa. Dr. Weber me chamou um dia: “José Reinaldo, hoje você vai ser... A mala do Donizete é sua.” Pronto, comecei a tremer. Eu falei: “E agora? Eu não dou conta desse troço.” Mas então... A gente fica nervoso, né? Mas é coisa normal, do dia-a-dia, e fui, enfrentei; trabalhei por vários anos nesse serviço. 

Sempre aquele cara que entrava, quem saía com ele era eu. Eu tenho muitos engenheiros aí na CTBC, que talvez vocês conheçam, e quando entraram eu que saía com eles para mostrar o que é um armário. O Luís Mesquita, mesmo, eu não sei se você conhece. O Mesquita, quando ele entrou na empresa, eu não me esqueço. O doutor Weber me chamou, falou: “Vai entrar um estagiário aí, ele vai sair com você uma semana ou duas. Você vai explicar para ele o que ele tem de fazer.” E assim era; eu era aquele cara de ensinar as pessoas. Entrava um, saía; entrava o outro, entrava um, então eu nunca tinha aquele cara certo para trabalhar comigo.

 

P/1 - Sempre dentro da cidade?

 

R - Sempre em Uberaba. 

 

P/1 - Como é que continuou o seu processo de estudos, enquanto esse trabalho não ia se desenvolvendo? 

 

R - A gente trabalhava durante o dia e estudava à noite. Foi até eu... Eu acabei o meu primeiro grau - já tinha até o quarto ano primário -, fiz segundo grau, fiz curso técnico e aí eu prestei o vestibular para a faculdade e... 

Quando eu prestei vestibular eu ia fazer Engenharia, que era minha intenção - eu ainda vou fazer Engenharia, se Deus quiser vou fazer. Devo começar no ano que vem, porque quatro anos… Estou me aposentando também, mas eu vou fazer. Eu não tinha como pagar Engenharia, aqui na Uniube [Universidade de Uberaba] pagava mensalidade. E a gente... O salário naquela época era bem pequeno, compatível à época, né? Meu pai tinha falecido, tinha a minha mãe… A gente morava em casa de aluguel, tinha que pagar aluguel, ajudar a comprar as coisas para a casa. Aí foi onde eu parei. Eu parei de estudar por isso. 

 

P/1 - Esse momento do final dos 70, início dos 80, a CTBC estava vivendo um processo de muita expansão...

 

R - Ela estava. Isso, isso. 

 

P/1 - Isso para você deve ter sido uma coisa complicada do ponto de vista do volume de serviço, né?

 

R - Era muita coisa. E naquela época a gente não tinha máquina, era tudo na mão mesmo. Você ia arrastando cabo, ia no braço. Podia ser a grossura que fosse, um cabo de… Por exemplo, um cabo de 2.400 pares, ele tem uma bitola de cem milímetros, praticamente, é uma grossura mais ou menos assim, né? (mostra com a mão) Aquilo era no braço. Você tinha que subir, entrar naquela câmera, que é aquele buraco que fica no chão; dois, três ali agarravam o outro na frente e aí ia. Era aquele sofrimento. 

Hoje você tem o guincho. Você põe no guincho, arrasta todo mundo, mas naquela época era desse jeito. Você ia espinar esse cabo aéreo. Eu fiz muitas vezes isso, a gente ia espinar aquele cabo - espinar é enrolar aquele coisinho preto no cabo.  O cabo aéreo, eu não sei se você já teve a oportunidade [de ver], é um cabo que fica espichado, mas junto a ele tem uma coisa do lado, um arame de aço; lança ele e enrola ele. Ele é enrolado com o arame, um arame próprio. Na época, a gente subia lá em cima e ia enrolando, enrolando, e dois embaixo, carregando a escada. Então é essa dificuldade. Hoje, não. Você põe uma máquina, puxa a corda e ela faz todo o serviço. 

Foi uma época de sofrimento, trabalhava… O nosso horário era... Sempre tinha... [Às] sete e meia pegava no serviço, sair... Era a hora que o sol entrava, ficava de noite, [na] maioria das vezes ia à noite, porque serviço que você tinha começado tinha que acabar, então você não tinha... Era tudo manual mesmo, então era complicado. Você ia lançar um cabo, se você começasse você não podia largar na rua. Você tinha de capar, não podia cortar. Às vezes, você ia lançar ele, ia puxar [e] ele dava um problema; às vezes agarrava, não vinha, você tinha de abrir, desobstruir aquele duto, aí você varava a noite. Tinha dia que era uma hora da manhã e você estava lá, né... Então era complicado.

 

P/1 - Eu queria que você falasse do seu grupo de trabalho, da sua equipe. Como era esse pessoal?

 

R - Um pessoal muito unido, é uma diferença muito grande de hoje. Não quer dizer que hoje não somos unidos, né? Mas primeiro era assim: o pessoal era um para si e todos para todos, todo mundo junto. Era muito bom, aquele povo daquela época. Eu tenho muitos amigos ainda, a maioria está aposentado. Tem um na CTBC hoje, com a gente, ainda. Está para lá, mas trabalhávamos juntos até outubro - eu estou na Engeset hoje, mas sempre juntos. Somos parceiros, né? São pessoas... Era muito junto, ali trabalhava mesmo e ninguém ficava, como diz o ditado, puxando o sangue do outro. Eram pessoas muito boas, uma equipe muito boa.

 

P/1 - E nesse período, o senhor chegou a ter contato com o senhor Alexandrino? 

 

R - Ah, eu lembro demais do senhor Alexandrino. Eu tenho uma recordação dele em 79, mais ou menos, ele vinha muito em Uberaba. Às vezes ele chegava: “Bão menino.” Falava desse jeito, eu não me esqueço disso. Ele ia andando assim, aí ele via um pedacinho de fio no chão, às vezes uma coisinha pequenininha. Ele ia agachando, agachava e pegava: “Como é que vocês deixam isso aqui? Isso aqui faz falta para os nossos netos.” Olha para você ver a mentalidade que ele tinha. Naquela época, ele não gostava que desperdiçasse nada da CTBC. Por isso que hoje eu vejo essa empresa, esse grupo do jeito que está. Hoje tudo bem, hoje tem uma diretoria, tem uns superinteligentes, mas pessoa igual ao Alexandrino é muito difícil. Pessoa que é ________, está onde está, tem que se orgulhar muito.

 

P/1 - Você tem algum episódio com ele que tenha ficado na sua memória?

 

R - Tenho. Ele era terrível. 

A gente, às vezes chegava... Uma vez ele chegou aqui em Uberaba e só tinha o prédio do centro, ali, perto do correio. A gente tinha uma cantina. Eu tinha vindo de uma empresa, me parece [que pra] pegar um fio. O nosso almoxarifado era embaixo e aí eu fui tomar um café. Ele chegou e falou assim para mim: “Bão dia.” Eu falei: “Bom dia.” “Quem é você?” Eu falei: “José Reinaldo.” “Está bom, seu José?” “Está bom!” Ele disse: “Agora é uma hora da tarde” - me parece que era três ou quatro horas - “Agora é tantas horas, não é hora de tomar café aqui não, viu? Você pode ir trabalhar!” Eu falei: “Oh, doutor Alexandrino, é que meu fio acabou e eu vim buscar.” “Mas está bom, já podia ter pegado e ido.” 

Ele era assim. Era bem sincero com as coisas dele. Isso marca, às vezes marca na gente. Ele chegava, te fazia uma pergunta sem mais sem menos, você não esperava. Ele perguntava uma coisa, se você não respondesse, ele te marretava. Ao mesmo tempo ele era amigo, ficava rindo, abraçava. O Alexandrino, eu lembro muito dele dessas conversas, dessas passagens. Umas coisas que marcam.

 

P/1 - Na construção do prédio aqui, o senhor participou da instalação do cabeamento?

 

R - Aqui, esse prédio de cima foi recente. Foi [em] 85, 89, 86, 87, 88… Nós construímos esse prédio de cima, fizemos tudo. Quer dizer, não fizemos a parte de estrutura do prédio, mas a parte de telefonia lá dentro nós instalamos tudo. A parte de computação, essas coisas, tudo fomos nós que fizemos. 

Eu me lembro do... Nós enterramos uma fibra... Por que eu estou falando dessa fibra? Porque esse prédio DI3 tem uma extensão de 23 quilômetros na época - em 88, 89, a extensão de fio mais longa enterrada no Brasil era esse pedaço. De Uberaba ao DI3, fica na margem do Rio Grande. Uma fibra enterrada no chão, sem duto, sem nada. Na época, ela ficou… Por vários tempos, o maior lance de fibra do Brasil enterrada era da CTBC e, por felicidade, era Uberaba.

 

P/1 - Fibra ótica?

 

R - Fibra ótica. Isso foi em 89... Máquina de emendar fibra não existia, uma vez... Depois que essa fibra estava emendada, funcionando, teve um acidente: eles estavam duplicando a pista e arrebentou essa fibra. E para arrumar uma máquina de fibra, como é que a gente fazia? Não tinha, era um trem de louco conseguir arrumar no Rio de Janeiro uma máquina; aí, para o cara pegar um avião e vir porque estava parado o sistema na DI3... Esse cara perdeu esse avião - aliás, no Rio não, São Paulo -, aí tinha um Opala 250 que buscou ele. Ele veio nesse Opala e chegou correndo. Chegou aqui [quando] eram quatro da manhã e nós trabalhamos até o outro dia.

Essa é uma das histórias que, hoje, você faz com um minuto. Hoje qualquer um tem isso. Então, aí você chega…. Dá um problema desses, você pega uma maquininha, vai lá, resolve o problema. Naquela época, era bem complicado.

 

P/1 - Tá certo. 

 

R - É um complexo industrial de Uberaba.

P/1 - Ah, certo! Distrito Industrial...

 

R - Distrito Industrial. Lá onde está a Fosfértil hoje, na beira do Rio Grande. 

 

P/1 - Certo. Que foi quando a CTBC construiu essa linha justamente para melhorar...

 

R - Para atender o Distrito Industrial, o complexo industrial que tem lá, a Fosfértil hoje. Também tem várias indústrias lá. Hoje nós temos lá, em média… Eu creio que, aproximadamente, mais de dois mil terminais de telefonia lá. Só lá, no Complexo Industrial. 

 

P/1 - Certo. 

 

R - ________, essas coisas.

 

P/1 - Nessa época que o seu Alexandrino ainda estava na ativa, o doutor Luís era um sujeito mais da técnica, do ir para a frente? Como é que era?

 

R - É, o Dr. Luís ficava mais na administração. A gente pouco via o Dr. Luís. Na época, eu lembro, com o Dr. Alexandrino, eu vi ele poucas vezes. Logo depois, o Alexandrino foi ficando doente; aí que ele começou a aparecer mais para o povo - para os associados, essas coisas... Mas antes ele ficava mais na técnica, na administração mais interna. Eu lembro disso como se fosse hoje. 

 

P/1 - Certo. E qual a impressão que o senhor guardou dele dessa época, de estar mais presente, de estar vindo aqui?

 

R- O Dr. Luís?

 

P/1 - É. O Dr. Luís.

 

R - O Dr. Luís é uma pessoa que eu acho que... (pausa) É difícil até falar dele. É uma pessoa... (pausa) Acima de tudo, amigo. Como é que eu vou falar a pessoa que ele é? Mas o Dr. Luís é completo, é uma pessoa muito boa, excelente pessoa.

 

P/1 - Nesse momento da grande expansão, a empresa também começa a diversificar muito o negócio. Isso acabou criando um problema, no final dos anos 80. Como é que isso chegou para o seu trabalho, no seu dia-a-dia? Como é que refletiu isso?

 

R - Foi difícil. Logo veio a empresa rede - nos anos 80 usavam a empresa rede, e o povo não era acostumado, os empregados não eram acostumados àquele tipo de coisa. Muitas pessoas aceitavam, outras não aceitavam, ficava aquela polêmica: “Não, tem que ser assim.” Era acostumado [a] sair de caminhão, agora as pessoas… Para acostumar aqui foi complicado, para a empresa adotar a empresa rede, né? 

A empresa rede… Se falava um, tinha de falar todo mundo, o que um fazia tinha que estar todo mundo junto. Foi uma transição, na época, [uma] mudança que ninguém, naquela época, estava preparado. Foi muito mais difícil do que hoje. Hoje, nós estamos mais… Com essa evolução, você está aqui hoje, amanhã você não está, mas está normal, você já é até preparado para isso. Mas nos anos 80, 81, 82, quando chegou a primeira imagem da empresa rede, na CTBC, foi uma pancada para todo mundo, foi difícil. Foi difícil porque o costume das pessoas não era aquele. Quer dizer, se não cria… 

Também, [não fosse] a empresa rede, eu acho que hoje ela não estaria onde ela está, então o povo não acreditava que tinha de mudar. Você está entendendo como é que são as coisas? O pessoal não aceitava porque naquela época eram todas pessoas velhas de casa - pessoas de vinte, de trinta, quarenta anos de casa. Gente de dez, doze, oito, nove anos, eram poucas pessoas, então aquelas pessoas todo mundo respeitava. Era aquela ideia que não ia dar certo, mas com jeito, com jeitinho… O Dr. Weber era uma pessoa muito flexível - quando eu falo Dr. Weber, eu falo em relação à Uberaba, porque ele era gerente aqui. “Não, tem que ser assim. Vai ter que ser, vai dar certo.” Foi indo até que andou, essa empresa perpetuou e hoje está no que está. 

 

P/1 - O senhor falou 81, 82, mas é 91, 92, não é?

 

R - Não, eu falo assim, nos anos 80... 

 

P/1 - Ah, nos anos 80.

 

R - 80, 83, 84, 85 - eu falo 82, mas um pouco antes começou a vir a empresa rede, até chegar nos anos 90 - que começou a terceirizar, que foi criada a Engeset. Acho que foi em 89, 90.

 

P/1 - E essa reestruturação no tempo do seu Mário Grossi? O que isso significou no cotidiano aqui do pessoal, que já trabalhava dentro desse esquema já tão próprio?

 

R - O pessoal não podia ouvir falar do Mário Grossi que começava a tremer. (pausa) As pessoas, eu fico pensando… As pessoas oito, nove, dez, quinze anos atrás, parece que não pensavam. Nada mudava, tudo era eterno, né? 

O Mário Grossi, quando veio para cá, ele fez uma reestruturação completa em relação à CTBC. As pessoas… Muitas vezes a gente ouvia falar que a empresa ia acabar, que acabou, que com essa forma de trabalho não vai dar certo. Não foi fácil para aceitar aquilo, não. Eu, totalmente, não era, porque sempre pensei que a empresa… Acho que ela tinha que mexer mesmo, porque nós estávamos... 

Quando o Mário Grossi assumiu a vice-presidência, aqui em Uberaba, eu me lembro [que] nós tínhamos 330 e tantos funcionários. Onde uma empresa dessa aguenta isso? Chegava de manhã, tipo sete e meia, oito horas; o pessoal acabava de sair para a rua para trabalhar nove e meia, dez horas. Na maioria das vezes, nem chegava na parte do trabalho, já estava voltando para almoçar. Quer dizer, era uma empresa superinchada, não tinha como manter aquilo. Se o Mário Grossi não chega para mudar aquilo - acho que era uma das ideias dele - acho que a CTBC, hoje, ela já não... Ela não estaria hoje da forma que ela está hoje - uma empresa sólida, uma das maiores empresas de telecomunicação do Brasil, para não falar que é do mundo. 

 

P/1 - E esse período ainda, do seu trabalho na rua, com toda essa expansão correndo em paralelo, a tecnologia também vai aumentando, quer dizer, vai se sofisticando, se desenvolvendo. Que tipo de materiais foram passando em suas mãos e como é que o senhor se adaptava a eles?

 

R - Olha, a gente… Qualquer curso na empresa, ela é muito difícil de fazer. A empresa, hoje... De 90 para cá, ela já foi mais [se] conscientizando que tem que ter treinamento, mas antes não, a gente aprendia sozinho e aí se acostumava com aquilo - mexia uma tecla, duas, você [se] acostumava ali. Você dava uma voltinha, já não conseguia, porque você não tinha aquela informação. Talvez te informavam [em] dez minutos, meia hora: “Olha, faz isso, isso.” E soltavam. 

A gente sofreu muito. Às vezes você ia, não dava certo, você tinha que vir para ele: “Não deu certo.” “Não, mas tem de fazer isso, pô.” Na época, ninguém chegava e te explicava durante uma semana, fazia um treinamento de uma semana, dois dias, três dias. Você [se] acostumava com aquilo ali, sabia andar naquele caminho, então era difícil demais da conta. 

Hoje, não. Hoje está certo, a tecnologia chegou, ela está todo dia, está indo, mas você tem espaço para sentar, ficar fazendo um curso, [se] aperfeiçoar em relação àquele equipamento, então é mais fácil. A CTBC, antes do Mário Grossi, foi antes... (pausa) Eles não pensavam que talvez o futuro chegasse igual chegou. E as pessoas tinham que ter alto conhecimento igual têm hoje, então era mais complicado naquela época.

 

P/1 - O trabalho de rua, mesmo com essa sofisticação que foi chegando, ele continuou a ser um trabalho crítico. Era preciso, ainda, abrir valeta, era preciso criar, construir essas câmeras, era…?

 

R - Era, era. Isso, na realidade, ainda não acabou, existe até hoje. Mas nos anos 80, 90, por aí, tranquilo, era muito serviço que tinha nisso. Muito, muito. Quer dizer, até hoje ainda existe, só que em menos proporção. Nos anos 80, 90, era o serviço que a CTBC fez, uma parte foi isso: abrir valeta, canalizações, caixas subterrâneas. Os cabos de telefonia… Hoje você tem a fibra ótica, mas ela interliga só as centrais; os telefones de comércio e de residência são todos com cabo e é tudo por dentro do chão, porque são cabos grossos, não tem como você lançar. Por isso tem que existir a canalização subterrânea. 

Hoje diminuiu mais porque você tem as centrais nos bairros, que chamam de remoto. Você interliga uma fibrinha com ela, a central mãe entra no centro, você interliga uma fibrinha, gera três, quatro mil terminais [e] você expande a rede naquele bairro, então você precisa lançar mais esse cabo grosso. 

O espaço encurtou, mas ainda tem que fazer a canalização. Naquela época, era braçal mesmo. Hoje, você já tem uma máquina. Hoje você não pode fazer em qualquer lugar; fazer com máquina tem que ser num lugar mais afastado, porque hoje, um lugar na cidade… Nós temos várias coisas por baixo da terra, como é que você arrebenta tudo? 

 

P/1 - É verdade. Esse trabalho gerava algum tipo de acidente?

 

R - Sim, porque não tinha... (pausa) O pessoal não tinha conhecimento da segurança. Às vezes, um estava agachado, o outro estava cortando com a picareta, que passava a dois centímetros da cabeça do outro. O pessoal não tinha aquela malícia que tinha que ter, para não correr o risco de machucar. Eu já vi vários acidentes. Às vezes até o cara acertar um com a enxada, com o enxadão, sem querer. Um acidente mesmo. Então... Hoje, quando existe esse trabalho - muito pouco, mas existe -, as pessoas têm consciência. Trabalha uma na frente, então hoje é mais tranquilo com relação a isso. 

 

P/1 - Nesse momento, ainda, desse período anterior, quando é que o senhor identifica o início da preocupação com a segurança no trabalho, com a qualidade no trabalho? Quando é que isso passa a ocorrer de forma mais efetiva?

R - Eu acho que isso passa a ocorrer quando as pessoas têm mais consciência de que aquilo é um risco. A gente, na época, trabalhava e quando tinha que subir num poste, que nem cinto punha… Eu subia lá em cima e queria fazer, queria resolver. Quando chegava a tarde, tipo: “Eu liguei dez telefones.” O outro: “Eu liguei vinte”, “Eu liguei trinta.” Então a CTBC, naquela época… Tinha que ligar, quando fazia uma rede, eles tinham até... “Vamos ver quem tira o primeiro lugar, quem liga mais telefone, tem uma camisa e tal.” A sua segurança era zero, você não tinha preocupação nenhuma em relação à segurança. Você queria fazer. Você não punha capacete na cabeça, um cinto de segurança para subir no poste, então de vez em quando tinha um acidente: um caía, tomava um choque, porque você trabalha muito unido à rede elétrica. 

Eu fui um que tomou choque, uma descarga, um dia eu achei que morria. Eu tomei uma descarga elétrica que falei: “Agora eu estou morto!” Não sei como eu saí, eu não sei. Deve ser alguma coisa que me tirou de lá. Eu já estava grudado lá. Porque o choque, quando ele vem em você - eu te falo com experiência… A nossa corrente elétrica é alternada, ela vai assim, olha. (mostrando com as mãos) É tão provado isso que se você olhar uma cidade à distância, a luz está piscando. Você olha pertinho, ela está contínua, mas elas são alternadas. Na hora que você toma uma descarga, faz bruuuu, o seu corpo vai, dá um milésimo de segundo, ele pára e vem de novo. Naquele milésimo de segundo, você chega a pensar. Na hora que ele te ________ de novo, você já não pensa, você fica... Aí volta, porque ela fica, né? Então foi... Eu conseguia pensar - o pensamento às vezes é tão rápido que eu falei: “Agora eu estou morto.” Quando é fé… Eu soltei aquilo, quer dizer, eu acho que o meu santo foi tão forte que me tirou. 

Eu estava aterrado em um cabo de aço, peguei no braço da luz, que estava servindo de poste, e o braço estava passando uma corrente de energia; no braço da luz vieram dois fiozinhos para a luminária do braço, de cima do poste. Estava passando uma corrente ali, eu encostei no cabo de aço nosso, uma cordoalha que chega no poste; eu pus a mão aqui, assim, e peguei. Eu aterrei, aí vem duzentos e... trezentos volts, tón! Aí eu grudei lá em cima. Eu estava à uma altura aproximada de oito, nove metros de altura, sem cinto, e na escada. O senhor que trabalhava comigo percebeu que eu tinha tomado um choque, diz ele que eu estava... Ele foi mexer na escada, aí eu soltei, ainda consegui… Eu ia cair e ainda consegui me segurar. 

 

P/1 - Na escada?

 

R - Na escada. Foi um milagre, foi Deus que segurou, porque aquilo não tem jeito. E isso de vez em quando acontecia. Um grudava, puxava a escada e caía lá de cima. Deus ajudava que não morria, né? Ou se morre você joga no chão, né? (riso) Então naquela época era assim: segurança zero em relação a isso.

 

P/1 - E nesse seu trabalho de rua, toda essa experiência de rua, como é que foi evoluindo essa preocupação com segurança?

 

R - Conscientização das pessoas. No dia a dia vai passando, foi evoluindo. O próprio Dr. Weber, na época, ele chegava... Eu me lembro que ele fez uma reunião uma vez e falou: “A partir de hoje, para subir num poste, tem que pôr o capacete, tem que pôr cinto de segurança.” Imperdoável, tem que subir, então tem que pôr. 

Quando você via um lá, não tinha ninguém, não tinha… Sem nada, já subia e ficava. Eram complicadas as pessoas, né? Com o passar do tempo, a consciência foi melhorando, as pessoas foram mais conscientes que hoje tem que se usar o material de segurança. Eu sempre defendo. Hoje é praticamente o meu serviço, sempre trabalho com o pessoal; eu sempre falo a primeira coisa: “Demarca a área, isola tudo, se protege e vai trabalhar.” 

Eu acho que serviço tem a vida inteira. Não adianta você chegar correndo, subir e depois cair de lá. Quebra uma perna, muitas vezes morre ou fica paraplégico, numa pancada. Eu acho que a segurança é em primeiro lugar. Mas na época, o pessoal foi [se] conscientizando, aquela briga toda que tem que usar, e acabou melhorando aquele aspecto da segurança. 

 

P/1 - Porque sem isso, não dá para brincar em serviço, literalmente. E com essa evolução da tecnologia, como é que foi se adequando ao seu trabalho? Já não tinha tanta função aquele trabalho de rua mais duro, mas... Como é que você foi evoluindo dentro da companhia?

 

R - A gente ficou até aproximadamente os anos... (pausa) 90. Em 90, quando se criou ________ redes, tinha que ficar alguém na CTBC, porque a CTBC terceirizou o serviço que nós fazíamos; tinha que ficar alguém para fiscalizar aquilo, para aceitar, aquele negócio todo. A gente foi fazer um curso na Telebrás, teve a oportunidade de ir à Brasília fazer curso, fiquei no ______ várias vezes, vários meses. Fiquei em Uberlândia vários meses. A gente fez uns cursos técnicos, uns cursos de fiscalização pela Telebrás mesmo. Como terceirizou, a gente ficou na CTBC, até agora, só tomando conta do serviço, aceitando, se o serviço está bom, se não está bom. 

Isso é minha função, hoje, de fazer na empresa. E quando foi o ano passado, terceirizou esse serviço; a CTBC não faz mais, nem aceita mais isso. Hoje quem faz isso é a Engeset. Então, eu estou no mesmo serviço na Engeset.

 

P/1 - E como é que foi essa sua transição da CTBC para a Engeset? Quando é que ela se deu?

 

R - Ela se deu em outubro de 2001, ano passado. (pausa) Eu... (pausa) Eles me chamaram e fizeram a proposta. Tinha um projeto, explicaram, e eu, mais depressa, tomei: “Vamos lá”. Eu acho que a mudança tem que chegar e não adianta. Eu acho que na vida você tem que passar por tudo, não é?  Eu sempre gosto de... Sempre gostei, sabe, de coisas diferentes. Sempre gostei de experimentar, para ver como é que são as coisas. Todo mundo satisfeito na Engeset, está muito bom. A CTBC é boa demais, a Engeset também é boa demais.

Em relação ao serviço… Eu já estava na CTBC há 25 anos, praticamente. Não é que você enjoa, não. Você está ali, está vendo que você não está tendo muito mais por onde sair, você está me entendendo? Quando você vai para outro lugar - e foi a primeira experiência minha, porque até então eu não tinha uma oportunidade de ir para outro lugar… Como eu estou na Engeset hoje, que é uma empresa do grupo e a CTBC seria o cliente, então aquilo começou de novo. Eu tenho certeza que o ânimo é outro. Mas no geral está bom, está ótimo. 

 

P/1 - Como é que o senhor avalia a qualidade desse tipo de trabalho, desde o momento em que foi cavada a sua primeira valeta, até hoje? Como é que esse trabalho é desenvolvido? Como deu-se a evolução da qualidade desse trabalho, do resultado desse trabalho?

 

R - Olha! Esse trabalho, eu acho que evoluiu cem por cento em relação a isso. Antes você tinha que fazer tudo para construir tudo. Hoje, você pega pronto e só coloca no lugar. Quer dizer, em relação à qualidade. A qualidade de hoje é muito melhor do que antigamente. Porque, de primeiro, você que fazia. Aquilo que você fazia… Um tijolo você fazia, você não tinha aquela técnica de fazer um tijolo, você está entendendo como é? Você não é um especialista naquilo, mas você tinha que fazer, porque era melhor fazer do que roubar, está certo? Então... Agora, hoje não, hoje você compra. Você vai, compra um duto de PVC branco ou Kanaflex, que é.... Então você pega, você põe... Tem cola, você põe o cimento, compra os tijolos já apropriados, põe a armação com ferragem. Então hoje é muito melhor, cem por cento em relação a antigamente. 

Antigamente você sofria muito e não rendia nada. É que você ficava envolvido o tempo todo ali, para construir uma coisa bem pequena, porque você tinha que fazer tudo. Hoje você pega pronto e só coloca no lugar que tem que ficar. E a qualidade de hoje acabou sendo melhor, porque é industrial, ela tem a tecnologia dela. Você vai hoje comprar um material com a tecnologia que é boa, senão você não compra, e antigamente não. 

Você ouviu o que eu acabei de falar: você queria um tijolo, comprava cimento, areia, misturava ali e eu não sabia se aquilo era a mistura certa, se era o ponto certo. Você fazia daquele jeito, ele ficava… A aparência era a mesma, mas a resistência dele era…. Talvez era muito melhor, tinha uns que eram muito melhores, tinha uns que eram muito ruins. Porque... Se só eu fizesse aquilo, eu tinha certeza de que eu estava fazendo de uma forma só, mas um dia eu fazia, no outro dia o outro fazia. Então, grosso modo, falava: “Usa um saco de cimento, dez latas de areia.” É um exemplo que eu estou citando aqui. Mas quem me provava que aquelas dez latas de areia e um saco de cimento era próprio daquele tijolo para eu ter uma resistência tal? Por isso que eu falo que hoje, [com] a tecnologia, você pega pronto, você só coloca, é melhor. É cem por cento de...

 

P/1 - Quer dizer, tem uma capacidade maior de controlar a qualidade desses insumos.

 

R - Sem dúvida. Hoje, você trabalha com a qualidade que você quer, não é isso? Obviamente tem um custo, mas você trabalha com a qualidade que você quer hoje.

 

P/1 - Tá certo. Como é que... A saída da CTBC significou alguma coisa para o seu coração, pelo fato de ter ficado um quarto de século dentro da empresa?

 

R - Rapaz, não é brincadeira, não! Quando você recebe a notícia... (pausa) Porque não foi assim: “Você vai para lá, você está lá.” Não. A empresa, hoje ela é bem sensata [com] isso, então chegou, falou: “A gente está pensando por aí, o que vocês acham?” Aquilo, o coração bate lá... (pausa) Lá no alto da cabeça, você pensa... É um momento que você pensa várias coisas: você vai, você não vai; você fica; você fala ‘não’ ou não. Mas você já sabe que está mais ou menos decidido, né? 

Só que quando eu… No meu caso, eles avisaram uns três meses antes. Eu já estava, também, pensando, já preparado para as coisas que iam vir. Mas não é fácil, não. Naquela primeira noite, chegar em casa e falar para a minha esposa  que eu ia sair da CTBC... (pausa) Foi difícil, porque... Eu acho que a reação dela foi muito boa. Porque sempre a esposa da gente acha que onde a gente está é mil maravilhas, tem que estar lá - e é mesmo, realmente é, né? 

Eu deitei a noite e comecei a pensar: “E agora? Eu não vou estar lá daqui a alguns meses...” Mas aí deram aqueles três meses, que se passaram até eu desligar completamente. Eu me preparei tanto que, para mim, o dia que eu desliguei... (pausa) Para mim não tinha saída. Eu estava lá, fui trabalhar em outro lugar. Chegava em casa, olhava para CTBC, mas eu ia todo dia lá porque o meu serviço é lá. Era lá, era fora, lá dentro, então eu não misturei totalmente direto, né? Hoje me acostumei, hoje tenho a consciência que tenho a CTBC como parceira, como meu cliente, e está tranquilo. Mas não é fácil, não. É difícil. Você pensa que você vai perder, que não vai conseguir; que onde você vai, você não vai se igualar, vai ser muito pior, não é isso? Porque a gente nunca teve essa experiência. Mas está bom, eu acho que a vida é essa e tem que ser assim, não é?

 

P/1 - Está certo. E estando aberto às mudanças...

 

R - Sem dúvida. Eu fico pensando que tem pessoa que ainda é muito fechada em relação a isso. A CTBC não pode parar, porque se ela parar, ela vai ficar. Ela tem que ficar sempre mudando, sempre evoluindo. Tem pessoas que não pensam assim, pensam diferente. Eu acho que não, acho que nós temos que olhar sempre para a frente e sempre tentar alguma coisa a mais na vida. Faz parte da nossa vida.

 

P/1 - Tá certo! A gente deixou de lado, nisso tudo, a sua vida pessoal. Como é que senhor conheceu a sua esposa, quando o senhor casou, como é que são seus filhos?

 

R - A minha vida pessoal é um livro aberto. Nós somos seis irmãos, eu sou mais velho que o outro que casou. Eu, quando casei, tinha um irmão meu que já tinha casado duas vezes. Eu casei com 33, a idade de Cristo. Aproveitei minha vida, demorei a começar. Quando comecei, não quis largar mais, de aproveitar a vida no bom sentido. 

Conheci a minha esposa na festa de exposição daqui de Uberaba, numa noite. Demorou uns cinco anos de namoro. Foram, entre namoro e noivado, cinco anos. Ela estava aqui em Uberaba, estava trabalhando aqui, mas também é nascida e criada em fazenda, só que no município de Perdizes. Os pais dela ainda moram, até hoje, lá. Casamos, demos muito certo, temos um casal de filhos. 

P/1 - Como é o nome deles?

 

R - Mateus vai fazer quinze anos e Mariana tem dez anos. E eu adoro a minha família, a minha família é excelente. Sou feliz um pouco mais por isso, é claro, né? Se não fosse... 

 

P/1 - Seu José Reinaldo, com toda essa vivência de CTBC, de ter acompanhado tantas evoluções e tantas etapas que foram sendo vencidas, como é que o senhor enxerga para a frente, quer dizer, o que o futuro desenha para essa companhia? 

 

R - Eu acho que a companhia… Acho que a CTBC, o grupo Algar [Telecom], eles estão no caminho certinho. (pausa) A CTBC, hoje, tem que ficar com atendimento de seu público. Acho que é isso que já tinha que ter feito, que está se realizando, parece, pelo que a gente está vendo. Acho que são pessoas capacitadas que pensam lá, que estão lá. 

Eu vejo a CTBC fechada em nível de Brasil, trancada em relação à expansão de... (pausa) Eletricidade, com telefonia, né? Você vê hoje no Brasil uma Telecom, uma Telemar, uma Telefonica e ela está aqui no meio. Ela tem o público dela e trata bem, devagarinho, muito sem apavorar, aí ela vai. Depois de uma vez, eu acho que não perde. Eu vejo a CTBC, com a tecnologia que ela tem, hoje, da forma que ela está agindo, eu vejo um futuro bem grande para ela, muito grande ainda. Mesmo se você tem uma Brasil Telecom, tem Telemar, tem Telefonica ao lado; ela ainda está aí. Eu acho que a CTBC - eu acho não, tenho certeza… A tecnologia dela é muito mais avançada. Não aparece tanto porque é pequenininha em relação às outras, mas é tecnologia terrível. Então eu vejo um futuro muito grande, em relação a conseguir mais espaço na área de atendimento ao público e os grandes clientes.

 

(pausa)

 

P/1 - O senhor se referiu, mais uma vez a uma palavra-chave chamada cliente. Embora o senhor não tenha tido muito contato, eu suponho, com o cliente, mas tudo o que o senhor fazia, desde a sua primeira vala até o seu choque elétrico, os seus cabos estendidos, estavam visando a essa figura, esse...

 

R - Exatamente. O que você faz hoje, o que você fazia e o que você faz, é o quê? Em relação ao cliente, não é isso? A gente… Veja bem, a minha situação, por exemplo: nunca fui consultor. Eu nunca tive contato direto em relação à consultoria com os grandes clientes, mas eu conheço tanta gente de Uberaba que o meu telefone, às vezes, na hora de almoço, você tem que desligar. Porque tudo é complicado para você conseguir.  O pessoal, principalmente em Uberaba… O pessoal é conservador em Uberaba, tem aquela mania: ele tenta; não conseguiu, ele liga para quem ele conhece. “José Reinaldo, faz isso e tal.” Então ainda tem isso aqui. 

Eu, muitas das vezes, desligo o meu celular, principalmente na hora do almoço, na hora de janta. Às vezes eu chego em casa tarde. Tem dia que você está bem cansado, foi um dia corrido, você quer dar uma relaxada; muitas vezes eu desligo o meu celular por causa disso. Não por querer não atender os clientes, por que eu acho que a gente sobreviveu por causa deles, mas aqui é desse jeito. Eu tive, ontem mesmo… Hoje é 23, foi antes de ontem, dia 21. Tem um cliente aqui em Uberaba, eu conheço ele, e ele me ligou. Era mais ou menos meio-dia, eu estava almoçando; atendi o celular, era ele. Ele tem uma firma aqui em Uberaba, não vou citar o nome, e querendo que eu lhe mandasse um consultor lá. Ele tem vários telefones, hoje é uma firma relativamente boa. Ele tinha umas propostas da Vésper e já ia ligar para o Weber. “Eu já ia ligar para o Dr. Weber, mas falei: ‘Vou ligar para o José Reinaldo. Amanhã eu vou ligar para ele, ele me dá um conselho. Porque eu pedi lá, mas eles estão demorando.” Mas é que ele pede sempre e quer que vá na hora do almoço, então o cara… Hoje o cliente é assim: ele quer  aquele negócio antes dele estar querendo. Aí eu falei - ele chama Agnaldo - : “Agnaldo, pode deixar que eu vou depois do almoço. Eu vou conversar com o pessoal, vou te fazer uma visita e te explicar qual a melhor forma que você vai ter.” Ele está querendo mais números na empresa dele. 

São assim, eles te ligam mesmo. Em vez dele ir à empresa procurar, ele não procura, então procura a que ele conhece. Você sempre está com a empresa nas costas, né? Algumas pessoas te veem como a empresa, mas não te veem como pessoa. Engraçado isso, né? Eu sempre falo isso para os meus colegas de serviço, que a pessoa, quando vê você, ele te vê como empresa, não te vê como pessoa...

 

P/1 - Isso só aumenta a sua responsabilidade.

 

R - É. Tranquilo, né? Ela é grande em relação a isso. 

 

P/1 - E a partir de outubro de 2001, então, que o senhor foi para Engeset, o seu trabalho hoje consiste no quê? Qual é a sua atividade principal?

 

R - A minha atividade hoje é a mesma função que eu fazia na CTBC, porque terceirizou-se aquele serviço. É construção. Eu trabalho na construção de redes de telefonia, fibra ótica, esse tipo de coisa, e agora sou responsável por isso. É um centro de engenharia que criamos na Engeset; me fizeram esse convite e eu aceitei. Então, o nosso serviço objetivo é esse: construir, acertar tudo e passar tudo para a CTBC. 

 

P/1 - E construções sempre aqui na região ou fora da cidade? 

 

R - É, a nossa região, ela se concede em Uberaba, aí você desce para o Pontal do Triângulo, até para o Mato Grosso. Até Aparecida do Taboado é nessa região: Iturama, Frutal, desce tudo pra cá.

 

P/1 - Certo. E é uma equipe grande, é uma…?

 

R - Nós somos em... (pausa) Duas pessoas, essa equipe. Tomamos conta, nós terceirizamos, as empresas fazem e nós acompanhamos esse serviço que eles fazem. Tem em Uberaba e tem em Frutal Peres, mas temos em Uberlândia também, tem duas pessoas em Uberlândia. Nós temos em Patos de Minas - Pato de Minas não, nós temos em Franca. Temos uma pessoa em Franca, em temos em Ituitaba, naquela região você tem...

 

P/1 - Está certo. Então a Engeset tem uma perspectiva de… Um potencial de crescimento muito... 

 

R - Ela está bem ampla, a Engeset. Ela tem escritórios no Brasil inteiro, em quase todos os Estados - inclusive ela tem escritório no Paraguai e Argentina. Tem dois Estados no Brasil que ela não tem escritório; no resto, ela tem em quase todos os Estados do Brasil. 

 

P/1 - Como é que o senhor me definiria essa empresa? O que é a Engeset?

 

R - Hoje eu vejo a Engeset como uma flor crescendo. A Engeset tem tudo hoje para ser uma das maiores empresas do grupo Algar. Porque ela, hoje… A CTBC hoje é concessionada, ela tem a concessão dela de _____. A Engeset, como empreiteira prestadora de serviços, ela está pegando. Hoje, só para você ter uma ideia, a Telefonica, aqui em São Paulo… A Engeset tem uma empresa lá de 2200 funcionários, que chama JR Engenharia; pegamos a manutenção da Telefonica para fazer em São Paulo, quase tudo que é do grupo Algar e talvez pouca gente saiba disso. São coisas amplas que tem, está crescendo, está a todo vapor. E estão brigando para pegar cada vez mais. 

 

P/1 - E tem inteligência para isso, expertise para isso, conhecimento para isso...

 

R - Ah, tem as pessoas para isso. Então, a gente está aí para isso. Estão partindo agora para o lado de construção de AC, linhas de alta tensão, sabe? Estão vendo isso, ver se pegam alguma coisa, serviço grande, de alta tensão, rede, torres de rede de alta tensão. Partiram também para esse lado, então a Engeset já está com bons... Com muita amplitude, uma empresa bem ampla. Uma empresa bem com o pé no chão. 

 

P/1 - Perfeito, seu José Reinaldo. Mas me diga uma coisa. Se o senhor estivesse frente a frente com uma pessoa, um associado que fosse começar a trabalhar amanhã na CTBC, o que vale dizer no grupo, o que o senhor diria para essa pessoa?

 

R - Eu diria para ele que ele teria que vir com o pé no chão, porque ele está entrando num dos melhores grupos do Brasil para se trabalhar. E eu estou te falando isso, eu nunca trabalhei em outro grupo, tá, mas a gente vê vários amigos, né? Esse grupo Algar hoje, você trabalha, dentro dele, com… Espontâneo, está certo? Você trabalha à vontade, você faz... Você que manda em você - quer dizer, desde quando faz as coisas que têm de ser feitas, né? 

Eu acho que só você estando numa empresa de não bater cartão - não é aquela pessoa de alta confiança; qualquer associado que está ali não bate cartão, então o lado confiante nas pessoas é muito grande. Dentro do Brasil, são poucas empresas que pensam dessa forma. Quer dizer, o caminho é esse, eu me vejo assim. Essa empresa que não pensar desse tipo, eu acho que ela não vai, não é?

Acho que o grupo enxerga para frente. A pessoa que está entrando está entrando bem, na melhor empresa para se trabalhar no Brasil hoje. Hoje nós temos a hora de entrar, mas não temos a hora de parar. Também, você trabalha satisfeito: você não tem que estar [às] sete horas, sete horas e um minuto; você não tem que estar [às] oito horas e um minuto, você está entendendo? Às vezes você tem, por exemplo, uma coisinha - você chega mais tarde, depois você compensa à tarde. Essa flexibilidade que a empresa tem… Eu acho que ela cresceu demais. Eu acho que ela cresceu, em relação à satisfação do seu próprio associado, cem por cento em relação a isso. 

 

P/1 - Perfeito.

 

R - Eu acho que é uma empresa muito sólida em relação a esse tipo de satisfação. 

 

P/1 - Está certo. Seu José Reinaldo, o senhor tem sonhos, tem coisas que ainda quer  realizar? O que o senhor quer realizar?

 

R - Rapaz, eu acho que hoje, nesse mundo, você sempre sonha, né? Você nunca para. Acho que se eu ganho dez reais, eu quero ganhar vinte reais. Eu não estou falando em relação a isso, em relação à vida. Eu penso, sim, claro que eu sonho... Eu estou aposentando, graças a Deus, mas... Não porque eu vou parar de trabalhar, não é isso, não. É porque a minha oportunidade de chegar por esse lado é essa e eu tenho que pegar, você concorda que tem que pegar, mas não quero largar isso de forma nenhuma, não. 

Eu quero, se Deus quiser, começar a estudar de novo no ano que vem, né? Trabalhar? Não sei... Ter mais conhecimento, talvez, muito mais - talvez não, com certeza. E sonhos… Você sempre tem sonhos de talvez, um dia, comprar um pedaço de terra, um vinte alqueires de terra, voltar à minha origem. E ter grandes conhecimentos, altos conhecimentos, em relação à Engenharia ou Direito, eu estou pensando alguma coisa em relação a isso. E vou conseguir, se Deus quiser, daqui a quatro, cinco anos, se eu viver. (risos)

 

P/1 - Seu José Reinaldo, a gente está satisfeito. Teria alguma coisa que o senhor gostaria de ter dito e acabou não dizendo? A gente... 

 

R - Rapaz, se eu for ficar aqui falando em relação à CTBC e esse grupo, nós vamos ficar três dias falando. Tem tanta coisa. Mas... Eu não tenho. Só tenho que agradecer pela oportunidade, por alguma coisa que a gente falou com a simplicidade que a gente tem. Eu estou muito satisfeito pelo projeto, acho que [é] o projeto que marca dentro do grupo, né? Traz coisas de trás da CTBC, coisas de documentos da CTBC, que é uma empresa que começou lá embaixo, começou na raça mesmo e hoje está onde está. Então, isso... Eu queria dar os meus parabéns para vocês, esse projeto que vocês estão concluindo. 

 

P/1 - Esse projeto só existe por causa de pessoas como o senhor. Como é que o senhor se sentiu dando esse depoimento? O que ele significou para o senhor?

R - Muita coisa. Acho que significou muita coisa a gente falar do que a gente viu, do que passou. Falar de CTBC sempre dá saudade das coisas passadas, então eu acho que significa muita coisa. Significa saudades, satisfação... (pausa)  Muita coisa, enfim.

 

P/1 - E como é que o senhor se sentiu? 

 

R - Eu me senti muito bem, tranquilo. Ótimo. Satisfeito. 

 

P/1 - Perfeito, seu José Reinaldo, muito obrigado. 

 

R - Obrigado você.

 

P/1 - Bela conversa...

 

R - Obrigado você por tudo...

 

P/1 - É como eu lhe disse: o que faz sentido, em tudo isso, é ouvir coisas assim. Nós não poderíamos ser arrogantes o suficiente para chegar aqui e querer contar a história da CTBC. Quem fez a história são pessoas que nem o senhor. 

 

R - Exatamente. E vocês vão encontrar pessoas que têm histórias da CTBC que são de arrepiar. Eu acho que tem o seu Manoel Ernani, que é uma pessoa que eu admiro tanto, ele deve estar vindo aqui, ou já veio. Ou ainda não?

 

P/2 - Ainda não.

 

R - Ainda não. É amanhã, né? 

 

P/2 - O seu Manoel, a gente ainda não falou com ele.

 

R - Ah, você não falou com ele? O seu Durval, o Durval, por exemplo, uma pessoa também... 

 

(fim da entrevista)



 



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