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História

Das máquinas para as pessoas

História de: Carmen Lea Bazon
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2005

Sinopse

Carmen lutou para ser aceita na área de eletrotécnica e máquinas, por ser uma área tradicionalmente masculina. Estagiou e trabalhou em algumas empresas do ramo, antes de ser admitida pela CTBC. A empresa não aceitou que ela trabalhasse na área técnica e ela ficou no atendimento ao cliente, o que lhe abriu outras portas: lidar com pessoas a inspirou a cursar Direito e ela acabou se tornando advogada da empresa. 

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História completa

 

P/1 - Boa tarde, Carmen.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 - Eu queria que, por favor, para começar a nossa conversa, você nos dissesse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - O meu nome completo é Carmen Lea Bazon. Eu sou natural de Pedregulho, nascida aos 16/01/1956.

 

P/1 - Certo. O nome do seu pai e da sua mãe, por favor?

 

R - José Bazon e Elisa Belloti Bazon.

 

P/1 - Você chegou a conhecer os seus avós?

 

R - Conheci, tanto por parte paterna quanto materna.

 

P/1 - Como eram os nomes deles?

 

R - Os pais do meu pai eram Vincenzo Bazon e Gerônima e os pais da minha mãe, Luigi Giovanni Bellotti e Maria Chieregato Bellotti. 

 

P/1 - Perfeito. Eu ia te perguntar sobre as origens dos seus avós. Evidentemente, são imigrantes, né?

 

R - São italianos.

 

P/1 - O que você sabe da vinda deles para cá, da história deles?

 

R - O que eu sei é do meu avô da parte materna, né? Ele veio para o Brasil em 1886. Veio com os pais dele devido a muito frio na Europa. Eles eram de família humilde. Houve aquela imigração de italianos para o Brasil e eles vieram juntos para tentar a vida aqui, fugindo do frio da Europa. 

E o meu avô da... Pai do meu pai, eu já não tenho, eu não sei te dizer a origem dele ter vindo para o Brasil, porque ele veio bem antes desta data.

 

P/1 - Sabe de que regiões eles vieram da Itália?

 

R - Sim. O Vincenzo, ele veio de Padova, do norte da Itália. Por incrível que pareça, o Luigi era vizinho do Vincenzo porque ele era de Mantova, bem próximo, lá no norte da Itália. As cidades são bem próximas.

 

P/1 - E eles vieram para cá para, exatamente, fazer o quê? 

 

R - Trabalhar na lavoura. Eles se tornaram, inclusive, fazendeiros aqui na nossa região.

 

P/1 - Eles vieram já direto para cá ou passaram... Fizeram algum... Vieram para algum lugar e, depois, para Pedregulho?

 

R - O Vincenzo veio diretamente para Pedregulho. Ele se radicou em Pedregulho até o falecimento. O Luigi não. Ele veio com os pais, veio quando era criança. E veio para São José da Bela Vista. Posteriormente, [veio] para Franca e depois para Pedregulho, onde [ficou] até o falecimento, residiu em Pedregulho.

 

P/1 - E qual era a atividade do seu pai?

 

R - O meu pai era funcionário da CPFL, Companhia Paulista de Força e Luz, instalador era o cargo dele.

 

P/1 - Sua mãe?

 

R - Do lar. A minha mãe sempre foi do lar. (risos)

 

P/1 - Certo. A sua casa de infância era em Pedregulho, como era a sua casa?

 

R - Era uma casa humilde, muito simples. O meu pai tinha uma atividade simples, instalador da CPFL, a minha mãe não trabalhava, mas era casa própria - que eu me lembre. 

 

P/1 - Você tem irmãos?

 

R - Tenho. Nós somos em seis, quatro mulheres e dois homens. Eu fico no meio dos dois homens; um mais velho e o outro mais jovem, que é o caçula. (risos)

 

P/1 - Essa casa sua lá em Pedregulho, você se lembra fisicamente dela? Como é que ela era? Como é que ela se distribuía?

 

R - Lembro, lembro. 

 

P/1 - Como é que era?

 

R - Ah... Tinha, na entrada, uma sala. Do lado esquerdo era o quarto do meus pais, depois tinha um corredor que dava para uma pequena copa, a entrada para o banheiro e um quarto - nós tínhamos um quarto só para todos os filhos, né? E depois a cozinha. 

 

P/1 - Tinha quintal?

 

R - Tinha um quintal muito grande, com muitas frutas. A água era de cisterna, a minha mãe tirava ali na cisterna a água. (risos) Eu me lembro porque naquelas árvores eu subia muito quando era criança. (risos) Laranjeira, mangueira, tinha isto, né? Quintal muito grande.

 

P/1 - E o cotidiano da casa? As crianças tinham obrigações a fazer, vocês tinham algumas responsabilidade ali, no dia a dia da casa?

 

R - Tinha, tinha. As minhas irmãs cuidavam da casa, da limpeza da casa. Ajudavam a minha mãe nos afazeres domésticos.

 

P/1 - E você?

 

R - Ah, era criança. Era mais para o estudo e para brincadeira, né? 

 

P/1 - E a sua rua ali? Como é que era a rua?

 

R - Era muito animada porque tinha muita criança. Era um bairro de classe pobre, com muitas crianças e uma total liberdade de brincadeira em rua. Eu tinha todos os meus coleguinhas ali, de brincar na rua.

 

P/1 - E que tipo de brincadeira vocês faziam?

 

R - Era pular corda, amarelinha, era pique de esconder. (risos) 

 

P/1 - E como era a sua relação ali, com a meninada da rua, dos seus amiguinhos?

 

R - Ah, eu sempre tive uma relação muito boa. Inclusive, eu carrego esta amizade, desses meus coleguinhas, até hoje. 

 

P/1 - Carmen, e a escola? Como é que começou? Onde é que você estudou pela primeira vez?

 

R - Estudei no Grupo Artur Belém Júnior, que é um grupo [escolar] lá em Pedregulho. Depois, eu passei para o ginásio, também lá em Pedregulho, para fazer, na época, admissão. E quando terminava o quarto ano primário tinha que fazer admissão para para entrar na fase do colégio. 

Eu fiz um ano de admissão no Ginásio de Pedregulho, aí eu já mudei para Franca. Eu continuei aqui, na escola Amália Pimentel. Depois, terminei a fase de ginásio. Na fase de colégio eu estudei o curso técnico na Escola Industrial, onde fiz o curso de Eletrotécnica. Terminando o curso de Eletrotécnica, eu já fiz um curso superior na Unifran [Universidade de Franca], que foi o curso de Máquinas Elétricas. E, posteriormente, depois de algum tempo - eu parei um período -, eu fiz Direito na Faculdade de Direito de Franca, que é uma autarquia municipal.

 

P/1 - Certo.

 

R - Terminei o curso em 1990.

 

P/1 - Certo.

 

P/1 - Lá atrás, nessa sua primeira escola, você tem alguma professora que tivesse te marcado a lembrança? De qual você se lembra?

 

R - Sim, eu me lembro. Eu me lembro da dona Galdina, [uma] professora primária muito rígida, muito severa, mas que marcou muito a minha vida. Ela foi importante porque eu me espelhava nela, apesar daquela rigidez. Uma senhora muito séria, mas eu gostava muito dela.

 

P/1 - E você chegou a ter algum atrito com ela, já que ela era tão severa?

 

R - Cheguei. Ela chegou até me dar palmada. (risos) Naquele tempo, se usava, né? Professora rígida, dava... Mas eu gostava dela mesmo assim.

 

P/1 - Certo. Dona Galdina.

 

R - Dona Galdina, isso.

 

P/1 - E, depois dela, alguma outra que você se lembre, alguma em especial?

 

R - Eu não tenho os nomes assim, na lembrança, mas ela me marcou muito, gostava muito dela.

 

P/1 - E ela foi professora só no primeiro ano ou acompanhou durante o primário todo?

 

R - Não, acompanhou durante o primário todo. Tinha outros professores, dependendo da matéria.  

 

P/1 - Os seus pais já sentiam uma atenção sobre as suas atividades escolares? Te acompanhavam, faziam...

 

R - Tinham, sim. Eu comecei... Eu entrei na escola com seis anos de idade. Naquela época, eu entrei como ouvinte porque nem se podia matricular. Meu irmão ia para a escola e eu queria ir também, segui-lo, e não podia. Então, o meu pai teve até que ir na escola primária conversar com eles, porque eu dava muito trabalho em casa, eu queria ir também para a escola. Eu não admitia que o meu irmão fosse para a escola e eu ficasse em casa, então eles me aceitaram na escola como ouvinte. O meu primeiro ano foi... Eu terminei o primário, considerando que eu entrei na escola com seis anos de idade. 

 

P/1 - E aí o ginásio nesse outro colégio, lá em Pedregulho mesmo...

 

R - Em Pedregulho.

 

P/1 - Era uma... Enfim, como era o seu esquema nessa escola?

 

R - Neste ginásio fiz só admissão. Era um curso de um ano que tinha que se fazer para poder iniciar no ginásio. A minha professora era Bela e era ótima professora. Também gostava muito da Bela, mas aí já na fase da admissão, não do primário.

 

P/1 - E o seu ginásio foi cursado onde?

 

R - Já aqui em Franca, na Escola Amália Pimentel.

 

P/1 - O que motivou essa mudança da família... Ou foi toda família ou apenas você que foi...

 

R - Não, toda família.

 

P/1 - De Pedregulho para cá.

 

R - Motivou devido a doença do meu pai. Meu pai, em serviço, ele passou mal e teve um problema coronário. Ele precisou se afastar. Devido ao tratamento dele ser tudo aqui em Franca, e com o afastamento dele do trabalho, [isso] motivou a nossa vinda para Franca. Por quê? Meu pai já estava afastado, o tratamento dele era feito aqui. As minhas irmãs precisavam trabalhar para ajudar no sustento da família, em Pedregulho tinha poucos recursos e Franca sempre foi uma cidade industrial. E o meu pai também queria dar uma melhor condição de estudo para nós, o que Pedregulho não tinha na época, então nós resolvemos mudar. O meu pai vendeu a casa que nós tínhamos lá, comprou uma outra aqui em Franca e nós mudamos, toda a família.

 

P/1 - Antes que a gente chegue em Franca, como é que era Pedregulho dessa época, essa cidade onde você passou a primeira infância?

 

R - Era uma cidade... Ah, que eu me lembro de criança. (risos) Simples, mas ela tinha aquelas... Aquelas brigas políticas, sabe? Isso era muito forte em Pedregulho, as questões políticas. Mas é uma cidade muito amiga. Todas as pessoas se conheciam; você sabia quem era filho de quem, o que fazia, onde morava, então a gente tinha total liberdade na cidade para ir em qualquer lugar, a qualquer hora, na casa de qualquer pessoa. Isso era muito bom.

 

P/1 - E para aquela menininha, o que significou a mudança para uma cidade maior, industrial, como Franca?

 

R - Eu fiquei muito empolgada quando eu vim para Franca, morar em uma cidade maior que me dava condições e desenvolvimento.  

 

P/1 - E teve algum problema de adaptação, alguma...

 

R - Não, eu não tive nenhum. Não, porque já chegando eu já fiz muitas amizades. Quando eu vim, o meu pai já tinha conseguido a vaga na escola. Inclusive, eu já fui para a escola com vizinhos meus, então foi tudo normal. (risos)

 

P/1 - E a família foi morar onde, Carmen?

 

R - Aqui em Franca, nós moramos no bairro chamado Vila Raycos. Nós moramos por muitos anos neste bairro.

 

P/1 - E como era essa casa, essa rua, novamente?

 

R - Era uma casa simples, a rua não tinha asfalto. Era um início de bairro. Uma casa muito simples porque o meu pai vendeu a casa em Pedregulho que, praticamente, não vendia um... Não tinha um valor significativo, então o que ele conseguiu adquirir aqui foi uma casa mais simples ainda em um bairro iniciando, sem muita estrutura. A gente foi conseguindo depois, com o tempo.

 

P/1 - E o quintal fazia falta?

 

R - Fazia muita falta porque aqui o quintal não tinha plantação nenhuma. Não tinha isto, era apenas uma casinha com um quintal muito restrito.

 

P/1 - E as suas árvores frutíferas...

 

R - Todas se perderam. (risos) Aliás, é uma paixão da minha mãe porque ela diz que o pomar desta casa lá em Pedregulho, ela formou. E ela se lembra até hoje, ela comenta: “Ai, eu plantei aquele pé de abacate, eu não cheguei a comer do abacate daquele..”. (risos) Daquela casa, né? Porque não deu tempo de dar, nós mudamos. Ela fez do modelo dela, com todas as frutas que ela gostava, que ela plantou e muitas ela não veio nem a colher. 

 

P/1 - Certo. Carmen, aí o caminho da escola... Da casa para a escola era perto, longe?

 

R - Não, era longe. Porque da Vila Raycos para ir para a Escola Amália Pimentel... Amália Pimentel é uma escola que fica no Jardim Francano, bem longe. 

 

P/1 - Quanto tempo você demorava para caminhar até lá?

 

R - Ah, uma meia hora. Inicialmente, eu comecei o estudo pela manhã; depois eu fui trabalhar, aí passei para o período noturno.

 

P/1 - Como é que foi essa... Esse primeiro trabalho? Como é que você conseguiu o seu primeiro emprego?

 

R - O meu primeiro emprego foi em uma empresa... Uma indústria de calçados aqui em Franca. O meu irmão trabalhava nesta indústria. Eu precisava trabalhar também e não tinha experiência alguma, então ele conversou com o chefe dele. [Pra saber] se havia alguma oportunidade para um aprendiz que necessitava. 

Ele pediu para que eu fosse até lá. Eu fui. Ele me achou muito jovem. Eu sempre fui muito pequenininha. (risos)

 

P/1 - Que idade você tinha?

 

R - Na época, eu devia ter uns quatorze anos. E ele me admitiu como um aprendiz; fiquei em um período de experiência. Ele gostou muito porque eu era muito esforçada. Eu fui admitida nessa empresa; trabalhei lá [por] alguns anos.

 

P/1 - O que você fazia lá?

 

R - Eu entrei fazendo... Passando cola no calçado, dobrando o vivo, que nós chamamos - é a parte do calçado ali, em volta, onde coloca o pé.

 

P/1 - Chama-se vivo?

 

R - Vivo. É aqui assim, essa parte aqui, né?

 

P/1 - Tá.

 

R - Dobrando aquilo, colando o forro que vai dentro do calçado, para depois passar a costura. Posteriormente, eu fui aprendendo outros trabalhos, aí eu aprendi a cortar no balancim, que é cortar mesmo o molde do calçado, cortando com uma máquina. Depois, eu aprendi pesponto, que é a costura do calçado. E aí eu já [me] tornei, inclusive, uma profissional nisso, trabalhei em outras empresas como pespontadeira.

 

P/1 - Certo. E essa é uma fase crítica da produção do sapato?

 

R - É, do calçado. Foi o início ali, da aprendizagem do calçado. 

 

P/1 - Digo, o pesponto é um momento que se errou, você pode arruinar todo o trabalho feito até aquele momento?

 

R - Pode. É a qualidade do calçado está ali. A costura de uma peça com a outra no calçado.  

 

P/1 - Em que empresas você passou nessa área calçadista?

 

R - Eu entrei no Calçados H. Rocha. Depois, eu trabalhei em uma outra empresa que fechou - estou tentando aqui, me recordar o nome. Eu vou me lembrar. (risos) No momento, eu não me lembro. Trabalhei no Calçados Martiniano também, algum tempo e trabalhei no Calçados Francana.

 

P/1 - Sim. Mudou o turno da sua escola, como você havia dito?

 

R - Sim.

 

P/1 - E como é que ficou a sua rotina?

 

R - Trabalhando durante o dia e estudando no período noturno.

 

P/1 - E saía de casa a que horas? Almoçava em casa? Como é que era o dia a dia?

 

R - É, almoçava em casa. Ia almoçar, quando na fábrica, onde era mais próximo. Teve esta fábrica que, agora, eu não me recordo o nome; eu levava o almoço. Então, na fábrica, tinha uma estufa onde se esquentava as marmitas. E lá eu almoçava. No Calçado Martiniano tinha um ônibus que levava os funcionários e trazia, inclusive, no horário de almoço. E à tarde chegava em casa correndo, né? Tomar um banho rapidinho e ir para a escola. Eu já estava fazendo o ginásio, então eu já tomava um ônibus e ia para o ginásio.

P/1 - Sim. E a que horas você estudava efetivamente? Não na escola, mas para...

 

R - Entrava às sete na escola e saía por volta de dez e meia, por aí. 

 

P/1 - Sim, mas estudar, fazer os deveres, se preparar para as provas...

 

R - Ah, sim, [no] final de semana. (risos) Porque durante o dia não tinha tempo. Eu saía por volta das seis horas, entrava na empresa por volta das sete. Trabalhava até às cinco da tarde. Era o tempo de chegar em casa, tomar um banho rapidinho e às sete da noite estar na escola. Chegava [às] dez e meia, onze horas em casa porque o curso terminava às dez e meia. Um dia ou outro, saía um pouquinho mais cedo, mas eu sempre chegava em casa por volta de 23:00. Aí, eu já não aguentava estudar e fazer mais nada, né? Era mesmo final de semana que se reunia com os amigos, né? Da escola, ia estudar, fazer algum trabalho.

 

P/1 - E sobrava algum espaço para o lazer, para a diversão?

 

R - Não, praticamente, não. (risos) Só no período de férias mesmo. Diversão era só em férias.

 

P/1 - O que você gostava de fazer nas férias?

 

R - Nas férias… Eu gosto muito de água, então ia sempre a colônias de... Locais que tinham água, um tipo de colônia ou de hotel que tivesse água. Aqui na nossa região tem muito disso, então, a gente passava o dia lá na piscina, nadando. Gosto muito de verde, caminhar no meio da mata, essas coisas.

 

P/1 - Esse seu período na indústria de calçados foi o que te levou a esse curso de máquinas, logo depois do ginásio terminado. Você imaginava que ia continuar em calçados o tempo todo?

 

R - Não, não foi isto. Eu optei pelo curso de Eletrotécnica e Máquinas porque eu gostava do que o meu pai fazia. O meu era instalador da CPFL, lidava com energia elétrica. Ele gostava de falar do trabalho dele e isto me empolgava. Eu passei a gostar de eletricidade, de mexer com isso, vendo o meu pai fazer isso, né? Em casa, o meu pai tinha sempre um ferro para consertar, alguma coisa que levavam para ele fazer um reparo em casa. Isso era muito comum na cidade. Eu gostava de ver o meu pai, ele mexendo e fazendo aquelas substituições de peças e fazendo a coisa funcionar. Eu me empolguei com isso. Foi onde eu fiz o curso de Eletrotécnica e, posteriormente, até para complementar, eu fiz o curso de Máquinas Elétricas, que foi o superior.

 

P/1 - E aí, como é que... Onde é que você foi aplicar esse conhecimento que foi acumulando?

 

R - Eu precisava para receber o certificado, um estágio. Foi até uma luta conseguir esse estágio, porque o campo para Eletricidade para mulher era, na época, muito restrito. Hoje, já tem uma abertura maior, mas para mulher atuar nesta área havia muitas restrições. 

Eu procurei inúmeras empresas aqui em Franca, fora de Franca. Inclusive eu, nos processos de seleção, eu fui... Aprovada em alguns e eles foram muito claros comigo que, se eu fosse homem, eu teria oportunidade, mas pelo fato de ser mulher ficava a desejar, né? Eu me lembro que eu fiz seleção na GE em Campinas, na IBM, também em Campinas. Cheguei a ser aprovada na época, mas não fui admitida por esse motivo. 

Consegui estágio em uma fábrica de transformadores em Mogi Mirim, na Marangoni Maretti; fiz um estágio lá de um ano. Depois, eu também trabalhei em uma outra empresa de transformadores lá em Mogi Mirim, a Siemens Transformadores. Gostava muito do que fazia na área elétrica. (risos)

 

P/1 - E como é que foi essa mudança? Foi a primeira vez que você saiu de casa?

 

R - Sim, saí de casa para fazer estágio... 

P/1 - Foi sozinha?

 

R - Não, fui com uma amiga porque nós duas conseguimos esse estágio. Nós duas fizemos o estágio, mas depois, admissão como funcionária foi na Siemens Transformadores - na Marangoni Maretti, eu fiz apenas o estágio. Fiquei lá um ano estagiando. Eles não me admitiram por ser mulher. A outra empresa que tinha um grande contato com a Marangoni Maretti me admitiu como funcionária, sabendo que eu já havia passado pelo estágio na Marangoni Maretti, e trabalhei também por um ano na Siemens. Aí eu já trabalhei sozinha porque a minha amiga, terminando o estágio na Marangoni, ela foi para Campinas tentar lá. Ela conseguiu emprego em Campinas; nós nos separamos e eu fiquei sozinha em Mogi Mirim.

 

P/1 - E o tempo todo ligada à família, com toda essa história que vocês tinham, como é que isso bateu para você, morar sozinha em uma cidade distante?

 

R - Era a vontade de desenvolver, de ser alguém, de ter uma profissão. Na época, sofri muita restrição por parte da minha família. Eu já não tinha o meu pai, então a minha mãe ficava muito preocupada de morar fora. Como eu fui com uma amiga, ela permitiu. Depois, quando eu fiquei sozinha, já ficou um pouco mais complicado. Isto motivou a minha volta porque ela já não queria que eu ficasse lá, por muitos medos.

 

P/1 - Quer dizer, você vivia sozinha lá, vivia em uma república? Como é que era?

 

R - Não, eu vivia em uma hospedaria sozinha. Era um... Alugava um quarto nessa hospedaria. Tinha apenas o café da manhã, a refeição era feita em um outro hotel que servia refeição.

 

P/1 - Não lhe dava muita solidão, não?

 

R - Dava, muita solidão. À noite, era terrível. (risos) [No] final de semana, porque não viajava todos os finais de semana para Franca; ganhava muito pouco e se eu ficasse viajando para Franca todo final de semana, além de ser muito cansativo, eu não tinha condições financeiras para isto. Então a cada vinte dias eu vinha em Franca. E quando eu vinha trazia toda a roupa para lavar, para retornar depois, porque também não havia condição de ficar pagando uma lavadeira. Não era permitido fazer isto nessa hospedaria que eu morava.  

 

P/1 - E como é que você passava os finais de semana na...

 

R - Na cidade? Ah, sozinha, passeando, ia a igreja, ia à praça fazer um passeio. Fiz alguns amigos, então ia até a casa deles. Tinha esse contato assim, com as amizades que eu fiz lá, inclusive com colegas de trabalho. Eu era muito bem recebida na cidade.

 

P/1 - E esse seu retorno para Franca deu-se em que condições? Você veio fazer o quê aqui?

 

R - Como a minha mãe estava muito triste de eu morar fora… Muitos cuidados, ela me ajudou aqui também. Meus cunhados, eu devo isso a eles: um emprego aqui em Franca. Conseguiram na área de eletricidade, na Eletrotécnica Pires, uma loja de eletricidade aqui em Franca. Eu vim trabalhar nesta loja, trabalhando na venda de materiais elétricos porque eu conhecia, sabia do que se tratava. Trabalhei [por] um período nesta loja. 

 

P/1 - Era um trabalho interno ou você saía?

 

R - Não, interno. Eles trabalhavam na instalação rural e também em empresas de calçados aqui em Franca. Eles fazem projetos de instalações elétricas; eu fazia os orçamentos para essas instalações e fazia a venda também, no galpão, de todo o material elétrico.

 

P/1 - Certo. Foi assim, digamos, a sua primeira experiência de relacionamento com o público direto?

 

R - Com o público, sim. Foi nesta loja de material elétrico que foi relação direto com o público. Foi vendas, né? 

 

P/1 - Certo.

 

R - Venda em galpão.

 

P/1 - Certo. Sua perspectiva de vida estava toda centrada nessa área?

 

R - Nesta área, sim. E foi isso que [me] motivou, inclusive, [a] fazer o curso superior. Terminei o estágio de Eletrotécnica do curso feito na Escola Industrial. Terminei o estágio, recebi o certificado e, trabalhando depois na área, eu me empolguei em terminar o curso e fazer o superior. Foi quando eu fui até a Unifran, me matriculei e fiz o curso de Máquinas Elétricas, até para complementar o curso anterior, que era Eletrotécnica.

 

P/1 - Certo. E fez esse curso de Máquinas Elétricas concomitante ao trabalho?

 

R - Ao trabalho, sim, enquanto estava ainda na Eletrotécnica Pires. Depois, surgiu a oportunidade da CTBC, então eu já vim no intuito de, quem sabe no futuro, prestar serviços técnicos na CTBC. 

 

P/1 - E como é que se deu essa identificação da CTBC? Como é que surgiu essa oportunidade?

 

R - Havia uma vaga na CTBC, eu me candidatei a esta vaga. Eu tinha uma amiga que trabalhava na CTBC. Surgiu uma vaga na área comercial, ela me comunicou que existia essa vaga, eu fui até a CTBC e me inscrevi para esta vaga.

 

P/1 - Quando foi isso?

 

R - Foi em 1979.

P/1 - E aí, passou, entrou, não?

 

R - Sim, entrei na CTBC na área comercial. Depois, passei por vários departamentos, vários trabalhos, mas não consegui. (risos) Aquele meu propósito que era trabalhar na área técnica… Apesar de que quando eu terminei a Unifran, eu conversei com o senhor Luiz Márcio, conversei com o doutor Cassiano, na época que era responsável... Engenheiro responsável, né? Até para me candidatar. Era um trabalho técnico. Na época, não era objetivo da empresa ter uma mulher na área técnica, mesmo trabalhando aqui em Franca. O serviço seria de central ou de DG, porque eles não viam uma mulher na rua trabalhando, subindo em poste, alguma coisa nesse sentido.  

 

P/1 - Isso não quebrou alguma expectativa?

 

R - Quebrou, quebrou muita, porque eu lutei muito para conseguir me desenvolver nesta área que eu gostava muito. Mas foi uma sequência assim, que com o tempo eu fui aceitando, até que eu mudei de área. (risos)

 

P/1 - Vamos primeiro nesse seu primeiro... Essa sua primeira área na CTBC, como é que... O que você fazia na área comercial? Quais eram as suas funções e responsabilidades?

 

R - Atendimento ao público. Nós atendíamos todo o público em um balcão, um atendimento mesmo.

 

P/1 - Onde?

 

R - No escritório da CTBC.

 

P/1 - E fica localizado onde?

 

R - Na Rua Monsenhor Rosa. Nós só tínhamos um prédio naquela época. Era um escritório com um balcão e nós atendíamos o público neste galpão. Ali se fazia vendas de linhas telefônicas, atendia-se às reclamações de linhas telefônicas, transferências de nome, informava-se o valor da conta mensal.

 

P/1 - Era um conjunto de pessoas e atendentes lá?

 

R - Era sim. Era um conjunto de pessoas...

 

P/1 - Tinha muita gente que cotidianamente ia lá, não?

 

R - Sim, eram muitas pessoas porque todo o atendimento da CTBC era feito pelo telefone e ali naquele escritório, então as pessoas [se] direcionavam [para] lá, para pedir toda e qualquer serviço e reclamação também.

 

P/1 - E como é que você conseguia ter resposta para todas essas demandas?

 

R - (risos) Não era fácil, né? A gente contava ali com o apoio dos colegas que estavam ali e era muito trabalho. Naquele tempo, nós trabalhávamos com fichário, com ficha manual do cliente, então a gente tinha que ser rápida. Tinha que atender ali o cliente, solucionar o problema dele porque outros estavam esperando, estavam aguardando. Tinha dias que se fazia filas ali de pessoas para serem atendidas e era muito burocrático, porque nós tínhamos essas fichas guardadas em um armário. O cliente chegava até o balcão para você registrar a solicitação deles, tinha que ir lá nesse fichário. 

Eu, sendo muito pequenininha, né? (risos) Interessante que foi feito um caixotinho para subir e procurar ficha no arquivo, para retirar a ficha, identificar o cliente e fazer a solicitação dele. Essas fichas eram datilografadas. Toda ordem de serviço para o cliente: [se] ele pedia uma transferência de endereço, eu tinha que preencher um documento datilografado pela máquina, um documento com três folhas que levava um carbono. Ia até a máquina, datilografava, entregava para o cliente assinar aquele pedido. Depois, aquela ficha, aquela solicitação juntamente com a ficha de cadastro ia ser datilografada para depois passar o serviço. A demanda era grande porque era muito burocrático.

 

P/1 - E se a pessoa chegasse dizendo assim: “Moça, quero comprar um telefone?” O que você fazia?

 

R - Se nós tínhamos disponibilidade, estavam vendendo a linha telefônica, pegava um bloco; era o contrato do telefone carbonado, se colocava ali em todas as vias um carbono. Solicitava do cliente os documentos pessoais dele, se preenchia manualmente ou na máquina - se houver a possibilidade de ir até a máquina, se a outra colega não estava usando porque eram muitas pessoas. 

Quando tinha disponibilidade de venda eram muitas pessoas no balcão para adquirir linhas telefônicas, então se a colega estava usando a máquina de escrever você tinha que fazer manualmente mesmo. Você colhia todos os dados do cliente, preenchia, ele assinava. Tinha que ir até um livro que nós tínhamos, de registro de números telefônicos; já se vendia com o número do telefone. Ia lá no livro, olhava o número que estava disponível, registrava no livro que aquele telefone foi vendido, o número do contrato, para quem era. A pessoa assinava o contrato aceitando aquele número. Muitas vezes, eles queriam escolher o número telefônico... (risos) Tinha todo esse trabalho para ser feito.

 

P/1 - Ainda nessa área de atendimento… “Moça, eu quero... A minha conta está errada, veio com valor a mais”... O que você fazia?

 

R - Ah, sim. Aí tinha que preencher uma solicitação de verificação de conta. Era um documentinho que nós fazíamos, pequeno até, e essa verificação de conta era feita em Uberlândia. Nós passávamos isto para que Uberlândia apurasse e nos desse o retorno, porque nós não tínhamos condição de fazer a apuração de conta aqui, nesta época. Era tudo centralizado em Uberlândia.

 

P/1 - O faturamento...

 

R - O faturamento lá, isso.

 

P/1 - Com essa experiência da relação com o público, como é que... O que isso suscitou em você? Esse tipo de relacionamento, porque certamente você deve ter passado por alguns maus pedaços...

 

R - Ah, sim. 

 

P/1 - Tem alguma experiência ruim assim?

 

R - Não, experiência ruim não. Tinha um dia que a gente ficava um pouco mais chateada, outro dia não. Devido ao acúmulo de trabalho, muitas pessoas, as reclamações que faziam. Às vezes, você não conseguia dar a solução de imediato. Você dependia de outros, dependia de departamentos [para] poder estar fazendo isso. Mas o que me marcou e ocasionou esse atendimento às pessoas é a minha opção pela área humana - de vir a me tornar, depois, uma advogada. Tentar esse relacionamento entre pessoas que eu não tinha antes, porque era muito técnico o [trabalho] anterior.

 

P/1 - Ainda nesse momento antes de despertar a vocação, como é que era a sua ação? Qual era o segredo da sua ação quando tinha que encarar um cliente mal-educado, que já chegava bravo, casca grossa...

 

R - Ah, sei. (risos) Era de muita calma. Era muito respeito ao cliente, de ouvir o cliente - o cliente sempre tem razão, né? Ouvir, depois tentar contornar a situação e resolver o problema do cliente. Chegava mesmo uns clientes mal-educados, muito bravos, como até hoje ainda ocorre, mas era de muito respeito ao cliente, de tratá-lo com a maior educação possível. Ouvir todo o questionamento do cliente, para depois verificar a condição de estar resolvendo o problema dele, mas ouvi-lo, primeiramente.

 

P/1 - E como era a relação com a chefia, com as lideranças da empresa? Como é que se dava essa...

 

R - Eu sempre tive um bom relacionamento com todos os chefes. Sempre tive, mas era de muita imposição. E… Mas era, na época, desta forma. Não podia nenhum cliente ficar aguardando no balcão, nós tínhamos que ficar sempre atentas para isso.  O telefone não podia ficar muito tempo tocando - no máximo no terceiro, quarto toque, o cliente tinha que ser atendido, independente do que estivesse fazendo, atendendo até um outro cliente. 

Nós atendíamos o balcão e o telefone ao mesmo tempo; o telefone tocava o dia todo e o cliente no balcão. Nós tínhamos que ter um jogo de cintura para atender o telefone, e o cliente do balcão, e coordenar isto para que nenhum ficasse insatisfeito. Às vezes, ocorria de estar no balcão, o telefone tocava e não tinha ninguém para atender porque todas estavam atendendo e a primeira que conseguisse terminar o assunto e atendesse o telefone, não deixava tocando. Às vezes, acontecia de pedir um momentinho para aquele cliente para poder atender o telefone e ele contestar isso: ele estava ali, ele já estava sendo atendido e não era para atender o telefone. A gente tinha que lidar com isso porque no telefone também era um cliente, né? E que aquele no telefone não estava sabendo o que estava acontecendo.

 

P/1 - Certo.

 

R - Nós dávamos informações de contas telefônicas por telefone. Nos períodos de vencimento de conta telefônica era muito crítico, porque o telefone tocava incessantemente e ficavam pessoas retidas nas linhas. Você terminava de atender um, já tinha um aguardando porque ele queria saber o valor da conta telefônica. E lá no balcão estava um outro cliente querendo adquirir um terminal telefônico, fazer uma solicitação de transferência de endereço. Você tinha que ter um jogo de cintura todo para não deixar nem um, nem outro descontente.  

 

P/1 - Quantas pessoas tinham atendendo nessa sua época?

 

R - Seis pessoas. Eram três... Eram três mesas na frente, três mesas mais atrás e, dessas seis, uma era chefe.  

 

P/1 - Quem era a sua chefe?

 

R - A Rosa.

 

P/2 - Carmen, eles ligavam para saber o valor da conta porque eles não recebiam a conta?

 

R - Não recebia em casa. Ia diretamente para o banco.

 

P/2 - E ele tinha que ir ao banco...

 

R - Para saber o valor da conta, ou então ligava na CTBC para saber o valor da conta. A conta não ia na casa do cliente. 

Esse foi um período, né? Bem posteriormente, então, iniciou a entrega da conta em casa, mas em 1979 até 1980 e... Até quase 1990 a conta ia diretamente para o banco. 

As contas eram emitidas pela SAB em Uberlândia, nós recebíamos as contas em um escritório. Nós destacávamos as contas porque vinham em blocos. Tinha que separar os bancos e as contas telefônicas, porque elas vinham todas impressas.  Esta separação era feita pelo atendimento, por nós. Inclusive, nós solicitávamos a ajuda das telefonistas no período [em] que nós recebíamos as contas para encaminhá-las para o banco no menor prazo possível, porque as contas já chegavam praticamente de última hora, quase na data de vencimento. E quando era a época de pagamento das contas - que era um período só do mês, não havia essa divisão de vencimentos de conta - os clientes queriam saber o valor da conta mensal, já começavam a chamar no atendimento. Nós tínhamos um borderô com o valor da conta que recebíamos antecipadamente e já informávamos o valor da conta.

A conta, quando ela chegava… Nós destacávamos conta por conta porque se uma conta é grande ela vinha ali em várias partes que tinham que ser destacadas, com o cuidado de não ir anexo aquela conta de outro cliente. Tinha que se observar ali qual era o número do telefone que se juntava aquela conta só; dobrava-se, destacava e também separava os bancos. Eram vários bancos que recebiam contas telefônicas. Depois nós levávamos, nos braços, as contas telefônicas até o banco.

 

P/1 - Banco.

 

R - Até o banco. Sim. 

Na rua, quando eu... (risos) Engraçado, porque nós saímos com aquele pacote de contas, aí ia uma turma. Eram quatro, cinco meninas com aqueles pacotes de contas telefônicas nos braços. Chegavam no banco para fazer a entrega, aí esse pessoal [dizia]: “Chegou a conta do telefone! Ah, quero ver quanto que veio para mim.” Já tinha clientes no banco: “Então eu já vou aproveitar para pagar a conta telefônica.” 

O nosso trabalho no banco era de entregar as contas e juntar as contas não pagas com as contas atuais. Essa era a nossa responsabilidade também, porque o banco recebia as contas, mas se nós não colocávamos junto as contas anteriores que já se encontravam em poder do banco com aquela conta atual, ocorria do banco receber a conta atual e deixar a conta antiga do cliente. Então, nós pegávamos as contas que estavam em poder do banco, intercalávamos com as outras e grampeávamos porque na hora que o caixa ia pegar, o cliente ia pagar a conta, o caixa pegava a conta e via que ele tinha várias contas a serem pagas. Então, você recebia aquela conta mais antiga, deixava a mais atual, ou então fazia um acordo de receber todas as contas que estavam atrasadas.

 

P/1 - Vem cá, vocês faziam toda essa outra operação fora do horário de atendimento?

 

R - De destacar as contas, nós fazíamos fora do horário de atendimento, [no] período noturno ou, às vezes, pela manhã, quando chegavam as contas. A conta chegou, era prioridade porque a conta tinha que ir para o banco, os clientes queriam pagar e nós queríamos receber. (risos) Era prioridade. Tinha-se que destacar isso o mais rápido possível, encaminhar para o banco. 

A mesma coisa na época do corte; quantos não pagaram as contas telefônicas para cortar. O controle era feito por aqueles recibos que estavam no banco. Nós não tínhamos um sistema na época que mostrava que aquele cliente estava em débito com a empresa, então você fazia o corte, eu tinha que ir até o banco [e] olhar no caixa do banco, porque eles tinham uma caixinha com todas as contas telefônicas, quem havia pago, quem não, para poder fazer o corte, até o cancelamento da linha. Ali verificava: “Olha, esse cliente está com mais de três contas, então esse já vai entrar no processo de cancelamento.” Essas contas já não vão ficar mais em poder do banco. Elas serão retornadas à CTBC ou o cliente passou o período de pagamento, já venceu o período também do telefone ficar ligado, ele vai sofrer um corte. Então, nós relacionávamos todo os números que estavam lá para poder efetuar o corte.

 

P/2 - Esse trabalho lá no banco...

 

R - No banco. Sim.

 

P/2 - Tinha espaço para vocês lá?

 

R - Muitas vezes, não. (risos) Muitas vezes, se arrumava um local para nós, mas muitas vezes era em pé no balcão do banco mesmo que nós fazíamos esse trabalho.

 

P/1 - Você tem idéia de quantos assinantes era esse universo aqui, da época?

 

R - Olha, nós tínhamos a Central 722 com dez mil assinantes. Depois, a Central 723, que iniciou com mais cinco mil. Era de dez a quinze mil assinantes na época. Eram muitas contas, muitas.



P/1 - O curioso é que tudo isso feito manualmente não gerava muito erro, né? 

 

R - Às vezes, gerava sim porque era muito manual, né? Era um processo demorado. Tinha ocorrências de erro sim, de conta ir para o banco errado. Na hora de destacar ocorriam erros de... Devido serem muitas contas e um prazo muito curto para se separar aquilo, não destacar uma conta de um cliente com o outro, então ela ficar presa ali. Não era encontrada essa conta; nós tínhamos que ir até o banco verificar e apurar onde que estava a conta. Descobria-se que ela estava anexa a um outro número. 

 

P/1 - Quer dizer, ia consertar o erro lá e ouvir a reclamação...

 

R - Sim, lá do cliente. Sim. “Olha, a minha conta não foi para o banco. A conta não está no banco.” Às vezes, estava no outro banco. (risos) Então, nós íamos conferir. A conta veio, mas onde está? Então vamos até o banco apurar e saber onde se encontra. “Olha, eu recebi parte da minha conta, né? O valor é X, mas eu não tenho toda discriminativa desta conta.” “Ah, então é porque na hora de destacar a conta, parte desta ficou anexa a outra.” A gente tinha que ir correr lá para verificar se o outro cliente não levou isto, inclusive, né? (risos) E tinha que ser rápido. 

 

P/1 - Você teve algum contato com o seu Alexandrino Garcia durante esse seu período da CTBC?

 

R - Não, infelizmente, não. Eu tinha muita vontade de conhecê-lo, mas, nesta época, ele já não viajava muito mais para as regionais, então eu não tive esse contato com ele. Também, não... Naquela época, a gente também não ia até Uberlândia, porque era muito trabalho aqui. Poucas pessoas viajavam até Uberlândia, então não o conheci pessoalmente.

 

P/1 - Mesmo não tendo conhecido, se alguém lhe perguntasse “quem foi Alexandrino Garcia”, o que você diria?

 

R - Ele foi um homem muito importante para as telecomunicações no Brasil. Eu vejo o seu Alexandrino como um pioneiro, em tudo. Inicialmente aqui, na região do Triângulo Mineiro, o desenvolvimento que houve das telecomunicações é graças a ele. E aqui na nossa região também. Se não fosse pelo seu Alexandrino Garcia, acho que muitas coisas não teriam acontecido em tempo e hora. A visão do seu Alexandrino que fazia as coisas acontecerem. Era a vontade dele de fazer acontecer, o pioneirismo dele em tudo.

 

P/1 - Certo. Voltando a esse seu trabalho de atendimento, que era mais do que atendimento, era praticamente uma administração do recebimento de contas e tudo mais, quando começou a evolução, digamos, da gestão... A evolução tecnológica da gestão destes documentos? Quer dizer, como é que isso começou a melhorar, esse trabalho deixou de ser tão manual e passou a ser...

 

R - Foi com a implantação do Centro de Operações. Nós tínhamos um chefe - na época era chamado de chefe, hoje nós damos o nome de coordenador. (risos) O Anselmo Sanches foi verificar em outras teles o desenvolvimento de um trabalho com mais facilidade. Ele trouxe isto para a CTBC e implantou o Centro de Operações. 

Apesar de ainda ser um trabalho através de fichas, se tornou um trabalho mais fácil porque já era em uma rota. Com várias pessoas em volta, aquelas fichas ficavam em uma disposição mais fácil e tinham todo o registro da história do telefone, tanto do cadastro do assinante quanto os pares de rede, então se tornou um trabalho muito mais fácil. 

Com a implantação do Centro de Operações, houve a vinculação do atendimento com a área técnica que antes era bem separado. Nós fazíamos todo aquele trabalho, passávamos para o DG, que então tinha um outro fichário, que era dos pares de rede, tinha outro registro. Com a implantação do Centro de Operações passou a ser um documento só, uma ficha só com todas aquelas informações. E facilitou porque essa ficha circulava tanto no atendimento quanto na área técnica, com todas as informações. Ali se uniu a designação de números com os pares de rede e os dados do assinante, para ter um atendimento muito mais rápido e mais facilitado.

 

P/1 - Quer dizer, passou-se a trabalhar com um documento só ali?

 

R - Um documento só. Isso.

 

P/1 - E demorou muito tempo essa implantação?  

 

R - Demorou um tempinho, sim. Eu não me recordo quando, mas desde o início do estudo para esta implementação até a aquisição dos móveis, até o transporte de dados, de fichário, demorou um tempinho.

 

P/1 - E esse fichário era manual...

 

R - Era manual, todo escrito à mão. Antes, era escrito datilografado. Depois, ele passou a ser mais rápido porque era todo transfeito à mão, à lapiseira; apagava-se os dados, corrigia-se e registrava.

 

P/1 - Era à lápis...

 

R - Era à lápis. Eu tenho essas fichas ainda até hoje. (risos) Nós temos no nosso arquivo essas fichas. As antigas não, foram destruídas as que eram datilografadas. Por questão de espaço, não havia necessidade mesmo de manter esse arquivo. Mas do Centro de Operações nós temos essas fichas hoje, ainda em arquivos. É a história, a vida do telefone. 

 

P/1 - Agora, o atendimento já passava a ser vinculado a essa roda que você se referiu? Quer dizer, as pessoas iam à roda?

 

R - Não, era por telefone. As atendentes tinham o fone, recebiam a ligação no telefone. Isso tornou [o atendimento] bem mais fácil, porque transferiu aquele atendimento pessoal para o telefone. A solicitação de serviço [era] lá no telefone.

 

P/1 - As pessoas não iam mais ao balcão?

R - Iam ao balcão para fazer uma transferência de nome, para fazer uma aquisição de linha telefônica, mas o Centro de Operações passou a fazer o atendimento do mais grosso, que era a solicitação de serviço, as transferências de endereço, as reclamações de defeitos, as reclamações de contas telefônicas.

 

P/1 - Certo. E você, depois, o Centro de Operações foi implantado, você deixou o atendimento e foi trabalhar lá?

 

R - Fui trabalhar no Centro de Operações. 

 

P/1 - Bom, mudou da água para o vinho, né?

 

R - É, já mudou um pouco. (risos) Apesar de ser uma sequência já mudou um pouco. 

 

P/1 - E qual foi o passo seguinte depois disso? 

 

R - Eu trabalhei nesta área no Centro de Operações, em uma área de equipamentos. A CTBC também tinha área de instalações, vendas de equipamentos, PABX. Eu trabalhei ligada a esta área, ligada aos grandes clientes. que nós chamamos. Depois eu trabalhei na área de faturamento - já mudei completamente, saindo da área de vendas, de instalação de equipamentos e designação de números. Trabalhava com o PAB, substituição de número para os clientes que tivessem o problema nas empresas, que eram os grandes clientes que tinham equipamentos de PABX e fui trabalhar no financeiro, com conferência de cadastro e conferência de conta telefônica.

 

P/1 - Certo. Foi uma trajetória multifacetada.

 

R - Foi, foi.

 

P/1 - E você se referiu, em um momento dessa conversa, da sua vocação para humanas e a sua decisão de buscar o Direito. Quando é que isso foi consumado?

 

R - Eu gostei muito de trabalhar com o público, aí já criou aquela ideia de que eu estava bem para poder ser uma advogada. Fui fazer o curso de Direito e me dei bem; gostei do que eu fiz, tanto é que hoje eu atuo na área do Direito. (risos) O momento exato foi que… Não que estivesse na época frustrada por não ter conseguido na área de eletricidade, na área técnica que eu tanto queria, mas sim porque eu vi uma outra oportunidade para mim. Seria nas áreas humanas. Mas o que fazer na área Humanas? Eu falei: “Vou fazer Direito porque eu acho que vai ser o melhor para mim.” 

 

P/1 - E quando você entrou no curso?

 

R - Entrei em... Eu terminei em 1990; [foram] quatro anos de curso. 1987, por aí. 

 

P/1 - E aí, você... Como é que você conciliava o trabalho com mais um curso superior, mais uma... Um tempo apertado. Como era o seu cotidiano?

 

R - (risos) Era trabalhando durante o dia e estudando no período noturno. Da mesma forma, né? Final de semana para o estudo, era assim.

 

P/1 - Eu perguntei isso porque Direito é um curso que exige muita leitura, muita...

 

R - Existe muita leitura sim.

 

P/1 - Estudo...

 

R - Sim. Horário de almoço era período também para se fazer pesquisa. Na CTBC, eu almoçava lá, eu trazia o meu almoço para o Centro... Eu digo, almoçava lá porque nessa época eu trabalhava no centro, ali na Rua Monsenhor Rosa. Então trazia o almoço, almoçava na CTBC para ter um período maior de pesquisa, de trabalho; possibilitava inclusive ir até a biblioteca, pegar algum livro para se ler, para dar andamento em algum trabalho. Mas era mais o final de semana mesmo, porque esse período era muito restrito. A faculdade já exigia muito, entrava às sete da noite e ia até por volta de dez e meia, onze horas, o curso. Só sobrava o final de semana.

 

P/1 - E qual a área de Direito que te encantou, que lhe pegou pelo coração?

 

R - A área Civil, porque ela abrange tudo. E principalmente uma área que eu lido muito, que é a área contratual. Tudo que nós fazemos na CTBC é contrato com o cliente. Levava primeiro, a conversa com o cliente ou o contrato. E isso me encanta muito. (risos)

 

P/1 - E como o seu trabalho na CTBC foi acompanhando essa sua transformação, digamos, de formação de conhecimento? Você saiu da área técnica, foi para uma área humana; como o seu trabalho na CTBC acompanhou essa sua decisão pelo Direito? 

 

R - Foi inclusive pelo interesse de desenvolvimento meu com relação à CTBC. A CTBC sempre esteve em constante transformação. E eu, vendo que conhecimento técnico que eu já tinha para atender o cliente, era uma grande facilidade minha, inclusive para conversar com o cliente sobre questão técnica na reclamação. 

Devido ao contrato do cliente com a CTBC - tudo que se faz na CTBC é contrato entre as partes, né? Eu, tendo conhecimento de Direito, ia ter duas facilidades com o cliente: conhecimento de Direito e conhecimento técnico. Seria para eu atender ao cliente uma facilidade imensa.  

 

P/1 - Você termina o curso de Direito no momento em que a empresa está passando por uma forte reestruturação.

 

R - Sim.

 

P/1 - Como é que isso apresentou-se para você?

 

R - Apresentou uma oportunidade, porque nesta estruturação a empresa ia precisar de profissionais bem formados e era uma oportunidade a mais, devido já eu ter uma formação em Direito. Era promissor isso na empresa para mim porque, por enquanto, era muito restrito à Uberlândia. Tudo [era] vinculado a Uberlândia e, nessa transformação, [se] passou maiores responsabilidades para as localidades. Um profissional que tivesse um conhecimento maior, tivesse uma formação a mais, era uma grande oportunidade; tanto é que hoje estou atuando como advogada na empresa devido a esta oportunidade que ocorreu. 

[Com] o desvinculamento disso de Uberlândia criou-se a vaga para um advogado aqui; eu vim a assumir esse cargo. Se eu não tivesse o curso de Direito, tivesse me conformado em ser apenas uma atendente, apesar de não ter conseguido na área técnica, eu criei que, de repente, eu poderia ter morrido. Digo esse “morrido” em questão de que eu não teria crescido tanto como cresci e ter podido me dar tanto para a CTBC. Ela dava as condições, eu tinha que buscá-las. Ela estava em transformação e eu teria que me fazer consciente de que essa oportunidade existia e eu tinha que ter uma formação, eu tinha que ter um conhecimento para assumir isto. Se eu não tivesse, um outro profissional iria assumir.

 

P/1 - Certo, muito bem. Nesse momento, em que essas novas oportunidades foram aparecendo, como você foi ocupando esses espaços? Afinal de contas, a sua área não tinha nada a ver internamente no trabalho com a sua área nascente de conhecimento, que era o Direito. Como é que você foi ocupando... 

 

R - A CTBC sempre foi muito aberta, muito transparente; tinha conhecimento de que estava ocorrendo essa transformação e que iam surgir essas oportunidades, então eu busquei. Eu fui até o meu chefe, me candidatei ao cargo. Mostrei o interesse em ocupar aquele cargo, a minha qualificação para aquele cargo e concorri com a empresa - tinha outros profissionais também, né? 

 

P/1 - Foi o quê? Um teste, uma...

 

R - Não. Para a mudança para o Direito não houve. Foi assim: eu me candidatei, mostrei o meu interesse para o cargo, eu já tinha a formação. Daí surgiu a oportunidade; se verificou que eu tinha a qualificação necessária, que a empresa precisava para o momento, então eu passei da área com.... Do Centro de Operações para a área do Direito.

 

P/1 - Já formada ou ainda em formação?

 

R - Já formada. 

 

P/1 - E as suas primeiras responsabilidades foram quais?

 

R - Foram ligadas às análises de transferência de nome, de documentações, as penhoras de linhas telefônicas. E as respostas aos ofícios judiciais e às ações da CTBC, as defesas dos interesses da CTBC e os processos de cobrança, que [se] desvincularam totalmente de Uberlândia. Isso era tudo feito pelo Departamento Jurídico que tinha em Uberlândia. Com essa desvinculação se passou para cada regional, para um advogado específico e nós assumimos.

Uberlândia passou a ser um staff, um apoio. E todo o trabalho que era feito naquele jurídico passou para as pontas, para estas regionais. Todos os processos em andamento, foram substabelecidos o acompanhamento deles. Todos os processos de cobranças judiciais começaram a ser promovidos por aqui e o grosso disso mesmo era muitas penhoras de linhas telefônicas - as respostas dessas penhoras, os registro dessas penhoras nos cadastros da empresa.

 

P/1 - Relação com os acionistas porque as pessoas compravam telefone e ficavam acionistas da empresa, não é? 

 

R - Sim. 

 

P/1 - Esse tipo de acompanhamento, dessas relações, fazia parte do seu trabalho também, não?

R - Não, não. Porque o contrato que era feito, que dava o direito à pessoa ter estas ações, se tornar acionista…. A cópia desse contrato ia para Uberlândia; lá no financeiro é que se fazia, então, a composição da venda, do valor pago da época. A composição dessas ações é feita em assembleia, né? E é na Algar que é feito isso, então não havia a minha participação, como nunca houve.

 

P/1 - Entenda, por favor, a pergunta que eu vou fazer: a sua vida melhorou com isso?

 

R - Nossa! E como melhorou! (risos) Inclusive, o status que me deu em ser advogada da CTBC. Isso mudou da água para o vinho. Nossa, e como! (risos) 

 

P/1 - E você passava a se reportar a quem? Ao seu coordenador local aqui em Franca? 

 

R - Sim. Aqui.

 

P/1 - Sempre era ele?

 

R - Não, não sempre. Eu tenho um coordenador jurídico em Uberlândia, o Gilberto. Eu tenho que me reportar a ele e também a um coordenador em Franca,  porque ele é o coordenador regional. Então, primeiramente, aqui em Franca e também ao Gilberto, por ser da área jurídica. 

 

P/1 - Certo. E o seu trabalho hoje, agora como é que ele tem se desenvolvido e em que áreas você está atuando? Nas mesmas áreas?

 

R - Na mesma área, na jurídica, só que com o aumento de trabalho da área jurídica, com o desenvolvimento disso, houve a tercerização da parte contenciosa. Os processos judiciais, a propositura desses processos e até a defesa da CTBC em processos contra ela é feito por escritório terceirizado. 

A citação desse processo, a formação dos documentos para a defesa ou até para a propositura da ação são feitas por mim. Eu monto este processo e encaminho para o escritório terceirizado, porque o ponto de apoio do terceirizado é comigo. Ele vai ser movido pelos documentos que eu encaminhar. A citação vem para a empresa, assina como representante legal da empresa, ou eu ou o coordenador que consta da procuração da empresa. Isto chega até minhas mãos; eu vou analisar, juntar os documentos para se fazer a defesa e encaminhar para o escritório do advogado porque, se eu não encaminhar os documentos, ele não tem como promover isso. 

 

P/1 - E o controle do andamento é feito por você também, quer dizer, do trabalho do escritório de advocacia?

 

R - Não, o controle ele faz, eu acompanho. Ele presta, neste caso, contas - tanto aqui para nós, em Franca, quanto em Uberlândia, para o Gilberto no jurídico, quanto para a Algar.

 

P/1 - Certo. O desenvolvimento do processo... O processo de trabalho melhorou com essa nova estrutura de...

 

R - Melhorou porque era um volume muito grande, com muitas instalações de linhas telefônicas foi se avolumando. A inadimplência foi avolumando para se promover uma ação de cobrança. Com muitas linhas instaladas, muitos clientes a reclamar pelos seus direitos; algumas reclamações trabalhistas que houve também. 

[São] questões de toda ordem porque nós, como prestadores de serviço, [tudo] envolve não só legislação de telecomunicações como [de] defesa do consumidor. Então, tem muitas ações contra a CTBC, como tem ações da CTBC também de cobrança com relação aos seus clientes, e o volume disso é grande. Sem contar que nós recebemos muitos ofícios judiciais, tanto para informações de linhas telefônicas, quanto para solicitações de toda a ordem - desde o cadastro do cliente, com a simples informação da existência de uma linha telefônica, até as mais complexas, de quebra de sigilo por ordem judicial e tudo mais. Aqui no jurídico, né? Que é comigo.

 

P/1 - Ah, perfeito. Nesse caso não entram mais no circuito esses escritórios terceirizados, ou entram?

 

R - Não, aí não entra. A questão dos ofícios é aqui, diretamente com a CTBC. O terceirizado é a defesa nos processos, defesa da CTBC ou a propositura das ações de cobrança da CTBC. O relacionamento judicial de ofícios não é com os terceirizados. Pelo menos aqui, na nossa região, não. Em outras regionais, sim; como Uberaba não tem o advogado interno, só tem o advogado terceirizado, então ele faz todo esse trabalho dentro do escritório dele. Aqui em Franca é uma particularidade.  

 

P/1 - Por que?

 

R - Tem o advogado interno (risos) e tem o advogado externo, que é o terceirizado. Olha, São Paulo tem uma outra realidade. A gente diz assim: “Nós somos todos uma empresa”, mas aqui se exige mais ter advogado interno e o advogado externo, devido a um grande volume de trabalho que tem e a particularidade de ser outro estado, de ser o Estado de São Paulo. A nossa área aqui são várias cidades a serem atendidas. A regional de Franca é uma regional grande. 

 

P/1 - Certo. O que... Seu cotidiano hoje, como é que ele se estrutura? Quer dizer, no seu dia a dia ainda sobra um tempo para lazer? A velha pergunta de sempre: você ainda tem como se dedicar a um outro tipo de atividade que não aquela unicamente identificado ao lado profissional? Como é o seu cotidiano hoje?

 

R - Hoje, eu tento me... Eu tento priorizar e deixar um espaço para lazer, sim. Agendar as questões, de forma que eu tenha um período para mim. 

Hoje eu já consigo fazer isso mais, porque à noite eu não tenho a faculdade. Às vezes, eu faço um curso, alguma coisa mais rápida. Durante a semana eu tenho um período de lazer, um outro dia para um estudo, para alguma coisa. No final de semana eu já não fico só mais para o estudo; eu procuro um pouco mais de diversão, um pouco mais de lazer, dessa forma.

P/1 - E a família, você casou-se, teve filhos?

 

R - Não. Não me casei, não tenho filhos. (risos) Moro apenas eu e minha mãe. Todos os meus irmãos se casaram, tenho muitos sobrinhos.

 

P/1 - Como é que você avalia... Enfim, com todo esse desenvolvimento e todo esse tempo que você tem de empresa e tantas coisas que você viu, tanto da área técnica, como da área jurídica, como é que você consegue enxergar o que vem pela frente? O que é que está desenhado no horizonte da CTBC, que futuro vem aí?

 

R - É... Você sabe que falar alguma coisa sobre isso pode ser até assim, para mim…. [Tenho] uma certa dificuldade até para estar falando sobre isso, mas é uma área que está avançando muito rapidamente. Ela é uma constante mutação, em desenvolvimento muito rápido e a gente deve sempre estar procurando se adequar a isso, buscando informações e buscando se aprimorar numa velocidade muito grande. 

Quando eu iniciei na CTBC, como eu disse para você, lá no atendimento no balcão…. Hoje, o cliente ele tem as informações via internet, ee não precisa vir mais no balcão. Ele tem um 0800 que resolve o problema dele. Ele tem um telefone virtual ou tem o celular, ele tem uma série de facilidades. E tantas outras que estão vindo aí, com muita velocidade e a gente tem que acompanhar isso . 

Eu vejo que é um futuro muito promissor, mas para quem busca por ele e que enxergue isto para o futuro para poder acompanhar. Se a pessoa não tiver essa visão, ela vai parar no tempo. E a CTBC precisa de pessoas que tenham uma visão de futuro porque é uma empresa de telecomunicações que está nessa fase imensa de... De mudanças, de alterações e crescimento. Precisa de pessoas que ajudem a CTBC ir à frente cada vez mais e tenha uma visão lá no futuro porque é um caminho sem volta. Não podemos voltar para trás. Nós temos que caminhar sempre à frente e ser pioneiros nisso, porque esse sempre foi o objetivo do seu Alexandrino Garcia - estar na frente. A gente tem estado a frente e não pode, em espécie alguma, pensar em retroceder ou parar no tempo. 

 

P/1 - Está certo. O que para sua área, especificamente, significa esse acirramento da concorrência, a próxima desregulamentação da telefonia fixa, por exemplo? Tem algum impacto...

 

R - Tem o impacto disso; é jurídico, é um impacto que... 

Primeira coisa que acontece: há uma desregulamentação? É jurídica; é um regulamento, uma legislação que vem para regulamentar aquilo, para estabelecer as normas sobre aquilo, então o advogado tem que estar muito atento. O advogado tem que estar por dentro do dia a dia e tem que estar acompanhando isso seguidamente -  e não é mais diário, isso é por hora, por minutos. Já deixou de ser aquele período que você buscava um conhecimento só em um livro que foi escrito por um autor [há] alguns anos. Não, você tem buscar um conhecimento hoje que é um jurista, que é um consultor da área atual, hoje, agora, para poder acompanhar isso. 

Hoje, a Anatel abre lá uma consulta pública sobre uma questão qualquer, você tem que estar atento àquilo. Quais o seus interesses como setor de telecomunicações para aquilo que está se fazendo, para [onde] estão caminhando as Telecomunicações. Isso é uma questão técnica e jurídica. 

 

P/1 - Como você tem feito, pessoalmente, para proceder a esse acompanhamento? Fica ligada nas jurisprudências, nos...

 

R - Sim, jurisprudência, pareceres, em comentários. 

 

P/1 - Mas, isso faz parte do seu dia a dia?

 

R - Faz parte do dia a dia.

 

P/1 - Tem uma hora que você vai consultar coisas?

 

R - Sim. A internet, um livro, uma consulta; é uma conversa com colega, um parecer de algum colega, uma sentença judicial.

 

P/1 - Quer dizer, especificamente nessa área, o segredo é o acompanhamento interno...

 

R – É, interno.

 

P/1 - Constante.

 

R - Constante. Tem que estar alerta para isto diariamente. (risos)

 

P/1 - Diuturnamente?

 

R - Diuturnamente. (risos) Sim, todos os dias tem uma portaria, tem um ato da Anatel, um regulamento. Tem um serviço novo surgindo, tem uma consulta pública, então você tem que estar seguidamente acompanhando isso. São as tendências do mercado, para onde caminham as telecomunicações para o futuro.

 

P/1 - E do ponto de vista técnico, que é aquela sua primeira vocação, você também tem essa preocupação de acompanhar o que está acontecendo?

 

R - Um pouco menos, porque já não me sobra muito tempo para isto. Bem menos, aliás eu posso dizer quase nada, porque agora a minha preocupação maior é com a área de Direito e dentro da área que eu estou atuando. É que envolve, inclusive, um pouco [de conhecimento] técnico, né? Dentro dos regulamentos, há a questão técnica do serviço. A gente tem que buscar um conhecimento jurídico técnico também. Mas não muito mais jurídico do que o técnico; se eu precisar de um parecer técnico, eu vou até os meus colegas e solicito. É mais [o aspecto] jurídico daquela questão que eu tenho que estar por dentro.

 

P/1 - O posicionamento das ações que você coordena, o posicionamento assumido é uma decisão sua ou uma decisão colegiada? Ou é uma decisão discutida com seus pares em Uberlândia, ou...

 

R - É colegiada, discutida. Eu não tomo uma decisão por vontade própria, é sempre levada ao coordenador, sempre levada ao jurídico em Uberlândia. É uma decisão em conjunto.

 

P/1 - Perfeito. Seu trabalho melhorou então, melhorou bastante?  

 

R - Melhorou bastante. Melhorou porque eu gosto muito do que eu faço. Eu sou apaixonada também pela área de Direito. (risos) Eu não imaginava que fosse assim. Eu gosto muito do trabalho que eu faço, gosto muito das pessoas [com] que eu trabalho na CTBC. Gosto demais imensamente da CTBC e do relacionamento que eu tenho. O relacionamento muito estreito com juízes, com promotores, com colegas de profissão, com delegados de polícia. 

Eu gosto muito disso. E a gente está sempre aprendendo coisas novas. Sempre trocando ideias, trocando experiências, isso é muito gratificante.

 

P/1 - Carmen, se você fosse conversar com uma pessoa que recém-admitida na CTBC, que começa trabalhar amanhã, o que você diria para ela? O que ela vai encontrar?

 

R - Quando vêm me apresentar uma pessoa… Às vezes passa assim, bem rapidamente, mas eu sempre olho para a pessoa e falo: “Olha, seja muito bem vindo, tá? Aqui nós somos uma família. E você vai gostar muito da CTBC.” Porque eu acho assim, todos... Não é que eu acho, eu tenho oportunidade de observar isto: todos que trabalham na CTBC se apaixonam pela CTBC. Hoje mesmo, eu estava conversando com a minha estagiária. Ela disse: “Poxa vida, eu não esperava que eu fosse gostar tanto da CTBC como eu gosto.” Eu falei: “Olha, não é só você, acho que todos que vêm para cá se apaixonam.” (risos) É muito bom fazer parte da CTBC, muito bom mesmo.

 

P/1 - Pois bem. Você tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e não disse, que a gente não lhe estimulou a dizer?

 

R - Ah, sim. Gostaria de dizer que eu tenho orgulho disso. Vocês não perguntaram: eu sou uma brasileira, quer dizer, eu sou uma ítalo-brasiliana. (risos) Eu tenho dupla cidadania. Isso foi um anseio meu, devido meus aos avós serem italianos. Eu requeri a minha cidadania italiana e foi concedida. No ano passado eu tive oportunidade de fazer uma viagem para a Itália e fui como uma cidadã italiana. Isto para mim foi um sonho, sonho mesmo, tá? De eu... Talvez, para algumas pessoas possa não significar nada, mas para mim foi uma gratificação muito grande porque eu pude ter a cidadania dos meus avós. E chegar lá na Itália como uma italiana, ser tratada como uma igual, como uma italiana. Isso a gente nota muito claramente. A diferenciação de quando você é um turista e quando você é um igual, né? É uma satisfação para mim; eu gostaria de falar, de registrar isso. (risos)

 

P/1 - Depois, cidadã de dois belos países.

 

R - Dois belos países. Países irmãos. (risos) 

 

P/1 - Ok, Carmen, muito obrigado por isso. Como é que você se sentiu dando esse depoimento? O que significou isso para você? 

 

R - Ah, sim, significou. Desde que a Norma ligou, dizendo que havia essa oportunidade de falar, eu já imaginei: “Como eu vou me sair, como é que eu vou falar? O que é que vai ser? Eu vou falar só do meu trabalho aqui. Isso vai ser uma coisa maçante. Não vai ser, né?” Depois, ela falou: “Não, fica tranquila. Vai ser bem dinâmico, coisa e tal.” 

Fiquei um pouco mais tranquila, mas eu gostei muito do convite. De que eu posso contribuir, de alguma forma, com o meu conhecimento, com a minha experiência para esse trabalho tão grande que vocês estão fazendo, que é de ter a memória da CTBC, de registrar isso. E é muito, é grande isto, de importância que eu não consigo nem passar. De saber que a gente, estando aqui, registrando pouca coisa…

É um universo tão grande, eu me sinto numa satisfação imensa de vocês verem em mim… A importância de estar registrando isso, para poder contribuir para esse trabalho. E tornar isso a história da CTBC, para que isso não venha a se perder com o tempo. Você pensou nisso, em registrar isso, em ter isso na CTBC. É muito importante.

 

P/1 - Você é importante.

 

R - (Risos) Obrigada, todos nós somos importantes. (risos)

 

P/1 - Ok, muitíssimo obrigado por essa sua conversa muito boa de ouvir. A gente aprende muito sempre com cada um que a gente entrevista. É muito bom isso, muito obrigado.

 

R - Obrigada a vocês. (risos) 

 

            

    

 

  





 

 

  

 

      

 

   

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