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História

Das duas uma: ou nós vamos pra rua ou vamos ser diretor deste banco

História de: Márcio Artur Laurelli Cypriano
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Infância em São Paulo, com família de várias descendências. Primeiro contato com mercado de trabalho aos 12 anos num escritório de advocacia. Após a perda do pai, aos 22 anos ingressa no ramo bancário no qual ficou conhecido. Torna-se conselheiro da Fundação, com atuação no desenvolvimento e divulgação dos projetos.

História completa

Projeto Fundação Bradesco Realização Museu da Pessoa Entrevista de Márcio Artur Laurelli Cypriano Entrevistado por Claudia Fonseca e Maria Lenir Osasco, 3 de fevereiro de 2006 Código: FB_HV047 Transcrito por: Susy Ramos Revisado por: Laís Moraes de Assis P/1 – Márcio, queria começar a nossa entrevista com você nos dizendo o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R – Márcio Artur Laurelli Cypriano, nasci em São Paulo, capital, no mesmo ano do Banco, em 1943. P/1 – Esse sobrenome é italiano? R – O Laurelli é italiano, tinha avós italianos, e o Cypriano é português com índio, tem um pouquinho de mistura brasileira no meio. P/1 – Que bacana! Você está falando dos avós, você conheceu seus avós? R – Eu conheci tanto por parte de mãe os dois e por parte de pai conheci só minha avó, que realmente era bem índia, tinha os traços bem fortes de índia mesmo. P/1 – De que localidade? Você chegou a saber? R – Não. Na verdade a família era de Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo, mas ela era descendente de indígenas, tinha feição muito forte. Tenho uma brasilidade muito forte no sangue. P/1 – Essa mistura com italiano deve ter sido muito interessante. R – Verdade! P/1 – E o nome dos seus pais? R – Meu pai é Raimundo Silvério Cypriano e minha mãe é _______ Laurelli Cypriano. P/1 – E o que eles faziam? R – Meu pai era policial, delegado de polícia, e minha mãe, prendas do lar. Tinha atividade no início, ela tinha uma empresa de confecção, empresa não, fazia confecção em casa com as irmãs, costurava pra fora. P/1 – E o seu pai, aqui em São Paulo ele era delegado? R – Meu pai trabalhava em São Paulo, ele era delegado aqui em São Paulo, teve uma morte por acidente em Londrina. Foi assassinado em Londrina aos 48 anos de idade, muito cedo realmente. Era uma pessoa, foi um choque muito forte porque eu não imaginava que ele corresse risco de vida como ele corria. Ele era muito sistemático e muito cauteloso, então jamais imaginei que ele pudesse ter tido, senão talvez tivesse tido outras opções. Como eu comecei a trabalhar muito cedo, talvez até tivesse pensado em fazer alguma coisa com ele se soubesse que teria, porque realmente com 48 anos, quando ele morreu eu tinha 22, era realmente bastante jovem. Foi um choque muito forte. P/1 – Imagino. Você tem irmãos? R – Eu tenho uma irmã. Uma irmã dois anos mais velha que eu. P/1 – E como era o cotidiano da sua casa? Vocês moraram sempre em São Paulo? R – Moramos sempre em São Paulo, uma vida normal, família de classe média-baixa. Moramos aqui no bairro da Liberdade, aliás, eu nasci a 50 metros da Praça da Sé porque naquela época se nascia em casa, era difícil nascer em maternidade. Nasci em casa, morava próximo da Praça da Sé, família normal, sempre com muita vontade de vencer, um sistema de criação e educação muito forte, meu pai era um sujeito extremamente amigo, mas extremamente enérgico e rígido também com a educação que ele proporcionava. Família com educação muito forte. Meu pai sempre fez muita questão que eu estudasse, inclusive me pagou os estudos até basicamente a morte dele. Eu, por outro lado, comecei a trabalhar muito cedo também. Com 12 anos já iniciei minha vida, comecei a trabalhar porque eu, na época, é interessante, eu via os amigos jogando futebol na rua durante o dia e eu achava que aquilo não era um negócio muito... Eu estudava de manhã e à tarde não tinha o que fazer, então resolvi trabalhar e eu fui – o meu pai não queria que eu trabalhasse porque queria sempre que eu estudasse, que eu concluísse os estudos - um dia eu saí da escola, eu estudava no Colégio Santo Agostinho, na Rua Vergueiro, e eu fui até a cidade que ele tinha um amigo que era advogado e tinha um escritório de advocacia. Eu, com 12 anos mais ou menos, fui para o escritório de advocacia e falei com o Doutor Sá que eu gostaria de trabalhar. Ele falou: “Teu pai sabe que você está aqui?” “Não, ele não sabe, mas eu vou falar quando chegar em casa, eu falo pra ele.” “Vai pra casa, depois a gente conversa”. Fui pra casa, quando eu cheguei em casa meu pai já estava sabendo que eu tinha estado lá: “Que história é essa?” “Eu acho que fico à tarde à toa, sem fazer nada, acho que eu posso começar a trabalhar.” “Você pode trabalhar se quiser, mas a única condição que eu quero é que você continue estudando.” “Tudo bem”. Continuei estudando de manhã, entrava no escritório de advocacia à 1 da tarde, saía às 5 e tinha lá o meu dinheirinho. Depois disso eu comecei a gostar do trabalho, comecei a verificar se eu trabalhasse o dia inteiro eu poderia ter outras alternativas. Comecei a procurar outras coisas. Com 14 anos eu fui trabalhar numa companhia de seguros, a Atlântica Companhia Nacional de Seguros que, por coincidência, hoje é Bradesco Seguros. A história tem uma ligação lá de trás: nasci no ano do Banco e fui trabalhar na Atlântica quando o Bradesco nem pensava em comprar talvez. Fui trabalhar nessa companhia de seguros, trabalhei lá uns dois anos mais ou menos, com 16 anos eu saí porque eu tive uma oportunidade para trabalhar numa gravadora de discos. Fui trabalhar em uma gravadora de discos que eu tinha um cunhado que já trabalhava nessa empresa e eles precisavam de alguém que eventualmente tomasse conta da contabilidade, coisa desse tipo. Comecei a me dar bem, fiquei lá uns quatro anos mais ou menos, fiz uma série de coisas nessa empresa, comecei controlando estoque de disco, depois passei a contabilidade, depois passei pro caixa, depois eu fui divulgador de disco, ia nas rádios apresentar. Naquela época tinha o programa do Valter Silva, Pica-Pau, não é do tempo de vocês. Rádio Bandeirantes... P/1 – Isso é o que? Isso é anos 1960. R – Anos 1960. 1959, 1960. P/1 – Que bacana fazer esse tipo de trabalho. R – Eu fui divulgar discos inclusive, aí apareceu uma proposta pra sair dessa gravadora. Eu fui vender máquinas de calcular. Fui vender máquinas calculadoras na Facit. Eu tinha um conhecido, uma vizinha que tinha um conhecido que era gerente de vendas da Facit, ele estava angariando jovens pra começar a trabalhar nessa empresa e eu fui trabalhar na Facit vendendo máquinas de calcular. Fiquei lá por volta de mais ou menos uns dois anos também, quando apareceu a oportunidade pra eu, interessante, eu sempre saí de um lugar e fui pra outro registrado sempre com antecedência, por exemplo, eu saía de um lugar no dia 10 de junho, no dia 1º de junho eu já estava registrado. Minha carteira de trabalho até tem alguns detalhes nesse sentido. P/1 – Você deve ter umas três carteiras de trabalho com essa atividade toda! R – Mas depois, eu tive mudança de emprego até determinado tempo, até entrar no Banco, depois eu parei. Está muito extenso? P/1 – Não, está ótimo, até vou querer voltar daqui a pouco, te fazer algumas perguntas. R – Então eu fui, saí da Facit e fui trabalhar na Trivelatto. Trivelatto era uma empresa que fabricava carrocerias de caminhões, caçambas pra transporte de terra e tanques combustíveis também pra gasolina, pra asfalto. Trabalhei nessa empresa porque o meu cunhado foi pra lá e ele realmente me chamou, eu saí da Facit e fui pra lá. Fiquei na Trivelatto aproximadamente um ano e meio. Nessa época eu tinha uma empresa, foi em 1963, lembro exatamente o ano, foi bem no início das operações do Finame, e tinha uma empresa que era minha cliente e eu tinha dificuldade em penetrar nessa empresa pela Trivelatto. Um dia eu entrei na firma, olhei, porta entreaberta e ele no telefone, o diretor da empresa no telefone, aí ele ficou me olhando, entrei na sala sem ser convidado porque, aí eu vi - tinha alfinetes que usavam antigamente pra pendurar o papel – eu fiquei de pé em frente à mesa dele porque ele estava ao telefone, eu vi num papel que estava escrito lá: “Comprar dez semi-reboques. Consultar Massari, Biseli e ____ Ralph”, e não estava a Trivelatto que era a empresa que eu trabalhava. Eu peguei, tirei o papel – ou vai ou racha – escrevi ali Trivelatto e coloquei o papel outra vez, ele no telefone. Às vezes a audácia é importante. Ele terminou a ligação: “Eu ia consultar vocês também, é que não tinha posto no papel, mas eu ia consultar”. Pela atitude de ousadia eu acabei ficando amigo dele, nessa época eu estava, dois anos depois eu entrei no Mackenzie, a filha dele estudava no Mackenzie, no fim quase que eu acabei casando com a filha dele. Ele queria que eu saísse com a filha pra jantar e tudo o mais, acho que ela não tinha companhias, mas o fato é que – voltando um pouquinho – a gente teve essa ligação e ele não ia comprar. Acabei vendendo pra ele os dez cavalos mecânicos que chamavam, que era uma adaptação, aquele onde vai engatada a carreta que vai no caminhão. Ele ia comprar 20 semi-reboques pro transporte de asfalto, era uma venda muito grande, mas ele não gostava da Trivelatto porque o equipamento da Trivelatto não servia pra ele, interessava pra ele a Massari. O que eu fiz? Eu me demiti da Trivelatto, fui trabalhar na Massari pra poder fazer a venda pra ele. Acabei fazendo a venda, eu disse, foi em 1963 porque foi o primeiro negócio grande que o Finame fez, financiamento de máquinas ________ foi naquela época. Isso foi em 1963. Acabei fazendo essa venda, teve uma comissão razoável, só que a Massari, o Tamiro Massari, que era o dono, era um “italianão”: “Você é solteiro, você não precisa de dinheiro”, enfim, não queria pagar porque eu era solteiro, não precisava de dinheiro. Saí da empresa e saí pegando caçambas basculantes como parte do pagamento da comissão, jipe da ________, quer dizer, peguei material que podia, vendi isso e apurei o recurso. Daí o que eu fiz? Da Massari eu fui, com o dinheiro que eu recebi, que eu vendi as coisas que eu tinha recebido, resolvi comprar uma lanchonete. Comprei uma lanchonete no bairro Pinheiros. Na Rua Fradique Coutinho tinham dois cinemas, Cine Jardim e Cine Fiametta, perto da Teodoro Sampaio, eu comprei uma lanchonete ali naquela época, já estava na faculdade inclusive. Tinha começado a fazer direito no Mackenzie. Peguei um sócio, aliás é interessante, a história do sócio, ele entra um pouquinho antes, ele entra na Massari. Houve uma época que a Massari resolveu fazer os vendedores trabalhando em grupo, sempre em dois, então os negócios que eram levantados antes ficavam fora se saísse, mas na hora de tirar o pedido, na hora de botar o nome do vendedor, eu botei Márcio/ Pascoal, que era o rapaz que trabalhava comigo. Ele ficou comigo quase dois, três meses trabalhando basicamente nesse negócio, tinha perdido tempo, era justo colocar o nome dele também, a comissão veio dividida. Aí vendemos essas coisas todas, comprei a lanchonete e ele foi meu sócio na lanchonete também. Fiquei na lanchonete por volta de uns dois anos mais ou menos, nessa época já fazia direito no Mackenzie e aí houve, meu pai teve a morte dele em 1967, fevereiro de 1967 meu pai faleceu. Mudou um pouco a coisa porque do dia pra noite eu tinha que ter uma coisa fixa, do dia pra noite eu tinha a responsabilidade da casa. Tinha minha irmã, tinha minha mãe, então eu precisava ter outras coisas que tivesse um emprego fixo porque a lanchonete tinha uma entrada de recurso, mas era muito pouco, era pra minha manutenção, não pra manter a casa. Nesse meio tempo o Pascoal, meu sócio, que eu botei o nome dele, eu percebi que ele começou a me roubar. Eu ficava durante o dia na lanchonete, estudava à noite; ele ficava à noite, no dia seguinte ele fazia as contas, deixava no pacotinho, na gaveta, pra eu pegar o dinheiro e ir pro banco. Eu comecei a achar que estava muito pouco o movimento, tinha caído muito, aí comecei a controlar, fazer algum controle. Eu comprava as bebidas, comprava o pão pro movimento do dia, hot-dog e hambúrguer, e eu pedi que o empregado começasse a deixar do lado as garrafas que tinham sido vendidas de bebidas no dia anterior. Eu comprava o pão, no dia seguinte olhava quantos pães sobraram e sabia quantos tinham saído, conta bem de português. As bebidas, era fácil também saber quantas tinham saído, fazia o cálculo e ali tinha fatalmente uma diferença muito grande. Além de eu ter dado metade da comissão pra ele ainda fui roubado depois, mas quando eu percebi falei: “Pascoal, não está dando certo, acho que nós vamos colocar a casa à venda, você fica”. Ele começou a reclamar também porque eu só trabalhava durante o dia, mas era um compromisso que a gente tinha assumido antes porque eu estudava à noite, realmente não podia. E toda a turma da faculdade freqüentava a lanchonete, fim de semana. Resolvi sair quando meu pai morreu. O Manoel Raposo, que era um colega meu de faculdade, ele era gerente administrativo do Banco da Bahia, e ele soube que eu tinha perdido meu pai, falou: “E você vai fazer o que?” “Tem a lanchonete, mas vou procurar uma coisa mais fixa.” “Se você quiser, dá um pulo no Banco, faz um teste e quem sabe dá certo”. Antes disso, quando eu tinha as despesas de casa pra pagar e tudo o mais, minha mãe estava em uma situação muito apertada, aí eu fui trabalhar em uma imobiliária, Imobiliária Natal, na Brigadeiro Luiz Antônio. Fiquei lá um mês, consegui vender uma casa e deu o dinheiro pra pagar as contas todas de casa, porque a pensão dela atrasou muito, demorou muito pra receber, deu pra pagar todas as contas de casa, sobrou um dinheirinho ainda pra família e eu tive essa oferta do Manoel Raposo, fui conversar com ele no Banco da Bahia e deu certo. Eu já tinha um outro colega de faculdade, um japonês, que ele era auxiliar de gerência do Banco, estava se dando bem, eu achei que eu podia me dar bem também. Eu fui pro Banco meio provisório, isso foi em 1968, em 1968 entrei no Banco da Bahia. Comecei como auxiliar de gerência, comecei a me empenhar, desempenhar um pouco mais, dei sorte que eu fui pra uma agência depois como auxiliar de gerência, uma agência na Augusta que tinha um gerente que era muito parado, devagar, então eu via que eu tinha oportunidades ali, alguém tinha que tocar a agência. Eu então me desempenhei bastante e toquei a agência. Esse senhor era basicamente muito amigo do Alan (Moreau?), Alan (Moreau?) era genro do Clemente Mariani, que foi ministro na época do governo do Jânio, acho que foi do Jânio, não lembro. Eu vi que tinha oportunidade no Banco, comecei a me desempenhar e esse rapaz era muito amigo do Alan (Moreau?), por isso que seguravam um pouco, ele foi assessor da diretoria, então ele tinha uma certa regalia em termos de trabalho, mas pra mim foi muito bom porque eu fui me adaptando, me desenvolvendo no Banco, vi oportunidade e comecei a crescer um pouco mais até o ponto de ser promovido a sub-gerente e depois eu fui promovido a gerente adjunto na própria agência. P/1 – Márcio, só queria voltar um pouquinho. Essa tua trajetória em bancos é extremamente importante pra gente, mas eu queria voltar um pouquinho, vê se você lembra o que com 12 anos você fez com seu primeiro salário. Será que você lembra? R – Foi coisa pra comprar figurinha, gasto assim. P/1 – O que você fazia nesse escritório? R – Eu era office-boy. P/1 – Mas o que você fazia? R – Ia no fórum, ia buscar café pro chefe, ia no fórum, ele me dava os papéis pra ir lá buscar, entregava petição, coisa assim, bem simples. Limpava o escritório também, tirava o pó, coisa assim, muito simples. P/1 – Eu queria que você dissesse pra gente, a lanchonete acho que você não disse o nome dela. R – Era (Pops?). P/1 – Era ali em Pinheiros. Você lembra como era Pinheiros nessa época? Nessa região que você falou: Fradique, Teodoro. R – Lembro, só não lembro se tinha bonde ali, passava bonde na Teodoro Sampaio ainda, mas eu lembro, não mudou muito a região. Era uma região de comércio forte, região que tem um comércio bastante forte, claro que tinha muito menos trânsito, o trânsito era mais tranqüilo, não mudou muita coisa não. Inclusive um dia eu passei lá porque um dos dois cinemas, hoje é uma agência do Bradesco, e eu passei lá até e lembrei, fui olhar o lugar onde tinha sido a lanchonete, hoje é uma casa de queijo, coisa desse tipo. E era um negócio, tinha dois andares, 40 mesas, o bar tinha balcão ferradura. Era algo relativamente grande e hoje é uma empresa distribuidora de queijo, coisa desse tipo. Mas o bairro de Pinheiros não mudou muito, o trânsito só que era mais tranqüilo. P/1 – Você falou de bonde, você andava de bonde então? R – Andava quando estudava no Santo Agostinho. P/1 – Todo o teu ensino foi lá? R – Eu fiz no Santo Agostinho, depois eu fui para o Colégio Paulistano, fiz o ginásio no Paulistano, depois eu fiz contabilidade no liceu Siqueira Campos, no Cambuci. Pegava bonde no Cambuci como pegava bonde também para o Santo Agostinho. P/1 – E você lembra a matéria que você mais gostava de criança? Não digo na contabilidade porque aí já é uma opção, mas quando criança você gostava já de matemática ou de alguma outra disciplina? R – Não, não tinha assim que eu me lembre nada de especial. Eu gostava um pouco de ciências porque eu tinha uma professora – aliás, é interessante –, eu nadava muito naquela época então tinha um porte físico mais atlético do que hoje, não tinha barriga, então na hora de fazer a aula de ciências ela me chamava na frete da classe, mandava abrir a camisa para então explicar ao pessoal como era. P/2 – Modelo [risos]! R – Servia de modelo. Isso eu me lembro, mas não lembro o nome dela. P/1 – Foi talvez a professora que mais te marcou ou teve algum outro? R – Não. A que mais me marcou foi uma professora do primário, Dona Leda, essa eu lembro bem o nome dela. Fiz o primário no externato Santo Antônio, na Rua Conselheiro Furtado, ali na Liberdade, e essa eu me lembro bem porque foi minha primeira professora. Foram duas: Dona Maria e Dona Leda, lembro bem delas. Eu estou falando coisa de 54 anos atrás. P/1 – A Liberdade, inclusive, devia ser um bairro super gostoso. R – Ótimo! Por isso que a colônia japonesa começou a mudar pra lá, ainda não tinha. P/1 – Você acompanhou isso? R – Acompanhei. Tinha o Cine Niterói, tinha um hotel e um cinema que logo que os japoneses vieram pra cá fizeram um cinema ali e o dono do cinema, o filho do dono do cinema era meu amigo de brincar e tudo o mais. A gente ia no cinema de graça, assistia filme japonês, eu tive muita convivência com a colônia japonesa na época. P/1 – Não teve nenhum impacto a chegada deles? R – Não, não teve. Era um pessoal bom. Inclusive minha mãe tinha um afilhado japonês que era de um vizinho ali. A gente sempre teve um relacionamento muito bom com esse pessoal, com a colônia japonesa. P/1 – E você resolveu fazer contabilidade por sua conta ou alguém te influenciou? R – Eu fiz contabilidade por minha conta, não sei por quê. Na verdade, não sei por que fiz contabilidade, mas achei que na época era mais propício. Depois da contabilidade, terminei, concluí, aí eu fui pro Mackenzie, fiz direito no Mackenzie. P/1 – Isso também eu ia te perguntar. Por que você resolveu? R – Por causa do meu pai. Meu pai achava que eu devia ser um advogado, talvez tivesse facilidade, então basicamente foi porque ele, não insistiu, mas fez uma recomendação que eu acabei acatando. Mas não cheguei a exercer. Fiquei em um escritório de uns amigos que eram mais velhos, por uns dois ou três meses mais ou menos, depois achei que ia tomar muito tempo porque eu estava no Banco já. Saía do Banco às 6 horas da tarde, ia pro escritório, ficava até umas 8, 8 e meia mais ou menos fazendo petições para não perder, para pegar a prática, depois achei que ficava difícil, o Banco começou a me absorver mais e acabei deixando. Então eu sou bacharel de formação e bancário de profissão. P/1 – E o Mackenzie, como era na época que você entrou lá? Em que ano? R – Eu entrei em 1968 no Mackenzie. Não, entrei no Mackenzie em 1966, quando o meu pai morreu eu já estava fazendo faculdade. Entrei em 1966 e saí em 1970, eu sou da turma centenária do Mackenzie. O Mackenzie era uma faculdade muito boa, a gente teve ali boas passagens também no Mackenzie, tínhamos uma turma muito unida. Nessa época eu tinha a lanchonete, tinha o pessoal todo da faculdade que frequentava a lanchonete, conheci minha esposa também, por intermédio do grupo do Mackenzie conheci umas garotas que moravam em Perdizes, acabou indo todo mundo, acabou namorando uma porção deles, casaram quase todos com as moças. Era um pensionato que elas moravam, casou quase todo mundo. O Mackenzie era uma faculdade muito boa, eu me adaptei muito bem lá também. P/1 – Você pegou essa época de regime militar, de repressão. R – Peguei a época do ______, da briga do Mackenzie Filosofia, toda aquela confusão, bomba molotov caindo lá de cima, pessoal da filosofia, peguei essa época toda. P/1 - Você se envolveu nessas manifestações? R – Não, diretamente não. Acabava envolvendo indiretamente porque ia pra faculdade, não tinha aula, ficava todo mundo conversando ali, vendo a confusão, acabava participando sem ter atuação. Tinha o pessoal do CCC[“Comando de Caça aos Comunistas”] que era o pessoal do Mackenzie, que era uma briga forte Mackenzie Filosofia, eu nunca me envolvi. Nessa época eu já era casado também, foi em 1969, já tinha casado. P/1 – Você casou jovem! R – Casei com 23 para 24 anos. P/1 – Você disse que quase casou com a filha do... R – Não, ele queria que eu casasse. P/1 – Ele queria, você não quis? R – A gente saiu pra jantar algumas vezes, mas não teve nada assim mais sério. P/1 – Que interessante! A sua esposa, como chama? R – Vera Lúcia. P/1 – A Vera você conheceu nessa convivência? R – Foi com o pessoal, a turma do Mackenzie que a gente se conheceu. P/1 – Então vocês namoraram muito pouco? R – Um ano e dois meses. P/1 – Amor à primeira vista! R – Foi pouco tempo, foi realmente pouco tempo. P/2 – O que vocês faziam nessa época pra se divertir? R – Bom, na verdade eu só saía nas segundas-feiras à noite, que a gente saía. Por que a gente saía só segunda-feira? Ah, porque era o dia que tinha menos aula na faculdade, então a gente saía mais cedo. Ia pra faculdade, saía por volta das 9 e meia, mais ou menos, a gente saía pra jantar. Naquela época era _________, uma boate que a gente ia, chegava mais tarde em casa porque segunda-feira era o dia que a gente fazia isso. O resto o que era? Clube, eu freqüentei uma época o Tietê, eu jogava pólo aquático no Tietê, inclusive. Isso um pouco antes de casar. Fazia natação, nadava pelo Tietê também, o resto era barzinho, pessoal da faculdade, nada de muito especial. P/1 – E essa sua turma? Vocês se falam até hoje? R – Alguns. Alguns ainda encontro sempre. O ______, Luís Carlos Ribeiro dos Santos que se formou comigo, tem o Luiz Schmitt, que é advogado do Faustão, então a gente de vez em quando vai comer pizza lá na casa dele, então encontra essa turma, uns três ou quatro ali que eram da faculdade. Tem alguns, meia dúzia mais ou menos, quando fizemos 35 anos de formados houve um jantar, encontramos uns 40, 50 da classe, aí você começa a olhar: “Nossa, será que também estou desse jeito?” [risos]. Ver a turma toda velha, “Será que estou assim também? Os outros estão me vendo assim?”, as mulheres principalmente porque dizem que as mulheres envelhecem mais que os homens. Mas com 35 anos a gente encontrou o pessoal, fizeram um jantar e eu participei também. P/1 – Que bacana! Queria agora ir de novo pra essa agência da Augusta. Que o sistema bancário mudou todo mundo sabe, não precisa nem... Mas a tua atividade lá, você falou: “Desenvolvi..” tal, mas como foi? Por que pra você era uma novidade trabalhar em banco, né? R – Era. Eu conhecia banco do balcão pra fora. Do balcão pra dentro eu não conhecia, mas banco, acho que é tudo bom senso na vida, você tem que ter bom senso em tudo o que faz e, claro, procurar conhecer também. Eu comecei, como esse que era o Péricles Cardoso, o gerente, ele realmente ficava muito parado, ele subia pra uma sala que tinha no primeiro andar, ficava estudando, ele largava a agência na minha mão, até porque ele teve confiança também. Foi meu padrinho de casamento, inclusive, então acho que ele tinha confiança porque senão não largaria a agência na minha mão. E foi a questão do dia-a-dia, atendendo cliente, desenvolvendo, olhando as coisas, procurando conhecer um pouco, tinha feito contabilidade, já era uma facilidade que eu tinha também pra ver a parte de retaguarda do Banco, sempre tive muita facilidade de relacionamento, sempre me relacionei muito bem com as pessoas, isso tudo foi trazendo clientes pro Banco e eu fui crescendo. P/1 – O banco não tinha nessa época essa quantidade de produtos que tem hoje. R – Não, não tem. Era conta corrente, ainda naquela época das cartelas, que botava a cartela e escrevia tudo à mão, era um negócio muito, cada cliente tinha uma cartela. P/1 – Tinha uma carteirinha, né? Um plastiquinho... R – Aí foi depois, já tinha extrato. Mandaram aquela máquina enorme que fazia extrato lá, mas foi um pouco depois, essa época não peguei. P/1 – Tinha conta corrente, poupança já existia? R – A poupança não, não existia. Na verdade era só empréstimo, basicamente só empréstimo, desconto de duplicatas principalmente. O Banco da Bahia não tinha realmente muitos produtos. Já quando eu vim pro Bradesco, aí sim, começou a cartão de crédito, tinha mais produtos. P/1 – Era uma agência que tinha na Augusta. Ele tinha outras agências? R – Tinha. O Banco da Bahia era um banco grande, ele tinha 250 agências no Brasil todo, mais ou menos. Era um Banco antigo, fundado em 1858, e em 1973 o Bradesco comprou. P/1 – Aí você automaticamente passa a ser funcionário do Bradesco? R – Isso, aí eu vim para o Bradesco, exatamente. P/1 – Teve alguma coisa na época da incorporação, o pessoal comentava: “O Bradesco vai comprar?” Vocês sabiam com antecedência ou não? R – Não. A gente ficou sabendo basicamente quando o negócio já estava quase fechado e que o diretor Luiz Antônio Alves de Oliveira, o Pingo, ele era diretor do Banco da Bahia e ele chamou a gerência daquela região e foi fazer uma reunião conosco, na própria Augusta, dizendo que o Banco estava sendo vendido. Naquela época houve inclusive um ponto interessante porque existia uma disputa entre o Banco da Bahia e o Banco Econômico da Bahia, que era da família do ngelo Calmon de Sá, que acabou quebrando, hoje é Bradesco. O Excel comprou, depois o Bilbao comprou o Excel e a gente acabou comprando o Bilbao, então hoje basicamente o Econômico também é Bradesco. Mas tinha uma briga muito forte por causa das duas famílias, do Mariani e a família do ngelo Calmon, então eles saíram comprando as ações porque o Banco da Bahia tinha uma família chamada Magalhães que tinha uma posição muito forte de ações do Banco, então eles faziam empréstimo em outros bancos dando essas ações de garantia e na hora de pagar era um problema porque eles tinham dificuldade pra pagar. Quando eles fizeram a operação no Banco Econômico da Bahia deram as ações do Banco da Bahia em garantia e, na hora de pagar, o Econômico não quis nem receber, ele queria ficar com as ações do Banco porque eles poderiam assumir o controle acionário com a posição que eles tinham. E eles conseguiram realmente uma posição muito grande e começou aquela briga pra poder tentar comprar o controle, a família Mariani comprando ações de funcionário, ação de todo mundo. Chegou uma hora que eu acho que acabou o fôlego, aí eles vieram procurar o senhor Amador Aguiar: “Não quero entregar o Banco pro Econômico, eu vendo pro Bradesco”, aí vendeu pro Bradesco. P/1 – Que interessante! Se bem que Bradesco, isso nós estamos falando de 1973, né? R – 1973. P/1 – Bradesco, naquela época não era, evidentemente, o que é hoje. R – Não, o Bradesco devia ter mais ou menos, em rede de agências, umas 500 agências mais ou menos. P/1 – Então, quase 50% com essa compra, se eles tinham 200... R – É, uma compra grande, tanto é que deu uma alavancada muito forte no Bradesco em duas áreas: área de câmbio principalmente porque a área de câmbio do Banco da Bahia era muito forte, tinha uma expertise grande, o próprio Fernão _____ que era o diretor de câmbio na época do câmbio do Banco da Bahia, e ele tinha essa posição de câmbio boa, e uma rede muito forte no nordeste também, então o Bradesco ficou com uma rede enorme na Bahia, Recife, todo o nordeste ele tinha uma posição forte, o Banco da Bahia. E deu um impulso grande também, era um Banco muito certinho, o problema era acionário, não tinha problema de má gestão, a gestão realmente muito competente. P/1 – Qual foi o impacto pra você? Você se lembra que tipo de reflexão... R – Ah, lembro muito, lembro porque eu tinha recém comprado um apartamento e o banco foi vendido em 1973. Eu estava com dívida porque a gente comprou um apartamento, até porque minha mulher trabalhava também, então compramos o apartamento com uma prestação que comprometia todo o meu salário. A gente vivia basicamente do que ela ganhava, ela mantinha a casa e eu pagava a prestação. De repente, compram o Banco e eu com um monte de prestação pela frente ainda, preocupado que pudesse ter alguma dificuldade. Mas é o que eu digo de vez em quando, a gente podia ter dor de cabeça, mas não podia comprar o remédio porque não tinha dinheiro pra comprar o remédio, era tudo justinho. Isso em 1973, eu tinha casado em 1868, então tinha cinco anos basicamente de casado, aí conseguimos pagar, eu vi que o Bradesco era um banco que dava oportunidade realmente, quer dizer, carreira fechada. Eu me lembro muito bem que eu tinha, já contei uma outra vez em uma entrevista logo que eu assumi a presidência, que tinha um subgerente meu, Cláudio Campos, que ele, eu falei: “Olha, estamos vendidos, não tem jeito. De duas, uma: ou a gente vai pra rua ou nós vamos ser diretor desse banco!”, isso foi o que eu falei pra ele. Infelizmente ele foi pra rua. Ele foi pro Rio, depois andou cometendo algumas imprudências e acabou saindo do Banco, mas eu fiquei e acabei virando diretor, nunca imaginava chegar à presidência do Banco, mas as coisas tomaram outro rumo. P/1 – Você foi, pelo que a gente tem aqui levantado, 11 anos depois você já era diretor de departamento, né? R – 11 anos? Deixa ver... P/1 – Janeiro de 1984, eleito diretor de departamento, era uma eleição? R – É, na Assembléia, eleição na Assembléia. Na Assembléia que nós todos somos reeleitos a cada ano, o mandato do Banco é por um ano, então todo ano, dia 10 de março ou próximo a 10 de março, nós temos Assembléia que é eleita a nova diretoria. P/1 – Nesse período você chegou a conhecer o senhor Amador Aguiar? R – Depois que eu fui diretor? P/1 – Sim. Porque acho que até então não. R – Não, não, conhecia. Conhecia. P/1 – Havia contato? R – Tinha contato. P/1 – Você lembra a primeira vez que o encontrou? R – Eu era subgerente da agência Nova Central e o senhor Aguiar ia de vez em quando lá. Eu me lembro que a Nova Central, na Avenida Ipiranga, uma agência que tinha duas rampas muito grandes sem carpete, e eu me lembro que o senhor Aguiar usava sapato que tinha na ponta, na ponta tinha uma chapinha de metal, aqui assim na ponta. Então ele descendo a rampa ia fazendo o barulhinho, eu me lembro muito bem dele. Sem meia. A Nova Central era a primeira agência do Banco, então era uma agência muito visitada por diretores, o próprio senhor Aguiar ia também. Isso como subgerente. Depois que eu vim pra cá eu tive a oportunidade de trabalhar junto com ele, na mesma sala com ele, aliás, eu ficava de costas pra ele, então tive um bom contato com ele. P/1 – Como ele era como pessoa? R – Ele era uma pessoa de pouca fala, falava muito pouco, refletia muito. Numa reunião onde ele estava, ele colocava o assunto, nós estávamos falando, ele falava, ficava todo mundo quieto, ninguém falava mais nada, você não ouvia uma mosca passar, quer dizer, silêncio total. Mas ele era uma pessoa que tinha um raciocínio muito lógico. Me lembro bem que ele tinha o raciocínio bastante lógico e... Na verdade eu ouvia muito pouco o Seu Aguiar porque ele não falava muito, ele realmente falava muito pouco. Eu tive um problema com o Seu Aguiar que eu não sei nem se vale a pena te falar isso. Tive uma briga, não, ele teve uma briga comigo que eu não sei como não perdi o emprego [risos]. R – Talvez a gente possa contar. Foi um fato pitoresco que aconteceu que a diretoria, os mais antigos todos acompanharam. Na verdade, existia um documento, foi criado o Doc, que é um documento de transferência que existe até hoje, e esse Doc era um documento fragilizado: você podia transferir recursos de um banco pro outro sem as devidas seguranças. Quando o Banco Central criou esse documento, o Seu Aguiar foi contra, foi frontalmente contra porque ele achava que era um documento frágil e fragilidade no sistema ia trazer problema. [pausa] R – O Banco Central lançou o Doc e o Seu Aguiar foi muito contra, ele era contra o documento. Um dia, eu estava ainda na gerência geral, já era diretor departamental, quando eu subi, entrei na diretoria, no quarto andar, aliás, a diretoria era no quinto andar e a gerência geral era no quarto, um andar aqui em cima. Aí o Seu Aguiar estava conversando com o Seu Brandão, quando eu entrei o Seu Brandão falou: “Olha, o Márcio é a favor do Doc.”, porque eu cuidava da rede de agências. O Seu Aguiar falou: “Você é a favor do Doc?”, eu falei: “Não, eu não sou a favor do Doc, eu acho que a gente pra terminar com isso tem que terminar o sistema todo. Não pode o Bradesco sozinho iniciar um movimento pra acabar, não fazer pra clientes porque como vai transferir recursos de uma multinacional, uma GM, uma Ford? E nós não fazemos isso.”. Aí ele falou: “Não, isso é um documento muito frágil, eu vou acabar com isso.”, aí eu fiquei quieto, percebi que o clima não era pra falar e fiquei quieto. Naquela época nós fazíamos reuniões com todos os gerentes do Brasil, aliás, fazemos até hoje, mas naquela época eram 23 ou 24 diretorias regionais que nós tínhamos no Brasil todo e saía uma caravana: saía o Seu Brandão, que já era o presidente executivo, o Trabuco que hoje é presidente da seguradora, era o diretor do marketing do banco, trabalhava aqui, eu, pela gerência geral que tinha a rede de agência, o diretor executivo da área e sempre levava outro diretor de RH, coisa desse tipo. Caravana de cinco ou seis mais ou menos. Um dia, o senhor Brandão... O Braga era o presidente do conselho, e ele então, acho que o senhor Brandão quis mostrar o que nós íamos fazer, chamou a mim e ao Trabuco e falou: “Vocês preparam um roteiro da nossa viagem mais ou menos, cita os assuntos que a gente vai falar..” Aí preparamos e fomos apresentar na Diretoria porque como diretor departamental nós não participamos das reuniões do executivo, então ele chamou pra gente fazer a apresentação. Fizemos uma pauta do que a gente ia fazer e dos assuntos: segunda-feira de manhã: reunião em Manaus às 10h; segunda-feira à tarde: reunião em Belém do Pará... Vai pra Salvador, faz a reunião em Salvador, depois em Fortaleza, enfim, todo o roteiro da viagem a gente fazia. Os assuntos que vão ser tratados: esse, esse... Aí o Seu Aguiar falou assim: “Se for pra falar sobre Doc, eu sou contra a reunião.”, silêncio total. Ele me marcou, ele me marcou por causa do Doc: “Se for pra falar sobre o Doc, eu sou contra a reunião”. Um fazia assim, o outro fazia assim, eu me encolhendo na cadeira, fiquei quieto, não falei nada, aí ele falou: “Porque o Doc é um instrumento frágil, porque o Doc vai dar prejuízo pro Banco, porque o Doc...”, falou um tempão. Ficou uma reunião, parecia um velório, ninguém falava nada. Aí tudo bem. Terminou a reunião, a gente saiu, e eu fiquei marcado. O _____ que era um outro vice-presidente nosso, me chamou, falou: “Márcio, dá uma sumida por enquanto porque o Seu Aguiar te marcou, então procura não aparecer aqui na Diretoria” “Já percebi”, aí eu acabei ficando meio de fora por um período. Mas o Braga, nessa época o Braga estava constantemente com o Seu Aguiar, então quando me via: “Ô Grandão do Doc!”, me chamava de Grandão do Doc [risos]. R – Acabei virando o Grandão do Doc. Um dia, _______ Seu Aguiar e o Seu Braga: “Ô chefe, olha o Grandão do Doc aí!” No fim eu acabei capitalizando, entendeu? Foi um negócio diferente que aconteceu, eu não sei como ele não me botou na rua quando eu fui defender o maldito Doc, porque na verdade não podia acabar só o Bradesco, tinha que ser um movimento de todo o sistema e não só do Banco. Então eu escapei por muito pouco de não ter sido posto na rua. Quem me ajudou no fim a capitalizar isso foi o próprio Braga. Eu não sei se vocês vão ouvir o Braga ou não. P/1 – Já ouvimos. R – Ele vai, se falar do Grandão do Doc, ele vai... P/1 – Ah, que pena, senão a gente já podia ter feito a referência. R – Aliás, inclusive, a seguradora era dele, que eu trabalhei, a Atlântica, que é a Nacional de Seguros, era a seguradora dele que depois virou Bradesco. Eu capitalizei muito com o Braga porque ele, aquele “jeitão” todo “gozadão” dele: “Ô chefe, olha o Grandão do Doc aí!”, e eu louco pra me esconder e ele lembrava toda hora. Isso foi uma marcação que eu tive com o Seu Aguiar que me marcou realmente muito. P/1 – Márcio, você tem uma trajetória super interessante, é uma pena que a gente tenha ____ mais reduzido, mas eu acho que não falta oportunidade uma hora da gente completar com você. R – Ainda tem tempo. P/1 – Ainda temos, mas agora eu queria entrar um pouco na questão da Fundação Bradesco e vamos separar mais ou menos. R – Do Banco você vai voltar depois? P/1 – Não, eventualmente a gente pode até voltar porque eu quero até saber quando você se torna presidente. R – Você tem mais ou menos as datas. P/1 – Eu tenho, mas é que é diferente você contando. Eu quero voltar depois porque você assume a presidência... R – Tem até um ponto interessante, quando o Bradesco comprou, eu contei uma vez, sempre que faz um relato sobre a minha trajetória no Banco, até comentam isso, quando eu entrei, perfil, tal. Quando o Bradesco comprou o Banco da Bahia, em 1973, a minha agência foi a primeira a ser fechada porque ela era ao lado da Nova Central, na Avenida Ipiranga, e a Nova Central era a primeira agência do Banco, e eu era gerente daquela agência. Eu fui inaugurar a agência Maria Antônia, do lado do Mackenzie, coincidentemente do lado do Mackenzie. Eu fui inaugurar a agência e, no domingo, me entregaram a agência, domingo à tarde passei lá pra olhar, a agência imunda! Serragem pra todo lado, carpete sujo, resto de montagem da marcenaria, tudo sujo. “Como vou inaugurar esse troço amanhã cedo? A agência inaugura amanhã desse jeito?”, o que eu fiz? Peguei o Cláudio, que era esse meu contador, peguei minha mulher, a mulher dele, peguei duas caixas e fomos pra lá limpar a agência. Passar aspirador, varrer, lavar a calçada, tal, calça arregaçada até aqui e lavando a agência. Passou um senhor que olhou, falou: “Pôxa, vai ser um banco aqui, muito bom porque aqui não tem banco nenhum... Amanhã venho aqui abrir uma conta. O senhor sabe quem vai ser o gerente?” “Sei, sim senhor.” “Quem é?” “Eu.” “Eu não acredito, você? Eu sou juiz de direito, eu estou fazendo um livro, eu um dia quero botar no meu livro que eu vi um gerente de banco lavando a calçada de agência”. É um negócio realmente que aí o pessoal pergunta: “Mas por que você fez isso?” “Porque acho que está no ritmo da gente. Acho que você tem que procurar fazer bem feito tudo aquilo que você faz. Se eu fosse vendedor de disco como eu fui, eu procurei fazer o melhor na época. Qualquer coisa que a gente vai fazer, tem que fazer a coisa com vontade. Por isso que é bom fazer aquilo que gosta de fazer, porque se não gosta realmente é difícil você ter empatia com a coisa.”. Eu tinha um mês ou 15 dias de Bradesco, nem sabia se ia ficar no Banco ou não, então esse foi um ponto que eu achei também interessante. P/1 – Sem dúvida! Você chega a presidente em...? R – 1999, março de 1999. P/1 – Março de 1999. Também era uma questão de eleição, você substituiu o Braga? R – Não, Seu Brandão. P/1 – Ah, Seu Brandão, lógico! R – Seu Brandão, ele acumulava... P/1 – Quando ele vai pro conselho. R – Ele acumulava a presidência do conselho e da diretoria executiva. Antes disso, em 1997 nós compramos o BCN [Banco Caboverdiano de Negócios] e aí o Seu Brandão pediu que eu fosse pra lá assumir a presidência. Eu assumi a presidência um ano e pouquinho lá e depois em março de 99 eu vim pra cá, escolhido por ele. P/1 – Que recomendação ele te fez, além das coisas normais? R – Na realidade ele mais recomendou a minha mulher, não tanto a mim. P/1 – É mesmo [risos]? P/1 – O que ele disse pra ela? R – Ele um dia ligou pra ela, quando foi pra parabenizar tal, ele falou: “Você procure deixar o Márcio o mais livre possível”, como quem diz: “Não traga problema pra ele porque ele vai ter muito aqui”, então basicamente foi isso: “Procure dar apoio, é uma vida difícil, ele vai ter que abrir mão de uma série de coisas, então procure deixar ele...”, mais ou menos isso que ela me contou que ele falou pra ela. P/1 – Legal! Márcio, a sua relação com a Fundação Bradesco? Porque você, diretor-gerente, é isso? É um cargo? R – Não, eu sou do conselho da Fundação. P/1 – Do conselho? R – Na Fundação, na verdade, não tenho nenhuma atividade a não ser ser do conselho, como todo o conselho nosso é do conselho da Fundação. P/1 – É uma questão de praxe? R – É. Mas eu nunca tive nenhuma função na Fundação. P/1 – Mas você conheceu, evidentemente, a Fundação. R – Ah, sim, conheço várias escolas. Eu viajava muito, como diretor-gerente eu viajava muito e todas as capitais que eu ia onde tinha Fundação, eu sempre, era hábito o diretor visitar também, como é até hoje, visitar a Fundação Bradesco também. Então eu conheço várias escolas, conheço Bodoquena, conheço Marília, conheço Fortaleza, conheço Bahia, conheço Rio, conheço várias escolas da Fundação, Itajubá, ______. P/1 – Isso é uma tradição ou é uma coisa, porque me parece que há um relacionamento tão bom entre a Fundação e o Banco. R – Tem. É que antigamente os diretores e gerentes viajavam, passavam uma semana aqui e uma semana fora visitando agências e mantendo contato com os gerentes. Toda viagem que você fazia, onde tinha Fundação, a gente, não só eu como todos, era hábito fazer uma visita à Fundação também. P/1 – Mas me parece que mais do que essa tradição ou hábito, é mesmo uma coisa de um bom relacionamento. R – Ah, sim, relacionamento. P/1 – Porque a Fundação e o Banco, eles têm, não têm, Márcio, uma ligação muito forte? Não é só questão do nome ou de fundador. R – Não, não, na verdade a Fundação é o lado social do Banco. O lado social do Bradesco é a Fundação, então a gente tem realmente uma relação muito próxima, os gerentes também são orientados pra ter relacionamento, admitimos os melhores alunos da Fundação, enfim, relação... Em qualquer cidade que você for que tenha Fundação, a relação do gerente da praça com a Fundação é muito boa. P/1 – Existe essa recomendação de selecionar os alunos da Fundação? R – Ah, sim! P/1 – Em todos os lugares? R – Em todos os lugares, tendo ou não tendo vaga, os três melhores alunos de cada turma são admitidos no Banco, tendo ou não tendo vaga. P/1 – Olha, que interessante! R – Isso a gente faz porque é um nível de qualidade muito bom, então a gente realmente tem bons elementos aí. P/1 – Você que visitou várias escolas da Fundação, dá pra perceber a mudança da implantação da Fundação na comunidade? R – É impressionante! Você começa a perceber pela própria região. A própria região muda. Você vê, escola da Fundação não tem vidro quebrado, não é porque vai troca, a comunidade não quebra o vidro porque valoriza realmente a Fundação. A comunidade toda se integra muito, eu acho que a Fundação trabalha não só na parte educacional como na parte de melhora da qualidade das pessoas, dos pais dos alunos, dos parentes também. Acho que isso é fundamental. Acho que a Fundação é uma obra maravilhosa que nós temos e era sonho do seu Aguiar montar uma escola em cada estado da Federação, no mínimo, e todos nós trabalhamos pra isso. A última escola, não essa de Conceição, a última acho que foi Roraima, me parece, a 39ª acho que foi Roraima, era o último estado que faltava ter então foi concluído na gestão do Seu Brandão. Sempre levamos esse projeto pra frente e apoiamos tudo que é possível. P/1 – A turma do Banco comemora as vitórias da Fundação e vice-versa? Como vocês ficam sabendo do que acontece na Fundação? Muito embora você seja membro do conselho. R - _____ fato anormal, o que é rotina não, mas fato anormal aí a gente é comunicado imediatamente aqui. P/1 – Como uma comemoração também, às vezes um prêmio... R – Também. No dia de Ação Voluntária, por exemplo, eu vou nessa escola de Conceição, estive o ano passado aqui, recomendamos nossos gerentes também para poder dar apoio aos funcionários aonde tem escola da Fundação. P/1 – O que é esse dia, Márcio? R – Hein? P/1 – Dia da Ação Voluntária, o que é isso? R – Nós temos na Fundação o Dia Nacional de Ação Voluntária que esse acho que é o terceiro ou quarto ano. No domingo próximo ao dia 10 de março, que é o aniversário do Banco, pode ser às vezes dia 12 ou 8, o domingo mais próximo do dia 10 de março eles fazem um movimento de voluntarismo. Desculpa, eu falei de Ação de Graças ou de Voluntário? P/1 – Não, Dia do Voluntário. R – Então esse Dia do Voluntário, as escolas todas abrem, com exceção dessa daqui por questão de segurança, e congregam todos os voluntários pra prestar serviços pra comunidade. No que consiste? Tirar documento, cortar cabelo, fazer curso de corte e costura, fazer brincadeira com as crianças da comunidade, enfim, todo tipo de atividade. Isso começou, a Fundação começou no terceiro ou quarto ano, começou um movimento pequeno, talvez com 300 voluntários, ou sei lá, uns 2 ou 3 mil atendidos, e no último ano tivemos aí próximo de 500 mil pessoas atendidas, no último ano, e coisa de 8 mil voluntários mais ou menos. Foi mesmo pra valer. Esse ano vai ser muito maior. P/2 – No Brasil todo? R – Vai ter no Brasil todo, nas 40 escolas de todo Brasil. 40, aqui, por exemplo, não faz, mas aí nós fazemos no Jardim Conceição e em uma outra escolinha próxima aqui. P/2 - __________? R – Então, naquela da Fundação, mas tem uma outra escola pública também porque daqui vai pra escola pública e faz na escola pública. Um movimento muito interessante que está virando já uma tradição no Banco. Isso começou, não lembro se foi terceiro ou quarto ano. Esse vai ser o quarto ou quinto este. P/2 – Acho que é o quarto. P/1 – Quarto agora em 2006. R – É, pode ser. Eu estive inclusive aqui na escola do Jardim Conceição, mas é um negócio que vale a pena a gente ver porque tem negócio de dança, enfim, a comunidade toda se diverte, é um negócio interessante. P/1 – Das escolas que você visitou, qual a mais marcante? Que você tenha gostado mais? R – Todas elas são iguais, é um padrão, é mais ou menos como entrar na agência do Banco: é tudo arrumadinho, tudo certinho, sem nada fora do lugar. É claro que você pega, por exemplo – essa daqui é diferente porque essa daqui a maior parte dos alunos é parente de funcionário, não são carentes -, nas escolas de Fortaleza, lá em Caucaia, Bahia, você vê realmente, é interessante. Não sei se vocês visitaram alguma escola das regiões mais distantes? P/2 – O pessoal foi em Canuanã. Eu, pessoalmente, não fui. R – Canuanã é um bom exemplo. Mas você pega nordeste, entra, vai visitar as classes. Visita a classe do pré, do “prézinho”. Aquelas crianças sem dente, manchada, rosto manchado de branco, subnutrida, magrinha, é um negócio assim que até assusta. Aí você vai no primeiro ano, você vai no segundo, quando vai no terceiro ano a criança já está rosadinha, dente arrumado, bem nutrido, quer dizer, a diferença é um negócio realmente a olho visto. Você vai, mesmo nível, mesmo ambiente, você vai no pré, primeiro, segundo, você já vê a diferença total das crianças. A primeira vez é realmente um negócio que emociona, o resultado daquilo tudo que é feito. É interessante. [pausa] P/1 – Márcio, como é a história? Conta pra gente. R – Nós participamos de conselhos às vezes de outras empresas, da Visanet, da Vale do Rio Doce, enfim, das empresas onde nós temos interesse nós participamos do conselho. Normalmente nessas empresas têm remuneração do conselheiro, então toda remuneração que a gente recebe nós doamos espontaneamente para a Fundação Bradesco. Até porque senão teria uma desigualdade de salário, quer dizer, o sujeito que participa de dois, três conselhos vai ter um salário diferenciado, então a ordem é doar para a Fundação Bradesco. Isso mostra realmente o comprometimento que nós temos com a Fundação. P/1 – Eu acho que poucas empresas, sem medo de errar, poucas empresas eu vi com fundações - como você colocou, é o braço social, mas hoje grandes empresas têm – que houvesse envolvimento tão grande da empresa com a fundação. É muito legal isso do Bradesco. R – Tem, a vinculação é muito forte. Na verdade a Fundação é um braço do Bradesco, por isso que ele tem envolvimento, como nós temos com a seguradora, com a previdência, capitalização, a Fundação é um braço nosso também, quer dizer, é o braço social do banco. Por isso que a gente tem orgulho, porque é uma obra que todos nós ajudamos a construir, participar. P/1 – Você acha que está presente essa coisa dos valores dos fundadores da Fundação? Seu Amador... Você acha que é isso que motiva ou realmente já ultrapassou, já transcendeu e que realmente todo mundo do Bradesco sente-se participante? R – Veja bem, eu não diria que todo o quadro é assim. Claro que houve uma época inclusive que eu até pedi que se fizesse uma, mandasse mais materiais para as agências com relação a Fundação para que os funcionários tomassem conhecimento. Isso aconteceu quando teve, nós fomos já pela sexta vez escolhidos como uma das melhores empresas pra trabalhar, pela revista Exame. E num dos itens de avaliação, quando apareceu a parte de responsabilidade social a gente foi mal classificado, o Bradesco foi um dos que foi mal classificado. Eu fiquei indignado: “Não é possível! Com a obra que nós fazemos na Fundação!”. Na época o Perri era o diretor de marketing aqui, então pedi para ele fazer um contato com a revista pra saber por quê. A gente normalmente não costuma interferir nessas pesquisas porque é um negócio totalmente eleito e definido pelos funcionários, então a gente não se envolve, mas nesse caso especificamente eu pedi pra conversar com o repórter e saber por quê. O que a gente notou é que existia um desconhecimento da Fundação, a gente não estava conseguindo atingir o nosso funcionário mostrando pra ele a Fundação. E o outro ponto também é que a obra é uma obra tão grande que a própria, como é uma obra (au concour?) a própria revista não dá valor pra isso porque ninguém vai fazer um negócio como esse. Tem mais valor, por exemplo, os gerentes da agência do Canindé pegarem um asilo, ir lá e pintar em um dia. Aparece mais isso do que... Para os funcionários, isso é mais social do que a Fundação porque a Fundação é um negócio assim muito grande, um negócio inatingível que ninguém vai fazer igual. A gente até procurou mandar mais material nas TVs Bradesco que nós fazemos, incorporar um pouco mais a Fundação pro pessoal realmente conhecer um pouco. Conhece muito a Fundação o pessoal de Osasco que tem uma grande comunidade que trabalha no Banco, que tem parente que trabalha no Banco e estuda; agora, se pegar um bairro, Vila Galvão, em Guarulhos, por exemplo, dificilmente o pessoal vai saber o que é a Fundação se você não mandar o material pra ele e demonstrar o que é. Esse é um ponto que eu achei que a gente estava falhando, a gente começou a melhorar um pouco mais. Todas as reuniões que nós fazíamos com os gerentes, aquelas reuniões eu disse, continuamos fazendo, agora eu faço uma vez por ano só, todos os diretores da Fundação participam também das reuniões, eu dou a palavra pra eles se manifestarem contando como está, se recebe apoio do gerente local, se não recebe, então todos eles se manifestam e participam. Uma coisa que eu noto de interessante também, quando você está falando na reunião – vocês são professoras por acaso? P/1 – Eu! R – É, professor tem mania de escrever. P/1 – Total! R – É, incrível! Mas a gente fica olhando, as diretoras da Fundação, elas ficam o tempo inteiro: a gente falando e elas escrevendo. Outro dia perguntei pra Denise: “O que elas escrevem tanto?”. Elas anotam tudo pra depois chegar na escola e fazer reunião com os professores pra passar aquilo que elas ouviram ali. Então dá uma integração realmente com o Banco e a Fundação. P/1 – Muito bacana! R – Interessante. P/1 – É muito interessante mesmo. Márcio, a Fundação, próxima dos seus 50 anos, está com esse projeto. Como você vê isso? Contar a história por meio mesmo das pessoas que participam dessa história, como você vê essa iniciativa? R – Eu acho interessante porque você pega particularidades que talvez se você fosse contratar alguém pra escrever sobre a Fundação, vai ficar um negócio muito teórico, muito técnico. Eu acho que do jeito que vocês estão fazendo, pelo o que o Mário me disse, pegando depoimentos de pessoas que acompanharam a Fundação, acho que realmente dá uma idéia do cunho social, de modo geral, mas dá uma idéia do cunho político também. Por exemplo, a escola de São João Del Rey, foi inaugurada por quê? Porque Tancredo pediu, queria uma escola lá. Tem também Maranhão, a escola do Maranhão, porque Sarney pediu. Claro que isso não seria só razão pra gente botar uma escola, a gente vai olhar primeiro pra saber se a região é carente, se precisa, é feita uma pesquisa antes também porque o objetivo é colocar pessoas carentes. Esse sistema de seleção das pessoas, dos alunos da Fundação, que vai olhar se realmente é carente ou não, se tem necessidade, isso eu acho fundamental pra não deturpar o objetivo principal que é dar educação pra quem não pode ter. E educação de excelente nível também. Aqui, essa escola é uma exceção porque a maior parte, como eu disse, é filho de funcionário, então a gente tem, abre uma exceção, mas por outro lado, Jardim Conceição é totalmente carente, tem uma diferença. P/1 – De qualquer forma um projeto de memória acaba até contribuindo para aquilo que você estava comentando, pra deixar um pouco mais conhecido. Os funcionários acabam participando um pouco mais disso. Você estava dizendo, a Vera trabalhava quando vocês casaram, o que ela fazia? R – A Vera era secretária do diretor de suprimentos da Light. Naquela época era Light, não era Eletropaulo, era Light ainda. P/1 – E vocês têm filhos? R – Temos dois, temos um casal. P/1 – Como eles chamam? R – Márcio Júnior e Priscila. P/1 – O que eles fazem? R – Estudam. São pequenos. P/1 – São pequenos? Que idade eles têm? R – A Priscila tem nove e o Juninho tem oito. São pequenos. P/1 – Que bacana! Que farra deve ser! R – É, uma farra [risos]. P/2 – Não são alunos da Fundação? R – Não. Estudam no Porto Seguro. P/1 – O que vocês fazem quando estão juntos? O que vocês gostam de fazer em casa? R – A gente gosta muito de filme. A gente procura, na medida do possível, assistir filme com eles. Eu fiz um home em casa e a gente procura entrar lá no home e assistir o filme. Fim de semana normalmente a gente viaja muito, então sempre tem algum compromisso fora e eu procuro levar sempre que posso, mesmo em compromisso do Banco. Porque são pequenos, a gente tem pouco tempo pra conviver, por exemplo, ontem cheguei em casa estavam dormindo. Ainda bem que eles, agora começaram as aulas, eles estudam de manhã, então eles saem junto comigo, às seis e meia da manhã. De manhã dá pra ver, senão a gente fica quatro, cinco dias sem, quando estudavam à tarde ficava quatro, cinco dias sem ver. Mas a gente viaja bastante e eu procuro levá-los sempre que posso pra poder ter uma convivência. Já é pai meio velho, se não convive muito, então... P/1 – [risos] Imagina! A Vera hoje já não trabalha mais? R – Trabalha, ela dá aula de inglês. Ela dá aula de inglês em casa, tem talvez uns 30, 40 alunos mais ou menos. P/1 – Márcio, pra gente fechar, se tivesse que te perguntar assim, em toda essa sua trajetória no Banco e analisando as questões da Fundação, pra educação brasileira, como a gente podia resumir a inserção da Fundação Bradesco na educação nacional? R – Como exemplo. Eu acho que você deveria, aliás, o próprio presidente Lula, em um dos eventos que eu estive, quando ele me viu, no discurso dele ele falou que esteve na escola da Fundação em Vitória, não, ele falou: “Como faz a Fundação Bradesco, por exemplo, que eu conheci a escola de Vitória, é um exemplo.”, então eu acho que isso realmente tem que ser exemplo. Se o governo verificasse o que pode fazer com a mesma verba que eles gastam, que o ensino público é de péssima qualidade, quer dizer, o custo é mais alto do que o custo que nós temos com tudo: manutenção de uniforme, material didático, escolar, assistência médica, dentária, com tudo aquilo que a gente dá ainda sai mais barato que a escola pública. Você vê que o ano passado nós gastamos 167 milhões para 107 mil alunos, deu o quê? R$ 1200,00 por ano por aluno, é R$ 100,00 por mês. Eu aposto que o custo de uma escola pública é muito mais alto do que isso. Acho que o exemplo que a Fundação pode dar pros governos, quer dizer, se for uma coisa bem administrada, se tiver vontade de fazer, é pegar a Fundação como exemplo. Os professores ganham bem, você não tem greve de professores, ensino de primeira qualidade... Isso tudo realmente é um exemplo forte. P/1 – Márcio, com essa vida toda agitada, porque você é da Febraban, é isso? R – Também, é um abacaxi, ainda bem que termina em março do ano que vem. P/1 – [risos] É? R – É. P/1 – Você tem realmente um milhão de atividades. Lição de vida? R – Lição de vida? Perseverança, trabalho e vontade de vencer. Acho que isso é fundamental. A gente falou agora há pouco disso, a gente nesse banco ou vai ser diretor ou vai pra rua, então o Cláudio talvez não tivesse tido a perseverança que eu tive. Eu fui perseverante, a gente tem que ter personalidade, tem que mostrar as garras quando precisa, como dizia o Seu Aguiar, o Seu Aguiar dizia que as pessoas têm que ter justa humildade. E é verdade, isso eu não esqueci mais porque realmente as pessoas têm que ter justa humildade, quer dizer, até o ponto que você vê que não vai ser um capacho, não vai ser cordato por interesse, acho que não, tem que mostrar a sua personalidade e tem que colocar as coisas que você acha que tem, a sua posição, sempre com humildade, claro. P/1 – Está bom. Lembrou algumas coisas do passado, o que você achou de participar de uma entrevista assim? R – É bom, a gente não tem o hábito de fazer isso, mas eu acho interessante, a gente começa a fazer uma rememoração das coisas. É gozado, essa noite aconteceu um negócio super interessante comigo, a memória nossa não tem idade. A gente pode perder a memória, mas a memória está sempre presente. Eu tinha saído de férias duas semanas, no começo de janeiro, e eu pisei num buraco, dei uma torção no joelho. Eu tive uma lesão de ligamentos, não houve ruptura, mas houve lesão, e dói muito, teve que fazer gelo, fisioterapia também. Essa noite eu dormi muito mal porque eu parei com o remédio, era um analgésico, então doeu muito. À noite eu comecei a lembrar, não sei se dormindo ou meio “sonado”, eu lembrei que eu, quando era garoto – eu estou falando coisa de exatamente 54 anos atrás, 50 e poucos anos atrás – machucava muito porque fazia esporte, então uma hora era luxação do braço, da perna. Nós tínhamos de família um massagista que quando tinha um problema ia lá, chamava ele, enfaixava, aí ele dizia assim: “Faça compressa gelada disso.”, aí eu comecei a sonhar com o meu pai. Eu não sei se vinculei, lembrava até a manhã, tanto é que cheguei aqui falei: “Manda ver se ainda existe água não sei o que”, que eu vou lembrar o nome já. Aí a moça falou: “Como chama?” “Água...” “Tá bom!”, aí foi procurar na farmácia, encontrou. E é um negócio, um vidrinho pequeno, ela comprou dois até, e ela falou, está escrito lá: Para luxações e contusões. Comprou, mandei botar na geladeira, durante o almoço fiz uma melhora daquilo, sabe que deu uma melhora incrível! Eu sonhei com esse negócio e, de repente, me deu uma melhora na perna, quer dizer, logo depois do almoço que eu fiz aquilo me deu uma melhora grande. Foi uma coisa de 50 e poucos anos atrás, um negócio que ninguém nunca ouviu falar dessa tal de água... P/1 – Agora eu também vou querer saber [risos]! R – Daqui a pouco eu vou ligar pra menina, eu vou lembrar. Mas é incrível, você vê, a memória da gente às vezes traz lembranças... A gente conversando aqui rapidamente veio muitas coisas. P/1 – Daqui a pouco você vai lembrar de coisas que você vai falar: “Puxa, podia ter falado!” R – Exatamente, é verdade! P/1 – Mas é muito bacana. Realmente seria bem legal se em uma outra oportunidade a gente pudesse até conversar porque você realmente tem uma trajetória muito interessante. Muito mesmo. O projeto hoje é focado na questão da Fundação, mas acho que está bem de acordo com o que a gente queria. R – Espero ter contribuído pro trabalho de vocês. P/1 – Com certeza! E pra gente foi um prazer fazer essa entrevista com você. Em nome da Fundação e do Museu da Pessoa, a gente queria te agradecer. Obrigada! ---FIM DA ENTREVISTA---
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