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História

Das canções para contemplar

História de: Frederico Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2005

Sinopse

Quando se trata de memória, Frederico, nascido em Santos, relembra a cidadezinha de Ouro Branco, no sudeste de Minas Gerais, onde viveu grande parte da infância e de Prados, a cidade dos avós e onde estudava flauta doce. Foi assim, no meio da orquestra da cidade e dos tios que tocou suas primeiras melodias, Maria Maria e Paisagem da Janela. Já na adolescência, em contato com a cena do skate, se afastou da música brasileira e procurou abrigo nos acordes do rock inglês e progressivo pela influência dos amigos. Nessa entrevista ao Museu, Frederico revela como aconteceu sua reaproximação com a música popular brasileira e também explica sobre a importância do projeto do Museu para a memória do Clube da Esquina.

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História completa

P- Boa tarde, gostaria que você falasse seu nome completo, data e local de nascimento.

R- Meu nome é Frederico Eugenio de Silva Carvalho, eu nasci no dia 11 de setembro de 1977, em Santos.

P- E você passou a sua infância em Santos?

R- Não, eu tive uma fase da minha infância, até os sete anos, que eu não ficava em lugar nenhum, a gente morava um ano no máximo em cada cidade e a família mesmo não tem nada a ver com São Paulo, a família é toda mineira, até que com sete anos a gente voltou pra Minas Gerais, numa cidade chamada Ouro Branco, que é uma cidade bem antiga, mas não tem aquela importância histórica ali de Ouro Preto, até ficou meio esquecida, até que se construiu lá a Açominas e aí teve um grande fluxo de pessoas pra lá e meu pai foi um deles, para trabalhar na Açominas. Na verdade a minha referência de infância é Ouro Branco.

P- Quando é que você tem seu primeiro contato com o Clube da Esquina?

R- A gente morava em Ouro Branco que é uma cidade muito próxima das origens da minha família que é da região do Campo das Vertentes, meu avós tanto maternos, quanto paternos, criaram as famílias em Prados, cidade ali coladinha em Tiradentes e São João del Rey e lá em Prados, todo mês de julho tinha e ainda tem, um festival de música coordenado por uma espécie de banda e orquestra que tem na cidade chamada Lira Ceciliana  e o pessoal da Universidade de São Paulo, da Escola de Música. Era comum eu passar as férias de julho sempre em Prados e super comum toda criança ser encaminhada para fazer curso de música nesse festival, normalmente a gente começava com flauta doce e na família do meu pai, ele tinha dois irmãos que tocavam nessa banda, o meu tio tocava flauta e a minha tia tocava clarinete. Eu comecei estudando flauta doce e depois daquele início de aprender a dedilhar as primeiras notas, eu acredito que a primeira música, a primeira melodia que eu toquei na flauta foi copiando meu tio tocando “Maria Maria” e “Na Janela Lateral” [Paisagem da Janela], foram as duas primeiras melodias que eu toquei. Então acho que o primeiro contato deve ter sido esse.

P- E na sua adolescência, o que é que você ouvia?

R- Foi uma mudança muito grande, eu comecei a minha adolescência no final dos anos 1980, então em meados de 1980, a gente ouvia o rock nacional que foi uma coisa muito forte que teve, mas eu fiquei na verdade pouco tempo ouvindo isso. Também nessa época chegou, que eu me lembre, já tinha tido um movimento nos anos 1970 do skate entrar no Brasil, aí ficou parado um tempo, na década de 1980 voltou e eu me interessei pelo esporte, comecei a praticar e o que se ouvia, a turma que andava de skate ouvia rock pesado americano, coisas que se chamavam na época de hardcore, alguma coisa de punk, então eu comecei a minha adolescência por aí. Só que os próprios skatistas acabaram isso aí e acabaram caindo no hip hop, pro rap, hoje em dia o skate é mais relacionado a esse tipo de música e por algum motivo qualquer, eu não me interessei nem um pouco por hip hop, nem rap. Acabou que os meus estudos de música continuaram, eu continuei estudando e comecei a conhecer algumas pessoas um pouco mais velhas do que eu, cinco, seis anos mais velhas do que eu que estavam montando uma banda lá na minha cidade chamada Cartoon que era super influenciada por rock progressivo e por rock clássico dos anos 1960 e 1970 e aí então eu comecei a ouvir rock inglês dos anos 1960 e 1970 a partir de conhecer essas pessoas. Tinha um amigo meu que o irmão mais velho era guitarrista da banda, o Vladimir e aí a gente ficou fascinado com a banda deles, a gente viu começar e hoje é uma banda fantástica e tudo. Então, principalmente, por influência deles. Um deles inclusive, o irmão do Khadhu que é o vocalista montou um bar na cidade que só tocava rock clássico, rock progressivo, o Bhidhu. Então eu passei a ouvir rock progressivo e eu acho que boa parte da minha adolescência foi basicamente ouvindo rock inglês.

P- E tem algum momento que você descobre o álbum Clube da Esquina?

R- Olha, é interessante porque depois desse primeiro contato da infância, na minha família, não no meu núcleo familiar mais próximo, pai mãe e irmãos, porque nem era assim, uma família muito ligada em música não, mas o núcleo maior, os dos meus avós, principalmente por parte de pai, os irmãos dele eram fascinados com o Milton Nascimento e ouvia muito Milton Nascimento na casa deles. Mas depois eu fiquei um bom tempo afastado da música brasileira. Mas acabou que através do rock progressivo, eu comecei a encontrar na música brasileira algumas coisas que levavam essa influência e comecei a gostar de ouvir muito Mutantes, alguma coisa do Tropicalismo e muito recentemente comecei a perceber isso também no Clube da Esquina. Eu já tinha ouvido o disco, claro que eu já conhecia praticamente todas as músicas do Clube da Esquina, porque como o Cláudio que estava aqui antes de mim falou, praticamente o repertório inteiro daquele disco viraram clássicos da música popular brasileira. Mas eu nunca tinha pegado para ouvir a concepção do álbum, com a ordem das músicas e um pouco antes de entrar na Petrobras, porque eu entrei na Petrobras não tem nem dois anos, eu comecei a me interessar pelo Clube da Esquina, mas não havia comprado o disco ainda. Eu acho que eu ouvia o disco emprestado e em mp3, pela internet e depois que eu cheguei à Petrobras, logo, logo, caiu no meu colo esse projeto e eu achei uma coisa interessantíssima e a gente fez uma reunião uma vez, ali no hipódromo da Gávea, com o pessoal todo pra fazer uma espécie de entrevista com a imprensa aqui do Rio para divulgar o lançamento do site e aí eu falei: “Agora eu vou ter que aproveitar a oportunidade”, fui à loja mais próxima, comprei o CD, dei pra todo mundo autografar e aí é que eu acho que eu parei mesmo pra ouvir o álbum. Eu sempre fui ligado em álbuns, sempre evitei comprar coletânea e ouvir do artista uma música que tocou aqui ou ali, se eu me interesso por uma música, tinha sempre a mania de comprar, ou de alguma forma adquirir o álbum inteiro. Me encanta muito a concepção de um álbum, a ordem em que se coloca as músicas, as músicas que não fazem sucesso e foi interessante essa volta pra ver o que era álbum tão falado e que tinha me influenciado quando criança, porque as pessoas adoravam Milton Nascimento na minha família e eu ouvia muito, eu lembro que eu achava “Maria Maria uma canção lindíssima. Mas eu acho que vem daquilo, daquele conceito de música que se fez daquela época é que todos eles, principalmente o Lô Borges e o Milton Nascimento, talvez os dois maiores expoentes, eu acho que vem dali essa notoriedade toda que eles tiveram e foi uma coisa muito legal ter redescoberto o álbum completo.

P- E como é que você vê agora esse projeto do Museu?

R- Eu fiquei fascinado com a idéia, troquei alguns papos com o José Santos, ele me explicando o que seria esse conceito de Museu Vivo, que realmente era uma coisa que eu não tinha tido contato ainda, antes de ver esse projeto e eu achei fantástico. Normalmente as pessoas [falam]: “Ah, vamos resgatar determinado movimento musical”, aí faz uma reunião de todo mundo, às vezes nem tem mais tanto a ver o momento de se reunir e lançar um CD, um acústico sabe-se lá das quantas. Eu acho que é muito mais relevante se lembrar do museu dessa forma. O Cláudio estava falando aqui que achou fantástico a coisa de se ter usado da tecnologia atual ou para poder disponibilizar isso na internet. Eu também fiquei encantado com essa idéia de ser um Museu Vivo, de coisa que ainda está acontecendo, que ainda vai mudar e que não é uma contemplação ao que existiu. Na verdade é uma forma de se organizar ali uma coisa que está acontecendo ainda. Eu fiquei realmente encantado e, como mineiro, bastante contente de que provavelmente Belo Horizonte vai lucrar muito com isso. Eu acho que a vida cultural da cidade a partir do momento que o projeto está crescendo lá, a partir do momento que se conseguir ter uma sede, eu nem sei se a sede talvez seja um marco, o site já fez muito sucesso, eu já andei vendo comunidades de Orkut e coisas afins por aí e eu acho que isso vai fazer muito bem pra vida cultural lá de Minas, lá da nossa cidade e eu acho fantástico. Hoje em dia, esse negócio de música pop, é engraçado a gente falar em música pop, parece até que já é um adjetivo pejorativo para a música, mas o Clube da Esquina era música pop nos anos 1970, mas hoje em  dia parece que essa coisa de música pop, virou música industrializada e é bom sempre ter referência do que era música popular pra ver se ajuda o pessoal a conhecer mais e trabalhar música de uma forma mais pessoal, mais apaixonada, que eu acho que é uma grande característica do Clube da Esquina, é uma aproximação muito apaixonada pela música e pelas letras.

P- Você tendo conhecido Clube da Esquina dentro da sua família, na sua infância e pelo fato de ainda ser uma coisa muito presente, você considera o Clube da Esquina como sendo um movimento?

R Eu considero sim, é até estranho responder essa pergunta, porque eu tinha visto o Cláudio Jorge e ele já falou sobre isso aqui, talvez eu não tenha muito a acrescentar. Eu acho que é um movimento porque não dá pra tirar certa unidade que existe entre todos aqueles artistas e tudo o que foi feito naquela época em Minas Gerais e até hoje eu acho que Minas Gerais ainda têm essa influência mais do que em outros lugares. Eu acho que essa influência do movimento Clube da Esquina permaneceu lá. Me parece que não era a intenção ninguém que fosse um movimento, não tem estatuto com “O que nós queremos com isso aqui”, mas eu acho que a amizade e a troca entre os músicos foi tanta aquilo gerou uma coisa. Não é o trabalho de cada um e não é igual a mais nada que já tenha sido feito, então eu acho que pode ser considerado um movimento que inclusive dá frutos lá em Belo Horizonte. Eu agora morando no Rio, eu vejo que as pessoas se reúnem e vão para um barzinho e se reúnem para ouvir samba, choro e lá em BH, as pessoas se reúnem para ouvir rock, ou para ouvir alguma coisa que é muito mais para o lado do que foi o Clube da Esquina ou do que o Clube da Esquina deixou lá. É uma cidade que se não é totalmente roqueira, mas o tipo de música que se faz lá, é bem assim, um pouco jazzística, mas mesmo quando não é rock, é MPB, é um tipo de música diferente, não é aquela coisa de ouvir para dançar, ou ouvir por pura diversão, eu acho que é um pouco mais, é de contemplar. Eu acho que a música de Belo Horizonte tem muito isso, a música de Minas, não sei se é por causa de montanhas, até certo costume que pelo menos lá na região de Ouro Preto, Ouro Branco essa coisa de acampar, de ir pra cachoeira, então você não pega o violão pra fazer as pessoas dançarem ou cantarolar uma música que está tocando no rádio, o cara quer mostrar aquela harmonia que ele pegou, bonita, para que as pessoas ouçam e contemplem aquela música e eu acho que é um pouco do que o Clube da Esquina deixou lá de Belo Horizonte pra gente.

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