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História

Daqueles que deixou saudade na Vale

História de: Abner Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Abner Dias nos conta sobre sua infância dividida entre estudos e trabalho na roça. Filho mais velho dentre os nove, prestou exército e logo entrou para trabalhar na Vale, onde ficou por mais de 30 anos. Passando por vários setores da manutenção, Abner aos poucos relata a mudança de vida que sua família passou após a entrada da Vale em suas vidas.

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História completa

P/1 – Bom dia.

R – Bom dia.

P/1 – A gente gostaria de começar a entrevista com o senhor dando o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Abner Dias. Local de nascimento Cariacica. Cidade de Cariacica no Espírito Santo. Eu nasci no dia 2 de julho de 1929.

P/1 – O nome dos seus pais?

R – Graciano Dias e Maria da Penha Dias.

P/1 – Qual era a atividade deles?

R – Minha mãe era do lar e meu pai trabalhava no comércio como vendedor.

P/1 – O senhor conhece um pouquinho da origem da sua família? Da onde que ela vem, dos seus avós?

R – Dos meus avós eu sei pouca coisa. Eu sei que meu avô por parte de pai ele foi adotado por uma família, porque a família naquela época dele, era escravizados, os negros, né? Eram escravizados, e ele como negro não foi escravo porque foi adotado por uma família de branco e foi criado como filho. É o que eu sei mais ou menos. E dos outros meus, por parte de mãe eu não sei não. Sei que eles eram agricultores. Eles viviam mexendo com roça.

P/2 – A sua avó foi escrava? A avó do senhor?

R – Não.

P/2 – Não.

R – Não.

P/1 – O senhor conheceu eles?

R – Conheci. Só não conheci minha avó por parte de pai.

P/1 – Como é que era a relação deles com...?

R – Quando eu tomei conhecimento, meus avós por parte de mãe, eles eram separados. É. Eles não vivia junto não. E eu me lembro muito bem quando o meu avô morreu, a minha avó voltou para a casa dela. Porque herança era dela mesmo, né? Mas eles eram um pessoal assim, muito pobre. Eles vivam plantando mandioca pra vender, e aquilo depois que meu avô morreu a coisa ficou muito ruim mesmo. Andando pra trás. Eles iam, eles arrancavam a mandioca mas não plantavam outra, né, e por fim das contas eles morreram mesmo numa miséria danada. Porque minha avó criava quatro netos que não tinha pais, né? E eles viviam assim. Aí tinha um filho dela que era deficiente físico, mas trabalhava. Ele tinha uma perninha fina. Trabalhava. Mas aquilo ali não tinha muito boa vontade, né? Aquilo foi andando pra trás, eles ficaram assim, numa miséria mesmo. Passando fome. Me lembro que as pessoas assim, juntavam pra poder dar assim alguma coisa pra eles comer. Não tinha nada. E tinha o terreno, mas não valia nada. Eles não trabalhava.

P/1 – Isso pelo lado da sua mãe ou do seu pai?

R – Isso pelo lado da minha mãe. Pelo lado do meu pai eu já falei: eu não conheci minha avó e meu avô é como eu já disse, que foi criado com uma família de brancos, né? E que, mais assim que, também acabou aquele negócio da escravidão, aqueles senhores que não eram senhores coisa nenhuma também não tinha muita riqueza nada. Ele também ficou pobre.

P/2 – O senhor tem recordações da sua infância? Como é que foi?

R – Tenho. Tenho recordação.

P/2 – Como é que era a sua casa, a família?

R – Bom a nossa casa era uma casa de roça, casa de estuque, feita com barro. Farinha de barro. A gente estudava numa escola. Escola mista. A gente caminhava umas duas horas a pé até a escola. A pé. Falar a pé que é bobagem (risos) todo mundo andava a pé mesmo. E a gente ia pra a escola. Então eu estudei até o terceiro ano primário, nessa escola, né? Essa escola se chamava Escola Mista. Escola mista é onde uma só professora dá aula pra primeiro, segundo terceiro e quarto ano. Então a gente assim, como por exemplo, como eu que estudei ao até o terceiro ano, tive muito conhecimento porque a gente participava das aulas dos outros mais adiantados, né?

P/2 – Ah, certo.

R – É.

P/2 – As aulas eram em conjunto?

R – Eram em conjunto.

P/2 – E a casa era perto da...

R – Não, era duas horas a pé.

P/2 – Duas horas a pé.

R – Duas horas a pé da escola.

P/2 – E na sua casa mesmo. Como é que era o ambiente?

R – O nosso ambiente era o seguinte: a pobreza imperava mesmo, né? Meu pai trabalhava no mercado vendendo carvão. Mas aquele trabalho era só até mais ou menos 11 horas, meio dia, né, então um dia a gente ia pra escola, outro dia a gente ia ajudar o papai vender carvão. E quando a gente chegava da aula a gente não tinha almoço não. A gente tomava café com polenta. Vocês sabem o que é que é polenta?

P/1, P/2 – Hum, hum.

R – É. Tomava café com polenta e ia pro mangue, porque era perto. A gente ia pro mangue aí a gente ia pescar. Pegar caranguejo, arrancar caranguejo do buraco pescar moreia com anzol, essa coisa... A tarde então a gente tinha uma janta, né? Aí a gente tinha um feijão com arroz, carne, peixe, mariscos. A gente se alimentava bem, né, aí no outro dia a coisa continuava. No outro dia ou ia pra escola ou ia por mercado com papai. Assim, tanto que eu não consegui passar pro quarto ano por isso. Porque o último ano eu não tive freqüência na escola. Porque eu aprendi mais um pouco depois que eu entrei na Vale do Rio Doce. Porque a Vale do Rio Doce na sua necessidade de promover maquinistas, mas a maioria do povo era analfabeto com pouco conhecimento tinham porque naquele tempo o serviço era muito pesado. E as pessoas que tinha assim um certo grau de conhecimento não iam entrar na Vale do Rio Doce, não. Que era muito danado. Aquilo era pra analfabeto mesmo. Então na Vale nasceu a necessidade de promover maquinistas, ela então escolheu um grupo e levou pra Vitória pra gente estudar. Português e matemática.

P/2 – Só português e matemática?

R – Ein?

P/1 – Estudava-se só português e matemática?

R – Só português e matemática. Aí nós ficamos seis meses fazendo esse estudo de português e matemática, com oito horas de aula por dia. Aí nós chegamos a, segundo eles, ao terceiro ano ginasial. Que se falava muito, que o que é o primeiro grau hoje era o ginásio na época, né? Então a gente chegou ao terceiro ano. Segundo eles é o terceiro ano ginasial. Aí foi que a gente teve assim mais conhecimento, aí fomos fazer o curso de maquinista. Bom essa história aí, acho que isso é pra depois, né? então não sei se... (risos).

P/1 0 Eu queria voltar um pouquinho e lhe perguntar sobre os irmãos. Quantos irmãos o senhor teve?

R – Eu tenho, são... tive oito irmãos.

P/1 – Oito?

R – É.

P/1 – E o senhor é o do meio?

R – Eu sou o mais velho.

P/1 – E como é que era a relação com os outros irmãos?

R – Ah, relaciona bem. Muito bem.

P/1 – Não tinha esse negócio de eu sou o mais velho?

R – Não, não tinha não.

P/1 – E seus pais. Como é que era? Dentro de casa eles exigiam alguma, que você, por ser o mais velho tomasse , desse o exemplo?

R – Às vezes se falava, meu pai falava isso. Mas é assim uma coisa que não era muito de se levar a sério, sabe? Não era não. Aqui nós vivíamos uma irmandade unida. Tudo igual. É...

P/2 – Vocês tiveram algum tipo de... desculpa.

R – Meu pai é assim porque, a minha mãe que coordenava melhor as coisas. É que meu pai bebia, né? E ele bebia, então pessoa assim, não é, às vezes não tem muita sabedoria, né, pra agir dentro de casa, né. Então minha mãe quem dava mais uma assistência, né?

P/1 – Organizava.

R – É, organizava.

P/1 – E nessa organização vocês tinham tarefas ou funções dentro de casa? dar uma força ao pra mãe?

R –É, sim, por exemplo, a gente ia pro mato caçar lenha, né, pra ajudar a mamãe. Que a gente queimava lenha no fogão e a gente morava num lugar que tinha mato. A gente ia pegar lenha no mato. Quando, às vezes, a gente ajudava. De qualquer maneira a gente ajudava. Pegava água porque não tinha água em casa, encanada. A gente ia lá na fonte buscar lata d’água. A gente fazia essas coisas, né? A mãe mandava. E a gente tinha as horas de brincar. Nós jogava bola e vidro, né? (Risos). É isso aí.

P/2 – E tinham casa próximas da do senhor?

R – Tinham casa próximas.

P/2 – E a vizinhança toda se relacionava, brincava?

R – É. Quase tudo parente, né, a gente vivia num lugarejo em que a maioria do povo era um parente do outro, né?

P/2 – Ah, sei.

P/1 – O senhor acabou de falar: “Não tinha água encanada.” Tinha luz elétrica?

R – Não, não tinha.

P/1 – Como é que era, né, nisso? Fogão, luz, essas coisas?

R – É, o fogão a lenha, né, você sabe. O fogão a lenha. Só que todo mundo cozinhava a lenha. E a luz era lamparina. A gente comprava querosene, e tinha na lamparina, não sei se vocês conhecem? A lamparina, se chama lampião. Colocava querosene com um pavio de pano e aquilo era a iluminação em casa.

P/1 – A casa do senhor era pequena ou não era? O senhor pode descrever?

R – Era uma casa assim de, mais ou menos chamado barraco. O chamado barraco. Mas era coberto com telha e em volta era barro. Barreado, né? Piso de chão e era uma coisa meio assim de muito pobre. Ali, aquele lugarejo ali, todo mundo era igual, né? Tudo era igual sobre o meio de vida. As coisas era tudo do mesmo tipo. A gente não tinha banheiro sanitário. A gente usava era o mato pra lá, né, (risos). É isso aí.

P/1 – Em relação a brincadeira: o senhor acabou de falar que brincava. Tinha alguma outra além de caçar, jogar bola, brincar escondido? Como era?

R – É, a gente brincava de todo jeito, né? até com arco de barril a gente brincava. Você sabe o que é que é arco de barril?

P/1 – Não.

R – Tem um barril que vinha antigamente com vinho, um negócio redondo assim, e por fora ele tem um arco de ferro. A gente tirava aquele arco de ferro e fazia uma curva num arame e tocava ali na roda e a gente saía correndo pra estrada empurrando aquilo, brincando (risos).

P/1 – (risos).

R – É, de qualquer maneira a gente brincava. Pegava champinha de garrafa de cerveja nas porta dos boteco e fazia uma rodinha assim com pedaço de prato de louca e a gente botava uma barquinha e jogava pra ganhar a champinha do colega, né? Com a rodinha de prato de louça. A gente fazia a barca. Igual jogava bola de vidro do mesmo jeito.

P/2 – Senhor Abner, o senhor e seus irmãos tiveram algum tipo de educação religiosa freqüentavam alguma igreja?

R – Como criança não.

P/2 – Não.

R – Como criança não. Hoje é que eu sou evangélico, né?

P/2 – Sei.

R – Eu tornei-me evangélico em 1986. Daí pra cá que eu freqüento igreja. Até então a gente se dizia católico, mas católico, não era também não. A gente era maneira de falar. A pessoa perguntava: “Você é evangélico?”, “Não, sou católico” (risos).

P/2 – Hum, hum.

R –Mas às vezes ele não tem nada de católico, né? É isso aí. Mas freqüentar mesmo quando era criança não tinha.

P/2 – Seus pais não faziam questão?

R – Não, não, não. Eles não iam também. Eu acho que meu pai nunca foi na igreja.

P/1 – Até quando, o senhor estava falando aí, que enquanto criança o senhor dava uma força pro seu pai no mercado. Até quando que o senhor ajudou o seu pai na venda do carvão?

R – Ah, eu ajudei meu pai, que é assim, quando meu pai morreu eu estava com 16 anos. Aí eu assumi a liderança no próprio mercado. Trabalhando no mercado. Essas alturas eu comprava verdura, legumes, ia pra rua vender. Meu irmão ficou vendendo carvão. Manoel, meu irmão mais novo do que eu, um ano, ficou também vendendo carvão e nós começamos a tratar dos irmãos e da mamãe lá em casa. E até quando eu fui pro exército, quando eu fiz 18 anos meu irmão ficou por conta da casa, ajudando a minha mãe a criar os menino. Trabalhando no carvão. Até quando eu vim do exército, que eu entrei na Vale do Rio Doce, que a coisa começou a melhorar.

P/1-  Quando que o senhor foi pro exército e onde serviu?

R – Eu servi o exército na cidade de Vila Velha no Espírito Santo. Eu servi o exército do mês de março eu não lembro bem a data até o dia 12 de agosto de 48, foi quando eu dei baixa no dia 12 de agosto e entrei na Vale no dia 2 de setembro. 8 de setembro.

P/2 – O senhor chegou a pensar em algum momento em seguir a carreira militar?

R – Não.

P/2 – Não.

R – Não tinha. Essa a gente sabia que eu não tinha, como se faz, cultura, né, pra isso, né?

P/1 – Quando o senhor se alistou no serviço militar, né, o senhor teve que sair de casa. Como é que foi a saída? A sua mãe?

R – Olha, a minha mãe chorou muito. Porque ela não queria. Mas aquilo, quanto ao alistamento era obrigação. Que eu acho que é até hoje: uma obrigação se alistar. E o exército convoca, ano tal. O ano tal se apresentar. Então a gente que é daquele ano que ele convocou a gente tem que ir. Ou é o chamado insubmisso. Eles até prendem. Prendiam. Não sei se ainda faz isso. Então a gente era obrigado a ir. Então como tinha os vizinhos meus lá, colega meu de infância e coisa e tal que foi, não passou nos exame e voltaram pra casa, a minha mãe achou ruim porque eu fiquei. E ela chorou muito. Porque os filhos dos outro veio embora. O dela teve que ficar lá (riso).

P/1 – E como é que foi essa experiência lá?

R – Ah, a experiência foi boa. Porque aquilo lá é mais uma brincadeira do que tudo.

P/1 – Como é que é?

R – É servir de soldado. Instrução. Instrução de guerra. Porque não era assim como um soldado militar. Assim, polícia. É diferente de polícia. É instruçãozinha ali no quartel mesmo. Tira serviço ali mesmo, na porta do almoxarifado, uma coisa e tal. Dá uma patrulhazinha na rua com um pauzinho na mão ali. Mas vai assim, volta, vai embora por quartel atividadezinha até bom, viu? A gente não ganha nada também não, mas é bem alegre, né? (Risos).

P/2 – O senhor gostou?

R – É isso aí.

P/2 – E quando o senhor saiu do e exército como é que...

R – Quando eu saí do exército a minha mãe disse: “Você não vai mais trabalhar no mercado. Que aquilo não é coisa de progresso. De futuro. Não dá futuro no mercado. Você não vai trabalhar no mercado. Você vai procurar um serviço pra você trabalhar.” Aí eu fui. Porque a gente morava na roça mas era perto de Vitória. Aí então eu fui procurar serviço. Mas eu achei serviço por exemplo nas Casas Pernambucanas. Tinha que ir de gravatinha e camisa branca. Eu não tinha. Ir bem vestido, né? Eu não tinha esse poder... Aí não deu certo. Arrumei serviço de ajudante de pedreiro, mas era na Praia do Campo. Muito distante, tinha que ir de bonde. Pegar o bonde na cidade pra poder ir pra lá. Eu não tinha dinheiro pra pagar bonde. Aí então, eu me encontrei com um cidadão chamado Américo, que foi a pessoa que a gente vendia na casa dele, verdura, carvão, essa coisa. Então seu Américo sabia que eu tinha ido pro exército, coisa e tal. Que eu avisei lá antes, né? Quando eu vim ele falou: “Ó, você já saiu do exército?” Eu falei: “Já.” “E agora?” Eu falei: “Eu estou procurando um trabalho, seu Américo.” Ele falou: “Não rapaz, você quer trabalhar na Vale do Rio Doce?” Eu falei: “Quero, uai.” “Então você vai amanhã em Pedro Nolasco encontrar comigo lá.” Eu nem sabia o que é que aquele homem fazia. E ele era um chefe lá na Vale. aí ele disse: “Vai encontrar comigo.” Porque naquele tempo a pessoa, um chefe tinha poderes pra mandar e desmandar, né? Aí: “Vai lá amanhã e as sete horas, que eu vou arranjar um serviço pra você.” Aí eu fui. Cheguei lá encontrei com seu Américo. Seu Américo chamou um tal Doutor Querubino que era chefe engenheiro na via permanente. Aí ele falou: “Querubino, arranja serviço pra esse rapaz aqui.” O Doutor Querubino imediatamente: “Ô Inácio!...” que era um português que era chefe de linha “...arranja um serviço pra esse rapaz!” O Inácio falou: “Como é teu nome?” Aí eu falei. Ele pegou a cadernetinha, escreveu. “Tu tens carteira profissional?” Eu falei: “Tenho.” Aí ele: “Tu nunca trabalhaste!” Eu falei: “Olha, é, nunca trabalhei”. (Risos). Ele disse: “Ó, tu vais por aqui, por essa linha do P, quando tu fizeres aquela curva ali tem uma turma trabalhando lá. Apresente esse bilhete pro feitor.” Aí eu fui. Encontrei lá a turma trabalhando, socando linha. Aí, então o feitor, seu Luís está lá. Eu falei: “Seu Luis.” Aí ele olhou: “Vem amanhã as sete horas.” Fui trabalhar no outro dia (risos).

P/2 – Já foi já pra trabalhar.

R – Fui pra trabalhar.

P/2 – E como é que foi o primeiro dia de trabalho do senhor?

R – Assim, de os colega ensinando, né? Como faz assim, faz assado. No primeiro dia esfolou a mão. No outro dia eu não pude trabalhar, fui pra lá. Aí o feitor disse: “Você não pode trabalhar, vai fazer a parte diária.” Fazer a parte diária como? Eu sabia muito pouco. Até que eu fiz mas ele rasgou (risos).

P/2 - Não ficou boa? (Risos).

R – Aí até que a mão sarou. Eu continuei, os homens ensinando. É tirar, trocar dormente. Sabe, tem uns dormente. Sabe o que é dormente?

P/2 – Sei, da ferrovia, né?

R – Tem a linha. Tem os dormente de madeira, né? Então sempre apodrece um aqui, ali. Era aquele serviço que a gente ia fazer lá. Aí é trocar dormente. Metia a soca, separava aquelas pedra e tirava o pau velho e colocava outro novo. E era esse o serviço. Eu fiquei ali messe serviço 11 mês.

P/2 – Qual era o trecho da ferrovia onde o senhor trabalhava? Começou trabalhando?

R – É de Pedro Nolasco a Porto Velho. Um pedacinho.

P/2 – Pedro Nolasco a Porto Velho.e como é que era o dia a dia de trabalho? O cotidiano de trabalho?

R – O dia a dia era bom, sabe? Não era ruim. A gente, a Companhia tinha armazém, ela fornecia alimentos para os empregados. Não dava não, era vendido. Mas a gente tinha um cartão de compra. Então a gente comprava na própria Vale o alimento. Isso era ótimo, viu? Ajudava muito a gente. Então todo mês a gente pegava o cartão e fazia compra pra 30 dias. Aí a gente comprava tudo no armazém da Vale e descontava no pagamento.

P/2 – E era um preço abaixo do preço de mercado?

R –É, era. Preço abaixo do preço de mercado.

P/1 – Aquele trecho de ferrovia era próximo ou muito longe da sua casa?

R – Era um pouco distante.

P/1 – E como que o senhor fazia? O senhor entrava que horas?

R – A gente saía de casa mais ou menos cinco e meia e sete horas a gente estava no serviço. Uma hora e meia, mais ou menos, a gente chegava lá.

P/2 – E o senhor chegava como até lá?

P/1 – Ia a pé?

R – A pé.

P/2 – A pé?

R – Não tinha condução não. A pé.

P/2 – Uma hora e meia de caminhada?

R – É.

P/2 – Pra ir e pra voltar?

R – Pra ir e pra voltar.

P/1 – E vocês saíam que horas de lá?

R – Largava quatro horas.

P/1 – Quatro da tarde largava o serviço?

R – É.

P/1 – A Vale fornecia uniforme?

R – Não.

P/1 – Como é que era a indumentária de trabalho?

R – Não, para trabalhador como eu na época que entrei, não tinha uniforme. Era qualquer roupa. Qualquer roupa. Trabalhava descalço, qualquer roupa. Agora quando, aí a gente pode entrar em outra parte, na outra seção. Quando eu passei pra locomotiva, aí sim, tinha o uniforme mas a Vale não dava, não. Você tinha que comprar o uniforme. Era roupa de mescla. Calça e camisa de mescla. Mescla era um pano grosso que tinha antigamente, azul, né? Então a gente tinha que comprar daquele pano e tinha o boné. Usava boné. Tudo isso a gente tinha que comprar. Não podia trabalhar sem uniforme mas a Vale não dava uniforme.

P/2 – Senhor Abner, o senhor quando entrou trabalhava no setor de (inaudível) da via permanente, não é isso?

R – É, foi.

P/2 – O que era isso exatamente?

R – Era uma seção a parte. Que mexia só com trabalhadores de linha. Manutenção de linha.

P/2 – Hum, hum. Então seu trabalho específico era na manutenção...

R – Manutenção da linha.

P/2 - ...da linha, né? Da via permanente. O senhor era considerado trabalhador de que categoria?

R – De quarta classe.

P/2 – De quarta classe?

R – É.

P/1 – O senhor podia explicar como é que é? Como é que funciona isso? Tem quarta classe...

R – Não, eu acho que não tem mais.

P/1 – A época do senhor, como é que era essa divisão de classes?

P/2 – Essa hierarquização?

R – A divisão de classes é o seguinte: com o correr dos tempos a pessoa era promovido. Porque eu acho que até acabou esses negócio de promoção. A gente ganhava uma letra a mais, um padrão a mais, na sua categoria, na categoria, ficando na mesma função. Entendeu como é que é? Por exemplo, eu era trabalhador de quarta classe. Com um ano de serviço ou mais, se a Companhia achasse que eu tinha merecimento de ser promovido, ela me promovia a terceira classe e me dava um aumentozinho no salário. Sabe como é que é? Aí quer dizer, eu ganhava ponto. Então assim sucessivamente até chegar a encarregado, a feitor, a mestre de linha. Assim sucessivamente, você ia subindo de posto.

P/1 – O que é que a sua mãe achou do senhor ter entrado a trabalhar aí na...

P/2 – Vale do Rio Doce.

P/1 - ...é na Vale, né?

R – Ah, ela achou muito bom, né? Ela achou muito bom. Inclusive ela costurava a minha roupa. Que ela não era costureira, não. Mas ela, como dizia, costurava. Tinha uma máquina tocada a mão, né, e ela costurava a roupa da gente, tocada a mão. Ela ficou muito alegre com o emprego que eu arrumei na Vale. Só de a gente ter a alimentação, a coisa mudou muito, né? (Risos).

P/2 – E outros dos seus irmãos também entraram na Vale?

R – Inclusive agora o meu irmão mais novo do que eu também é aposentado da Vale, o Manoel. E meu irmão mais novo de todos também é aposentado da Vale. O Vital. E tem o Raulino. O Raulino é um deficiente, é meio doente, né? Ele é aposentado também mas esse era marceneiro. Trabalhava em oficina de móveis. E o Julião, o Julião vive mais separado da gente, porque ele mora num lugar que ninguém sabe aonde, né, a gente procura não acha ele. Ele... mas é depois de adulto que ele extraviou. Porque ele deu pra beber, e aí ficou separado. Ficou separado. Então a gente não sabe nem onde ele anda.

P/1 –Tem irmã, mulheres?

R – Agora as irmãs, morreu uma irmã, Margarida, já depois de casada. E tem Maria que é, como se diz, pensionista da Vale, que o marido dela era empregado da Vale, morreu. E tem Matilde, a minha irmã mais nova, que é enfermeira no hospital São José em Vitória.

P/1 – Então a vida começou a mudar um pouquinho?

R – Foi, começou a mudar. E mudou muito.

P/2 – E depois desse trabalho do senhor na manutenção da via no setor de linha, o senhor passou pra que função? Como é que foi?

R – Passei pra função de limpador graxeiro em locomotiva. Eu pedi transferência através desse mesmo seu Américo, conseguiu pra mim uma transferência pra trabalhar em locomotiva. Porque em locomotiva, o interesse era esse, ganhar mais, né? A locomotiva dava hora extra. Então a gente trabalhava mais e ganhava mais um pouquinho. Aí fui trabalhar. Mas ali como limpador eu fiquei só poucos dias porque eu passei viajar na locomotiva como ajudante de foguista. Não sei se vocês sabem, o foguista, era maquinista, foguista e ajudante, que era o chamado graxeiro, compreendeu? A locomotiva a vapor. Não existia a locomotiva a diesel não. Era a vapor.

P/2 – Ah, naquele momento ainda não, né?

R – É, era a vapor. Então passei a trabalhar como ajudante de foguista. Daí a um ano eu fui promovido a foguista.

P/2 – Certo.

R – Eu fui promovido a foguista.

P/2 – E qual é exatamente o trabalho do foguista, e...

R – Alimentar a caldeira pra fornecer vapor para...

P/2 – Ah, sim.

R – ...puxar o trem. O trem se locomovia, a locomotiva se locomovia através de vapor. A água. Vapor a água. Então esse vapor a água é que puxava o trem. A gente alimentava a caldeira com lenha e carvão. Lenha e carvão vegetal.

P/1 – Esse trabalho é o tempo todo então? Enquanto a máquina está em andamento...

R – Ah, o foguista está trabalhando.

P/1 – O tempo todo?

R – Não é o tempo todo, mas ele tem o momento de ele, enche a fornalha, né? A chamada fornalha. Ele encheu a fornalha fecha a porta ali, porque com a porta aberta ela não dá vapor. Aí ele enche ali de lenha e fecha imediatamente a porta. Aí ela vai aquecendo o fogo e vai fervendo a água e vai fornecendo vapor para os cilindros. Aí o cilindro faz locomover a locomotiva.

P/2 – E de quanto em quanto tempo que tinha que novamente...

R – Ah, isso não tem marca de tempo.

P/2 – E média assim, mais ou menos, não?

R – Porque tem um relógio chamado, acho que é termômetro. Tem um termômetro marcando a pressão. A pressão. Então por exemplo, o máximo é 200 libras de pressão. Então quando ela está no máximo ela está com toda força. Pode puxar mesmo o trem, mesmo, né? Mas com o correr da coisa aquela pressão vai caindo. Vai caindo. Quando ela chega em 100 libras ela já não está valendo nada. Você tem que tornar...

P/2 – Recarregar.

R - ...a abastecer a caldeira.

P/2 – E qual era a velocidade máxima dessa...

R – Ah, mais ou menos, a gente não sabe certo não, mas dizem que era uns 30 km/h, né?

P/2 – Isso o máximo?

R – É, no máximo.

P/2 – Hum, hum. E qual era o trecho, o percurso que vocês?

R – Bem, nós começamos no percurso ali de Vitória, quando eu comecei em Porto Velho, a gente vinha até Governador Valadares. Mas era muitas horas de serviço. A gente às vezes gastava de, trem de minério por exemplo, que era um trem que não tinha muita parada, gastava assim, 24 horas, né, de viagem. De Porto Velho a Governador Valadares. Muitas das vezes a gente ficava em Aimorés que era o meio trecho. Porque às vezes o cansaço era muito, e muitas horas de serviço a gente não agüentava às vezes vir a Valadares. Então pedia descanso em Aimorés. Aí a gente parava em Aimorés, ia pro dormitório, dormia um pouco e pegava no outro dia acima outra vez.

P/2 – Mas o dormitório...

R – Muita das vezes você parava, o trem ficava ali esperando você descansar porque não tinha substituto. Porque apesar da Vale ter muitos empregados mas o serviço comportava muita gente. Precisava de muita gente trabalhando.

P/2 – E os dormitórios eram da própria Companhia?

R – É, da própria Vale. Ela tinha um dormitório com os colchão lá. A gente carregava roupa de cama, forrava, dormia.

P/2 – E às vezes o trem ficava lá esperando?

R – Muitas das vezes o trem não tinha substituto, ficava lá esperando.

P/1 – Com a carga em cima?

R – É, com a carga. No trem cargueiro já é outro... Eu falei do trem de minério que é lá e cá, né? Agora o trem cargueiro é um trem mais vagaroso ainda. Porque ele tinha de estação em estação, alguma coisa pra pegar e alguma coisa pra deixar. Então nesse caso, esse trem carregava por exemplo, seis guarda-freios. Além do pessoal de máquina, seis guarda-freios. O chamado CL, C4, C3. Então esse trem chegava numa estação tinha lá uma coisa pra pegar, porque naquela época tinha muita produção de cereais. O que não tem também. Também acabou isso. Cereais agora é só lá pro sul, né? Mas naquele tempo lá tinha um saco de milho numa estaca, tinha um saco de feijão na outra. E isso aí. Então esse trem vinha até Colatina. Levava um dia e uma noite pra chegar ali. Porque a linha era uma linha só. Se o trem de minério tinha muita preferência “desvia o trem de carga que o trem de minério vem aí”. O trem de minério vem aí com aquela preferência toda, mas (risos) devagarinho, né? Ele ficava uma hora, duas pra passar ali, né, pra gente ficar esperando ali. Porque não podia atrapalhar o sentido do movimento do trem de minério.

P/2 – Então a prioridade era sempre...

R – A prioridade era o trem de minério.

P/2 -...pro trem de minério, né?

R – Que o trem de minério é que eu acho que colocou a Vale lá nas alturas como está hoje, né? Porque naquela época que essa dificuldade toda, uma locomotiva a vapor carregava 24 carrinhos. Carro chamado MG, era uma luta pra chegar lá em Vitória e ela ganhou dinheiro com isso, né? Ela ganhou muito dinheiro porque, a ponto que ela comprou as locomotivas novas – a vapor também, né, - comprou as locomotiva nova e depois ela comprou as diesel. Comprou as diesel pra pagar com minério. E os americanos vendeu as locomotiva e receber em minério. Foi um negocião muito grande pra Vale, né?

P/1 – Antes de entrar na era diesel, eu queria saber do senhor se vocês tinham algum tipo de prevenção no trabalho? Algum tipo de máscara, luvas? Como é que era isso?

R – Não, não tinha nada disso. Não tinha luva, não tinha máscara, não tinha nada. Quando a Companhia comprou um carvão americano, um carvão inglês, o chamado carvão cardief... é que ele irritava os olhos da gente, né? A poeira dele irritava os olhos. Aí é que a Companhia deu um óculos, um par de óculos pra cada funcionário. Por causa daquele carvão. Mas mesmo assim ele ainda atingia as vistas da gente. Muitas das vezes a gente chegava no dormitório e não conseguia dormir de tanto que ardia as vista. É.

P/2 – E o senhor presenciou algum caso de acidente de trabalho?

R – Acidente?

P/2 – Algum colega seu? Algum...

R – Não, acidente eu presenciei, por exemplo um rapaz, me lembro de um rapaz chamado Patrocínio que viu uns cachorro, assim, na frente da máquina e ele com pena dos cachorro, pendurou e saiu fora da locomotiva pra ver. A máquina ia pegando o cachorro, né? Aí ele fez assim e tinha um trailer em pé assim, do lado da linha, bateu nele, ele morreu. É. Isso foi na Inac. Eu vi atropelamento. Uma locomotiva eu estava com o maquinista eu era o foguista de uma locomotiva lá em Tubiritinga, ela atropelo um homem. Matou o homem. Umas coisas assim, né?

P/1 – E como era então o sistema de segurança das locomotivas eram precários?

R – Não se falava em segurança não. Você fazia a sua própria segurança. Toma cuidado porque senão você se machuca (risos).

P/1 – Não podia bobear não, né?

R – Não.

P/2 – Vocês tinham algum tipo de instrução de prevenção, assim...

R – Não.

P/2 - ...verbal. aquela coisa?

R – Não. Não. Não tinha. Era cuidado. Cuidado. Por exemplo, tinha um negócio da locomotiva que ela tinha um forro de um aço muito fino, aquilo era branquinho. Muita das vez o maquinista olhava assim e falava: “Vai chover”. E quando chovia em cima da locomotiva aquilo virava puro ferrugem. Então quando ele achava que ia chover, mandava passar graxa. Aí a gente melava as mão tudo de graxa. Passava graxa ali com uma estopa, né, no forro de caldeira, no chamado forro de caldeira. Passava graxa ali, pra chuva não cair e não molhar a li, né? Mas depois com o correr do tempo a chuva não vinha: “Ah, não vai chover não. Tira a graxa” (risos). Aí a gente estopa e tornava a limpar, tirar a graxa, né? E ele falava: “Você cuidado lá pra você não cair, ein? Se você cair você morre” (risos).

P/1 – Era mais no boca a boca, né?

R – Era no boca a boca.

P/1 – E, bom ele falou de acidente, doença de pulmão. O senhor acabou de falar de olho. Existia esse tipo de coisa?

R – Bom rapaz, eu não vi falar caso nenhum não. Porque o pessoal parece que tinha muita saúde, sabe? Acho que era isso. Eu não vi falar em caso de doença assim. Porque quando eu entrei, como já falei, o moço mandou eu voltar sete horas pra trabalhar no outro dia, né? Mas eu só fui fazer exame de saúde, 11 meses depois pra mudar de setor. Então que foi que eles mandaram. Tinha o instituto chamado Caixa de Pensão que tinha lá os médicos que fazia exame. Então aí, pra mim poder transferir de setor que eu fui fazer exame de saúde, né? E o exame principal deles era pulmão. Era raio-x, né? O raio-x. Então a gente fazia o raio-x. Estava com o pulmão bom, está tudo bom, pronto (risos). Era assim, né?

P/1 – E depois passou pra onde? De limpador graxeiro foi pra foguista?

R – Fui pra foguista.

P/1 – Dentro da função de foguista existiam categorias?

R – Tinha categoria. Eu tenho até carta. Eu te mostrei já hoje a li a carta de promoção, né? Eu fui promovido de graxeiro padrão sete, pra foguista padrão oito. E de foguista padrão oito, para foguista padrão nove. E’, quer dizer. Aumentava, melhorava a categoria na mesma função.

P/2 – Na prática era a mesma...

R – Era a mesma coisa.

P/2 – ...mesma coisa.

R – Apenas a chefia viu em você um melhoramento, ou uma coisa assim no seu trabalho que merecia que você ganhasse mais um pouquinho. Então dava uma promoção através de uma carta.

P/1 – E o que é que o senhor fazia de diferente para conseguir as promoções?

R – Não, não fazia nada diferente não. É porque às vezes, por exemplo, eu como foguista eu tinha um maquinista. O maquinista e o foguista eles trabalhavam junto, não trocava: eu hoje vou com um, amanhã vou com outro, não. Eu ia e vinha com o mesmo maquinista, eu como foguista. Então ele agradava do meu trabalho, ele quem pedia promoção ao chefe: “Olha, o rapaz trabalha bem, só você ver. Pode dar uma promoção a ele.” Era assim, é (risos).

P/2 – Agora, senhor Abner. O senhor acompanhou aquele programa todo que teve da melhoria da estrada de ferro Vitória-Minas, né? O que foi introduzido de novo na estrada? Quer dizer, em 53 tem, em 53, né, que tem a entrada das locomotivas diesel-elétricas.

R – Acho que foi em 52, né?

P/2 – 52?

R – Bom, eu não tenho bem certeza. É por aí.

P/2 – O que, como é que ficou essa função, porque o senhor nesse momento ainda era foguista?

R – Ainda era foguista. Não, eu já era maquinista. Porque eu passei à maquinista em 56.

P/2 – À maquinista em 56.

R – 56. Mas eu ainda fiquei separado da locomotiva diesel. Porque a locomotiva diesel chegou, aí eles formaram duas tração: diesel, tração diesel e tração a vapor. Então ficou separado. Dividiu ali. Quem era da diesel era da diesel, quem era da vapor era da vapor. Então fiquei na vapor até por exemplo quando acabou, quando não tinha mais. Enquanto tinha a vapor eu estava trabalhando na vapor.

P/2 – E quando que acabou definitivamente?

R – Eu penso que foi 1960.

P/2 – 1960.

R – É. É o que eu acho.

P/2 – E tanto à diesel quanto a vapor transportavam minério de ferro?

R – Transportavam minério de ferro.

P/2 – E quem era da diesel ganhava mais? Tinha alguma diferença?

R – Não era a mesma coisa.

P/2 – Mesma coisa.

R – Era a mesma coisa. Agora quando terminou que eu fui fazer o curso da locomotiva diesel pra poder passar pra tração diesel. Quando acabou a locomotiva a vapor, nós fomos fazer novo curso.

P/2 – Houve uma reciclagem de todo mundo?

R – Isso. É.

P/2 – Houveram demissões no sentido de...

R – Não. Demissão?

P/2 – É, acabando definitivamente a locomotiva a vapor?

R – Ah, aquilo acabou automaticamente. Não teve...

P/2 – Mas todo mundo foi aproveitado? Toda mão de obra foi?

R – Foi aproveitado. Todo mundo. Porque a Vale tinha essa vantagem muito grande. Dificilmente uma pessoa era dispensada da Vale. Precisava que ele fosse muito ruim mesmo pra poder ser dispensado.

P/2 – E como é que foi o curso? Como é que foi passada essa técnica de operação com a locomotiva diesel elétrica? O senhor se recorda?

R – Ah, isso aqui eles tinham os professores, os professores eram mecânicos da própria Vale, né?

P/2 – Sei.

R – Então eles davam a instrução de mecânica, de eletricidade da locomotiva a diesel no próprio Senai. A gente estudava ali. E depois a gente tinha o estágio na linha com os inspetores, aqueles já mais antigo que já tinham conhecimento, né, da coisa. Eles davam instrução à gente na linha. Aí a gente trabalhava, estudava e trabalhava na máquina, praticando. Depois que a gente fazia o estágio na linha - tinha um estágio de três meses na linha – você conduzindo o trem as vistas do instrutor. Porque dizia assim: “O maquinista instrutor é responsável pelo maquinista aluno.” Não, não era bem assim. Assim: “O maquinista aluno conduz o trem sob as vistas e responsabilidade do maquinista instrutor.” Aí então era esse o negócio. Então a gente ia pra linha e viajava com o instrutor do lado. Quando passava os três meses ele dava uma carta pra chefia avisando se você estava preparado pra viajar sozinho ou não.

P/2 – Hum, hum.

R - Entendeu? No caso de você não estar preparado você voltava pro estágio. Se você estivesse preparado ele dava a carta dando você como pronto a chefia já aproveitava você na linha como titular.

P/2 – E o aluno poderia depois passar a instrutor?

R – Passava. Eu cheguei a ser instrutor também.

P/2 – Ah, o senhor chegou?

R – É.

P/1 – Qual é a diferença entre o vapor e o diesel, pra quem não sabe?

R – Ah, a diferença é muito grande. Você rapaz, a locomotiva a vapor como você viu falar você tem que colocar lenha na fornalha, colocar água. Um murro danado. Carvão. Carvão vegetal, e aquela coisa, aquela caloria da locomotiva. A locomotiva não desenvolvia uma velocidade satisfatória. Ela não puxava assim grandes quantia de vagão. Você saia era uma dificuldade pra você chegar no destino. Muitas locomotivas dava menos pressão, era ruim, tinha caldeira suja. Precisava de vez em quando levar a máquina pra oficina, esfriar e fazer uma limpeza pra ela poder produzir melhor. Tem tudo isso. Enquanto que a locomotiva a diesel você encostou, é igual o carro. Anda mais fácil que o carro. A locomotiva a diesel você encostou no tanque enche de óleo ali o negócio de óleo, e você tem uma alavanquinha desse tamanho. É um ponto dois, três, vai graduando ali. Sentadinho ali, ó. Tem uma água gelada do lado (risos).

P/2 – Muda tudo, né? (Risos).

R – Oh, a diferença é grande demais.

P/1 – Pensando aqui, então a figura do foguista de locomotiva foi extinto?

R – Foi extinto. Porque agora é maquinista auxiliar. Assim mesmo não está usando mais o maquinista auxiliar, bem poucos trens que conduz maquinista auxiliar. Hoje é só maquinista e está acabado. O maquinista hoje, o que era aquele monte de gente pra puxar um trem com 12 carros, 24 carros, hoje é uma locomotiva, duas, três locomotivas uma engatada na outra puxa 180 vagão. 18 mil toneladas. Um homem só. Leva lá, ó. Pega em Itabira, com 4 horas está em Valadares. Vão cinco horas de viagem de Valadares ao Porto de Tubarão. Faz 70 km/h, 65, 70 km/h, né?

P/2 – E quando o maquinista auxiliar intervia? Como é que era o...

R – Não fazia nada. Apenas porque a locomotiva de vez em quando a gente tinha que olhar ver os funcionamento do motor, se não tem algum cano quebrado. Porque ali tem, corre água, corre óleo, né? Aí a gente vai olhar. O auxiliar é pra isso. Às vezes tem uma manobra pra fazer, o auxiliar ajuda numa manobra, num local de pegar um carro, no caso. O que é muito difícil, mas tendo o auxiliar... Às vezes o detentor de descarrilamento acusa o descarrilamento – porque um trem com 180 carros ele tem mais de dois km de tamanho, né? Então às vezes o detentor de descarrilamento, porque hoje o negócio estão tudo japonesado mesmo, né? Então ele chama pelo rádio, ele fala com o maquinista: “Ó, acusou o detentor de descarrilamento. Para aí. Para aí, que precisa examinar.” Aí às vezes acontece mesmo descarrilar um carro no meio da composição. Então o auxiliar é pra isto. Ele sair: “Ó, acusou”. Então o auxiliar às vezes a noite, pega a lanterna, e vai olhando ver se tem por acaso algum carro fora da linha, né? Costuma às vezes ser um falso alarme, né? Mas geralmente quando acusa é que aconteceu mesmo, né?

P/2 – Certo.

R – Então aí toma, o próprio CTC que é o chefe de controle, toma as providências.

P/2 – Senhor Abner, como é que foi o momento da chegada dessas locomotivas? Qual foi o impacto que causou quando essas locomotivas estouraram...

R – O impacto era grande demais. Porque com aquela mudança a gente viu a melhoria das condições de trabalho, né? Porque você já pensou o murro que a gente dava numa locomotiva a vapor pra fazer uma viagem inteira sentado numa locomotiva diesel sem precisar de mexer com nada? Ah, diferença muito grande. Então aquilo ali foi um comentário mesmo, muito grande. Quando a gente falava, antes delas chegar, que se falava isso muita gente nem acreditava: “Ah, que conversa!” (Risos).

P/2 – (Risos) Mas o pessoal chegou a ficar temeroso de perder o emprego?

R – Não, isso não. Não ficou não. Em momento nenhum não teve isso não. Mas foi muito bom.

P/1 – Mas o que é que aconteceu com os foguistas por exemplo?

R – Virou auxiliar de maquinista.

P/1 – Auxiliar de maquinista.

R – Maquinista auxiliar.

P/1 – E o limpador graxeiro?

R – O limpador graxeiro passou também pra auxiliar. Todo mundo auxiliar de maquinista.

P/1 – Todo mundo foi reaproveitado então.

R – Foi aproveitado, a Companhia não mandou ninguém embora. Por causa disso, não.

P/2 – E teve algum tipo de festa, de comemoração quando essas primeiras locomotivas chegaram?

R – Não, não teve não.

P/2 – Então o senhor de auxiliar graxeiro passa imediatamente a maquinista? Como é que é essa sua...

R – Passei pra foguista primeiro.

P/2 – Ah, pra foguista, sim.

R – Depois maquinista.

P/2 – De foguista pra maquinista já na locomotiva diesel.

R – Diesel, é.

P/2 – E como é que era o seu trabalho, como é que...

R – Bom, como maquinista eu acho que você sabe. Tem maquinista aí do metrô, aí, né? É aquilo ali né? (Risos).

P/2 – Hum, hum. Sei. Mas eu digo: como é que era o cotidiano? O senhor, é...

R – Não, era por escala. A gente trabalhava por escala. Todo dia saía a escala de serviço na, no lugar chamado composição. Na composição tinha o quadro de escala de serviço. Tinha por exemplo, eu cheguei de viagem hoje, cheguei de viagem. Então eu vou olhar a escala. Eu tenho o direito de pegar serviço 10 horas depois da minha deixada. Mas muita das vezes não precisa de meu serviço 10 horas depois. Então eles me escala às vezes pro outro dia. Então pode me escalar pra sete horas, pras oito... É conforme a necessidade do trabalho. À medida em que você vai chegando, você vai entrando na fila pra pegar escala pro outro dia. Então os primeiros a chegar serão os primeiros a sair. E assim a coisinha era bem controlada. Então, por isso que você chega de viagem, vai pra casa, descansa e a tarde você vem olhar a escala pra saber que horas você vai pegar amanhã. Isso hoje não é mais assim porque eles já dão a escala do mês todo, pelo computador, e dá a tabela na sua mão, você leva pra casa e você sabe o que vai fazer o ano todo.

P/2 – Agora, seu Abner, do ponto de vista das mudanças que a locomotiva diesel elétrica trouxe para a Companhia, o que mudou exatamente? Não só no trabalho, mas no transporte da carga?

R – Aí, mudou muito. Porque aí passou a puxar uma quantidade maior de vagão, conseqüentemente mais minério, não é isso?

P/2 – Hum, hum.

R – Mais minério. Então aí foi o quê? Foi o crescimento. A Companhia inclusive se viu na necessidade de construir outra linha. Tanto que era uma linha e passou pra ser duas. Agora já é duas linha, de fora a fora.

P/2 – Duplicação, né?

R – Isto. Melhor desenvolvimento do transporte de minério, né? Então isso aí foi uma das mudança muito grande. Porque quando as locomotiva diesel começaram a operar mesmo, eu creio que foi aí que a Companhia começou a ganhar um dinheiro mesmo. Porque a gente via falar, a gente tinha um lugar lá, por exemplo em Pedra Macaco, quando a gente ia descarregar minério para embarco do navio, muitas das vez o cais estava cheio, a gente estava com a locomotiva parada porque não cabia mais no cais o minério. A gente ficava ali esperando vaga pra poder derramar o minério lá no cais, e o navio encostado, e: “Mas porque é que não embarca pra desocupar aqui?” Aí eles falava: “Não, os americanos têm que pagar primeiro.” Então só começava o embarque de minério depois que o dólar entrasse aqui no Rio de Janeiro, no cofre da Companhia. Aí eles davam o telegrama: “Ó, o americano pagou”, “Então vamos embarcar.”

P/1, P/2 – (risos)

R – Primeiro é o dinheiro, depois o embarque.

P/2 – Pra não haver prejuízo, né?

R – É, não ter confusão, né? (Risos).

P/2 – E já aconteceu alguma vez de alguma confusão dessas? Não?

R – Não, não aconteceu porque eu acho que desde o princípio eles adotaram esse sistema, né?

P/2 –Hum, hum. Sei. E a quantidade de vagões, qual passou a...

R – É, a coisa foi sempre mudando pra melhor, né? Sempre aumentando. Sempre aumentando a quantidade de vagão. Que começou as MG, uma locomotiva, a chamada baú, puxava 30. Depois chegou umas outras locomotivas mais possante, passou a puxar 40. E depois eles adotaram aquele sistema do acoplamento de uma locomotiva na outra, aí duas virava uma, puxava 80, né? Aí veio as locomotivas maiores ainda, que já puxava, uma só puxava os 80. E foi indo, foi indo, hoje duas locomotivas puxa 180. Aí já é os carro maior. Porque naquela época a MG, como eu falei antes, era de 30 toneladas. Ô, 14 toneladas, a MG. Hoje, a MI, o carro grande hoje, é 72 toneladas, cada um carro. E as duas locomotivas puxa na base de 18.000 toneladas de minério, de uma só vez.

P/1 – Por causa disso, teve que, a estrada de ferro mudou ou ficou...

R – Não, mudou os trilhos.

P/1 – Os trilhos.

R – Os trilhos mais grosso, porque os trilho fino não suportava aquele peso com a velocidade, né? Ele quebrava. Então a Companhia mudou os trilhos, os trilhos mais grosso e duas linhas pra facilitar o transporte.

P/1 – O senhor falou agora do... Quando o senhor chegava no porto. Como é que era o trabalho de vocês ajeitar o vagão pra descarregar, como é que era isso?

R – Ah, o vagão era aberto por baixo. Tinha uns homens lá com umas marreta que abria o vagão, na marretada. O vagão de ferro, ele tinha uma, como é que fala? Uma tramela que travava assim, por baixo. Aí o homem chegava e metia a marreta aqui e ia abrir. Um homem de um lado, outro do outro. Abria, aí o minério caía por baixo. Porque ela já entrava, a locomotiva entrava com o minério no chamado silo. Aí ele derramava já correndo lá pra boca do navio. Porque esse silo foi armado em cima da pedra. A pedra era mais ou menos assim, ó. Aí fizeram o porto lá, do navio, lá embaixo, aí era só você derramar o minério ele corria pra lá. Agora, tinha umas coisas com um gancho assim, que um homem operava, eles chamavam de “puxa saco”. Eu não sei como é que era o nome. Porque ele puxava (risos) algum minério que ficava nos cantinho lá, ele ia lá e puxava (Risos).

P/2 – Esse era o “puxa saco” (risos).

R – Era o “puxa saco” (risos). Era desse jeito. Mas eu sei dizer, é até divertido, né? Mas a coisa funcionou muito bem, sabe. Muito bem. Eu acho que foi. A Companhia foi só desenvolvendo, foi só melhorando, só melhorando. A ponto que com o correr dos tempo, depois que ela aproveitou esses foguista, limpador graxeiro, coisa e tal, que ela se viu na necessidade de admitir gente, aí só entrava lá quem tinha segundo grau. Como está até hoje. Compreendeu? Se não tem segundo grau não precisa nem passar perto lá.

P/2 – Mas pra função de maquinista, mesmo?

R – Pra qualquer função.

P/2 – Qualquer função?

R – Qualquer função. A Companhia hoje não admite quem não tem segundo grau. É. E ainda vai fazer um curso no Senai pra poder depois, porque se ele passar nos teste ele vai fazer um curso no Senai. Aí é que ele é admitido.

P/2 – E isso foi a partir de quando?

R – Ah, isso foi a partir acho que de 66, por aí, que ela começou a admitir gente. Porque ela ficou muitos anos sem admitir gente. Porque com a mudança de locomotiva a vapor pra locomotiva diesel, ficou com muita gente. Ela não precisava de admitir ninguém porque tem que aproveitar os próprios empregados. Então ela foi aproveitando ali até quando não... ou quando aqueles já não estavam satisfazendo os desejos. Aí então ela começou a admitir gente. Aí foi que ela exigiu o segundo grau. Aí já era mais fácil as pessoas terem o segundo grau e ir pra lá. Porque não ia dar aquele murro, né, que a gente deu no princípio.

P/1 – Esse processo de descarregamento que o senhor acabou de falar, era em que porto?

R – Porto de Vitória.

P/1 – Porto de Vitória.

R – É.

P/1 – O senhor fez também descarregamento no Porto de Tubarão?

R – Cheguei a levar trem lá no Porto de Tubarão. Mas descarregamento não trabalhei. Porque já era serviço de manobra do povo interno ali. A gente que chegava de viagem entregava o trem e ia embora. A descarga já era por conta de outros trabalhadores. Outro setor. Eu chegava com o trem em Tubarão, corta a locomotiva, bota no depósito e vamo embora pra casa.

P/1 – Deixava todos os...

R – Por conta do povo interno ali.

P/2 – Os vagões ficavam?

R – Ficavam. Aí eles é quem vão fazer descarga, distribuir, puxar e coisa e tal. Tudo é pessoal interno ali em Tubarão.

P/2 – O senhor não tinha que esperar descarregar?

R – O pessoal que chega de viagem não faz nada ali. Ele entrega o trem.

P/2 – O senhor não precisava esperar descarregar?

R – Não.

P/2 – Aí depois voltava o trem, pegava todos os vagões, como é que era?

R – Não, ali, porque a coisa agora é assim: você chegou de viagem em Tubarão, entrega o trem, já tem um carro se você é dali de Vitória ele te leva em casa, se você não é de Vitória ele te leva num hotel, entendeu, pra você depois pegar sua escala e ver o que é que você vai fazer amanhã ou depois. Entendeu? Isso aí na hora de você voltar outra vez pra trabalhar a Kombi vai te buscar.

P/2 – Sim, eu digo: mas e os vagões?

R – Os vagões fica lá em Tubarão. Lá eles faz a descarga, eles preparam o trem, faz tudo direitinho. Quando você chega, você que vai viajar, aí você já encontra tudo pronto. É só você entrar na locomotiva, pegar a licença e partir.

P/1 – Vocês tinham um pernoite pra fazer, né, vocês chegavam na hora, dormia e no dia seguinte...

R – Isso, é. Descansar e no outro dia pegar o serviço.

(pausa)

P/2 – Senhor Abner, em fins dos anos 50 a estrada de ferro Vitória-Minas, ela passa por um processo de reaparelhamento, né? O que muda na ferrovia a partir daí? O que o senhor vê de novo na ferrovia? O que começa a surgir?

R – A partir de?

P/2 – A partir de final dos anos 50. O que o senhor observa assim de mudança na ferrovia? Duplicação da ferrovia?

R – Aí foi só mudanças, né? Porque quando, eu comecei em 48 conforme já foi falado.

P/2 – Hum, hum.

R – Quer dizer, em 1950 por exemplo, na época que eu entrei em 48, já foi a época do desenvolvimento da Vale do Rio Doce. Porque teve o tal de renovação. A renovação era o quê? Mudanças em tudo. Em tudo. Então ela foi melhoramento na linha, melhoramento de locomotiva, melhoramento em conservação de vagão, e melhoramento, adestramento de pessoal fazendo curso. Essa coisa toda. Isso tudo faz parte do desenvolvimento que a Vale teve até hoje, né? E isso começou com a chegada das novas locomotivas. Porque até então, antes de eu entrar na Vale eu já via falar que as locomotivas eram alemãs, de 1944. Era umas locomotivas muito fracas, muito pequenas coisa e tal. E a partir de 44 que chegou as locomotivas americanas, a vapor, né? Americanas, as chamadas “Mikado” é que foi melhorando o transporte. Mais força, mais... isso aí. Foi a partir de quando eu entrei em 48 estava em pleno desenvolvimento a Vale do Rio Doce. E aquilo foi só melhorando cada dia mais, né?

P/2 – Então essa estrutura da ferrovia ela muda em decorrência das locomotivas...

R – Das locomotivas.

P/2 - ...das novas locomotivas diesel.

R – É, isso aí.

P/2 – E aquela coisa da bitola? Da mudança de bitola?

R – Não, bitola não teve mudança. A bitola é a mesma até hoje.

P/2 – Na estrada de ferro Vitória-Minas?

R – É, até hoje a bitola é a mesma. A mesma bitola. É um metro.

P/2 – Bitola de um metro, né?

R – É um metro.

P/1 – Eu tinha uma curiosidade senhor Abner: o senhor chegou a falar que conheceu Porto de Tubarão?

R – Hum, conheci.

P/1 – Qual foi a impressão, quando a primeira vez que o senhor chegou e viu aquilo tudo? E já tinha ouvido falar, suponho eu, né? Qual foi a impressão?

R – Olha, a impressão foi muito grande, pelo seguinte, por causa do tipo de navio que Tubarão passou a receber. Porque no porto de Vitória, os navio era só pegava 10 mil toneladas. O porto de Vitória não comporta um navio de maior estrutura. É 10 mil toneladas, pronto. O navio estava carregado. Hoje o navio vem do Japão, pega 300 mil toneladas no Tubarão. Então a coisa é estrondosa. Uma coisa fora do comum.

P/1 – E como é que é a chegada? Você chega de cima, você chega na planície?

R – Tudo é planície. Tudo é planície lá.

P/2 – Tudo plano.

R – É tudo plano. Lá é um negócio muito bonito mesmo. Uma planície muito grande. É. E o pátio é um pátio enorme, ele comporta milhões de carros, milhares de carros. Por isso que comporta ali o pessoal interno fazer aquele serviço conforme eu já falei, porque por exemplo, eu que chego de fora com um trem, eu não tenho nem condições de trabalhar naquele pátio. Porque é preciso conhecer aquele pátio. Apesar que a gente trabalha controlado pelo rádio, essa coisa toda. Mas é bom que a pessoa tenha conhecimento onde é que ele está pisando, né? Então por isso que as pessoa que chega de fora, ele entrega o trem pro pessoal lá que são mais treinado com aquele pátio.

P/2 – Então há uma substituição...

R – Isto. Imediato. Você chegou lá você entrega o trem. Você não mexe mais com ele. Chegou com o trem você vai embora. Você entrega o trem para outra equipe.

P/1 – Aí quando vocês iam embora, vocês estavam de folga né?

R – É.

P/1 – O que é que vocês faziam na folga?

R – Ah, rapaz, nada. O que é que a gente ia fazer? Porque as folga a gente tira pra dormir, porque a gente viaja dia e noite, praticamente, não é? Dia e noite. Então aquele tempo que a gente tira de descanso e de folga às vezes a gente faz algum negocinho uma compra, uma coisa. Mas o tempo maior é dormir. É dormir. Você vê, eu praticamente eu vivi uma vida inteira na Vale do Rio Doce. Eu entrei em 1948 com 19 anos de idade. Eu saí em 1980 com mais de 50 anos, 51, 52 anos. Foi uma vida inteira dedicada a esse trabalho na Vale do Rio Doce. Eu não fiz nada. Fiz nada. Graças a Deus que eu criei minha família, meus filhos. Todo mundo é formado, né? Quer dizer a minha filha mais velha não é formada, mas os outros são todos quatro são formado, né? E graças a Deus são todos evangélicos. E nós levamos uma vida muito boa ultimamente. Nós temos casa própria, nós temos carro, nós temos, né? Tudo bem. Que é o que a gente não tinha na meninice, né?

P/2 – Seu Abner, pegando um pouco o gancho da pergunta dele, o que vocês faziam no horário de folga? Como é que era o cotidiano de trabalho, as brincadeiras? Tinha um clima de descontração? Mesmo durante o trabalho amizade dos colegas. Havia brincadeiras, gozação?

R – Havia demais. Muitas brincadeira. Por exemplo, quando a gente viajava, assim, naquela época máquina a vapor era muita gente empregado. A gente chegava de viagem, a gente sempre tinha um local como por exemplo chegava em Drummond de viagem a gente tinha o local onde a gente jogava bisca, né? Jogava bisca, jogava sinuca, bebia, né? A gente fazia aquelas coisas todas quando aí a gente descansava porque na hora de viajar a gente tinha que estar 100%, né? Então a gente tinha que descansar pra ir trabalhar. Porque apesar de quê, que muitas vezes muitos bebia e coisa e tal, mas o sujeito levava a sério o seus trabalho, né? Ninguém ia por exemplo pro trabalho com cara cheia, essa coisa não. Lá o negócio era sério. Porque se você chegasse lá com cheiro de bebida eles não deixavam você pegar serviço. E aí você ia perder seu dia, e aí tinha a punição. Porque a Vale tinha um tal de punir o sujeito com um negócio de gancho que eles falavam. Gancho o sujeito fez uma coisa errada: pega três dias de gancho. Era três dias que você ia perder de serviço, né?

P/2 – Descontava no salário?

R – Descontava, é, no salário. Então ninguém está aqui pra isso, né? (Risos).

P/2 – Mas era comum casos de bebida, assim?

R – Não, era mais comum. Era comum sim. Beber era comum. Todo mundo praticamente bebia, agora, embriaguez não era comum não.

P/2 – O pessoal se segurava, né?

R – É.

P/2 – Na hora de trabalhar...

R – É. Isso aí.

P/2 – E o senhor, se lembra, se recorda de algum caso interessante, alguma história engraçada desses anos de estrada de ferro?

R – (risos)

P/2 – Alguma gozação? Alguma coisa? (Risos).

R – É rapaz. Isso aí. Agora eu não estou preparado pra, né? Aconteceu muita coisa, mas a gente não lembra. Isso é difícil.

P/2 – Algum caso assim interessante?

R – Ë rapaz, um caso interessante, né? É um caso interessante. Estou lembrando aqui de um caso lá em Periquito, que muita gente não acredita em coisas, né? Lá em Periquito eu estava com um trem parado lá pra dar desvio ao trem de passageiro chamado rapto. O rapto vinha, então colocou no desvio pra passar o rapto. E chegou um cidadão e falou pro agente da estação assim: “O rapto vem aí moço?” Ele falou: “Vem.” “O senhor me vende uma passagem aí que eu vou descer.” Aí o moço falou assim: “Não, o rapto não pára nessa estação. O rapto aqui na estação de Periquito ele passa direto. A chefia não autoriza parada aqui.” Aí o moço falou assim: “Mas eu preciso de descer! O trem vem aí, como é que faz?” “Não tenho recursos pro senhor. O trem não pára aqui.” Ele falou: “Pois o trem vai ter que parar pra mim.” Falou: “Não pára. O trem não pára.” Aí naquela época a licença do trem era feita por telegrama. Toda estação tinha um telégrafo e copiava um telegrama de uma estação pra outra autorizando o trem a circular naquele trecho, entre estações. Então essa licença era por telegrama, e ele enrolava esse telegrama num papelzinho e ele tinha um arco de arame já próprio, que a Companhia favorecia. E ele engatava aquele telegrama no arco e pendurava. Já tinha o poste próprio pra pendurar aquele telegrama. Quando o trem vinha, o trem não parava. O maquinista enfiava o braço naquele arco, e “vupt”, aquele arco socava e ele pegava a licença do trem. Mas sem aquilo ali o trem não podia circular. Então o homem ficou lá dizendo: “Eu preciso descer.” Ficou lá, ao o agente chegou: “O trem não vai parar.” Ficou aquela teima. Aí o agente chegou, quando o trem estava se aproximando ele foi lá e pendurou o arco. Ai quando o trem apontou lá na curva o homem olhou pra licença e falou assim: “Eu preciso descer.” Pois rapaz, antes do trem chegar a licença caiu. A licença caiu antes do maquinista chegar nela. Caiu. Como o trem não pode circular sem ela o trem parou lá na frente. O homem pegou a pastinha dele e falou: “Eu preciso descer.”

P/2 – (Risos)

R – (Risos) E entrou no trem (Risos).

P/2 – (risos) Sorte dele. (risos)

R – Eu ein!

P/1 – O senhor teve que aprender... telégrafo?

R – Telégrafo? Não, não. Aquele era serviço dos agentes. Agentes de estação, né?

P/2 – Agora senhor Abner, esse sistema de telégrafo, ele fica... ele dura até quando? Durante, porque depois a ferrovia ela passa por um processo de sinalização, né?

R – Ah!

P/2 – Eles implementam a sinalização?

R – Isto. Eu não me lembro a data que foi extinto...

P/2 – Sim, mas...

R - ...o sistema do telégrafo, não.

P/2 – Hum, hum.

R – Não me lembro não. Porque com a nova sinalização, que o maquinista passou a receber o sinal dentro da locomotiva, o sinal luminoso dentro da locomotiva, foi extinto o telégrafo. Porque o maquinista não precisa pegar licença através de telegrama pra circular. Ele olha o sinal dentro da máquina. Então o sinal deu verde ele vai embora com o trem dele. Deu amarelo é pra ele diminuir a marcha. Deu vermelho ele tem que parar.

P/2 – Esse sinal ele parece dentro da máquina?

R – Dentro da locomotiva.

P/2 – Na cabine do maquinista?

R – É, na cabine do maquinista. Então hoje é esse sistema. Quando houve a mudança... Eu não tenho lembrança da época, não. Da data, não.

P/2 – Não.

R – É. É isso aí. E esse sistema está funcionando lá. Esse sinal até hoje. É linha sinalizada.

P/2 – Linha sinalizada. Isso mesmo.

(pausa)

p/1 – Bom eu queria saber o seguinte: o senhor, a rota pra tubarão na era a do senhor?

R – Não.

P/1 – Qual a rota do senhor?

R – Era Valadares-Itabira.

P/1 – O senhor morava em Valadares?

R – Morava em Valadares. Era destacamento de Valadares. Eu era destacado lá.

P/1 – E quando lhe falaram pro senhor que ia mudar pra Valadares, já conhecia? Já tinha ouvido falar, já tinha ido antes?

R – Já, porque quando eu comecei a viajar foi de Porto Velho pra Valadares. Quando eu fui transferido pra Valadares eu já conhecia aquele trecho.

P/2 – Hum.

R – É.

P/2 – E como é que o transporte nesse percurso de Valadares? O minério saía de Itabira.

R – Hum.

P/2 – Certo?

R – É.

P/2 – Qual era o percurso que ele fazia com o senhor?

R – Ah, esse percurso ali, tinha variação de tempos. Oito horas ou menos um pouco, ou mais um pouco. Você não tinha assim um específico. Porque o trem tem seu percurso, mas tem também as suas inconveniências durante o trajeto que pode acontecer que o trem atrasa. Aumentar nunca aumenta mas sempre costuma atrasar, né?

P/2 – Sim, isso de duração, né?

R – É. De duração.

P/2 – Agora qual é o percurso, que trechos vocês percorriam?

P/1 – Que cidades vocês passavam?

P/2 – Que cidades vocês passavam, que regiões?

R – Ah, porque aí a gente tinha uma tabela na mão com o percurso do trem. De estação para estação. Isso é uma coisa que a gente não sabe. Mas eu tenho muita lembrança mesmo que a gente saía de Governador Valadares a primeira estação acima era Baguari. Então era 19 minutos aquele percurso. E assim sucessivamente: de Baguari à Pedra Corrida, tantos minutos. E assim a gente trabalhava com o relógio e a tabela na mão.

P/2 – Sei.

R – É porque se por acaso o trem atrasasse nesse percurso a gente tinha que justificar com o seletivo. Ele perguntava: “Ô, atrasou por que?” Às vezes ele chamava até na estação pra gente informar porque atrasou.

P/2 – Mas o percurso era sempre no sentido de Vitória, né?

R – Eu estou falando no sentido de Valadares para Itabira. O meu trecho.

P/2 – Sim. O do senhor já é de Valadares para Itabira. E agora o senhor foi maquinista só de, o senhor só transportou, só conduziu trens de minério de ferro?

R – É, eu não cheguei a trabalhar num trem de passageiro não. Só trabalhei no minério.

P/2 – No minério, né?

R – No minério.

P/1 – Senhor Abner, quando que o senhor conheceu a sua esposa?

R – Ah, eu conheci minha esposa num jantar, né. Ela tem uma irmã casada com um rapaz que era meu colega de serviço. Aí esse colega me chamou um dia pra mim jantar com ele na casa dele. Eu fui. Cheguei lá eu conheci ela lá. Era cunhada dele. Eu conheci ela lá. Aí, dali nós começamos. Parece que foi até uma jogada, um negócio (risos), esse convite.

P/1 - O senhor era maquinista na época?

R – Era maquinista. Porque quando eu casei eu já tinha 10 anos de serviço na Vale.

P/2 – Qual é o nome da sua esposa?

R – Terezinha Dias Amaral.

P/2 – Terezinha Dias Amaral.

P/1 – Conheceu ela e depois?

R – Daí a seis meses nós casamos. É.

P/1 – Rápido, né?

R – Foi, foi. Bem rápido.

P/1 – E, bom, os pais da moça?

R – Ela não tinha pai.

P/1 – Não tinha pai.

R – É, então tinha mãe. Ela tinha mais umas irmãs. Ela teve quatro irmãs que casaram com empregado da Vale.

P/1 – Quer dizer todas casaram...

R – Casaram com empregado da Vale. E duas delas já é viúva. Não. Uma morreu e outra é viúva.

P/2 – E o senhor tem filhos?

R – Tenho cinco filhos.

P/2 – Cinco filhos?

R – É.

P/2 – E depois de casado quando veio o primeiro?

R – Quando eu casei eu já tinha uma filha, né? Com 2 anos de idade. Porque ela é de 56 eu casei em 58. Combinado com Terezinha nós registramos essa menina como nossa filha legítima. Agora com a Terezinha nós tivemos quatro. A mais velha é Ângela Maria, depois veio Denise, Danilza, Abner e Graciano. Total, cinco.

P/1 – E eles... A atividade deles, qual é?

R - A Denise é professora, a Danilza é professora, o Abner é supervisor na Cenibra e o Graciano é engenheiro eletricista.

P/2 – O senhor teve seus filhos, todos eles, o senhor ainda era maquinista da...

R – Da Vale do Rio Doce.

P/2 – Da Vale do Rio Doce.

R – Eu fui maquinista toda vida. Até sair, né.

P/2 – O senhor se aposenta em que ano?

R – Se aposentei em 1980.

P/2 – 1980.

R – É.

P/2 – Hum, hum. E como é que foi deixar a Companhia Vale do Rio Doce?

R – Ah, foi difícil. A gente é muito acostumado, muito acostumado a trabalhar, a viver fora. Porque a gente vivia viajando. A gente não tinha nem o costume de ficar em casa, né? Então aquilo ali quando que a gente aposentou, que viu que não tinha mesmo atividade, foi um negócio ruim. Monótono mesmo. A gente não tinha aquela atividade que... Até já ri muito eu tinha um colega, eu tinha um colega que ele se aposentou antes do tempo, porque ele era doente. Ele se aposentou por invalidez. Aí um dia eu conversando com ele eu falei com ele que eu estava muito sem jeito, eu ia aprender a dirigir carro pra mim poder tirar uma carteira de motorista pra mim trabalhar de motorista de táxi porque eu estava muito sem jeito de tanto ficar à toa. Aí ele falou assim: “Ah, você porque não estava preparado pra aposentar como eu. Eu, se a luz lá em casa queimar a lâmpada, queimar na hora da mulher fazer janta e o Daniel não estiver em casa fica até ele chegar pra trocar a lâmpada. Porque eu não troco. Eu estava preparado pra aposentar.” Aí eu fiquei com vergonha de envergonhá-lo.

P/2 – (Risos).

R – É, porque como que ele estava preparado pra aposentar se ele se aposentou por invalidez? Não é? Quem deveria estar era eu, eu aposentei por tempo de serviço, né? Mas eu não quis falar isso com ele, mas ele me deu uma chance danada, né? (Risos).

P/2 – (Risos)

R – Pois é. É isso aí. Mas acabou que eu não fiz isso não. Eu não fui trabalhar de motorista coisa nenhuma e eu fiquei à toa até hoje, né? Agora é assim: eu faço uma caminhada de manhã, eu faço de tarde. Tem às vezes um programa na igreja. Tem às vezes um programa na Associação Ferroviária, a gente vai pra lá. Outra hora a gente olha lá. Eu não gosto de tomar banho de piscina, eu não tomo banho na piscina mas eu fico olhando os outros e coisa e pronto. E assim a gente leva a vida.

P/2 – O senhor falou agora da Associação Ferroviária?

R – É, lá tem uma Associação Ferroviária, eu sou sócio dela, né? É um clube onde tem campo de vôlei, futebol, piscina, bar, essas coisas assim. Então é dos aposentados e também do povo ativo.

P/2 – Da Companhia Vale do Rio Doce?

R – Da Vale do Rio Doce. É, então a gente vai lá de vez em quando. Lá tem um lazer, né?

P/2 – O senhor vai com a sua família?

R – É. Nós somos sócios lá.

P/1 – E a Valia, o senhor entrou nesse plano de...

R – Entrei no plano da Valia desde quando ela foi criada. É, em 73.

P/1 – Quando, como é que foi ouvir isso, essa proposta? O senhor achou que era uma boa? Ficou com...

R – Olha a gente achou muita vantagem. Aí a gente não acreditava por causa das vantagens que eles ofereciam. Era tantas que: “Ah, isso é mentira.” A gente não acreditava, não. Não acreditava. Mas como ela veio com um plano, pelo menos no meu caso, ela veio com o plano de emprestar dinheiro, e eu estava precisando de dinheiro emprestado e tinha um tal de Vander que era o chefe lá, eu falei: “Vander, eu me fazendo sócio imediatamente vocês faz o empréstimo?” Ele falou: “Faço na hora. Faz sócio e eu faço o empréstimo e no pagamento o dinheiro vem.” Eu digo: “Opa, é isso mesmo que eu estou querendo.” Aí me tornei sócio da Valia e fiz um empréstimo e toquei minha casa que eu estava construindo a minha casa. Com aquele dinheiro eu dei um avanço lá. É.

P/1 – Hum, hum.

R – E muitos que hoje estão chorando arrependidos porque não tiveram assim, talvez, uma chance dessas que eu tive e não acreditaram. Porque o povo não acreditava mesmo, não. Eles oferecia muita vantagem. Porque o estatuto hoje mudou, não é aquele mais. Mas de qualquer maneira a gente ainda está ganhando, né? Então aqueles que não acreditaram, não se fizeram sócio e hoje estão arrependido. Porque eu tenho colega maquinista aí que ganha 900 reais por mês e é muito pouco. Porque ele não tem, por exemplo a Valia, e não ganha. O INSS tem um limite de... como é que fala? Eles tem o teto.

P/1 – Teto.

R – Eles tem o tal do teto, e o teto deles não é nada mais do que 1200 reais. O teto. É. Não paga mais que isso não. Então muitos só ganha isso. Enquanto que a Valia dá outro tanto por cima disso aí. É. Pra muitos. Porque alguns, eu que aposentei já tem 20 anos não ganha assim tanto. Mas eu tenho colegas que chega a ganhar 4.000 reais na Valia, por mês. Enquanto que ele ganha 900, 1000 no INSS.

P/1 – Hum, hum.

R – É.

P/1 – O senhor recebeu o dinheiro da Valia e terminou de fazer a casa?

R – É, não deu pra terminar mas deu um avanço muito grande.

P/2 – A casa onde o senhor mora hoje?

R – Onde que eu moro hoje. Eu terminei essa casa em mil novecentos e... eu acho que.. nós mudamos em 72 pra ela. Mas eu terminei lá por volta de 1980, por aí.

P/1 – E quem mora nessa casa atualmente?

R – Eu, minha esposa e agora nós tem dois netos, né? Morando lá porque eles estão estudando. Porque eles são da Bahia, são baianos e lá na cidade deles, Eunápolis, onde eles foram criados não tem um estudo suficiente que eles estão precisando. Então eles vieram pra Valadares. Uma moça já fez vestibular, não passou, está fazendo cursinho. E o rapaz está fazendo também vestibular agora pra ver se segue carreira nos estudos. Então eles moram com a gente lá.

P/2 – Seu Abner, ainda com relação a Vale do Rio Doce, qual o balanço que o senhor faz hoje da sua experiência na Vale? Como o senhor avalia todos esses anos de trabalho, de dedicação à Companhia Vale do Rio Doce? Pra sua vida, o que é que...

R – Bem, eu não estou bem certo se eu vou responder a altura, porque eu não entendi bem a sua pergunta.

P/2 – É, o que o senhor achou de ter trabalhado na Vale do Rio Doce, de ter sido funcionário da Vale do Rio Doce?

R – Ah, isso aí a impressão é melhor possível, né? Porque, como já foi falado do princípio o que eu fui, o que eu era, né, e o que eu sou. Porque eu devo justamente ao emprego da Vale do Rio Doce. Eu hoje tenho minha casa própria, porque meu pai não deixou nada pra mim, nem minha mãe. Eles não tinha, como é que eles ia deixar, né? Então tudo o que eu tenho: meus filhos formado, minha casa própria, carro, telefone, tudo, é através do emprego na Vale do Rio Doce. Então eu tenho que agradecer a Deus e à Vale esse emprego que eu adquiri naquela época. Que inclusive eu criei muita amizade lá na Vale, eles chegaram a colocar uma placa com meu nome na sala de espera lá em Valadares. Eles colocaram uma placa de bronze com meu nome: “Sala de espera maquinista Abner Dias.” Mas como essa placa foi colocada sem autorização da chefia, foi feito pelos colegas, colocaram por conta própria, o Doutor Romildo mandou arrancar e sumiu com ela, né? Ela não permaneceu. Mas foi feito isso através da minha amizade com os colegas.

P/2 – E o senhor até hoje tem contato?

R – Com os colegas?

P/2 – Com os colegas antigos da Companhia?

R – Demais da conta. Muito mesmo. Eu tenho um jornalzinho aqui de uma coisa que os colegas fizeram. Lá tem uma Associação dos Maquinistas, pessoal da ativa, né?

P/2 – Sei.

R – Então eles fizeram um, eles tem um jornalzinho mensal, lá. Então eles colocaram, esse jornal, eles fizeram assim, uma espécie de uma homenagem a mim como companheiro com o título de: “Aqueles que deixaram saudade.”

P/2 – Bonito.

R – É. Aqui está. Inclusive esse cidadão parece que já esteve aqui. Se você quiser ler.

P/2 – Ah, o senhor César Giacomin.

R – (Risos) É.

P/2 – (Riso) Isso mesmo. O senhor o conheceu?

R – Conheço, eu moro pertinho da casa dele.

P/2 – Legal. O senhor pode mostrar o jornalzinho pra câmera com sua foto?

R – Dá pra ler?

P/2 – Não, só o jornal. Senhor César Giacomin, acima e senhor Abner Dias, abaixo de bigode. O senhor tinha quantos anos nessa época?

R – Ah, não. Isso aqui é novo.

P/2 – Isso foi...

R – A foto é que é mais antiga (risos).

P/2 – Sim mas isso foi na sua aposentadoria?

R – Foi depois de aposentado.

P/2 – Em 1980?

R – Não, não. Isso foi agora rapaz.

P/2 – Bem recente?

R – Isso aqui é agosto de 95.

P/2 – Ah, bem mais recente.

R – É. Pronto?

P/1 – Que outras alegrias o senhor teve dentro da Vale?

R – Bom, tive muitas, né? Mas uma delas, por exemplo, além dessa aqui, primeiro foi que quando eu aposentei os colegas reuniram colocaram o interfone lá na minha casa, né? Isso aí também foi um gesto de muita amizade entre os colegas, né? E mais alguma coisa. Tem hora que, por exemplo, nós tivemos um encontro dos maquinistas aposentados agora no dia 2 de setembro, bem recente, agora, né? Nós encontramos a amizade foi tanta que eu cheguei a chorar no encontro com os colegas. Porque tanto abraço e tanta, poxa, aquilo foi uma emoção muito grande. Porque agora eu estou me sentindo emocionado só de lembrar.

P/2 - (Risos)

P/1 – Porque a turma reconhece, né?

R – É. Isso ai.

P/2 – E o senhor gostaria de, aproveitando, mandar alguma mensagem pros seus colegas da Vale do Rio Doce?

R – É, os colegas eu queria deixar os meus agradecimentos pela amizade que dedicaram a mim e que eles continuem com essa dedicação com outros colegas que também foram, passaram por nós e junto com nós e que tiveram aqueles momentos às vezes de algumas tristezas, mas tivemos também momentos muito alegres, né? O companheirismo foi muito grande. Então eu quero deixar pros colegas os meus agradecimentos. É isso aí. Se vocês quiserem tirar um xerox aqui pra ficar com isso aqui?

P/2 – Depois a gente faz isso, com certeza.

R – Isso aí. Falou.

P/2 – Senhor Abner, então seu cotidiano hoje, como é que ele passou a ser? Depois de aposentado o senhor arrumou um novo emprego, uma nova atividade profissional?

R – É, eu tive trabalhando na Cenibra, eu fui convidado, meu filho trabalha na Cenibra, né? Então eu fui convidado pra dar umas folga pros maquinistas, a Cenibra tem quatro maquinistas. Então eles dá folga de ano a ano aos quatro juntos. Então eles sempre contratam um maquinista aposentado da Vale, porque aquilo lá também é da Vale, e dá folga aos quatro. Então você dá folga de um em um, de mês a mês um vai saindo, você vai. Quando acaba os quatro meses, manda embora. Então eu trabalhei um período ali em 84, dando folga aos maquinistas lá. Aí depois não me chamaram mais. Mas eles até hoje me parece que eles continuam com esse mesmo sistema.

P/2 – Sei.

P/1 – Isso em relação ao trabalho. O senhor falou então que é evangélico, né?

R – Eu sou evangélico?

P/1 – Como é que aconteceu essa entrada?

R – Não, porque a minha mulher ela é evangélica desde 1964. Então, com o correr dos tempo ela sempre convidava: “Vamos na igreja.” Eu não ia não. “Ah, não vou não.” “Vamos.” Às vezes eu ia e: “Vamos.” “Eu não vou.” E coisa e tal. E aquilo eu passei a entender o plano de salvação, e como eu passei a entender eu me achei no dever de me converter a Jesus. Então é isso aí que me fez passar para ser evangélico.

P/1 – Hoje o dentro da igreja o senhor tem algum?

R – É, hoje eu sou diácono em experiência da igreja Batista em Valadares.

P/2 – Hum, hum.

P/1 – O que é ser diácono?

R – Ser diácono é a pessoa que cuida do, servir a mesa. Então servir a mesa é aí. Eu sou tesoureiro da beneficência da igreja, então eu ajudo as pessoas carentes da igreja. Então nós temos viúvas que não pode pagar o aluguel. Nós temos pessoas que não podem comprar alimentação. Nós fazemos um dia de ceia na igreja, é o diácono que ser a ceia. Então é assim: a função do diácono é servir. Servir. E essa é a minha função na igreja. Como tesoureiro na beneficência eu arrecado, porque eu não faço com o dinheiro do meu bolso não. Mas sou incumbido de fazer a distribuição. Então eu recebo da igreja e faço a distribuição de aluguel e alimento e remédio pras pessoas carentes da igreja.

P/1 – Desde quando?

R – Desde, eu entrei pra igreja em 86, mas como diácono deve ter, foi em 94, por aí.

P/2 – E atividade de lazer que o senhor tem. Além do clube o senhor tem alguma outra?

R – Não, não. Não tenho outra não.

P/2 – Então o senhor olhando pra sua vida, pros seus anos de vida, se o senhor pudesse mudar alguma coisa, no que o senhor mexeria o que o senhor mudaria se fosse hoje? Olhando pro passado.

R – É, olhando pro passado eu me arrependo de não ter aceitado Jesus a mais tempo.

P/2 – Hum, hum.

R – Né, porque a vida com Jesus é outra. Se vocês não tem ninguém aqui evangélico pensem nisso. Porque a vida com Jesus é outra. É uma transformação. O dia que você aceitar Jesus a coisa vai mudar pra você. Eu não quero dizer que você vai ganhar dinheiro, vai acertar a loteria, que você não vai receber doença. Tem tudo isso, mas você tem um conforto no coração através de Jesus.

P/1 – E o que é que o senhor acha de ter deixado a sua história de vida nesse depoimento, para o Projeto Memória da Companhia Vale do Rio Doce?

R – Ó, o que eu senti foi lisonjeado com esse convite. É isso aí. É que eu me sinto honrado em poder colaborar com vocês com alguma coisa. Não sei se satisfiz os desejos.

P/2 – Com toda certeza.

R – Mas eu estou muito satisfeito de ter participado dessa entrevista aqui, né?

P/2 – E o senhor foi muito bem recomendado.

R – Aí no caso de vocês precisar, é só chamar, né? A coisa está... (risos).

P/2 – Senhor Abner, o senhor tem algum sonho de vida, algum projeto pra futuro?

R – Ah, eu assim me sinto realizado. Graças a Deus eu não preciso de nada. O seu depoimento, não me falta nada, não é? Tenho minha família, tudo bem, muito bem estruturada, tudo legal. Então eu não tenho nada a reclamar. Eu com 71 anos de idade, já estou com a idade bem avançada. Mas o ano passado quando eu fiz 70 anos meus filhos fizeram uma festa porque, eu acho que eles achou que eu fui muito longe, né?

P/2 – (Risos).

R – (Risos). Fizeram uma festa daquelas, né? Na igreja. Então tudo bem, tudo bem. Eu fiz 70 naquela época, já fiz 71. E lá vamos levando, né? Agora vai ver se eu fizer 80 eu quero ver o que é que eles vão fazer (risos).

P/1, P/2 – (Risos).

P/1 – Antes vai ter os 50 anos de casado, né?

R – Ainda tem aí os 50 anos de casado que vem por aí, né?

P/2 – É quando?

R – É, nós estamos com 42, ainda falta uns 8 anos, né?

P/1 – 2008.

R – 2008, por aí, né? É isso aí.

P/1 – O senhor chega lá.

R – É, vamos ver se... É isso aí. Deus é que sabe.

P/2 – Senhor Abner a gente agradece a sua participação. O senhor tem alguma coisa pra falar que o senhor tenha...?

R – Não, não tenho nada. Agora eu já fiquei sabendo que o objetivo da entrevista é a recordação do desenvolvimento da Vale.

P/2 – É, resgatar a memória.

R – É, e isso aí vai ser projetado algum trabalho da Vale, como é que vai ser?

P/2 – É, isso vai ser editado, né, vai ser feito um vídeo de depoimentos. Aí tem uma série desse tipo de produtos.

R – Um negócio interno né?

P/2 – É, porque aí depende de uma provação internamente.

R – Muito bem.

P/1 – O senhor vai receber uma fita.

P/2 – O senhor vai receber uma fita.

R – Ah, muito bem. Se tiver um jornal também vocês passam pra mim também, viu?

P/2 – Claro, com toda certeza.

R – Isso aí.

P/2 – Tá bom?

R – Tá bom.

P/2 – Então mais uma vez obrigado.

R – Eu é que agradeço.

P/2 – Foi ótimo.

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