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História

Daniele gostava da cidade mas encontrou sua vocação no interior

História de: Daniele Aparecida Serrão
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Daniele conta de todo processo para se tornar uma empreendedora, atuando na cooperativa e rede solidária e ao mesmo tempo acompanhando o marido nas atividades da área rural.

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História completa

Meu nome é Daniele Aparecida Serrão, nasci em Manaus, no dia 14 de fevereiro de 1976. Fui criada pelos meus tios e avós, lá no interior. Eu só nasci em Manaus e fui pra Itapiranga, interior, município de Manaus.

É, pra mim, eu acho que eu lidei muito bem com isso, porque a minha tia que me criou, ela me ensinou muita coisa. Então, hoje, eu já procuro ver que foi até bom passar por tudo isso, agora, eu acredito que eu faço a diferença. Eu sou uma das pessoas na sociedade que faz a diferença. Acho que a minha história, ela até serve pra muitos que vivem apegados a esse sofrimento a se desapegar e perdoar, porque a minha mãe biológica nunca me falou exatamente porquê que ela não quis me criar e criou os meus irmãos. Ela nunca me falou.

Eu estudei até a metade do fundamental lá no interior, vim pra Manaus com 13 anos, pra viver com essa mãe biológica.

Eu continuei estudando e já fui mesmo trabalhar. [IEBEM] era um programa infantil, eles pegavam essas crianças e arrumavam um trabalho dentro do distrito, que é a área industrial de Manaus. Trabalhava durante o dia, horário comercial e à noite, ia pra escola.

Eu me sentia muito presa, porque é o que a gente é no distrito, na verdade, é uma grande prisão, você passa o dia todinho preso dentro de uma empresa, ali você tem horário pra tudo, pra ir ao banheiro, pra sair, pra comer. Eu era uma criança, 13 anos, então eu me sentia muito presa. E dentro das empresas tem o grêmio, onde eles selecionam as moças pra representar esse grêmio, desfilando e eu fui uma dessas. Então eu passei a viajar muito com eles, desfilando e representando a fábrica. Eu era a rainha do grêmio

Eu achava muito interessante. Gostava mesmo, gostava. Acho que eu trabalhei o tempo no distrito que eu gostei. Depois, eu compreendi que não era bom mais continuar, que eu tinha que sair para me dedicar aos meus estudos. Como eu falei, o distrito tira toda a sua liberdade, porque muitas vezes a gente tem que trabalhar final de semana. Você fica muito cansada pra estudar... Dá vontade de desistir: “Ai, vou desistir, porque não aguento trabalhar e estudar, trabalhar e estudar”. Aí deu, não queria mais.

Com 17 anos, eu tive a minha primeira filha. Eu me casei. Nesse casamento, o meu marido não deixava eu estudar, eu consegui encontrar um homem que ele achava que a mulher era propriedade dele. Eu não tinha direito a estudar, só de tomar conta da casa e da filha. E passei muito tempo vivendo assim. E pra eu conseguir a minha liberdade de volta, eu tive que voltar a trabalhar novamente no distrito. Me separei e voltei. Nesse casamento, eu tive dois filhos. Aí eu conheci o segundo marido. A gente vive junto até hoje.

Ele sempre gostou muito da área rural, já diferente de mim. Eu queria estar era na zona urbana, porque eu achava muito bonita. Com a inauguração dessa fábrica [de polpas], tomou muito o tempo dele, tirava muito ele de dentro de casa, e eu não gostava. E toda vez que ele vinha era uma briga quando ele voltava pra casa. Eu via muita dedicação dele com a fábrica e não com a família. Aí pensei: “Vou me juntar, senão vai ter que separar”, e passei a vim e a fazer parte de todos os eventos da cooperativa. Então, quando tinha um evento que ele precisava receber o pessoal da prefeitura, o pessoal de outros órgãos que vinha de fora, não tinha uma pessoa pra fazer o coffe-break, de receber, aí eu: “Bom, eu vou fazer isso”, e foi assim que começou o sorvete.

Eu passei a gostar. Com isso, eu fui percebendo que na cooperativa tinha muitos homens. “E as esposas?”, eu ficava perguntando. Ficam ansiosas dentro de casa, e eu sei que a gente, esposa, muitas vezes, quando não trabalha, tudo tem que pedir ao marido: pra comprar um absorvente, pra comprar um batom, pra comprar hidratante, e eles nunca dão, eles sempre querem saber: “Pra que tu quer? Em que tu vai gastar?”, e isso às vezes chateia a gente, mulher, né? Eu me colocava no lugar delas. Eu pensei: “Eu sei fazer esse sorvete, eu vou juntar essas mulheres, nós vamos ganhar dinheiro”, eu sempre trocava essa ideia com ele, ele dizia que não ia dar certo. E fiz! Juntei essas mulheres, convidei o Consulado.

Eu ia conseguir identificar as necessidades de cada uma, se eu viesse pra localidade delas, morar. Aí a gente veio morar pra cá. Quando o grupo se formou, eram 18 mulheres. Foi depois de anos, quando se foi estudando pra ver realmente se dava pra fazer uma associação. Não tem um ano ainda que é uma associação. Sabores do Tarumã é bem conhecido dentro dos órgãos, dentro das feiras.

Eu sou presidente da associação. Então, eu não posso impor uma lei pras outras e pra mim fazer diferente. Não! O que é pra elas, é pra mim, também. Então, assim, como eu não estou muito participativa na produção e aqui, na venda direta, eu acho justo que eu não receba por isso, né? Agora, quando eu vou pras feira, elas conseguem perceber que eu tenho direito, não sou eu que to vendo, elas também percebem, aí sim, eu faço parte dessa lista de pagamento.

E cooperativismo não é mais “eu”, somos “nós”. A gente trabalha no termo de cooperativismo, associativismo, você tem que aprender a viver em comunhão com os outros, partilhar ideia e a partir daquela ideia, fazer a coisa crescer.

[Estou fazendo] faculdade, Engenharia Ambiental. Primeiro pelo lugar onde eu vivo, nasci, me criei, que é uma Amazônia tão bonita, e que a gente vê que nós moramos aqui, mas que a gente não tem posse ou domínio daquilo que é nosso, tem que vim de fora para pegar aquilo que é meu e que eu tenho direito, mas que ninguém me dá, ninguém me permite usufruir disso... vai me dar conhecimento de causa, eu vou poder te orientar: “Olha, tu pode. O teu limite é esse, eu vou te acompanhar”, é esse o meu pensamento.

A inauguração da cooperativa, depois do grupo de mulheres, trouxe pessoas novas. As pessoas lá fora passam a conhecer Nossa Senhora de Fátima e, assim, os problemas da comunidade Nossa Senhora de Fátima. Vem gente de fora, quer levar o cupuaçu, a pupunha e eu acho que isso agrega valores aqui dentro.

O sorvete, já que é natural, ele seria bom para os filhos, pras crianças, até a valorizar aquilo que é da sua própria terra. Por que eu tenho que dar valor pro morango ou pra maçã, se ele não é meu? Ele vem lá de fora. Eu tenho que, primeiro, valorizar o meu produto, o meu local. Não tirando valor de frutas de outros locais, mas primeiro eu tenho que sentir o sabor do cupuaçu, gostar dele, falar bem dele, falar das importâncias dele, da vitamina dele, do que passar para outros.

É isso que eu recebo do Sabores, esse conhecimento, essas oportunidades. Não é dinheiro que vai me trazer alegria, também seria, mas foi pelo Sabores, foi pela Agrofruta que eu tive a oportunidade de conhecer o Rio de Janeiro. O que as outras pessoas trazem pra mim, as oportunidades de conhecimento, isso pra mim é valioso.

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