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Dando ouvidos ao paciente

História de: Lupércio Oliveira do Valle
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Publicado em: 13/08/2018

Sinopse

Lupércio Oliveira do Valle nasceu em São Paulo, capital, em 1947. Filho de um guarda-livros e de uma fonoaudióloga, conviveu desde cedo com um problema neurológico do pai, que limitava seus movimentos e fez com que seus pais morrassem nas instituições em que trabalhavam. Por isso, decidiu ser médico. Nessa entrevista, ele nos conta como se interessou pela medicina, seu engajamento no catolicismo e sobre as epidemias de febre tifoide e de meningite que presenciou em São Paulo.  

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História completa

P/1 - Dr. Lupércio, o senhor podia começar falando o seu nome completo.

 

R - Lupércio Oliveira do Valle.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - Heriberto Simões do Valle e Corina Oliveira do Valle.

 

P/1 - Qual é o local e data de nascimento do senhor?

 

R - Eu nasci em São Paulo, capital, em 26 do quatro de 1947.

 

P/1 - E o nome dos seus avós?

 

R - Os meus avós paternos eram Francisco Pereira do Valle e Maria Laudelina Pereira do Valle. Os meus avós maternos, Elvina Feijó de Oliveira e José Marques de Oliveira.

 

P/1 - De onde são seus pais e seus avós?

 

R - O meu pai nasceu no estado de São Paulo, em São Carlos, e os pais dele são também daqui de São Paulo, do estado. A minha mãe é nascida em Fortaleza e os meus avós maternos são também do estado do Ceará.

 

P/1 - O senhor tem irmãos?

 

R - Eu tenho irmãos do primeiro casamento do meu pai; já têm mais idade do que eu e são nascidos em Santos.

 

P/1 - O senhor conviveu com os seus irmãos, foi criado junto com eles?

 

R - Não, não cresci junto com eles. Tive um pouco de convívio com o meu irmão aqui em São Paulo, mas ele nunca morou comigo. A minha irmã de Santos também sempre morou em Santos por contingência da família. Ela foi criada por umas tias.

 

P/1 - Mas tem uma diferença grande de idade entre vocês?

R - Sim. Mais de quinze anos de idade.

 

P/1 - Como foi? O seu pai se casou duas vezes; ele se separou, enviuvou?

 

R - Não, ele enviuvou. Quando morava em Santos, ele ficou viúvo. Uns anos depois, ele se casou com a minha mãe.

 

P/1 - Qual era a profissão do seu pai?

 

R - O meu pai trabalhava nessa parte, o que se chamava antigamente de guarda-livros; seria, hoje, um contador. Trabalho de escritório, mas também trabalhava como classificador de café. Ele viajava para o interior para avaliar o café. Da família dele, várias pessoas, vários tios dele são fazendeiros de café, então ele vivia no meio deles.

 

P/1 - Eram fazendeiros em que região?

 

R - Na região de Cafelândia, de São Manoel, principalmente Cafelândia.

 

P/1 - Interior do estado de São Paulo?

 

R - Estado de São Paulo, adiante de Bauru.

 

P/1 - E a sua mãe, qual era a profissão da sua mãe?

 

R - A minha mãe é fonoaudióloga. Ela trabalhava numa instituição que hoje é bem conhecida, a AACD, que é Associação de Assistência à Criança Defeituosa. Desde a fundação, começou a trabalhar lá; havia muitas crianças com problemas de fala e ainda não tinha um curso bem estabelecido de fonoaudiologia, então vinham pessoas de fora e ela começou a trabalhar como observadora, ajudando. Depois, ela fez uma faculdade mais como ouvinte porque não teve condições de entrar na faculdade por vias normais. Ela fez o curso colegial, depois não fez o vestibular, mas como trabalhava na área há muito tempo fez o curso como ouvinte - o curso na Faculdade Paulista de Medicina, no curso de Fonoaudiologia. Passou muita coisa de experiência para o pessoal. Agora ela está aposentada, não trabalha mais, às vezes ela atende uma ou outra pessoa, mas fez bastante coisa nessa área.

 

P/1 - Ela é aposentada como fonoaudióloga?

 

R - Sim, como fonoaudióloga. Quando ela parou de trabalhar, exercia a função de fonoaudióloga. Ela era encarregada do setor lá na AACD.

 

P/1 - O senhor nasceu no bairro... Em que bairro foi?

 

R - No Paraíso.

 

P/1 - O senhor morou lá até que idade?

 

R - Eu morei lá até uns dois anos. Depois, fui mudando para vários locais porque o meu pai apresentou um problema neurológico. Ele começou a desenvolver uma paralisia e uma das formas dele trabalhar - porque ele precisava trabalhar um pouco para sustentar e a minha mãe ajudava no trabalho, através de conhecimentos e contatos -, nós fomos morar numa das primeiras instituições para atendimento a pessoas com problemas motores e deficiências motores que era o Lar Escola São Francisco. Então, eles trabalhavam e acabavam morando no emprego. Depois de alguns anos, eles passaram a trabalhar na AACD, quando foi fundada a AACD. Sempre moramos no local de trabalho mesmo deles, durante muitos anos.

 

P/1 - Quantos anos?

 

R - Até mais ou menos 65, por aí, nós moramos, todo esse tempo, até eu ter uns dezessete anos. Eu morava com eles no local que eles trabalhavam, praticamente.

 

P/1 - E como é que era viver num local Lar Escola?

 

R - Primeiro, tinha umas crianças; na AACD atendiam principalmente crianças com dificuldades motoras, paralisias cerebrais. Então, às vezes a gente morava, as casas variavam, mudando de local. Às vezes moravam no local que também tinham crianças internas e outras vezes moravam numa casa da instituição, mas separado de onde tinham as crianças atendidas.

 

P/1 - E como era morar num local assim? O senhor, como criança, convivendo com essas crianças defeituosas com problemas motores… Era um outro universo do que normalmente as pessoas convivem.

 

R - É [um] lugar diferente. Por várias contingências, porque a gente morava lá,  eu tinha contato com essas crianças que, apesar do problema motor, eram crianças do ponto de vista mental até normal. Eu convivia com elas com aquela limitação. Mas até por causa disso, desde os oito, nove anos, quando eu comecei o curso primário, minha mãe optou para eu estudar em colégio semi-interno - eu passava o dia fora, o meu dia, eu ficava no colégio. Mas à noite e [em] fim de semana convivia; [era] muito pequeno, mas tinha um contato com esse ambiente.

 

P/1 - Nessa casa, o senhor se lembra de momentos marcantes na família?

 

R - Como a gente morava no serviço deles, muitas vezes a gente tinha contato com a família mais na casa dos parentes. Só numa das casas, que a família frequentava regularmente. Era uma casa mais da parte administrativa, a gente tinha um local mais nosso para morar e convivia bastante com a família. Mas nos outros locais, íamos para a casa dos parentes.

 

P/1 - Esse problema neurológico do seu pai, ele se resolveu?

 

R - Não, não. Era um doença degenerativa, que [foi] evoluindo muito devagar, muito lentamente. Não teve cura, foi uma coisa que foi agravando, devagar mas constantemente.

 

P/1 - E como que foi o senhor conviver com essa doença do seu pai?

 

R - É uma limitação, mas eu nasci… Poucas pessoas têm um pai… Desde pequeno, a gente convive com um pai com limitação. Havia uma adaptação, a gente tinha toda vida bem adaptada; ele andava com dificuldade, só nos últimos anos que não podia andar, precisava ser levado em cadeiras de rodas. E a gente procurava fazer uma vida mais próxima do normal. Nós viajávamos muito, ele fazia questão de viajar, pegar ônibus, pegar trem.

A gente ia toda semana visitar a família dele em Santos. Ele procurava muitos os parentes, fazia questão de sair. Apesar de ter dificuldade em se locomover, ele procurava levar a vida mais normal possível, em termos de contato. Tanto que no trabalho dele - ele vivia no trabalho lá da AACD -, era muito comunicativo, tinha muito contato com as pessoas, a parte de escritório, com o pessoal da diretoria, procurar auxílio das entidades, políticos. Então ele era uma pessoa extremamente comunicativa, nesse ponto deu para sentir que não atrapalhou a parte intelectual dele, foi normal.

 

P/1 - E como era a rotina em casa?

 

R - No começo, ele ainda podia ter alguma atividade normal, mas logo já precisava de uma ajuda muito grande para levantar da cama, para se vestir, tomar banho, então todos, eu e a minha mãe, praticamente que tivemos que fazer isso a vida toda. Meus irmãos já não moravam com a gente; minha irmã já era casada, quando eu tinha quatro, cinco anos, ela casou. O meu irmão demorou um pouco mais para casar, mas ele morava fora. E pelas condições, não teria condições de morar mais gente conosco. Desde pequeno, já tive que ajudar em todas essas coisas, na atividade dele, do dia a dia.

 

P/1 - O senhor estudou em que colégio? O primeiro colégio?

 

R - O primeiro colégio, eu entrei para a escola com quatro anos de idade, ali nos Campos Elíseos. O primeiro colégio que eu comecei foi um coleginho de freiras, em que eu fiquei uns dois anos. Depois, por mudança de casa, fui estudar um ano no Colégio Oswaldo Cruz, mas logo no terceiro primário, eu entrei no Liceu Coração de Jesus, que é ali no Campos Elíseos mesmo, a uma quadra de onde eu morava. Passava o dia no colégio e fiquei até o fim do colegial.

 

P/1 - O senhor tem boas lembranças dessa época, dos primeiros anos do colégio?

 

R - Tenho, porque quando a gente fica muito tempo num colégio pega muito da rotina, conhece muita gente e muitos colegas daquele tempo ainda acabam ainda mantendo contato; Alguns se separam algum tempo, mas agora, de vez em quando, vai retomando e vai mantendo o contato. Foi um período que guardou muito, muita coisa foi interessante no colégio. Eu fiquei uma vida; são nove anos no mesmo colégio, em termos de formação, então acho que fica muita coisa.

 

P/1 - E o senhor mantém essa amizade?

 

R - Algumas, a gente mantém.

 

P/2 - Como era o cotidiano? O senhor passava o dia inteiro na escola?

 

R - Praticamente o dia inteiro, ia de manhã e ficava até as quatro horas da tarde. Só no colegial que eu ficava meio período.

 

P/1 - E lá o senhor teve educação religiosa?

 

R - Sim. Tinha como matéria a formação religiosa; até o fim do colegial, eles davam aula de religião, tinham uma certa avaliação. Acho que isso contribuiu muito para a formação pessoal, ética e até formação cultural - conhecer um pouco de história, aprende-se um pouco de ligação da vida, de ética. Eu acho que é muito válido.

 

P/1 - E essa educação religiosa o senhor tinha também em casa? Seus pais eram religiosos?

 

R - A minha mãe sempre foi religiosa, de manter frequência na religião. A família do lado dela, sim; do lado do meu pai, um pouco menos. O meu pai não ia  porque não podia nem se locomover, ele praticamente não ia mais à igreja, mas a minha mãe sempre ia.

 

P/1 - Na escola, quais eram os seus melhores momentos? A convivência...

 

R - Eu tinha uma convivência com o pessoal da classe, tinha vários bons amigos lá. Dentro da escola, como eu ficava o dia todo, tinha outras atividades: atividades esportivas, o colégio dava muito valor a cinema porque o colégio era de padres salesianos e o fundador do salesiano, Dom Bosco, ele é patrono do cinema. Sempre deram muito valor a isso, então toda semana tinha cinema no colégio, apresentação, discussão, então era...

 

P/1 - Tinha uma atividade cineclubista?

 

R - Não, não era bem... O colégio tinha um teatro muito grande, parecia um cinema mesmo. Tinha quase o mesmo padrão de cinema da cidade, então sempre se assistia filmes normais como um cinema, não era uma telinha pequena.

 

P/1 - Mas o senhor tinha discussões?

 

R - Um pouco, um coisinha tinha.

 

P/1 - E o senhor conserva esse gosto pelo cinema?

 

R - Até hoje, eu vejo bastante.

 

P/1 - E atividades esportivas, quais o senhor fazia?

 

R - Um pouco de futebol. Não era grande jogador, era mais um lazer; jogava futebol para me divertir um pouquinho, mas nunca era do time da escola, de participar de campeonato. Era mais interno. Mas com constância.

 

P/1 - Quando o senhor saiu do colégio, o senhor entrou direto na faculdade?

 

R - Na faculdade.

 

P/1 - Que faculdade?

 

R - Eu entrei na Faculdade de Medicina da USP.

 

P/1 - Em que ano foi?

 

R - Eu entrei em 65. Foi o primeiro ano [em] que tivemos vestibular usando computador, correção por computador.

 

P/1 - Preenchiam aqueles cartões?

 

R - Isso, eram cartõezinhos. Não me lembro agora o nome técnico, mas tinha que preencher cartões.

 

P/1 - O senhor fez vestibular e já entrou?

 

R - Eu fiz a primeira vez naquele ano. Fiz dois vestibulares: o da Santa Casa e o da USP. Eu entrei então na USP.

 

P/1 - Por que o senhor fez essa opção?

 

R - Bom, primeiro porque era a primeira opção de quem fizesse vestibular e segundo que era gratuito.

 

P/1 - A Santa Casa era particular?

 

R - Era uma faculdade mais nova, estava no terceiro ano. E, é claro, diante da USP… De tradição, de nome, era a primeira opção de todos que faziam, então não tinha muito que pensar.

 

P/1 - E essa faculdade existe até hoje, a Santa Casa?

 

R - Sim, a faculdade da Santa Casa hoje tem um conceito muito bom.

 

P/1 - Como foi a sua passagem pela universidade? O senhor gostou do curso de medicina?

 

R - Gostei. Lógico que quando você está lá, você bota milhões de defeitos. Não podia ser assim, ser assado... Discutia-se muito o curso, tinha muitas propostas de mudanças de curso, mas acho que o saldo foi muito bom -  a cultura que dá, o contato com os professores. Enfim, acho que foi muito bom, avaliando depois.

 

P/1 - E lá, durante o curso, o senhor teve outras atividades universitárias, além de estudar?

 

R - Durante a faculdade participei um pouco da parte esportiva, eu gostava. Experimentei a parte de corrida, de atletismo. Durante uns três anos, eu participei da equipe de atletismo, fazia corrida. No centro acadêmico eu gostava de participar: durante uns dois anos trabalhei no departamento científico do centro acadêmico, ajudei numa revista, fui durante um ano diretor da revista do centro acadêmico.

 

P/1 - E o senhor desenvolveu alguma atividade política estudantil?

 

R - Não, da parte política, não, embora tivesse lá no centro acadêmico. A parte política, de direção de centro acadêmico, não. Foi uma época que fervia muito a parte política; era o governo militar e tinha o problema todo dos grupos contrários ao governo militar, o terrorismo, fervia a coisa. Mas dessa parte eu não participei.

 

P/1 - E na parte desportiva, a equipe do senhor chegou a ganhar premiação, fazer disputas fora de São Paulo?

 

R - Tinha aquelas competições entre faculdades. Aquela famosa Mackmed, Medicina contra Mackenzie, tinham mais outras, Intermed, então eram competições entre faculdades. [De] Competição entre federações nunca participei, eram mais coisas internas que eu participava.

 

P/1 - E o senhor viajava?

 

R - Era tudo em São Paulo. Só uma vez, que viajei para Ribeirão Preto, mas geralmente era em São Paulo mesmo. Viajar para competir não era rotina.

 

P/1 - E o senhor trabalhava naquela época?

 

R - No segundo ano comecei… Recebia uma bolsa para trabalhar na farmácia do Hospital das Clínicas. Eu tinha que fazer uma carga horária semanal lá ajudando na parte de manipulação, na preparação das receitas. Fiquei trabalhando na farmácia desde o segundo ano da faculdade até o fim do quinto ano. É um trabalho que integrava a parte do hospital e fui conhecendo as drogas, os remédios. Também, nesse meio tempo, trabalhei num laboratório como propagandista, que hoje em dia [se] chama apresentador, demonstrador. Levava os remédios do laboratório ali no Hospital das Clínicas para os médicos assistentes, do ambulatório.

 

P/1 - Que laboratório?

 

R - Laboratório Bick.

 

P/1 - E quanto tempo o senhor ficou?

 

R - Eu trabalhei lá quase dois anos, até o fim do quarto ano. No quinto ano começava o internato, então só deu para trabalhar na farmácia lá dentro porque eu tinha um horário mais ou menos maleável. No fim do estágio, no fim do dia, eu ia para a farmácia trabalhar.

 

P/1 - Como era ser estudante de medicina e ao mesmo tempo um oficial de farmácia, um manipulador?

 

R - Meio oficial, porque o oficial é quem ficava preparando as fórmulas, as cápsulas. Eu preparava pouca coisa, poucos preparados. Eu ajudava.

 

P/1 - O senhor chegava até os seus colegas fazendo propaganda dos remédios. Como era essa relação?

 

R - Esse trabalho, os médicos lá já estavam acostumados. Era um forma de trabalho sem sair muito do ambiente. Os médicos, assistentes, residentes que recebiam a minha propaganda eram muito receptivos porque muitos deles tinham também trabalhado [com isso]. Era comum o sujeito entrar na faculdade e um colega que estava se formando passar: “Você quer pegar esse emprego?” Então eles eram muito receptivos.

 

P/1 - O senhor tinha outros colegas na medicina que eram propagandistas?

 

R - Bastante, vários colegas, fora os que já tinham outra atividade fora, outro tipo de emprego. Tinha colegas de classe que à noite trabalhavam em banco e tinham outros trabalhos para manter a família.

 

P/1 - Mas como propagandista, tinha vários?

 

R - Tinha vários, uma atividade até bem… Os laboratórios até ajudavam e era uma forma também de ter alguém lá dentro, ter contato.

 

P/1 - Essa bolsa que o senhor recebeu para trabalhar no Hospital das Clínicas era do próprio hospital?

 

R - É do Hospital das Clínicas. Era uma bolsa, uma ajuda de custo, mas se quisesse podia almoçar no hospital. Porque o estudante não almoçava no hospital, ele geralmente comia na lanchonete ou no centro acadêmico. Mas desde o começo da faculdade frequentava o hospital na parte de alimentação, então fiquei bem entrosado lá, rodava o hospital desde o primeiro ano. No segundo ano, já estava todo dia dentro do hospital. Durante o curso, a gente só começa a frequentar o hospital no terceiro ano, onde começa a ter as aulas de semiologia, de exame dos pacientes.

 

P/1 - O senhor antecipou bem essa entrada. O senhor então passava o dia inteiro fora de casa, na faculdade?

 

R - Ah sim, chegava na faculdade às oito da manhã e ia para casa sete horas da noite, seis horas.

 

P/1 - E essa atividade de meio oficial de farmácia… O senhor acha, em termos de contribuição na sua formação, que a sua relação com os medicamentos foi importante ou foi só uma passagem?

 

R - No fim, foi mais para conhecer as drogas. São nomes que vão ficando, às vezes, para você guardar, nomes de remédios. Você podia ter um pouco mais de cultura nessa parte.

 

P/1 - Quais eram os principais medicamentos que o senhor manipulava lá?

 

R - Muitos antibióticos. Tinha muitos remédios de clínica médica, remédios para pressão, para diabetes, muito [remédio para] criança. De pronto-socorro eram os antibióticos, tinha os mais básicos para diarreia, para bronco-pneumonia, então já tinha as fórmulas do hospital. Tinha a fórmula tal, era até por número; o pessoal do pronto-socorro pedia fórmula antidiarreica HC, então tinha os nomes até padronizados porque eram formulados lá e eu ajudava a fazer, preparar os frascos. De algumas coisas a gente já ia conhecendo os componentes, nas horas vagas ia vendo qual era o componente. Na aula de farmacologia, no terceiro ano da faculdade, já conhecia uma série de drogas pelo nome.

 

P/1 - E no Laboratório Bick, com que tipo de medicamento o senhor trabalhava?

 

R - Eles tinham muitos remédios para pressão, que eu me lembro agora. Para pressão, bronquite, pra infecção urinária, esses são os principais que eles tinham naquele tempo.

 

P/1 - O senhor se lembra dos nomes dos medicamentos?

 

R - Deixa eu ver se eu consigo me lembrar de algum. Acho que um que se chamava _______, que eles estavam começando a lançar; acho que hoje nem tem mais, porque apareceram outras coisas. Tinha um que até hoje é campeão, o Nebacetin, um remédio que era sempre lembrado. Eram os principais para serem lembrados. Foi mudando muito, a medicação foi mudando muita coisa, tinha Epidozim, tinha um que era para hipertensão, que era a base de rauwolfia, não lembro o nome, mas acho que eles não tem mais.

 

P/1 - Mas o que é isso, rauwolfia?

 

R - Rauwolfia era uma droga de plantas, que tiravam e faziam hipertensivos, era a reserpina.

 

P/1 - A planta?

 

R - Rauwolfia era a planta, reserpina era a droga. Hoje em dia, também não é tão usada para a hipertensão, tem muitas drogas, muito mais modernas.

 

P/1 - Era um fitoterápico, então.

 

R - Depois é que surgiram as sintetizadas.

 

P/1 - Aí o senhor concluiu o seu curso. Em que ano foi?

 

R - Em 1970.

 

P/1 - O senhor concluiu e começou a fazer residência?

 

R - Não. Eu ia para a residência, fui aprovado, mas naqueles anos estava começando essa história de serviço militar. Quem não tinha feito serviço militar e tinha adiado por excesso de contingente tinha que fazer serviço como médico. Na minha classe, foram convocados treze e eu acabei [sendo] chamado, então fui fazer serviço militar, servi como médico.

 

P/1 - Onde?

 

R - Eu servi no próprio exército. Fiz um estágio no Hospital Militar aqui de São Paulo e depois fui deslocado para um quartel, lá em Itu. Fiquei onze meses lá.

 

P/1 - Como foi essa história, essa passagem pelo Exército? Como era o trabalho lá?

 

R - Eu atendia o pessoal de tropa mesmo, o pessoal do quartel. Eu morei dentro do quartel nesse período e todo dia eu fazia o atendimento dos soldados, dos oficiais que tivessem algum problema de saúde. Normalmente, um [problema] relativamente simples, porque não tinha muitos recursos lá no quartel. Quando precisava de algum exame mais importante, a gente encaminhava; a ambulância trazia aqui para São Paulo, para o Hospital Militar.

Do ponto de vista de trabalho era um trabalho não complicado, simples, uma coisa mais tranqüila. Tinha também que participar da seleção dos candidatos a soldado, a recruta, então havia muito exame médico. Às vezes, tinha que fazer um soldado que não podia, estava em casa acamado e tinha que ir até a casa dele. Como o quartel era em Itu, mas eles cobriam uma região muito grande,  conheci muitas cidades em volta de Itu, indo com ambulância para atender soldado em casa.

 

P/1 - Lá no Exército, então, o senhor fazia clínica geral?

 

R - Fazia clínica geral. Era a parte de atendimento geral, dar um primeiro atendimento aos problemas que houvesse lá no hospital, no quartel.

 

P/1 - Teve algum fato que marcou a sua passagem lá?

 

R - Lógico que não fui jogado para fazer clínica geral, mas durante o ano teve uma epidemia de febre tifoide dentro do quartel e muitos soldados ficaram doentes. Foi uma coisa que marcou porque chegou uma certa hora que o quartel virou um hospital de campanha, quase. Não dava para mandar todos para o hospital, então veio um médico mais experiente para lá, para dar uma mão também, mas foram muitos soldados que foram internados. Foi uma coisa que marcou. Com a inexperiência que eu tinha, de cuidar de uma coisa dessa... Até chegar no diagnóstico... Os primeiros que passaram mal, eu precisei mandar para o hospital, aí me avisaram: “Olha, é tal coisa.” Aí foi mudar tudo o esquema do quartel, mudou toda a rotina, até passar o surto. Foi um mês e tanto.

 

P/1 - Durou mais de um mês?

 

R - Durou mais de um mês o surto, porque uns iam sarando e outros iam começando a manifestar a doença.

 

P/1 - E pegou de recruta a oficial?

 

R - Poucos oficiais, mais recrutas.

 

P/2 - O que mudou na rotina do quartel?

 

R - A rotina. Todas as atividades físicas, os exercícios tiveram que parar porque você não sabe quem está incubando a doença, então não podia submeter a esforço grande, a esforço físico. Tem que esperar, ver como vai evoluir, então não dava para fazer atividade normal. Foi um período diferente; o que mudou na rotina é que o meu trabalho foi dia e noite, direto.

 

P/1 - Isso foi no ano de 1970?

 

R - 71, porque eu me formei em 70, então foi no ano de 71.

 

P/1 - Como vocês conseguiram debelar essa epidemia?

 

R - Depois de você saber a causa, fazendo o tratamento, você começa a tomar medidas já de saneamento: água, alimento, roupa, aí vai conseguindo cercar a coisa.

 

P/1 - Mas a causa não foi descoberta, se era um problema da água...

 

R - Foi o problema da contaminação da água. Tinha uma piscina de água corrente, que era desativada e pegaram água de um rio. Teve um dia [em] que resolveram abrir a piscina com água corrente e pararam a água, aí eu acho que alguém contaminou, então ficou...

 

P/1 - Alguém se contaminou e passou para os colegas.

 

R - Essa foi a hipótese que fizeram lá porque pensaram em alguma comida contaminada. É muito difícil também quando é um surto por alimentação, porque não era uma doença muito frequente. De repente, foi um batalhão de gente, então se achou que foi isso, mas foi difícil. Não deu para provar que tenha sido isso.

 

P/1 - Que tipo de medicamento foi usado?

 

R - O antibiótico que era classicamente usado e que ainda é uma das primeiras opções é o cloranfenicol, que era específico para febre tifoide.

 

P/1 - E essa epidemia chegou a se alastrar para a cidade?

 

R - Não, felizmente ficou dentro do quartel. Não me lembro de ter tido nenhum caso fora do quartel.

 

P/1 - Vocês adotaram quarentena lá?

 

R - Porque o pessoal do quartel… Praticamente 99% dos atingidos foram soldados, que moravam no quartel.

 

P/1 - De outros municípios?

 

R - De outros municípios. Enfim, na hora que constatou-se, ficou todo mundo ali na quarentena, logo ficou circunscrito.

 

P/1 - E a cidade ficou sabendo?

 

R - Ficou, acabou sabendo.

 

P/1 - Como foi a agitação lá?

 

R - Sempre fica a preocupação de que vai espalhar, mas não teve nada, não teve nenhum problema.

 

P/1 - Aí o senhor ficou onze meses...

 

R - Fiquei lá e aí voltei para o Hospital das Clínicas em 72 para fazer a residência médica. Fiquei dois anos como residente na parte de otorrinolaringologia.

 

P/1 - No Hospital das Clínicas?

 

R - No Hospital das Clínicas.

 

P/1 - Por que o senhor escolheu ser médico?

 

R - Eu acho que pelo convívio de viver numa área com criança com problemas, enfim, você via médicos ali trabalhando. Acabei gostando, achei que era um trabalho… Me identifiquei muito e acabei fazendo Medicina. Se bem que depois, a escolha da especialidade não tinha nada com a parte neurológica. Foi outra especialidade.

 

P/1 - Por que o senhor escolheu ser otorrino?

 

R - Eu nem tinha contato com otorrino, acho que um colega meu da faculdade ia fazer otorrino e conversa e tal: “Vamos fazer, eu acho que é uma especialidade interessante.” Acabei resolvendo fazer essa especialidade, é uma especialidade boa.

 

P/1 - Foi meio que casual?

 

R - Meio casual e meio em cima da hora também. Foi no finzinho, no último dia que eu resolvi fazer otorrino.

 

P/1 - Para participar do processo de seleção?

 

R - É, praticamente tinha fechado a inscrição quando eu resolvi fazer.

 

P/1 - Como foi esse processo de seleção?

 

R - O processo de seleção pra fazer otorrino até que era fácil, para escolher, selecionar os residentes. Na primeira opção, eles pegavam os alunos da escola: [para] quem queria fazer uma especialidade, eles faziam um pequeno exame, uma pequena entrevista, eu não me lembro. Se não desse nenhum problema, já ficava na especialidade. A não ser que tivesse muitos candidatos querendo fazer uma determinada especialidade, mas não foi o meu caso, não tive esse problema.

 

P/1 - Mas isso chegava a influenciar a sua escolha? Ter mais ou menos candidatos?

 

R - Não chegou, por coincidência tinha poucos candidatos.

 

P/1 - Durante o curso o senhor chegou a ver alguma… O senhor trabalhava no Hospital das Clínicas, chegou a ver alguma epidemia grave?

 

R - No tempo em que eu era preceptor, depois da residência, em 74, teve uma epidemia de meningite em São Paulo. Foi uma epidemia muito séria, um problema bem complicado e a gente atendeu bastante gente, porque às vezes iam direto pro otorrino pessoas que a gente suspeitava. Depois acabava confirmando que tinha meningite.

 

P/1 - Durante a sua residência?

 

R - Foi já no tempo em que eu era preceptor. Fui preceptor dos residentes em 74 já.

 

P/1 - E na sua residência, como foi o período de residência?

 

R - O período de residência foi interessante. Tem especialidades que no internato já vem muita coisa; se fosse fazer pediatria no internato, ia ver muita criança. Otorrino é uma especialidade que a gente vê muito pouca coisa na faculdade, tem curso de otorrino. Aí quando eu entrei na otorrino era tudo praticamente novo, então foi um aprendizado muito grande, foi bem interessante. Muita coisa para ver até, em dois anos.

 

P/1 - E teve algum fato que foi marcante nesse período de residência?

 

R - Nesse particular, foi uma residência… Meu grupo era muito grande e era um pessoal até bem divertido. Foi o maior grupo de residentes de otorrino que teve lá na história; eram doze, bastante gente. Mas foi bem interessante. Foi nesse período, no segundo ano da residência que meu pai ficou doente e acabou falecendo. Ficou um mês internado lá no Hospital das Clínicas, tanto que marcou o ano da residência, segundo ano. Além da atividade da residência, ele ficava na clínica de otorrino internado, então ficava cuidando dele também, além da rotina do dia a dia.

 

P/1 - O senhor tinha algum outro parente médico na família?

 

R - Parente muito próximo, não. Só do lado do meu pai, tinha um tio do meu pai que era médico, mas ele também não exercia a medicina. Médico mesmo, de contato com parente, não tinha, mas amigos da família. Por causa do trabalho  meu pai tinha muito contato com médicos que estimulavam a fazer o curso, durante o curso perguntavam como ia indo, como não ia indo.

 

P/1 - Quanto tempo o seu pai ficou internado lá?

 

R - Ele já tinha o problema neurológico. E ele apresentou algum acidente vascular, alguma coisa. Entrou no estado de semiconsciência, ficou trinta dias internado no hospital.

 

P/1 - E o senhor é quem dava assistência a ele?

 

R - Eu dava um apoio a ele. Tinha os médicos que cuidavam dele, davam toda a orientação médica; o fato de eu ser médico ajudava nos cuidados, mas a conduta médica [eu] não fazia na realidade.

 

P/1 - Ele estava lúcido?

 

R - Ele estava na junta médica e os médicos dele que transferiram. No período [em] que ficou lá internado, ele estava praticamente inconsciente. Nos últimos trinta dias ficou inconsciente.

 

P/1 - Na área de otorrino, que tipo de medicamentos são mais utilizados?

 

R - Na área de otorrino? Usa-se muito antialérgicos, antibióticos, anti-inflamatórios, os remédios para labirintite, os antivertiginosos; [são os] remédios que se receita mais.

 

P/1 - Houve muita modificação nesse receituário do tempo em que o senhor começou a trabalhar para hoje? O senhor se formou em 70.

 

R - Vários medicamentos novos. Melhoram a ação e [causam] menores efeitos colaterais, isso teve uma evolução grande nessa parte, mesmo na parte de antibióticos, sempre evoluindo. Vamos dizer, em qualidade, em grupos de medicamentos, do ponto de vista qualitativo não aumentou tanto, mas dentro de cada grupo de medicamento evoluiu bastante.

 

P/1 - Foi mais o aperfeiçoamento dos medicamentos?

 

R - Aperfeiçoamento dos medicamentos, as condutas foram...

 

P/1 - Não surgiu nada novo nesses trinta anos?

 

R - Algumas coisas aparecem. Alguns medicamentos novos, indicações novas sobre medicamentos sempre têm aparecido, mas o receituário, as linhas mestras do receituário vão se mantendo.

 

P/1 - Tem algum caso que o senhor considera mais problemático, que o senhor tratou e, em termos de uso de medicamento, foi fundamental para cuidar daquele paciente? O senhor falou que do combate da epidemia de meningite...

 

R - Eu, não, como otorrino. O otorrino participa muito pouco, [são] mais os infectologistas mesmo, os clínicos, neurologistas que vão. O que a gente fazia era um apoio, às vezes [atendia] pacientes que viam direto para o otorrino com alguma queixa que podia ser problema otorrinolaringológico e era meningite.

Depois, o otorrino participou muito na parte de sequelas da meningite. Meningite é uma doença que deixa muitas sequelas na parte neurológica e a parte da audição fica [com] muitas sequelas. Muitos casos disso, surdez, principalmente em crianças. Infelizmente perderam a audição, uma perda muito severa. Depois disso, começou a se ver muitas sequelas dessa parte.

 

P/1 - E teve algum caso mais grave que o senhor atendeu e que marcou?

 

R - Eu acho que o mais grave, que marca, é ver essas crianças, que tinham até certa idade o desenvolvimento normal de fato, com sequela de meningite.  Começam, além da perda de audição, [com] perda do desenvolvimento intelectual. São casos que são tristes de ver.

 

P/2 - Tem como tratar essas sequelas da parte auditiva?

 

R - Quando a lesão auditiva é séria não tem jeito, às vezes dá perda total da audição. E aí para o desenvolvimento de fala, então é um campo que necessita um cuidado todo especial, todo especializado para deficiente auditivo. É uma área enorme de audiologia, de otorrino, ajudado pelas fonoaudiólogas. É um campo que é um mundo.

 

P/1 - Teve algum remédio que promoveu na área da otorrinolaringologia alguma modificação importante no tratamento de alguma doença específica da área?

 

R - Sim, dentro da área tem uma parte de otoneurologia. Vários medicamentos surgiram na época em que eu estava começando, que contribuíram bastante para o tratamento da labirintites, das labirintopatias. Teve a cinarizina, que foi uma droga marcante, importante na área de labirintologia, depois alguns derivados dela. Os antibióticos, de um modo geral, foram tendo uma evolução importante no tratamento das infecções da área de otorrino também.

 

P/1 - Mas existem antibióticos específicos para isso?

 

R - Específicos para otorrino, não. Específicos para vias respiratórias, que são vários tipos, a penicilina e derivados, a cefalosporina - cada vez estão evoluindo mais na área da cefalosporina - que na área de otorrino tem uma aplicação bem importante.

 

P/1 - Esta epidemia de meningite, conte um pouco mais a história dessa epidemia para a gente.

 

R - Foi no ano de 74 a primeira grande epidemia. Começou na época do inverno; ela piora na época do inverno, se manifesta por causa da facilidade do contágio.

Normalmente, os casos de meningite são da meningite meningocócica, que foi a epidemia mesmo; existem outros tipos de meningite que não se manifestaram nessa epidemia. Por ser meningite meningocócica, uma vez constatada, o paciente precisa ficar isolado, então tinha o Hospital Emílio Ribas, que tem até hoje, que é o hospital de isolamento da cidade. Ficou simplesmente abarrotado de pacientes nessa época. No fim, acabou precisando internar um pouco no Hospital das Clínicas, isolar algumas áreas. Então foi uma fase difícil, uma coisa que marcou muito; do ponto de vista de saúde pública em São Paulo foi uma problema muito sério. Até debelar aquilo foi uma coisa grande mesmo.

 

P/1 - Quanto tempo durou essa epidemia?

 

R - Durou alguns meses. Não sei dizer quantos, mas uns três, quatro meses; pelo menos uns dois meses era de pico mesmo. Todo paciente que tinha uma tontura, febre, dor de cabeça, vômito, era um tal de correr no médico para ver se tinha isso. Então ficava ruim, foi um problema grande mesmo.

 

P/1 - Ficou restrito à São Paulo, à Grande São Paulo?

 

R - Acho que foi Grande São Paulo. Não me lembro no interior como estava, mas acho que foi bem menos. No interior, se não me engano, foi bem menos. São Paulo foi o foco.

 

P/1 - E houve alguma campanha pública?

 

R - Sim, depois começaram. A primeira campanha de prevenção [foi] na parte de evitar contágio. Você entra em contato com uma pessoa que foi diagnosticada [com] meningite, então tem o antibiótico que era dado para prevenir e evitar que essa pessoa não se tornasse um portador.

Ao entrar em contato com uma pessoa com meningite, [a pessoa] podia não contrair a doença, mas passar para outra, então todas as pessoas que tinham contato estavam tomando antibióticos. No começo, a vacinação, mas ainda era muito… Frustrava essa parte de vacinação. A vacina [era] nova, então não se sabia o efeito, o grau de efeito, quando ela funcionaria.

 

P/1 - Qual era o antibiótico que era dado?

 

R - A penicilina era o antibiótico próprio, porque tem o problema do antibiótico chegar ao cérebro, então era a penicilina que era usada. E tinha um outro antibiótico, que eu acho que era a tetraciclina. Um tipo de tetraciclina que era dado para prevenir, para dar para o portador, se não me engano se chamava Minomax. Acho que hoje nem tem mais, era um antibiótico que era dado para prevenir.

 

P/1 - Isso para adulto ou criança?

 

R - Tanto adulto quanto criança.

 

P/1 - E a vacina, o senhor falou que era experimental?

 

R - Estava no começo ainda. Depois [de] alguns anos teve um outro surto menor, então não me lembro exatamente quanto já foi usado de vacinação naquele ano, se foi depois. Como foi um surto que marcou, foi um surto terrível, nos anos seguintes começou a se vacinar um pouco a população. E tinha também o problema da vacina dos meningococos: tinha o tipo A, o tipo B, então tinha o problema de usar a vacina só para um tipo. Podia contaminar [com] o outro [tipo]. A vacina foi uma coisa que ajudou e muito, digamos, mas não era totalmente… Não cobria totalmente o problema.

 

P/1 - E essa vacina vinha de onde?

 

R - Eu não me lembro de que país vinha realmente.

 

P/1 - Não era aqui do Brasil?

 

R - Não era aqui do Brasil. Sei que, depois de algum tempo, vinha muita vacina de Cuba. Não me lembro se essas primeiras vieram de Cuba, infelizmente me falha a memória.

 

P/1 - O senhor enfrentou muitas dificuldades durante o seu curso de medicina? Teve muitos problemas ou transcorreu normalmente?

 

R - Eu acho que na faculdade não tive muitos problemas, graças a Deus eu nunca tive nenhuma dependência de aprovação, nada. Então foi sem problemas.

 

P/1 - E no início profissional?

 

R - Quando acabou a residência, fui convidado para ser preceptor dos residentes ali no Hospital das Clínicas mesmo. Eu fiquei ali, trabalhando no Hospital das Clínicas. No mesmo ano, já em 74, eu fiz concurso para o Hospital do Servidor Público Estadual e fui admitido como assistente do serviço de otorrino. Ficava boa parte do dia lá no Hospital das Clínicas e no fim da tarde, depois das quatro horas, ia para o Hospital do Servidor Estadual, trabalhar também. Naquele ano mesmo, [em] 74, prestei um concurso e consegui uma bolsa na Faculdade de Medicina de Bordeaux, no serviço de otorrino, para fazer esse estágio no fim de 75. O período que eu fiquei aguardando, durante o ano de 75, continuei trabalhando no Hospital das Clínicas, comecei a dar plantão no pronto-socorro de otorrino e trabalhava no Hospital do Servidor Público Estadual. No fim de 75 fui fazer esse estágio; fiquei até o meio de 76.

 

P/1 - Nessa época, o senhor já tinha se casado?

 

R - Eu me casei em 75; já estava com o casamento previsto para 75, então me casei no meio do ano e no fim do ano eu fui, já casado, para o estágio.

 

P/1 - Sua esposa foi junto?

 

R - Foi junto, ela estava formada. Ela é pedagoga e nesse meio tempo que estava previsto para viajar, ela arranjou também uma forma de fazer algum estágio, algum trabalho também, lá na França.

 

P/1 - E como era esse estágio?

 

R - É o serviço de otorrino, na clínica de otorrino da Faculdade de Medicina. Tinha um professor que era muito famoso e tinha muito contato com brasileiros.  Tem até uma fundação que [se] chama Fundação Portmann. O pai do professor na faculdade, na época que eu fui… O pai dele, Michel Portmann, que era otorrino, fez a Fundação Portmann. Depois de um certo tempo, começaram a fazer um programa de oferecer estágios para médicos no mundo todo. E a Fundação Portmann aqui no Brasil tinha uma delegação que se empenhou para todo ano levar um estagiário do Brasil lá para Bordeaux. Nesse ano de 74, eu fui escolhido para ir no ano seguinte. Eles davam uma ajuda de custo mais uma passagem e com isso, a gente procurava se manter.

 

P/1 - E nesse estágio, quais eram as suas tarefas?

 

R - Era estágio mais de observação, tanto que eu acompanhava cirurgia, acompanhava laboratórios, fazia trabalhos de laboratórios, de secção cirúrgica, mas não tinha atividade de eu mesmo operar e entrar nas cirurgias. O estágio era mais [de] acompanhamento mesmo.

 

P/1 - E como o senhor foi selecionado?

 

R - A seleção era feita através de currículos. Os candidatos apresentavam o currículo e uma comissão de professores da área de otorrino analisavam o currículo. Eles escolhiam uma pessoa para ir.

 

P/1 - O senhor ficou lá seis meses?

 

R - Seis meses.

 

P/1 - Como foi essa experiência?

 

R - Foi uma experiência muito interessante. Do ponto de vista profissional foi muito bom porque eu fui num centro muito bom nessa parte de cirurgia de ouvido, que estava [se] desenvolvendo mais nessa época. Deu para ver muita coisa, uma base muito boa, vi outras coisas da especialidade. Deu para ajudar muito na área quando voltei. Comecei a praticar cirurgia de ouvido, foi uma base muito grande.

Do ponto de vista pessoal, família, eu tinha [me] casado há poucos meses. Eu e a minha esposa tivemos que, mesmo num país estranho, procurar um lugar para morar. A gente só tinha o dinheiro, só tinha a bolsa; a acomodação, nós tínhamos que procurar por conta nossa. Foi uma vida a dois em [se] adaptar a um lugar estranho; embora a gente soubesse que seria uma coisa passageira, procurava se adaptar. Fortaleceu essa parte do início do casamento, acho que foi uma base sólida para o casamento também. E também a parte cultural, de conhecer, conviver em outro país. Não [era] só uma simples viagem de turismo para visitar alguns lugares, mas conhecer outras culturas, conhecer outros hábitos, também foi muito interessante.

 

P/1 - Além dessa parte de cirurgia de ouvido, teve alguma outra coisa que, profissionalmente, o senhor conseguiu adquirir de relevante nesse estágio?

 

R - Da parte profissional, foi mais de otorrino, que é a coisa mais importante de ver porque o estágio era o dia todo e ficava... Era um estágio livre, mas eu procurava ficar o mais tempo possível, fuçando o que tinha no hospital, então fiquei bastante tempo preso nessa parte.

 

P/1 - Passava o dia inteiro lá?

 

R - Quase o dia todo, praticamente.

 

P/1 - E a sua esposa?

 

R - Ela trabalhava com creches aqui em São Paulo. Ela tinha um programa de formação de creche junto à prefeitura e conseguiu…Lá em Bordeaux há um serviço, vamos dizer, oficial também, na parte de creche. Ela viu muita coisa dessa parte lá, então ela fez. Foi interessante, a mesma coisa que ela fazia aqui ela viu lá também: como funcionava a atividade de atendimento à criança, acompanhou algumas coisas no próprio hospital na área de saúde em creche, então para ela acabou sendo proveitoso também.

 

P/1 - E essa bolsa que o senhor recebia era suficiente para o senhor ter uma vida legal, ou ficou em dificuldades?

 

R - A minha bolsa, essa bolsa que a fundação concedia era sempre uma bolsa do governo francês. Era boa, mas acontece que no meu ano teve um problema político. O governo francês cortou essa bolsa para o Brasil por questões políticas. Foi o ano em que estourou a crise do petróleo e o governo francês resolveu dar mais bolsas por interesses políticos e intercâmbio comercial para os países árabes.  

Então a minha bolsa, na hora H, saiu. Através de muito empenho da fundação, tanto lá na França como aqui no Brasil, foi um laboratório que me ofereceu a bolsa, que era a metade da bolsa do governo. Foi um laboratório francês, Servier, que deu essa bolsa, durante seis meses, para mim.

 

P/1 - Ela era metade do que o senhor devia ganhar?

 

R - Do que eu receberia lá, seria praticamente metade.

 

P/1 - Mas o valor dela era suficiente?

 

R - Não, não era suficiente. Era por volta de oitocentos francos e a bolsa do governo era quase dois mil francos, mais algumas regalias que eles davam. Como eu fui pego assim de surpresa, precisei me resguardar, arranjar outras fontes de renda para poder me manter também. A vida naquele tempo, a gente vê como era um pouco mais fácil do que hoje; naquele tempo, trabalhando, ganhando relativamente menos do que eu estaria ganhando hoje, consegui guardar alguma coisa para me manter durante seis meses e levar uma vida bem simples. Mas consegui me manter com a bolsa e mais um pouco que eu tinha economizado.

 

P/1 - Então o senhor sobreviveu lá com a bolsa mais as economias?

 

R - Mais as economias.

 

P/1 - E a sua esposa, ela tinha alguma remuneração?

 

R - Ela trabalhava também. Ela já trabalhava na prefeitura, mas quando foi viajar pediu uma suspensão, então também não ganhava nada dos empregos.

 

P/1 - E lá na França?

 

R - Também nada.

 

P/1 - Como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R - Eu conheci a minha esposa [quando] estava já na faculdade. A gente participava de um grupo de jovens numa igreja, ela foi participar desse grupo e foi lá que eu a conheci.

 

P/1 - Que igreja?

 

R - Aqui em São Paulo, na Igreja de Nossa Senhora Aparecida em Moema, tinha um grupo de jovens que era um grupo interessante. Era um grupo [em] que fiz muitas amizades, alguns deles são amigos até hoje. Vários estavam entrando em faculdade também e muitos deles têm amizade até hoje.

 

P/1 - Quais eram as atividades desse grupo de jovens?

 

R - Era um grupo que [se] chamava Congregação Mariana, um grupo religioso que hoje já praticamente não tem mais. Eles tinham um grupo de jovens muito... Eu sempre ouvia falar disso e achava que era de senhores de mais idade, aí um colega me levou lá. Tinha um grupo com muitos jovens da minha idade e eu me identifiquei muito com eles. O pessoal exercia muitas atividades dando curso, ajudando os outros, dando algum tipo de assistência, então foi uma coisa interessante, que marcou para mim. Como eu tinha tido uma formação de estudar em escola religiosa, tentei comparar para ver como era, para ver se o eu tinha recebido batia com que o pessoal fazia na prática. Quando a gente está numa escola católica, embora tenha aula, é muito separado porque depende muito da família. Eu já estava no primeiro ano da faculdade quando eu conheci esse grupo e achei muito interessante. Tinha muitos que estavam começando a universidade e foi muito interessante.

 

P/1 - O senhor ficou até quando lá?

 

R - Eu fiquei até o fim da faculdade. Depois, o grupo se dispersou um pouco; cada um foi para um canto, se formou. Perdi o contato com esse grupo como alguma coisa formal, mas muitos ficaram amigos meus até hoje, se frequentam muito.

 

P/1 - O senhor ainda mantém a atividade religiosa?

 

R - A gente participa de um... Eu fiquei um tempo afastado, alguns anos, depois fui convidado para participar de um… Quando tinha esses encontro de casais com Cristo, participei de um, aí eles chamavam para participar dos encontros até como médico, eles pediam para ficar dando uma cobertura de plantão na hora dos encontros. E a gente tinha um grupo que se reunia duas vezes por mês para discutir um pouco a Bíblia. Acabamos saindo porque o rapaz que coordenava a gente não estava de acordo com a orientação que estava dando para o grupo.

Depois de um tempinho, começamos a participar de um outro movimento. Foi um colega desse tempo da faculdade que me convidou para participar desse grupo [em] que a gente está até hoje. É um movimento que tem crescido, que [se] chama Equipes de Nossa Senhora. Quando eu ouvia falar, o pessoal falava: “É um grupo meio elitizado, fora da realidade.”

Começamos a participar do grupo para ver realmente se era isso; no começo, realmente nós achamos que era uma coisa um pouquinho fora, mas depois começamos a perceber, depois de um ano, dois, que era uma coisa interessante. Eles começaram a dar uma orientação, de pedir pro pessoal ser engajado na atividade do dia a dia, da realidade, participar um pouco mais da sociedade, interferir mesmo na sociedade, participar de várias atividades, ou seja, políticas, administrativas. Dar um outro cunho, mais ético, mais dentro do sentido de ajudar os outros. E o que ajudou a gente a segurar porque também se formou um outro grupo, outro círculo de amizade que a gente mantém até hoje. São dezessete anos, é um grupo [em] que a gente tem pessoas, amigos que participaram do grupo e já saíram. Tem juízes, tem um que é juiz que a gente mantém contato até hoje, já não participa. Aumentou o círculo das amizades e é um convívio interessante porque é um grupo de cinco, seis casais que convive, se encontra todo mês, vê os filhos crescer. É interessante ver esse convívio, não é um simples relacionamento de amizade, mas tem uma atividade formal, até da parte de contato psicológico, de ver como as pessoas vão encarando a vida, vão surgindo os problemas, perda de familiares, desemprego. Então a gente vai convivendo, procurando um ajudar o outro, foi então uma coisa interessante.

 

P/1 - E como foi o namoro com a sua esposa? Foi uma namoro longo?

 

R -  Foi um namoro de dois anos, praticamente dois anos. Embora eu já a conhecesse de uns anos antes, não tinha tido certo contato e a gente não era muito próximo. Eu tinha um grupo de amigos, ela tinha outro grupo. Depois de um tempo, esse pessoal dispersou, daquele movimento que a gente fazia parte, mas a gente ainda mantinha um contato pela amizade, então nós começamos a namorar. Eu já tinha até acabado a residência, estava no fim da residência quando resolvemos namorar.

 

P/1 - E aí vocês casaram e foram para a França. No retorno, o senhor foi trabalhar onde?

 

R - Voltei para trabalhar no Hospital das Clínicas e no Hospital do Servidor, onde eu já trabalhava. Por uma série de contingências, eu saí do Hospital das Clínicas, fiquei no Hospital do Servidor. Fui convidado para dar aula na Faculdade de Medicina de Jundiaí, logo em 76, e no Hospital do Servidor.

No Hospital do Servidor trabalhei até 1980 porque na parte profissional eu comecei a desenvolver outras coisas. Continuei a trabalhar na Faculdade de Medicina de Jundiaí, abri consultório e comecei a trabalhar na prefeitura no Hospital do Servidor Público Municipal. Fui trabalhando então basicamente com essas três atividades: hospital, consultório e alguns hospitais [em] que eu comecei a trabalhar, hospital de prefeitura e na faculdade. Fiquei até 89 dando aula na faculdade, depois não dava mais tempo, exigia mais coisas; ficou mais difícil para viajar, para se locomover, então continuo hoje no Hospital do Servidor Público e trabalho no consultório. E eu presto serviço, tem uma equipe de otorrino no Hospital São Luís, uma equipe que presta serviço de emergência. Está cada vez crescendo mais também essa atividade.

 

P/1 - E essa sua atividade docente, como foi?

 

R - A Faculdade de Medicina de Jundiaí é uma faculdade que passou muita dificuldade nesses anos que eu fiquei lá. Ela, quando foi aberta, levou um apelido de “Uspínia” porque muitos dos professores eram da Faculdade de Medicina da USP. Alguns deles da Escola Paulista [de Medicina] também, que resolveram fazer essa faculdade, [foram] chamados para trabalhar lá. Foi um período em que se abriram muitas faculdades e foi um grupo muito bom, de qualidade muito boa, mas a faculdade enfrentou muitas dificuldades do ponto de vista financeiro, de acomodação de hospital para fazer internato, residência. Quando eu entrei, a faculdade já devia ter uns cinco anos, era uma coisa bem simples. Eu comecei lá dando aula e já no serviço do hospital que procurava oferecer residência, residência médica de otorrino. Então todo ano entrava um residente novo, que fazia dois anos de residência. Eu dava assessoria para esse residente e dava aula no curso para os estudantes, era no curso de otorrino, no quarto ano da faculdade.

 

P/1 - E o senhor dava aula em Jundiaí?

 

R - Às vezes o curso era em Jundiaí, a gente ia até Jundiaí; outras vezes era no hospital. O hospital que ficou mais tempo ligado à faculdade e até hoje está é o Hospital de Clínicas dentro do Hospital do Juqueri. O Hospital do Juqueri é um hospital psiquiátrico, mas tinha um hospital geral lá dentro. E dentro desse hospital era onde a gente trabalhava e atendia, não só o pessoal internado, como a população da região também. Era lá que tinha o estágio de otorrino.

 

P/1 - O senhor não clinicava, só orientava?

 

R - Orientava, mais como orientador dos estagiários, dos alunos. Claro que atendia paciente, mas não tinha a obrigação de fazer o atendimento de rotina.

 

P/1 - Em termos de saúde pública no Brasil, o senhor vivenciou duas epidemias graves: uma febre tifóide dentro do Exército, localizada, e uma geral de meningite. Como o senhor vê, como está hoje a saúde pública, o desenvolvimento, a política de saúde pública no Brasil hoje? Teve campanha de informação da população na epidemia de meningite?

 

R - Teve, numa situação meio de emergência foram feitas as campanhas, divulgação nos rádios, cartazes distribuídos na escola. Mas eu acho que foi uma situação de emergência.

 

P/1 - E da sua formação até hoje, melhorou a saúde pública no Brasil?

 

R - Eu acho que a saúde pública, ela está passando uma fase difícil. Eu lembro que quando comecei a trabalhar, o médico que trabalhasse no Hospital das Clínicas ou trabalhasse no INPS - antigamente se chamava INPS - ou no estado, ele podia trabalhar em dois lugares, mais o consultório ou dando plantão, ele tinha um padrão de vida satisfatório.

Hoje em dia, os hospitais públicos não estão dando condições, nem de trabalho. Até a remuneração está difícil, a vida está mais difícil. Eu acho que, nesse ponto, o governo não está conseguindo dar um mesmo suporte que dava antigamente. A situação mudou muito, a medicina encareceu muito também na parte toda de diagnóstico, a população cresceu um pouco. Embora a medicina tenha evoluído bastante, do ponto de vista público, está bem deficiente ainda.  Falta muita coisa para melhorar, tanta coisa para ela dar cobertura. E cobertura que ela dava, por exemplo, no INPS. Antigamente, o médico que trabalhava no INPS fazia muitas cirurgias; hoje em dia, o INPS praticamente desapareceu. Em termos de dar atendimento à população, [se] transformou em outro sistema de saúde - o SUS, o Sistema Único [de Saúde], que ainda não conseguiu se estruturar para dar um atendimento mais abrangente.

Tem o apoio da medicina privada, que está procurando suprir essa falha, mas a medicina hoje, do ponto de vista econômico, de manutenção, está muito difícil porque está cada vez mais cara a assistência médica, seja a parte toda de equipamentos, de medicação. Fica muito difícil manter isso, um padrão.

 

P/1 - E a relação médico-paciente, da sua formação até hoje mudou muito?

 

R - Eu acho que a relação médico-paciente mudou [em] várias coisas sim, mas hoje em dia, ele não se abre muito.

Fica uma relação muito impessoal porque é muito corrido, muito trabalho, então o médico é obrigado a atender muitos pacientes no dia, seja no ambulatório seja no consultório; a medicina privada, a medicina de consultores através de vários convênios, então acabou ficando muito corrido. Isso ficou um pouco perdido, mas a medicina, de outro lado, está começando a resgatar outras coisas da parte pessoal, da parte humana, com o advento… Com a maior aceitação, não diria de formas alternativas, mas de outras áreas, de outras visões da medicina, que estão relegando muito a parte do contato humano, da parte emocional, da relação com os doentes. Mesmo que as coisas sejam corridas, o médico está sendo chamado mais a ver essa parte, levar mais em consideração. Mas ainda é muito corrido, o relacionamento, às vezes, é muito rápido.

 

P/1 - O senhor tem filhos?

 

R - Duas filhas.

 

P/1 - E têm que idade?

 

R - Uma tem dezenove e a outra, dezessete.

 

P/1 - O que elas fazem atualmente?

 

R - A mais velha está cursando o primeiro ano de Psicologia e a segunda ainda está no colegial.

 

P/1 - O senhor mora com a sua esposa e as suas duas filhas?

 

R - Exatamente.

 

P/1 - O senhor tem algum desejo na sua vida que espera ver realizado, uma expectativa que espera ver realizada?

 

R - Eu acho que, do ponto de vista profissional, é fazer uma medicina bem-feita. Acho que eu consegui, apesar de todas as dificuldades, fazer uma medicina bem-feita; apesar de às vezes ter um pouco de correria, acho que eu consegui,  do que aprendi, colocar muita coisa em prática. Então eu procuro ajudar nesse ponto.

Hoje, no Hospital do Servidor Público Municipal, apesar das dificuldades de pôr em prática as coisas - o hospital está com muitas deficiências de falta de pessoal, está tendo agora que passar por uma série de reformas, então o aprendizado da nossa clínica está sendo um pouco mais difícil. Estou com eles como preceptor, voltei a ser preceptor dos residentes. Procuro sempre, nessa parte profissional, não abandonar os estudos. Acho que é uma forma de manter vivo um pouquinho o entusiasmo, não cair demais na rotina.

 

P/1 - E  no lado pessoal?

 

R - No lado pessoal, eu acho que, do ponto de vista da família, procurar passar para os filhos todo o background que a gente teve de formação ética, até de formação religiosa. Acho que tem sido mostrado que tem que ter essa parte, passar um pouco a parte cultural para eles, experiência cultural como leitura, de cinema, de música, não sendo só uma coisa de simples lazer.

E talvez agora procurar um tempo que eu queria para ajudar alguma coisa não lucrativa, ter alguma coisa para ajudar o outro do ponto de vista de assistência, alguma coisa na área médica, procurar dar alguma coisa minha gratuitamente, vamos dizer. A minha esposa ela está trabalhando em projetos de capacitação de nível assistencial numa entidade, numa coisa nova que tem surgido que é chamada terceiro setor, seria o da iniciativa privada e dos meios particulares ajudarem na assistência e na promoção social. Ela está começando a trabalhar nessa parte, então é um trabalho interessante que ela está começando, se puder um dia ajudar.

Todas as empresas grandes estão fundando essas fundações de obras sociais, estão estruturando essas atividades, por que esperar que o governo consiga fazer tudo? Dentro de todas essas dificuldades que tem, [o governo] não vai, se não tiver, a própria sociedade arregaçar as mangas e produzir alguma coisa.  Acho que muitas empresas já estão participando disso de uma forma bem estruturada, tem atividades que são até anunciadas na televisão.

 

P/1 - Alguma decepção na vida, que o senhor teve?

 

R - Decepção, eu creio que cada um tem. Às vezes, algumas coisas que não saíram como imaginava, mas acho que dizer decepção, que eu esperava demais de uma coisa… Claro que você, na parte profissional, fala: “Puxa, eu poderia estar… Eu poderia ganhar muito mais, obviamente.” É o que todo mundo acha, que só porque ganha mais é profissional.

Eu acho que se a gente pensar dentro da situação, da experiência toda de vida, não dá para dizer que está mal assim, dá para ficar contente com o que conseguiu chegar. Talvez, se tivesse aproveitado melhor algumas oportunidades, podia estar fazendo mais coisas. Mas eu acho que, graças a Deus, não dá para dizer que foi uma decepção.

 

P/1 - Muito obrigado.

 

R - Eu espero que tenha contribuído [com] alguma coisa para o projeto que vocês estão fazendo.

 

P/1 - Com certeza.

 

R - Deu quanto tempo, mais ou menos?

 

P/1 - Quase uma hora e meia.


 

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