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Dançar a vida

História de: Rosa de Camargo Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Rosa nos conta sobre sua infância no Instituto Butantan, seu casamento, a maternidade e sua grande paixão: a dança.  

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História completa

P/1 – Boa tarde, Rosa.

 

R - Boa tarde.

 

P/1 – Eu queria que você começasse dizendo para nós o seu nome completo, a cidade e o ano em que você nasceu.

 

R – Eu nasci aqui em São Paulo no dia cinco de agosto de 1951, no bairro do Butantã. Cresci ali até os dez anos de idade, dentro do Instituto.

 

P/1 – Qual é o seu nome completo?

 

R – Meu nome é Rosa de Camargo Lopes.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai é Felipe de Camargo e minha mãe, Ondina de Camargo.

 

P/1 – Eles nasceram aqui em São Paulo também?

 

R – Não, meu pai nasceu na cidade de Taubaté e minha mãe, na cidade de Mogi das Cruzes.

 

P/1 – Você sabe um pouco da história deles? Como eles se conheceram? Como vieram para são Paulo?

 

R – Meu pai era funcionário público e ele trabalhava aqui... Ele era motorista,  carregava remédios para o Instituto. Nessas idas e vindas ele levava os remédios para os hospitais também. Minha mãe trabalhava no Hospital da Lepra em Jundiapeba, Mogi das Cruzes e acho que foi numa dessas que ele conheceu minha mãe. Minha mãe trabalhava no hospital e ele [era] funcionário público. Minha mãe devia ter uns dezoito [anos], mais ou menos e meu pai já era bem mais velho.

 

P/1 – Em que ano eles nasceram?

 

R – Meu pai nasceu em 1907 e minha mãe em 1919.

 

P/1 – Quando eles vieram para São Paulo?

 

R - Acho que foi em 1937, 1936, mais ou menos. Eles foram morar na Vila Mariana, onde nasceram meus três irmãos; nasceram na Vila Mariana, na Rua Santa Cruz.  Depois ele veio morar aqui dentro do Instituto Butantã, onde nasceram os outros quatro ou cinco filhos dele. Eu sou a penúltima filha.

 

P/1 – Você nasceu então dentro do Instituto?

 

R – Dentro do Instituto.

 

P/1 – Como era a casa? Onde?

 

R – A minha casa ainda está lá dentro do Instituto, é um patrimônio tombado que vai ficar lá. Eu morava numa das ruas… Numa das casas que tinha lá, que era direito do funcionário público. Era enorme, com tudo que tinha direito. O quintal era enorme, muitas árvores, tinha muita coisa. O quintal nosso era imenso! Quando você falava em vizinho, tinha quilômetros de distância com o outro vizinho, a nossa vizinha, porque é uma casa bem distante da outra. Era muito bom, eu [quando] menina conhecia tudo aquilo, vivia dentro daquele mundo gostoso no meu sítio. Eu falava que era um sítio.

 

P/1 – E onde você estudava?

 

R – Eu estudei aqui embaixo, no Colégio Alberto Torres.

 

P/1 – Vivendo dentro do Instituto você também viveu um pouco a evolução do Instituto, porque isso é década de 50, 60. Como era? Existiam pesquisadores? O que você lembra desse Instituto nesse período?

 

R – Bom, eu me lembro assim... Já tinha muitas pessoas que visitavam o Instituto, desde aquela época já vinham muitos turistas americanos, pessoas... Eu me lembro [que] eu era menina, vinham e não entendiam nada porque nós meninos corríamos para falar com eles e eles não entendiam. A gente ficava pensando por que eles não queriam entender o que a gente queria falar para eles. Vinha muitas pessoas, muitos pesquisadores.

Naquela época o diretor era o doutor (Oghi?) no Instituto Butantan. Tinha várias pessoas - a Maria Batalha, inclusive ela é minha madrinha, minha e dos meus irmãos. A Maria Batalha fazia parte do Instituto Butantan. Tinha ali… Que eu conheço, o Romeu Vieira e várias pessoas que trabalhavam dentro, faziam parte do Instituto na época. A gente vivia vendo aquelas pessoas, os funcionários. A vida da gente era muito boa. Não tinha perigo, o mundo era muito bom.

 

P/1 – Seu pai fazia especificamente o que nessa época que você morou no Instituto?

 

R – Meu pai trabalhava acho que no laboratório quando estava dentro do Instituto. [Por] Muitos anos ele trabalhou lá. Ele cuidava do laboratório, do almoxarifado, com direito a moradia dele e dos familiares, então eu estava em casa o tempo todo, era muito gostoso. Quando eu lembro das minhas peripécias infantis, eu andando por aquele meio de mato... Era muito bom.

 

P/1 – Que tipo de brincadeira você tinha com seus irmãos nesse ambiente tão agradável?

 

R – Eu era uma menina assim... Bom, eu tenho cinco irmãos homens. Depois viemos eu e minhas irmãs meninas, então o que acontecia? A gente brincava muito com moleque, desde bolinha até jogar futebol. Faziam o timinho deles, então nós brincávamos junto com eles.

Eu sempre falo que eu tenho irmãos velhos, porque eu tenho irmão quinze anos mais velho do que eu. Eles brincavam e a gente começava a fazer as brincadeiras de jogar futebol, jogar bolinha, subia em árvore, que era um horror. Eu era aquela menina bem espertinha, gostava de subir em árvores, jogar bolinhas, fazia mil... Até [em] cavalo a gente subia, porque tinha um pasto lá perto e tinha uns cavalos lá, então nós subíamos… Aquela coisa de criança, só para poder subir e brincar com os cavalos, subir em cima do cavalo em pelo. Subíamos em três, eu e meus irmãos um em cima do outro. Ficávamos andando a cavalo dentro do Instituto. Coisa de criança, hoje em dia acho que eu não chego nem perto de um cavalo, mas era engraçado, sabe? Criança não tem medo de brincadeiras assim, né? E eu gostava muito.

 

P/1 – Você tem alguma história que marcou sua infância, esse período que você morou dentro do Instituto?

 

R – Ah, de brincadeiras...

 

P/1 – Um susto?

 

R – Tenho sim. Ninguém acredita, mas naquele Instituto Butantan, como era muito mato, qualquer coisa tinha… O pessoal falava muito em fantasma, assombração, mas a gente andava de dia, andava à noite brincando. Eu me recordo uma vez, acho que eu estava com dezoito anos de idade e a minha mãe tinha ido fazer uma viagem para Aparecida do Norte com um pessoal. Ficamos em casa com a vizinha e ela voltava no final do dia; como eu falei para você era longe, não era vizinho do ladinho, vizinho você tinha que andar um pouquinho para... Descia, subia caminhos. Eu me lembro que ficamos eu e minhas três irmãs na casa da vizinha, mas já tinha dado umas sete horas da noite e a minha irmã falou assim: “Vamos ver se minha mãe chegou.” Eu falei: “Vamos.”

Pegamos o caminho de volta da casa da vizinha e fomos subindo, eu e as minhas amigas que eram vizinhas. Fomos cantando, brincando, conversando e de repente nós vimos… Eu falo isso,  ninguém acredita, mas foi verdade. De repente vimos e eu falei: “Nossa! O que é aquilo?” No escuro, porque eu tinha que andar uma rua enorme e depois subir por umas árvores para depois ir para minha casa. Nessa rua, de repente estava um negócio vindo, um treco enorme branco, parecia um lençol e eu falei: “Mas o que é aquilo? Nossa!” Era enorme, do tamanho desse armário aí e vinha voando na nossa direção. Eu não acreditei no que eu vi. Falei: “Gente, isso deve ser assombração.” Uma segurando na outra, nós viramos para trás; eu me lembro que a minha irmã usava duas trancinhas e a trancinha dela virou para cima. Foi engraçado, subiu a trancinha dela. Voltamos correndo, assustadas, o coração disparou e nós falamos para a vizinha: “Aquele negócio vinha voando na nossa direção e aí nós voltamos”. Contei para a mãe da menina e ela falou: “É mentira.” Eu falei: “Eu não vou mais para casa, eu não volto mais porque tem uma assombração no caminho.”

Foi muito engraçado porque todo mundo olhou o cabelo da minha irmã que subiu. Falaram: “A trancinha dela subiu.” Acho que ela assustou tanto, coitadinha, que subiu. Ela conta, eu conto, as meninas contam essa história porque ninguém acredita, mas é verdade, devia ter...

 

P/1 – Ficou igual o comercial da margarina, né?

 

R – É.

 

P/1 – Como eram seus pais? O relacionamento de vocês com o pai? As características... Eles eram bravos, eram doces?

 

R - Meu pai era muito dócil, eu falo que pai igual ao meu não tinha. Ele era muito amoroso, gostava muito dos filhos dele. Era muito carinhoso, muito bonzinho,  tranquilo. Nunca apanhei, aliás, nem [do] meu pai e nem [da] minha mãe. Eu não tenho esse estresse e também nunca os vi brigando, então não tenho esse trauma.

Minha mãe era mais ‘generalzona’, mais ‘bravona’. Ela não falava, só olhava, então a gente já sabia pelo olhar. A gente sabia quando minha mãe não gostava de uma coisa, ela nem falava. Meu pai era mais brincalhão, às vezes eu fico pensando nesse meu jeito brincalhão. Eu tenho muito isso do meu pai, ele brincava muito, fazia muito trocadilho.

 

P/2 – Você era muito levada?

 

R – Eu era bastante arteira, era muito ‘salientezinha’, apesar de ser muito tímida. Era meio quietinha, muito envergonhada. Eu me lembro que quando fui para a escola eu era [uma] menininha quietinha, muito magrinha, muito miudinha. Falava baixinho, eu tinha horror de... Eu falava baixinho, muito baixinho, eu pouco conversava; sentava na carteira e trancava ali. Eu não gostava muito de estudar, não, mas aí um dia a professora me chamou, falou assim para mim… Minha professora era a Dona Conceição Porto, ela falou assim: “Rosa, você precisa levar esse bilhete para sua mãe.” Eu falei: “Por que, professora?” “Porque você é muito fraquinha e fala muito baixinho. Fala para mamãe te dar gemada.” Eu odeio ovo!

Eu falava baixinho porque tinha vergonha de falar, eu não era muito de conversar. Não dei o bilhete para minha mãe nada, eu joguei o bilhete fora porque eu não queria tomar gemada. Então eu falei: “Imagina, a professora quer que eu tome gemada, o que é isso? Eu não gosto de ovo, eu vou tomar gemada?”

Eu era assim em casa com meus irmãos, arteira. Aprendia fácil as brincadeiras com eles, rodava pião, essas coisas que hoje em dia as crianças quase não fazem, mas eu fazia tudo isso.

 

P/2 – Teve uma infância mesmo.

 

R – Ah, me lembro uma época que eu ganhei um bambolê, mas eu rodava aquele bambolê! Ele era maior do que eu, era o maior que tinha. O que eu andava com aquele bambolê rodando… Adorava, fazia aquelas sanfoninhas, subia e descia, mas o bambolê era enorme e eu era pequenininha. Naquela época o bambolê tinha um peso, não sei se os bambolês hoje em dia têm. Ele tinha um pezinho dentro para dar estabilidade para a cintura. Eu me lembro que eu falava: “Como eu vou rodar com aquele bambolê?” Com uma facilidade, eu subia e descia a rua balançando aquele bambolê.

 

P/1 – E música, o que vocês escutavam? Tinha música na sua casa?

 

R – Tinha música porque eu tinha os meus irmãos que eram maiores. Eles escutavam muito The Platters que era da época. Era o Ray Charles que tocavam muito e quem mais? Nelson Gonçalves, me lembro que minha mãe vivia cantando as músicas do Nelson Gonçalves.

 

P/1 – Você se lembra de alguma música?

 

R – “A volta do boêmio”. Eu cantava aquela música.

 

P/1 – Você se lembra de algum trechinho?

 

R – Deixa ver se me lembro. Aquela música, ele cantava assim (começa a cantar): “Ele voltou/o boêmio voltou novamente/partiu daqui tão contente/por que razão quer voltar?” Essa era “A volta do boêmio”.

 

P/1 – É um clássico, né?

 

R – É um clássico do Nelson Gonçalves, era bonita. Ela vivia cantando e meus irmãos escutavam esse tipo de música. Eu me lembro que no carnaval meu pai comprava para gente serpentina, confete, essas coisas todas. Como o quintal era enorme, a gente passava toda a serpentina pelo meio das árvores e ficavam tocando músicas de carnaval, aquelas marchinhas de carnaval e [a gente] lá brincando. Eu me lembro que naquela época não era proibido, então meus irmãos tinham lança-perfume e todo mundo tinha lança-perfume. Eu amava cheirar lança-perfume (risos)... Porque era perfumada aquela latinha dourada, ela era cheirosa.

 

P/1 – Os meninos faziam arte com as meninas por causa do lança-perfume, não era?

 

R – Pra gente, a minha mãe comprava aquela bisnaguinha de um líquido vermelhinho - acho que é amoníaco, aquele líquido - pra gente espirrar. Até manchava a roupa das pessoas.

A minha mãe levava a gente na sede do Butantã. Tinha a sede pro carnaval, então ela arrumava a gente com fantasias e levava a gente para brincar o carnaval. Eu me lembro que ela comprava aqueles óculos pequenininhos pra gente, aquelas máscaras douradinhas, umas mais bonitinhas que a outra. Teve um dia que eu chorei porque só de molhar saiu todo aquele veludinho. Fiquei tão triste de ter saído dos meus óculos, porque os meus óculos ficaram feios. Eu me lembro que estava assistindo na sede e coloquei os óculos para cima; passou um pessoal brincando dentro do salão e me espirrou lança-perfume no olho. Minha mãe ficou tão brava! Eu chorei tanto porque a minha mãe falou: “Eu te dei o óculos para você tapar o olho!” E eu fiquei o tempo todo com a mão no olho porque estava ardendo o lança-perfume. Depois eu coloquei [os óculos], mas o pessoal jogava água e estragava a máscara da gente.

Eu gostava muito das minhas coisas, era muito apegada, então ficava sentida de estragar. Mas era gostoso porque a gente ia à matinê do carnaval, brincava, tinha aquela infância gostosa. Minha mãe não deixava de ‘participar’ a gente do carnaval. Chegavam as festas juninas também, aí minha mãe catava os gravetos, porque não faltava, né?

 

P/1 – Você frequentava igreja? Rosa, ali do lado do Butantã tem uma igreja que é do Cristo...

 

R - Nossa Senhora dos Pobres.

 

P/1 – Nossa Senhora dos Pobres, você se lembra dessa igreja? Ela já tinha sido construída?

 

R - Lembro. Eu me lembro que quando era menina… Minha mãe era muito religiosa, então ia sempre para a igreja Nossa Senhora dos Pobres. É engraçado que… Eu quase fui uma freira, então as pessoas dão risadas. Eu não saía da igreja porque minha mãe levava... Ela fazia parte do Apostolado da Oração, então ela ia lá, fazia orações e levava a gente também para a igreja porque era semana de Maria, era semana de José, era semana de santo, porque era semana de não sei o quê. Eu sei que sempre tinha o mês de Maria, o mês de José, mês de Paulo, mês de Pedro, ia indo o mês, né?

A gente ia para igreja e chegando lá, minha mãe começava a fazer orações. A gente ficava sentadinha, ela sentava no banco da frente, então ela sabia que a gente ia ficar ali enquanto ela rezasse, fizesse as orações. Nessa época a igreja era de madeira, essa Nossa Senhora dos Pobres, então ela é mais ou menos onde tem a gruta. Ela era para o lado de cá, se não me engano tinha a gruta e era uma igrejinha de madeira, depois que eu... Deixa ver, eu fui batizada na igreja de Pinheiros, porque eu acho que não existia aquela igreja...

 

P/1 – [Nossa senhora do] Montserrat.

 

R – Eu fui batizada e crismada naquela igreja e minha mãe fazia aquela parte do núcleo daquela igreja, então eu me lembro que fiz a minha primeira comunhão ali.  Eu me casei naquela igreja também, então ali tem muita coisa minha. Às vezes eu falo: “Nossa, eu sei a história da igreja” porque eu me casei ali.

 

P/1 – Você se lembra do padre que tinha lá?

 

R – Padre Carlos, que me batizou, que me casou.

 

P/1 – Isso na Montserrat ou na Nossa Senhora dos Pobres?

 

R - Na Nossa Senhora dos Pobres. O padre que me batizou foi o padre Cetim, da igreja de Pinheiros.

 

P/1 – Você se casou na Nossa Senhora dos Pobres?

 

R – Casei na Nossa Senhora dos Pobres.

 

P/1 – O que você lembra da [Avenida] Vital Brasil? Como era a rua? Ali atrás, onde hoje é a Escola da Vila, era uma chácara... Você se lembra de alguma coisa?

 

R – Da Escola da Vila?

 

P/1 – É. O que era ali?

 

R – Ali era uma... Pelo menos que eu saiba, o Butantã foi uma fazenda, então ali eram desmembrados… Parece que ali era a casa de um dos bandeirantes, não me lembro qual dos bandeirantes, onde é a Escola da Vila. Eu não lembro agora porque tem a Casa dos Bandeirantes ali perto, que também faz parte do núcleo do Butantã. Aquela parte do Butantã era uma fazenda, por isso que tinha esse nome indígena, Butantã. As ruas todas por ali são assim: Rua Boturoca, Rua Iquiririm. É tudo nome indígena. Deixa ver qual outra rua que também tem ali... Não sei se é a Maestro Carlos Cruz que foge [da regra], mas deve ser um ilustre também. [Rua] Maestro Carlos Cruz e a [Rua] Corinto, porque você vê, todo nome vem de indígena, a Vila Indiana.

 

P/1 – E o Morro do Querosene? Quando era menina você ouvia falar do Morro do Querosene?

 

R – Meu pai, quando saiu do Butantã, comprou uma casa na Vila Indiana. Nós fomos morar na Vila Indiana perto do Morro do Querosene, mas o morro eu conheço muito pouco, apesar de que eu morei lá também. No Morro do Querosene, acho que em 76, 77 eu morei na [Rua] Cícero de Alencar. Eu sei que o pessoal fala muito bem do Morro, tem muitas pessoas que moram ali, muitos jornalistas, muitos artistas plásticos. Mora muito músico ali no Morro também.

 

P/1 – Você não escutava histórias de que não era legal? Tinha uma lenda do Morro?

 

R – Não porque eu não participava do Morro. Eu morei pouco tempo ali, acho que um ano só, então não deu para pegar as coisas de dentro do Morro. Mas o pessoal que mora lá é bem centenário. Eu conheço várias pessoas que moram ali e eu sei que tem a Festa do Boi, que eles fazem todo ano. É bem falada, bem divulgada aquela festa e também todas as pessoas, porque a comunidade é muito grande. Tem o Dinho que toca o berimbau, ele é muito fera no que faz.  

 

P/2 – Na sua época já tinha festa? Quando você morava lá?

 

R – O pessoal acho que fazia, sempre fizeram. Eu me lembro que quando era menina, no morro era o único lugar que naquela época podia soltar balões e os balões mais bonitos que subiam eram de lá, então era muita coisa. Eles já faziam isso acho que há muito tempo, é que depois foi proibido, mas era muito lindo. Os balões, você via cada um... Às vezes você chegava a contar. Eu, da minha casa, contava uns vinte ou trinta balões no ar numa tarde. Um era mais lindo que o outro. Não eram balões de baloeiros, eram balões feitos por eles lá em cima do morro, eles faziam coisas lindas. A gente sabia porque eu morava no alto do Butantã [e] dava para ver o morro. Você via o lado que vinham os balões, era muito bonito [de] ver.

 

P/1 – Você chegou a ver o bonde? Tinha bonde quando você era menina?

 

R – Eu me lembro... Acho que tinha sim porque minha mãe contava. Eu era tão dispersa que não lembro de bonde, não.

 

P/1 – E a paineira?

 

R – Lembro da paineira porque todo mundo falava dessa paineira, que ela já era um ponto.

 

P/1 – Conta para gente um pouquinho da paineira?

 

R – Aquela paineira ali era frondosa, ela já era um ponto. Disseram... Que eu saiba era um ponto de encontro dos bandeirantes também quando eles vinham de outras... Para São Paulo quando eles subiam desbravando do Rio de Janeiro - do Rio de Janeiro não, subindo a Serra de Santos, eles vinham por lá, então quando eles vinham fazer o sul era um ponto de encontro deles, de parada na paineira que tinha ali. Aquela paineira era muito falada na época, então custou para a turma derrubar porque ninguém queria. Depois atrapalhou o trânsito ali, mas a paineira eu acho que não atrapalhava.

 

P/2 – E onde ela ficava?

 

R – Ela ficava bem no centro daquele semáforo na descida entre o Jóquei Clube e Cidade Jardim. Era bem naquele miolo ali, naquele cruzamento. Ela ficava bem ali, do Jóquei para cá, na [Avenida] Vital Brasil. Era uma paineira bonita, ela também fazia o cruzamento das ruas, então o pessoal tirou... De repente falou que ia tirar. Ela ficava linda quando dava aquelas painas, ia paina para todo lado! Era linda, branquinha, bonita mesmo.

 

P/1 – Qual é a imagem mais forte que você tem da sua infância? O que mais lhe marca quando pensa na sua história?

 

R – De tudo - da minha casa, da minha família, da minha mãe, do meu pai, das minhas irmãs. Nós somos muito unidos, não tem essa de um brigar com o outro, de falar... Um era pelo outro. Aqueles que comiam o mesmo prato ou aquelas coisas fortes assim de irmão, de você chegar… Mesmo hoje em dia, tendo a família deles, a gente chega e fala as coisas numa boa. Ninguém fala: “Não gostei”. Ninguém entra - não entra sobrinho, não entra cunhada, não entra ninguém. Quando a gente tem que falar, um fala para o outro e pronto, acabou. Pode ser o que for, a gente é muito unido.

Minha mãe criou a gente muito pertinho um do outro, um gostando do outro, então é assim: a gente briga, ‘modo de dizer’, discorda, mas quando acontece qualquer coisa corre todo mundo. Aí acabou a divergência, a gente já vai sofrer junto, já vai ficar ao lado. Não tem essa de falar: “Não quero saber”, não rolava isso, não. Minha mãe ensinou a gente a ser muito amigo um do outro, um gostar muito do outro e cada um do seu jeito, porque um é diferente do outro. Um é mais quietinho, o outro é mais espertinho. Mesmo os que têm cara feia, a gente consegue até tirar sorriso deles, os que são meio bravos. A gente vivia muito bem, era muito bom.

 

P/1 – Rosa, agora saindo um pouco da sua infância, como foi a sua adolescência? A passagem para a juventude? Quais foram suas descobertas? A escola?

 

R – Bom, deixa ver... Fui crescendo um pouquinho mais, mas eu sempre fui muito moleca, custei para ficar adulta. Acho que a criança que mora dentro de mim mora  até hoje. É verdade, porque eu me lembro que tinha quatorze ou quinze anos… Era muito menina, ainda brincava na rua; ainda andava descalça, mesmo morando na Vila.  

Eu brincava muito, gostava de brincar na rua. Eu gostava de ser menina até quinze anos. Enquanto eu via as meninas na rua querendo pôr sapatinho de salto, querendo colocar uma blusinha, eu era totalmente oposta, né? Um dia eu me lembro que estava andando em cima do muro da minha casa e não sei o que aconteceu que enroscou... Eu estava de saia, enroscou a saia. Eu estava brincando de esconde-esconde, se não me lembro, e rasguei.... Eu tinha quinze anos e a saia rasgou inteirinha, eu não aguentei. Depois eu tive que voltar para dentro de casa e dar uma volta enorme para minha mãe não me dar bronca porque eu rasguei a saia. Eu estava brincando de esconde-esconde à noite em cima do muro, escondida não sei onde. Eu era meio moleca então não tinha jeito, eu custei... Dos quatorze aos quinze anos eu era menina assim.

 

P/1 – É quando fica mocinha?

 

R – Por isso mesmo que eu demorei, porque depois as pessoas... Eu adorava ser menina, eu era moleca mesmo. Brincava bastante de pega-pega com os meninos na rua, de pular corda. Eu gostava muito de cantar e dançar, eu já criava...

 

P/1 – Ah, é? E o que você gostava de cantar?

 

R – Eu cantava tudo. Tudo o que vinha na minha cabeça eu cantava, eu adoro cantar. Eu me lembro que numa época na escola - vou voltar na época de escola porque tem um detalhe que é engraçado. Eu me lembro que eu estava numa aula. Eu não era muito ‘dez’ em Aritmética não, a Aritmética é a Matemática. Eu detestava e não gostava de estudar, mas gostava de cantar e dançar.

Eu me lembro que ouvi lá do pátio da escola… Eu ouvi uma música e pedi à professora para ir ao banheiro. Falei: “Posso ir ao banheiro?” Ela falou: “Pode.” Eu saí e fui para o banheiro, quando eu olhei lá estava o palco e a professora de dança ensaiando com as pessoas. De repente eu olhei e falei: “Ah meu Deus, eu queria tanto dançar”, mas a professora não tinha escolhido a minha classe. Eu fui para a professora e disse assim: “Professora, a minha professora, Dona Conceição, me mandou vir aqui - mentirosa! - ensaiar”. A professora olhou para mim e falou: “Mas já está completo.” Eu falei: “Não sei, mas você não escolheu nenhuma pessoa da classe e então eu tenho que dançar.” Aí ela falou assim: “Está bom.”

Eu conto isso e a minha filha fala: “Imagina! Como você pôde fazer isso?”

Aí eu voltei, ela falou “Está bom”. Demorei um pouquinho para ensaiar. Voltei para a sala de aula e a professora perguntou para mim: “Rosa, por que você demorou?” Eu falei: “Porque a professora de música me chamou para dançar, então eu estava ensaiando.” Ela falou para mim assim: “Está bom”. Eu voltei e falei para ela: “Eu fui inocente, mas eu queria dançar”. Então eu falei para a professora de dança uma coisa e falei para minha professora outra coisa.

Cheguei em casa e disse para minha mãe... A minha mãe, por ter muitos filhos… Não tinha como você querer ensaiar, ela não podia ficar gastando dinheiro com a gente, com roupas, ensaio, essa coisa toda. Aí eu cheguei para minha mãe e falei: “Mãe, eu vou dançar na escola porque a professora me chamou, então a senhora tem que comprar roupa para mim.” “Não, mas você...” “Não, eu tenho que dançar, eu vou dançar na escola” e no fim acabei indo... Eu me lembro que foi uma festa regional, me lembro que dancei com um vestido... A primeira dança que eu dancei foi o baião. Eram aqueles vestidos todos dançando baião, aquela coreografia.

 

P/2 – Quantos anos você tinha nessa época?

 

R – Eu tinha uns oito anos, mais ou menos.

 

P/2 – Dezoito anos?

 

R – Não, oito anos.

 

P/2 – Ah, era menina ainda?

 

R – Eu era menina, tinha uns oito ou nove anos. Eu estava no primário e inventei essa história só para dançar, então eu dançava, eu gostava de participar de... Na Festa da Árvore eu ia declamar. Eu adorava subir lá na frente e ver todo mundo olhando para mim. Como eu gostava de declamar!

 

P/1 – Mas nessa história você não levou nenhuma bronca, nenhum castigo de ter mentido para a professora?

 

R – Não, porque ninguém sabia. Vão ficar sabendo agora. Eu nunca contei (risos), nenhuma delas acreditou.

 

P/1 – E como você fazia para fazer os ensaios?

 

R – Eu ia depois porque a professora deixou. Ela deixou porque eu disse para a professora que minha classe não tinha sido escolhida e para a outra eu disse que minha professora mandou e para minha mãe eu falei que fui escolhida.

 

P/2 – E ninguém duvidou?

 

R – Não, ela acreditou e eu falei assim: “Eu vou dançar.” Eu ia dançar na escola porque eu gostava da dança, eu adorava dançar. Eu imagino que devia ser uma menina muito saltitante, menorzinha. Devia ser aquelas meninas... Eu era meio fechadinha, mas eu era meio elétrica, então eu adorava. Tudo que era coisinha para dançar que tinha, lá ia eu dançar na escola. Eu adorava participar dessas coisas.

Eu fui crescendo na adolescência, criava grupos para dança e ensaiava passos de coreografia porque eu sou daquela época do iê-iê-iê, do Roberto Carlos, os Beatles estavam começando… [Em] 66, mais ou menos. Dos Beatles eu me lembro do “Help”, nossa! Eu vivia dançando, eu adorava dançar rock.

 

P/2 – Vocês costumavam sair para dançar?

 

R – Ah, naquela época não tinha muito... Era nas casas das pessoas.

 

P/2 – Os bailinhos...

 

R – É, os bailinhos nas casas das pessoas. Tinha as amigas, falavam: “Vai ter um baile na casa de não sei quem.” Aí a gente ia para a casa das pessoas, tirava o sofá, tirava... Coitadas das mães, tinham que dormir com aquele barulho, onde já se viu? Eu jamais mais faria isso na minha casa hoje em dia, vai dançar em outro canto.

 

P/2 – E quando você começou a pensar na paquera?

 

R – Ah, meu Deus, as coisas para mim foram tão rápidas que até hoje eu fico pensando… Foi um negócio rápido porque eu sempre fui meio avoadinha. Lembro-me que eu tinha um namoradinho, não sei por que toda vez eu o mandava embora e ele voltava. Ele chegava lá e eu perguntava para ele por que ele não ia embora, acho que eu não gostava do menino, penso eu. Eu me lembro que estava numa festa porque sempre gostei de dançar, aí tinha esse que é o meu marido.  Ele estava lá; ele era muito amigo do meu irmão e aparecia em casa. Eu me lembro que ele apareceu, mas eu não era muito namoradeira, não tive tempo de namorar. Casei nova.

 

P/2 – Com quantos anos você casou?

 

R – Eu casei com dezessete, ia fazer dezoito então não deu tempo, foi rápido.

 

P/2 – Você conheceu e...

 

R – É, porque foi relance… Para mim é coisa rápida porque para mim tem que ser  para ontem. Eu não sou de esperar muito porque eu sei que eu desisto, eu desisto fácil, então me lembro que quando o conheci foi uma coisa diferente. De repente eu troquei de namorado, larguei daquele para pegar esse. Foi uma coisa assim, meio... Um era mais velho do que o outro e então foi assim. Acho que é amor à primeira vista, as pessoas falam que não existe, mas existe sim. Foi no prazo de um ano e quatro meses. Eu [me] casei nesse prazo, seis meses para casar.

 

P/2 – Como foi o seu casamento?

 

R - Foi bonito! Para mim acho que foi tudo sonho, não sei. Eu acho que fui no impulso: “Eu vou casar” e de repente ele falou: “Vamos casar tal dia.” Casei, aí teve aquela festa monumental na minha casa. Três, quatro dias eu passei fazendo doces e salgados e convidando as pessoas.

Eu me lembro que a minha lua de mel foi no Rio de Janeiro. Eu me lembro que estava todo mundo lá na festa e eu querendo ficar, mas para dançar. Já estava na hora de ir embora e eu querendo dançar na minha festa. Eu aproveitei bastante, porque geralmente as noivas ficam sentadinhas, ficam quietas, não perdendo aquela coisa… Eu aproveitei o meu casamento. Foi muito bom, muita gente, muitos amigos,  foi uma coisa assim... Até o ex foi lá para falar tchau. Que horror, coitado.

 

P/2 – Quantos anos o seu marido tinha na época?

 

R – Acho que 24 ou 25, mais ou menos.

 

P/1 – E você trabalhava também?

 

R – Depois... Nessa época eu trabalhava sim, trabalhava de recepcionista nessa época. Eu trabalhava aqui na [Avenida] Lacerda Franco, depois eu parei. Depois que casei eu fiquei em casa sendo mãe, cuidando dos meus filhos.

 

P/1 – Quando você teve seu primeiro filho?

 

R – Eu tive um ano depois.

 

P/1 – Com dezoito anos?

 

R – Isso, com dezoito anos.

 

P/1 – E como foi ser mãe aos dezoito anos?

 

R – Você acredita que para mim fez diferença? Por exemplo: quando eu vejo minha filha com dezoito anos eu falo: “Imagina, não tem cabimento uma moça dessa idade sendo mãe. Acho muito novinha.” Eu acho que não tem cabimento. Mas eu tinha aquele jeitinho muito maternal de criança, eu gosto muito de criança, então eu era super mãe.

Eu achei o máximo quando fiquei grávida do meu filho. Demorei para ficar grávida uns três ou quatro meses depois que casei. Achei o máximo, lindo porque o meu filho é muito bonito. Não é que eu queira falar, não, mas eu nunca vi bebê tão bonito igual àquele. Aliás, meus filhos são todos bonitos, modéstia à parte, não estou sendo modesta, mas são sim.

Meu filho era muito bonito, então eu andava com ele para lá e para cá, tomava conta dele para cima e para baixo, aí o pessoal... Eu não gostava porque as pessoas não acreditavam muito. Eu era muito miudinha, quando me casei eu pesava 46 ou 47 quilos. Eu era muito magrinha e com muito jeito de menininha; ninguém acreditava você com aquela criança pequenininha, eu achava que queria ser adulta ali.

Eu me lembro que antes, quando a gente saía, o pessoal... Cortando um pouquinho, antes do casamento eu era noiva e ia muito a uma boate chamada Whisky a go-go dançar, ali na Avenida Santo Amaro. Eu me lembro que o pessoal ia lá, o meu irmão, a namorada dele que morava na Vila Nova Conceição, então nós íamos para lá e entrava todo mundo. E eu, muito miudinha. Eu lembro uma vez uma coisa interessante: chegamos nesse local e o pessoal começou a pedir documento, mas eu já tinha quase dezoito anos, já era bastante para adulta. Fiquei brava porque o garçom chegou e perguntou para todo mundo... Eles tomavam whisky, chope e coisas desse tipo e ele olhou para mim e falou: “A menina quer refrigerante?” Eu falei: “Eu não sou menina!” Fiquei revoltada porque ele achou que eu tinha cara de menina demais.

Eu punha salto para ficar assim, mais... Mas acho que eu tinha cara de criança mesmo e tem mesmo menina de dezoito anos [que] é muito novinha. Eu gostava muito de dançar e o meu intuito de sair com eles era a dança, uma atrás da outra.

 

P/1 – E depois, com os filhos, você conseguiu conciliar esse lado todo juvenil com a maternidade?

 

R – Não. Você acredita que... Meu filho parecia um bonequinho, né?

 

P/2 – Como ele se chama?

 

R – Sandro, meu filho mais velho. Eu andava com ele para lá e para cá e tudo que eu fazia… Eu sempre falo: “Toda mulher sabe ser mãe”, então não tem como você... Eu digo você não saber cuidar do seu filho, então eu fazia tudo do meu jeito. Cuidava, era super protetora; o amamentei até um ano e oito meses no peito porque eu tinha preguiça de levantar para fazer mamadeira. (risos) Eu tinha preguiça, tenho horror. Achava que peito era mais prático, então o amamentava no peito. Depois ele foi crescendo e com diferença de dois anos, dois anos e pouco nasceu esse meu filho que é o Daniel. Com 22 anos tinha dois filhos, mas era engraçado que eu errei... Eu era tão avoada que errei na gravidez do primeiro, eu errei na conta.

 

P/1 – Como assim?

 

R – O médico falou para mim... Eu parava de fazer pré-natal porque aquilo cansava e ele falava para mim... Eu falava: “Eu não estou doente, o que eu vou fazer na maternidade? Toda hora fazer exame?” Eu não ia muito não, porque [se] eu estava bem eu parava de ir. Achava aquilo desgastante. Eu não tinha problema de saúde, achava que só quando tinha problema de saúde é que tinha que ir ao médico. Não é verdade, era a minha cabeça; eu falava: “Meus filhos estão saudáveis”.

 

P/1 – E hoje você fala o quê para a sua filha?

 

R – Como assim?

 

P/1 – Sobre problema de saúde, pré-natal, controle?

 

R – Ela é mais cabeça do que eu, a minha filha ela é diferente de mim. Quando nasceu o meu segundo filho... Foram todos bem amados, foram todos bem quistos, [mas] também não foi nenhum programado.

Eu me lembro que ia para a feira, carregava um e o pessoal falava: “Como você pode?” Eu punha um aqui na barriga, segurava o Sandro aqui em cima, no carrinho e sentava um em cima do outro e o pessoal: “Ah, mas esse nenê!” Eu falava: “Eu tenho que carregar esse menino porque ele dá três passos para frente e dois para trás.” Quando saía com ele assim era mais fácil carregar. Eu os punha na barriga e carregava para a feira, para o mercado. Ia com os dois, era aquele negócio de super mãe.

 

P/2 – Como ele se chama?

 

R – Daniel.

 

P/1 – Quantos anos têm seus filhos?

 

R – Meu filho mais velho tem 32, o Sandro. O Daniel tem 29 e a Fernanda tem dezoito.

 

P/1 – O que a maternidade mudou nas suas características? O que ela lhe acrescentou?

 

R – Na época, para mim, não mudou muita coisa. Eu achei lindo quando meu filho me chamou de mãe pela primeira vez. Nossa! “Ai que lindo, me chamou de mãe!” Era engraçado. “Agora eu sou mãe.” Eu achava chique ser mãe.

Sempre fui super mãe, sempre os carreguei para tudo enquanto é lado, então eu participava muito da vida deles, indo para escola, indo para o clube, levando para jogar futebol. Se estivessem na rua empinando pipa eu estava junto com eles.

 

P/2 – Rosa, você falou que a sua filha tem dezoito anos, então tem uma diferença grande de idade do segundo para o terceiro filho. Como foi ter a sua terceira filha depois de tanto tempo?

 

R – Nessa época eu já estava mais madura. Ela foi um presente para mim porque com 28 ou 29 anos perdi minha mãe. Minha mãe faleceu e eu sofri muito. Aquilo para mim acabou com a minha vida porque a minha mãe criou meus dois filhos, me ajudou. Na época que casei ia todos os dias na casa da minha mãe.

 

P/1 – Vocês continuaram morando perto?

 

R – Eu morava no... Não era muito distante, então a escola... Eu já fazia as coisas de caso pensado. A escola dos meus filhos era perto da casa da minha mãe, então qualquer emergência eles estavam lá para ir para a casa da minha mãe porque... Sofri demais porque minha mãe faleceu e eu não me conformava com a perda.

 

P/1 – Sua mãe morreu quando você tinha 28 anos?

 

R – É.

 

P/1 – E você ficou só com o seu pai?

 

R – Não, eu já não tinha pai, meu pai já tinha falecido. Meu pai faleceu [em] 67, mais ou menos.

 

P/1 – Quando seu pai faleceu, sua mãe ficou morando sozinha?

 

R – Minha mãe ficou com meus irmãos. Ficou aquela mãezona para os filhos. Só tinha um casado, o resto era tudo solteiro e nós somos uma escadinha - diferença de nove meses, um ano. É um pertinho do outro, um muito parecido com o outro.

 

P/1 – São quantos filhos?

 

R - Oito.

 

P/1 – Qual o nome dos seus irmãos?

 

R – Meu irmão mais velho é Sebastião Paulo, o outro João Paulo, o outro [se] chama João, o outro Wilson, Antônio, tem a minha irmã Terezinha, eu e a minha irmã Maria, a mais nova.

 

P/1 – Seu irmão mais velho tem quantos anos?

 

R – Ele é falecido já. Estava com 65 anos. O outro está com... O Paulo fez 63 anos - eu falo que tenho irmãos velhos. Tem mais um falecido, faleceu acho que vai fazer dois anos. O Wilson está com 58, mais ou menos. O Antônio está com 53, tem a outra minha irmã [com] 53, 54 tenho eu e a minha irmã que tem uma boa ideia [51] ou quase meio século, sei lá.

 

P/1 – E o seu marido? Como era o seu casamento? O relacionamento com os filhos?

 

R – Era tranquilo, ele é bem paizão, bem sossegado com os filhos. Paciente, muito paciente comigo, porque ele sempre falou para mim que eu era meio mimada.  Não sou mimada, as pessoas fazem as coisas para mim porque querem, não que eu exija, vai fazer o que? Então ele fala para mim: “Não.” Era paciente, uma pessoa tranquila.

Às vezes as pessoas perguntam para mim qual é a técnica. A técnica é essa: um não podar o outro de fazer o que gosta, porque ele é uma pessoa e eu sou outra. Não combina esse negócio de você ficar mandando, fechando a outra pessoa, tirando a pessoa de ser ela própria para mudar a pessoa. Não dá certo. Isso você aprende um com o outro, mas não dá certo viver um casamento fazendo o que a outra pessoa quer que você faça. Você acaba anulando sua vida própria para viver a vida da outra pessoa. Eu acho que não é assim, eu penso assim: a gente tem que viver o que a gente gosta de fazer. O que é bom para mim pode não ser bom para você e às vezes a pessoa tem que entender esse lado, Não tem esse negócio da gente falar “eu não vou fazer isso porque ele não gosta”, porque não sei quem gosta.

Passei isso para os meus filhos. As coisas que eu gosto de fazer, que eu fazia eram coisas que estavam dentro de mim como a dança, a música. Teve um tempo da minha vida que eu fui fechada, que eu me anulei. Foi na época depois que... Um pouquinho antes de a minha mãe falecer eu me lembro que morava em Santana. Teve umas controvérsias. Eu era uma pessoa que segurava muito para não dizer as coisas para as pessoas, para não magoar, mas as pessoas não seguram as coisas para não te magoar. Eu não tinha coragem de falar para as pessoas o que eu sentia na hora, mas depois eu ficava tão ruim dentro de mim que eu ficava sentida comigo. De não ter falado aquilo e perguntando para mim: “Por que fulano falou aquilo? Eu fiquei magoada.”

Teve uma época que eu morava em Santana e tive -  depois o médico falou para mim - tive três piripaques.

 

P/2 – Como assim?

 

R – Piripaques, aqueles chiliques. Eu tinha de vez em quando um chilique, aqueles estresses nervosos. Ele disse: “Você teve o tradicional chilique”. Eu ia parar no pronto socorro tendo chilique. Fiquei chique, tive até chilique na vida. (risos)

Fui parar no balão de oxigênio e tinha que tomar remédio, tinha que tomar um calmante forte porque eu não falava, às vezes saía... Controvérsias com pessoas e eu não falava, ficava guardando aquela coisa para mim, aquilo ia me prejudicando e eu ia passando mal. Quando fui procurar um terapeuta, um médico -  fui fazer um tratamento médico por causa disso - eu falei: “Eu não nasci tomando remédio, não vou ficar tomando remédio, eu não tenho nada.” “Mas para se acalmar tem que tomar remédio.” Depois você vai ficar dependente de remédio, de química para você ficar calma. Sou contra remédio; me lembro que fui ao médico, falei com ele e ele disse para mim assim... Eu perguntei para ele… Eu me lembro até hoje na Rua Salete, um médico que tinha em Santana...

Depois disso, minha filha, eu mudei assim igual água e vinho. Eu desconhecia essa outra Rosa. Perguntei para ele: “Doutor, eu queria fazer uma pergunta para o senhor. O senhor acha que eu sou louca?” Ele falou: “Não, por que? O que aconteceu?” Eu falei: “São as pessoas que me irritam.” E ele: “Mas em casa, como vai você?” “Na família vai tudo bem, só as outras pessoas que de vez em quando me irritam. Não sei por que as pessoas falam essas coisas para mim. Engraçado, eu queria saber por que é que quando eu vou dizer um número, um telefone eu demoro para gravar, mas quando alguém me faz alguma coisa aquilo não sai da minha cabeça. Eu devia esquecer também.” Ele disse: “Você é muito sentimental, muito sensível. As pessoas falam as coisas para você e você fica sentida.” “O que eu devo fazer então?” “O que você acha que tem que fazer?” Eu não esqueci até hoje o que ele me disse, ficou nítido na minha cabeça. “O que você quer fazer quando alguém lhe tira do sério, lhe irrita?” Eu falei: “Eu tenho vontade de pegar a pessoa e estapear a cara dela, é isso que eu tenho vontade de fazer. O senhor acha que eu devo bater nela?” Eu ia fazer o que ele mandasse. Se ele falasse: “Bate”, era o que eu ia fazer. Ele foi clássico; olhou para mim e falou assim: “Eu vou falar uma coisa para você. A cabeça da gente é uma caixinha de surpresas. Não vou dizer para você fazer isso e nem fazer aquilo, mas se você achar que deve fazer e vai se sentir bem com aquilo, faça, mas aí é momento seu. Se você achar que vai se sentir bem falando isso, fazendo aquilo, então você faça.” Menina, saí dali outra pessoa.

 

P/1 – Batendo em todo mundo?

 

R – Não, não bati porque eu não sou disso, eu não fiz isso. (risos) Mas de repente eu comecei a me modificar, as pessoas falavam as coisas para mim e na hora eu comecei a ter respostas. “Nossa, Rosa, você não é assim.” “Meu médico mandou, ordens médicas. Ele falou para não segurar, eu tenho que falar.”

 

P/1 – Mas o que as pessoas falavam para você que...

 

R – Por exemplo, eu falo uma coisa para você e de repente você satiriza e fala uma coisa dúbia, de duplo sentido. Eu sou muito dispersa, minha filha fala que eu sou orelhão com defeito, que de repente a ficha cai, porque a minha ficha quase não cai, cai depois. Depois eu fico fera, fico nervosa porque eu não presto atenção.

É difícil eu encrencar com alguém. Às vezes as pessoas estão numa roda conversando, sem querer alguém fala alguma coisa e as pessoas falam assim: “Você viu aquilo, viu o que a fulana fez?” Eu não sou assim, não presto atenção. Acho que é natural seu, às vezes você nem falou por mal. Só percebo se você fizer mesmo com uma… Como é que fala? Direto para mim. [Se] fez caras e bocas, fez qualquer coisa, eu não estou prestando atenção. [Acho que] ela está nervosa, então eu não presto atenção.

Mas tinha coisa que era profunda, você chegar perto de mim e dizer uma coisa que eu não esperava que você fizesse para mim, sabe? Eu falava: “Você não, podia ser ela ou ela, mas você não, por que você fez isso comigo? Eu acho que não merecia.” Tem pessoas que fazem isso, lhe magoam, lhe machucam e você não sabe sair daquela situação. Eu não sabia fazer aquilo porque não fui criada daquele jeito. Às vezes as pessoas falam assim: “Você foi muito bem educada.” Minha mãe exagerou porque ela não ensinava a gente a ser malcriada, dar resposta, se defender. Eu [me] sentia tão mal, eu falava: “Não tem como.”

Dali para frente eu fui me modificando pelo que o médico falou. Foi quando eu pensei que ia até morrer quando minha mãe faleceu, porque eu fiquei muito triste. Eu falo, acho que só ganhei quando perdi porque a gente não dá valor. Os filhos não dão valor mútuo para os pais, com aquela intenção toda. De repente, quando você não tem mais, você vê a falta; é muito grande, dói muito, é muito triste. Você dorme e acorda, deita e levanta e não quer mais viver. Eu me lembro que chorava dia e noite e não me importava nem com meus filhos. Perdi em [um] mês oito quilos, emagreci muito. Chorava dia e noite, quase um mês chorando sem parar de tristeza. Eu não me conformava.

As pessoas falavam: “Você tem que sarar, isso tem que passar.” Eu falava: “Gente, não é… Eu não entendo. Aqui [na cabeça] eu sei, mas aqui [no coração] está difícil de passar essa dor.” Foi muito difícil, sofri muito mesmo. Não podia falar, eu chorava muito pela falta da minha mãe por muito tempo e aí depois... Foi na época que eu só tinha meus dois filhos - foi aquela pergunta que você fez, como minha filha de repente apareceu.

Eu não me conformava porque eu já tinha dois filhos, o Sandro já estava com doze ou treze anos, já estava bem grande, o Daniel também já estava grandinho, com dez anos. Estava com dois filhos grandes e não tinha muita atenção para as crianças. Eu não tinha tempo, só ficava pensando sentada, chorando e sem vontade de fazer mais nada. Eu fazia algumas coisinhas à toa, ia fazer uma ginástica, um exercício, um curso, qualquer coisa assim, mas nada além daquilo porque eu era dedicada aos meus filhos e a vida para mim parecia que tinha acabado. Foi aí que de repente eu fiquei grávida da minha filha, a Fernanda, assim, do nada.

A gravidez dela foi tão engraçada que... Dos dois foi uma maravilha, eu me lembro que eu dançava que a barriga até chacoalhava, eu dançava a gravidez inteira. As pessoas falavam: “Vai cair a barriga.” Eu falava: “A barriga não cai.” Mas dela foi uma coisa tão… Eu me lembro que quando fiquei grávida dela achei que estava doente. Comecei a ficar com febre, você já viu alguém grávida com febre? Eu me lembro que o pessoal estava em casa… Naquele mal-estar, eu falei: “Estou doente, não sei o que eu tenho”. A minha casa sempre estava cheia de gente, meus irmãos e os familiares se reuniam para tomar cerveja, comer pizza no final de semana então o pessoal estava sempre lá em casa. Eu morava num sobrado nessa época; me lembro que meus filhos chegaram em casa, eles brincando para lá e para cá e o pessoal conversando… Eu me lembro que depois eu descobri que estava grávida, mas aquilo era tão irritante! Eu me lembro que fumava e parei de fumar, não suportava sentir o cheiro de cigarro na minha frente. Estava todo mundo conversando, eu levantava e falava: “Dá licença que eu vou subir.” “O que você tem, Rosa?” “Eu não aguento essa conversa, está me enjoando.” (risos) Eu subia porque me dava enjoo a conversa, muita gente falando me dava enjoo. Eu falava: “Estou doente, não é possível”. Eu ia deitar, ia lá para cima, eu não aguentava ouvir ninguém falar mais. Era um cheiro de perfume, um cheiro de comida; eu só tomava banho com água do chuveiro e mesmo a água do chuveiro me dava enjoo, era um horror, menina. Eu me lembro que uma empregada que eu tinha, sem querer ela quebrou o vidro de pinho na cozinha. Ela já tinha lavado e eu entrei. Quando eu senti aquele cheiro eu voltei para a rua e falava assim: “Que cheiro é esse?” “Mas eu limpei, esse cheiro é de produto de limpeza.” “Mas eu não aguento esse cheiro. Não passa mais nada dentro de casa, eu não aguento esse cheiro.” Uma pessoa com um desodorante, um perfume eu falava: “Por que as pessoas passam essas coisas, meu Deus” (risos). Era um horror.

Foi uma gravidez estranha, eu nunca vi isso. Tudo me enjoou. Ela falava: “Você é cheia de frescura”, mas não é. Eu não aguentava as pessoas falando muito, aquilo me dava um...

 

P/2 – Quanto tempo você demorou para descobrir?

 

R – Acho que depois de dois meses, mais ou menos. O médico me mandou fazer exame; me lembro que quando eu... Foi até engraçado. Fiz exame de sangue e quando eu cheguei ao médico… Eu achava que não era, eu falava: “Deve ser atraso.”

 

P/1 – E você se sentindo mal?

 

R – Sentindo mal, com febre. Eu falava: “Estou com febre.” Fui ao médico, ele fez exame e falou: “Você tem quantos filhos?” Eu falei: “Eu tenho dois.” “Então vai ter outro.” “Ah, não acredito, o que é isso? Só me faltava essa, imagina!”

Ser mãe aos trinta anos. Eu me achava velha porque tive filho muito nova.

 

P/1 – Essa gravidez veio logo depois que sua mãe morreu?

 

R – Foi logo depois.

 

P/1 – Em algum momento você parou para pensar que foi uma forma que...

 

R – Foi. Depois eu falei assim: “Foi um presente”, porque minha filha era muito boazinha. Foi uma menina - eu tinha dois filhos. Eu me lembro que quando fui fazer a ultrassom os médicos falaram que era menina. Eu já ia fazer a laqueadura também e quando eu saí de lá sozinha ele falou assim: “Ela é gordinha!” Eu me lembro que eu falei para a minha filha: “Você era gordinha, Fê. Você tinha dobrinha, nunca vi um bebê dentro da barriga ter dobrinha na coxa.” Ela tinha dobrinha na coxa, no braço. [Quando] eu saí de lá era laço cor de rosa para todo lado. Eu falei: “Nossa Senhora! Eu não acredito!”

Passei numa loja e comprei macacãozinho cor de rosa para levar para casa. Eu esperava desde o primeiro filho que fosse uma menina e foi engraçado porque… Ela é a cara do pai. Ela é bem clarinha, é loirinha e os meninos são morenos. Ela é clarinha, bem bonitinha. Eu olhava e falava: “Como ela é linda a minha filha!” Era muito lindinha e quietinha, era o extremo de boazinha. Ela preencheu todo aquele espaço, porque eu tive um bebê e depois não tive tempo de ficar pensando mais na minha mãe. Depois eu comecei a ver que Deus faz as coisas certas, ele lhe dá as coisas na hora certinha que você precisa. Ela podia ter vindo antes, porque eu sempre fui uma pessoa que nunca fez esquema para engravidar. Se veio é bom, mas veio num momento que eu precisava dela para companhia, tanto é que hoje ela é bastante companhia para mim. Só tenho ela em casa porque os meus filhos não moram comigo e então eu participo, a gente troca muita ideia, ela é muito inteligente também. Ela é uma menina sossegada, tranquila; ela chama a minha atenção porque é muito quieta, ela não é parecida assim comigo. Ela é muito risonha, muito brincalhona, muito falante, mas é muito quieta, então ela fala assim: “Você não é quieta.” Eu falo: “Claro que sou.”

 

P/1 – Rosa, agora, com os filhos crescidos, o que você faz da vida?

 

R – Meus filhos cresceram, minha filha começou a ficar maior e aí eu comecei a fazer umas coisas. Eu sou uma pessoa que começa um curso, começa a fazer uma coisa e para. Quando eu não gosto, largo tudo porque só faço o que gosto, é esse o detalhe.

Eu me lembro que [pra] meus filhos eu já passei... Sempre passei meu jeito para eles de ser, pra eles serem eles mesmos sempre, desde pequenos, para não sofrer mais tarde discriminação ou falar “eu não posso aquilo” ou as pessoas falarem “você é diferente daquilo”. Eu falo: “Vocês não são diferentes de ninguém. As pessoas são todas iguais, então nunca se diminua, porque tem isso, tem aquilo, você não fez ou não pode…” Eu falo: “Se é dinheiro é questão de bolso, mas é igualzinho, uma pessoa é igual a outra”. Eu passei sempre isso para eles e também passei o meu jeito de ser. Sempre gostei de ser eu mesma diante deles mesmos. Eles sempre aceitaram o meu jeito de ser, gostam do meu jeito de ser. Às vezes eles até me elogiam, falam que quando saem, quando estão na faculdade e tocam um samba, uma coisa assim, eles falam: “Vou ter que ver a minha mãe dançar isso aí, minha mãe dança muito.” Modéstia à parte eu danço bem mesmo porque... Depois eu comecei a procurar as coisas para mim, então eu já vi...

Teve uma época que o meu filho mais velho saiu de casa. Aquilo para mim foi um choque porque eu era uma super mãe. Ele foi embora de casa e aquilo me deixou muito chocada, fiquei muito sofrida também, mas eu já estava... Eu já tinha aquela caixinha de surpresas, eu já sabia me programar para não entrar em depressão, senão a gente se deprime e sofre muito, mas sofri demais dele ter ido embora assim. Só pegou as coisas dele e foi embora, com dezoito ou dezenove anos. Aquilo me doeu muito, fiquei inconformada de vê-lo ir embora de casa assim.

 

P/1 – Você ficou sem falar com ele?

 

R – Fiquei um tempinho. Eu fiquei tão triste porque [ele] tinha tudo, por que ir embora assim? Eu falava: “Quero meus filhos casando bonitinho, saindo de casa bonitinho”, mas não foi isso que aconteceu. Sofri de novo, chorei muito, ficava me perguntando: “Onde foi que eu errei? O que foi que eu fiz?” Meu filho falava assim: “Não é assim.” O Daniel nessa época estava no quartel. “Não, mãe. Não fica assim, deixa ele.” Eu falava: “Mas eu sei, ele não sabe se cuidar.” Achava que ele não sabia se cuidar.

Eu comecei a me estruturar, procurar alguma coisa para mim e aí eu entrei, eu mudei... Essa época era 94. Eu mudei, a situação não ficou muito boa e eu tive que sair do condomínio onde eu morava. Já fazia doze anos que eu morava lá, a minha filha nasceu nesse condomínio e foi uma coisa assim... Foi tudo junto, aí eu falei: “Meu Deus, e agora? O que eu posso fazer?” Não sei, estava meio perdida. Meu filho estava no quartel e esse não estava mais em casa, eu me questionando por que ele fez aquilo, inconformada com isso...

Passou um tempo e ele voltou. Depois fica aquele negócio de mãe:  “Não quero nem saber...” Mentira, mãe sempre sofre, né? Depois eu vi que ele foi se acertando. Tem que se acertar, tem que caminhar sozinho. Eu não posso ficar em cima dele, se ele errasse ou se acertasse era problema dele. Falta de falar não foi, mas os filhos nunca ouvem. Só depois que erram é que eles falam: “Ah, bem que minha mãe falou.”

 

P/1 – Mãe não se engana nunca.

 

R – Não se engana, é verdade, então a minha mãe... Com a minha mãe não funcionava assim porque eu não tive esse tipo de coisa. Minha mãe falava “não”,  era não. Eu não ia em cima dela, não questionava. Eu deixava acontecer as coisas assim, eu era muito obediente. Eu não ia discutir com a minha mãe, eu achava que ela estava certa quando falava as coisas para mim. Não ficava batendo pingue-pongue com ela. Quando as minhas irmãs faziam esse tipo de coisa eu falava: “Ela está certa, fica quieta.” O que você vai falar? Se ela está falando é porque está certo. Com os meus filhos era diferente. O Daniel já olhava mais que o Sandro, prestava mais atenção.  

De repente eu vi que não estava bem comigo e comecei a fazer algumas coisas, mudei de casa, entrei em depressão quase. Me lembro que teve uma outra história -  é que de vez em eu mesma satirizo as minhas coisas, porque eu mesma faço... A minha irmã fala que sou dramática, qualquer coisa eu faço drama, aí eu me lembro que eu fui para... Mudei, fui para outro apartamento, mas o apartamento não estava bem, eu não estava bem. O apartamento me irritava. Eu olhava para a sacada e tudo me irritava na minha casa. Foi aí que eu comecei a me sentir triste, só [me] sentia feliz quando estava na rua. [Quando] eu ia para a rua estava bem, entrava no apartamento [e] aquilo me dava um horror... Acho que era por tudo, por ter acontecido muita coisa junto; eu não estava feliz.

Eu me lembro que teve uma noite quando eu entrei em depressão - me deu um ‘tilt’, eu estava dormindo e pensei que estava com azia. Uma dor no peito, eu falei: “Acho que alguma coisa me deu azia.” Eu me lembro que sentei na cama e falei: “Acho que vou tomar água.” Levantei, fui à cozinha, tomei água e não passou aquela dor no peito, aí eu voltei para cama e quando eu fui deitar deu um aperto forte no meu coração. Eu falei: “Nossa, me deu mal-estar.” Sentei na cama de novo e meu marido falou: “O que foi?” “Não sei, está me dando uma dor no peito.” “Mas o que aconteceu?” “Sei lá, não sei.” “O que você quer?” Eu falei: “Nada, deixa eu levantar.” Comecei a me sentir com a mão gelada, a mão formigando e eu passando mal. Eu levantei, era umas duas e meia ou três horas da manhã. Fui para a sala e ele falou: “O que você quer?” Aquilo me irritou. Eu falei: “Não quero nada.” Sentei do lado dele. Tinha uma sacada, eu falei: “Abre essa janela que está me dando falta de ar.” Ele abriu. “Eu não quero nada, quero ficar quieta aqui. Abre essa janela que está me sufocando.”

Eu pensei rápido: tenho que ficar calma. Comecei a me acalmar e o tempo foi passando. Eu sabia que ia piorar; no dia seguinte eu levantei e fui parar no Unicor. Fiz vários exames, fiz eletrocardiograma. Ele [o médico] falou: “Você não está com problemas.” Uma bateria de exames, o médico pediu. Fiz um check-up. Eu falava assim: “Ai, gente. Eu acho que vou ter que fazer um transplante do coração.” O maior drama. “Não sei, acho que os meus rins…” Achei que estava toda doente.

Fui ao médico para saber os resultados todos dos exames que eu fiz. O Daniel me levou lá; eu falei: “Daniel, não estou bem. Eu me sinto tão mal.” Eu falava o tempo todo enquanto não saía os exames. “Ah, como essa mulher é dramática.” Cheguei no médico e ele falou: “Está tudo bem, aqui está bem, aqui também está bem” e foi daí para frente que eu mudei minha vida. Ele falou: “Não tem nada o teu coração.” Eu falei: “Não, mas...” Ele falou: “Você pode sofrer várias emoções, pode se apaixonar várias vezes porque o seu coração está ótimo.” Eu não acreditei, achei que ele ia falar outra coisa. Ele falou: “Está bem. Sabe o que é, Rosa? Eu vou te falar uma coisa: você se estressou, se fechou num mundo só seu e você não... O que acontece [é] o estresse do dia a dia. O certo seria você largar tudo e fazer uma viagem, cuidar de você, viver para você.”

O que eu ia responder? Eu cuido da casa, cuido dos filhos, que é o cotidiano do dia a dia. Ele falou assim: “Vai fazer uma coisa para você, uma ocupação para você, algo prazeroso para você.” Foi a segunda dica de um segundo médico para eu mudar. Eu falei: “O que eu posso fazer? Não sei.”

Tenho uma filha de seis anos, tenho outros dois filhos… A minha filha, acho que tinha dez anos. Como vou fazer, meu Deus, agora? Minha situação já não estava lá essas coisas, já não tinha empregada mais. Não tinha como deixar a minha filha, não tenho a minha mãe para cuidar da minha filha, vou sair como? Fazer o quê?

Passou, voltei para casa e falei: “Vou procurar uma coisa para mim.” Tinha uma vizinha minha, uma japonesa que fazia... Eu morava perto de uma academia de dança, de ginástica. Ela fazia exercícios, dança à noite, fazia natação, aeróbica; era muito minha amiga. Falou assim: “Rosa, eu faço dança. Você não quer fazer dança?” Eu falei: “Imagina, eu fazer dança.” Achei aquilo... Sair à noite para fazer dança. Ela falou: “Vai fazer aula!”

Para falar em casa que eu ia sair assim foi difícil. Eu falei: “Vou começar a fazer aula de dança ali na academia.” Ele falou: “Está bom, imagina.” Eu falei: “Vou com a Marlene, ela também é casada” porque as pessoas falam. Comecei a ir com ela, cheguei devagarinho. Eu gostava era [de] dança de salão e comecei a me soltar, entrar num outro mundo. Aquilo era prazeroso para mim. Eu falei: “O médico mandou porque eu tenho que fazer as coisas para mim. É uma coisa que eu gosto de fazer.” Eu gosto de fazer isso, sempre gostei, só vou unir o útil ao agradável, então comecei a fazer os cursos de aula de dança. Eu adorava, frequentava todas as aulas. Quando saía com a turma para dançar, saía para fazer aula de dança. Comecei a fazer aquilo para mim e dali para a frente eu comecei a me encontrar.

Depois fui fazer curso de instrumentação cirúrgica. Sou uma instrumentadora cirúrgica não exercendo a profissão porque aquilo é um tédio. Eu vi que aquilo não combina comigo porque oito horas no centro cirúrgico decepando pernas e abrindo barrigas é muito desgastante. Eu entro no problema da pessoa, sou muito emotiva. Eu não sei fazer as duas coisas. Eu saía de lá e parecia que eu estava carregando o paciente para casa, então eu falei: “Eu quero uma coisa mais alegrinha.” Fui para o lado da aula de dança, fui para o lado onde eu posso me soltar mais. Eu comecei a fazer tudo isso, comecei a sair para dançar. Como eu falei para você eu não abro mão da dança, de cantar - a minha filha fala que eu não canto, eu grito.

Tem uma historinha muito engraçada que... Com a minha filha, então! Tem uns amigos meus... A minha filha, teve um tempo que ela fez percussão aqui na Vila Madalena, ela gosta muito de música e o Daniel gosta muito também do berimbau. Ele toca berimbau, então a turma se encontra um pouquinho lá em casa e eu danço.  Tinha uns amigos lá em casa, uns vizinhos que têm um grupo de pagode e eles convidaram...

Tinha aqui, onde era o Extravagância, em Pinheiros, uma casa de show que sábado tem feijoada, ali atrás da [Praça] Benedito [Calixto]. Ele perguntou para mim se eu ia assisti-los tocar. Eu falei: “Eu vou” porque sempre convidaram. “Eu vou ver vocês”. Ele falou: “Dá uma força para gente.” Acabei indo e eu não resisto - enquanto eu estou sentada é ótimo; só não posso ficar de pé quando está tocando música porque eu vou dançar, com certeza.

Eu me lembro que eles estavam sentados e o pessoal estava fazendo uma... Ficamos sentadinhos ali na ala VIP e as meninas, as amigas da minha filha, os amigos do pagode estavam lá, aí falaram: “Vem para cá, para a pista dançar!” E eu: “Dançem vocês, vocês são jovens. Sei que não vou ficar na pista, porque se eu for para a pista eu tenho certeza que vou dançar.” Eles falaram: “Não, você vai.” Eu fui, dali eu já saí para a pista. Eu falei: “Deixa os meninos tocarem primeiro, depois eu vou, senão eu tiro o brilho deles.” (risos) Saiu uma banda, entrou outra banda e a minha filha não vai. Ela é clássica, fica sentadinha olhando. Ela não gosta muito de pagode.  

Comecei a ir e de repente ficou um pessoal na minha frente, umas mulheres não dançantes floreando na minha frente. Olhei bem e pensando assim... “Você não vai dançar?” A Cláudia disse para mim... Eu falei: “Eu não vou dançar, Cláudia, porque se eu for dançar o pessoal para.” Ela falou: “Imagina!” “Se eu entrar lá para dançar o pessoal para de dançar, eu sei disso porque eu danço muito bem e o pessoal vai parar de dançar.” Ela olhou para mim e falou: “Eu não acredito”, mas sem querer eu comecei a dançar. Tinha uma mulher chacoalhando na minha frente que estava me atrapalhando e aí a outra colega falou assim: “Vamos passar mais para frente.” A a banda ficava logo ali e o palco é muito pequeno. Estava dançando e a minha filha sentada. Comecei a dançar devagar e tinha uma moça dançando, se sentindo. Eu falo “o último brigadeiro da festa” porque ela não dançava nada e [ficava] dançando ali na minha frente, para lá e para cá. Falei: “Bom, o que eu vou fazer? Vou dançar!”

Olhei para as duas Cláudias e falei: “Quer ver como você entra para dançar?” Dei uma paradinha e entrei sambando. Eu sambo muito no pé, é difícil a pessoa emparelhar comigo no samba no pé. Sei que tem que ter um espaço grande para dançar, mas eu não percebo. Quando eu faço aula de dança, a gente não percebe as pessoas na frente da gente. A gente não enxerga muito, eu não foco esse ou aquele. De repente veio um rapaz e me chamou para dançar, me jogou para lá e para cá. Depois foi outro e sem querer eu estava dançando, toda espalhafatosa. Olho lá para cima e vejo a minha filha olhando assim… Eu olhei de novo e continuei  a olhar. Ela fez o sinal [de] “Vem aqui já.” Eu falei: “O que foi, Fernanda?” “Vamos embora já. Pelo amor de Deus, mãe. Todo mundo abriu a roda para você dançar.” Eu falei assim: “Eu não falei para você?” A Karen falou: “Como sua mãe dança! Sua mãe dança muito, eu preciso contar ao Sandro, preciso contar ao Daniel.” Eu falei: “Eu não ligo, faço o que eu gosto.”

Eu faço isso porque eu gosto, não é com intenção de aparecer, não pensando em ser estrela. Eu me encontro assim e às vezes as pessoas se chocam de ver eu fazendo aquilo, dançando o que eu gosto, então não nego para ninguém, quem me conhece sabe. Eu adoro isso, para mim é uma terapia e eu me encontro, eu fico feliz fazendo isso.

Depois eu comecei a procurar coisas para mim. Vendo roupas, para começar a me encontrar; vendo bijuterias, o que fechar para mim esses dias... Há tempos, no ano passado, eu estava com uma amiga naquela Feira do Jipeiro que tem ali no Ibirapuera à noite, que só tem jipe, peças de jipe. A gente estava com uma barraca de bijuteria, então eu vendia bijuteria naquela feira. Eu saía às cinco horas da tarde e voltava às duas horas da manhã porque aquela feira é só a noite. Comecei a fazer isso e para mim tudo é prazeroso. São as coisas interessantes da minha vida porque os meus filhos têm a vida deles, a minha filha está caminhando para a vida dela, para os amigos dela e os filhos não gostam automaticamente de levar a gente junto nas baladas dele, eles não gostam. Tem uns que até levam, mas eles não levam frequentemente. Eles não falam “vou levar minha mãe” ou qualquer coisa desse tipo, eles não gostam, não adianta, por mais que você queira. Então eu falo: “eu tenho que me encontrar para minha vida, para minhas coisas e para me sentir feliz assim”.

[Perguntam] “Você não vai parar de fazer isso?” “Não, porque essa criança dentro de mim, eu acho que ela mora comigo. Ela vai ficar comigo a vida inteira.” As pessoas falam: “Você não é muito assim...” Eu falo: “Eu sou normal, é que as pessoas não estão acostumadas a ver pessoas assim”. Isso é consequência porque meus filhos cresceram e eu não tenho culpa de ter sido uma mãe jovem, de ter acompanhado todos eles. Eu chego a ser até mais animada do que eles. Às vezes eles falam: “O pique da minha mãe é incrível!” Eu falo: “Vocês estão tão parados, na sua idade eu dava nó em pingo d’água.” Eu achava que a gente fazia mil e uma coisas. Dá para gente se sair e na situação da gente ser feliz,  porque o importante na vida da gente é ser feliz.

Ele [o filho] me trouxe hoje e me falou: “Eles não querem fotografias de filhos de noras?” Eu falei: “Não.” Ele falou: “A minha mãe é cheia de surpresa, sei lá o que ela vai fazer agora.” Eu falei: “Vou dar uma entrevista.” “Eu não acredito, mãe.” Eu falei: “Eu faço as coisas e depois eu conto.”

Não me arrependo das coisas que eu faço, do jeito que eu vivo. As pessoas tem que gostar de mim do jeito que eu sou. Eu sempre falo que no decorrer da minha vida, da minha infância até agora, eu sou uma pessoa feliz. Se eu vasculhar, [foram] poucas coisas tristes que aconteceram na minha vida, mas nada... Eu sou uma pessoa agraciada porque a idade é minha, então eu não conto, eu faço código, é número, então quando as pessoas perguntam não tem como, mas também você não precisa passar assim em off. Eu falo assim: “É detalhe, a idade é aquela que você olha para mim e acha que eu tenho.” Não tenho necessidade de ficar falando para você “é tanto”, dá uma impressão de coisa assim que... Tudo bem que aqui é um museu, mas tudo bem.

 

P/1 – Rosa, o que você achou de poder contar uma pouco da sua história para gente e de ter vindo parar aqui no museu?

 

R – Eu achei ótimo! Achei super legal porque tem muito mais coisas, mais pitorescas. Se eu ficar contando para você aqui eu conto muito mais coisas porque vou lembrando dos detalhes meus. Quando eu falo com a minha filha que meu pai tem um parentesco com a Hebe Camargo, as pessoas não acreditam, mas é verdade. É aquele parente pobre da mesma cidade, são de Taubaté. Minha filha sempre pergunta: “Você é parente do Zezé de Camargo?”  “Não, é [da] Hebe Camargo. O Zezé de Camargo é de Goiás, não tem nada a ver. Eu não tenho nada a ver com aqueles dois.” É daqui da cidade de Taubaté, Rio de Janeiro, Queluz a família do meu pai, tanto é que tem uma fazendeira, uma prima minha que eu tenho o nome dela. Ela [se] chama Rosinha de Camargo; eu falo [que] o dia que eu ficar milionária eu vou virar Rosinha também.

[Estou] Brincando, eu não sou celebridade, mas eu achei ótimo. É gostoso porque a gente tem oportunidade de falar da vida da gente, porque eu gostaria de saber mais... Por exemplo, eu sabia mais da vida do meu pai porque minha tia contava dos pais dela, da vida do meu pai. Meu pai tinha uma família razoável, uma família nobre lá de Taubaté e da minha mãe não, a minha mãe era mais fechada, ela não falava nada da vida dela, eu não sei muito. Da minha vida eu sei e eu gosto de contar porque quero mostrar aos meus filhos as raízes. [Para] eles saberem da sua história e saberem como vão contar para os filhos deles. Como você veio? De que jeito as coisas aconteceram? Como foi [com] você?

O tempo passa rápido, eu sempre falo que o tempo é rei. Quando você vê o tempo já foi e você fala: “Ah gente, mas eu tenho história para contar!” Eu falo com os meus filhos: “Os momentos que vocês vivem é uma história que vocês vivem.” Para mim é um negócio ótimo porque tudo o que eu faço eu acho gostoso para mim. Eu me gosto; eu vivo para mim, gosto de mim e depois eu gosto dos outros. Gosto dos meus filhos, da minha família e da minha casa, mas eu não deixo de viver o meu momento, de fazer as minhas coisas, independente do pré-julgamento de cada pessoa. Terapeuta comigo não funciona porque eu acho que a tua mente não vai mudar a minha mente, o meu jeito de ser. Eu mesma me chacoalho, eu elimino e tiro o proveito que eu tirei de mim. As pessoas têm que gostar de mim do jeito que eu sou, eu sempre falo isso com os meus filhos. Eu não mudo um milímetro do que eu sou para agradar ninguém. Não sei se você vai gostar, se isso está bonito ou se está feio. Eu visto o que eu quero, faço o que eu quero e vivo do jeito que eu gosto. Não vou mudar, não.

Às vezes as pessoas falam: “Você podia ser assim.” Eu falo: “Não modifica o teu jeito de ser.” Você tem seus valores, você é você mesma, porque de repente você não é você, começa a ser uma outra pessoa, tirar a sua imagem, tirar seu jeito de ser. Vejo a minha filha, o meu filho que é jornalista, o Daniel, a Fernanda também, que pretende ser médica e ela fala assim... Eles leem muito, ela sabe a história de Cuba e vira e mexe eles têm livros, fazem histórias, o Daniel vive... Faz umas matérias, faz livros, gosta de matérias. Eles gostam disso, eu não gosto. Eles sabem muito bem que o meu negócio é dança, o meu negócio é sair dançando, cantando...

 

P/1 – Dançar a vida?

 

R – Ah, minha vida é um... Eu vivo de música, se eu pudesse eu vivia de música, dançando, cantando. As pessoas pensam: “Como vou fazer? Puxa, agora estou com essa idade…” Acho que não existe idade, é um estado de espírito. Você tem que viver o momento porque de repente não tem mais nada para fazer na vida e você fala assim: “Perdi meu tempo.” Eu falo: “Todo dia a gente pode se encontrar.” Então eu sempre falo que vou chegar de bengala, mas acho que a terceira idade não vai chegar para mim. (risos)

 

P/1 – Estamos terminando com esse super astral e a gente tem que infelizmente encerrar. Foi um prazer enorme conhecê-la em nome do Museu da Pessoa. E eu aproveito para dizer que as suas histórias você pode continuar contando por meio do Portal. A gente tem o museu virtual, o portal que é www.museudapessoa.org e lá tem um espaço para as pessoas entrarem e escreverem sua história, montarem o seu museu. Faça esse exercício, entre lá na internet, peça para os seus filhos te ajudarem a navegar. Aí você vai compondo a sua história e a gente depois complementa o acervo com essa fita. A gente vai produzir uma cópia e mandar para você. Esse material depois vai ser transcrito e vai entrar na rede de histórias do museu, vai ficar no ar. Todo mundo vai conhecer a Rosa.

 

R – Ah, que bom. Eu gostei, fiquei feliz mesmo. Obrigada.                                                                     

                               

 

  

 

 

                                      





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