Busca avançada



Criar

História

Dançando pelo mundo afora

História de: Antônio Sérgio Milani Gomes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2015

Sinopse

Antônio Milani como é mais conhecido, é um dançarino e produtor cultural. Ao narrar sua história ao Museu da Pessoa, Milani nos conta episódios divertidos de sua infância e do período em que morou no Japão e em Israel, dançando profissionalmente. Fala das escolas em que estudou, em Cedral, no interior de São Paulo e na Vila Formosa. Relembra como começou a se interessar por esportes e o período em que jogou vôlei nas escolas onde estudou. Conta como foi a escolha da dança como profissão, durante o curso de educação física. Fala sobre as experiências profissionais como dançarino, no Brasil, no Japão e em Israel e do trabalho que desenvolveu na Prefeitura de Diadema.

Tags

História completa

Eu sou Antônio Sérgio Milani Gomes, conhecido como Antônio Milani, nome artístico. Eu nasci no dia 3 de julho de 1966 na cidade de São Paulo, no Hospital das Clínicas, em Pinheiros. Minha mãe, Iracema Milani Gomes. Ela nasceu na cidade de Cedral, interior de São Paulo. E meu pai, Osvaldo de Oliveira Gomes, ele nasceu no dia 18 de fevereiro de 1936, na cidade de Mirassol. Minha mãe era filha de lavrador e morava nessas cidadezinhas no interior de São Paulo. Ela acabou casando com meu pai que fazia, enfim, de tudo um pouco, serviços gerais e começaram a construir a vida. Não tinham profissões específicas, então, meu pai serviços gerais, pintura, depois ele virou motorista de táxi. Casados vieram pra São Paulo. Minha mãe era do lar, mas começou a trabalhar no Hospital das Clínicas e foi fazer o curso de Enfermagem, e como enfermeira trabalhou muitos anos no Hospital das Clínicas e lá foi que eu nasci. Depois ela continuou estudando, minha mãe se formou em Magistério já tardiamente, aos 40 e poucos anos, virou professora de ensino infantil, creche, depois ensino fundamental. Meu pai se especializou em ser motorista de táxi; não estudava mais, também ele sabe ler e escrever, teve pouco estudo, mas lutaram em São Paulo, os dois juntos. Aos 50 anos ela terminou a faculdade, já com os quatro filhos. Sou eu  Antônio, Mário César, Ricardo e a Cássia Regina.

 

A gente morava em São Paulo, em Jardim Vila Formosa, que é a região da Zona Leste. Eu lembro dessa moradia, que eram várias casas no mesmo corredor. E essa casa eu lembro bem, fachada verde, Rua Mestre João, número 43, isso eu lembro bem. E que aos pouquinhos do quarto e cozinha meu pai foi fazendo reformas e construindo. Então nós participamos desse processo de ajudar a construção, carregar areia, água, cimento. Os pedreiros fazendo e as crianças brincando e ajudando ao mesmo tempo.  Eu lembro da brincadeira de pião, eu lembro da brincadeira de bolinha de gude, de esconde-esconde. Pula cela, mãe da mula. As pipas, como era muito livre, tinha muito terreno, então empinar pipa, não tinha muito, não tinha fio, a eletricidade era precária, então um poste, não tinha aqueles fios que passavam e tudo o mais. Então a gente empinava muito pipa, brincava muito assim em turmas mesmo. Depois com asfalto, a gente já passou a brincar de bicicleta, carrinho de rolimã. Depois com o tempo nós mudamos para a rua de cima, que chama Visconde de Jerumim, era número 151. Também lembro bem. Essa nós também ficamos já mais adultos, passamos um período bem bacana nessa casa. Foi meio um upgrade assim, da casa mais simplesinha sendo construída pela família.

 

Eu morei também em Cedral. Da escola eu lembro do uniforme xadrezinho, azul e branco. Um colégio antigo, aqueles padrões bem bonitos de construção nessa cidade. A escola chamava Branca de Neve, se eu não me engano.  Depois estudando na escola primária eu gostava muito de esporte, e depois com o tempo eu virei jogador de vôlei. Porque eu me lembro bem da escola do Jardim Vila Formosa, depois virou Doutor João Naoki Sumita, que também era um espaço de terra pra jogar, fazer a prática de atividades físicas. Depois virou uma quadra cimentada e eu lembro desse projeto também, de virar um atleta. Então tem esses dois projetos, era ser atleta e ser piloto de avião. O nosso lazer nesse período, até 81 mais ou menos, 80, 81 era esse time de vôlei. Então nós jogávamos finais de semana, era uma forma da gente também ter como lazer. Nós íamos aos parques, na Zona Leste tinha Vila Manchester, que era um clube da Prefeitura.

 

Fiquei um ano no Liceu, ali no Pari. E eu saí do porque eu arrumei emprego no banco, precisava ajudar minha família e eu fui pra esse colégio, que é o Colégio São Paulo, no Parque Dom Pedro, e ali eu comecei a fazer o curso técnico em Administração. Então eu entrei pra área de Administração e fiquei no banco quatro anos, 82, três, quatro, cinco e seis, mais ou menos. Então eu comecei como office boy, depois de um ano eu participei de um programa que era trainee, a gente andava por todas as sequências do banco, todos os departamentos do banco. Eu virei caixa e esse caixa depois eu estava próximo pra ser trainee de gerente já, de criança, 15, 16, 17, 18 anos, mais ou menos. E isso o colegial no Colégio São Paulo. Nesse período de banco eu fui vivendo toda essa questão da mudança. Virando artista, que eu acabei virando bailarino mesmo, entrei em 85, isso eu lembro bem. Fui fazer um ano de dança no Teatro Municipal de São Paulo. E foi o outro lado, fui pro lado de quebra de preconceito. Fui pra Administração, pro São Paulo que eu comecei a namorar a Valéria, que eu ia pra academia com ela. Um belo dia cheguei na academia, um professor lá: “Meu, vem fazer aula”. Eu fiquei meio assim. “Vem, te dou uma bolsa” “Como assim uma bolsa?” “É, você não vai nem pagar”. Quando eu fui pra aula, eu cheguei tinha um monte de bailarinos do Municipal de São Paulo, bailarinos já quase profissionais, e eu começando. E nessa academia então eu falei: “Opa”, virou uma oportunidade, né? E o banco eu falei: “Não, acho que já está diminuindo a questão do banco”. Então praticamente eu comecei a migrar pra dança quando eu percebi esse movimento de mercado de trabalho. Era academia de jazz; tinha clássico, tinha jazz. O Alex foi meu primeiro professor de balé. Eu fui amadurecendo tudo junto, a profissão dança. Fui fazer balé, jazz, sapateado, flamenco. Fiz a dança de salão muito tempo, dancei lambada espontaneamente nas baladas,  das discotecas às lambaterias. E várias lambaterias: Lambar, famoso, a Mel, famosa na Pamplona, o Lambar era na Joaquim Floriano. Então lambaterias mil, os bares, bailes. É engraçado essas questões de época, sazonais.

 

Quando eu chego e percebo que o mercado profissional de voleibol já não estava mais pra mim. Por quê? Já tinha atletas muito mais profissionais na faculdade. A faculdade é um agregador de atletas, né? A Fefisa onde eu estudei, Santo André, Faculdade de Educação Física de Santo André, muito forte de agregar atletas, atletas profissionais. E quando eu me vi no meio de atletas profissionais eu falei: “Opa”. No entanto a dança não tinha muito bailarino. Eu falei: “Opa, aqui eu tenho destaque”. Então na faculdade de Educação Física eu comecei a me especializar em dança. Ou seja, eu migrei de mercado naturalmente porque eu percebi esse gap, famoso gap, o espaço. E de novo eu comecei a ser o bailarino da faculdade. Eu já tinha vinte e poucos anos. Estudava dança à noite, trabalhava à tarde, faculdade de manhã. Fim de semana fazia uns freelances ainda. Em 89 eu passei num teste no Cisne Negro pra dançar clássico, O Quebra Nozes, que o Cisne Negro faz espetáculo anual, até hoje. E foi um outro mundo, foi aqui que eu comecei  a dançar no Cisne Negro, em 89. Terminando o trabalho de 89 do Cisne Negro eu emendei o trabalho pro Japão em 90. Nós ficamos no Japão seis meses. Eu aprendi a tocar surdo com os músicos e eu adoro porque, você vai desenvolvendo novas competências. Frequentei escolas de balé no Japão, frequentei escolas de jazz no Japão, enfim, vivi a cultura japonesa em seis meses. Eu morei em Osaka, sul do Japão. Morávamos no alojamento, dois lugares pra dormir por pessoa, eu e o Ricardo que foi meu grande amigo no Japão, que me ensinou muitas coisas, ele já tinha ido no ano retrasado. Nós pegávamos um trem expresso, em 20 minutos nós estávamos no centro da cidade. Trem expresso com ar condicionado, toda essa tecnologia que a gente fala já existia naquela época lá. Era meio requintado, mas eu falei o menino de 21 anos sai do Brasil, duro pra caramba, conseguiu batalhar faculdade, conseguir, mas era, pagando, tudo difícil. Quando eu volto do Japão, com aquela experiência cultural maravilhosa, já aprendi a falar um pouco japonês, aprendi a falar um pouco de inglês porque tinha muitos contatos com americanos, enfim, gente do mundo inteiro no Japão. Eu foquei, falei: “Opa, vou estudar inglês”. Os shows aconteciam, eu me aperfeiçoei em fazer show, ou seja, todo dia no palco, uma experiência profissional fantástica. Cheguei no Brasil depois de seis meses, guardei uma grana razoável, voltei rico. No sentido, você sai daqui duro, você volta com uma quantia X de dinheiro, né? Voltei rico. Voltei magro porque nossa, era complicado, a comida estranha. Foram cinco temporadas, dois anos e meio no Japão. Eu brinco, é interessante falar isso no Brasil, você ser rico. O pessoal: “Ó!” Não, você vê um menino pobre, em cinco anos eu consegui comprar um apartamento, consegui comprar um carro, consegui guardar dinheiro no banco. Então, eu virei um homem rico em cinco anos. Aos 26 anos, 27, já era um cara quase rico.

 

Eu já vim da dança meio que popular, que eu chamo danças populares de salão e fui pra dança profissional, mas como professor de Educação Física também. Nessa temporada do Cisne eu fiz Mozartíssimo, que é uma coreografia do Gigi Caciuleanu, um europeu, e foi um outro sonho que eu realizei, eu fui dançar no Teatro Municipal de São Paulo, fiz temporada lá. E fechou a temporada, e agora? Eu falei: “Bom, aventura”. Fiz uma mochila: “Vou pra Europa”. “Meu sonho é dançar na Europa agora”. Comprei uma passagem só de ida. Minha família: “Meu, chega, né? Você é louco mesmo, vai com Deus”. Eles já estavam nessa época pensando em voltar pro interior, minha família, mãe, pai, meus dois irmãos. A minha irmã já foi pra Europa um tempo antes, acho que em 95 ela foi pra Europa, casou, foi pra lá e eu fui visitá-la na Itália. Ela mora no sul da Itália, na Sicília. Bom, planejamento interessante. Peguei uma revista no Brasil que chamava Magazine e ela fala todas as audições que tem na Europa. Falei: “Opa, é aqui que eu vou”. Fiz contato com várias pessoas, onde eu posso ir, onde eu posso ficar, quem pode me ajudar, aquela conversa sempre de planejamento. Isso é bacana, planejamento. Eu tinha acho que umas dez audições planejadas. Eu tenho anotado até hoje esse caderninho, isso foi 96. Eu fiquei praticamente uns 40 dias na Europa, talvez uns 50, fiquei prestando audições. Em Paris eu fui conhecer o Paris Santer, que é um lugar de aulas de dança muito agitado, muito badalado assim. Famoso. Nesse Paris Santer, quem que eu encontro? Marcos Versani. Marcos Versani é um bailarino que foi forte aqui em São Paulo, famoso, que dançou no Victor Austin e já era um mestre quando eu cheguei no Victor. E um dia eu peguei o endereço do Gigi e fui procurar. E anda pra cá, sobe prédio, vai pra prédio, até achar o apartamento do Gigi. Achei. Papo vai, papo vem com o Gigi, e o Gigi falou: “Eu tenho uma vaga pra você”. Eu falei: “Ah, você está brincando!”, ele ficou. “Ontem, eu precisava de um bailarino pra agora, para uma temporada de seis meses comigo”. Imaginou o sonho. Tudo bem. “Mas eu tenho uma vaga pra você em Israel” “Como assim Israel?” “Espera um pouco”. Ele pegou o telefone, ó que show. O apartamento do cara todo branco, cobertura, Paris, chiquéssima, a coisa mais linda. Ele ligou e falou pra mim: “Antônio, Tel Aviv, Israel, ok?”, eu falei: “Trabalho? Work? Yes. How long?” Quanto tempo? “Maybe six months, one year”, depende do que rolar lá. “Você vai fazer um teste lá?” Eu falei: “Eu vou” “Ok, Tony is coming. He is tall”, é alto, forte, tal, parece ser um cara bom. Porque eu falei pra ele que eu tinha dançado aqui no Cisne, então é uma referência. Bom, cheguei na Rebeca, minha amiga que me hospedeu. “Consegui um emprego!!!”, ela falou: “Ah, você está brincando, meu? Não deu nem um mês que você está aqui”. Mas meu dinheiro estava acabando, eu já estava fazendo contato freelance já em restaurante, já estava procurando alguma coisa pra ficar, eu falei: “Eu quero ficar na Europa um ano, é a minha meta”. Ela falou: “Olha hein Antônio, será que você vai conseguir?” eu falei: “Cruza os dedos. Minha família me ensinou uma coisa: nunca conte antes de acontecer”. Então cruzei os dedos, me preparei.  E eu fui fazer teste em uma outra companhia, que era uma companhia contemporânea também, como o Bat-Dor, só que ela tinha um vínculo muito ligado à questão cultural de Israel. Então eles tinham algumas montagens, até de peças religiosas, com dança contemporânea. Nossa, foi um aprendizado fantástico! Eu cheguei a fazer laboratório no deserto.  Fiquei no Brasil em 97, apareceu um trabalho em Diadema. É aquela história, fui ver o projeto de Diadema. Minha cara, eles precisavam de professores, artistas e educadores. Dança contemporânea, eu falei: “Opa”. Fui fazer o teste, já tinha Educação Física, fui fazer uma pós-graduação no mesmo ano. A diretora, Ivonice Satie, falou: “Nossa Milani, é a tua cara, vou precisar de você”. Passei na audição, começo em Diadema. Você vê, 96. Terminei 96 e já engatei 97 na Companhia de Diadema. A gente dava aula pras crianças na cidade. E tinha vários projetos. A gente fez umas experiências na Apae, aula pra pessoas com necessidades especiais. Tem uma escola de pessoas com deficiência auditiva, a gente foi lá também fazer alguns trabalhos com dança. Nós fizemos umas pesquisas com pessoas com necessidades especiais, até veio pro Brasil nessa época um projeto chamado DanceAbility, acho que é de um canadense. Então Diadema foi também mais um, além de trabalho profissional nós fizemos lá também muitas práticas de outras atividades artistico-culturais. E eu como fui professor de Educação Física também, então sempre gostei disso.

 

Fiz mestrado, fiquei lá em Diadema até 2001. De 2001 em diante eu virei professor universitário. Fui fazendo as transições. Outras transições, de dois ou três anos pra cá eu comecei a pesquisar Gestão Cultural.  Em 2001 eu caso com a Mariana.  A Bia nasceu em agosto de 2005 a Bia nasceu eu estava entrando no mestrado.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+