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História

Dançando e namorando

História de: Maria Joana Espíndola Medeiros
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Maria nasceu no povoado de Cajueiro e da sua infância lembra de muita coisa: dos brinquedos, de como ajudava seus pais na roça, dos momentos de reza, das festas de forró, de quando aprende a bordar e das histórias de povos que viveram lá antes deles e que ela ouvia. Casou-se em uma grande festa de três dias, da qual lembra com carinho, já que no evento foi quando recebeu o primeiro beijo do pai. Depois de casada, continuou a trabalhar na roça, com o marido. Quando se mudou para São Paulo, já com seus dez filhos, foi trabalhar como costureira, reformando roupas, atividade que havia aprendido na infância.

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História completa

P/1 – Bom, dona Maria Joana, eu gostaria muito de agradecer a senhora ter vindo, isso vai ser realmente muito bacana ter essa entrevista e obrigado, a história que a senhora tá contando é realmente fantástica. E para começar, eu vou precisar que a senhora diga agora para gente, para gravar, o nome, local de nascimento e data de nascimento.


R – Eu nasci no povoado do Cajueiro, dia 24  de junho de 1935.


P/1 – E o nome completo?


R – Maria Joana Espíndola Medeiros.


P/1 – Perfeito. Diga uma coisa para a gente, esse povoado do Cajueiro, o que a senhora se lembra da infância de lá?


R – Tudo.


P/1 – É? Como eram os brinquedos?


R – Bonequinhas de sabugo de milho, essas coisinhas assim, porque ninguém tinha acesso a nada. Bonequinhas, brinquedinho comum.


P/1 – E quem fazia?


R – Tinham as pessoas que faziam as panelinhas e a gente brincava de casinha.


P/1 – Muitos irmãos? Como era?


R – Eu tinha uns catorze irmãos.


P/1 – Quatorze irmãos? Irmão e irmã? Como era?


R – Eram quatro mulheres e oito homens.


P/1 – E todo mundo ajudava os pais? Como era? Conta um pouco para mim.


R – Ajudava. No que podia eu ajudava, trabalhava na roça e a roça já sabe como é, né?


P/1 – Como é?


R – É trabalho pesado.


P/1 – Mas as mulheres também iam para roça?


R – As mulheres trabalhavam sim, eu trabalhei também.


P/2 – Como era o dia de ir para roça?


R – As mulheres faziam mais plantas. Plantavam, colhiam, o trabalho das mulheres era mais fazer isso.


P/1 – Ia de manhã cedo, como era?


R – Não. Tinha horário, né? Não era todo dia. Mais na colheita, porque tem a colheita, porque na época de junho a setembro é a época de colheita.


P/1 – Colhia o quê lá?


R – Milho, feijão, mandioca.


P/1 – E os homens que pegavam o quê? Mais no...


R – Os homens é o pesado, né?


P/1 – Pesado o quê? Era arar?


R – Não. Arar não. Era com os braços, não tinha arador.


P/1 – E aí à noite reunia todo mundo na casa?


R – É. Todo mundo juntava, a mamãe ensinava, rezava, que são católicos.


P/1 – E a reza o que era? Antes da janta, como era?


R – Depois, para dormir.


P/1 – E tinha horário para dormir?


R – Tinha. Dormia cedo. Não existia diversão nenhuma, né?


P/2 – Como era sua casa?


R – Casa simples. Tudo simples. Casa de alvenaria. Essas coisas do sítio são todas diferentes, não tem fogão a gás, não tem nada, é tudo à lenha.


P/2 – Você falou da sua mãe, como a senhora descreveria a sua mãe?


R – Mamãe é a coisa mais linda.


P/1 – (risos) Era muito carinhosa?


R – Mamãe sim.


P/1 – E ela conseguia cuidar de todos os filhos?


R – Cuidava.


P/1 – Não faltava nada para nenhum?


R – Não. O que tivesse era o geral.


P/1 – E o pai era bravo?


R – Não. Papai não era bravo.


P/2 – Como ele era?


R – Papai não tinha carinho, não era carinhoso. Para lhe falar a verdade pura, o primeiro beijo que eu ganhei de papai depois de moça, foi quando eu me casei. Ele até chorou.


P/2 – E seus pais nasceram em Cajueiro também?


R – Não. Papai não era de lá, papai era parece que do lado do Recife.


P/2 – Você sabe como eles se conheceram?


R – Não. Hoje todo mundo tem história, mas os antigos olhavam de longe, se amava e não tinha o aconchego como hoje. Porque do meu casamento com meu esposo, quando ele me pediu para namorar a papai, papai disse: “São três meses para casar”. Mas aí papai deu um prazo, deixou um ano.


P/1 – E por que ele deixou mais?


R – Esperou, não sei. Porque tinha que organizar e tal, e eu era mais ativa, não queria que fosse namorar e casar com três meses.


P/1 – E como você conheceu seu esposo?


R – Eu não vou citar, porque é longa a história.


P/1 – Não mas...


P/2 – Pode contar.


R – Muita coisa, né?


P/1 – Não, mas pode. Aqui a gente tem todo o tempo do mundo.


P/2 – Talvez antes de ela contar do casamento, dona Maria Joana, a gente voltar antes para saber mais lá do...


P/1 – Lá da infância?


P/2 – É. Um pouquinho mais, porque o casamento eu acho que vai ter muita história para contar desse casamento. Você chegou a ir para a escola?


R – Eu fiquei três meses. Durante esses três meses eu aprendi a cartilha de abc, a cartilha, o primeiro livro e já parti para o segundo livro. Só lendo. E eu não estudei mais.


P/1 – A escola era lá?


R – Era. Era sítio.


P/1 – Era no próprio sítio?


R – Era. Inclusive, naquelas fotos têm uma foto da casa que era a escola.


P/2 – Como a senhora ia para escola?


R – Não, porque lá é um povoado, é perto, então...


P/2 – Ah, é perto?


R – É.


P/2 – Ia andando?


R – Andando. É ali pertinho.


P/2 – E a professora, você lembra?


R – Era um professor, que ainda vive.


P/1 – Depois a senhora parou de ir, o papai não...


R – Daí foi surgindo... Papai mudou, inclusive, no ano de 1939 que papai mudou de lá e a gente mudou também, foi acontecendo.


P/2 – Foi para onde?


R – Para outro Cajueiro, porque saiu daquele Cajueiro que era indígena, aí a gente partiu para outro Cajueiro, construíram um novo Cajueiro.


P/1 – Como foi essa história dos...


R – Dos índios?


P/1 – Dos índios e do Cajueiro?


R – É porque eles tomaram conta lá daquele povoado, que a terra era deles, no caso. Teve muito absurdo, teve muita coisa que eles fizeram errado e tal, e a gente passou... Eu não, que já tava... Aí o pessoal passou para lá para esse outro Cajueiro. Aí construíram um novo Cajueiro.


P/1 – E assim, o pessoal queria sair do Cajueiro? Como foi essa...


R – Eles saíram indenizados.


P/2 – E a senhora morava lá ainda?


R – Não. Eu já não morava. Foram os outros que moravam. Que nesse Cajueiro novo, quando papai mudou, no ano de 1939 ele foi morar nesse lugar, que agora fizeram esse Cajueiro novo.


P/1 – Um novo Cajueiro. Mas a senhora morou no Cajueiro antigo.


R – Só no velho.


P/1 – E hoje tá tudo com os índios.


R – Tá. Eles que se apossaram, aí foram indenizadas as pessoas e eles construíram lá nesse outro Cajueiro.


P/1 – E no outro Cajueiro tinha escola?


R – Tem. Agora tem.


P/1 – Mas a senhora não chegou a pegar a escola?


R – Não, porque é novo, faz seis anos.


P/1 – Mas quando a senhora foi não tinha?


R – Não. Não. Porque eu saí cedo de lá, eu saí com doze anos.


P/2 – E a senhora foi para onde com doze anos?


R – Com doze anos, olha, aí papai foi trabalhar numas propriedades de fábrica de plantação de tomates, porque tem a cidade de Pesqueira, que era a cidade do doce. Pesqueira, né? Eles arrendavam propriedades para fazer plantação de tomates. E papai era o administrador.


P/1 – O que mudou de Cajueiro para esse novo lugar?


R – Quando papai saiu desse Cajueiro, ele não foi para o Cajueiro novo, já foi para trabalhar nessas propriedades das fábricas Peixe e Tigre, que eram lá da cidade de Pesqueira, que era a terra do doce.


P/1 – E aí a senhora...


R – Aí papai era administrador lá e eu era pequena. Pequena não, já tinha doze anos já.


P/1 – E a senhora acompanhou?


R – Acompanhamos. A família acompanhou papai.


P/1 – E que localidade era?


R – A localidade era Pesqueira, Sanharó, para o lado de Sanharó. São cidades pequenas e eram lá nos sítios.


P/1 – E no dia-a-dia lá aí...


R – Não, aí tinha trabalho para todo o dia, eram umas plantações de tomate, tinham os acampamentos e ele dominava o pessoal para trabalhar para colheita do tomate.


P/1 – E a senhora participava desse trabalho?


R – Não. Eu era preguiçosa, aí eu não fazia nada, não. Papai não queria que a gente fizesse.


P/1 – (risos)


P/2 – E a senhora fazia o que lá?


R – Nada.


P/1 – E como a senhora fazia para fugir desse trabalho?


R – Não, não fugia, não. Porque ele não queria que a gente trabalhasse, não. Porque ele já estava equilibrado, não precisava a gente fazer nada não. A gente era atrevida também, queria...


P/1 – E aí o dia-a-dia o que a senhora fazia?


R – Nada não. Queria aprender a bordar, queria fazer coisinhas, coisa doméstica mesmo.


P/1 – Ah, então aí a senhora começou.


R – Era. Brincava de bordar.


P/2 – Aprendeu com quem?


R – Tinha uma família lá que me ensinou a fazer ponto cruz, ainda hoje eu faço. E eu aprendi a bordar. Eu tinha doze anos, então faz um bocado de tempo.


P/1 – E aí foi bordando e fazia as...


R – Bordava e mamãe costurava, e eu fazia algumas costurinhas, e fui aprendendo.


P/1 – E com essas coisas feitas, a senhora repassava? Como era?


R – Não. Não ganhava nada, não. Só aprendendo.


P/1 – E as festas lá em... Tinha umas festinhas?


R – Ah, lá no Cajueiro velho tinha festa, forró.


P/1 – E como era esse forró?


R – Oh, gostoso. Todo São João. Meu aniversário é no dia 24 de junho, então era festa. 


P/1 – E tinha uma festinha?


R – Ôxe. Fazia.


P/1 – A senhora nasceu no forró, né?


R – Foi. 


P/1 – A sua mãe tava dançando...


R – E adoro.


P/2 – Dança até hoje?


R – Porque não tem tempo, né? Vou dançar onde?


P/1 – (risos) E é aquele pé de serra, né?


R – Era isso mesmo. Luiz Gonzaga, aquelas coisas antigas. Então as diversões eram as festas juninas.


P/1 – Como eram essas festas? Conta um pouco para gente.


R – Bem, contratava um sanfoneiro, fazia fogueira, pamonha e canjica, que eram a atração, latada feita de palha, candeeirinho, daqueles candeeirinhos, essas coisas assim.


P/1 – E duravam quantos dias a festa?


R – A noite toda.


P/1 – E os moços podiam convidar as moças para dançar ou o papai...


R – Podia. Não, podia. Porque a gente tinha umas pessoas que a gente gostava mais de dançar, mas papai dizia: “Você vai para dançar, mas você vai dançar com todo mundo”. Eles diziam assim: “Se você não dançar com todo mundo, você não vai dançar”.


P/1 – Ah, ou é com todo mundo ou é com ninguém.


R – Ou é com ninguém. Porque se tinha cabra que queria dançar com a gente e a gente não queria, ele dizia: “Você agora não dança com ninguém”. O cabra era quem proibia, dizia: “Você não vai dançar comigo, não dança com ninguém”. Aí papai dizia: “Você vai dançar, mas vai dançar com todo mundo”.


P/1 – E tinham uns cabras que papai falava: “Com esse não pode dançar”? Ou não?


R – Não.


P/1 – Não?


R – Não. Porque ali tinha de todo tipo de gente, branco, preto, bem vestido, malvestido, papai marcava quadrilha também, papai era um quadrilheiro, e a gente dançava normal com todo mundo.


P/1 – E podia dançar agarradinho?


R – Claro, se o gostoso é aquilo ali. 


P/1 – (risos) 


P/2 – (risos)


R – Quando a gente tinha algum namorado, né? Que era um salão, todo mundo dança junto. A gente ficava procurando o meio do salão, que era para poder se encostar mais.


P/2 – Quem foi seu primeiro namorado? Como foi? Quantos a senhora tinha?


R – Eu tinha uns doze anos só.


P/2 – Conheceu-o na festa, ou não?


R – Não. Eu tinha um irmão que era meio bravo, até já faleceu, e ele pegou uma briga com ele um bom dia, porque ele disse que eu tava namorando ele, pegou uma briga com ele. Era assim, essas coisas que aconteciam, ele não gostava dele. Mas aquilo só foi namorico só. Meu primeiro namorado assim, firme mesmo, eu era namoradeira sim, tá certo, mas de namoro firme mesmo só foi esse que eu me casei.


P/2 – Fiquei curiosa para saber da quadrilha. Como eram as roupas?


R – Não, era normal.


P/2 – A roupa que você tivesse usando você dançava?


R – Não, não tinha... Era qualquer roupa. Você tava na festa, quando chegava depois de meia-noite, duas horas ou três, agora é a quadrilha. Aí a gente ia dançar quadrilha, dançava até... Papai dizia assim: “Nós vamos pegar o sol com a mão”. Que era para ver amanhecer o dia na quadrilha. E era assim.


P/2 – E como seu pai marcava a quadrilha? Como é isso?


R – É normal. Toda quadrilha tem os passes, as coisas. A gente tem os esquemas, né?


P/2 – Você se lembra de umas palavras que ele falava pra...


R – Lembro.


P/2 – Pode falar para gente?


R – Mas, olha, depois vocês eliminam essas coisas, que tá muito... É porque tem muita passagem, a quadrilha, eu acho que vocês conhecem, né?


P/2 – Algumas. Um pouco. Só um pouco.


R – Ih, meu Deus.


P/1 – “Olha a chuva”.


R – “Olha a chuva”. E a gente... “Um passo à frente. Dançando e namorando”. Você olhava para o seu par, que era: “Dançando e namorando”. E ia passando, passando. Quadrilha eu gostava muito, muito. Amo. 


P/1 – Qual é o outro? Que eu fiquei interessado também. Qual outra dessas marcações?


R – Olha, a gente só sabe dançando, né? 


P/1 – (risos) 


R – A gente só sabe dançando. Mas assim falando eu não sei explicar direitinho. De vez em quando, quando faz festinha em casa, no São João elas fizeram festinha para mim e elas mandavam-me iniciar a quadrilha. Mas é junto, todo mundo dançando ali é mais fácil. Mas assim, para você falar eu não tenho uma assim.


P/1 – E a grande festa lá então era essa de São João.


R – A festa junina.


P/1 – E Natal como era?


R – Natal era assim, as comemorações de Natal eram só ir à missa, somente se preparava, criava peru ou porco para matar na época das festas. Só isso. Como todo mundo era gente simples, todo mundo tinha uns trocados só para comprar a roupa de passar o Natal, de ir à missa. E tinha a igreja que era no povoado, foi a primeira cidade lá de Pernambuco, que era Vila de Cimbres. E lá tinha a igreja, passava um rio grande assim, a gente levava a sandalinha pendurada no dedo, que era para poder passar lá no rio, para calçar do outro lado, porque tinha muita chuva na época de junho. A gente só sabe passando, então para mim era só a missa só. Que a gente gostava de ver os músicos tocarem, que vinham de fora.


P/1 – Ah, porque na missa tinha...


R – É. Tinha festa. Eles faziam uma comemoração e vinham uns músicos de fora para tocar.


P/2 – E era toda semana isso?


R – Não. Tinha, a missa tinha...


P/1 – Domingo assim?


R – Tinha. Era dominical.


P/1 – E vocês iam todo domingo ou não?


R – Que era aquele padre.


P/1 – Aquele bravo.


R – Aquele bravo que eu te falei. Essas festanças lá era coisa de sítio mesmo.


P/2 – E os aniversários, seus e dos seus irmãos, vocês faziam alguma coisa?


R – Não. Nada. Nada. Não existia. Aniversário não. Nasceu, marcava só o dia em que nasceu. Às vezes ia registrar, registrava até errado.


P/1 – E como eles escolhiam os nomes? Tinham algum...


R – Mas tinham umas folhinhas, né? (risos)


P/1 – Mas, por exemplo: “Ah, nasceu, eu quero dar esse nome para o filho”.


R – Não, porque tinham umas folhinhas, calendários, né? Naquele dia vinham nomes, vinham nomes.


P/2 – Eram nomes de santos?


R – Eram nomes mais de santos. Aí eles colocavam. Quer dizer, nem sei, o meu se fosse homem era João, que eu tinha nascido no dia de São João, mas aí eu era mulher. Não sabia se era homem ou era mulher também, era o que viesse.


P/1 – E dos irmãos, qual a lembrança que a senhora tem? Tinham alguns que a senhora brincava mais, uns que brincava menos?


R – Tinha.


P/1 – Qual história que a senhora...


R – Aliás, já faleceram cinco. Eu brincava com tudo. Tinha um que era mais bravo, que era esse que brigou com meu namorado.


P/1 – Ciumento.


R – Ele era ciumento. E eu brincava muito com Petrônio, esse a gente brincava muito.


P/1 – Com Petrônio.


R – Petrônio, Rodrigo, tem um monte.


P/1 – Mas o Petrônio a senhora brincava mais do quê?


R – Ele brincava porque ele era o mais novo. Ele era mais marrudo, mais mal criadinho, mamãe gostava que a gente estivesse junto, mandava a gente fazer as coisas junto.


P/1 – Ele era mal criadinho?


R – Não. Mal criadinho era o Pedro. (risos)


P/1 – (risos)


P/2 – Vocês brincavam do quê?


R – Eu brincava de casinha. Fazia casas assim, amarrava palha uma na outra, fazia a eletricidade. No mato, no sítio, que era tudo sítio, né? Papai criava abelha, a gente fazia velinha de cera e pendurava lá nas palhas, de noite acendia. A diversão era essa. Os moleques brincavam com cavalo de pau.


P/1 – E vocês com casinha.


R – Casinha.


P/1 – A senhora se lembra de umas comidas que tinham lá? Umas comidas de caça, alguma coisa assim?


R – Matava galinha, mamãe matava a galinha, a gente preparava o intestino da galinha para brincar, as tripinhas da galinha, fazia as casinhas.


P/1 – E assim, tinha carne, comida de caça, essas coisas lá?


R – Não.


P/1 – Não?


R – O pessoal caçava. Papai não. Papai não.


P/1 – E deviam ter uns doces bons lá também, não tinham?


R – Fazia muito doce de mamão, essas coisas que têm no sítio, né?


P/1 – Sei.


R – Nem usava fazer muita coisa também. Não tinha muita atividade para fazer, só era fazer comida de milho, essas coisas mais, que era o básico.


P/2 – A senhora cozinhava ou só sua mãe?


R – Mamãe. Mas mamãe também trabalhava na roça, às vezes eu ficava em casa, já tinha sete anos, já ficava em casa e tal. Lembro muito bem, mamãe me deixou em casa para... Não sei se isso vai influir eu falar isso.


P/2 – Não, pode falar.


R – Mas mamãe disse: “Você vai ficar em casa e você tenha cuidado”. Porque tem quirela, que faz quirela, não sei se vocês conhecem.


P/1 – Sim.


R – Comidinha que dá para passarinho. Ela: “Você vai fazer, tenha cuidado na panela que tá no fogo, você tenha cuidado”. Eu tinha visto uma amiga, uma vizinha dizer que quando o xerém queimava, chamava xerém, quando o xerém queimava, molhava uma cuia, você sabe o que é cuia? Cabaça, né? 


P/1 – Ahã.


R – Molhava e botava na boca da panela, que melhorava. Aí fiquei com medo que mamãe ia brigar muito comigo, porque eu tava brincando, né? Ela ia brigar comigo que eu tinha queimado a panela. Aí eu fui e botei a cuia em cima da panela, o fogo foi e queimou a cuia também. (risos)


P/1 – (risos).


R – E eram essas coisas assim, que não tinha muita, era tudo rústico mesmo.


P/1 – E quando a mamãe chegou e viu a panela queimada?


R – Ainda mais a cuia também.


P/2 – E como era a cozinha, a casa?


R – A cozinha era fogo de lenha. Tudo fogo de lenha, não tinha...


P/2 – Precisava conservar a carne?


R – Não, porque tinha a quantidade de comer só durante um dia, ou dois, e o outro retalhava e punha para secar. O pouco que ficava. Não era muito também.


P/2 – Não tinha geladeira?


R – Não.


P/2 – Aí secava...


R – Lá num araminho pendurado acima do fogo.


P/2 – Como era essa casa? Do que ela era feita?


R – De alvenaria. Não tem essa que faz com madeira assim e enche?


P/2 – Ahã.


R – Taipa.


P/1 – A casa era de taipa.


R – Muitas eram.


P/2 – Em Pesqueira também? A casa em Pesqueira?


R – Não. Na cidade não. Era no sítio.


P/2 – A gente tava falando das festas e do início do seu namoro, e depois o namoro com seu marido. Você tinha quantos anos?


R – Eu tinha dezoito.


P/2 – Quando você o conheceu.


R – Não, eu já conhecia. Fazia tempo que eu o conhecia, mas quando foi para namorar... Porque eu namorava outra pessoa, mas papai não queria, porque papai era racista e o rapaz era moreno. Papai não queria que eu o namorasse, ele gostava desse que eu me casei. Aí eu o namorei e casei.


P/2 – Como era o namoro naquela época?


R – Olha, ele morava distante, durante o período que ele... Ele veio à minha casa no mês de janeiro, pediu a papai, se papai queria, papai aceitou. No mês de janeiro, no outro janeiro eu me casei. Durante esse tempo, período de um ano, ele só foi a minha casa três vezes.


P/2 – Vocês ficavam na sala de casa?


R – Não podia namorar direito. Nós nem sabíamos. (risos)


P/2 – (risos).


P/1 – (risos).


R – Então a gente saía, ia para casa dos vizinhos, não podia nem segurar na mão, porque já ia uma pessoa junto e o pessoal falava muito. Não tinha beijo, não tinha nada.


P/1 – E no forró não dava para dançar com ele?


R – Ele não ia, só foi lá três vezes.


P/1 – (risos).


R – Teve época que ele foi lá e era tempo de festa, aí a gente dançava mais agarradinho. Só isso. Não tinha lá esses... Hoje é tudo moderno. Era tudo diferente.


P/2 – Como ele se chama?


R – Miguel.


P/2 – E aí vocês decidiram se casar. Como foram os preparativos?


R – Os preparativos foram muito interessantes, porque a gente começou a criar peru, porco, essas coisas, galinha, porque as festas são comemoradas, os casamentos lá são diferentes. Aí faz os convites, todo mundo vai, vai quem quer, não tem convite. E faz a festa, o pessoal só vai comer e dançar. Nós começamos a dançar, eu me casei no sábado, foi? Foi no sábado. Começamos a dançar na quinta, começamos a fazer festa, dançamos de noite, dançamos no outro dia e dançamos três dias.


P/1 – E o som não parava.


R – Tinha músico. O músico era da cidade que vinha tocar.


P/2 – E onde foi? Na casa de vocês, dos seus pais?


R – Foi na casa do papai. O casamento também foi em casa.


P/2 – Quem cozinhou? Que tipo de comida tinha?


R – Era carne de porco, que matava porco, peru e arroz. Só comia arroz em tempo de festa também ou se tivesse doente. E só essas coisas. Tinham as pessoas que iam cozinhar. A diferença que tinha é que sempre fazia um peru assado ou uma galinha assada, alguma coisa assada, que era a mesa dos noivos.


P/2 – Tinha mais de uma mesa? Como era?


R – Era uma lá que não tinha tamanho, que as mesas lá eram todas grandes. Mesas de sítio são todas grandes.


P/1 – Sua mãe conversou contigo: “Olha, o casamento é isso”.


R – Mas eu acho que nem ela sabia. (risos)


P/1 – (risos). 


R – Não.


P/1 – E o padre teve alguma conversa antes?


R – Não. Não, porque eu tinha medo até de me confessar, que ele era bravo. Porque você tinha que confessar também para poder casar, e eu fui me confessar. Mas ele não perguntava nada, não, ele era bravo mesmo, mas não perguntava essas coisas, não. Só que eu tava rindo muito quando eu tava me casando, mas dava um acesso.


P/2 – Como foi essa história de rir?


R – Eu comecei a rir. Só rindo, rindo, rindo. Ele olhou para mim, o padre, disse: “Casamento é coisa séria”. Aí eu fiquei na minha.


P/2 – Como foi o casamento, a cerimônia?


R – Normal. Não gastamos vinte minutos, já estávamos casados.


P/1 – A festa durou três dias.


R – A festa não, a festa foi... Pior é que, além de tudo, esse meu ex foi para o casamento.


P/2 – Como foi isso?


R – Ele foi ao casamento.


P/2 – Foi tranquilo?


R – Foi. Dançamos. Dancei com ele também. Normal. Só que no meu ouvido, eu nunca esqueço o que ele conversou no meu ouvido, mas eu não vou falar.


P/1 – (risos). É segredo?


R – Não. Não é segredo, não. Só foi dizer que me amava muito. Pronto.


P/1 – (risos).


P/2 – (risos). Teve também um juiz, além do padre?


R – Eu me casei no ano de 1965 no juiz, no casamento civil.


P/2 – Você teve que ir ao cartório?


R – Era pertinho o cartório. Era na vila lá, era pertinho, a gente foi ao cartório.


P/1 – E o casamento foi em casa?


R – Foi.


P/1 – Não foi na igreja?


R – Não. Que os padres casavam em casa, a gente chamava.


P/1 – Naquela época eles iam?


R – Eles iam casar em casa. Quem quisesse casar em casa, o padre vinha.


P/1 – Mas se quisesse casar na igreja podia também?


R – Casava sim. Casava. Mas papai queria que fosse em casa.


P/1 – E a data, quem escolheu?


R – Você sabe que não sei? Acho que foi papai mesmo. Eu me casei parece que no dia dez de janeiro.


P/2 – A senhora se lembra do seu vestido?


R – Lembro, que foi eu que fiz.


P/2 – Como era?


R – Era de tafetá, um vestido godê, puxava alguma coisa assim por aqui. Só. Manguinha até assim, a manguinha fazia assim.


P/2 – Tinha véu?


R – Tinha. Grinalda.


P/2 – Longo?


R – Não. Pequeno. Era pequeno.


P/2 – Branco?


R – Branco. Não dá para você perceber, que a foto que tem aí não vale nada, não dá para você ver direito. Fazia um bendegó. Chamava bendegó, né? O cabelo juntava aqui, fazia assim, só de um lado.


P/2 – Ficava solto então?


R – Mas era pequeno o cabelo.


P/1 – E tinha buquê de noiva?


R – Tinha.


P/1 – De que era?


R – Era de papel. De flor, flor de papel.


P/1 – Quem fez as flores?


R – Acho que foi comprada. Que a grinalda foi comprada e acho que o buquezinho, uma coisinha lá.


P/1 – E o pessoal jogava buquê?


R – Não. Não usava, não.


P/1 – Não usava, não?


R – E o bolo fui eu quem fez, porque eu aprendi a confeitar e fiz um bolo.


P/2 – A senhora já sabia fazer costura e confeitar?


R – Confeitaria e bordava na máquina, bordava na mão.


P/2 – Aprendeu como tudo isso?


R – A bordar na máquina eu aprendi na cidade de Pesqueira, no ano de 1949.


P/2 – Aprendeu com quem? Como foi?


R – Uma senhora que bordava na mão e na máquina. Eu aprendi lá.


P/2 – A senhora já trabalhava com isso ou não?


R – Não. Costurava só assim coisas de casa. Na época mamãe costurava, então... Naquela maquininha de... Não sei se vocês conhecem, aquela que só tem um veinho assim.


P/1 – Ia batendo?


R – Não. Na mão. Manivela. Depois que eu me casei, quando eu me casei, papai saiu de casa para não ver minha saída, era interessante, não queria me ver sair, eu era o xodó. Aí ele não queria me ver sair, ele saiu. Que eu fiquei em casa, depois foi que meu marido, oito dias depois, que ele veio lá em casa para a gente ir embora. Aí papai foi embora para não me ver sair, tal. Mas ele titubeou, chegou, aí quando eu chegando, indo embora, tinha um cruzamento assim, aí eu fui embora, ele veio, nos encontramos no meio da estrada, aí ele me abraçou, foi quando eu ganhei um beijo.


P/1 – Primeiro beijo.


R – Foi. De papai foi. Assim, de velha, de casada. Criança não. Foi quando ele me beijou. Aí disse: “Ah, tô correndo para me esconder daquela menina e encontrei”. Que ele não queria me ver ir embora.


P/2 – A senhora foi embora para onde?


R – Meu marido também foi ser administrador dessas plantações, como eu te falei. Aí ele foi ser administrador também. Nós morávamos numa casa simples, olha, vai dar rolo se eu falar. E nós morávamos numa casinha pequena.


P/1 – Como era essa casa?


R – Pequenininha. Casa de taipa.


P/1 – E por que a senhora falou que era tão simples?


R – Por que era todo mundo simples, não tinha possibilidade de fazer nada. Mas a vida era boa.


P/2 – E o primeiro filho? O primeiro filho foi quanto tempo depois do casamento?


R – Foi em seguida, foi em dezembro. Eu casei no mês de janeiro, logo em seguida eu fiquei grávida. O meu primeiro filho, mas ele faleceu.


P/2 – A senhora teve quantos filhos?


R – Eu só tive dez.


P/2 – Dez?


R – Dez. Era seguido.


P/2 – Todo nasceram lá em Pernambuco?


R – Todos nasceram lá. Só o primeiro foi homem e o terceiro. O primeiro foi homem, ele faleceu, depois nasceu uma mulher, depois nasceu o esposo daquela minha nora. Nasceram oito mulheres seguidas.


P/2 – Como foi criar todos esses filhos?


R – Como Deus criou batata. Criados normal, porque eles nasceram todos em casa, eu nunca fui ao médico, nem saber se tava grávida ou se não tava. Ficava grávida e só esperar que nascesse.


P/2 – Quem ajudava a fazer o parto?


R – Tinha parteira.


P/1 – E era sempre a mesma parteira?


R – Não. Tiveram só umas duas, só. Teve uma que nasceu sem parteira mesmo, a última.


P/2 – Moravam todos nessa casinha?


R – Não, porque era assim, você trabalhava um ano numa plantação, terminava aquela lá, começava em outro lugar e ia...


P/2 – Mudando.


R – Era.


P/2 – Como era mudar sempre de lugar?


R – Era legal, porque a gente acostumava, tinha as conduções, porque era plantação, era para as firmas, para as fábricas. Então tinham as conduções, tinham os caminhões que vinham buscar e levar aonde ia já tinha casa pronta. Então era normal.



P/2 – Pensando nessas mudanças, como era esse caminhão aí? Colocava toda a mobília, as malas, as coisas? Como era?


R – Era o que tinha. O que tinha ia tudo ali no caminhão. Gato, cachorro, galinha, tudo que tiver.


P/2 – Até os animais iam?


R – Ia tudo, porque é mudança, né?


P/2 – E os dez filhos iam na carroceria? Aonde iam?


R – Não, não tinha, não. Nessa época não tinha, não.


P/2 – Nessa época não tinha.


R – Não. Foi aos poucos. Depois a gente voltou para morar... Aí terminaram as plantações, a gente saiu, meu marido foi fazer o senso do ano de 1960, ele fez o senso na cidade, longe, no sítio, porque naquela época fazia pelo sítio. E ele fez o senso, depois ele veio aqui para São Paulo, que não tava aguentando mais trabalhar na roça, que era pesado.


P/1 – Quando ele veio para São Paulo?


R – Acho no ano de 1964.


P/2 – A senhora veio junto?


R – Não. Fiquei.


P/2 – A senhora ficou onde lá?


R – Fiquei em Cajueiro.


P/1 – Aí a senhora voltou para o Cajueiro novo?


R – Não. Era no Cajueiro velho ainda. Esse Cajueiro novo é de seis anos só.


P/1 – Ah, aí a senhora...


R – É. Então eu fiquei, ele veio para cá, ficou um ano e pouco, aí meus irmãos queriam que eu viesse passear, porque eu já tinha vários irmãos aqui. Aí eu vim passear, aí meus irmãos: “Ah, tu vem-te embora, vem para cá”. Mas meu marido não queria que eu viesse, porque eu tinha filharada e aqui eram muito difíceis as coisas, que realmente eram. Aí eu digo: “Tá certo”. Aí eu vim com duas meninas, a mais velha e a mais nova. Eu vim, aí já tava com a minha viagem programada para um domingo, aí meu marido disse: “Olha, tu queres vir, mas tu já sabes que é difícil aqui”. Aí eu digo: “Olha...”. Fui malcriada até com ele. Falei para ele, digo: “Ah, se você não quer que eu venha, pois eu também não vou trabalhar quando eu chegar lá”. Na época eu trabalhava também, já tinha roçado, tinha que fazer colheita, tinha plantado milho, feijão, tinha feito roça. Aí ele resolveu, disse: “Ah, então você vem. Você resolve as coisas lá e vem”. Eu fui, ficou uma das meninas aqui, que é a mais velha, ela ficou aqui, eu fui com a mais nova. Cheguei lá eu tinha muita roça, aí fiz farinha, vendeu farinha, vendeu as coisas do roçado, aí eu vim.


P/1 – Nessa época a senhora tinha quantos filhos?


R – Tinha esses mesmos, que ainda não tinha nascido mais. A mais nova, nessa época, tinha seis anos.


P/1 – Ah, então eram as duas?


R – Não. A mais nova tinha seis anos quando eu vim para cá, porque morreram quatro, eu só vim com seis.


P/1 – Ah, a senhora veio com seis para cá.


R – Meu filho já tava aqui, que ele veio para cá com catorze anos. Estavam ele e meu marido, já estavam aqui. Aí eu vim com cinco.


P/2 – E como a senhora veio para cá? De ônibus?


R – De ônibus.


P/2 – E se lembra da viagem?


R – Lembro.


P/2 – Como era o caminho?


R – O caminho era um ônibus, ficava três dias. Vinha em três dias, gastava na viagem até chegar aqui.


P/2 – Ia parando?


R – Parava. Tinham as paradas para almoço, para lanche. E a gente trazia coisa para comer.


P/1 – E a filharada tudo junto.


R – Só vieram quatro, porque tinham dois aqui já.


P/2 – Foi a primeira vez que a senhora saiu de Pernambuco?


R – Eu vim a passeio, no ano de 1960 eu vim aqui a passeio. Depois voltei e depois eu vim em 1964, que foi quando eu vim e fui buscar as criançadas.


P/1 – A primeira vez que a senhora veio para São Paulo, como foi a impressão?


R – Eu achei bom. Gostei.


P/1 – Gostou?


R – Gostei.


P/1 – A senhora falou que seu esposo já morava aqui.


R – Já estava aqui. Que meus irmãos moravam aqui, ele morava...


P/1 – Que bairro era?


R – Talarico.


P/1 – Talarico.


R – Vila Talarico.


P/1 – Aí quando veio, a senhora começou a trabalhar... A senhora falou...


R – É. Logo que eu cheguei aqui, a minha irmã já trabalhava aqui na casa de uma senhora que era esposa do que trabalhava na Kibon, ele tinha falecido. E ela trabalhava para ela, e ela queria que eu fosse reformar as roupas do marido para os filhos, que ela tinha dois filhos, tinha e tem dois filhos. Aí eu fui trabalhar lá, ela gostou que eu trabalhasse. Dali eu fui iniciando o meu trabalho. Que eu não tinha curso de nada, mas para reformar era mais prático.


P/1 – Aí a senhora usava a máquina dela?


R – Era tudo dela, eu só ia... Depois ali ela tinha amiga, tinha uma irmã que era doutora, dentista, que morava já lá no Brooklin. Aí eu fui para lá trabalhar, dali eu fui trabalhar para diretora de um colégio, que é da Místiga, que ela era diretora lá. Dali foi surgindo. Ela tinha uma amiga, a amiga me indicava, aquela amiga indicava para outra amiga.


P/1 – Aí a senhora ia à casa das pessoas?


R – Eu ia à casa.


P/1 – E como era se locomover em São Paulo?


R – Era de ônibus.


P/1 – Mas era fácil?


R – Era difícil, mas eu fui aprendendo. Eu tinha uma agenda e essa agenda era... Aí eu formei a agenda que não tinha um dia vago, todos os dias eu ocupei.


P/2 – Como era um dia seu de trabalho?


R – Na época eu fazia o que desse para fazer. Eu chegava, porque era longe, de onde eu morava para onde eu ia, eu gastava quase duas horas de locomoção. Eu chegava mais ou menos oito e meia, nove horas e eu saía cinco horas. Aí eu calculava mais ou menos, eu dizia: “Tem isso, isso e isso para fazer”. Às vezes era só remonte. Depois foram pegando gosto e foram comprando, aí eu fui cortando peça também. Aí eu dizia: “Olha, só vai dar para fazer isso”. Aí se chegasse meu horário, tinham muitas freguesas que eram boas, aí diziam: “Olha, dona Maria, já tá na hora de a senhora ir então”. Digo: “Mas agora só posso terminar”. Porque cada pessoa só tinha um dia por mês e eu não podia deixar começado, porque ia esperar um mês, aí eu tinha que deixar aquilo em ordem.


P/2 – Que tipo de roupa a senhora fazia?


R – Era o que viesse para fazer. Era camisa, era calça, que naquela época fazia muito essas calças simples só com elástico e tal. E vestidos, remontes, fazia lençol, forrava o sofá, eu fazia de tudo.


P/2 – Chegaram a te pedir para criar um modelo de um vestido, por exemplo?


R – Não, porque eu já fazia copiado.


P/1 – Tinha uma foto assim, falavam: “Eu quero esse”.


R – Não. Eu fui criando à manequim, que tinha risco e tal, e tal, e tal, eu tirava aquele molde e cortava. Mas era tudo coisa simples, mas eu fazia. Calça, fazia calça. Tinha um senhor que eu trabalhava para ele, que morava ali na Asdrúbal do Nascimento, lá no Centro, e ele ficava sentado lá olhando. E eu cortando, usava linho, e eu cortando: “Dona Maria, a senhora vai acertar para fazer tudo isso depois?”. Digo: “Eu vou dar um jeito”. Então minha vida era essa.


P/2 – E era a senhora que comprava o tecido ou os clientes?


R – Não. Não. Eu só ia. A vida era tão difícil.


P/2 – Durante quantos anos a senhora trabalhou como costureira assim?


R – Uns trinta anos.


P/2 – Trinta anos indo à casa das pessoas?


R – Era. Ainda hoje eu tô com uma sacola ali com uma roupa de uma moça, que eu vou entregar, que ela é dessa largura, ela mora aqui na Fradique.


P/2 – Até hoje a senhora costura então?


R – Não costuro, não. Só para ela, porque ela não tem quem faça para ela, porque ela é muito forte. E vou até levar uma roupa dela.


P/2 – E a senhora exerceu outro trabalho além desse aqui em São Paulo?


R – Aqui não. Só costurar. Só costurar.


P/2 – E teve um lugar que você conheceu, um bairro, sendo costureira, que tenha uma história legal, tenha alguma surpresa que a senhora teve?


R - Não. Assim diretamente, não. Quando eu comecei eu trabalhava na Guaraiúva, na casa de uma professora de balé. Ela pediu para eu fazer a roupa das garotas, aí eu fiz, o pai dela disse: “Dona Maria, eu quero que a senhora vá lá na apresentação das crianças, que vai ter a festa, eu quero que senhora vá, que eu quero apresentá-la, que foi a senhora quem fez a roupa”. Fui não, porque eu tinha vergonha de ir, podia não saber, não quis ir. Estive na casa de uma portuguesa, que eu voltei da porta da casa dela porque eu não sabia falar. Digo: “Ela vai falar em português, a língua dela, e eu não vou saber”. Aí eu não fui trabalhar para ela. Mas depois eu fui acostumando.


P/2 – A senhora morou em qual bairro?


R – Eu morei nesse Talarico só. E agora Artur Alvim. Artur Alvim e agora eu estou morando no Parque do Carmo. Eu morei vinte e um anos em Artur Alvim, que eram em uns apartamentos da Cohab, a gente comprou um apartamento, fomos trabalhando e fomos... Aí compramos um apartamento. E agora a gente mudou, porque vendemos o apartamento e compramos uma casa lá no Parque do Carmo.


P/2 – A senhora ganhava uns presentes quando ia à casa das clientes?


R – Eu ganhava sempre. Todo fim de ano cada um dava um presentinho. 


P/1 – E como eram esses presentes?


R – Era qualquer coisa que desse. Era uma carteirinha, era um... O que desse era presente.


P/1 – E tinham uns presentes bacanas?


R – Não. Não tinha muito, não.


P/1 – Mas e aquele vestido?


R – Aquele vestido foi assim numa... (risos).


P/1 – (risos).


R – Não, aquele vestido não foi assim de presente de Natal, não. Foi normal, porque eu reformava, aí ela disse: “Ah, dona Maria, leva esse vestido para senhora”. Mas eu fiquei muito encantada com o vestido. Você não vê a pose?


P/1 – Tá linda.


P/2 – Que cor era o vestido? Como ele era?


R – O vestido era um vestido que eu não vestia, né? Era assim de alcinha. Tá na foto aí. Só. Franzidinho, barrado, tinha um bolso assim de lado. Só. Mas eu o amava.


P/1 – E a senhora usava para sair? 


R – Claro, que era chique.


P/2 – E a senhora saía para onde nessa época?


R – Eu só saía para trabalhar, só.


P/2 – E os fins de semana tinha almoço com todo mundo que morava aqui em São Paulo?


R – Não. Difícil. Era difícil. Depois as coisas foram se encaixando melhor, porque no começo foi muito duro.


P/1 – Mas não tinha tempo nem para um forrozinho?


R – Não. Aqui não. Não ia, não. Aqui eu nunca fui num forró, não. Aqui a gente faz agora em casa.


P/1 – Então sábado e domingo também a senhora tava trabalhando na casa das...


R – Ficava em casa, né?


P/1 – Na casa da senhora?


R – Só em casa.


P/1 – Aí trabalhando nas...


R – Nas obrigações de casa. Foi muito difícil, mas depois a gente se equilibrou.


P/2 – Enquanto a senhora ia trabalhar no dia de semana, quem ficava com os filhos?


R – Que tinha as meninas que ainda não estavam trabalhando, porque elas começaram a trabalhar cedo também.


P/2 – Suas meninas. Suas filhas.


R – É. Elas começaram a trabalhar com catorze anos, estudar. Depois eu arranjei uma pessoa para fazer. Eu fazia, antes de eu sair eu já deixava as coisas encaminhadas, porque meu marido também trabalhava. Ele trabalhou numa firma vinte e dois anos. Ele trabalhou na L’Atelier, uma firma de móveis. Ele trabalhou vinte e dois anos, que aposentou lá. Depois cortou um dedo com a máquina. Meu filho já trabalhava num supermercado, que era garoto, com catorze anos, quinze, por aí. E as meninas foram começar a trabalhar lá Bauducco, parece, Bauducco, que era o nome da firma lá, lá na 25 de Março, numa loja, e ali elas trabalhavam e pagavam o estudo delas. Eu e meu marido ficávamos nas obrigações.


P/1 – Voltando um pouco nessa questão do presente, a senhora ganhou esse vestido. Tem algum outro presente que a senhora ganhou que lembra com carinho?


R – Não.


P/1 – Foi esse. 


R – Foi. 


P/1 - Nem assim no aniversário?


R – Não. Só do pessoal de casa mesmo.


P/1 – Mas assim, o presente que marcou a senhora foi esse vestido?


R – Foi. Que eu gostava, adorava o danado do vestido.


P/1 – Que fim levou o vestido?


R – Foi acabando, o tempo foi corrompendo.


P/1 – E senhora dava umas remendadas, dava umas costuradas?


R – É. Mas aí não deu mais jeito.


P/2 – E a senhora se lembra de penteados que fazia com o cabelo nessa época?


R – Eu fazia permanente.


P/2 – Era permanente?


R – Era, porque papai não queria que eu fizesse, né? Aí eu levei meu marido na lábia, aí ele me deixou fazer permanente, aí eu fazia direto.


P/2 – Como você fazia esse permanente?


R – Permanente. Fazia naquelas máquinas lá que faziam, que esquentavam para caramba.


P/2 – E aí ficava...


R – Emboladinho. Ficava uns seis meses, muito tempo sem... Era quente e fazia, botava na máquina lá e ficava esquentando. Quando tirava, com aquele líquido fedido, então aí eu fazia permanente só.


P/2 – A senhora ia ao salão fazer permanente?


R – Era. Tinha um salão que fazia. Fazia a unha também. Eram as únicas vaidades.


P/2 – O cabelo e a unha.


P/1 – As roupas, a senhora fazia as suas roupas?


R – Era. Fazia. Fazia. 


P/2 – Seus filhos todos estudaram? Os seis aqui em São Paulo? Todos estão aqui?


R – É. Uma é professora.


P/2 – Conta mais. Isso. Conta deles.


R – Ela é professora parece que há uns dezesseis ou dezessete anos já. É a que tava organizando aquele álbum. O outro também dá aula, tem uma que é advogada, que ficou viúva agora pouco. E o filho, que é o esposo daquela que tá comigo, a minha nora, ele não estudou, não, mas se equilibrou. Todo mundo estudou, mas por conta deles, eu nunca pude ajudá-los a estudar. Eu dava o teto e a alimentação, mas eles trabalhavam e estudavam. 


P/2 – A senhora tem netos?


R – Eu tenho neta casada já.


P/2 – E é bom ser avó?


R – Maravilhoso. Essa que tá viúva tem um casal, tem um filho com quinze anos, que não gosto nem lembrar, que ela ficou viúva agora pouco, os filhos dela eu que criei desde pequenos, porque ela trabalhava, estudava e trabalhava. E o filho dela já tem quinze anos e a menina tem oito. Eu que criei, cuido dele. Só olho, porque ele só chega a casa seis horas, aí eles ficam lá mais eu enquanto ela chega para levar.


P/2 – Os filhos moram todos pertos da senhora?


R – Mais ou menos. Só mora mais perto essa filha. Moram quase todos assim, de cinco, dez minutos de carro.


P/2 – Então vocês ficam bastante juntos? Fazem jantares, essas coisas, almoço?


R – É assim, é uma união perfeita. Maravilhoso. Inclusive, tem ali os álbuns só de festa, deles, de a gente se juntar no Natal. São datas comemorativas para a gente, o Natal, o mês de junho, porque é meu aniversário, quando eu to aqui a gente… e Páscoa.


P/2 – Como são essas festas?


R – Maravilhosas. Todo mundo se junta, todo mundo traz e fica ali até as festas encerrarem.


P/1 – Todo mundo traz um prato?


R – Traz.


P/1 – E no Natal tem peru?


R – Peru tem. Ih, aí é que tem.


P/1 – É aí que tem a dança também, o forrozinho?


R – Aí o forró rola.


P/1 – Diz uma coisa para mim, qual é a sensação, a diferença entre a sensação de ser mãe e de ser avó?


R – Avó é maravilhoso. É muito bom ser avó, muito, eu adoro ser.


P/1 – E mãe?


R – Também.


P/1 – Mas assim, se pudesse comparar entre ser mãe, o dia-a-dia, as responsabilidades, o carinho. Como é?


R – O carinho com os netos é mais.


P/1 – (risos) É?


R – É. É gostoso ser. É uma família assim, que veio unida desde mamãe e papai, ai ficou a família e a família tá conservando.


P/2 – Nas festas, a senhora falou que toca forró, tem uma música que tocava lá em Pernambuco que sempre toca...


R – Tem. Tem, porque todo mundo gosta.


P/1 – E você lembra para cantar para gente?


R – Olha, tem tanta coisa aí que eu nem sei o que é.


P/2 – Qual é a sua predileta, o seu cantor predileto?


R – Eu gosto muito da música sertaneja. Adoro.


P/2 – Você dança muito?


R – Adoro. Adorava João Mineiro e Marciano, amo de coração. Eu gosto de tudo.


P/2 – E toca sertanejo nas festas também?


R – Toca tudo. Vai de tudo. Porque todo mundo tem muita fita, muita coisa, então é tudo.


P/2 – Nessas horas a senhora dança?


R – Danço também. A gente dança junto ali a moçada toda.


P/1 – Por falar em festa, a senhora mostrou para gente quando a senhora fez cinquenta anos de casada.


R – Certo.


P/1 – Que aí teve uma festa.


R – Não teve festa, teve um bolo.


P/1 – Então, como foi essa data?


R – Eu tava trabalhando, quando eu cheguei a casa estavam lá aquelas garrafas de Coca em cima da mesa e um bolo.


P/1 – Ele tinha preparado?


R – Não. Foram as meninas, as filhas.


P/1 – E aí ele também tava trabalhando, ele chegou...


R – Tava também, ninguém sabia. Festa de cinquenta anos.


P/1 – E você lembrava que tava... Ou você foi no dia assim, chegou e...


R – Não. Tem época que quando passa eu nem lembro.


P/1 – E como foi? Porque eu vi que teve foto, teve uma...


R – Teve.


P/1 – Como foi?


R – As meninas aqui, elas se juntaram e fizeram.


P/1 – E aí vocês dançaram, teve som, ou só teve bolo?


R – Não. Não. Teve não. Só foi aquilo mesmo, aquela cruzadinha ali de taça.


P/2 – A senhora é casada há quantos anos?


R – Cinquenta e seis. Eu casei em 1954.


P/2 – Muito tempo junto, hein?


R – É. Meu marido diz: “Ih, faz tempo que eu aturo”. (risos)


P/1 – (risos) E o que a senhora responde?


R – Eu digo: “E eu?”. 


P/1 – (risos)


R – Que agora ele tá doente, ele fumou muito e tá muito doente.


P/2 – Tem alguma viagem que a senhora fez com ele que queira contar para gente?


R – Todo ano a gente ia para Pernambuco. Depois que eu cheguei aqui, todo ano a gente ia junto para Pernambuco. Agora ele não vai mais porque ele não pode ir, porque ele tem só 20% de... O pulmão acabou por causa do cigarro. E tá com quatro anos que ele tá em tratamento. Todo dia ele toma inalação. Mas ele caminha e tudo, só não pode andar, caminhar muito, tem que estar com ele no caminhar. Caminha em casa só, mas é ótimo, ele é muito inteligente, lê muito, tudo que você perguntar para ele, ele te responde. História ele sabe de tudo, de tudo, porque ele lê muito, né? Então.


P/2 – O que ele lê?


R – Tudo. 


P/2 – Tudo?


R – O jornal é todo dia.


P/2 – Tem algum livro que ele goste muito.


R – Ele tem muito livro. As meninas dão muito livro para ele e ele lê muito. Você não pode conversar com ele, você vai conversar com ele uma coisa, ele diz: “É isso, é isso, é isso, é isso”. Ele já sabe tudo. Foi tal ano, ele conhece tudo, de história ele é perfeito.


P/2 – Quando vocês faziam as viagens, vocês ficavam quando tempo lá?


R – Trinta dias.


P/2 – Trinta?


R – Era.


P/1 – Os filhos iam também ou não?


R – Não.


P/1 – Só ia o casal.


R – Só a gente, só.


P/2 – E como eram essas viagens?


R – A gente começou a ir de ônibus, depois ficou mais moderno e pudemos fazer, aí fomos de avião, ir de avião era mais rápido e tal. Aí tinha um sobrinho que tem condução lá e ia buscar a gente no Recife, porque do Recife para lá são três horas de carro.


P/2 – Ficava aonde?


R – Já puxando para o sertão.


P/2 –Você ficava na casa de alguém?


R – Dos irmãos. Mamãe, que mamãe era viúva na época. Depois foram as irmãs que ficam lá, as sobrinhas.


P/1 – Aí lá a senhora não costurava, né?


R – Às vezes eu fazia.


P/1 – Também?


R – Tinha gente que me aproveitava quando eu chegava lá.


P/2 – Fazia o que lá?


R – Costura normal. Roupa.


P/2 – Pensando nessas viagens, a senhora lembra a primeira vez que viu o mar?


R – Você sabe que eu nunca... Não, eu vim conhecer o mar aqui.


P/2 – Conta para gente.


R – Eu não gosto, eu tenho medo de mar.


P/2 – Tem medo?


R – Tenho medo. Tenho medo do mar, não gosto, não. E meu filho alugou uma casa em Santos, porque todo mundo foi se equilibrando, tal, tal e tal, eles gostavam muito de praia, ele alugou uma casa, passou uns três anos com a casa alugada, aí a gente ia lá para Praia Grande. Era gostoso, porque todo mundo se juntava como sempre.


P/2 – Você se lembra da sensação de ver aquela imensidão?


R – Ah, o medo do ano novo, aqueles fogos, aquela loucura lá na beira da praia. Mas agora eu não gosto mais não. Minha filha tem casa lá, a solteira, a professora, ela tem uma casa já junto com meu genro, eles têm uma casa lá.


P/1 – Conta uma coisa para gente, se tivesse alguma coisa que a senhora pudesse fazer e não fez nesses anos todos, o que teria sido?


R – Vixe Maria. Tinha vontade de ver as pessoas que eu gostei, que eu amava. Tinha vontade ver aquele ex, só ver, mas eu quero que isso não seja... Tinha vontade de morar lá ainda.


P/1 – Lá em...


R – Em Cajueiro novo.


P/1 – Voltar a morar lá.


R – Tinha vontade, mas meu marido nunca quis. Ele não quer, não. Mas só isso, não tem muita ambição, não.


P/1 – E hoje, por exemplo, as coisas mais importantes para senhora, o que são?


R – O importante é a convivência, gosto da união da família, para mim o certo é que a família seja unida e que permaneça. Só isso. Aquilo que eu posso fazer por alguém, se eu puder fazer eu faço, então só isso. Não tenho restrição com nada, o que eu puder fazer eu faço.


P/1 – E hoje em dia, como a senhora vê essa questão de família hoje em dia por aí?


R – Tem muita diferença, tem muita coisa que a gente não se adapta.


P/1 – E me diz uma coisa, como foi essa experiência de estar conversando aqui com a gente e contar essa trajetória pessoal, essa trajetória de vida da senhora.


R – Eu acho importante. Para mim eu acho que é importante, que é uma coisa que eu vivi, que eu fui, que sejam aproveitadas só as coisas que tenham utilidades, as que não... (risos)


P/1 – (risos)


P/2 – A gente queria pedir para senhora falar de novo o seu nome completo, a data e o local de nascimento, e talvez resumir um pouco essa sua história, quem é você, como um fechamento. Então nome completo, local, data de nascimento e esse resumo de você.


R – Maria Joana Espíndola Medeiros, nasci dia 24 de junho de 1935 no povoado do Cajueiro e que sou muito feliz com a minha família, amo todo mundo, sou muito feliz com eles.


P/1 – Olha, muito obrigado, foi realmente ótimo ter conversado contigo.


R – Eu só peço desculpa, porque a gente não tem... Nunca pensei também que eu fosse assumir.


P/1 – Ah, e só para finalizar, lembra que a gente tava conversando ali fora sobre aquela placa?


R – Aquela placa?


P/1 – Lembra aquele dia da inferioridade?


R – Lembro.


P/1 – O que a senhora me disse uma coisa que era muito bonita?


R – Só não lembro o que foi que eu te falei, que eu to muito esquecida.


P/1 – Lembra que dizia assim, que da história das pessoas e que não existia nenhum complexo de inferioridade.


R – Ah, não, não existe. Não, não existe.


P/1 – E aí tratava da questão da inferioridade.


R – Isso é péssimo. Isso é horrível.


P/1 – O quê?


R – A pessoa querer ser superior. Entendeu? Não valoriza pele. Eu acho isso injusto.


P/1 – Entendi. Tá ótimo.


P/2 – Muito obrigada por contar sua história para gente. Foi maravilhoso.


P/1 – Obrigado. Foi fantástico.


R – Vocês eliminam as...


P/2 – A gente agora… daqui a pouquinho.


R – Tá gravado lá em casa na fita. Não tá gravando, não, né fia?


P/2 – Não posso gravar? 


R – (risos). 


P/2 – Não, se a senhora se incomodar.


R – A frase pode.


P/2 – Então.


R – Ele falou assim, naquela gravação ele falou assim, que os filhos dele estavam tudo aqui e ele tava mandando aquela mensagem para eles, e ele falou assim naquela gravação: “Meus filhos, eu quero que vocês sejam para os filhos de vocês o que vocês foram para mim”. Eu achei isso maravilhoso.

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