Busca avançada



Criar

História

Dançando com alegria

História de: Gilvânia Santos Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/11/2014

Sinopse

Gilvânia é uma educadora, formada em dança e que trabalha com seus alunos a cultura popular brasileira. Nascida em Pernambuco, desde muito nova se interessou pelas danças populares brasileiras. Em seu depoimento, ela relembra a vinda para Osasco com a família aos cinco anos de idade, a adaptação à nova vida e os percalços que a família enfrentou logo que chegaram na cidade. Descreve como conheceu a Associação Eremim e os cursos que fez nessa ONG. Gilvânia também conta sua trajetória como aluna e monitora do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.  

Tags

História completa

Eu sou Gilvânia Santos Silva, eu nasci no dia 21 de abril de 1987, na cidade de Rio Formoso, Pernambuco. Minha mãe é Maria do Carmo Santos Silva, ela vai fazer 50 anos agora, nasceu no dia 29 de outubro de 1964, também em Rio Formoso, Pernambuco. O meu pai é Arnóbio Ferreira da Silva, nasceu no dia 21 de março de 1958, também em Rio Formoso, Pernambuco. O meu pai aos oito anos de idade começou a trabalhar no corte da cana lá em Pernambuco, durante 12 anos ele foi cortador de cana. Minha mãe sempre trabalhou em casa ajudando o meu avô, que tinha algumas plantações e tal. E depois de algum tempo, eles decidiram vir pra São Paulo, a gente chegou aqui em 1992, eu tinha cinco anos, meu irmão tinha oito anos, e minha irmã, três. E morando na casa de parente de favor, ele aprendeu a profissão de pedreiro aqui em São Paulo. Até então ele nunca tinha trabalhado com outra coisa. Em Rio Formoso eu me lembro de pouca coisa, porque quando eu vim pra São Paulo, eu tinha cinco anos, mas eu lembro que tinha espaço. Era uma casa que eu me sentia livre, porque tinha quintal, tinha terra, tinha bicho, então eu tinha todo esse contato com a natureza. Eu acho que eu era livre mesmo, assim no sentido mais poético da palavra. Mas eu tenho poucas lembranças.

Desde quando a gente chegou aqui a São Paulo, a gente sempre morou em Osasco. Depois o meu pai conseguiu um emprego, ele começou a conhecer as pessoas. A minha mãe arrumou um trabalho numa casa de família, e ela conheceu uma moça, que já é falecida, que falou pra ela: “Olha, vai atrás, vira e mexe aparece terreno vazio, tal, vá lá à prefeitura”. E ela deu muito apoio pra minha mãe. E a minha mãe levava a gente para o serviço, porque a gente não tinha com quem ficar. E a minha mãe passando um dia para o trabalho, ela viu um terreno vazio. E assim, as paredes estavam semilevantadas assim. Tava vazio o terreno. E a minha mãe falou: “Não, esse terreno vai ser meu”. E ela começou a ir todos os dias à prefeitura de Osasco. Ela foi muito chata, no melhor sentido da palavra. Deram o terreno, meu pai já tinha aprendido alguma coisa de pedreiro e ele mesmo começou a construir a casa. Foi juntando dinheiro, foi comprando material um pouco. E a gente saiu da casa da minha tia.

Eu lembro que algumas crianças davam risada por conta do sotaque, que era muito arrastado, lógico, tinha acabado de chegar de Pernambuco, mas normal assim. Achavam estranho, eu acho. Hoje eu já faço outra leitura. Quando a gente ia para as festas, eu sempre ousava dançar, e dançava tudo, era forró, qualquer música que tocasse, eu saía dançando igual uma destrambelhada. Mas eu acho que quando eu completei uns 13 anos me deu uma acordada assim, que o que acontece? Eu sempre ouvia as histórias da minha mãe e do meu pai e ficava perguntando por que a gente veio pra São Paulo, porque se a gente estivesse lá, eu ia ser uma passista de frevo, eu ia estar dançando maracatu, eu ia estar dançando coco, ciranda. Por que a gente veio? E eles entravam naquele processo de explicar, “Tinha que ser, não sei o quê, tal”. E em 99 abriu a ONG Eremim, lá no Rochdale. Em 2001, o Douglas Frassini e a Luanda Eliza apareceram lá na instituição pra dar aula de cultura popular. E o trabalho mais forte era com o Bumba-meu-boi maranhense, e em paralelo, o maracatu, a ciranda e o coco. Eu falei: “Pronto. Acho que tudo certo agora”. Eu falei: “É aqui mesmo”. E minha mãe fez a inscrição lá no Eremim, e de 2001 até 2004 eu fiz parte do núcleo de brincantes que tinha dentro da instituição. A gente trabalhava com alguns elementos da cultura popular brasileira. E quando eu saí, em 2004, que eu comecei a fazer o curso no Instituto Criar, eu continuei a pesquisa, sozinha. Continuei indo atrás, continuei buscando algumas informações. Fui pra Pernambuco, passei o Carnaval lá, sozinha, pra ter mais informação, pra ter mais contato. E de 2004 até agora não parei.

O meu contato com o Eremim foi por conta das histórias. A oralidade sempre foi muito presente em casa. O meu pai sempre contou muita história, minha mãe sempre contou muita história. Então assim, quando eu via as imagens na TV, fazia sentido pra mim, porque eu não tinha mais o contato, a gente não tinha fotografia das manifestações e tal, era sempre através das histórias contadas.

O curso de cultura popular eu adorei. A primeira impressão, eu fiquei extasiada, porque primeiro assim, era dentro de um clube, tinha piscina, tinha quadra, então a primeira impressão que me veio foi que: “Nossa, a gente vai usar a piscina, vai usar a quadra quando a gente quiser, tem churrasqueira, um monte de coisa”. Então criou um mundo superfantástico. Depois não foi muito bem assim, porque a gente não podia usar a piscina e a quadra quando a gente queria, enfim, tinha que estar com o educador junto. Eu me lembro da educadora Érica, que foi minha primeira educadora lá dentro, um amor de pessoa, fantástica a Érica, muito atenciosa, muito competente no que ela se propunha a fazer. Era uma turma de mais ou menos 15 pessoas com a mesma idade que eu, tinha 14 anos, eu acho, 13 pra 14 mais ou menos. E ela era assim, incrível. Então o primeiro contato com o pessoal foi muito bom. Foi uma turma que realmente fez diferença, porque a gente era muito junto, muito unido. E tinha as divisões, então a gente entrava com aquela turma e ficava até o final do ano, não tinha essa de mudar, enfim. Então o processo era bem legal. Quando eu entrei não tinha a dança ainda específica, tinha atividade física, incluindo a natação, tinha os debates, o ensino sobre DST, enfim, todas essas questões que envolvem a sexualidade, a preparação para o trabalho. Então a gente tinha aula de informática, tinha grupo de orientação, que era um grupo mais específico com jogos e dinâmicas, enfim, tudo pensando no mercado de trabalho também. Eram atividades assim. E tinha visita em museus, atividades mais específicas mesmo. A Márcia, que é uma educadora de muita referência pra mim, a Márcia, o Adriano e o Dingos são três educadores que fizeram muita diferença nesse meu processo, eu os tenho como referência até hoje e graças a Deus a amizade dos três também até hoje. A Márcia, ela dava algumas atividades de ginástica, então já tinha ali a dança envolvida, mas a dança mesmo da cultura popular inicia, se não me falha a memória, em 2001, quando cria o núcleo de brincantes. E eu lembro, inclusive, que assim que eles trouxeram a proposta do núcleo de brincantes, eles iam fazer uma viagem pra Olímpia, pra um festival. Nossa, eu fiquei: “Meu Deus, nossa, viajar, que legal”. Só que a minha mãe falou: “Não acho bom você ir, você é muito jovem”. A gente ficou: “Poxa, só nós ficamos de fora e tal”. Quando eles voltaram de Olímpia, eu comecei de fato a participar do núcleo de brincantes, então foi em 2001. Eu já estava no núcleo de jovens, no grupo de jovens.

O Mapa Cultural Paulista é um concurso de dança, não sei se ainda tem hoje em dia. Um concurso de dança. Então tinha ali as categorias: categoria popular, categoria não sei o quê e tal. E a gente ganhou em uma das categorias. A gente se apresentou no Teatro Municipal de Osasco. O teatro tava lotado, tinha muita gente assim. E eu lembro que a minha ex-cunhada, a Cátia, ela tava com um barrigão gigantesco e dançou aos oito meses assim, quase já ganhando neném, então foi tudo muito bonito assim. Então a gente ficou durante três meses preparando uma coreografia só pra esse festival, pra mostra do Mapa Cultural. Mas como todo grupo, sempre tinha ali as confusões, os embates, mas tudo que faz parte do processo mesmo.

A Kika, um dia ela chegou falando que tinha parceria, que eles tinham entrado em contato com o Instituto Criar e que existia a parceria, ela mostrou o projeto pra gente, cada um optou por uma oficina e a gente se inscreveu. Eu optei pela oficina de produção. E era assim, eu ia para o Instituto Criar de manhã, ficava lá até à tarde, saía de lá e ia para o Eremim. Só que chegou um tempo que não dava mais pra fazer isso, ficava muito corrido, muito puxado. Então eu saí do Eremim e fiquei no Instituto Criar. Em 2004 eu fiz o curso, em 2005 fiz a monitoria no Instituto Criar, ingressei numa produtora. Trabalhei como assistente de produção lá e fui fazer cursinho pré-vestibular lá na USP, que tinha lá o núcleo de consciência negra, tinha o cursinho de graça, eu fui fazer.  Eu amo a Faculdade Paulista de Artes, estou lá ainda, minha especialização é lá, mas esse mundo da dança é muito ainda europeizado, eurocêntrico. Então o que predomina é a técnica do balé e toda essa postura de estar retinha e bonitinha e tal. Então assim, a gente falou: “Não, vamos pensar que a gente está na América Latina. Quais são as nossas influências? Por que a nossa aula de cultura afro-brasileira tem que ser à distância? Não”. Então assim, existiam esses questionamentos, mas foi muito bom, porque eu conheci pessoas incríveis da dança do ventre, da dança contemporânea, do balé, do hip hop, do site specific, então o tempo inteiro a gente dialogava e a gente era muito junto. A gente entrava em uns embates bem complicados, mas ao mesmo tempo tava tudo certo, que era pensando mesmo na dança e pensando mesmo na educação. Mas foi muito bom. Foi muito bom.  Eu comecei em 2010 como educadora. Na verdade eu comecei em 2005, porque foi quando o professor Daniel lá do Instituto Criar me escolheu pra ser monitora da turma seguinte do Instituto Criar. Então assim, eu ficava ali na monitoria já como assistente de professor. Então ali já começou. Eu falei: “Nossa, é legal isso. Achei interessante. Esse negócio de dar aula é legal também”. E eu continuei a minha pesquisa em dança. Em 2010, eu entrei num site... Tinha um site de emprego, eu ficava entrando direto pra ver lá as possibilidades de trabalhar com dança e tal. E tinha uma divulgação lá do Eremim, eu falei: “Bom, vou mandar meu currículo”. Quem tava lá não era mais a Kika, já tinha mudado muitas pessoas, tinha um pessoal que eu não tinha tido tanto contato. Falei: “Bom, vou mandar. Eles vão ver lá que eu fiz um monte de cursos já no Eremim, tal, mas vamos ver como é”. E eu mandei. Eles me chamaram pra uma entrevista, e outras educadoras também, eu passei por um processo de seleção normal. Uns dias depois eles ligaram falando que eu tinha sido aprovada. Mas eu já tinha mostrado um projeto, já tinha elaborado uma estrutura de aula, não muito bonitinha, porque eu não tinha esse padrão, eu não tinha noção de como seria, eu fui ter um pouco mais de noção quando eu entrei no Eremim. O Adriano e a Márcia, que já eram assistentes de coordenação, na verdade eles eram os coordenadores, porque eles tocavam o Eremim, eles faziam lá o processo de formação e eles eram muito bons, eles são muito bons, então eles ajudavam pra caramba, explicavam e ensinavam. Então foi a partir de 2010 que eu comecei de fato a dar aula. Eu fiquei de 2010 a 2012 no Eremim.  Desde quando eu saí do Eremim, eu dou aula em escola, dentro da disciplina Artes. E está sendo um desafio muito legal, porque ainda existe o pensamento de que Artes é pintura e desenho somente, e chega uma professora que é formada em Dança e quer trazer um monte de coisa para o corpo. Mas está sendo uma experiência bem legal. Bem legal. Bem bacana.

O Criança Esperança, em 2012 eu tive um contato mais direto por conta do Eremim. Não foi dos melhores contatos, porque eu estava dando aula e o pessoal chegou pra gravar. E assim, interrompeu a aula que tava muito importante. Mas é esse contato. O que eu vejo é através da TV mesmo, nunca pesquisei a fundo, nunca fui atrás, e o contato mais direto foi em 2012, que foi quando o Eremim foi beneficiado pelo Criança Esperança e eles tinham que gravar, a instituição. Inclusive, eu dei entrevista e tal. Mas foi esse o contato mesmo. Pensando na trajetória, eu acredito que se fosse de outra maneira seria mais interessante. O que me incomoda é o fato da exposição, da exposição da necessidade e da dificuldade. Porque antes da necessidade e da dificuldade existem histórias e pessoas. Então às vezes isso acaba me incomodando um pouco, só a maneira. Talvez se fosse pensado de outra forma, se fosse usado outra estrutura e não como a gente conhece pela TV... Eu to falando a partir do que eu conheço na TV e do pouco contato que eu tive. Eu acho que seria muito mais significativo. Não sei, de repente outro tipo de parceria. Eu acho que assim, o Terceiro Setor, os projetos sociais são muito importantes, mas eu acho que o desafio mesmo da nossa sociedade é que eles não existam. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+