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História

Da Serra Pelada ao Jardim Filhos da Terra

História de: Clair Ramalho
Autor: Clair Ramalho
Publicado em: 17/01/2015

Sinopse

Deve ter alguém que tenha ouvido falar da saga da Serra Pelada. Não aquela da famosa corrida ao ouro no norte do Brasil. Essa é a história da Serra Pelada Paulistana. A minha história e de tantos os moradores deste lugar. Na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo, no início dos anos 80, nasciam os "Filhos da Terra". A corrida por moradia! Se não ouviu essa história, aqui está o convite.

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História completa

Quando era pequena, ouvia dos velhos moradores algumas passagens históricas da conquista desse morro. No meu imaginário infantil, essas passagens eram tão fantásticas que me pareciam verdadeiras epopeias. Então, com o passar do tempo, eu quis recontar o que ouvi.

 

O pessoal daqui é gente simples! A riqueza está em nossa origem e em quem somos. Construímos um patrimônio no alto do morro, carpindo o mato, limpando o terreno, martelando pregos em madeiras, colocando telhas de barro sobre a estrutura de paus, formando barracos.

 

Cada morador, ainda que não fosse muito escolarizado, escreveu a história desse lugar através da oralidade. Uma multiplicidade vozes sob uma arquitetura improvisada, no subir e descer das ladeiras, escadarias e becos.

 

Minha mãe também me contava, que o Jardim Filhos da Terra, a Serra Pelada, como ficou conhecido após a limpeza do mato, surgiu em um movimento de ocupação. Esse movimento foi iniciado pela igreja local na metade da década de 80, após a construção de um barraco à margem do córrego, abaixo da serra, para uma moça chamada Maria, vinda do nordeste com três filhos pequenos sem um lugar para moradia. A notícia desse fato se espalhou rapidamente e trouxe inúmeras Marias e Josés, com histórias parecidas.

 

Então, a igreja liderou a busca de terra e moradia. Um terreno foi encontrado, estava desocupado e sem uso, no topo do morro íngreme e sinuoso. A estratégia de abrigar quase mil famílias foi desenha em cartolinas brancas que receberam grafites e riscos com a divisão do terreno para cada família. Tudo estava organizado.

 

Há 30 anos, no cair da noite, a ladeira foi tomada por um longo tapete de pessoas. Era quase cinco mil! Estavam com tochas, foices, martelos e enxadas as mãos. Mulheres grávidas e crianças à frente do grupo, formando um cordão, para repreender confronto policial, caso houvesse. O restante do grupo viera depois. Os policiais não usaram seus revólveres, e nem a multidão usou suas foices. A ocupação foi pacífica, com reza, com canto e com a lua testemunhando essa chegada.

 

A Pracinha, lugar que preserva o verde de nossa origem, foi o primeiro lugar a ser ocupado. Depois formaram ruas estreitas, ao lado, barracos de madeira ligeiramente construídos. Surgiu a periferia! A informalidade urbana na metrópole paulistana. Nasceram os “Filhos da Terra”.

 

O tempo trouxe a evolução de nossas casas. Agora tijolo, cimento e laje. O bairro foi edificado e vive nas lembranças doces dos antigos moradores que viveram essa conquista. E, hoje, a história perpetua em suas vozes, nas vozes de seus filhos e nas de tantas outras crianças, que assim como eu cresceram e continuam contando, aqui, no alto do morro.

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