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História

Da rua para as redes

História de: Marcos Antônio Nascimento da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/06/2020

Sinopse

Infância na periferia de São Paulo. Filho de pais separados. Muitos irmãos. Cometeu infrações que o levaram a Febem. Lá teve acesso a educação e descobriu o que é cidadania. Apaixonou-se por informática. Mudança de objetivos. Transformou-se em um pai. Reflexões sobre família e educação.

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História completa

R - Certo. Meu nome é Marcos Antônio Nascimento da Silva, tenho 21 anos, nasci em 1983, moro no Capão Redondo, em um bairro chamado Jardim Souza. O nome do meu pai é Isac Antônio da Silva, ele é motoboy. O nome da minha mãe é Regiane Maria do Nascimento, ela é dona-de-casa. Eu conheço meus avós. A mãe da minha mãe mora comigo, a mãe do meu pai mora em Tatuí, interior de São Paulo. A mãe da minha avó mora em Pernambuco. São só esses os avós que eu conheço.

 

P1 - Você nasceu nesse mesmo bairro que você mora hoje?

 

R – É, nasci lá.

Ah, a minha infância foi assim bastante sofrida. Eu não tive o apoio dos meus pais, sabe? Meu pai foi preso, ficou oito anos preso. A minha mãe, assim que meu pai foi preso, minha mãe começou a se envolver com pessoas que não prestam, acabou se entregando às drogas e acabou abandonando eu e meus irmãos. E o que eu me lembro muito bem, como se fosse hoje, as coisas que a minha mãe fazia na frente dos meus irmãos. Ela usava droga, transava na frente dos meus irmãos. E eu, com apenas acho que 10 anos, via que aquilo ali não era certo, então eu não queria que meus irmãos vissem aquilo que a minha mãe estava fazendo. Então eu pegava os meus irmãos e levava para a rua para não ficar dentro de casa. Às vezes eu via a minha mãe drogada, usando droga dentro de casa, e aquilo mexia muito comigo. Eu não gostava que a minha mãe usasse aquelas drogas dentro de casa junto com os amigos.

 

P2 - E antes disso? Você lembra de alguma coisa da época que era sua mãe e seu pai, ou nunca teve essa época?

 

R - Não lembro não, meu pai e a minha mãe, não lembro não.

 

P2 - Antes da sua mãe começar a usar, como é que era?

 

R - Também não tenho muita lembrança. 

 

P2 - Você lembra mais dos 10 anos. Antes disso?

 

R - Antes disso não.

 

P2 - E, como é que era a vida no bairro?

 

Era legal. Assim, por mais que minha mãe tenha abandonado a gente, meu pai preso, era legal. O pessoal gosta bastante de mim, dos meus irmãos. Era tranqüilo. 

Cara, meu dia todo era soltando pipa! Durante o dia era soltando pipa, jogando bola, quebrar lâmpada junto com os amigos. Não sou santo, não era santo naquele tempo, era atentadinho também. Roubava garrafas assim prá comprar alguma coisa para casa, junto com os amigos. Porque tem bastante pessoas que não têm a vida mesmo que nem a minha, mas que teve mais ou menos assim, assim, com posso dizer para você? Não igual à minha, mas que quase...

O que eu aprontava, cara? Eu não sei se devo falar, mas. A gente ia em uma padaria e sempre um ficava distraindo o caixa, né, tipo: "Quanto está isso aqui?" Perguntando o preço enquanto um ia pegar os pacotes de bolacha e colocar debaixo da blusa. Isso é uma coisa que eu sei que não era certo, mas eu achava super legal porque tinha um perigo gostoso, sabe? Aí a gente corria e, às vezes, o dono da padaria pegava a gente para lavar pratos, cara. Lavar pratos e banheiro. 

Pagava. De qualquer jeito você tinha que pagar. Mas era legal, gostoso. Eu brincava bastante de esconde-esconde, ficava conversando, né? O que é que você vai ser mais para frente? Um falava assim: "Ah, não sei. Eu vou ter uma agência de carro." O outro falava: "Não sei, eu vou estudar bastante," e outros falavam em roubar, em ter uma boca de fumo. Então, ali eu fui aprendendo, nem pelo meu pai nem pela minha mãe, mas pela rua. A rua me ensinou bastante o certo e o errado. Então, eu posso dizer que quem me ensinou a sobreviver foi a rua. Pelo fato de coisas ruins e coisas boas.

Bom, naquele tempo, onde eu moro, o bairro Jardim Souza, tem um nome lá chamado: "O Buracão." É um buraco. E eu moro nesse buraco. Antigamente lá tinha um córrego no meio. E a gente ficava jogando bolinha de gude perto desse córrego. Tinha uns pés de bananeira também aí perto desse córrego. E a gente ficava ali jogando bolinha de gude, ficava soltando pipa também, às vezes, no Buracão. E hoje está totalmente diferente, está entendendo, assim, de antes e agora. Porque agora está tudo com asfalto, as casas estão mais bonitas. Não são aquelas coisas maravilhosas, mas está mais bonita. Porque antigamente era barraco de tábua, né? Agora está de bloco. Então é muito raro você ver uma casa de tábua. 

Escola, cara, escola foi assim, com a minha mãe eu não tinha muito interesse de estudar não. Eu só queria saber de rua. Cabulava, batia nas professoras, furava as professoras com lápis. Hoje eu até tenho acesso a essa professora, que eu fazia isso com ela. Mas eu não me interessava naquele tempo em escola. Então prá mim, escola, eu estou estudando agora. Eu estou sabendo de tudo agora. 

A escola era bastante legal. Era no João de Deus Cardoso de Melo, nome do colégio. Eu estudava de manhã, das sete ao meio-dia. Chegava de manhãzinha e todo mundo com uniforme, sabe, da escola. E só eu que não tinha, não tinha condições de comprar o uniforme. E a diretora sempre ficava no pé da minha mãe, né, para a minha mãe comprar. Só que na verdade a minha mãe dormia em casa hoje, aí voltava, depois sumia, ficava três, quatro dias fora, aí voltava. Então era difícil encontrar a minha mãe em casa. Mas em questão do colégio, os amigos assim, era muito legal. Sinto até falta dos amigos daquele tempo. Muitos já morreram. Uns estão presos outros estão fora do bairro. Mas o colégio, muito gostoso. A tia da merenda. Nossa! A hora que eu gostava mesmo era a hora da merenda.

 Ah, sim. Bom, quanto eu estava com a minha mãe eu fiz até a quarta série. Repeti três anos, duas na segunda série e das outras não me lembro se foi na quarta ou na terceira. Mas foi mais ou menos por aí. Mas eu aprendi a ler e escrever. Não assim, 100 %, mas o meu nome, ler coisas nas ruas, isso sim.

 

P1 - Você terminou a quarta série com que idade então?

 

R - Acho que com uns doze, né? doze ou treze. Uma coisa assim.

 

É. Antes de morar com a minha mãe, acho que com três anos a minha avó pegou eu para criar. Aí ela me levou para a casa dela. Aí meu avô faleceu. Aí a minha avó ficou meio abalada com a morte do marido e  me deixou com a minha mãe. Aí, com esse tempo a minha mãe foi...

Ah, era uma casa enorme. Ficava ali no Borba Gato. Tinha uma piscina na casa, tinha um quarto para mim, a sala, a cozinha, um quintal enorme. Tinha muito brinquedo, muito brinquedo mesmo. Me lembro do meu avô. Meu avô me adorava. Tinha um caminhão enorme. Ele colocava eu em cima do caminhão e fica empurrando. Lembro do que mais? Lembro a minha mãe indo me visitar na casa dos meu avós. Lembro disso. Lembro de uma banheira de hidromassagem. Lembro disso também.

Era do patrão do meu avô. Ele era tipo caseiro. Aí ele ficava na casa.

Nossa, era muito bom! Às vezes eu paro e penso assim nas coisas boas que eu passei com o meu avô, né? Que Deus o tenha! Com a minha avó também. Tem bastante coisas boas aí. Mas a metade da minha vida foi só sofrimento, cara.

 

P1 - Mas você morou até que idade com a suas avó?

R - Ah, uns três ou quatro anos. 

P1 - Aí você volta para morar com a sua mãe?

Voltei a morar com a minha e mãe e fiquei até uns dez anos, acho, dez anos, por aí. 

Às vezes, para falar a verdade, a gente não tinha nem o que comer. Eu e meus irmãos comíamos farinha com açúcar. E às vezes saía de porta em porta pedindo um pouquinho de arroz, um pouquinho de feijão, um ovo para fritar. Às vezes, não tinha nem óleo para fritar o ovo. Fritava sem óleo mesmo e comia. Que nem eu estava falando para você, eu roubava garrafa para comprar coisas para dentro de casa. Às vezes, a minha barriga doía tanto assim, que eu chorava de fome. Comia uns matos, umas bolinhas pretas que tinha no mato. Eu comia aquilo ali para ver se matava a minha fome. O nome dessa frutinha é Maria Preta, ou alguma coisa assim. É uma frutinha bem pequenininha e eu comia aquilo. Às vezes, eu ia na padaria, roubava um pacote de bolacha e dava para a minha irmã, para dar para os meus irmãos. Porque era a minha irmã, o Rodrigo, que mora hoje no Rio de Janeiro e o Maurício, que mora comigo hoje. Então eu dava bolacha para eles comerem. A minha irmã chegava para mim e falava assim: "Marquinhos, você não vai comer?" E eu dizia: "Não, eu já comi. Comi um pacote de bolacha inteirinho!" Mas na verdade eu não tinha comido nada. Só porque eu acho que eles estavam passando mais necessidade do que eu. Estavam dentro de casa, sozinhos. E eu estava me virando na rua. Era difícil.

Era só eu e meus irmãos. Ficamos quatro meses sem a mãe. Eu dormia do lado de fora. Assim, a minha avó arrumou outro cara, começou a morar em outra rua. E eu começava a dormir fora de casa e meus irmãos dentro de casa. Para você ver, eu lembro até da fechadura de casa, era uma colher. Uma colher normal que fechava a porta. Era a única coisa que fechava a porta. E eu dormia do lado de fora para ninguém entrar dentro de casa e mexer com a gente, querer fazer alguma maldade com a gente.

É, eu ficava lá. Me lembro da mesa, a mesa de tábua. Eu dormia em cima dela.

Ah, passei fome, foi traficante atrás da minha mãe. Ele estava até com um saco de pãozinho lá. Acho que tinha seis pãezinhos. E ele chegou assim e: "Cadê a sua mãe?" E eu falei assim: "Minha mãe não está aqui não, já tem um bom tempo que a minha mãe saiu daqui." "Ah é? E o que é que vocês estão fazendo?" "Estamos comendo farinha com açúcar." "Por quê, não tem comida não?" "Não, não tem não." Aí ele falou: "Toma esse pãozinho aqui para vocês." Acho que ele estava levando para a casa dele. Aí ele falou assim: "Fala para ela que o fulano veio aqui atrás dela." E eu falei: "Está bom, eu falo para ela." Depois que eu fiquei sabendo que era o matador. 

Aí foi acontecendo assim, depois desses quatro meses apareceu a mãe do meu pai e a mãe da minha mãe, pegaram meus irmãos, separaram. Tipo, a Cris e Rodrigo vão morar com os pais, porque o meu pai é diferente do dela. Aí mandaram o Rodrigo e a Cris para o pai deles. Eu fiquei com a mãe da minha mãe e o Maurício ficou com a mãe do meu pai. E foi cada um para o seu lado. Aí, passou um tempo, acho que uns três anos, aí o pai da Cris e do Rodrigo morreu. Aí, vieram morar com a gente de novo. Aí, passou um ano e eles foram para o Rio de Janeiro. Aí, o Maurício, que estava com a mãe do meu pai, não quis mais ficar com ela, quis ficar comigo. Aí, eu falei: "Ah, fica aqui comigo, né?". Aí depois a Cris e o Rodrigo vieram passar um tempo aqui com a gente. Passaram, acho que, quatro meses com a gente, aí voltaram para o Rio de novo. E o Maurício ficou com a gente aí nesse tempo, está até hoje. E o meu pai saiu da cadeia. Prometeu o céu e o mundo, está entendendo, falando que quando saísse da cadeia ia pegar a gente, eu e meus três irmãos, ia morar junto. Mas ele não cumpriu com isso, está entendendo? Ele casou de novo.

Meu pai é o cara que não tem palavra. E isso eu falo na cara dele. Meu pai é um cara que não tem palavra, mas ele é legal, está entendendo? Conversa, dá conselho, apesar que o conselho dele também não é nada, está entendendo? Porque quem é ele prá dar conselho para mim? É um cara sofrido também. Teve os erros dele, mas é um cara sofrido também.

É, ele estava lá na rebelião do Carandiru. Acho que foi em 1992, não foi isso? Aquele dia eu me lembro como se fosse hoje. Estava tendo a maior polêmica assim na televisão. E em casa a televisão tinha queimado. Então só pegava o som. Só que transmitia o som, a televisão. Aí, eu vi assim o repórter falando: "Nossa, teve vários assassinatos aqui na cadeia do Carandiru, né?". Aí, eu vi um cara falando, parecido com a voz do meu pai. Aí eu fui para a casa da vizinha. Aí, quando eu cheguei lá estava o meu pai na tela da televisão. Ah, eu desmaiei. Eu desmaiei quando eu vi o meu pai pela televisão. Aí, passaram, acho que, duas semanas e eu fui visitá-lo na cadeia. E comecei a chorar, abraçar ele. Mas meu pai, ele tem os defeitos dele, mas eu gosto dele. Acho que se ele não tivesse ido preso, acho que nada disso que aconteceu com a minha mãe, acho que não teria acontecido. Mas tranquilo, é o meu pai.

Casou de novo, está com outra mulher. É difícil vê-lo, eu vejo assim um mês, dois meses.

É. Ele tem mais um rebanho aí. 

 

P2 - Você tem contato com eles?

 

R - Tenho. Eu vou vê-los. Um mora no São Luís, um mora no Nakamura. Não é porque é só por parte de pai que eu não considero eles como irmãos. Considero sim todos como irmãos. 

 

Indo para a Febem, vamos lá. Ah, foi dia 27 de fevereiro. Foi na...

De 2001. Ah, foi acho que na segunda-feira. Não tenho certeza. Eu tinha brigado com a minha mulher. Minha mulher estava grávida de oito meses e eu estava fazendo bico nessa firminha. Aí então a minha mulher.... A firminha, tipo...

Ah, eu tinha dezessete anos. Ela tinha quinze, quinze para dezesseis. 

É a Patrícia, minha esposa. Aí, a gente começou a brigar e aí ela chegou em mim e falou assim: "É, até agora você não comprou nada para a sua filha, a sua filha vai vir nua, não vai ter o que vestir quando vir aqui da barriga, ela apontou." Aí, aquilo começou a ficar na minha cabeça, a minha sogra também começou a falar na minha orelha. E eu assim: "Nossa mano, o que é que eu vou fazer?" E o dinheiro que eu ganhava na firminha, eu dava para a minha avó, que estava com a minha irmã, o meu irmão e com o Peru, que é o apelido do meu irmão, o Maurício. Porque os meus irmãos estavam passando uma temporada lá em casa. E eu dava o dinheiro para ela e ficava com um pouquinho. Aí, a Patrícia começou a falar, e eu fiquei assim com a cabeça atormentada sabe? Aí eu falei assim: "Eu vou ter que fazer o que eu fazia antigamente." Aí, comecei a conversar com um amigo meu, o Manassés, que era um cara que eu só aprontava com ele. Tudo o que eu tinha para aprontar eu aprontava com ele, com mais ninguém. Aí, ele chegou para mim e falou assim: "Vamos roubar um carro?" Aí, eu falei assim: "Que carro?" Aí, ele falou assim: "Uma Sprinter".  Aí, eu falei: " Mas para que essa Sprinter?" Aí, ele falou assim: "Ah, é para um cara ali, que está precisando porque ele deu perda total no carro dele, então ele vai precisar de outra Kombi." Aí, eu falei assim: "Quanto ele vai dar?" "Ele vai dar R$ 2.300." Aí, eu falei: "Então vamos, e como é que a gente vai repartir esse dinheiro?" Ele falou: "R$ 1.300 para você e mil para mim." Aí, a gente foi para o Largo do Batata. Chegamos lá, ficamos escolhendo qual carro ia pegar. Aí, eu falei assim: "Nossa, eu quero aquele!" Aí, ele falou assim: "Aquele não, aquele é feio!" E ele armado também. Aí, eu falei assim: "O próximo, nós pegamos!" Aí, encostou uma lotação lá. Aí, entramos com passageiro, ele sentou no banco da frente e eu sentei atrás, bem atrás. Aí, a gente andou assim um certo percurso com as vítimas, com o motorista, a gente não tinha dado a voz de assalto. Aí, o Manassés falou assim: "Olha Marquinhos, eu vou dar a voz de assalto e você rende os passageiros." Aí, eu falei: "Ah, tranqüilo, né?" Aí, ele ficou olhando assim para mim assim, tipo olhando para trás e eu falei assim: "E aí, faz alguma coisa, né?" Aí, ele: "Vai você, né?" Tipo assim, eu via nos lábios dele, ele mandando eu fazer, né? Aí, eu falei: "Ah, tudo bem." Aí, eu peguei a arma, levantei e falei: "Isso aqui é um assalto! Eu não quero nada de ninguém, só quero o carro, não quero machucar ninguém!" E tinha, acho que, dezesseis pessoas naquele lá, no carro, né? Aí o Manassés já ficou desesperado, não sei o que aconteceu com o Manassés, bateu o desespero nele e ele falou assim: "Vai maluco.” Falou com o motorista: “Entra aqui, entra ali, entra aqui." Teve uma hora que ele estava mandando até o motorista entrar em contramão. E eu falei: "Você está louco?" Aí, chegou um certo ponto, acho que já estava no Alto da Lapa. Aí, chegou no posto de gasolina assim, o farol fechou, o motorista olhou para a cara do Manassés assim, olhou para trás, né, porque eu vi ele olhando no retrovisor. E ele desceu assim gritando que nem um louco gritando: "Ladrão!" Aí, eu já peguei a arma e falei: "Eu vou atirar na cabeça dele, né?" Aí o Manassés, chamando o cara para dentro: "Calma, entra aqui para dentro, né?" E a cobradora era mulher do cara. E eu comecei a olhar assim e falei: "Nossa, esse cara não dá uma valor na mulher dele, né?" Aí, a mulher começou a olhar para mim assim com medo, sabe, chega suava frio. Aí, eu ficava assim: “Meu Deus, o que é que eu faço agora?” Aí, eu falei assim: "Não vou fazer nada não." Aí tinha um senhor do meu lado que falou assim: “Toma esse um real e vai embora, né? Corre!” “Não tio, eu não quero o seu dinheiro não!” Ele falou assim: "Vai embora que aqui vai chover de polícia." Aí, eu falei assim: "Puta mano, é mesmo". Aí, dali a pouco, o Manassés desceu do carro e me deixou dentro do carro com os passageiros, né? E os passageiros todos dentro do carro, olhando para mim. E eu olhando também. E os passageiros todos desceram correndo e ficou só o tiozinho do meu lado, né? “Meu filho, vai embora!” “Não, tiozinho, eu vou embora sim! Fica com Deus.” Aí, eu fui embora, né? Tirei a camiseta, enrolei o revólver na mão, na blusa. Aí, o Manassés foi para um lado e eu para o outro. Acho que depois de meia hora eu encontrei com o Manassés correndo lá na rua de baixo, lá no Alto da Lapa. Aí, eu corri atrás do Manassés. Aí, eu falei: "Calma! Calma Manassés." E ele: "Poxa mano, desculpa aí de ter deixado você lá. É que o cara saiu do carro gritando pega ladrão, aí eu tive que sair correndo." Eu falei: “Não, firmeza, vamos embora.” Aí, o Manassés falou assim: "Ah, mas de mão vazia eu não vou não!" E eu falei: "Ah, de mão vazia, eu também não quero ir de mão vazia não!" Aí, ele falou assim: "Ah, então vamos roubar aquele carro ali." E tinha um tiozinho em um gol. Aí, eu falei assim: "Vamos naquele, né?" Na hora que a gente estava para enquadrar, lá vem o carro da polícia, num carro Ipanema. Aí, enquadraram a gente, perguntaram a minha idade, eu falei que era menor, tinha dezessete anos. Aí, o Manassés já foi beijando o chão já, porque a polícia deu umas coronhadas nele. Aí fui para a delegacia, na 7ª DP. As vítimas já estavam lá na delegacia. Aí,  eu fui para a UAI e da UAI fui prá UAP e da UAP fui para a Febem de Tatuapé.

 

Bom, eu conheci a Patrícia e ela namorava com um amigo meu chamado Baianinho. Esse Baianinho viajou, foi para a Bahia. Aí, na brincadeira assim, sabe, ele falou: "Olha Marquinhos, eu vou mas você cuida dela!" E eu falei: "Não, pode deixar, quando você voltar ela vai estar com dois filhos meus." Mas assim, sem interesse nenhum, na brincadeira. Aí, conheci a Patrícia. Dali então o Baianinho viajou, né, e comecei a conversar com a Patrícia. Eu estudava no mesmo colégio que ela. E comecei a gostar dela. Aí, eu cheguei nela e perguntei se ela queria namorar comigo. Aí a gente começou a namorar escondido. Porque ela era daquelas meninas que só andavam com o pai e com a mãe, sabe? Aquelas meninas mimadas que só andavam com o pai e com a mãe? Aí, tudo bem. Aí, a mãe dela não gostava de mim nem que a vaca tussa. Aí, ela falou assim para a Patrícia: "Patrícia, você não está namorando com aquele menino, aquele maloqueiro não, né?" Aí, a Patrícia disse: "Que mãe, repara! A gente só é amigo, né?" Amigo que nada. Aí, a gente começou a namorar escondido. Aí, tinha um cara que morava embaixo da casa dela, o Zé. Foi lá e falou para o pai dela, para o pai da Patrícia que a gente estava namorando. Aí, a Patrícia falou prá mim, aí, eu falei: "Ah é, então espera aí que eu vou mostrar para o Zé quem eu sou de verdade!" Aí, o Alvino, que é o pai da Patrícia desceu da casa dele com o lixo e eu estava com uns moleques, sabe? Uns maloqueiros, uns trombadinhas. Aí, eu falei assim: "Eu vou chegar nele é agora!" E assim, soando frio, sabe? E eu falei: "Alvino, vem cá!" E ele: "Fala!" "Eu estou namorando com a Patrícia." E ele: "Como é que você toma uma atitude dessa prá falar para mim que está namorando com a minha filha?" Eu falei: "Olha, eu não sei. Mas é melhor você saber da minha boca do que da boca dos outros, né?" E ele falou assim: "Amanhã, eu quero você em casa cedinho." Cedinho era o quê? Umas dez horas. dz horas eu estava lá. Pegou, eu, a Patrícia, a mãe da Patrícia e o Alvino na mesa. “O que é que você tem para oferecer para a minha filha?” Aí, eu falei assim: "Ah, não sei, eu vou arrumar um serviço e eu vejo o que é que eu posso dar para ela." "Ah, você vai ver o que você pode dar para ela?" Eu falei: "No momento eu só estou estudando!" Mas eu nem ia para a escola. Ia só para ficar com a Patrícia. Aí, o Alvino falou assim: "Ah é? E seu pai e sua mãe, cadê?" Eu falei assim: "Não sei não!" Meu pai já tinha saído já da cadeia, minha mãe continuou no mesmo rumo. Aí, então a gente começou a namorar. Aí, com o tempo, a Patrícia ficou grávida, tive que tomar essa atitude de chegar no Alvino e falar que a Patrícia estava grávida. E ele ficou horrorizado, ficou pasmo! E ele falou assim: "Agora vocês vão casar. Agora eu não quero saber de nada. Vocês vão para a igreja amanhã!" Aí, eu falei assim: "Tudo bem, né?" Aí, ele arrumou um cômodo que tinha em cima da casa dele. Aí, a gente começou a morar junto. Aí, eu passei um certo tempo com ele e fui preso.

Bom...

Ah, a gente saía bastante para uma avenida que tem lá. Robert Kennedy, você conhece? Tem uma avenida lá que chama Atlântica. Então, ali tinha vários pagodes, várias festinhas e eu ia direto com os moleques para lá. Quando eu não ia para lá eu ficava na rua mesmo. Às vezes até traficando. Ficava traficando e com a Patrícia. Pegava em muitas armas, muitas armas eu pegava, nunca matei ninguém. Mas os caras mais velhos, assim, mais de idade me mandaram pegar arma em tal lugar para eles, falavam se eu queria traficar para eles. Um certo tempo eu fui falando não. Um dia ou dois eu fico, mas permanente não. Aí um tempo eu vi que estava precisando e eu fiquei traficando para eles. Um mês.

Ganhava R$ 250 reais por semana. Por semana. Toda segunda-feira eu recebia. Aí, a Patrícia falou para mim escolher ou aquela vidinha que eu estava levando ou ela. Aí, eu preferi ela. Aí, eu larguei de tudo. E foi isso que acontece.

É. Aí eu comecei a trabalhar nessa firma. De fazer peça.

Ah, eu fazia umas peças assim, dobrava as peças, puxava...

Era uma firma de fazer alarme de roupa. Era uma firminha que prestava serviço para outra empresa. Então a empresa comprava material da gente. E ele pedia tanto e a gente tinha que fazer tanto. E eu, por dia, fazia 10.000  peças. Das oito da manhã até às cinco da tarde.

Era por comissão. Então acho que 10.000 eram dois reais. 100 reais. 100 reais por mês. Eu tirava isso daí.

Trabalho. Meus dedos chegavam a ficar pretos de ficar dobrando peça. Eu chegava em casa, aí a Patrícia estava enjoada, sempre vomitando. Mas foi um tempo legal na firminha.

Na verdade eu trabalhei dois períodos nela. Trabalhei antes de aprontar e depois de aprontar. Na firminha, eu fiquei de 1999 à 2000, uma coisa assim. Aí eu saí, aí comecei a aprontar. Aí eu voltei de novo para ela. O patrão me aceitou de novo. Aí eu acho que fiquei uns cinco meses, cinco a seis meses. Aí eu comecei a ficar com a Patrícia, morar na mesma casa com a Patrícia. Já tinha saído de casa. Aí ficou só a minha avó e meus irmãos lá. Foi o que aconteceu.

 

P2 - E na Febem? Como foi a sua trajetória lá dentro?

 

R - Tatuapé você fala? Ou desde....

 

P2 - Todas, né?

 

Então vamos lá. Da pior, a UAI. Cara, a UAI foi o pior lugar para mim. Fica no Brás. Em frente à estação. Unidade, esqueci agora. Mas é, vamos dizer, o lugarzinho onde o diabo mora. Aí, foi o pior lugar que eu passei na minha vida. Você não sabe o que é ficar sentado o dia inteiro no chão. Sem poder conversar com ninguém, olhar para ninguém. Se você pedir para usar o banheiro você apanhava. Para você ter uma idéia, eu fiquei sete dias sem fazer nada. Sete dias e eu comia. Dava vontade assim e eu segurava assim, aí nada. Não usava mesmo. Para não apanhar. Dia de visita, eu fiquei uma semana lá, dez dias, 11 dias lá. E dia de visita era 15 minutos. Minha mãe saía lá do Capão para o Brás e passava 15 minutos comigo. Aí graças a Deus eu saí da UAI e fui para a UAP. 

Não, a Patrícia não podia ir me visitar nesse lugar. Nem na UAI nem na UAP. Aí quando chegou na UAP foi assim: "Nossa eu estou em casa!". Já tinha a minha própria cama, já tinha a minha própria escova, saboneteira, toalha. Na UAI, nada disso. Você dormia junto com os meninos no colchão de solteiro. Você dormia em dois. Hoje já está bem mais pior. Mas dormia em valete. Você quando acordava não tinha toalha para se secar, você se secava com o lençol que você dormiu. Sabonete era aquele sabonete de motel, sabe? Aquele sabonete pequenininho? Aí eu fui para a UAP e falei: "Meu Deus, eu estou em casa!". Banho de cinco minutos, tinha atividade para fazer.

 

Tinha informática lá dentro. Só que eu não sei quem é que estava patrocinando lá dentro. Tinha bijuteria...

É, ensinava. Tinha o que mais, tinha informática lá dentro. Tinha um outro material que se faz com jornal, faz vaso com jornal. Fazer, é biju que se fala? É biscuit, ensinava a fazer aquilo também. Tinha futebol também lá em cima. 

Participei de bijuteria e na informática. Assim, mas na informática, eu ia assim mas não mexia no computador. Eu ficava só olhando para o computador. 

Aí eu fui para o Tatuapé. E ali eu vi a minha filha com 28 dias de nascida. Fui ver a minha filha.

No começo assim, parecia um inferno. Tanto que: "Ai meu Deus, onde eu estou. Me encontra?" E aqueles menores assim, iam para cima de mim, falando que eu ia morrer, dando uns psicológicos para mim, para ver se eu ia tomar alguma atitude. E não tomei, né? Na Febem, lá no Tatuapé era até bem melhor que a UAI e a UIP, mas tranquilo, sabe? Lá você ficava mais leve, os funcionários não ficavam no pé. Você podia ir ao banheiro a hora que você quisesse. Sabe, você não precisava pedir licença para ninguém. Dentro na Unidade eu falo. Dentro da Unidade você estava em casa. 

A nove? A nove é uma Unidade assim melhor do que todas lá dentro do Tatuapé. Na nove é assim, o menor fica mais livre, quem arruma os quartos é a gente mesmo, quem limpava era a gente mesmo. A gente não aceita (suinagem?), sabe? Suíno. Aquele porco, sabe? Que joga papel no chão, fica andando descalço no quarto, cueca pendurada na cama. Isso a gente não aceitava. E se isso acontecia a gente cobrava. A gente batia neles, para eles nunca mais fazerem aquilo. E se ele tornasse a fazer, a gente batia de novo. Às vezes até pior. 

O quarto era um corredor assim enorme. Acho que tinha 40 beliches. Não me recordo, não me lembro muito bem. No quarto grande tinha umas 40 beliches e no quarto pequeno 15. Eu era do quarto pequeno. Eram sete chuveiros, água quente, limpo. Porque a gente, como eu te falei, não aceita (suinagem?). (Suinagem?) que eu falo é sujeira. Dia de visita a gente não podia olhar para a visita do amigo, porque fala que a gente estava olhando com maldade, tipo: “Nossa a irmã do cara é bonita.” Então isso a gente não aceita. Então, para esperar visita ficava na sala de refeitório, esperando a visita chegar. Mas assim, tinham várias regras lá dentro. A gente respeitava muito funcionário lá dentro, principalmente mulher. E dia de domingo, os funcionários compravam Coca, para gente jogar disputando a Coca. Era super gostoso. Os tempos bons. [Pausa]

Tinha. Tinham várias atividades. Tinha fotografia, revelação, informática. Desmontar computador e montar de novo. Tinha oficina de mecânica. Tinha digitação também. Tinha o que mais? Tinha culinária, tinham vários cursos. 

 

P2 - E qual foi a primeira vez que você ouviu falar da EIC?

 

Foi lá na Febem mesmo. A Dona Marlene que é, era a diretora da Unidade falou assim: "Aqui tem umas pessoas legais que estão doando os computadores para a gente aprender a mexer." Aí, eu perguntei para ela: Quem são essas pessoas?" "Ah, umas pessoas que trabalham lá no CDI." "CDI? O que é que é CDI?" " Ah, e tem os professores voluntários da Price? Aí eu falei para ela: "O que é que é Price?" "Ah, é uma empresa enorme que tem aqui em São Paulo. E essas pessoas estão doando o micro." Eu falei: "Ah tá." E aí foi onde eu fui aprender a mexer. Aí, fiquei sabendo que o CDI estava na Febem propondo ajudar a gente, né?

Meu primeiro dia? Ah, foi uma segunda-feira de manhã. Eu estava sentado olhando para a Unidade mesmo. Aí a Dona Marlene chegou prá mim assim e: "Marcos, você quer fazer algum curso?" Aí eu falei assim: "Que curso?" Aí ela falou: "De informática, né?" Aí eu falei assim: "Ah, Dona Marlene, mexer naquele negócio ali vai ser um bicho de sete cabeças, né?" "Não, é facinho, tem uns professores lá que ensinam." Aí, eu pensei assim duas vezes antes de fazer. Aí, eu falei: "Ah, vamos ver aí como é que é, né?" Aí, ela falou assim: "Então vamos agora, né?" Eu falei: "Agora? Então deixa eu ir lá colocar uma calça, um tênis, né?" Aí, ela falou: "Então, vai lá rápido." Daí eu cheguei e tinha outros menos lá dentro já da sala de computação. Aí, eu vi o meu lugarzinho lá e falei: "Bom, aquele lugar é o meu, né? O único que está reservado é o meu." Aí, o professor já até me conhecia. Eu nunca vi o professor na minha vida e ele: "Ô Marcos, entra aí, fica a vontade!". Aí, eu falei para ele assim: "O que é que você quer que eu faça aqui, que botão você quer que eu aperte, né?" Ele falou: "Calma, não é assim não! Liga o computador." Aí, liguei. Aí, ele falou assim: "Pega nesse negócio aqui chamado mouse." Eu falei: "Isso aqui é mouse." Ele falou: "Isso aqui é teclado." Aí ele falou assim: "Nós vamos fazer um desenho." Aí, a gente começou a fazer um desenho lá. Aí, ele falou assim: "E aí, Marcos, muito difícil?" Eu falei: "Ah, para um primeiro dia está até fácil, né?" Aí, ele falou: "Agora você vai pegar as manhas". Aí, ele falou assim: "Olha, dia de sexta-feira, ou quinta-feira você trás uma carta para digitar aqui." Aí, eu falei: "Ah, tudo bem." Aí, eu fui lá e fiz três cartas e consegui digitar só a metade de uma. As duas outras cartas quem digitou foi o professor. Ele falou assim: "Nossa, você fez bastante carta, né?" "Ah, você falou que podia trazer". Aí, coloquei desenhinho, sabe? Coração, umas rosas para mandar para a minha mulher. Foi muito gostoso.

Era todo dia. Aula todo dia. De segunda a sexta. 

Quantas horas? Acho que era uma hora. Uma hora. Porque lá tinha escola também, né? E eu fazia escola a tarde.

A primeira coisa? Acentuar as letras. Foi a primeira coisa que eu aprendi. 

Ah, eu perguntei para o professor assim: "Professor, como é que coloca um acento em uma palavra, né?" ele falou assim: "você aperta o (if, ift…?)" Hífen. Você aperta o hífen. E aperta não aquele botão, ele falou o nome do botão mas eu não me lembro agora. Aí, eu falei: "Assim?" E ele falou: "Assim mesmo." Daí quando eu apertei saiu um monte de letras assim, sabe, que eu deixei apertado. Aí, eu falei assim: "Professor, apareceu uma pá de letra." Aí, ele falou assim: "É porque você tem que apertar e soltar, né?" Aí, eu falei assim: "Ah, tá." Aí, eu fui lá e apertei uma vez só e apareceu a palavra acentuada. Foi até o meu nome.

 

P2 - Como é que eram as aulas?

 

R - As aulas? Era muito gostoso cara, muito gostoso mesmo. Quando acordava assim você não via a hora de praticar a aula. E os professores incentivaram assim a gente, “Não, não desanima não.” Porque tinham uns menores que ficavam lá querendo dormir. E eu sempre ali, sabe? Empenhado no computador. Aí, chegava no final da aula e tinha um lanche, né, que os professores davam para a gente. Era um pãozinho com mortadela e queijo e um suco, né? E aí, a gente ficava conversando depois da aula. Ficava conversando, como que a gente estava, né? Como que está em casa. E eu sempre andava com a fotinha da minha filha, três por quatro. E os professores sempre super legais. Ensinavam muito bem. Uma paciência que eles têm com a gente. Tinham uns moleques mais folgados, mais alterados, sabe? Então tem que ter muita paciência.

Pegaram vários meninos de várias Unidades, né? E eu fui o representando, bem dizer, da nove. Tinha outro representante de outra Unidade e então, “Vamos ver como vai ser.” E eu fui a primeira turma. Aí viu que dava certo, né? E eles começaram a fazer aquele trabalho deles e tem até hoje na Febem do Tatuapé. 

Windows, acho que PowerPoint. Ensinavam, puxa, eu não lembro o nome do programa que eles ensinavam. Mas ensinaram bastante coisa. Todo dia tinha uma coisa diferente. 

Era chegar e: "Bom dia professor, Bom dia professora, me dá uma licença aqui." Aí já tomava já posse do seu micro e já ligava, porque já sabia as manhãs. Aí, já perguntava para o professor: "Posso mexer aqui?" Tinha até um jogo do baralho. E quando acabava tudo, ficava jogando um pouquinho, antes do funcionário vir, pegar a gente e levar para a Unidade. Era o que acontecia.

Não, era para todo mundo. O que eu estava aprendendo, era para todos. 

Cada um com o seu computador.

 

P1 - E qual eram os temas com que vocês trabalhavam?

 

R - Temas?

 

É. Tinham os programas, né? Vocês aprenderam a mexer nos programas. E os temas. Era para escrever carta...

Era escrever carta, a digitar. E eles falavam que para a gente aprender mesmo a gente tinha que usar todos os dedos. Para a gente pegar a manha legal. E não ficar com o dedo assim, sabe? E ele falou que o começo é assim mesmo, mas que o certo é a gente usar todos os dedos. Ah, o que mais eles disseram? Ah, cidadania, aprendi na Febem, cidadania. 

Os assuntos, o professor perguntava assim para mim: "O que é que é cidadania?" "Não, em primeiro lugar, me explica o que é cidadania, porque eu não sei o que é cidadania." "Cidadania é você ajudar o próximo, a preservar as árvores, a não jogar papel no chão, a não maltratar os animais." Aí, eu disse: "Agora sim!" Aí, ele quis escrever um assunto de cidadania. "Fala para mim o que é que você sabe sobre cidadania." Aí, eu fiz até um livrinho pequenininho. Acho que até tenho hoje em casa. E eu escrevi assim: Não jogar o lixo não chão e sim jogar o lixo no lixo. Eu escrevi essa pequena frase. E aí foi para o caderninho. Mas o professor me ensinou bastante coisa sobre cidadania. Principalmente a respeitar o próximo. E isso eu não tiro da cabeça.

A gente fez um jornal também. Sobre qualquer coisa eu a gente quisesse. Eu tenho esse jornal também. 

Foi o professor. O professor falou assim: "Vamos fazer um jornalzinho, vai? O Jornal da Febem." Ele batizou o nome do jornal. O Jornalzinho da Febem. Aí, eu falei: "Mas professor, como é que é?" Ele disse: "O que você quiser." Aí, eu falei: "Qualquer coisa?" E ele falou assim: "É!" Aí, eu parei e pensei, e: “Vou escrever o meu dia-a-dia aqui da Febem.” Aí, eu escrevi o meu dia-a-dia. Só falava em comer. Porque eu comia acho que cinco vezes por dia. Aí, eu escrevi no jornal o que eu fazia na Febem: acordava de manhã, tomava café, escovava os dentes, ia para os cursos, dos cursos ia almoçar, de almoçar ia escovar os dentes para ir para e escola, da escola, quando voltava, tinha o café da tarde, aí, do café da tarde tinha a janta, que era às sete horas, depois da janta tinha o café da noite, que era às nove horas. Dali então eu ia escrever carta, depois das nove, ia escrever carta, ia fazer algum trabalho, ia assistir televisão, ia conversar com os amigos, lá.

 

P2 - E aí, a Febem estava em uma fase tranqüila.

 

R – Estava, tranqüila.

 

Peguei duas rebeliões. Assim, os menores pensavam assim, tipo, “Não vamos para o lado de lá”. Porque se for pro lado de lá, os funcionários vão quebrar tudo. Tipo, a gente vai estar lá, eles vão querer quebrar tudo.Tipo, perto da EIC, que tinha computadores, tinha os cursos de fotografia. Então, sempre que tinha rebelião os menores não iam pra lá. Iam sempre para o lado da avenida. 

 

P2 - Para preservar...

Aquela parte. Porque sempre que tinha rebelião, quando os funcionários entravam, quebravam tudo.

Tipo, uns me criticavam e outros me apoiavam. Tipo, uns falavam assim: "Porra." Me chamavam de Santo Amaro, né, pela região "Santo Amaro, você vai fazer esses cursos, perder o seu tempo?" "Ah, é melhor do que ficar aqui parado, né? Sentando aqui e pensando que é que a minha mulher deve estar fazendo lá em casa? Como que deve estar em casa? E pensando em fugir daqui. Isso vai trazer coisas negativas para você.” Eu falava pra ele, né? E outro me chamavam: "Vamos Marcos, você já está atrasado, né? E vamos, vamos, vamos!". Me chamando para ir para o curso, sabe? Para a escola na verdade. “Vamos para escola.” E chegava na escola e as professoras, que eram de fora, ensinavam assim, com um jeito assim, tipo, não via a gente como moleque da Febem, via como aluno mesmo. Então aquilo ali me dava mais incentivo para ir para a escola, sabe? Falava sobre a vida dela, ou dele. Os professores são super gente boa.

Fizemos sim. Fizemos um livrinho pequeno falando de cidadania. Cada um falando que achava de cidadania. E cada frase tem um desenho sobre a cidadania.

Acho que só foi isso só.

Eu fiquei dois meses. 

 

P2 - Na EIC? 

 

R - É. Do CDI.

Quando eu peguei o diploma. 

Esse dia foi o último dia, né? Que é a fase dois do curso. Aí ele falou assim: "Está acabando, hoje é o último dia, então a gente vai fazer uma coisa especial." Aí, ele pegou um cordão vermelho e deu um pedacinho para cada um. Aí, ele falou assim: "Esse cordão aqui vai ser a sua vida. Então você dá um nó bem forte para ele nunca desfazer. Aí, eu fui lá e dei logo uns quatro nós, um em cima do outro e quando eu acabei, eu falei:"Olha, o meu está aqui!" Aí, ele falou: "Nossa, esse aqui não tem como desfazer não." Aí, ele falou assim: "foi um prazer ser seu professor. Continue com esse desempenho que você está tendo, né?" Aí, eu falei: "poxa, mas vai acabar assim." E tinha um menino do meu lado que se chamava Robson. Falecido lá. Fiquei sabendo que ele faleceu. Aí, ele estava falando assim para mim: "é Marcos, você vai embora hoje." E aí, eu falei: "Hoje eu não vou não." E eu já tinha pegado o meu diploma, né? E a gente conversando, cada um no seu computador e ele sentado do meu lado. E ele falou assim: "Você vai embora hoje?" E eu disse: "Vou nada. Ainda vai demorar para eu ir embora." Aí, quando foi a tarde, ganhei a minha liberdade. Minha mãe foi no Fórum e trouxe a minha liberdade. Aí, eu aproveitei para me despedir dos professores também, da Dona Marlene...

 

P2 - Você ficou quanto tempo na Febem? 

 

Seis meses. É. Mas eu fiquei triste assim quando eu ganhei minha liberdade. “Poxa, eu vou deixar meus amigos aqui, os professores”. Eu adorei fazer o curso. “Assim que eu sair daqui eu vou tomar um jeito para fazer esse curso, porque é muito bom”. Peguei o jeito, o gosto pela coisa, da digitação, do que o computador pode oferecer para a gente. Aí, então me falaram que eu ia trabalhar na Price. Aí, eu falei assim: "Vocês estão de brincadeira comigo, né?" Porque conforme eu ia fazendo os cursos, os professores falavam muito da Price para a gente. Aí, falaram que eu ia trabalhar na Price e que eu ia ser o primeiro e que então eu tinha que tomar mais responsabilidade, muito grande para mim, porque por mim, ia abrir a porta para outros menores. E foi o que aconteceu.

 

P2 - O pessoal era de um projeto da Febem e a Price?

 

R - É. Febem e a Price. Hoje não existe mais. Agora é o Pixote, mas antigamente era assim, eles pegaram a minha pessoa para trabalhar na Price e se tudo corresse bem, durante aqueles seis meses, eles iam chamar outro menino para trabalhar no mesmo lugar que eu estava trabalhando. E deu certo. Eu dei bons resultados para eles e eles foram lá e contrataram outro menino. Que hoje trabalha lá também, o Roger. E aí, do Roger, foram aparecendo outros meninos. Outros desistiram, outros foram presos. Aí, acabou o projeto da Febem. Aí, a Price entrou em parceria com esse projeto Pixote. O Pixote? Eu não sei te dizer muito bem. Mas eu sei que tem uns meninos que estão correndo o risco de ir para o crime e os meninos que já passaram pelo crime. Então eles passam por uns psicólogos, sabe? Tratamento, eles têm uma aula de atender telefone. Se comportar com o gerente, com o sócio de uma empresa. Todos esses projetos. Todo esse procedimento. 

 

P2 - Como é que foi a sua vida na Price? Tua entrada?

 

Foi muito pesado para mim. Bom, quando eu entrei na Price pela primeira vez, eu comecei a trabalhar na gráfica. E todo mundo falando bonito, sabe? E eu naqueles gingados, naquelas gírias, né? Falando com o sócio na gíria, e eu nem me tocava. Porque, para mim, eu estava sendo eu mesmo. E o pessoal, todo mundo falando bonito, todo mundo engravatado, e eu de calça jeans, tênis, blusa. E aquela cara inchada de Febem, sabe aquela cara de Febem ainda. Não tinha nem uma semana que eu tinha saído ainda. Aí, os outros olhavam assim para mim assim, e eu falei, “Poxa, porque esse pessoal está olhando assim pra mim?” Aí, eu já comecei a ficar nervoso, sabe? Ou perguntar o que que foi. Por que é que estão me olhando assim, né? Aí, eu conheci o Wander, que é o sócio da Price, né? Aí, ele falou assim: "O Marcos, você quer uma ajuda?" Aí, eu falei: "Que ajuda, né?" Aí, ele falou assim: "Você quer melhorar o seu modo de falar?" Aí, eu falei: "Wander, mas tem como?" Aí, ele falou assim: "Tem. É só você querer." Aí, ele conversou com os funcionários mesmo da Price e os funcionários me ajudaram a falar normal. E hoje eu sei falar o certo, né? Na Price, e sei falar, onde eu moro, porque para mim são dois mundos, sabe? Price e onde eu moro. O mundo da malandragem, que eu tenho que saber sobreviver e na Price. Então para mim são dois mundos e para mim fica um pouco descontrolado, às vezes para mim. Às vezes, eu falo na gíria, na Price, às vezes, eu falo palavras difíceis lá em casa.

Assim, na Price, uma coisa que é muito diferente é o meu modo de agir. Eu penso muito antes de fazer qualquer coisa. Às vezes eu estou, como eu posso dizer para você, uma pessoa está querendo arrumar confusão comigo, sabe? Eu não bato de frente. Eu ignoro. Eu estando certo no caso. Eu ignoro, não bato de frente. Já onde eu moro, eu estando certo, eu vou debater de frente, porque eu estou certo. Então, é uma diferença aí, que eu acho.

Então, se eu fosse o mesmo cara da onde eu moro, acho que hoje eu não estaria na Price. Então acho que é por isso que eles me apoiaram. Pelo meu modo de agir.

O que eu faço na Price? Ah, eu arquivo documentos, atendo o telefone. Participo de palestra, acompanho doação de computadores, de alimentos, roupa. Porque eu trabalho na parte da ação social. Então eu faço todo esse trabalho de doar. Acompanho, vejo na instituição se está precisando mesmo, se aquela pessoa que falou que estava precisando ou era mentira, querendo só ganhar em cima da gente. Então eu vou lá, vejo se a pessoa precisa mesmo, vejo se as crianças estão precisando mesmo. Esse é o meu trabalho na Price. 

 

P2  - Só uma coisa que eu esqueci de perguntar sobre a EIC. Lá tinha internet?

 

R - Não. A gente não tinha acesso à internet. A gente só tinha acesso aos programas, Windows, PowerPoint, como é que era o nome do outro? Tinha um programa de desenho, esqueci.

Ah, hoje eu tenho acesso à internet na Price, né? Assim, eu uso bastante mesmo para procurar trabalho de escola. Vejo notícia, vejo o que está acontecendo pelo mundo, né? Principalmente no Iraque, essas guerras que estão tendo aí. Vejo o resultado de futebol, o que mais eu vejo na internet? Ah, eu vejo muita coisa na internet. A internet para mim é o centro do mundo. 

Contato com a internet? Foi na Price mesmo.

É, tipo assim, eu vi que na internet você tem acesso a tudo ali no computador. Aí eu falei: "Eu sabia que esse menino tinha alguma coisa, né?” Esse menino eu falo, é o computador, né? Eu sabia que tinha alguma coisa que estava me interessando. Então eu via e puxa: “Esse computador tem acesso a isso, né?” E aí eu fui me aprofundando assim no computador, né? Cada vez mais se aperfeiçoando. Então a primeira vez que eu entrei na internet foi ótimo. Comecei a ver várias coisas, sabe? Às vezes eu até me perdia. Onde eu estou?

 

P1 - Qual é o programa que você assim, domina mais da informática?

 

R - Da informática?

 

P1 - Um que você gosta de lidar mais.

 

R - Microsoft. Gosto bastante. Do Windows também. É para escrever. Escrever, montar tabela.

 

P1 - E a EIC te deu uma base para isso?

 

Foi. Estudei bastante essas duas ferramentas. Eles me deram. Eu estudei na Febem. E hoje eu tenho assim, não sou um professor, mas eu tenho o dom para mexer nesses dois programas.

 

Eu participei na Megajuda. Acho que foi em 2002. 2002 ou 2003. 

Ah, foi muito bom assim é um monte de gente, cada um fazendo a sua parte. Um limpando o micro, o outro tirando peça e colocando peça nova, eu estava também conhecendo umas peças loucas lá no CDI, o primeiro computador, estava lá no CDI. Enorme, parecendo um telão.

Eles me convidaram. E quando eu cheguei lá na Megajuda, os meus professores estavam lá também. Aí a gente começou a conversar, a perguntar como é que eu estava. Aí, eu falei: "Estou bem, e hoje estou aqui, né, ajudando você no trabalho da Megajuda". Foi ótimo estar participando do trabalho da Megajuda.

De vez em quando eu dou uma aparecida lá na Febem do Tatuapé e encontro eles, se está tudo bem. Em palestra também, eu encontro os meus professores. Não todos, mas encontro a metade. O Júlio, a Patrícia.

Às vezes é mais palestra mesmo. E hoje eu trabalho com uma professora minha. A Mila, foi professora minha lá na Febem. E hoje eu trabalho com ela.

 

P2 - Esses professores são da Price?

 

São da Price. Alguns são da Price, outros não.

Hoje não tem mais nenhum funcionário trabalhando na Price lá na Febem.

Não. Não falavam que eram da Price não.

Bom, a minha avó assim tem orgulho de mim, sabe? De me ver assim como um homem, não como um moleque. O meu pai, como eu te falei, me vê assim um vez por mês, duas vezes por mês, ele também se orgulha de mim. Ele viu que aquilo que ele não pode me dar, teve alguém que me deu. Assim, esse espírito de lutar na vida. Então quer dizer, os moleques quando me ver de social, né? Falam assim: "Nossa, olha o advogadinho, né? olha o irmão, olha o irmão, olha o crente.” E eu não ligo, porque isso aqui para mim é uma arma de trabalho. Então eu tenho o maior orgulho de chegar em casa, me mostrar, tirar a gravata, dobrar tudinho e colocar a minha roupa para ir para a escola. E os moleques ficam assim, alguns ficam com inveja e alguns ainda me chamam até hoje para roubar, está entendendo? E quando eu falo para eles que eu não eu estou legal, que eu não me envolvo mais com isso, eles desacreditam está entendendo? Tipo assim: “O Marquinho, né? Sempre falava assim agora está aí, só porque ele está trabalhando.” Mas eles não vêem isso, porque agora eu sou um homem, está entendendo? Sou um pai de família. Tenho minhas responsabilidades para assumir. E eles não vêem isso. Eu tento assim abrir os olhos deles que aquilo ali não tem caminho. Aquele mundo todo não tem caminho, é tudo ilusão. Só porque você vê um bandido que tem carro, celular, um relógio, ele teve sorte, está entendendo? Vai ver se você tem a mesma sorte.

Tenho, tenho contato com eles sim. Mas não que nem era antigamente, de ficar sentado no mesmo lugar, eu só falo assim: "E aí, tudo bem, como é que você está, como é que está essa força aí?"

 

P2 - Mas não convive?

 

R - Não.

 

P1 - Mas você acha que o seu exemplo serve para eles também, quer dizer, isso abre uma alternativa para eles também? 

 

Serve sim. Serve até muito. Muitos deles têm pai e mãe. E eu não tive e estou aqui firme e forte. Poderia ser um moleque muito rebelde, sabe? Por ter o meu pai preso, a minha mãe usuária de droga e meus irmãos espalhados por aí. Poderia ser um moleque muito revoltado, mas hoje não. Hoje eu sou uma pessoa totalmente diferente do meu pai e da minha mãe. Sou uma pessoa que eles nem pensavam em ser.

Ah, para mim o computador me transformou. Me transformou nessa pessoa que eu sou hoje. Porque graças à EIC, né, do CDI, a Febem, a Price, me mostrou o que é ser um cidadão. E hoje eu me sinto um cidadão. Então, eu tenho que agradecer tudo o que eu aprendi hoje ao computador. Porque até então eu não tinha conhecimento. Tive conhecimento na Febem. Então o computador para mim foi a porta, tipo, você vai entrar aqui, ó. 

 

P2 - E você pretende?

 

Seguir esse mesmo caminho que eu estou percorrendo, para melhor?

Eu estou no segundo grau. No segundo grau. No colegial.

Ah, é crescer na Price. Ser um diretor, até um sócio da Price. Fazer uma faculdade aí, até de contabilidade, administração geral. Esse é o meu pensamento daqui em diante. Mas que eu vou ser um sócio da Price, eu vou. Por isso é que eu vou estudar muito. Muito mesmo. 

Eu não quero falar, sabe, para eles. Eu fico só para mim mesmo, porque eu vou demonstrar para eles e para mim mesmo. Eu quero mostrar primeiro para mim que eu tenho capacidade de chegar no nível de um sócio. Então eu demonstro para eles que eu estudo, que as minhas notas são super ótimas, está entendendo? Não falto na escola de jeito nenhum. Sempre quando eu penso em faltar eu penso na Price, sabe? Não, eu tenho que estudar porque eu vou ser alguém na Price. Alguém mais do que eu já sou, eu quero ir lá para o topo.

 

P2 - E eles têm algum programa que dão esse apoio se você for fazer uma faculdade?

 

Dá. Ele ajuda no pagamento da faculdade.

 

P2 - E sua mãe? Como é que está hoje a sua vida com a família?

 

Bom, eu tenho acesso assim muito contato com boca de droga. Tenho muito amigo que trabalha. E antigamente eu chegava nos moleques e os moleques: "Aí, Marquinhos, a sua mãe está vindo aqui direto." Eu falei: "sério? Poxa, eu vou falar com ela." Aí, eu falava com a minha mãe: "É mãe, estou sabendo que a senhora passou lá, pegou tanta quantia de droga." E ela: "Não, é mentira." Eu falei: "Que mentira, o moleque vai mentir para mim para quê?" Agora hoje, hoje ela está bem melhor. Está vendendo uns bonequinhos de geladeira, de colocar na geladeira. Então acho que agora ela deu uma parada com as drogas. Ela ajuda a minha irmã, né? Minha irmã tem uma filha, mora de aluguel. Ajuda o meu irmão, compra gel, desodorante assim para o meu irmão, compra roupa. Então, acho que por aí dá prá ver que ela deu uma parada com as drogas. Porque antigamente ela roubava coisas na minha casa. Roubava para usar droga.

 

O que eu sou hoje? Eu sou um cara bastante responsável com tudo o que faz, eu penso antes de fazer qualquer coisa, respeito muito o idoso, por mais que ele está ali errado eu respeito muito. Penso muito em dar o melhor para a minha filha. Tudo aquilo que eu não tive com os meus pais vou dar o melhor para a minha filha. Interesse de estudar eu tenho muito hoje. Eu me sinto um homem completo cara, completo mesmo.

 

P2 - E o que é que você achou de estar falando dessa sua experiência para esse projeto de memória do CDI?

 

Bom, eu acho que vai ajudar bastante a abrir a porta para outras pessoas que nem no meu caso, a mudar de vida também. Então eu acho isso super legal. A outras empresas, que nem a Price, a abrir a oportunidade para outros menores, ou para outro menino, que seja, porque eu acho que tem muitos meninos que precisam e muitos que não precisam, que não estão nem aí. Mas tem muito menino que precisa de uma oportunidade, só mais uma oportunidade. Eu tive a minha e estou aproveitando. Então eu acho que eles também merecem.

 

P2- Tem alguma coisa que você queira falar que a gente não perguntou, alguma coisa que você acha que vale a pena citar, alguma lembrança, alguma coisa que passou e a gente não perguntou, você pode falar agora. 

 

Ah, uma coisa que eu queria falar assim é que, para esses meninos que se encontram na Febem ou em situação de risco que não desistam dos seus sonhos porque eu acho que é do sonho que vocês vão conquistar o que você quer. Então que não desista. Que nem tudo está por água abaixo. Isso é o que eu queria falar.

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