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História

Da roça aos computadores da favela

História de: Anísio Barbosa da Cunha
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/05/2020

Sinopse

Anísio nos conta sua trajetória de Janaúba, interior de São Paulo, até sua carreira como professor de informática da EIC, uma comunidade carente da capital. Relata com detalhes sua infância na roça, a educação da época e suas memórias com os irmãos. Compartilha conosco a história da criação da EIC e as dificuldades enfrentadas. A sua ligação com o meio escolar se mostra poética, dedicada e rica em suas experiências como professor de alunos carentes em um meio violento.

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História completa

P/1 - Boa tarde, Anísio.
R - Boa tarde.
P/1 - Você poderia começar falando seu nome, local e data de nascimento? Por favor.
R - Posso. Anísio Barbosa da Cunha. Nasci em Janaúba. Não, em Paranapuã. Desculpe, nasci em Paranapuã, interior de São Paulo. Fui pra Janaúba ainda recém-nascido e me criei, passei minha infância toda, em Janaúba. Aí vim de lá com 11 anos de idade, vim pra cá pra São Paulo.
P/1 - E como que se deu seu nascimento em Janaúba, como é, seus pais, eram de lá? Você pode falar m pouco dos seus pais? O nome deles?
R - Bom, meu pai, Sebastião Barbosa da Cunha, veio pra São Paulo, aí foi pro interior, naquela época se trabalhava muito em fazendas, né? E lá em Paranapuã, Jales ali, onde ele conheceu minha mãe e lá eles se casaram. E eu e mais três irmãos meus nascemos lá no interior de São Paulo, lá em Paranapuã. Aí eu sou o terceiro da família, né, depois que eu nasci, eles voltaram pra Janaúba. Aí ficamos morando em Janaúba até os meus 11 anos, daí viemos pra São Paulo, todo mundo.
P/1 E seu pai e sua mãe eram de onde? Qual era a atividade deles?
R Eles sempre foram do campo, né? Sempre trabalhadores do campo. Minha mãe de Jacobina, Bahia, e meu pai é de Janaúba, Minas Gerais. Aí vieram pra São Paulo. Só que eles se conheceram em São Paulo, lá no interior de São Paulo, Paranapuã. E lá onde eles se conheceram, se casaram e aí voltou a família já pra Janaúba, pra cidade do meu pai lá.
P/1 E como que era em Janaúba? Vocês moravam na cidade? Era no campo? Como era sua casa lá em Janaúba?
R Ah, a gente morava no campo, na roça, mesmo. Trabalhamos na roça e a casa era casa de barro, né, que eles chamam de casa de sapê. Parede de barro, piso de barro, aquela casa mesmo do campo. E a gente trabalhava na roça também, plantava arroz, feijão, algodão, milho e vivia da agricultura. E tinha alguns animais domésticos, tipo algumas cabeças de gado, porco também que a gente era da sobrevivência também.
P/1 Essa casa, seu pai construiu? Vocês construíram? Como que foi?
R Ele construiu. Quando ele chegou, a terra lá que a gente morava era herança do meu avô, uma parte da herança do meu avô, pai do meu pai, e ele construiu essa casa, né, e a gente ficou morando nela até vir pra São Paulo. Aí ele vendeu lá, naquela época não era muito dinheiro. Vendeu, deu o suficiente pra gente vir pra São Paulo. Aí viemos pra São Paulo em 1976.
P/2 E como é que era a infância no campo lá? Você brincava? Como é que era o dia-a-dia de menino no campo?
R É, a vida de menino no campo é aquela vida de liberdade, né, você trabalhava durante a semana e final de semana você ia se divertir, caçar, tomar banho de rio, né, e levava aquela vida mesmo de moleque no campo, livre, né? Diferente da vida na cidade.
P/1 Que bicho vocês caçavam lá?
R Passarinho, tatu, codorna, nanbú, nhambu, que se fala aqui, nhambu, né? Todo tipo de passarinho, que a gente caçava, eu e meus irmãos e tinha uns tios nossos também que eram vizinhos, né? Vizinho, assim, morava uma distância de mais ou menos uns 2 ou 3 quilômetros, mas era vizinho, né? Era os vizinhos mais próximos. E a gente se reunia todo mundo e ia caçar. Aí quando caçava, aqueles passarinhos que a gente matava, principalmente rolinha, outros passarinhos que a gente comia, né? Chegava em casa, limpava, tratava os passarinhos, limpava, temperava e punha pra secar. Aí depois, estava seco, depois de uns dois, três dias, a gente fritava aqueles passarinhos e fazia paçoca, que é.
P/1 Como é que é?
R Tem aqueles pilões de madeira, né, que lá a gente usava pra limpar arroz, que chama de pilão, né? A gente socava aquilo com farinha, o passarinho, já frito, e a gente socava com farinha e criava, ficava aquela paçoca, né, tipo aquela farofa bem moída, e a gente comia aquilo. Às vezes servia até de mistura, né, quando não tinha mistura a gente caçava e às vezes a caça servia de mistura. Coelho, a gente caçava muito coelho, preá, que são animais do mato que a gente caçava muito. Lagarto, que eles chamam de teiú. Então é essa vida de moleque do campo, da infância, da roça.
P/2 Tinha brincadeira?
R Tinha, tinha. Tinha futebol também, a gente jogava futebol. Principalmente na escola, ia pra escola e na hora do recreio a gente ia jogar futebol. Tinhas as Festas de Reis, que era a época mais gostosa, mais interessante, que a gente saia de casa em casa acompanhando o Reisado. Aí chegava na casa do vizinho, ali depois do Reis, eles chamavam o samba de roda. A gente participava do samba de roda e a molecada fazia aquela roda e a molecada ia dançar. Então tinha os violeiros e sanfoneiros que tocavam, e o moleque ia dançar, né, fazia o samba de roda e ia dançar. E aí depois do samba de roda, vinha o café com requeijão, bolo, doce, aquela vida boa. Vida que deixa saudade e hoje que a criança aqui da grande cidade não tem isso, então acho que a infância no campo é muito rica, né? Eu costumo dizer hoje pros meus alunos, que o adolescente na cidade grande não sabe se divertir, porque todos os brinquedos já vêm prontos, eles só vai lá e compra, é fabricado, né? E no campo, não, no campo você mesmo fabrica seu próprio brinquedo, você constrói seu próprio brinquedo. A gente fazia carrinho, carro de boi, a gente fazia carrinho mesmo de madeira, a gente fazia, tinha um monte de brinquedo que a gente mesmo construía. E então o moleque do campo acho que é mais ativo do que a criançada hoje da cidade.
P/1 Você falou que seus tios eram vizinhos, né?
R Isso.
P/1 Como é que era? A família morava tudo perto ou tinha gente que não era da família? Quem eram os seus amigos?
R Tinha, tinha bastante gente que não era da família, mas tinha a família bem próxima também, né? Eu tinha um tio que morava próximo às terras do meu pai, e tinha dois tios que moravam perto da nossa casa e os outros eram mais conhecidos mesmo, que meu pai conhecia e que era assim: lá a família conhece muita gente, né, e interessante que conhece muito pelo sobrenome, a família Barbosa, a família Fonseca, a família Silva, então tem muito isso no campo, né, então as famílias são muito conhecidas pelo sobrenome. E a gente tinha muita amizade. Realmente, quando tinha festa, época de São João, mês de janeiro, Festa dos Reis, então tinha aquela confraternização com todos os vizinhos. Inclusive, há um mês atrás eu estava assistindo a uma reportagem no Globo Rural, e eu lembrei muito da cidade onde a gente morava, lá do município de Janaúba, na roça. No Globo Rural, passou ali na Serra da Canastra uma família que engordou um porco, né, e mataram o porco e convidou, veio todas as famílias, toda a parentada pra comer do porco, né, e depois a esposa do dono do porco, cortou os pedaços e depois foi distribuindo pros vizinhos. É uma prática do pessoal do campo, né? A partilha, né, pegar e dividir um pedaço de carne pra cada vizinho. Mesmo que seja só um pedacinho, mas tem que dividir pra todos. Quem mata o porco dividi pra todos os vizinhos mais próximos. Aí eu tava vendo essa reportagem e lembrei lá de toda aquela infância, daquela época, né?
P/1 E essas festas eram onde? Eram em fazendas ou tinha um vilarejo que as pessoas se reuniam? Como é que era?
R Lá não tinha muita fazenda, cada um tinha seu pedaço de terra, vamos supor, mais ou menos, 30 hectares, 10 hectares, 15 hectares, assim pedaço de terra, né, tipo sítio. E cada um morava no seu sítio e quando acontecia a época das festas, é tradicional. Tem as datas, aí quando chegava mês de janeiro, todo mês de janeiro, ali pelo dia 22 até 25, é a época dos Reisados, Festa de Reis. E aí, sempre tem aqueles vizinhos mais antigos que puxam pra os Reis, os Cantador de Reis. E aí começa na casa de um e vai passando de casa em casa. E anda muito tempo. E às vezes os Reis começam 9 horas da noite e vai terminar 5 horas da manhã, até passar em todas as casas. E aí o pessoal vai andando com velas, velas acesas, e andando. Às vezes anda muito, anda mais ou menos uns 3, 4, 5 quilômetros pra chegar de uma casa na outra. E cantando, né, sempre cantando, andando no meio da estrada e cantando. E aí, quando chega na última casa, está dando 5 horas da manhã.
P/2 E como é que era a escola lá?
R Tinha um senhor lá que tinha uma casa muito grande, até diziam que ele era um dos caras mais ricos lá da região. E ele cedeu a casa pra criar salas, montar salas de aula. E essa casa tinha vários cômodos. E também só tinha da primeira à quinta série. Não, até a quarta série, só. Aí quem passasse da quarta série tinha que ir pra cidade, estudar na cidade. Da quarta série em diante não tinha, né, então a gente ia pra escola aí vinha a professora lá da cidade dar aulas pra gente. E os bancos, não tinha carteira, né, era banco. Aqueles bancos com aquelas forquilhas enterradas no chão, põe dois pedaços de madeira e uma tábua. E depois uma bancada também com forquilha. Tipo “giral”, chama de “giral”. E aí sentava uma turma de aluno dum lado, outra do outro e tinha mais ou menos uns três “giraus”, e aí a gente sentava ali e tinha a professora na lousa que dava aula. E a gente estudava naquela sala. Aí quem terminasse, passasse da primeira pra segunda série, ia pra outra sala. Aí quando chegava na quarta série que passasse, saia da escola, tinha que ir pra cidade. Aí o pai que tinha matricular na cidade. Aí tinha que ir de carro de boi pra cidade.
P/1 E era só uma professora que dava todas essas séries ou era um professor pra cada série?
R Pra cada... Não, era só uma professora.
P/2 O turno era diferente ou era tudo junto?
R Tudo junto. Era tudo junto. Então ela dividia a matéria pra cada turma.
P/1 E não tinha bagunça, você lembra algum caso?
R A bagunça era na hora do intervalo, né, assim, dentro da sala o pessoal não tinha bagunça, era interessante, o pessoal, na hora que a professora estava explicando, ensinando, todo mundo concentrado, né, incrível. E hoje, a gente. Eu tenho um irmão que ele é professor, né, ele dá aula no ensino médio. Hoje a gente começa a conversar e ele começa a falar hoje como é que é a situação da escola. E aí a gente lembra na época que a gente começou a estudar. Era totalmente diferente. Não sei se o pessoal tinha outra cabeça, a molecada mesmo respeitava o professor. Porque na época tinha palmatória, né? Então quando não era palmatória ficava de castigo, de joelho, de cara pra parede, de rosto assim pra parede. Então a molecada respeitava. Aí no intervalo, quando era no intervalo, aí sempre tinha aquelas bagunças, às vezes tinha briga, às vezes tinha disputa. Quando um moleque mexia com outro, aí você ficava aquele insulto, quando chegava, ou no intervalo ou era na saída. A molecada fazia roda pra ver, pra brigar, né? Às vezes esperava sair de perto da escola pra brigar lá no meio da estrada, né, que eles falavam, pra o professor não ficar sabendo, né? Mas aí não adiantava, que depois os pais ficavam sabendo e aí a surra era maior.
P/2 Como era essa rotina de ir com carro de boi pra cidade?
R Então, tinha, às vezes quando não era carro de boi a gente ia a cavalo, né? Geralmente mais ia a cavalo, ia pra escola a cavalo. carro de boi, às vezes quando o pai da gente ia fazer compra, aí a gente pegava uma carona no carro de boi, mas geralmente mais era cavalo. Ia eu e meus irmãos, a gente ia em 2 cavalos. Meu irmão com um cavalo, eu ia na garupa, e o outro no outro cavalo. Como eu era menor, né, aí eu ia na garupa do cavalo e a gente ia pra escola a cavalo. Ia chegava lá, encostava os cavalos na escola, deixava os cavalos, tinha um pasto lá. A gente desarreava os cavalos e ia pra escola. Chegava na hora de vir embora, todo mundo já conhecia o seu cavalo, ia lá, pegava o seu cavalo, selava e voltava pra casa com o cavalo de novo. E era assim toda a labuta até a sexta-feira.
P/1 Qual era distância?
R Olha, era mais ou menos assim, a gente pra medir hoje, fazer uma comparação, era mais ou menos uns 10 quilômetros de distância. Pra chegar até a escola.
P/2 E mudou muito essa nova escola na cidade? Como era? Eram só alunos do campo? Tinha alunos da cidade? Como era a convivência normal?
R Olha, tinha a diferença, assim, pelo menos a gente não notou muito porque apesar de não ser uma cidade muito grande, na época não era uma cidade muito desenvolvida, ainda tinha aquele ar de cidade pequena, então, tem. Tem uma diferença, mas é bem pouca, né, do campo. Lógico, tem o pessoal que mora na cidade, tem uma outra, mas não tinha muita, muita diferença assim, não. Só mesmo, pode ser até, nem no comportamento, né, porque os alunos do campo, como o pessoal da cidade, era a mesma coisa, não tinha aquela discriminação, não tinha nada disso. Aquele pessoal meio inocente, sabe?
P/2 Mas aí com essas amizades vocês passaram a ir mais à cidade?
R Só ia na cidade mesmo ou quando ia fazer compra, ou quando ia pra escola, mesmo. Não tinha costume de ir pra cidade no fim de semana, não. Ah, só ia assim, tinha a época também da Semana Santa, vinha uns bispos de Montes Claros, de Belo Horizonte, vinham fazer procissão na cidade, aí nós íamos na quinta e na sexta pra acompanhar a procissão. Era quando a gente ia pra cidade mesmo. Ou quando eu ia pra cidade, ou quando tinha festa, ou quando ia fazer compra, ou quando ia pra escola.
P/1 E a professora, mudou a da cidade e da escola do campo, o jeito...
R É, o jeito muda. Mudou porque assim, a maneira de falar, de como explicar também muda, né? É diferente. A sala de aula também já era carteira, né, carteira individual, diferente assim, aquelas carteiras que você senta, eu tô sentando aqui e tem um aluno atrás de mim que pega, né?
P/2 São juntas.
R Isso, junto, aí assim, quem tá atrás, tá escrevendo na carteira que o outro tá sentado na frente, e assim vai, aquela carteira bem antiga.
P/1 E a palmatória continuava, ou não?
R Não, ainda tinha, continuava ainda. Castigo ainda continuava.
P/2 Você tem alguma lembrança sobre um acontecimento que te marcou nessa fase de escola? Alguma assim que?
R Ah, eu lembro, eu não me esqueço do primeiro gol que eu fiz jogando bola, né, era aquela bola de meia, a gente fazia aquela bola de meia. E quando não tinha bola, o que que a gente fazia? Porque naquela época a gente ia muitas vezes, e isso não foi na cidade, era ainda na escola lá perto de casa, a gente ia de chinelo pra escola, né, mas aí tinha aqueles alunos que iam de tênis, não, aqueles sapatos e de meia. Aí a gente pedia, chegava neles, pedia as meias, juntava todas as meias, colocava uma dentro da outra e fazia aquela bola de meia e ia jogar bola, né? E aí jogando bola, aí eu tava num time lá e aí todo mundo não queria jogar no time que eu jogava porque era um time muito fraco, né? Como a gente era alunos menores, os alunos maiores montavam um time e deixava os menores. Aí foi quando a gente montou esse time lá e ninguém queria jogar no nosso time. Aí começamos a jogar bola, e eram dois times só. O recreio dava pra jogar só uma partida. Aí então montamos esse time, jogamos lá e eu fui lá e fiz o gol do time. O primeiro gol que eu fiz na minha vida, jogando bola. Aí eu não esqueço até hoje esse gol. Desde que hoje quando eu jogo bola, eu lembro, desse primeiro gol, gol de meia lá na escola. Na época chamava o terreiro, né, no terreiro lá da escola.
P/1 Você tinha quantos anos?
R Ah, eu tinha uns oito anos de idade. Você acompanhava o futebol lá naquela época? Não, nem sabia. A gente via, eu ouvia meu pai, meu tio falar de Tostão, de Pelé, de Garrincha, a gente só ouvia falar. E nem meu pai não acompanhava futebol. Interessante, assim, tinha no caminho da escola, eles chamavam de poço artesiano, né, que tinha aqueles cata-vento, que quando ventava, ele rodava e puxava a água lá do fundo da terra, né? Aí foi no tempo da seca, quando o pessoal não tinha água nas lagoas pra dar pros animais, aí ia lá pra esse poço da água, lá nesse poço. E tinha um horário pra cada turma levar os animais pra beber, né, e aí na beira desse campo tinha um campo também. É interessante, tinha um campo enorme também, né? E todo domingo, tinha partida de futebol. Vinha pessoas de outras regiões mais próximas jogar contra o time lá da região, né, não era fazenda, mas tinha o vilarejo lá que tinha o time, tinha um pessoal que montava o time lá. E aí a gente ia, dia de domingo à tarde a gente ia lá pra beira do campo ver o jogo, né? Aí meu irmão levava pra fazer aqueles pacotes Ki Suco e ia vender Ki Suco lá na beira do campo. Aí aqueles Kisuco que não vendia a gente tomavam tudo. E aí que a gente via o pessoal acompanhar e via aquele pessoal com aqueles radinho, né, ouvi jogo na beira do campo. “E ficava lá, né? O que que o pessoal ouve aí?” O pessoal falando, falando, falando: “O que é isso?” Aí eu vi o pessoal comentar sobre o futebol, sobre Tostão, sobre Pelé, né? Mas eu não tinha nem ideia de como era isso, né, não conhecia televisão, não tinha nada, não tinha televisão.
P/1 Rádio tinha?
R Rádio tinha. Mas é que rádio já tinha mais, meu pai só ouvia mesmo música sertaneja. Era música sertaneja e a Voz do Brasil, era só isso que ele costumava ouvir.
P/2 Tinha novela?
R Não, não tinha novela.
P/1 TV não tinha?
R TV não tinha. Aí quando nós íamos pra cidade, aí quando ia fazer compra, né, aí passava, ou então quando a gente ia pra procissão, né? Era mais ou menos assim umas 5 horas da tarde, 6 horas da tarde, aí passava em frente àquelas casas assim e tinha lá a janela aberta e tinha lá a TV ligada, né? Só que a gente passava rápido, aquela televisão preto-e-branco. De vez em quando dava uma olhada assim e passava, né, e não dava tempo de assistir nada. Aí voltava de novo pra roça e ia ouvir música. Ouvia-se muito música sertaneja, né?
P/2 Você lembra de alguma delas? De alguns cantores?
R Não, eu lembro de Tião Carrero e Pardinho, Tonico e Tinoco, tinha Moreno e Moreninho, muitas duplas, né? Que até hoje eu gosto, até hoje aprendi a gostar de música que chama música raiz, né, música sertaneja. Até hoje ainda assisto aquele programa da Inesita Barroso, né, porque, assim, ficou, é uma cultura que eu carrego também. Apesar de eu gostar de outros ritmos, né, outros tipos de música, mas eu ainda gosto muito também da música sertaneja. Eu trago essa cultura comigo.
P/1 Você ficou até que idade em Janaúba?
R Olha, faltando poucos meses pra eu completar 11 anos, a gente saiu de lá, aí viemos de lá, de Janaúba. Aí viemos de trem, a viagem foi de trem, não foi de ônibus, não. Meu pai comprou as passagens de trem, aí viemos de trem. Nossa, eu lembro que era uma viagem, sei que nós gastamos mais ou menos 5 dias. Não,  5 não, 4 dias, mais ou menos 4 ou 5 dias de trem. Aí chegamos em Belo Horizonte pra fazer baldeação de um trem pra outro aí demorou. Aí passamos a noite na estação, aí no outro dia cedinho pegamos o trem pra São Paulo. Aí chegamos, eu lembro que nós desembarcamos lá na estação de Hermelino de trem, né? Aí aquela hora que saiu da estação, aquela avenida cheia de carro, eu falei: “Caramba, que mundo que eu estou?” Carro pra lá, carro pra cá, eu falei: “Ih.” Aí fomos pra casa da minha avó. A minha avó, mãe da minha mãe já morava aqui em São Paulo. E meu avô já tinha ido lá em Janaúba umas duas vezes, né? E ele falava muito aqui de São Paulo. Aí quando viemos pra cá, fomos direto pra casa da minha avó. Aí ficamos morando na casa da minha avó uns 15 dias até meu pai arrumar uma casa. Aí meu tio alugou uma casa pra meu pai e a gente foi morar. Bem vizinho assim da minha avó, né, aqui em São Paulo. Aí meus irmãos, como eu era mais novo, eu tinha mais ou menos ali uns 11 anos, quase 11 anos, e os meus irmãos, um tinha 13, o outro tinha 14, né? Eu lembro que, meu pai e minha mãe desempregados, aí meus irmão saíam, né, que era a época que eles saiam pra carpir o quintal dos vizinhos e ganhavam dinheiro, né? E ganhavam muito dinheiro. Às vezes eles vinham pra casa naquela época com dinheiro que dava pra comprar pão, leite, né, e ainda fazer compra. E aí todo sábado eles saíam pra carpir quintal aqui pra ganhar dinheiro pra poder comprar pão, pra gente tomar café. Até meu pai arrumar um emprego. Aí também minha mãe começou alguns serviços de doméstica, né, lavar roupa pra fora e a gente foi se estabilizando um pouco.
P/1 Teve algum motivo porque seus pais vieram pra cá pra São Paulo? Seus avós chamaram? Como é que foi?
R Meu pai sempre tinha vontade de vir pra cá. E outra também porque lá teve uma época lá em Janaúba que a seca foi muito forte, né, ficou muito tempo sem chover e a gente às vezes limpava roça, plantava e aí não vingava porque não chovia. Aí quando vinha chover, já tinha passado do tempo e aí chovia demais também. Então às vezes demorava pra chover e quando chovia, chovia demais. Então não vingava e a gente começou a ter muito prejuízo com a semente. Aí meu pai desanimou e pôs na cabeça que tinha que vir pra São Paulo. Aí procurou alguém pra poder comprar as terras que a gente tinha lá. Eu lembro que ele veio até reclamando que tinha vendido a terra muito barata. Naquela época, hoje comparando ao dinheiro de hoje, se a gente tinha lá uns 10 hectares, ele vendeu tudo isso aí por uns 2 mil reais, seria hoje. Então, quer dizer, deu praticamente de graça. E aí tivemos que vir por causa da seca, né, da falta de chuva.
P/1 E aqui em São Paulo, como era a casa que você ficou? A vizinhança, você poderia descrever um pouco como é que era?
R Aí, quando nós mudamos pra essa casa, era uma casa que morava três famílias, né, ele era dividia, ela tinha oito cômodos, e desses oito cômodos foi dividido por três famílias, e uma das famílias era a nossa. E aí, a convivência normal, né, todo mundo trabalhava, só ficava gente que era criança em casa. E ficava ali e às vezes tinha que ir pra escola, né, era uma outra vida totalmente diferente, né, já é casa de alvenaria, tudo rebocado, cimentado, né? E aí também essas três famílias que moravam com a gente, se mudou também logo. A gente ficou morando todo mundo mais ou menos uns 6 meses. Aí uma outra família sozinha comprou a casa, mas aí a gente continuou ainda. Ela tirou as outras famílias e deixou a gente. E a gente ficou sendo inquilino dessa outra família. E aí fizemos amizade com os filhos dessa outra família, já era uma outra amizade diferente. Nessa outra casa a gente ficou de 1977 até 1979. Não, ficamos do meio do ano de 76 até o meio do ano de 1977, daí meu pai falou que não ia mais ficar em São Paulo, aí fomos embora pra Marabá. Marabá é uma cidade que fica lá quase divisa de São Paulo com Minas, depois de São José do Rio Preto, muito chão. E nós fomos pra uma fazenda lá também, fomos morar na fazenda e meu pai conhecia lá, não sei como, acho que da época lá de Paranapuã, ele conhecia o capataz dessa fazenda, aí o cara convidou ele pra lá. Aí nós fomos pra lá. Aí saímos dessa casa e fomos pra lá. Aí chegamos lá, ele foi trabalhar na fazenda com esse capataz, e meus irmão, assim, lá eles pegavam serviço na fazenda, né? Ele ia trabalhara com meus irmãos e eu ficava em casa. E essa fazenda tinha um rio que passava no meio da fazenda. E eles sempre pescavam nesse rio. E tinha um outro rio que hoje é um rio muito famoso, conhecido como Rio Grande, né? Esse rio que faz divisa de São Paulo com Minas Gerais. E no meio desse tinha uma ilha, e tinha um cara que morava nessa ilha. Ele era pescador, esse cara pescava muito peixe e ia vender na cidade. E pra ele vender lá na cidade em Marabá, ele tinha que passar no meio da fazenda. E ele também era muito amigo do capataz da fazenda. Aí ele passava e deixava peixe lá na fazenda. Eu lembro que, depois que eu vim pra São Paulo, eu fiquei mais ou menos uns 6 meses, quase um ano sem comer peixe. Porque a gente comia peixe no café, peixe no almoço, peixe na janta, peixe no café, peixe... Foi enjoando de peixe, né? Ele pegava aqueles pintados, né, e pintado é um peixe enorme, e trazia e deixava quase o peixe inteiro lá e o capataz dividia com meu pai. E na fazenda só tinha a nossa família e a família do capataz. E aí tudo que trazia pra ele, ele dividia com a gente. E aí ficamos lá, moramos nessa fazenda aí uns 6, 8 meses, aí foi quando minha mãe separou do meu pai. Aí separou do meu pai, minha mãe veio embora pra São Paulo, trouxe todos nós e meu pai ficou lá. Aí voltamos, por incrível que pareça, voltamos a morar nessa mesma casa de novo. E aí ficamos nessa mesma casa até a gente mudar pra uma favela, né? Aí não tinha mais condição de pagar aluguel, porque o aluguel tava muito caro e meus irmãos trabalhava, mas o que eles ganhavam não dava nem pra pagar o aluguel, conta de água, conta de luz, aí minha mãe resolveu procurar um barraco na favela. Aí fomos morar na favela. Aí ficamos nessa casa até 1980. Aí de 1980, fomos pra favela, né? Essa favela, que hoje é onde eu dou aula. Que é onde tem o Centro de Educação, que era conhecida como a Favela Santa Inês. Favela Santa Inês porque ela ficava perto de uma Vila, da Vila Santa Inês, encostada na Vila Santa Inês. Aí todo mundo falava que era a Favela Santa Inês. Aí em 1980 mudamos pra Favela Santa Inês. Aí, antes de nós mudarmos pra favela, eu trabalhei, minha mãe me arrumou esse emprego lá nessa fábrica de biscoito, junto com meu irmão, né? Só que eu trabalhei um mês pra ganhar um real, que seria 1 cruzeiro, né, na época. 1 cruzeiro seria o quê? 100 reais, hoje, né, só que eu trabalhei um mês pra ganhar um cruzeiro. Aí meu irmão também, meu irmão ganhava 100 cruzeiros. Aí eu falei, “Não vou fica nessa firma, não. Pelo amor de Deus.” Peguei e sai, né? Sai, aí meu irmão também saiu, aí meu irmão conseguiu um emprego na fábrica de fazer bolsas, malas, sacolas, aquelas bolsas pra viagem, mala pra viagem. Aí até começou a trabalhar ele e meu outro irmão nessa empresa. Aí eles saíram dessa empresa e eu fui estudar, né? Aí comecei a estudar, aí terminei o ano da escola aí consegui arrumar um emprego na outra fábrica, fábrica de cristal, fábrica de vidro.
P/1 Que ano você terminou?
R Não, eu parei na 5ª série. Fiz a 4ª série. Porque assim, o meu estudo foi interrompido, né, eu ia pra escola, mas quando tava pra terminar o ano, meu pai mudava e a gente saia. Aí eu voltava pra escola. Oh, depois que nós saímos de Janaúba, fomos pra Catanduva, de Catanduva fomos pra Marabá. E quando eu tava pra passar de ano, meu pai mudava e eu saia da escola. E aí eu ia assim, aí quando cheguei em São Paulo, que a a minha mãe veio pra São Paulo, aí eu falei, agora nesse tempo todo, toda essa viagem, aí falei: “Agora eu não vou mais pra escola normal, não. Eu vou fazer” na época era o Mobral. Eu falei: “Eu vou fazer o Mobral.” Pra ganhar tempo porque eu já perdi muito tempo, né? Aí fui pro Mobral, e estudava de segunda a quarta-feira a noite. Aí ia trabalhar e de noite ia pra escola. Ia pra escola também porque minha mãe enchia o saco, eu tinha que ir pra escola. Aí fui, terminei, fiz a quarta série no Mobral, aí a professora encaminhou a gente pro Supletivo, né, e eu trabalhando. Aí eu entrei nessa fábrica de cristal, fazia vidro, fazia copo, fazia taça, fazia aqueles globo, antigamente aqueles globos brancos que colocavam na luz, né, nas lâmpadas, aí fazia aqueles globos, né? E a gente trabalhava, assim, lá tinha umas formas, era um buraco, no chão, e tinha aquelas formas de ferro. E o trabalho nosso era pegar molhar o jornal, botar dentro daquelas formas, e fechar a forma porque a hora que vinha com o vidro quente, né, jogava o vidro naquela forma e soprava até ficar no formato, pra moldar aquele globo. E a gente só tinha o trabalho de fechar a forma. E aí se queimava, a hora que colocava o jornal molhado e colocava o vidro quente, subia aquela água quente, queimava a gente tudo, mas tinha que trabalhar, né, fazer o quê? Aí trabalhei um ano nessa empresa, aí foi quando eu saí de lá. Ao sai de lá e consegui arrumar um emprego numa outra fábrica de bolsas também que ficava ali no Tatuapé. Fazia malas, sacola, também. Nessa fábrica de bolsa, eu trabalhei 6 anos, né, e aí voltei a estudar. Aí fui fazer um teste lá na quinta série, né, no supletivo. Aí comecei a estudar no supletivo, fiz a quinta, fiz a sexta, a sétima e a oitava, né? Aí desanimei, falei, não vou estudar mais não. Aí fiquei desempregado, foi na época do alistamento, já, né, já tava com 17 anos. A gente já tinha mudado pra favela, né, nessa época já tinha mudado pra favela, em 80. Em voltei a estudar em 1980. E aí fiz  quinta série em 1980, aí foi quando voltei pra favela, entrei nessa fábrica de malas e sacolas, comecei a trabalhar lá, aí já com meus 17 anos. Aí eles me mandaram embora porque já ia entrar a fase de alistamento. Porque lá já tinha três empregados ido servir o exército. Então eles ficaram com medo de mais um, né, aí me mandaram embora. Depois de 5 anos de firma, aí beleza. Aí servi o exército, me alistei, fui dispensado, né? Aí fui procurar emprego. Aí já tinha pegado reservista. Aí consegui entrar na Filizola. Aí comecei a trabalhar na Filizola e aí o pessoal começou a exigir que o pessoal estudasse, tinha que estar estudando. Aí eu falava, eu vou continuar o supletivo. Aí eu fazia o segundo grau. Aí primeiro eu queria fazer o segundo grau técnico, né, aí não deu porque tinha que pagar. E eu tava desempregado, aí entrei na Filizola e falei: “Ah, vou fazer o segundo grau normal.” Aí fiz o segundo grau normal, que é o supletivo, né, aí conclui o segundo grau. aÍ falei: “Agora vou fazer um curso técnico de informática.” Aí foi quando eu sai da Filizola, peguei o dinheiro e falei: “Bom, eu compro uma moto ou compro um computador?” Fiquei pensando. “Ah, eu acho que vou comprar uma moto.” Aí pensei, pensei e falei: “Ah, eu vou comprar um computador.” Aí comprei o computador, e aí minha mãe entrou naquele projeto da CDHU [Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano] que o Quércia começou a construir aquelas casas lá, ela entrou, se inscreveu no projeto, aí conseguiu uma casa lá em Itaquera. Aí ela mudou pra Itaquera, e na época ela mudou pra Itaquera os meus irmãos estavam já no meio do ano letivo, né, e eu também. Aí meus irmãos falou: “Ó, mãe, a gente não vai com a senhora não. A gente vai ficar aqui no barraco aqui na favela, quando a gente terminar a escola a gente vai pra lá.” Ela falou: “Tudo bem, então vocês ficam aí, e eu vou pra lá.” Aí ela foi, foi com meus outros irmãos, nós somos em oito, né, são cinco homens, e três mulheres, né? Aí os dois mais velhos foram com ela pra Itaquera, as 3 meninas também foram com ela pra Itaquera, aí ficou eu, e os dois irmãos mais novos meus, né? Aí ficamos lá na favela morando lá. E nessa época a gente já tinha um trabalho na favela, aí foi na época que começou lá os movimentos populares famosos da Zona Leste, aquela época que eles falavam Teologia da Libertação, que a Igreja tinha aquele trabalho todo. E a gente, pelo fato de estar ali na favela, conhecemos lá dois missionários, né, um americano, uma freira que era espanhola e a eles começou a desenvolver um trabalho de pastoral ´lá na favela.
P/2 Você lembra o nome deles?
R Um é o Benny.
P/2 Na Filizola, qual das Filizolas você trabalhou?
R Tem a Filizola aqui na marginal, né, n o alto do Pari, que é a que faz balanças, né?  E a que eu trabalhava era uma filial dela lá no Parque Novo Mundo, fazia aqueles cortadores de frios. Aí eu trabalhei lá dois anos e oito meses. Fui mandado embora lá também porque a gente criou um grupo lá dentro, um grupo de reivindicadores, né, por melhores condições de trabalho, salário, né? Interessante que pelo fato de eu estar lá dois anos e oito meses, né, e tinha um encarregado lá, eu trabalhava na sessão de furadeiras, né, trabalhava como operador de furadeiras, né? Aí eu aprendi a fazer tudo, a amolar broca, trocar broca, preparar a furadeira pros ajudantes trabalharem, né? Eles queriam me colocar como líder da sessão. Só que aí assim, eu tinha aquela questão que pra ser líder da sessão, eu tinha que brigar, já que eu ia assumir um cargo de uma responsabilidade, eles tinham que me oferecer melhores condições também. Tanto de salário, uma, como se diz, uma promoção e aumentar o salário. E melhores condições de trabalho também pra todos nós ali daquele setor, né? Aí foi que começou a nossa briga com a gerência da empresa. Aí a gente começou a bolar umas greves, né, teve uma greve lá na época das greves. E aí tinha as firmas, tinha a Força Sindical, ia direto lá fazer comício, e quando ia fazer comício a gente parava e ia ouvir as propostas do sindicato, ia fazer reivindicação, né? E os patrão não gosta disso, né? E aí, do outro lado do Parque Novo Mundo, é um bairro bem industrializado, né, agora acho que deve ter mudado, porque muitas empresas foram embora, mas antes, até 1984, 1985, por aí, tinha muita empresa ali. E aí o sindicato, a gente aproveitava que eles vinham pras outras empresas que estavam em greve e a gente também aproveitou essa época e foi fazer uma greve. Inclusive, aí fizemos uma greve lá e chegou o filho do dono da Filizola e falou: “Ninguém vai entrar, não?” “Ninguém vai entrar.” Ele falou: “Tudo bem, vocês não vão entrar.” E fechou o portão e deixou a gente na rua. E já tava todo mundo trocado com o uniforme da empresa e falamos: “Se ele não quer deixar a gente entrar a gente vai ficar aqui na rua.” Aí ficamos na rua lá jogando bola, aí quando foi 11 horas, abriram o portão e falaram: “É o seguinte: quem quiser ficar pra trabalhar, entra, vai trabalhar e a gente esquece isso. Quem não quiser pode se trocar e ir embora.” Aí fizemos uma reunião com o pessoal lá aí: “Tá bom, então vamo embora todo mundo. Já que ninguém entrou, ninguém vai entrar, vamos embora todo mundo.” Aí fomos embora, fomos, se trocamos e fomos embora. Aí no outro dia, o filho do dono da Filizola chegou lá às 4 e meia da manhã. Aí chegou e ficou lá no portão. E nós combinamos da gente, assim, teve alguns que entraram, e por incrível que pareça aquele pessoal que tinha dez anos, 15 anos de empresa que entraram, né? E aí a gente falou: “Amanhã a gente chega cedo e não vamos deixar ninguém entrar.” Nós tínhamos o costume de entrar mais ou menos umas 6, 6 e 15 lá. Aí nesse dia nós chegamos 5 horas, aquela turma da organização. Aí chegamos 5 horas, e: “Ninguém vai entrar.” Aí não deixamos ninguém entrar. Aí o sindicato também chegou cedo. Aí o sindicato começou a fazer lá um discurso e a gente começou a pressionar lá o pessoal pra ninguém entrar. Pra ninguém entrar porque a gente queria, nós estávamos lutando pra aumento de salários, não só pra nós, pra categoria inteira, pra empresa toda, pra todos os setores, né, porque também tava atrasado o nosso dissídio, né, e o dissídio era sempre o mês de novembro, né, todo mês de novembro vinha o dissídio dos metalúrgicos. E aí a gente fez essa greve, e tal, aí depois que passo tudo, aí um mês depois os caras mandaram todo mundo embora. Aqueles pessoal que eles diziam que ea os cabeça, mandaram embora. Aí eu sai da Filizola, foi quando eu falei: “Bom.” Essa greve também, a idéia assim, por que que a gente fez a greve? Devido à formação que eu tive quando comecei a participar lá da comunidade, os movimentos, né, que a gente tinha, era o movimento de conscientização, da gente brigar por melhoria, tal, né, aí eu achei esse gancho e ajudei, juntei. Aí tudo bem.
P/2 Era uma Comunidade Eclesial de Base?
R Era, Comunidade Eclesial de Base.
P/1 Quando começou? Você pode contar? E como você entrou?
R Foi assim: nessa época eu trabalhava na Filizola aí um dia de Sábado, eu estava em casa, não trabalhava de Sábado e tava em casa. E a gente tinha um grupo de jovens ali, que todo sábado a gente se reunia. Se reunia, fazia caipirinha e ficava ali em volta de casa trocando ideia, né, conversando, tal, falando sobre as festas. Principalmente era os bailes do Palmeiras que a gente ia, né? A gente tinha um time de futebol de salão, a gente jogava também, né? E todo sábado a gente fazia caipirinha e se reunia ali, né? Ficava trocando ideia ali, conversando. Aí foi quando começou esse grupo de missionários, né, o Benny, e a irmã, que chama irmã Pilar, né, que era essa irmã da Espanha. Eles passando na rua e viram a gente conversando. Aí ela chegou e começou a conversar com a gente, e tal. Falou: “Olha, a gente tá organizando o pessoal aí pra um mutirão de lixo aí na favela.” E a favela era assim, não tinha urbanizada nem nada, né, e tinha muito mato, né, o pessoal jogava lixo na rua, né, e eles começaram a falar: “Olha, vocês não querem participar? Um monte de jovem aí, rapaz novo, bonito, vocês não querem participar?” A gente falou: “Ué, por que não, né? Vamos participar.” Aí começamos a fazer o mutirão, a entrar no mutirão. Foi o meu primeiro movimento ali na favela, né, eu e os amigos lá. Aí começamos a ir na casa dos vizinhos, pegar enxada, pá, e começamos a carpir a rua, varrer a rua, né? E interessante que a gente começou a fazer e começou a chamar os outros também, né? Aí começou a todo mundo fazer esse mutirão e começou todo mundo limpar a rua. Aí recolher o lixo, né, porque tinha muito rato também na época. E quando chovia, a água descia e abria aquelas crateras assim, ficavam aquelas valetas de água. E os barracos na beira daquelas valetas, naquela época tinha muito barraco de tábua, que eles falam de tábua mesmo, de zinco, papelão, plástico.

P/2 Maderite.
R Maderite, tinha outros que era de adobo. O nosso barraco mesmo, a gente tinha levantado um barraco de adobo, né, o adobo, aquele tijolo feito na mão. A gente levantou nosso barraco de adobo. E aí começou o movimento, né? Beleza, aí começamos a fazer o mutirão de lixo, e tal, e aí do mutirão de lixo, fomos incentivados a montar um grupo de catequese. Na época a gente não tinha feito a primeira comunhão, e na época a gente não participava da Igreja, A gente ia na missa, mas nunca tinha feito a primeira comunhão. Aí ela já aproveitou e já chamou a gente pra fazer a primeira comunhão. E não tinha Igreja lá dentro da Favela, né? Aí juntou o movimento, aí começaram a montar os grupos, grupo de rua, grupo de jovem, grupo de operários, grupo de trabalhadores, grupo de mulheres, aí começaram a criar vários grupos. E esses grupos começaram a multiplicar, cada vez mais. E aí veio outros missionários trabalhar lá, tinha um seminarista que a gente fez muita amizade, que virou padre, Carlos Garcia, a gente conheceu bastante padres ali. Padre Tição, participamos muito com o padre Tição, Trabeli, na época o Bispo de lá era o D. Angélico, né, foi na época do D. Angélico que a gente participou, que o movimento era muito forte. Depois saiu D. Angélico, veio o D. Fernando Legan e acabou com o movimento, mas naquela época era muito forte. Aí a gente começou a montar o nosso grupo, aquele grupo de jovens ali, aí fizemos a primeira comunhão, e daí o grupo começou a ficar cada vez mais forte, né, aí fizemos a primeira comunhão, fizemos a crisma, e aí criamos o grupo Raízes Negras. Aí a gente já criava lá gincanas, festival de música e poesia, criamos uma rádio do povo, que eram umas cornetas, né? Colocava as cornetas lá em cima da Igreja e tinha uns amplificadores, uma toca disco e um microfone. E aí montamos o grupo de comunicação, tinha o grupo dos catequistas, o grupo de comunicação e o grupo de jovens Raízes Negras. E cada um de nós fazia parte de um grupo desses, o grupo de comunicação, cada um dava aula de catecismo, né? Aí nós já estávamos fazendo a crisma. E tinha a Rádio do Povo, que todo sábado tinha programação. E aí nessa programação, o que a gente fazia, a gente montava essa programação, né? A rádio servia pra quê? Às vezes chegava parente das pessoas que vinham do Norte e não sabiam onde morava a pessoa e a gente anunciava na rádio, né? Às vezes documento perdido, a gente anunciava na rádio, criança desaparecida, a gente anunciava na rádio, as festas, da comunidade a gente anunciava na rádio, oferecia música. E aí, assim, como era uma rádio de corneta, ela só atingia aquele povoado ali, a favela ali. E aí tinha a programação. E aí depois a gente começou a fazer as gincanas, também. Aí tinha, todo mês de junto, dia 9 de julho, tinha aniversário da rádio, e aí a gente criava o festival de música e poesia, onde você tinha que compor a música, ir lá e cantar. Aí tinha os jurados, ganhava. E tinha as gincanas que a gente fazia também, né, as gincanas da juventude. E aí começou a crescer, né? E na época do mês de junto também a gente fazia Festa Junina, montamos um grupo de quadrilha, pra dançar festa junina, todo mundo vestido tipicamente, né? As meninas, os meninos vestidos de caipira, tinha casamento caipira. E aí o grupo tomou uma dimensão tão grande que a gente saia de Hermelino pra dançar lá no Jardim Camélia, lá perto do Itaim, de Guaianazes, né vinha aqui pra Penha, dançar na Penha. O pessoal chamava a gente pra dançar, o pessoal gostava, né? Porque assim, a gente ensaiava, passava próximo ao mês de junto, mês de abril, mês de maio, a gente já começava a ensaiar, mês de maio já começava a ensaiar pra começar o mês de junto a gente sair dançando. Aí o grupo cresceu, cresceu, cresceu, aí foi quando minha mãe mudou pra Itaquera e nós ficamos morando sozinhos lá, né? Também tudo por causa desse movimento também e a gente tava na escola, né? E aí minha mãe ficou lá em Itaquera e a gente ficou lá morando desde 84, nós ficamos 8 anos morando lá na Vila, né? Aí ficou eu, dois irmãos mais novos, e o segundo, o mais velho e o segundo, eu sou o terceiro. Aí ficou ele, eu e dois irmãos mais novos. Aí ele vendeu o barraco que a gente morava e a gente: “E agora, o que a gente vai fazer? Não rolou nada pra nós, né?” E ele foi morar com a minha mãe. Aí nós estávamos lá em casa, chegou o cara pra olhar o barraco, né e falou: ”Vocês vão mudar quando?” Eu falei: “Mas peraí, mudar por que?” “Ué, eu comprei esse barraco aqui, seu irmão vendeu pra mim.” Eu falei: “Caramba.” Aí esse missionário ficou sabendo e chamou nós pra ir morar na casa dele lá, né? E a casa dele era grande e no fundo tinha 2 cômodos. Aí eu falei: “Ah, agora tem que ir pra lá, né?” Aí pegamos as nossas tralhas e fomos pra casa desse missionário, morar lá com ele. E aí o trabalho foi ficando cada vez mais intensificado. E nessa brincadeira, esse missionário casou, nós moramos juntos lá, acho que mais ou menos uns 7 anos, foi de 84 até 89, até 2000 mais ou menos. Não, 99, até 99. Aí eu já tinha saído da Filizola, já tinha trabalhado numa outra fábrica, numa fábrica de auto-peças na Mooca, que chama (Naecling?). E aí eu trabalhava nessa empresa e participava no final de semana na comunidade. E meu irmão mais novo trabalhava já lá no centro social que era na comunidade, já, né, e ele era remunerado também, né, era registrado, tudo. E o outro irmão meu trabalhava na fábrica de vassoura dentro da comunidade, e a vassoura que eles produziam, eles vendiam e aí eles ganhavam o dinheiro deles, né? E isso ajudava, a gente a fazer a compra. E o salário que eu recebia da empresa, a gente fazia compra pra casa e ajudava o pessoal lá nas despesas da casa, né? E aí nessa brincadeira a gente conheceu muita gente de fora, né? Aí eu sei que vira e mexe tinha gente da Suíça lá em casa, gente do Peru, porque quando chegava pessoas de outros movimentos que vinham pra cá pro Brasil conhecer os movimentos, ia pra Igreja lá do padre Tição, o padre Tição: “Ah, fica lá na casa da juventude.” E era aonde a gente morava, né? E ia pra lá, e aí a gente começou a ter contato com bastante gente. Pessoal da Colômbia, um monte de gente, né, e aí começamos a conhecer muita gente. Inclusive tem um cara que veio da Suíça e até hoje ele é muito amigo nosso, né? E ele ficou morando com a gente um bom tempo aí. E aí ele casou, foi embora pra Suíça e casou, mas vira e mexe ele manda notícia e tal. E aí continua vindo, né? E aí esse missionário também casou, aí foi quando o D. Angélico foi trocado de São Miguel lá pro Ipiranga e veio o D. Fernando (Legal?). Aí o movimento também começou a cair, né, as coisas comunidades começaram a diminui, se apagar mais, e a gente começou a se afastar um pouco mais da Igreja, dos movimentos populares. Mas continuamos com o grupo, morando todo mundo junto, tendo algumas atividades, mas não era tão forte igual era naquela época, né? De 1999 pra cá começou a enfraquecer mais, né? Mas o nosso trabalho na comunidade continuava. Só que não era a mesma coisa. E aí esse missionário casou, voltou pros Estados Unidos, inclusive casou com uma americana também, voltou pros Estados Unidos, e a gente continuou morando sozinho. Aí mudamos dessa casa, fomos pra uma outra casa, aí ficamos morando todo mundo junto até 2000. Aí em 2000 o pessoal começou a casar. Aí meus irmãos foram embora pra casa da minha mãe, e os outros todos casaram, foram pras casas das mães, né? Eu falei assim: “Eu não vou não, vou ficar aqui na Vila.” Aí foi quando eu fui, na época eu não morava na Vila, na Favela, né, nós morávamos do outro lado da rua, que nós morávamos na casa. Mas a gente vivia mais lá dentro da favela. Aí eu falei: “Ah, eu vou lá pra dentro da Favela, vou morar lá.” Aí foi quando eu consegui, tinha um barraco lá que estava desocupado, que era o barraco onde tinha uma escola de culinária, né, que também era do movimento na época. Aí um cara que coordenava esse barraco e esse projeto, falou: “Oh, o barraco lá ta vazio, você não quer, morar lá? Você mora lá, assim pelo menos você não deixa ninguém invadir.” Porque se deixasse naquela época, todo mundo invadia. Aí nós foi pra lá. Aí foi eu e um outro colega meu morar lá. Aí ficamos morando lá, e um irmão meu, esse hoje que é professor. Aí ficamos lá, aí meu irmão, falou: “Ah, não vou ficar aqui, não, vou embora.” Aí foi pra casa da minha mãe e eu fiquei mais esse colega meu. Esse colega meu casou, foi morar numa outra casa e eu fiquei lá. E aí começou os movimentos de urbanização na favela. Aí foi na época da Erundina, começou os movimentos de urbanização na favela. Asfalto, aí asfaltou todas as ruas, muita gente que morava em área de risco eles tiraram, né, lugar onde tinha dois barracos, que morava duas famílias, tirou uma e aumentou o espaço pra outra família, e aí foi transformando onde era favela, hoje se tornou Vila. Você não vê mais barraco de madeira, você não vê mais barraco de... Tudo, tudo é alvenaria, tudo bloco, tijolo baiano. E tem casa hoje lá, que se você vê, você vai aqui nos Jardins você acha uma casa igualzinha. Você vai nesses bairros de alta classe, tem. Então assim, hoje, se tornou realmente uma vila, né, hoje nem parece. E assim, tudo isso a gente tem filmado, né, porque quando a gente fazia as gincanas a gente filmava, quando a gente fazia os Festivais a gente filmava, tirava foto, né? E a gente tem isso filmado. Eu lembro, na última gincana que nós fizemos, a última, não, a penúltima que nós fizemos foi a gincana do verde, né? Que era assim plantar árvore dentro da Vila, que a gente não chamava mais de favela, chamava de Vila, Vila Nossa Senhora Aparecida. Aí fizemos essa gincana que a prefeitura urbanizou e fez os canteiros, né, as pracinhas onde tem os canteiros. Aí fizemos essa gincana pra poder plantar árvore dentro da vila, né? Aquela equipe que plantasse mais árvore, ganhava mais ponto. E aí foi, que chamava a gincana do verde. Aí montamos equipe, pegamos a criançada, jovem, adulto, e fizemos a gincana e plantamos, né? Nossa, precisava ver, não parecia que era aquela favela. Você vê o filme de 1984, 1985, e ver o filme agora em 1999, em 2000, você fala: “Não era aquela Vila daquela época, não.” E aí ficou lá, os canteiros bonitinhos. Aí, depois de 6 meses, teve alguns canteiros que a pracinha morreu, né, mas outros as árvores cresceram, ficou muito bonito, ficou legal, né? E aí tem a pracinha que a gente fazia os festivais, as gincanas, né? E aí foi mudando, foi mudando, e a gente também foi se afastando um pouco mais e aí foi quando surgiu o Centro de Educação. Aproveitou esse movimento e criaram o Centro de Educação. Aí o Centro de Educação começou como uma creche.
P/1 Quando foi isso?
R Isso foi em 1997, 1995, 1997, surgiu o Centro de Educação. Aí ela começou como creche, né, pra atender as crianças, as mães saiam pra trabalhar e pra não deixar as crianças sozinha em casa, ia lá pra creche, né? E da creche, ele foi crescendo. Aí fizeram um projeto e mandaram pro Banco Safra. Aí o Banco Safra construiu uma outra creche que era fora da Vila, mas era bem encostado, mas era fora da Vila. E o Centro de Educação na Vila começou a trabalhar com projetos profissionalizantes e atender adolescentes de 15 a 17 anos, que é onde eu trabalho hoje.
P/1 E quem cuidava do Cento de Educação? Nessa época os padres ainda estavam lá ou era a comunidade? Como é que funcionava?
R Era a comunidade. Quando surgiu o Centro de Educação, os padres já tinham ido embora. Os missionários já tinham ido embora, o padre Tição ajudava, mas não participava. Inclusive, quem tomava conta era o pessoal da comunidade que foi eleito pra cuidar. A Sônia, que era uma das responsáveis e o Aristeu que era o meu irmão, que na época era Coordenador do Centro de Educação. Aí foi através dele que eu entrei pra trabalhar no Centro de Educação. Aí foi quando surgiu, né? Aí foi quando eu saí, eu fiquei na dúvida de comprar o computador ou a moto, né? E aí o Aristeu na época fazia faculdade, fez tecnólogo em processamento de dados na Unicsul, lá em São Miguel. E ele tinha um computadorzinho lá, um 386, aquele bem antigo. Aí eu falei, “Bom, eu vou comprar um computador, comprar um 486, né?” Aí eu comprei um 486, aí ele falou: “Pô Anísio, tô fazendo faculdade, eu tenho que fazer os trabalhos da faculdade e meu computador não dá pra fazer, vamos fazer o seguinte: você deixa eu usar o seu computador, eu instalo o Windows nele e você aprende a mexer no Windows.” Eu falei: “Tudo bem, sem problema.” Aí ele vendeu o computador dele, instalou Windows, aí foi quando eu comecei a aprender a mexer com informática.
P/1 Ele?
R Eu. Ele já fazia, já mexia, ele tava fazendo faculdade de processamento de dados. Aí antes disso eu tinha feito um curso na S.O.S., né? E o curso que eu fiz na S.O.S. não tinha Windows ainda. Era Wordstar, Dbase, Lótus, aqueles programas, né, noção em Clipper, né? Aì quando eu terminei o curso da S.O.S., já não se usava mais esses cursos. Aí veio o Windows, aí eu falei: “Caramba.” Aí eu já tinha uma certa noção de mexer no computador, e aí através dum livro que o Aristeu tinha, o livro do Windows, passo a passo, eu comecei a aprender a mexer no Windows, sozinho. Aí quando chegou no Word, no Excel eu falei: “Bom, agora eu preciso fazer um curso, né, porque isso aí é mais complicado, tem muito mais coisas.” Aí eu fui fazer um curso na Santa Cecília de Windows, Word e Excel. Aí fiz um curso, de lá pra cá fiz outros vários cursos e aí foi quando eu saí em 1999, eu saí dessa firma lá da Mooca. Aí eu tava desempregado e já morava na Vila já. Já morava sozinho lá na vila. Aí o Aristeu falou: “O, saiu um professor que dava aula aqui de informática no Centro, e eu tô sem professor.” E isso foi em outubro de 1999 pra 2000. Ele falou: “Olha, eu tô sem professor, já que você tem uma noção, você não quer ficar lá até o final do ano? Porque eu não vou contratar ninguém agora. Se você gostar, eu te efetivo. Se você achar que não dá pra ficar, eu arrumo outro professor.” Aí eu fui pro Centro de Educação. Aí comecei a trabalhar no Centro de Educação, dar aula lá, na época o Centro de Educação tinha sete computadores só, desses sete, só quatro funcionava. E aí eu comecei a bolar lá as lições. Eu conhecia bem o MS-DOS, conhecia o Windows, aí comecei a bolar as lições e comecei a dar aula pro alunos. Aí quando foi em 2000, aí o Aristeu conseguiu um projeto lá que conseguiu arrumar mais 4 computadores, arrumou os que estavam quebrados, aí ficamos com 8 computadores funcionando. E aí foi. Aí um dia, Aristeu voltou pra casa da minha mãe. Nessa época que eu comecei a trabalhar no Centro de Educação, ele tinha voltado pra casa da minha mãe. Aí um dia eu tava na casa da minha mãe, ele tava mexendo na Internet, eu fui lá também mexer na Internet. Aí, mentira, não foi nem na Internet, foi no jornal, foi na Folha de São Paulo, parece, que eu vi uma reportagem sobre o CDI, lá do Rio, o CDI lá da favela da Rocinha. Eu falei com o Aristeu, eu peguei na Internet e eu mandei um projeto pra lá, que era aqui pro CDI. Aí ele mandou o projeto pro CDI e demorou. Aí depois de acho que quase 1 ano, aí foi a menina do CDI lá fazer a vistorias no Centro de Educação, aí aprovou o projeto. Aí no finalzinho de 82 eles mandaram os computadores, aí viemos fazer a capacitação no CDI lá em Santo Amaro, lá na Amcham. Aí foi quando começou a parceria do Centro de Educação com o CDI. E quando ele fez o projeto que foi lá e aprovou, aí ele saiu do Centro de Educação porque ele tinha um projeto de ir pra Inglaterra, né?  Ele saiu do Centro de Educação, vendeu o carro dele, pegou todo o dinheiro, transformou em dólar e foi embora pra Inglaterra, foi pra Londres. E aí uma outra menina lá assumiu a Coordenadoria do Centro de Educação. E aí ta lá até hoje, eu tô lá até hoje no Centro de Educação. E aí tô indo, tô indo, até.
P/1 Qual é a tua atividade lá?
R Eu dou aula de informática lá, dou aula de informática. Interessante que assim que a gente começou a trabalhar com os movimentos lá na favela, teve uma onda de justiceiro muito forte. E saiu, saiu no jornal, o Jornal Nacional falava direto, né, os justiceiros lá na Nossa Senhora Aparecida, não tinha um final de semana que os caras não matavam gente lá, né? Quantas vezes a gente estava fazendo o festival de música, aí chegava os caras lá. Eles só chegavam em bando, né, tinha 5, 6, e tudo armado. Aí pedia pra gente guardar os revólveres lá na. Porque tinha assim, a gente fazia na praça, montava o som na praça e na frente da igreja tinha um salão e do lado tinha a praça. E aí nós montávamos o som na praça, e dentro do salão a gente fazia o barzinho pra vender bolo, salgados, e vender cerveja também. E aí eles queriam porque queriam que a gente guardasse os revólveres lá dentro do salão. A gente falava: “Não, a gente não vai guardar revólver aqui, não.” Só que eles não podiam fazer nada com a gente porque naquela época, eles tinham um medo danado do padre Tição também, né? Que os movimentos eram muito fortes e eles tinham que ter um certo respeito pela gente. Só que aí eles ameaçavam, ameaçavam, mas não faziam nada, né? Porque a gente sabia que eles não faziam, né, porque não podia. A gente, todo mundo lá participando da Igreja, o movimento era forte, só que eles viviam ameaçando, né? E aí um dia nós estávamos lá, foi o festival de música e poesia, mês de julho. Nós estávamos lá, 5 horas da tarde, no sábado, montando o som, né. E na época, quem cuidava do som era eu, eu montava o som e ficava operando lá. Tinha mesa de som, tudo. E aí nós estávamos montando, eu e um colega meu, o Aragão, que era um dos cabeças também lá do grupo nosso, nós estávamos montando o som na praça na frente da Igreja e aí chegou. Tinha um cara lá que é o chefe deles lá, né, que eles chamavam ele de Costurado, né, ele chegou: “E aí Aragão, essa festa vai até que horas? Eu venho dançar muito aí. Se eu chegar e acabar a festa, o tiro vai comer, né?” “Não, pode deixar, Costurado, vem aí que tá beleza.” Aí montando o som, aí um outro, que tava com ele, um molequinho assim, tirou revólver e começou a dar tiro na luz, no poste de luz e começou a dar tiro. “Pá! Pá!” E nós lá montando o som numa boa, deixa ele, não tá atirando na gente, tudo bem. E o cara fazendo a lâmpada de tiro ao alvo. “Tudo bem, deixa o cara atirar, né, beleza.” Aí montamos o som, tal. Aí saíram, foram embora. Aí começou a escurecer, né, e não tinha ninguém, né, só tinha nós que estava cuidando da festa mesmo. Aí eu falei: “Hoje não vai vir ninguém, né, os caras já espantaram o pessoal, todo mundo, né?” Só que chegou um momento que o pessoal já começou a acostumar com os tiros, com as mortes, né, e quando tinha festa o pessoal ia mesmo, não tava nem aí, não. Aí começou a escurecer, já umas 7 horas da noite, a gente começou a soltar o som. E aí quando foi 8 horas ele chegou lá. Aí chegou o bando de novo. Os caras de moto com revólver lá. Aí um colega nosso que estava vendendo cerveja foi vender lá do outro lado do balcão lá assim, fazia uma mesa e tinha o freezer o balcão lá e a caixa onde o pessoal comprava a fichinha e ia lá pegar no balcão. Aí o meu colega servindo lá e sei que acho que ele se invocou com esse meu colega lá né? E falou pro cara: “Você tá me olhando por quê?” Aí ele: “Não, não tô olhando pra ninguém, não.” Aí ele tirou o revólver e pôs assim na testa dele: “Você quer que eu te dou um tiro agora? Dúvida que eu não te dou um tiro agora?” “Não duvido de nada não, duvido de ninguém, não.” “Fala alguma coisa pra ver se eu não te dou um tiro agora.” Aí meu colega ficou quieto, aí passou. E eles começou a criar uma rixa entre eles, né, e tinha um outro cara que também era perigoso, que fez parte do bando dele, só que ele tinha medo desse outro cara, disse que o outro cara era doido pra matar ele também, né? Aí tá lá essa muvuca toda, essa confusão danada, aí ele ficou sabendo, o outro chamava Mane Birosca, o Costurado tinha medo do Mane Birosca. O Mane Birosca já foi do bando do Costurado e tava doido pra matar o Costurado, que ele era um cara folgado. Ele vivia aterrorizando todo mundo, né? Quem ele achava que ele poderia amedrontar, ele ia pra cima mesmo. E aí esse Mane Birosca chegou, a hora que ele percebeu, ele disfarçou e saiu fora com o bando dele. Aí o Mane Birosca era muito amigo da gente também. Aí contamos pra ele e ele falou: “Deixa ele, os dias dele tão contados.” Aí beleza, aí passou, aí nesses dias, a festa rolou numa boa, né, sei que nós fomos parar às seis horas da manhã. Aí no domingo de novo. Começamos a festa de novo e eles vieram de novo e fizeram todo aquele alvoroço, mas como a gente não tinha medo, né, continuou. Aí terminou a festa no domingo, terminou meia-noite. Aí passou, né? A gente sempre fazia festa na época de festa junina, sexta-feira à noite a gente fazia som. Nas ruas a gente montava as caminhonetes, fazia as festas. No Centro de Educação, a gente fazia baile também. E mesmo com toda a violência que tinha lá na Vila, a gente não tinha medo, a gente fazia festa mesmo, baile mesmo pra divertir, né? Até hoje o pessoal fala, né, que antes, quando era mais perigoso, a Vila tinha muita festa. E hoje que tá mais calmo, o pessoal não faz festa mais. Diz que a vila tá morta mesmo. Os moradores falam que a vila ta morta. E quando encontram a gente falam: “Cadê vocês, vocês não fazem mais festa?” A gente fazia muito domingueira, né, música ao vivo, tinha muito grupo de samba naquela época, né? Inclusive tem um grupo famoso hoje que é o Mi Menor. Eles começou a tocar com a gente, né? Hoje os caras têm CD, tá gravado. E aí, assim, a gente fazia as domingueiras, e o pessoal vinha. Esses caras que eram também era justiceiro também vinham. E aí um dia nós estávamos lá no dia de sábado fomos fazer uma festa lá, aniversário da equipe nossa de som. Aí montamos a festa lá e eles chegaram. Chegaram e pediram pro Aragão, que é o colega nosso, guardar todos os revólveres lá na sala do Centro de Educação. Aí guardamos numa boa. “Eu vou tomar cerveja, tem cerveja aí? E não vou pagar, não” “Ah, pode tomar à vontade a cerveja aí, Costurado, pode tomar à vontade.” Aí tomou, tal, aí: “Eu vou dar uma volta, depois eu volto aqui pra dançar de novo.” Aí chamou a turma dele lá e saiu. Aí foi o dia que mataram ele. Ele subiu pra um bar que tinha na avenida, fora da favela, e acho que foi folgar com um cara lá que não sabia, nem sei quem era. O cara acho que era mais perigoso que ele, foi lá e deitou ele, matou ele lá, né? Aí isso era o quê? Era umas 2 horas da manhã. Aí quando acabaram de matar ele. Só vem a molecada descendo pra baixo. Aí uma mulher lá que é madrinha do Aragão, que é esse colega nosso: “Aragão, para o baile que mataram o Costurado.” Aí ele falou: “Não, agora que o baile vai continuar mesmo, agora o baile vai até 7 horas da manhã.” Aí o baile encheu. Encheu e a gente foi até 7 horas da manhã. Aí depois desse dia que mataram ele acabou-se. Os caras sumiram todo mundo. Aí a vila sossegou.
P/1 Logo depois vocês montaram a EIC?
R Aí depois montaram a EIC, isso.
P/2 E já tinha informática lá antes da EIC, né?
R Não, nessa época, ainda que a gente fazia baile lá, ainda era creche, ainda atendia a criancinhas ainda, crianças de 0 a 4 anos. Aí depois que acabou, que isso daí foi quando o Banco Safra construiu a creche. Aí mudaram pra outra creche e a gente começou a atender adolescentes. Mas isso aí foi depois, bem depois.
P/1 E você fez o curso do CDI? Formação de Educador?
R Fiz o curso do CDI de Formação de Educador.
P/1 Como que foi esse curso? Você se inscreveu? Como foi?
R É, eles mandaram a inscrição. Assim quando eles mandaram os computadores, eles já mandaram a inscrição que eu tinha que fazer o curso de formação, né? Aí a gente foi fazer o curso de Formação, né? Lá em Santo Amaro.
P/2 Quantas pessoas foram da comunidade?
R Foi eu e mais duas meninas. Duas educadoras.
P/2 Os outros tinham algum conhecimento de computador? Você já tinha, né?
R Tinha porque eles aprenderam comigo. Eles eram ex-alunos da EIC.
P/2 Que não era EIC ainda.
R Que não era EIC ainda, era o Centro de Educação. Mas já tinha o curso de informática.
P/1 Que você dava.
R Que eu dava, isso. Aí eles foram fazer. Aí, quando o CDI mandou os computadores, mandou a ficha pra eu me inscrever, e eu tinha que escolher mais duas pessoas. Aí eu escolhi dois alunos que tinham terminado o curso. Aí eu fiz o convite pra eles, perguntei se eles queriam fazer, eles se interessaram, e aí nós fomos fazer o curso de formação pelo CDI. Aí fizemos esse curso, aí começou. Aí eu dava aula. E esse projeto onde eu dou aula hoje, não é um projeto só com o CDI, esse projeto já era um projeto da prefeitura, né, conveniado com a prefeitura. Então lá no Centro de Educação a gente tem o curso de marcenaria, curso de auxiliar administrativo, curso de informática. E tem os cursos culturais, né, que tem também a banda, curso de percussão. Inclusive foi montada a banda juventude da Vila, né, que é uma banda lá de percussão. E também tem os cursos lá de capoeira, dança afro, né, outros cursos culturais, curso de teatro.
P/1 E a EIC tá integrada a esses vários cursos?
R Está.
P/1 Vocês usam computador? Como é que é isso?
R Sim, usamos os computadores pra preparar aula, pra montar, criar documentos, essas coisas todas. Aí depois que veio o CDI, veio também um projeto também da Telefônica, que é pra rede de Internet, né? Então a gente tem 5 computadores lá ligado à rede GSAC, o programa GSAC que é com a rede de Internet via satélite. Que foi assim que veio o CDI, eles vieram também pela Telefônica.
P/2 Como é que vocês conseguem esses contatos? A Telefônica, Banco Safra?
R Olha, o Banco Safra foi um projeto criado na época pelos movimentos. A Sônia, na época era a Sônia, o Benny, eles criaram esse projeto e mandaram através do Tição, mandaram pro Banco Safra. E aí eles viabilizaram. Eu não tenho assim claro mesmo, como que eles chegaram até o Banco Safra, mas eu sei que foi através do Tição, através dos projetos, que já tinha, esse projeto tinha aqui e se expandiu, né?
P/1 Você tava falando que você foi fazer a Formação lá em Santo Amaro.
R Lá em Santo Amaro, na Amcham.
P/1 Como é que era? Como era a turma? O que eles ensinavam lá? Como que foi?
R Pra mim foi bom porque a questão pedagógica, né, quer dizer, eu dava aula, mas não tinha assim muita formação pedagógica, né, que assim, você preparar a aula, você ter um tema pra você trabalhar, na questão da cidadania, mesmo, né? Então eu não tinha muito claro isso, então o curso lá na Amcham foi mais pra isso, pra me dar essa clareada na questão pedagógica, trabalhando a informática e a cidadania ao mesmo tempo. Porque assim, o conteúdo em si de informática, eu já tinha, normal. Então mais foi o lado pedagógico, que me ajudou muito.
P/2 Como vocês aplicam lá?
R Então, através dos trabalhos que tem, dos outros trabalhos culturais, e a gente trabalha também, que nem, agora a gente tá montando um escritório, é um outro projeto que tá surgindo agora, um escritório pra fazer estágio com os alunos, né, de um cara que ta montando um escritório de, como fala, de recreação. Ele vai lá na sexta-feira dar um curso de recreação, de férias e aí ele deu a idéia da gente montar esse escritório pra estagiar os alunos. Alunos que terminam o curso, ou aqueles que tão no meio do curso, aí vai pra esse escritório fazer um estágio, né, e pra depois talvez a gente ta enviando pra algumas empresas também, né, pra ter outras oportunidades. E a gente trabalha a cidadania usando a informática. Eu mesmo, particularmente falando de mim, da minha aula, eu uso poemas, né, eu uso o programa Excel com o que aconteceu na época na Vila, o que tem hoje, a realidade, a questão econômica, a questão trabalhista, então a gente monta a aula em cima disso. E a gente trabalha também a informática dentro disso daí. O Excel, o Word, o PowerPoint. Eu uso muito o PowerPoint pra trabalhar com poemas, né? Assim, eu crio alguns poemas e dou pros alunos montar alguns slides com esses poemas, falando sobre cidadania, sobre o aprendizado de ler e escrever, a importância do ler, do escrever, até mesmo de você explorar o seu dom de criar alguma coisa. Aí eu peço pra eles montar alguns slides em cima disso. E aí a gente trabalha lá com Windows, Word. Não, eu começo lá do MS-DOS. É o MS-DOS, o Windows, o Word. Só você vendo, se você pegar uma fita, uma fita que a gente tem.
P/2 A Cidade Júlia, a Favela Cidade Júlia como era e como ficou depois. Porque era um barrancão, continua um barrancão  mas um barrancão asfaltado, um barrancão seguro inclusive.
R Lá também tinha uns barrancos, ela fez um muro de arrimo, assim, nossa.
P/2 A Erundina é uma das pessoas mais importantes dessa cidade e está aí hoje, esquecida.
P/1 Vamos lá. Anísio, você pode começar falando quantas turmas são a unidade dele?
R Hoje nós temos quatro turmas, eu trabalho com quatro turmas de adolescentes, né? Não, oito turmas. A gente dividiu assim: antes era duas turmas a semana toda, né? E aí, como a gente começou a ter muito problema com freqüência, e também com a própria escola do estado. Por quê? Porque hoje o estado pega os adolescentes e matrícula os adolescentes pra estudar de manhã, né? E aí, de manhã e à tarde é a hora que esses adolescentes estão indo pra escola, e aí a gente começou a ter esse problema com questão de matrícula e freqüência, né? E alunos que desistiam porque a escola mudou pra de manhã. Antes era à noite, agora passou pra de manhã. E aí, o que que a gente fez? A gente dividiu a semana, né? Então, dia de quarta-feira é dia de lazer, dia de recreação. No projeto da Prefeitura, eles exigem que a gente tem que deixar um dia pra recreação com os alunos. E aí a gente montou essas oito turmas, né? Aí tem duas turmas de manhã que são uma hora e meia de aula de informática pra cada turma. Então de manhã a gente tem 3 horas, uma turma fica na sala 1 hora e meia, na minha sala, depois sai da minha sala e vai pra sala onde a professora de administração, aquela rotina de escritório dá aula. E a outra turma que tá na sala dela, sai da minha turma e vai pra minha sala. E isso é segunda e terça. Então, de manhã são duas turmas. À tarde, é a mesma coisa, mais duas turmas. Uma turma fica na sala do curso de auxiliar administrativo e a outra turma no curso de informática. Aí uma hora e meia, ela sai dessa sala e a outra turma da outra sala vem pra minha sala. Então aquele rodízio, né? E quinta e sexta, mais quatro turmas, duas de manhã e duas à tarde. Então, no total são 8 turmas de adolescentes, né, que eu dou aula.
P/1 A idade, mais ou menos.
R De 15 a 18 anos. E tem também os adultos, os adultos é aos sábados. Eu dou aula aos sábados, das 8 da manhã às 11 e ele da 1 às 4. Só que eu dava aula, né? Aí, como a gente tem 3 educadores, uma ex-aluna que se formou pelo CDI também ficou com essa turma de sábado. E tem a outra que dá aula durante a semana à noite. Tem uma turma das 5 às 6 e meia, e outra turma das 6 e meia às 8, que é uma hora e meia também. E durante a semana é de segunda e terça, quarta e quinta. Então são mais as turmas durante a semana. E aos sábados, eu acompanho essa. Só que daquela turma que a gente se formou, aqueles dois educadores que se formou lá em Santo Amaro, que era na Amcham, antigamente, só uma educadora continua. Porque a outra também é ex-aluna, mas como ela já estava engajada na aula de dança, ela fazia parte da Banda Juventude da Vila, ela falou, “Ó, professor, eu não quero mais dar aula de informática, eu quero dar aula de dança.” “Tudo bem, sem problema, você escolhe o melhor caminho pra você.” Aí ela dá aula hoje lá na comunidade, no Centro de Educação de da dança afro. A gente pegou um outro ex-aluno que fez outro curso de formação pelo CDI aqui na Anhembi-Morumbi. A última formação que teve, que eu participei. A ex-aluna também, que dá aula aos sábados, né, se formou e fez o curso de formação na Anhembi-Morumbi pelo CDI também. Que eu também participei com essa outra educadora. E aí tem essas turmas.
P/2 Voltando às atividades pedagógicas, teve alguma experiência, assim, da comunidade, um projeto com a comunidade utilizando...
R Olha, como a gente já tinha essa maneira de montar essas gincanas, teve um dia, a última gincana que nós fizemos no ano passado, foi o ano passado? A gente montou a gincana lá do Centro de Educação mesmo, a gincana da juventude. Onde os próprios alunos do Centro de Educação montaram as equipes, pegamos equipes de fora também, que não faziam parte do Centro de Educação, outros jovens que não faziam parte do Centro de Educação, e aí nós montamos três equipes de jovens pra gincana. E o intuito dessa gincana era conseguir assinaturas pra gente asfaltar uma rua que os moradores estavam cansados de mandar pra Prefeitura, pedido, pedido e nunca vinha ser asfaltada. E aí a gente montou essa gincana com esse intuito. Além da gente arrecadar as assinaturas, a gente ia lá na subprefeitura, trazia o subprefeito pra ele dar uma olhada qual é a rua que tinha que ser urbanizada, né? Aí fizemos essa gincana, conseguimos arrecadar muitas assinaturas no abaixo-assinado, e trouxemos o subprefeito, que é de São Miguel, né? Porque assim, tem uma avenida que corta assim, como foi dividido, tem a subprefeitura de Hermelino e tem a subprefeitura de São Miguel. Então, a Vila faz parte da subprefeitura de São Miguel, e essa rua tá do lado de cá da Avenida (Deu?) Tavares, que faz parte da subprefeitura de São Miguel, quer dizer, é uma burocracia desgraçada, entendeu? E aí a gente foi, trouxemos o prefeito. “Já mandaram vários abaixo-assinados dos próprios moradores da rua e vocês nunca atenderam e a gente tá aqui.” E ele também participou da gincana, né? E aí colhemos essas assinaturas e mandamos, né? Esse foi um projeto que a gente criou. Interessante que a gente achava que os moradores dali não iam querer participar da gincana, né, porque até então, tem uns vizinhos lá do Centro de Educação que acham que o Centro de Educação é muito fechado, e tal, não gostam de participar muito. Mas aí quando a gente começou a gincana, a gente começava sempre com tarefas esportivas, no sábado. E as gincanas duravam duas semanas, né, só nos finais de semana. Começava no sábado e terminava no domingo. E aí levou dois finais de semana. Os primeiros finais de semana, foram tarefas esportivas, né, tipo corrida, futebol masculino, futebol feminino. E aí os moradores começaram aos poucos, e foi indo, foi indo, foi indo, quando a gente viu tava a Vila inteira participando da gincana, né? E aí foi interessante que os próprios adolescentes, no começo começou frio também e quando eles viram que começou a pegar fogo... A gente filmou, tem tudo filmado, e aí mandamos essas assinaturas pra Prefeitura, pro subprefeito, né? E aí, mesmo assim, demorou pra eles virem e começar a mexer na rua.
P/2 E da EIC? Surgiu alguma coisa EIC que mexeu com a comunidade?
R Olha, da EIC mesmo, só a EIC mesmo, não tem assim um projeto que fez a diferença na comunidade. Ainda não conseguimos fazer isso. O que acontece, o que é muito usado mesmo, o que mexeu mesmo com a comunidade foi mesmo a questão dos cursos de informática. Principalmente quando abriu pra adulto. É o curso de informática e a sala de internet, né? Esse, acho que foi o que a gente tem de mais concreto, que mais mexeu, um pouco, né? Não foi aquela transformação mesmo grandiosa, mas realmente despertou muito interesse deles participarem mais da EIC. Fora esse projeto aí da gincana, foi mais a questão da escola, mesmo.
P/1 Dá pra perceber se tem diferença entre o interesse dos adultos em participar da EIC e dos jovens, ou é mais ou menos a mesma expectativa dos dois, pelo que você percebe?
R Eu acho que os adolescentes, os jovens, têm mais vontade, né, os adultos também, mas o jovem é sempre mais curioso, ele quer conhecer mais coisas, né? Tem. Nós temos adultos que participa, que vai...que quer conhecer, quer fazer o curso, mas aí quando chega mais ou menos no meio do curso bate aquele desânimo, aí você tem que estar incentivando, levando a auto estima e indo em busca pra que eles consigam terminar o curso.
P/2 E quando vocês têm alguma dificuldade em relação à pedagogia da EIC, como é que vocês fazem, vocês recorrem à EIC, ou resolvem entre vocês mesmo?
R Olha, a gente recorre à EIC, né, às vezes quando é caso assim que tem, leva pra EIC, vai ser discutido na EIC mesmo. Inclusive, além das formações do CDI, o Centro de Educação está passando por uma reformação, tanto administrativa quanto de cursos, né? E tem uma mulher, a Regina, ela ta prestando assessoria pra diretoria do Centro de Educação pra dar uma nova cara administrativa pro Centro de Educação. Por quê? Porque quando o Aristeu saiu, a coordenadora que foi pra lá, sentiu muita dificuldade, porque ela nunca tinha trabalhado assim com esse projeto, né, e com essa EIC. Ela participava, ela trabalhava na creche, mas era só na parte administrativa. E quando ela foi pra lá, ela viu uma coisa maior. Então ela chegou, nos reunimos e falou, vamos ter que pegar uma assessoria aí. Se bem que também, o Centro de Educação tem além da parceria com o CDI, com a Prefeitura, ele tem um projeto com a Visão Mundial. Que está acabando também, vai encerrar parece que nesse ano. Mas antes de encerrar, a gente vai mudar a sala de informática, tá previsto construirmos. Porque assim, o Centro de Educação, onde eu dou aula, é um outro espaço separado mesmo de onde fica lá o Centro de Educação. Mas é Centro de Educação também, só que fica numa outra rua. E aí a gente vai jogar tudo pro mesmo prédio agora. E tem uma sala enorme que está sendo construída só que como o Centro de Educação é uma entidade filantrópica, recurso é complicado e aí a Visão Mundial tá dando uma forma, um projeto da Visão Mundial pra reconstruir essa sala de informática. E aí se viu a necessidade de fazer essa reforma também administrativa e estamos até discutindo também se realmente. Porque estamos tendo problemas com o curso.de marcenaria também. Por quê? Porque o material é muito caro, a prefeitura não deixa que os alunos produzam produto pra vender, não pode. Porque como é um Centro de Educação, é só pra ensinar, e a gente vê a necessidade, pra você ensinar, você tem que fazer. Então estamos estudando se realmente vai continuar com a marcenaria, se vai mudar pra um outro curso. Já pensamos em manutenção de computadores, ou outros cursos mesmo, outras áreas, corte e costura. Então assim, está passando por uma reformulação, tanto administrativa quanto pedagógica também, né? E aí temos sim, uma certa dificuldade no momento, até mesmo de organização interna dentro do Centro de Educação. Estamos encontrando dificuldade, mas aquelas dificuldades que a gente consiga resolver nós mesmo, a gente resolve na base do diálogo, de reuniões, né, reuniões de planejamento. Aí, assim, uma vez por mês também estamos tendo uma outra formação pedagógica, de uma outra professora que vai lá. Ela é voluntária, acho que ela trabalha no Projeto Avisa Lá, e ela vai lá dar uma aula de pedagogia pra gente também, de como você criar projetos, de como você montar aula, como você trabalhar com o adolescente, entendeu? Então a gente está tendo. Mas o Centro de Educação, do começo do ano pra cá, ele deu uma certa caída em termos do que vinha fazendo. Tanto é que a banda lá dos jovens, a banda de percussão, deu uma parada também. E estava muito forte, estava bem encaminhado, só que ela deu uma caída. Então por isso que se viu essa necessidade de fazer essa reformulação. E a gente está traçando projetos administrativos e de cursos pro Centro de Educação, uma nova mudança.
P/2 E como é que é a relação com o CDI de vocês?
R Olha, eu vejo muito boa. Muito boa porque o CDI me ajudou muito. Meu deu muita força, enriqueceu mais os meus conhecimentos em alguns cursos que eu fiz, né, pelo CDI. Hoje nós não temos problemas com máquinas quebradas na EIC porque eu mesmo conserto as máquinas. Deu problema, eu mesmo faço a manutenção, porque fiz um curso pelo CDI de manutenção. A oportunidade que eles me deram, eu fiz o curso, então hoje mesmo eu arrumo as máquinas, então não temos dificuldade. Fiz um aperfeiçoamento de Excel aqui no CDI e a minha formação pedagógica também ajudou muito, que eu tive aqui pelo CDI. Então, assim, eu vejo essa relação muito boa. E ainda, às vezes, eu brigo muito com o coordenador por causa disso, porque às vezes eles não tem muita assim, ele é um pouco desligado, né, assim do que acontece. E às vezes eu falo: “Olha, vocês têm que ver mais, participar mais, conhecer mais o CDI. Aproveitar mais as chances que o CDI oferece. O Centro ta com dificuldade? Por que não buscar ajuda lá?” Acho que assim, é um caminho, a gente tem que estar aproveitando todos os caminhos que nos oferecem. Todas as ajudas que nos oferecem, seja ela mais simples ou mais especial, o que for a gente tem que estar pegando, né? Afinal de contas a vida gente é cada dia aprendendo mais. E aí, eu sei que esses dias, sempre quando tem relatório, o CDI manda relatório. Que nem, teve aí o relatório da EIC, que era pra mandar. E aí, assim, eu tive que estar correndo atrás do coordenador pra ele estar vindo responder às questões, né? E eu já tenho lá o meu trabalho, a minha aula, que eu tenho que preparar aula pros alunos, eu tenho que estar preocupado com as máquinas que derem problema, né, com as turmas. E aí, assim, e às vezes eu pego muito no pé deles por causa disso também. Tanto é que uma vez, me propuseram por que que eu não seria coordenador? Eu falei: “Não, eu gosto de dar aula. O meu dom tá aqui, né? Se eu for querer ser coordenador, não é o que eu quero.” Então eu gosto de passar o conhecimento que eu tenho. E às vezes eu pego muito no pé por causa disso, mas eu vejo a relação do Centro de Educação com o CDI, acho muito boa. Eles oferecem muita oportunidade, muita ajuda. E assim, agora a gente tem que saber como usar essas ajudas, né? Como aproveitá-las, né, essas ajudas.
P/2 E como é que faz pra entrar numa EIC?
R Eu acredito assim, pra você entrar numa EIC pra você trabalhar, você tem que gostar. Você já tem que ter uma vivência pra você fazer um bom trabalho. Porque pra você entrar numa EIC visando renda, você vai se frustrar porque renda não tem. Você faz pelo gosto, pelo prazer que você sente. Porque assim, a gente sabe que grana ta difícil, né, a gente tem casos lá de alunos, adultos mesmo, falar: “Eu tava fazendo um bico, tô desempregado e vou sair do curso.” “Não, não sai, não. Pode continuar. O dia que você puder, se não puder pagar em dinheiro, você pode ajudar nisso, no dia que precisar podia dar uma força, mas não pode sair, não, vamos continuar o curso. Termina o seu curso aí e isso é uma maneira, o Centro de Educação tá aqui pra ajudar você. Não é porque você não pode pagar 15 reais que você vai deixar de estudar. Então a gente tá aqui pra ajudar.” Então assim, eu acho que você fala: “Ah, vou dar aula de informática lá numa EIC pra pode ganhar dinheiro.” Não, acho que aí é engano, né? Então, assim, você tem que fazer pela consciência, pelo que você gosta, visando lucro, não.
P/1 E o caso da Internet, como que é? Vocês também durante as aulas da EIC vocês incorporam a Internet, ou ela serve pra uso da comunidade? E pra que que serve a Internet?
R É, pros alunos que fazem curso, tem um horário certinho pra eles acessarem. E durante a semana tem um horário pro público acessar também, né? Então assim, tem o horário dos alunos e tem o horário do público, vai lá e acessa. Pra fazer pesquisa, ou se cadastrar lá no Bolsa-Trabalho, cadastramento de CPF, currículo, então tem os horários certinhos.
P/2 Os alunos, como é que é pra se matricular? Eu quero ser um aluno da EIC, o que que eu faço?
R Tendo vaga é só ir lá no Centro de Educação, preencher uma ficha e aguardar o começo das aulas, a turma. Aí tem uma ficha, uma entrevista com eles, tem que ir um responsável pra assinar. Eles preenchem uma ficha, respondem um questionário, e a partir daí ta..
P/2 Tem uma seleção prévia?
R Não tinha, né? Devido a a gente ter tido muito problema há uns meses atrás de alunos que não sabiam ler nem escrever, mas queriam fazer curso de informática. Aí ele se matriculava, preenchia a ficha lá, mas não tinha nenhum processo de saber qual o nível de escolaridade do aluno. Quando o aluno chegava na sala que ele ia começar a aprender a ter contato com a máquina, principalmente pra digitar o nome dele, ele tinha dificuldade. Aí a gente conversava, eu cheguei e falei pra coordenação: “Olha, não tem como você dar aula pro aluno desse. Porque primeiro você vai dar um texto pra ele, você quer que ele leia, você quer que ele raciocine, que ele entenda o que ele tá lendo, pra depois ele mexer no computador. Se você não sabe ler nem escrever, não tem como você aprender a mexer no computador, né?” Porque o computador, por mais simples que você vai fazer nele, ele vai te fazer perguntas e você vai ter que dar respostas pra ele. E isso é lendo, né? Por isso que no computador existem as caixas de diálogo. É porque você vai ter um diálogo com a máquina através de textos, de frases. E o aluno precisa no mínimo, no mínimo, saber ler. Se ele não souber pelo menos ler, como é que ele vai aprender a informática, né? E aí depois de acontecer, também não foi muitos casos, acho que foi dois ou três alunos que aconteceu, eu falei: “Você vai acabar frustrando a cabeça desse aluno.” Ele vê todo mundo ali, aqueles que sabem lê, desenvolver e ele ali amarrado, não sabendo o que vai fazer. E o pior é que ele tem vergonha de falar que não sabe ler. Mas você nota, você vê o aluno ali. Aí eu falei, “Olha, a gente precisa criar um processo aí de seleção, pelo menos de seleção. E a gente vê aí outras entidades que têm esse processo, né?” Aqui no Vale do Anhangabaú, parece, tem a Casa do Pequeno Trabalhador, que eles têm um processo rigoroso de seleção lá. E lá não tem informática, lá é só auxiliar de escritório e tem um processo de seleção rigoroso. Se o aluno não souber lê, eles não matriculam o aluno lá. Então o aluno vai primeiro estudar pra depois. Aí também foi criada uma regra, que se o aluno não estiver na escola, não estiver estudando, ele também não pode fazer o curso. Então são regras que a gente teve que tirar pra que pelo menos alunos que tem que saber ler.
P/2 E eles pagam?
R Não, os alunos adolescentes, não. Só os adultos. Os adolescentes é que eles tão engajados nesse projeto da prefeitura, né?
P/´1 Anísio, você poderia dar exemplo de resultado pros alunos, das EICs? Algum exemplo significativo?
R Teve a mãe de um aluno que foi lá agradecer a gente, ela foi agradecer e levou um outro aluno pra matricular, porque ela falou: “Olha, vim agradecer vocês, que meu filho conseguiu arrumar emprego graças ao conhecimento que ele teve aqui. Tanto de escrita, de leitura, quanto de informática, né? E aí, a filha da minha vizinha veio fazer o curso também. Porque ela disse que fez um curso lá na escola paga e ela não aprendeu nada. Então, pelo fato do meu filho ter arrumado emprego, ela veio matricular aqui.” E hoje nós temos também uma outra aluna que conseguiu emprego. Ta trabalhando também na área devido ao curso também.
P/2 Como é que é? Qual é a expectativa deles? Eles chegam, é emprego? Aprender?
R Começar uma turma hoje, né? A matrícula, tem aula, os alunos matriculados. Aí, o primeiro contato que eu vou ter com os alunos, eu já tenho um questionário montado, né? Qual é a sua expectativa quanto ao curso? Por que você quer aprender informática? E o que você acha que é aprender informática? O que que a informática tem a ver com o seu dia-a-dia. Aí ele vai responder, primeiro: por que que você quer aprender informática? “Ah, quero aprender informática pra poder arrumar um emprego, começar a trabalhar e ajudar meus pais.” Quais são as expectativas no curso? “Ah, aprender, muita coisa que eu não, tal.” Aí a gente nota que a maioria, a primeira coisa que eles visam, é emprego, “Quero aprender pra poder conseguir um emprego.” Ah, essa é a resposta chave. Melhorar, o emprego melhora, e aí, assim, a gente tem um outro problema também, que os alunos que começam e aí saem pra trabalhar. Sexta-feira passada mesmo, chegou um aluno lá falando que ele não ia mais pro curso, ia começar o Access agora, e o Access é o último módulo que a gente vê, né, que a gente passa pra eles. Ele falou que não ia dar mais pra continuar o curso porque o pai dele tava enchendo o saco de lê pra arrumar um emprego, e ele conseguiu arrumar um emprego. Eu falei: “Mas você vai fazer o quê?” “Ah, eu vou trabalhar numa oficina mecânica.” Aí eu falei: “Mas é registrado?” Ele falou: “Não, é temporário, só pro meu pai não ficar enchendo meu saco eu vou arrumar um emprego.” Eu falei: “Mas fala pro seu pai vir conversar com a gente aqui, fala que a gente quer conversar com ele, e tal.” Ele falou: “Vou falar, e se ele vim, se ele deixar, eu volto continuar o curso.” Aí o moleque saiu triste, o adolescente saiu triste e, é um moleque esforçado, que pega bem, aprende bem, mas teve que sair. Aí eu falei, “Ó que situação.” E aí, depois, na segunda-feira, um outro também falou que ia sair porque tinha conseguido um emprego. A gente pergunta: “Mas é registrado?” “Não. Não, mas é porque a gente ta precisando trabalhar pra ajudar minha mãe em casa, meu pai.” Infelizmente a gente é proibido de dar emprego pra adolescente, mas a gente continua ainda com adolescentes deixando de estudar pra trabalhar, né, fazer o quê?
P/1 Qual que é o tempo de formação mais ou menos? Vocês têm o período do curso aí?
R Tem, a gente tinha a duração de um ano, era de um ano o curso, né? E aí, durante esse um ano, além dele fazer informática, ele tinha também reforço escolar, que não era só informática. Aì, devido a a gente começar a perder muito aluno porque essa idade de 16, a gente tem muitos alunos de 16, 17 anos, né, eles nem terminavam o curso, já diziam que tem que trabalhar, tem que trabalhar. “Ah, 18 anos, 17 anos meu pai já tá... Ah, eu tenho que procurar emprego. Tem que arrumar emprego.” E começava a faltar muito pra arrumar emprego. E falava: “Bom, o que que a gente vai fazer?” Então a gente vai, em vez de ficar um ano com esse aluno, a gente diminui, passa a dar um curso de 6 meses. Aí cada turma agora tem 6 meses de duração o curso pra cada turma. E aí é o tempo que eles se formam, aqueles que já saem pra trabalhar, não é todo mundo que sai pra trabalhar na área né, usar o que aprenderam. Que a gente sabe que não é fácil, né? As pessoas não vai querer dar emprego pra quem está na carteira branca já naquela área, né? Mas aí, aqueles que não saem, ficam lá participando lá na EIC. Tanto dos outros cursos culturais, e tendo contato com o computador direto, né, pra não perder. E aí, assim, agora com esse projeto de montar esse novo escritório, onde a gente vai tá trabalhando com ONGs também, outras ONGs, cadastrando outras ONGs. Porque esse rapaz que dá esse curso de recreação, ele tem uma firma, ele tem uma empresa também, né e ele forma educadores pra recreação de festas, de férias,  né, pra trabalhar com adolescentes, animar festas, animar festas de aniversário, e aí ele propôs pro Centro esse projeto de criar esse escritório onde os adolescentes estariam estagiando, onde eles estariam também recebendo treinamento de telemarketing e estar engajado ali no Centro de Educação. E dali a chance de estar cadastrando eles com outras empresas também. E aí tá surgindo esse projeto.
P/2 Tem algum acompanhamento da EIC com esses alunos que tão saindo?
R Não. Isso então que a gente ta tentando também criar formas pra fazer esse acompanhamento. Com essa reestruturação administrativa do Centro de Educação, a gente vai criar formas pra isso. Ainda não ta, a gente não tem dados assim de dizer: “Oh, a gente tá acompanhando esses alunos que saíram.” Não. A gente tem algumas informações deles que volta. Eles voltam pra dizer: “Ah, professor, eu tô trabalhando. Ah, eu consegui um emprego. Ah, consegui um emprego.” Entendeu? E aqueles que voltam e falam: “Eu não consegui emprego, mas eu fiz outro curso, eu tô mexendo no computador.” Ou vem lá na mesma EIC, mexer nos computadores, mexer na Internet. Aí a gente tem esse contato. Mas acompanhamento mesmo, a gente não tem. Não tem um método de acompanhamento, não.
P/1 E quanto à forma de sustentabilidade da EIC? Como que ela se mantém? Quem paga os educadores, os gastos cotidianos de material, papel?
R O material didático, disquete, papel, fita, água, luz, telefone, tá tudo concentrado nesse projeto com a Prefeitura. Então a Prefeitura, esse projeto que ela tem, que nós já tínhamos antes do CDI, eles custeiam todo esse material. E assim, como eu sou contratado, sou registrado pelo Centro, então meu salário também é da Prefeitura, vem desse projeto da Prefeitura. Então eles pagam a despesa com materiais didáticos pros cursos, papel, lápis, caneta, borracha, fitas, disquetes, né, água, luz, telefone, e os outros educadores, que dão aulas pros adultos, é com a mensalidade dos adultos que eles recebem. E não é um salário, é ajuda de custo, né? Então, assim, como eles não têm, tem um dos educadores trabalha num outro projeto, que é um cursinho universitário, da Educafro então um dia da semana ele ta na Educafro, e à noite ele vai lá dar aula lá na EIC. E essa aluna, de dia de sábado, ela dá aula de sábado também, esse que está trabalhando num escritório de contabilidade durante o dia, e no sábado ela dá aula lá na EIC. Então ela ganha uma ajuda de custo com a mensalidade que os alunos pagam.
P/2 Você acha que a EIC ta conseguindo realizar esse objetivo dela? Essa expectativa que os meninos têm, ela consegue satisfazer?
R Eu acho que não. Se ela tivesse bem mais estruturadas, e se ela tivesse também um projeto de integração com empresas, assim como outras entidades...tem a entidade lá do padre Rosalvino, que tem essa integração, como a entidade Dom Bosco, ela talvez até conseguiria atender às expectativas desses alunos. Pode ser que com esse novo projeto, ela venha a fazer isso. Mas eu acho difícil porque assim, se ela não tiver nenhum cadastro, ou nenhum contato com o mercado, acho que é difícil atender. Lógico, a formação que os adolescentes pegam, acho que por eles, alguns conseguem mesmo se engajar no mercado, né, mas isso aí se dá mesmo por competência dos alunos, de aprender bem, e o que a gente passa pra eles nos cursos aí de especialização. Por que assim, a EIC poderia ter um projeto onde ela poderia ajudar eles muito mais, mas pelo fato dela não ter esse projeto, ela não consegue atender às expectativas de todos.
P/1 Como é integrada EIC a esse projeto do escritório? Tem alguma integração?
R Tem, então é justamente isso. Esse escritório, ele foi montado mesmo, esse projeto é uma das realizações da EIC, né, é um projeto que ela tem que realizar. Tem a idéia de realizar esse projeto mesmo, pela EIC. Então seria um projeto da EIC.
P/2 A gente vai estar já, dava pra conversar mais meia hora, mas assim, pra estar terminando, qual a avaliação que você tem desse trabalho da EIC? Enquanto você como educador, o que que ela mudou em você? O que que você espera?
R Olha, eu me sinto muito rico. Eu, a minha pessoa, aprendi muito. Muito, muito, muito, mesmo. E assim, eu costumo dizer pros alunos também que às vezes eu aprendo mais do que eles. Porque você ensinar, você já tá aprendendo. E você se depara com tanta coisa, e tantas coisas diferentes, né? Lógico,  é assim, às vezes, é um trabalho cansativo, né, é um trabalho cansativo, mas só o fato do que você aprende e o quanto você se enriquece, às vezes vale a pena esse... Porque, assim, eu já tive pensando comigo: “Bom, eu não poderia estar mais na EIC, eu estou buscando outros horizontes.” Eu tô amarrado ali porque eu gosto daquilo que eu faço. A EIC tem as falhas, e acho que tem muito mais falha do que acertos, mas tem bons acertos também. Mas ela precisa se corrigir muito. Principalmente o Centro de Educação e pronto. Não sei se eu tô generalizando, aí eu falo: “EIC. “, eu tô englobando tudo, porque se fala EIC, se for a Escola de Informática em si, ela tem um bom trabalho. Pode ser que eu não tô conseguindo realizar, assim, aquela política do CDI que é transformar a cidadania, ver resultados assim: Projetos transformadores. Pode ser que eu não tô conseguindo atingir esse objetivo, desse lado. Pra esse lado, usar a cidadania mais forte, mais a fundo. Porque também é assim, a gente enfrenta uma certa barreira pro lado dos alunos, se você entrar na sala de informática, fazer uma roda de alunos e for começar a falar em cidadania, e ficar só ali no bate-papo, na outra aula eles não vêm. Então você tem que ter um jogo de cintura, você tem que saber junto com a informática, jogar ali o assunto de cidadania no meio. Porque eles falam: “Ah, eu vim aqui pra aprender informática, se eu venho aqui pra falar de cidadania,  de o que é cidadania, de que a gente tem o dever de fazer isso, tem direito disso, direito daquilo, eu quero aprender a mexer no computador. Eu quero aprender a digitar um texto no Word, a formatar um texto. Eu quero aprender a fazer uma tabela no Excel, fazer uns cálculos no Excel.” Então ele quer isso. Então você tem que ter muito saber. Então eu acho que isso talvez ainda a gente não conseguiu realizar um projeto mesmo assim de transformação.
P/3 Pra entidade mesmo, da alta organização.
R É porque, assim.
P/2 Essa coisa da EIC, essa final, foi EIC.
P/2 Qual é a sua expectativa pro futuro da EIC?
R Ah, eu vejo assim: se realmente a EIC conseguir realizar o projeto que ela tem, vai crescer muito, vai avançar bastante. Se o Centro de Educação conseguir fazer essa reforma administrativa mesmo, do que jeito que ela ta sendo discutida, a EIC vai dar um avanço muito grande, vai surgir um avanço muito grande. Ela vai ter uma transformação forte. E porque tem esse projeto aí do escritório. Ele tá diretamente ligado à EIC, à Escola de Informática e essa reformulação do Centro de Educação vai atingir bem a EIC, a Escola de Informática, vai estar mais ligado ao CDI, vai estar aproveitando mais as oportunidades que o CDI vai estar oferecendo. Então eu acho que pro futuro, ela tem uma expectativa grande.
P/2 E tem mais alguma coisa que você queira falar, aproveitar que a gente pode ter saltado, que ficou faltando?
P/1 Talvez algum exemplo que você queira lembrar aqui no ar?
R Deixa eu ver se eu... Bom, o que tinha de falar, eu acho que é basicamente isso, eu acho que o que tinha mesmo, eu não sei talvez se é isso, foi por esse motivo que eu fui dos escolhidos pra estar aqui dando essa entrevista. Ou pelo meu conhecimento que o CDI tem, que eu tenho, o que o CDI sabe sobre mim, sobre toda essa minha vivência, e talvez seja um dos poemas que eu deixei no CDI, eles acho que gostaram e...
P/1 Que poema?
R Tem um que é o do nordestino. Ah, mas pra mim, recitá-lo aqui vai ser complicado. Ele é bem extenso e eu não lembro algumas partes.
P/1 Um trechinho.
P/2 O trecho mais marcante do poema, que o poeta gosta de falar, né?
R E, rapaz, vocês agora me pegaram, né? Tem um outro, não foi só esse, tem um outro que foi da Riqueza do Saber, né? Que fala assim: “Minha maior riqueza/ É ler e escrever. / Como é bonito de se ver/ Alguém que obtêm o saber. / Seja eu, ele ou você, / Busquem a riqueza do conhecer/ Para com harmonia/ Poder ler e escrever.” É mais ou menos assim.
P/2 O que que você achou dessa iniciativa do CDI estar fazendo essa Memória CDI?
R Eu acho muito interessante, né? Eu acho que tem coisas importantes que acontecem na nossa vida, que a gente tem que registrar. Se a gente não registrar, passa. Eu vejo pelo que a gente tem lá na EIC, né? E nós perdemos muita coisa em relação ao que a gente tem lá. Ainda bem que ainda tem aquilo que foi guardado. Mas nós tínhamos coisas muito mais ricas. Filmagens, fotos, depoimentos do povo mesmo que construiu a comunidade lá. E que hoje talvez a gente não saiba onde esteja. Então, acho que assim, quando você registra alguma coisa, seja ela em foto ou em fita, filmagem, e você guarda, aquilo é um documento, é uma memória, é uma coisa muito rica. Então eu acho que essa iniciativa é muito boa. Eu acho que ajuda também até mesmo os próprios educadores a se preocupar mais com o seu conhecimento, a ser mais pessoas transformadoras, né? Porque isso é um incentivo, né, isso é um incentivo a você buscar cada vez mais a transformação.
P/2 E você se vê como um transformador?
R Ah, eu acredito que eu consigo, acho que eu posso não ser um transformador, mas eu tento colaborar o máximo pra isso. Assim, ser transformador mesmo, acho que ainda não consegui esse patamar, e nem sei se eu vou conseguir. Mas um bom colaborador, acho que eu sou.
P/2 O CDI, Memória CDI agradece a participação, o Museu da Pessoa também agradece.
P/1 Muito obrigado pela entrevista.
R Obrigado a vocês, né?
P/2 Mas o poema você vai mandar depois, hein?
R Ah, eu tenho um aqui, não sei se vocês querem. Esse poema, eu fiz, ele eu estava assim um dia, tinha acabado de dar aula, estava lá parado, pensando. E aí começou a surgir assim algumas idéias e eu comecei a rabiscar. Aí de repente surgiu esse poema. O título é: Ser Cidadão. “O que é ser cidadão?/ É ter direito à educação,/ Saúde e alimentação./ É nunca sofrer humilhação/ Para ganhar um pedaço de pão./ Ser cidadão,/ É não sofrer discriminação,/ Entrar de cabeça erguida/ Em qualquer repartição./ Ser cidadão, é ter dignidade para aceitar a verdade/ E viver com liberdade./ Ser cidadão/ É andar sem medo/ De perder o emprego/ Ser cidadão/ É saber ser crítico/ Nunca votar em qualquer político./ Ser cidadão/ é nunca aceitar a corrupção/ Nem a exploração/ É lutar pra construir uma grande nação./”
P/1 Obrigado. Tudo isso é obra tua, de poema?
R É.
P/1 Nossa senhora, tem bastante.
R Eu tenho...

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