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História

Da roça à internet

História de: Maria das Neves Félix de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 21/01/2013

Sinopse

Infância no interior de Pernambuco. Trabalho na roça. Falta de estudo e brincadeira. Casamento. Mudança para o Rio de Janeiro. Separação e mudança para Duque de Caxias. Trabalho como doméstica e cuidadora. Educação dos filhos. Início da trajetória escolar e processo de alfabetização. Cursos de Artesanato e Informática. Sonhos. A importância do conhecimento.

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História completa

"Olha, antigamente, eu tinha bastante sonhos, mas, agora, eu acho que meu sonho é menor. Eu quero sonhar hoje e conseguir fazer amanhã. A vida não é assim? Porque tem vezes que a gente faz tanto sonho, tanto sonho… Eu acho que é melhor a gente sonhar hoje e esperar acontecer amanhã. Porque teve um tempo que eu fiz tanto sonho, tanto sonho... Eu morei na roça, no interior. Nasci de uma família muito humilde, de dezenove filhos, mas só onze se criaram. E meu pai não deixava estudar. Na época, tinha pai que não era ignorante. Mas tinha uns que eram muito. Ele era. Não deixava nós irmos pra escola porque íamos ficar mandando bilhete pra namorado. Ele falava: “Filho de pobre não precisa estudar, só filho de rico”. Tem a ver? Eu nunca fiz bilhete pra namorado e casei. Trabalhava na roça. Só na roça, meus pais não deixavam trabalhar mais em canto nenhum. Eu aprendi com meu pai que só se pegava o que era da gente; dos outros, nem que fosse ouro. De resto, aprendi a pegar na enxada, a entrar no mato. Brincadeira era correr atrás do que fazer. Os menorzinhos cuidavam dos bichos, os maiores trabalhavam na enxada. Mas, sem estudo, se perde muito de conhecer as coisas. Eu conheço bastante coisas. Mesmo assim. Sem estudar. No conhecimento das pessoas, vai conversando, a gente vai aprendendo, porque tem gente que estuda e também não aprende as coisas. A gente vai aprendendo no dia a dia. Porque cada pessoa é diferente. E a gente vai aprendendo um pouco com cada um. As pessoas que não estudam e não conversam com as outras pessoas, não têm contato, eles não sabem o direito que eles têm. Eu não tenho estudo. Meu estudo é pequenininho, mas eu sei o direito que eu tenho porque eu converso muito com as outras pessoas que entendem. Depois que eu tomei conta de casa, fui estudar. Hoje em dia tem muita cobrança de estudo. Já estou com cinquenta e dois anos, minha cobrança agora, acho que não vai ter mais não. Eu quero aprender pra ter conhecimento das coisas. Isso é porque eu estou aprendendo, pra ter conhecimento. Fiquei toda feliz, porque eu escrevi e conheci as letrinhas. Porque eu nem conhecia as letrinhas, quando eu comecei escrever, a conhecer as letrinhas, falei: “Ih, já tô conhecendo”. Aí a professora falou assim: “Junta uma letrinha com a outra”. Aí eu fazia, mas eu não conseguia. Aí eu falei: “Um dia eu vou conseguir, um dia eu vou conseguir”. Aí meu segundo marido falou assim: “Olha, só é você prestar atenção nas palavras, vai juntando letrinha com letrinha que você vai conseguir”. Aí ele foi me ensinando e eu fui conseguindo, conseguindo, e já lia bastante palavras quando ele faleceu. Aí eu voltei pra escola de novo. Na época do falecimento do meu marido, fiquei bem triste, sozinha. Foi quando resolvi fazer esse curso de Informática. Um desafio. Mas era uma distração também. Trocava ideias com outros, aprendia coisas diferentes. Eu vi que mesmo que eu não saiba ler muito, compreendo aos poucos e faço. Eu estava no Artesanato e fiz o curso de Informática. Foi muito bom, que eu nem sabia mexer no computador, só sabia desligar e ligar. Mas agora eu já sei mexer, sei entrar na internet, já sei mexer em bastante coisa."

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