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Da publicidade ao humor

História de: Arianna Nutt
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Publicado em: 27/04/2021

Sinopse

O jeito engraçado de Arianna Nutt faz com que ela conte sua história como se fosse uma comédia, cheia de momentos divertidos. É assim que ela volta para a infância em Alagoas, onde nasceu, para falar do período em que se dava tão bem ao jogar bola com os meninos que acreditava ser um deles – só se descobriu como menina quando percebeu que o corpo de seu irmãozinho tinha algo diferente do dela... Arianna também descreve com humor sua chegada a São Paulo, já bem mais tarde, quando decidiu deixar seu alto cargo de publicitária em Maceió para estagiar em uma agência paulistana. Venceu em sua profissão, como diretora de criação, mas um despretensioso curso de stand-up comedy mudou tudo. Arianna tornou-se, então, humorista e, como faz desde os jogos de bola da infância, conquistou seu espaço em um meio ainda dominado por homens.

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História completa

Eu sou Arianna Nutt e eu nasci em Maceió, no dia primeiro de junho de 79.

E morei em Palmeira dos Índios, que é no interior de Alagoas, e morei lá. Na minha cabeça, foi a vida toda, porque foi dos cinco aos 13 anos. E, depois, eu retornei para Maceió para fazer o primeiro ano do colégio, que, na época, chamava segundo grau.

Eu sempre achei que eu fosse homem. Acho que, se fosse hoje, se eu fosse criança hoje, com esse negócio do gênero e tudo, iam deixar eu ser homem e eu acho que eu não ia gostar muito depois, quando eu ficasse adulta, porque, agora, eu gosto de ser mulher (risos). Mas eu achei que eu fosse homem até os sete anos. Quando o meu irmão nasceu, a minha mãe estava dando banho nele, eu falei: “O que é isso que ele tem aí?”, com o pinto dele. Ela falou: “É o pinto do seu irmão”. Eu falei: “Por que eu não tenho isso?”. Ela falou: “Porque você é menina”. Nossa! Mas foi a  primeira depressão da minha vida, foi quando eu descobri que eu era menina, que eu achava que eu era menino (risos). Porque menino pra mim era o menino que brincava na rua, era o menino que se sujava na rua, era a vida que eu queria ter, era jogar bola. Mas, aí, depois eu virei menina (risos).

Minha melhor amiga hoje mora no Canadá. E é engraçado, porque até hoje a gente conversa, eu sou madrinha do filho dela, e até hoje a gente é muito amiga. E a gente era pequena, eu acho que eu tinha uns seis anos, a gente foi almoçar num restaurante com a família dela. E, daí, eu vi que tinha um playground, e tinham uns meninos jogando bola. Eu tinha um cabelo curto e eu saí para jogar bola, e os meninos começaram a perguntar: “Como é o seu nome?”. E eu falava: “Diego” (risos), pros meninos eu falava isso. E ela chegou e falou: “Arianna, vamos embora, a gente já vai embora”. Aí, eu fiquei olhando assim pra ela: “Não me chama de Arianna, não, para”. E os meninos: “O que é? Você vai embora, Diego?”. Aí, a minha amiga falou: “O nome dela não é Diego, não, ela é menina, para de chamar ela de menino”. Eu saí chorando com vergonha (risos).

 

Eu sempre gostei de zoar todo mundo, sabe? Meu pai gostava muito de ir no teatro ver Ary Toledo. Sempre a gente vinha para São Paulo para passar férias aqui, porque a pessoa que é da praia vem passar férias em São Paulo. E o meu pai assistia muito Ary Toledo. Então, ele comprava muita coisa, fita do Ary Toledo, fita cassete do Ary Toledo, e eu amava. Eu contava muito as piadas dele. Piada, piada feita, né? E eu sempre fui assim, eu sempre fui muito irônica com tudo, sempre fui muito da ironia, desde criança.

 

Eu sempre quis ser dentista. E eu fiz o primeiro vestibular de Odonto, perdi. E, aí, eu fui fazer no outro ano, eu falei: “Não vou fazer Odonto, que eu não vou perder e entrar atrasadíssima na faculdade”. Olha as ideias da pessoa! Eu já achava que era muito velha com 17 anos. E, aí, eu falei: “Não, vou fazer Nutrição, que eu acho que a concorrência é menor”. Eu fiz, passei, cursei. Quando eu cheguei no quinto ano de Nutrição, abriu Publicidade na Federal, lá também. Aí, eu falei: “Nossa, eu vou fazer isso, eu vou fazer Publicidade”, que na minha cabeça era o que eu sempre quis fazer. Aí, eu abandonei Nutrição e fui para Publicidade. E o meu pai sempre falou pra mim: “Você faça o que você quiser, contanto que você seja a melhor”. Mas eu me dei muito bem na Publicidade. Foi a Publicidade que me trouxe para São Paulo. Eu sou da criação, eu era da criação. Eu era diretora de arte.

 

Mas, aí, veio o humor. E veio por conta da Publicidade. Veio porque eu sempre tive muita vergonha de falar em público por conta do sotaque, eu tinha muita vergonha do meu sotaque, porque as pessoas riam quando eu apresentava campanha. Eu queria falar sério e ninguém me levava a sério por causa disso. Aí, eu tinha vergonha, e falavam assim: “Então, por que você não faz teatro?”. “Não gosto de teatro, não quero.” “Não, mas faz teatro empresarial, é bom.” Aí, eu fui fazer. Quando eu fui fazer, falaram assim: “Eu acho que você é muito engraçada falando, mas não é por conta do sotaque. O jeito que você fala é engraçado. Mas você devia colocar isso para o seu corpo, por que você não faz um curso de palhaço?”. Eu era megapreconceituosa com essas coisas, falei: “Ai, gente! Palhaço? Nada a ver, nossa, aí o pessoal vai dizer que eu sou do Ceará” (risos). Eu fiquei meio assim. Eu fui procurar e vi que tinha da Bete Dorgam, só que estava esgotado. Eu vi stand-up, falei: “Deve ser a mesma coisa, acho que eu vou fazer stand-up”. Eu nem sabia o que era, nunca tinha assistido nada, isso foi há cinco anos. Aí, eu fiz stand-up, o curso de stand-up com a Carol Zoccoli. Foi a melhor coisa que eu fiz na vida. Foi incrível. E já saí de lá, do curso, já fiz o meu primeiro open mic, que é quando você inicia na carreira de stand-upvai para o palco a primeira vez. E, depois, eu comecei a fazer, comecei, comecei.

 

E tô já há cinco anos no humor e tô amando fazer o que eu tô agora. Esse ano [2017] foi um ano muito bom pra mim no stand-up. Eu fiz Faustão, eu fiz Comedy Central, eu fiz Drunk History, que está passando no SBT. Então, parece que eu me formei, sabe? Eu fiz quatro anos de faculdade para chegar aqui nesse quinto ano e estar formada e entrar realmente para o mercado de trabalho. Esse ano está sendo muito incrível para mim.

 

No Risadaria, eu entrei o ano passado, e também foi um marco, porque foi quando começou tudo. Eu comecei a aparecer muito daí. E a Tati [Lima] me ajudou muito, porque eu fui para todas as mídias, eu saí nos jornais, as pessoas de agência ligando: “Você está no jornal”, não sei o quê. Todo o povo de mídia que eu conhecia. Então, acho que mais de 50 pessoas me ligaram falando que eu estava no jornal, e eu estava dormindo e eu não tinha visto. E, aí, quando eu fui olhar, eu estava em todas as mídias. A partir desse show do Risadaria, dessa visibilidade, eu comecei a ser muito chamada para outros shows, porque tem muito pouca mulher. É assim: cem homens para uma mulher. Não teve dificuldade para entrar no meio, mas aí dizem: “Quem é ela?”. Porque, quando alguém vai assistir stand-up de um homem, que tem quatro homens no elenco, ele fala assim: “Nossa, o fulaninho, não gostei do stand-up dele, mas gostei dos outros”. Beleza! Quando tem uma mulher, a pessoa fala assim: “Não, mulher no show de stand-up não presta”. Então, a gente já vem com essa carga, sabe? Só que, aí, as pessoas viam: “Se está no Risadaria, é porque deve ter algum mérito”. E as pessoas começaram a me ver, eu comecei a fazer muito festival depois disso e foi bom. Eu já tinha feito alguns shows fora, mas agora eu tô fazendo muito. Então, eu me mudei, eu não passei uma semana direto na minha casa ainda, de tanto que eu viajo (risos).

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