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História

Da porta pro campo

História de: Alcino Augusto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/04/2013

Sinopse

Entrevista cedida ao Museu da Pessoa, no dia dois de março de 1999, para o projeto Museu do Santos Futebol Clube. Alcino Augusto passeia nessa entrevista por memórias da sua infância, fala sobre sua família, a experiência como jogador de futebol, e suas diversas profissões, até chegar a portaria da Vila Belmiro. Diversos personagens são lembrados nessa conversa e a presença do Santos Futebol Clube, como protagonista.

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História completa

P/1 - O senhor poderia dizer para a gente o seu nome, a cidade em que nasceu e a data do seu aniversário?

 

R - Pois não. Meu nome é Alcino Augusto, nasci em 13 de junho de 1933, nessa belíssima cidade de Santos.

 

P/1 - Então, tá. Qual o seu endereço?

 

R – Moro na Rua Barão de Paranapiacaba, 239, apartamento 27.

 

P/1 - Em que bairro fica?                                                                                                                                

 

R – Chama-se Encruzilhada.

 

P/1 – Ok, Encruzilhada. Qual o nome do seu pai?

 

R - Chama Victorino Augusto.

 

P/1 - A data de nascimento dele?

 

R – Dia 24 de março 1904.

 

P/1 – Em 1904. Em que cidade que ele nasceu?

 

R – Nasceu em Portugal, é... Troncoso.

 

P/1 - Troncoso, em Portugal.

 

R – É, Portugal.

 

P/1 - E a mãe do senhor, também é portuguesa?

 

R – Ela é Brasileira, cearense, o nome dela é Rita Ferreira Augusto, nasceu no dia 13 de maio de 1914, em Fortaleza.

 

P/1 - No Ceará.

 

R – Isso, Ceará.

 

P/1 - Quantos irmãos o senhor...

 

R - Nós somos em quatro irmãos, dois homens e duas mulheres.

 

P/1 - Contando com o senhor?

 

R – Contando comigo.

 

P/1 - Então o senhor tem três irmãos?

 

R – Não. Somos quatro, comigo é... São três evidentemente.

 

P/1 - E agora vamos falar um pouquinho assim sobre essa sua infância. Como é que os pais do senhor se conheceram?

 

R - Bom, meu pai veio de Portugal, se radicou no Gonz...  No Boqueirão, na época era o bairro de elite na cidade, né?

 

P/1 - Ele é... Qual era a profissão do seu pai?

 

R - Meu pai era barbeiro.

 

P/1 - Era Barbeiro.

 

R – Isso, Barbeiro. Então ele foi empregado muitos e muitos anos ali na Rua Conselheiro Nébias, esquina com a Epitácio Pessoa, deve ser isso, que hoje é um bairro, e em frente era a casa do Dr. Júlio Conceição, era uma jardinagem muito grande que hoje é edifício, então meu pai se radicou ali muitos anos, após aquilo ele foi para Vila Matilde,  Vista Macuco. Lá ele conheceu minha mãe, que era empregada doméstica da de uma casa, então meu pai casou com ela, e comprou um salão na Constituição, número 455, onde que eu nasci, bairro da Vila Matias, ali já é Vila Matias. Depois de lá ele comprou uma casa, construiu, minto, construiu uma casa em Vista Macuco, que é esquina da Constituição, número 186, onde que nasceram meus irmãos todos, os outros três...

 

P/1 - O senhor é o mais velho de todos?

 

R - Eu sou o mais velho, e lá ele fez a vida dele, estudou, os filhos... É, a gente nunca fala mal do pai. (Risos) É, ele foi um belíssimo pai.  Foi... O perdi faz quatro anos, ainda jovem.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R – Esta viva.

 

P/1 - E como que ela veio pra São Paulo?

 

R – Ela veio naquela época que o nordestino era como um estrangeiro, imigrava né, é eles é... No Brasil é migração, eles vinham como imigrantes mesmo, a minha mãe sofreu muito para vir para cá, ela veio de pau de arara, demorava de 15 a 20 dias para vir do Ceará até aqui. Aí chegou aqui meu avô veio junto também, aí foram para Itariri, aqui no litoral, que é interior no litoral, e, meu avô fazia conservação da estrada Sorocabana, antiga Sorocabana...

 

P/1 - A estrada de ferro?

 

R – Isso, Estrada de ferro. Então, a minha mãe ficou em Itariri até os 13 anos, quando ela veio pra cidade pra ver se conseguia um emprego, porque eram 16 irmãos.

 

P/1 - Sim, família numerosa.

 

R - Numerosa, e meu pai não tinha condição. Porque família numerosa é só de pobre, né, que infelizmente, a única coisa que sabe fazer é filho. (Risos) Então, a minha mãe veio e começou a ser babá, foi babá do... Na época do dr. Martins Fontes, depois o dr. Martins Fontes se formou, então ela saiu da casa dele e foi quando ela conheceu meu pai e casaram.

 

P/1 - E a sua mãe veio sozinha pra Santos, ou...

 

R – Não, veio com a família toda. Não. A prole toda não, porque não tinha condições, né, teria que ser quatro pau de arara. (Risos) Mas vieram, parece-me assim diz ela, que vieram em oito, seriam seis filhos e meu avô e minha avó. Então, eles vieram pra cá e foram direto para Itariri, e lá fizeram a vida deles. Tem um tio ainda que reside em Itariri, que é o irmão mais velho dela, deve tá com pra cima de 90 anos, e esse aí reside em Itariri. O resto, depois, faleceram todos. Só está ele e ela, de 16, só está ele e ela.

 

P/1 - E, alguma coisa da sua infância? Os seus pais se conheceram... Se casaram...

 

R – Eles se casaram, eu tive, olha meu filho...

 

P/1 - A sua mãe, ela trabalhava...  Continuou trabalhando?

 

R - Doméstica, era doméstica, depois não. Aí ficou do lar, né? Aí meu pai já tinha condições, porque naquela época filho, em 1930, 29, 30, um homem que tinha uma... Um estabelecimento comercial, ele era proprietário, ele era considerado um homem de alto nível monetário, né, social, em dinheiro, mas meu pai não era nada disso. Meu pai, sempre muito era trabalhador, ele... Eu estudei em colégio pago, meus irmãos todos estudaram em colégio pago, as minhas irmãs estudaram em colégio pago... Cito até o nome: eu estudei no Tarqüinio Silva, me formei no Tarqüinio Silva. Meu irmão estudou no Colégio do Carmo que naquela época era na cidade, na Augusto Severo. As minhas irmãs estudaram na Cruzada Católica que era na Constituição, que foi no estouro do Gasômetro... Desapareceu, então eu só posso querer bem a meu pai, pelo que ele deu pra gente na infância... Agora, fora disso eu fui moleque traquina pra chuchu.

 

P/1 - Conta o que seu...

 

R - Fui traquina, fui traquina, fui briguento, briguento, eu não admitia que... Que eu sou baixinho, né? (Risos) Tenho um metro e 65, então eu achava que as pessoas que olhavam pra mim ou, que estavam fazendo pouco de mim, naquela época o cara ser... Fazer pouco, né, hoje já não existe mais essa palavra, né? Fazer pouco... O cara já era ser humilhado, né? Eu que nunca admito humilhação, até hoje não admito. Eu assumo aquilo que eu faço, se eu errar eu assumo, mas, não me humilhe, não me humilhe que eu brigo, discuto, viro bicho. Eu era briguento, era sim, muito briguento.

 

P/2 - E o senhor jogava bola?

 

R - Jogava, jogava... Não, não, você vê, pelo tamanho que eu tenho, aqui no Santos, tem um funcionário aqui que foi meu adversário de futebol. É o senhor Nelson Barreto, joga futebol até hoje, eu jogava no time da várzea que chamava Clube Atlético Libertador. Chamava o clube da fumeta. Você vai falar assim: Fumeta por que, né? Que em 1950, 48, 49, apareceu a desgraça pro mundo inteiro, chamada maconha, e essa maconha, por incrível que pareça, foi logo cair... Ali era um antro, por ser perto do armazém 16, armazém de bagagem, ali então se infiltrou a maconha. O Libertador tinha muito cara que gostava muito desse negócio aí, então se chamava o time dos fumetas. É, aonde nós íamos era um time respeitado, inclusive foi o primeiro time na várzea seu Galo Tavares, que era uma disputa que existia feito pela Gazeta Esportiva, de todos os times varzeanos, e nós fomos campeões...

 

P/1 - Havia campeonatos...

 

R - Havia campeonato, mas campeonato mesmo, só ia craque, só ia craque...

 

P/1 - Veio muita gente? O senhor conhecia alguma pessoa, algum atleta que veio, que chegou a vir pro Santos?

 

R – Que chegou tem o Djalma de Jesus, o Nicássio. O Nicássio, quando veio de Santa Catarina, foi jogar no Libertador. Jogava no segundo time, filho, que o cara que jogava no primeiro time, o cara era bom demais. Depois do Nicássio apareceu o Chancharro(?)  Sanchez, que jogou no Jabaquara. O cara era craque, filho, craque, tinha jogador de futebol, filho, se na época de hoje, olha ,sinceramente, daria para um clube ganhar dinheiro em cima dele. (Risos) Era muito bom, bom mesmo, porque hoje, filho, acho que o jogador de futebol é limitado porque não há condições de o cara jogar futebol, que ele pega uma bola e leva quatro, cinco porradas. Haja visto que esse Alessandro tá levando só porrada, pô, porque o cara é habilidoso, então, acabou... O talento acabou, só existe esse pé de porrada, que só sabe dar porrada mesmo, e acabou o talento, filho, mas na época que eu jogava, jogava não, corria atrás da bola, que jogar futebol, quem joga é craque. Os outros correm atrás de bola. Tinha jogador de bola, tinha filho, jogador fora de série, fora de série, olha eu tô falando fora de série porque era fora de série mesmo.

 

P/1 - Quantos anos o senhor tinha? Desde quanto tempo...

 

R – Olha, veja bem, eu vou falar uma coisa pra você. (Risos) É jocoso, mas é gozado, é gozado mas, é... Tem que ser falado. O Clube Atlético Libertador é um clube de craques, filho, porque na Vila Matias é um celeiro de craques. Saiu o Pagão, pô, jogava no América, saiu o Argentino que jogava no... Cara bom de bola demais, eu joguei 22 anos no segundo time do Libertador, eu nunca vesti a camisa azul, vermelha e branca do primeiro time, nunca.  Sabe por quê? Não tinha condições de jogar futebol, os caras eram bom demais, filho, bom demais, e a várzea tinha o seguinte, o time ia jogar...

 

P/1 - O senhor disse que jogou...  Desculpe,  só uma  interrupção... Por 22 anos...

 

R – Isso, 22 anos no segundo quadro.

 

P/2 - E de que idade a que idade?

 

R - Veja você, pode comparar dos 17 anos para os 22 anos, já diz que idade que eu joguei. Você sabe porque é que eu parei de jogar futebol, filho? Porque eu arrumei uma briga no campo de futebol e eu achei que estava numa época de parar, eu arrumei uma confusão, uma briga, não foi nem briga, aquilo lá foi um tumulto, filho, é... Jogou Libertador e... Ôh, meu Deus do céu, foi na 28 de setembro, onde hoje é a Gaivota Veículos, é ali é que tinha um campo... O Paulistano. Eu era o centro-avante de um metro e 65, mas, era um centro-avante tinhoso, chato pra chuchu, viu? Chato filho, chato mesmo, enjoado mesmo, enjoado, puxava o short do jogador, e cuspia nos cara, é... E arrumava confusão fácil. Eu pulei com a bola no cara e eu dei uma cabeçada, ele caiu e torceu o maxilar do cara, aí arrumou. Não foi nem um tumulto, foi guerra, aí eu já estava casado, com filhos, eu parei. Parei porque já estava com 30 e pouco, ah a gente tem que parar também, tudo na vida tem começo e tem fim. Eu parei, mas sinceramente a gente sente saudade... O que é bom a gente não pode esquecer nunca, se o ruim a gente não esquece, calcule o que é bom, né? Não dá para esquecer, não dá.

 

P/2 - E os jogos? Qual era a freqüência desses jogos na várzea? Todo final de semana?

 

R - Todo domingo, filho, você vinha... Nos saíamos do bairro... Porque naquela época a juventude ia pra baile. Dançava-se, hoje em dia não sei se se dança, porque o que eu vejo minhas fi... Os meus netos pulando um em frente da cara... Pra mim aquilo é canguru, que aquilo lá, pra mim, não é música, não é dança, não é nada, mas... Tudo tem sua época, tudo tem seu... Porque... Então, nós, é... Todos, tô falando, “nós” estou me referindo a toda a minha juventude, a juventude que viveu comigo. É... Nós íamos pro baile da Humanitária, fica em Coliseu, na cidade, que era a nata, ali você podia ir, hoje você não pode nem passar, não vai você porque... Então nós freqüentávamos o baile da Humanitária no sábado e ficávamos até quatro, cinco horas da manhã. Vínhamos a pé pela Rua Brás Cubas, entrávamos na Luiza Macuco, tinha um bar e aí faziam o café da manhã, ia pra casa, filho, tomava banho e ia pro campo de futebol, levava saco de roupa, enchia a bola, que a bola era um capão, você dava cabeçada, ela rasgava a tua testa, arrebentava tudo. Que era com cordão né, então levava saco de roupa, pegava bonde, alugava caminhão, e assim que era a várzea... E a freqüência, filho, era muita freqüência, tinha jogos de campo de futebol, somente clássicos na várzea, tinha clássicos na várzea! Tinha, filho, tinha, aqui mesmo, aqui do lado tinha o Americano, o campo do Americano aqui, tinha o Vasquinho, filho, que o campo até pra entrar era difícil de tanta gente, a pessoa passava o domingo assistindo futebol de várzea. Hoje não, não tem mais nada. Também não pode ter... Você vê... Você vai num campo de várzea, você vê cara atirando no outro, não tem mais futebol, acabou o futebol varzeano. O profissional existe, Deus queira que continue por muito mais tempo que a minha sobrevivência aqui. (Risos) E é isso aí, filho, e a minha infância foi muito boa.

 

P/1 - Foi boa?

 

R - Foi, foi, filho foi. Foi boa. Com os meus deslize de briguento, mas foi muito boa, foi boa... E dos meus irmãos foi muito boa também.

 

P/2 - E o senhor disse que aí depois parou... Com o futebol, porque aí já estava casado, o senhor casou quando, qual a data do casamento do senhor?

 

R - Eu me casei dia dez de setembro de 1956, em 55, minto, em 55.

 

P/2 – Dia dez...

 

R – Dia dez de setembro de 1955.

 

P/2 - De 55. Com quem? Como foi?

 

R - Com Nilce Muniz Augusto, conheci ela no mesmo bairro, eu, que...

 

P/2 – O nome é Nilza?

 

R – Não, é Nilce Muniz Augusto, que é minha esposa até hoje. Veja bem, filho, essa... Naquela época tinha uma coisa gozada, que hoje acabou isso aí. Se eu morava na Vila Belmi... Na Vila Matias, eu procurava namorar moça da Vila Matias, se eu viesse pro Macuco, eu apanhava filho, se eu chegar lá pra namorar moça do Macuco, os caras me punha pra correr, mas punha mesmo, porque... “Mulher daqui ninguém mexe, é nossa” e aí acabou. Tinha essa... Não sei se era estupidez ou era certo. Mas nós, é... Procurávamos namorar as  moça do nosso bairro. E de preferência que ela nunca tivesse namorado ninguém.

 

P/2 - Porque senão era do bairro?

 

R - Não, não, filho, porque era um ciúme doentio, filho. Ah pô, o irmão não permitia que a irmã dele namorasse um colega dele, porque amanhã ou depois ela se separava dele, e o cara ia falar que beijou a irmã dele, aí era uma ofensa, uma... Pô, era o fim do mundo... Então ali nós namorávamos, não era... Beijava como todo mundo beija, mas o respeito era muito. Muito respeito... Não era respeito, era medo. Medo porque o pai da moça dava porrada, dava... (Risos) Que era aqueles, a maioria aqui, filho, em Santos, no bairro que eu nasci, é eu vou falar assim, em tese, seriam 100 famílias.  Eram 98 portuguesas, uma espanhola e uma italiana. Não tinha brasileiro. A Luiza Macuco não tinha brasileiros. Todas as pessoas eram, tudo, tudo, descendentes de português ou português. Então, era muito tradicional, muito radical, filho, eu fumava, veja bem, fumava não, escondido, né, onde que é... Foi, agora está destruído... Estão fazendo lá eu não sei o que é que é. Tinha o Pastifício Brasil, que é um motel hoje, na Constituição, e em frente tinha a Açucareira Pérola, que faliu, então tinha um jardinzinho que tá muito bem feito, agora bem arrumadinho, passei lá outro dia, tá muito... Chama-se graminha, que grama era mato, pra nós era grama, né, então, nós compramos cigarro Aspásia, estou fazendo propaganda gratuita...

 

P/2 - Cigarro?

 

R - Aspásia, você dava uma tragada no Aspásia, o teu pulmão vinha pela boca rapaz, mas é o que você podia comprar, era um tostão... Vocês nem nunca escutaram falar isso? Era um tostão, filho, era uma moedinha pequinininha, tão...  Juntávamos três, quatro, pra comprar por 50 réis, juntava e comprava um maço de cigarro. Então nós escondíamos na graminha e ia lá fumar, comprava fósforo, que isso tudo era difícil, a vida era muito difícil, então, se você tivesse a infelicidade de pedir fogo para um homem, podia estar certo que ia levar um tapa na orelha. Mas, levava mesmo. E, sabe que que  ele falava? Vai falar pro teu pai.  Mas, quem que tinha coragem de falar pro pai que estava fumando? O pai não era pai, filho, era Deus, né? Pela lei do teu Deus, ele impunha respeito e você... Eu me lembro nunca na minha infância de ter almoçado na frente do meu pai. Se meu pai tivesse perto, ninguém almoçava, hoje é diferente. Então, é isso aí, eu digo que eu fumava, a gente fumava escondido, e fazia isso aí, e depois sabe tudo... Fui servir à aeronáutica, que foi a melhor coisa que eu já fiz na minha vida, perdi com aquela agressividade que eu tinha, fiquei submisso porque lá eu era rígido, o sargento falava não, não que senão ia pra cadeia, eu temo cadeia. Acho... dizem que cadeia não foi feita pra cachorro? Também não foi feita pra homem, homem que tem vergonha, né. Aquele que não tem vergonha na cara, eu acho que, então ali foi o alicerce da minha vida que eu comecei a pôr o pé na estrada, comecei a namorar com quem hoje que é a minha esposa, casei, casei novo. Eu casei com 19 anos, tive três filhos, eu não, a minha esposa teve, pertence...

 

P/2 - O senhor disse que tinha 19 anos, e a sua esposa?

 

R - Tinha 18.

 

P/2 – Ela tinha 18?  Qual a data de aniversário dela?

 

R - Dia 25 de agosto de 1935.

 

P/2 - 25 de agosto de 35. E ela também é daqui de Santos?

 

R - De Santos, to... É, Santos que não tinha ninguém de fora, a não ser português como eu tô falando, mas ela é santista, filha de portugueses também. Meu sogro, meu falecido sogro, era fiscal de bonde, e a minha sogra era do lar. Então, você pode reparar, da minha faixa de idade, filho, a maioria o sobrenome é Augusto, que é o meu caso, Pereira, é... Só nome de portugueses, senão, Sanchez, Dieguez, que é espanhol... E dificilmente é italiano, como tem no mercado naquela época, era a colônia italiana que predominava no mercado. Mercado municipal. E aqui, pro lado de cá da cidade, eram portugueses e espanhóis. Depois, na cidade, começou a vir os que nós chamamos, chamávamos de judeus, que hoje é israelenses, que realmente eles são israelenses, então tomaram conta das fábricas, das casas de móveis, tecidos e foi quando a cidade começou a ser o que é, isso aqui é o maior paraíso. (Risos)

 

P/1 - E como era a relação entre essas diversas colônias, entre os portugueses, espanhóis?

 

R - Não tinha, não tinha, filho, não tinha separação, não tinha, o povo era muito... Você sabe que o europeu, o asiático e o... Me falha, assim... Bem o europeu em si, eles são muito humildes, principalmente quem imigra, o imigrante é... É humilde, filho. Então eles se sujeitam “fácil fácil” às condições  do lugar que eles vão. Eu nunca tive assim fora, viajei pra Portugal, mas fiquei lá dois anos. Eu não sei os outros países, mas deve ser assim porque a pessoa, quando vem, quer melhorar de vida e não arrumar confusão. Hoje não, hoje é diferente, mas naquela época, filho, português era... Meus padrinhos, meus padrinhos são espanhóis, filho. Meus padrinhos são esp... Ah... O padrinho da minha irmã mais abaixo de mim é italiano, o Miguel era italiano do Orlando Mossatelli.  Inclusive tenho aqui no Santos, um sobrinho desse padrinho da minha irmã, e os outros dois eram portugueses, do... Da... De não. Da Helena, era português e do Dirceu, que é o meu mano caçula, era judeu... Porque os judeus moravam na  Júlio de Mesquita, a rua era deles, chamava Júlio de Mesquita, rua dos judeus. Que era da... Rua Brás Cubas à Avenida Conselheiro Nébias. Eram duas quadras, era só judeu e hoje em dia sabemos que eram israelenses, eles eram fugitivos da guerra com medo do Hitler, né? Então, vieram pra cá e fizeram a vida deles aqui. Um relacionamento maravilhoso. Era, era. Família visitava família, você via sentado nas portas, não sou saudosista não, tenho raiva do passado, sabe por que? Porque hoje você pega, aperta um botão, você liga uma televisão, você quer uma água gelada, você vai à geladeira... Naquela época, a primeira geladeira que eu vi na minha vida era de gelo. O primeiro rádio que tinha só pegava a Rádio Atlântica PRP4, a antiga PRP4. Não tinha mais nada, filho. O mundo era vivido só em função de jornal, hoje não... Mas eu tenho saudade da educação do povo, das crianças, faz o favor, não obrigado, isso aí você não vê mais. Tinha bondes, filho, eu vou falar pra você.  Deus me livre que uma mulher grávida, uma senhora entrasse no bonde e o cara estivesse sentado.Era capaz de ser jogado pelo bonde afora. Hoje não... Hoje, o cara está sentado, continua sentado. Não estou falando mal da juventude, pelo amor de Deus. Estou falando da educação. Então, acabou e eu acho que acabou a educação, acabou, e acabou a família, filho, porque não tem educação, não tem família, então...

 

P/2 - E a família do senhor? O senhor teve filhos?

 

R - Tive... Tenho três filhos...

 

P/2 - Assim, do mais velho ao mais novo: o nome, a data de nascimento e a profissão.

 

R - Veja bem, o meu filho mais velho chama-se Sidnei Charles Augusto. Ele é supervisor de Segurança do Trabalho. A nota que dou a ele, de zero a dez... É onze, Deus... Muito bom... Muito bom.

 

P/2 - Qual a data de aniversário dele?

 

R - Dia 17 de julho, de junho, de julho, julho, agora o ano, foi 57.

 

P/2 - Em 1957.

 

R – É, 57. O Leonardo, também supervisor de Segurança do Trabalho, dia 14 de maio, um dia após a minha mãe, 14 de maio de 58... O Leonardo. E o Iram é... Dia 27 de março, um dia antes do meu pai, de 59. De nove em nove meses, teve um filho. Depois eu falei assim, para senão você vai... (Risos) Vai pro vinagre.

 

P/2 - E esse último filho aí...

 

R - Ah, esse aí, esqueci de falar. Esse menino aí é proprietário. Ele é revendedor de carro na cidade de Leme. Todos eles vivem no interior. Eu não tenho filho nenhum radicado aqui. Todos eles foram para o interior e casaram. Esse mais velho casou com uma moça também de Limeira, o Iram casou com uma moça... O Leonardo também casou, tudo com moça do interior. Vieram pra praia “se namoraram”, se casaram, em vez de ficarem aqui, foram tudo embora. Não vou segurar, que não é meu... Não é meu. Então eles fizeram a vida deles. São muito bem relacionados na vida, espero que continue assim. Nunca deram dor de cabeça, só deram dor de cabeça em criança, que dá que dá mesmo. Se você vem dizer pra mim que não dá, ah meu filho é... Não, então é marreco.  Então não é filho. (Risos) E eu sou muito franco em falar, você desculpe que às vezes eu falo, eu sou muito franco, viu, e... Eu acho que meus filhos foram procurar a vida deles, eu não sou ninguém pra atulhar ninguém.  A mesma coisa eu falo para que vocês façam isso também, viu? Eu sei que vosso pai não vai atulhar vocês.  Quer? Vai, vai embora.  Se eu tivesse filha  mulher... Quer casar, vá! O cara é vagabundo, ôh minha filha, tô te falando, o cara não presta. Ah, mas eu quero pelo amor de Deus. Ói, eu te arrumo um avental e vai embora. É o que ela quer. Então eu não posso, eu não posso falar não, não se deve falar não pra filho. Orientar sim, falar não nunca.  Que ele quer, e agora, o que você vai falar? Bate o pé e pronto, acabou.

 

P/1 - Bom é, o senhor disse que estudou aqui no Tarqüinio Silva. E o senhor se formou?

 

R – Me formei. Naquela época, quando você falava em formar, tirava o quarto ano do ginásio e era uma formatura, filho. E vou falar pra você. Não ficava devendo nada , nada, nada, ao estudo de hoje. Eu tinha, olha, eu vou falar que até hoje eu me orgulho de ter estudado no Tarqüinio Silva. Tive professores que eu levei porrada, filho, ah... Régua, filho, isso aqui, cabelinho da têmpora, aqui, chegava a arrancar, meu chapinha, é porque você era... Não podia falar na classe. O professor chamava fulano de tal pela folha, então você ficava ao lado, em pé, pra responder a pergunta dele, mas nem pensar em responder antes dele, ou fazer o que fazem hoje, que eu já vi aí, nem pensar, maravilhoso, maravilhoso.

 

P/2 - Então o senhor se formou no ginásio?

 

R - No ginásio.

 

P/2 - Aí o senhor continuou estudando, ou foi trabalhar?

 

R - Não, não, filho.  Aí eu já trabalhava com o meu pai, filho, tinha que trabalhar.

 

P/2 - Então, assim... Eu queria fazer uma trajetória profissional do senhor. Então, o primeiro emprego que o senhor teve foi com o seu pai?

 

R - Com o meu pai mesmo...

 

P/2 - Quantos anos o senhor tinha?

 

R – Eu tinha 14 anos. 

 

P/2 - Foi em 1900 e...

 

R - Veja bem filho. Foi em 49... Não! Em 47,48. Sabe o que é que eu fazia, filho? Meu pai tinha uma barbearia, eu fazia a espuma, pra dar pro meu pai passar no rosto dos fregueses. Aí tirava a toalha, pegava a toalha, mandava eu a levar para dentro, mandava a mãe lavar, já colocava no arame, que não tinha secador, não tinha nada. Então a minha função era... Limpava as ferramentas, ganhava um tostão por dia... Daí eu comecei a aprender a profissão, me tornei cabeleireiro, porque meu pai também era cabeleireiro, trabalhei por 35 anos de cabeleireiro, formei meus filhos com a minha profissão.

 

P/1 - Foram 35 anos que o senhor trabalhou como cabeleireiro. Foi seu primeiro emprego?

 

R - Foi o meu primeiro emprego.

 

P/1 - E se manteve por 35 anos?

 

R - Mantive por 35 anos. Depois eu tive um entrevero lá com o dono, que eu trabalhava em casa, a casa era minha e desse meu mano caçula, que meu pai deixou pra gente, falou: “é de vocês, então vocês façam o que querem”. Pra minha irmã deixou... Para as outras duas deixou outra casa, então, pra dividirem, então o meu mano falou pra mim: “Alcino, o pai tá vivo, então vamos fazer o seguinte: pra mim, amanhã ou depois, não dizer que a gente não vai brigar, porque briga, que briga por causa de dinheiro, vamos vender a casa”. Eu morava nessa casa.  Na Dino Bueno, número 112, na Ponta da Praia, eu tinha um salão lá. Então, nós vendemos a casa, eu fiquei com a minha parte. Procurei fazer a minha vida, onde que eu comprei meu apartamento que eu vivo até hoje, na Barão, e ele procurou fazer a vida dele que eu acho que é certo e ninguém ficou aborrecido. Eu acho que todos os irmãos deviam de se dar como eu me dou com meu irmão. Eu vejo meu irmão, vejo meu irmão três vezes por ano, mas são três vezes que eu fico encantado de ver o meu irmão. Então, eu acho que foi muito bom isso aí. Eu procurei fazer a minha vida, trabalhei 35 anos como cabeleireiro, mulheres bonitas, mulheres feias, homens cabeludos, homens feios, aquela época de cabelo comprido dos Beatles me fez ganhar dinheiro, me fez ganhar dinheiro, me fez... Além de ser uns belíssimos cantores do conjunto, eles me fizeram ganhar dinheiro...

 

P/2 - Como isso?

 

R - Ah, por causa do cabelo comprido, meu filho. (Risos)

 

P/2 - Mas, cabelo comprido as pessoas não deixam de ir ao salão?

 

R - Não, não, aí é um engano, filho, cabelo comprido bem cortado, filho, é uma beleza, precisava ver. Eu aparava as pontas semanalmente, faziam aquelas franjas, né? Que gostavam de... Encaracolado o cabelo nas pontas, isso tudo, faziam muita permanente... Ganhei dinheiro, ganhei dinheiro, (risos) ganhei dinheiro mesmo com os Beatles, é, não, e depois, aí apareceu, o evento do Roberto Carlos...

 

P/1 - Jovem Guarda.

 

R - É a Jovem Guarda, então tomo mundo queria ser Roberto Carlos. Todo mundo queria ser Wanderleia, é... Elis Regina... Todo mundo gostava desse pessoal. E o cabelo continua comprido, filho, e eu ganhando dinheiro, ganhando dinheiro. (Risos) E o cabelo, como você vê, ainda tem moço que até hoje, ainda eles, ainda usam cabelo comprido, então. Mas continua...  Agora tô careca e tô cortando o cabelo, primeiro que já acabou também, né? (Risos) Agora tem um telhado aqui, mas eu mesmo corto meu cabelo, acho bacana isso aí, mas ganhei dinheiro com os Beatles (risos). Olha, eu tinha um salãozinho modesto, mas...

 

P/2 - E como é que o senhor saiu desse salão para outros empregos?

 

R - Vou explicar pra você, o negócio foi o seguinte:

 

P/2 - O senhor trabalhou entre 40 e... Quanto?

 

R - É. Olha, veja bem filho, eu, pra dizer às vezes, eu me perco no tempo, que eu não sou muito de guardar datas, mas aproximadamente eu sei, eu trabalhei até 86. Em 86 eu trabalhei como barbeiro. É isso aí, por exemplo, eu queria explicar isso ai. Então eu vendi a casa.  Pra eu vender a casa, eu teria que sair, né, então eu comprei o apartamento, mas no  apartamento eles não admitem que tenha negócio, então eu aluguei uma loja no Canal Sete num Shopping Center que tá lá. Agora tá bonitinho, naquela época era só cheiro de peixe e rato que tinha lá dentro, né. Montei lá e fiquei oito anos lá. Aí o cara começou todo mês aquela inflação galopante que tinha, e ele me aumentava cinco cruzeiros, dez cruzeiros, sete cruzeiros, e eu achava aquilo um absurdo, pra eu trabalhar pra pagar o cara, eu já estava com os filhos mesmo formados e feitos, falei: “Ah! Eu não vou trabalhar”. Fechei o salão, foi uma estupidez que eu fiz.  Só que nesse período aí eu estava perdendo 30 anos de contribuição de I.N.P.S. O que é que eu vou fazer, não posso perder isso aí, vou à luta, e esse meu filho, o Sidnei, me arrumou um emprego, que ele era supervisor de Segurança do Trabalho numa empresa chamada Fascina, aqui na Alaboa.  Alaboa ou Aleboa, como queiram chamar. Eu fui pra lá como porteiro. De cabeleireiro fui para porteiro...

 

P/1 - Então voltando aqui, o senhor estava falando...

 

R - Eu estava na Fascina, veja bem. Então eu, de lidar de salão de cabeleireiro com mulher, que era meu bem, meu querido, meu amor, sempre sentido carinhoso, nunca no sentido pejorativo. Aí fui pra caminhoneiro, seu isso, seu aquilo, seu né, falavam coisas impublicáveis, (risos) imagináveis também... Porque falam, caminhoneiro é terrível. Eu fiquei lá, trabalhei nessa firma seis anos. Aí eu estava percebendo que a firma estava querendo fazer o que está todo mundo fazendo hoje, que é... Arrumar segurança particular. Então eu, olha eu, veja uma coisa, eu tenho uma mente muito fértil, viu meu filho? Eu antevejo as coisas às vezes que eu não devia nem antever, mas eu antevejo. E eu estava vendo que eu ia ser dispensado porque, se vem segurança de fora, a firma vai mandar segurança, vai mandar porteiro, vai mandar guarda, então evidentemente eu estou na rua. Mas, eu de porteiro, eu passei a líder de portaria, por concurso, também foi uma moleza, né? Pô, semi-analfabeto também, se eu não fosse concursado naquilo lá... Cheguei líder de portaria, também ganhei... Ganhava muito bem, mas eu estava vendo isso aí, foi o que aconteceu.  A firma começou a dispensar um funcionário, porteiro, só fiquei eu, mas eu também estava vendo que eu estava caminhando isso, então eu vim aqui para o Santos, tinha um senhor que era o cozinheiro, o senhor Flora, que hoje em dia, infelizmente, ele está adoentado, inclusive eu fui doar sangue pra ele, se eu pudesse daria até o que ele precisa.  Mas a gente não é dono da verdade e de tudo, né? Vim aqui, com a ajuda dele, do Maneco, fui empregado aqui como porteiro.  Aí fiquei lá no portão seis, ali dei risada, ali briguei, meu filho, briguei, aí voltei às origens de novo, ah briguei, briguei...

 

P/2 - Por quê?

 

R - Briguei porque o torcedor acha que o porteiro é culpado do que acontece no clube. Quando o Santos ganha ou qualquer clube ganha, tudo é maravilhoso... Quando o presidente é o melhor presidente do mundo, o diretor de patrimônio o melhor diretor do mundo, o financeiro... Pô, o financeiro espetacular. Quando o time perde, o presidente é incompetente, o diretor de patrimônio não conhece nada, o financeiro não tem dinheiro.  Então a torcida quer vitória. Mas eu acho que não é só por aí, não...  Mas, não é só por aí não, precisa ver, veja bem.  O presidente não quer mal do clube dele, ele não quer mal do clube dele, mas de jeito nenhum.  O presidente, às vezes... Eu estou falando isso pelo que vejo no dia a dia do dr. Samir. Ele às vezes deixa a vida particular dele, às vezes até o lar dele, pra vim pra cá. Às vezes até ser xingado, que o que eu já vi ser xingado esse homem. Mas, veja bem, põe os prós, mas põe os contra também, veja o que esse homem está fazendo. Que ele... Eu... Veja bem.  Não tô, não sou advogado dele, quem é advogado é ele, mas eu não admito injustiça.  Se amanhã ou depois ele pode até falar: “Seu Alcino, o seu lugar é a rua!” Eu vou... Mas eu jamais vou tirar os méritos dele. Jamais. Eu acho que esse homem, ele e os comandados dele, tão fazendo uma gestão que o Santos, hoje em dia, poderia ser bem maior. Se esse homem estivesse há 20 anos atrás, com a idéia dele, com o ideal dele, o apoio que ele tem, de pessoas que gostam realmente do Santos, esse clube aqui que já é grande, poderia ser maior.  Mas tinha que ter homem como ele, visão... Ele tem uma visão muito ampla... Ele não é um homem aberto, também não tem necessidade de ser aberto. Tem que ser realista. Ele é realista. Ele é pé no chão. Ele gosta das coisas bem feitas, pode apertar um, pode apertar outro, mas sempre pro lado do Santos. E assim, filho, vim pra portaria, é foi...

 

P/2 - Quando o senhor chegou aqui?

 

R - Cheguei aqui com... Pelo presidente do Santos, que era o Miguel Macol. Esse homem aí, coitadinho, ele trabalhou sozinho aqui. Ele era presidente, ele era tesoureiro, ele foi tudo, trabalhou sozinho sozinho. Deixaram o homem sozinho aí.

 

P/2 - Em que ano?

 

R – Agora, foi em 89... Não. Foi em 88, 88, mas eu já tinha vindo pra cá já. Tinha trabalhado, mas sem registro. Trabalhava, fiquei lá dois anos, três anos quase sem registro. Então em 89 que eu vim pra cá... Já aí, que eu vim com registro, registrado? Né, porque tinha uma série de coisa aí que a gente não sabia o porque, mas tinha, né? O Santos não tem culpa de ter homens sem competência aqui. Tinha, né? Hoje não, hoje tem cara competente. Então, vim para portaria. Portaria me deu alegria, como eu falei já, briguei, discuti, moralizei aquela portaria. Você sabe aqueles livros que tá dentro daquela portaria lá? Livros de ocorrência, escala de serviço... Quem implantou tudo aquilo fui eu, não tinha nada, filho. Eu quando cheguei aqui eram quatro porteiros. Um folgava sexta, o outro sábado, o outro domingo.  Eu só folgava na segunda-feira.  Pô, dois anos assim ele revezavam entre eles. Então na outra semana, o que folgava no sábado, folgava na sexta, o que folgava na... E eu só na segunda, só na segunda, aí eu falei: “Espera aí. É certo soldado não vim ao quartel, só pode levar é chumbo, mesmo e pá, né?” Fiquei quieto, mas caramba não dá mais, eu peguei e implantei... Chamei o Maneco, que aquela época era o encarre...  Como é hoje, até hoje, o encarregado. Falei: “Maneco, vamos fazer assim: Vamos fazer uma escala de serviço, porque eu sei que na CLT permite que a pessoa folgue uma vez por mês num domingo. Pô, só folgo na segunda-feira, por quê? Sou menos do que eles? Acho que não... Aí então ele: “Como é que se faz isso?” “Pode deixar que eu faço”. Chamei meu filho, perguntei a ele como se fazia escala de serviço, que ele é... Ele era escalante de firmas, né? Me orientou e eu fiz a primeira escala, está aí até hoje. O livro de ocorrências não tinha, eu implantei porque tinha que ter o livro, tudo isso aí eu ajudei, colaborei, colaborei.

 

P/1 - Senhor Alcino, vamos só voltar um pouquinho. Ainda com relação ao futebol, o senhor estava dizendo da várzea, com toda a roupa de várzea e tal... Queria saber como é que era, além da várzea, como era a relação do senhor com o futebol? O senhor torcia pra que time? Acompanhava os jogos? Onde entra o Santos...

 

R - Veja bem filho, vou ser sincero com você, eu não gosto de futebol. Pratiquei muito, corri atrás da bola muito tempo...

 

P/2 - Não gosta de futebol e jogou 20 anos?

 

R – É, 20 anos. Não gosto, não gosto, não sou fã... Não gosto de futebol assim que eu digo, fanatismo de ficar gritando, se tirando o cabelo, não, não gosto. Eu assisto futebol à minha maneira. Você quer ver? Eu venho para o campo, como eu vim sempre... Eu cheguei a vir nos campos aqui no Santos, o alambrado era de madeira, filho. Era pintado preto e branco. Do lado de cá era uma arquibancada de madeira, jogava Nenê, jogava e... Isso aí eu vi muito, filho, vi... Mas, não vou dizer pra você que o que eu mais freqüentava o Santos, o time que eu... O clube que eu mais freqüentava era a Portuguesa Santista, que já expliquei a vocês, por causa de derivado a meu pai. Meu pai fazia questão de que todos os filhos fossem assistir os jogos da Portuguesa Santista porque ele era português, ele achava que aquilo era a maior coisa que podiam fazer pra ele, era assistir o jogo do clube, da nação dele, né? Que não tem nada haver, porque aquilo  é portuguesa, o nome de uma mulher, não era, não é Portugal. Mas pra ele,  que era a bandeira verde e vermelha e a Cruz de Malta deles, aquilo lá pra ele era tudo, então, meu relacionamento foi mais dentro do campo da Portuguesa. Mas nunca deixei de assistir jogo aqui na Vila, sempre assisti, que do lado de lá no portão um, parecia até uma... Era uma cúpula, parecia uma cabine árabe, ali a cavalaria não deixava... A gente pulava ali para assistir jogo, porque moleque é moleque, né, filho? Moleque é moleque, aqui e em qualquer parte do mundo.Não vem dizer aqui pra mim que na Suíça... Mas moleque da Suíça é moleque diferente do nosso, mas é moleque. Então, eu assistia jogo do Santos assim, o da Portuguesa assim, Jabaquara pouco assistia, pouco assistia, não vou dizer que assisti muito, assisti... Comecei assistir depois que o Sanchez, que jogava com a gente no Libertador, foi pra lá, então a gente ia pra dar força pro rapaz. Mas eu conheci o Santos em fase boa, filho, fase boa, com grandes jogadores, mas não tinha Pelé, né? (Risos) Tiveram grandes jogadores, Antoninho Fernandes é um maravilhoso jogador de futebol, grandes meninos tinha aqui dentro. Mas depois surgiu o Pelé, então aí realmente o Santos Futebol Clube é estrela do mundo, é a estrela do mundo, é mesmo.

 

P/2 - E o jogo inesquecível que o senhor fez?

 

R - Santos e... Santos e Ponte Preta.

 

P/2 - Santos e Ponte Preta, conta pra gente...

 

R - Conto, porque o lateral do Santos, Sales, se machucou e o Santos estava equiparado...

 

P/1 - Só uma coisinha senhor Alcino, desculpe interrompê-lo, isso foi quando?

 

R - Ah, filho, agora a data, veja bem, esse jogo aí foi um jogo que é fácil procurar na história do Santos. O lateral, que era o Sales, se machucou, então o Ramiro foi para o lugar dele mas acabou com tudo, filho, que você possa imaginar de futebol ele acabou. De meia-direita ele foi pra lá, talvez fosse até o último jogo dele como meia-direita do Santos, foi lá pra trás e acabou, se tornou o que... Se tornou na lateral, jogando futebol que queria jogar, jogou demais na lateral, e essa é uma história triste. Uma história triste, foi o Vasconcelos aqui, o Mauro, naquele pedacinho ali, deu um  carrinho nele, não sei se foi por mal, eu acho que ninguém faz isso por mal, quebrou a perna do rapaz. Esse moço era um craque, ele veio do Rio, do Vasco, veio para a Portuguesa Santista. Veio ele, o Pacotí parece-me, ele e o Pacotí, não ele... Vai veio dois jogadores. E ele foi o que mais apareceu, saiu da Portuguesa como artilheiro veio pro Santos como artilheiro e como jogador de futebol. Jogava muito. Mas logo após ele, veio o Pelé junto com o Pagão, então o Santos se tornou a máquina que o mundo inteiro conhece, foi isso aí, mas eu gostava muito era assistir Santos e Corinthians.

 

P/1 - Por que, senhor Alcino?

 

R - Porque é uma rivalidade! (Risos) Não... Mas naquela época, filho, você pode... Podia vir com dois, três colegas teus corinthianos junto com dois, três colegas teus santistas, no meio vinha um palmerense, um são paulino, tinha aquela brincadeira que hoje é sarro, chamavam de sarro naquela época, vamos tirar sarro pá, pá,  pá, e era  uma gozação daqui até lá porque no canal aí era... Mas, fora disso acabou, meu filho, não tinha esse negócio de o cara ir pro campo  fantasi... Com a camisa do clube, para te agredir não, eles simplesmente só te queria bem, porque você era amigo da pessoa, você vinha assistir o futebol... Hoje nem tênis você pode ir que tem briga, pô. Outro dia o cara não deu com a raquetinha fundo  na cabeça do outro, então, não tem mais esportividade, acabou o esporte, acabou. O arqueiro do Santos é maravilhoso. Já falei pra vocês, aprendi a amar esse time. Amar, gostar, é isso...

 

P/2 - O senhor disse que o futebol não era assim seu esporte predileto. Qual o esporte que o senhor gostava mais que o futebol?

 

R -  Antes é... Ahm... É é é... Como esporte que eu mais gostei até hoje?

 

P/2 - De praticar.

 

R - Não. Eu praticava mesmo só o futebol.

 

P/2 - Só o futebol.

 

R - É que eu não sou nada , não sou... Você já viu um gelo no sol? Sou eu. Esporte nenhum. Olha, eu não sei jogar vôlei, não sei jogar basquete, não sei... Que eu corri um pouquinho atrás da bola e fui teimoso, 22 anos (Risos) teimoso, fora isso, filho, não sei jogar carta, não sei nada. Jogo pra mim não entra dentro do meu cérebro, não entra. Não sei porque. Agora fala pra mim de música, em dançar, com a idade que eu tenho, meu filho, ainda escorrego meus pés.

 

P/2 - Sua atividade de lazer, então, é dançar?

 

R - É dançar, dançar. Dançar, veja bem, agora existe um som... Comprei, comprei, comprei... À prazo, comprei. À prazo? Comprei, comprei.  Só pra ouvir os meus CDs, meus CDs... eu me orgulho de ser apaixonado por Johnny Rivers, Beatles, eu tenho quase que a coleção deles toda (risos), eu sou vidrado nesse... E nos Carpenters, eu sou macaco de auditório de boa música, eu sou. Orquestrada, a música italiana pra mim é a melhor música do mundo, não tem, filho, não tem. Não tem música no mundo igual a italiana. Se alguém for descendente ou italiano, pode bater no peito e se orgulhar disso aí. Você tá vendo aí esse tal de Boccelli aí, é brincadeira. Deus tirou a visão, mas deu a voz pra ele, é brincadeira, aquele outro barbudo, aquele crioulo lá o... Me falha a memória, mas eu sou amante da boa música. Da péssima música, desculpe-me a ausência dos que estão e que gostam, também me desculpem, não suporto aquele negócio, desculpe aqui que mulher ficar rebolando em frente da televisão, aquilo é uma apelação, aquilo lá não tem nada, não tem nada. A mulher pra ser mulher não precisa fazer aquilo. Como o homem também não precisa ficar de tanguinha pra dizer que é mais homem do que os outros, que o homem se mede do nariz pra cima, é daqui pra cima, daqui pra baixo qualquer um é homem, eu quero ver daqui pra cima. Que aqui dentro,  essa massa encefálica aqui  tem que ser usada, não maltratada. (Risos) Se maltrata, isso aqui se maltrata.

 

P/2 -  Tá certo, então, estamos chegando ao fim, a não ser que você tenha mais alguma coisa que...

 

P/1 -  É, eu só queria, talvez da época da portaria do Santos, vamos traçar aí ainda que rapidamente, mas a... Como foi a evolução do senhor aqui dentro do Santos?

 

R -  Ah sim, filho, veja bem, então eu me omiti disso aí, que na ênfase de falar eu falo muito mesmo. Eu... Fui porteiro, aí houve uma oportunidade que o Maneco falou para mim, Maneco é o encarregado: “Senhor Alcino, olha vai sair... O senhor não quer trabalhar comigo, ajudar no campo do estádio?”. Falei: “Pô, é uma boa, sair de portaria para ir...” Eu já tinha  o meu horário. Na portaria, filho, era... Já falei pra vocês lá embaixo, né, que eu trabalhava de zero hora às sete da manhã . Ou das sete, não. Trabalhava das sete às sete mesmo, mas chegava zero hora, é aqui no Santos tinha Zé Renato, Camilo, o Nandinho que hoje está no time de cima do Santos, que Deus o proteja que é um belíssimo menino, Milton, o Pafudo, é jogadorzinho que vieram do interior e ficavam alojados aqui no Santos. Esses meninos, dez horas estavam dormindo. Eu fechava a portaria e ia fazer o que... Vou mentir se dizer pra vocês: “Não, ficava a noite toda correndo atrás de mosquito”, mentira filho. Eu abria a portaria e cochilava mesmo. Cochilava e quatro, cinco horas da manhã eu acordava, acordava. Puxa, passei uma noite maravilhosa! (Risos) Aí abria a porta, mas é isso aí. Após isso, aí vim para o campo estádio aí ralei, filho, ralei. Que andar com o Maneco dentro do campo, é... O cara é um trator rapaz, o cara anda mais... Olha, o que ele anda dentro do campo do Santos Futebol Clube, cavalo no Jóquei Clube não corre. É verdade, ninguém acompanha Maneco no Santos,  não. Então,  fiquei com ele, fiquei dois anos. Aí houve um problema com o rapaz que trabalhava no almoxarifado e os diretores tiraram esse cara de imediato assim, e não tinha ninguém pra colocar e o Maneco falou: “Seu  Alcino, fica lá provisoriamente”. E esse provisório está até hoje.

 

P/1 - Quantos anos?

 

R - Vai pra dez anos. É duro ficar no almoxarifado dez anos, que no almoxarifado ninguém respeita não, filho. Sabe por quê? O almoxarifado é ladrão (Risos), não, mas é, filho. Não... Mas eu aprendi por mim próprio, a vida nos ensina, filho. Se eu fizesse estoque no meu almoxarifado... Se eu saísse com um embrulho, eu estava levando. Como eu não faço estoque, eu compro e entrego, ninguém tem nada que falar de mim. Que eu tenho um nome muito grande pra zelar. Pequeno nome, Alcino Augusto, mas grande na moral. Ninguém vai falar nada de mim. Pode falar: “Ah o cara é boca dura”. Sou bocão, sou bocão. Se você for meu amigo e for me tratar bem, você vai tirar a minha cueca pelo pescoço, se me pisar no calcanhar, meu amigo, é ruim. Não, eu sou uma aranha, sou mesmo viu? (Risos) Sou aranha. (Risos) Então, foi por isso que eu saí, foi até bom que eu saí da portaria, porque... Mas a portaria foi maravilhosa! Eu posso falar pra vocês de Zé Renato, Camilo, esses meninos aí, o Nandinho... Ôh esses caras aí, vi quando eles chegaram lá de Araçatuba, não meu Deus do céu, é cara do interior, Barretos, o Nando veio de Barretos menininho, rapaz, piolhinho. O Camilo parecia um espirrinho, rapaz, parecia um... Hoje tá tudo formado, jogando futebol em time já profissional. Todos eles vem aqui, não deixam de me visitar, não, nenhum deles, nenhum deles... Vem me visitar não só eles, o Pedro Paulo, outro menino que jogou aqui vem me visitar, olha eu só criei amizades.

 

P/2 -  Olha, eu só queria fazer uma pergunta. Como é a rotina desses atletas que chegam ao Santos do interior ou de outras cidades, ainda garotos? Praticamente passam boa parte da adolescência aqui?

 

R -  Não, filho, olha, veja bem, eles são muito bem tratados, sempre foram.

 

P/2 -  Mas como que é a rotina?

 

R -  Ah, a rotina dele, filho, agora, é estudar à noite, a maioria à noite, praticar o esporte durante o dia,  manter os alojamentos deles muito bem conservados, a refeição dele muito bem feita, e eles tem... Tudo deles é doutrinado, eles são doutrinados. Eles são doutrinados a não bagunçar, a não partir pra ser leviano, partir pra outras coisas pior do que a gente possa pensar. Mas eles são muito bem orientados, são muito bem orientados. São. Muito  bem orientados por sinal.  A maioria são garotos de boa índole, bom de índole. Agora, quando o cara é relapso, é relapso em qualquer lugar.

 

P/2 - Com quantos anos em média eles...

 

R - Eles começam aqui com 14, 14 anos em diante, 14 anos em diante. Já  vem pra cá, às vezes até menor, então eles já vão se preparando, eles ficam, convivem com jogadores profissionais, então, eles já vão se profissionalizando sozinhos e vão vendo, vão adquirindo tarimba, conhecimento, e vão se tornando gente assim, filho. É assim que eles se formam gente.

 

P/2 - Então, pra encerrar, eu queria fazer uma última pergunta, a gente faz pra todo mundo. Qual a sua sensação, que impressão essa entrevista está lhe causando? O que o senhor está sentindo de estar colaborando?

 

R - Você já imaginou, filho, um cara de 66 anos ajudando um moço? Precisa falar mais alguma coisa? É maravilhoso!

 

P/2 - Mas, o senhor está colaborando com a história do clube, com o Museu do Santos.

 

R - Mas acho que eu estou colaborando mais com vocês, sabe porque, filho? O Santos já está feito, vocês vão se fazer. Precisa alguém que oriente, né?

 

P/1 - Está ótimo!

 

R - E vê lágrima nos olhos porque eu sou emotivo, tá? (Risos)

 

P/2 - P/1 - Obrigado, muito obrigado, obrigado, mesmo...

 

R -  Ah, não seja por isso.

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