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História

Da perseverança ao sucesso

História de: Wagner Douglas da Rocha Ferreira
Autor: Thais Montanari
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Moradia e infância. Lembranças do carnaval e o frevo. Relação com a mãe, aprendizados e valores como a perseverança. Retrato sobre como ultrapassar os limites com o teatro. Época da escola. Mudanças na adolescência e namoros. Recordações dos primeiros empregos. Formação em um curso profissionalizante. Os desafios encontrados no laboratório. A vontade de trabalhar em grupos fortes.

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História completa

Projeto Fleury - 85 Anos de Aprendizagem e Inovação

Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Wagner Douglas da Rocha Ferreira

Entrevistado por Gustavo Sanchez

Recife, 18 de outubro de 2011

Código: FL_HV021

Transcrito por Letícia Gonçalves Sobrinho

Revisado por Rhaíssa Hannecker Barbosa

 

 

 


P/1 - [Risos]. Vamos lá, Wagner, então. Pra começar, vou pedir pra você falar o seu nome completo.


R - É Wagner Douglas da Rocha Ferreira.


P/1 - E qual é a data do seu nascimento?


R - 10 de fevereiro de 1974.


P/1 - Legal. Me conta, também, onde você nasceu, Douglas. Em que lugar?


R - Eu nasci em Olinda, no estado de Pernambuco, na terra do frevo.


P/1 - Na terra do frevo.


R – [Risos].


P/1 - E aí você lembra da sua casa de infância lá em Olinda, Douglas? Como é que era a casa da sua infância?


R - A casa da minha infância era uma casa tradicional. Minha mãe, eu não entendia assim...


P/1 - Como é que era a casa? Se você fosse descrever a casa, conta pra mim "minha casa era assim".


R - Minha casa era bem simples, tudo começou bem simples. Minha mãe batalhadora que só né, foi difícil criar a gente porque foi ela sozinha. Meu pai praticamente deixou tudo nas mãos dela, ela teve que criar sete filhos comigo. Então, foi bem simples.


P/1 - Você falou que você tinha irmãos, né, em quantos vocês eram na sua casa?


R - Sete, sete irmãos.


P/1 - Sete irmãos. Legal, e como era o dia a dia lá? Como era pra comer, juntava todo mundo? Era uma bagunça?


R - Juntava todo mundo, minha mãe, é como eu te disse antes, fez das tripas, né, como se diz aqui no Nordeste: fez das tripas corações. É uma maneira bem engraçada hoje em dia de se dizer. O que eu quero dizer: ela lutou sozinha pra poder passar alimentação pra gente, entendeu? Foi muito difícil, mas uma guerreira.


P/1 - Me conta um pouco o período de infância, Douglas. Do que vocês brincavam? O que vocês faziam pra brincar?


R - A gente brincava de, assim, eu brincava sempre com os meus irmãos. Não era uma época que se tinha tanta tecnologia que hoje tem, modernidade que hoje tem em cada brinquedo, né, enorme daquele jeito, aqueles bonecos. Não, brinquedos normais, a gente brincava de futebol, era dentro de casa mesmo porque minha mãe não tinha aquela facilidade de deixar a gente ir pra rua pra ter coleguinha, então, a gente brincava entre a gente mesmo, entre irmãos. De pega-pega, esconde-esconde, sempre dentro de casa, entre quatro paredes.


P/1 - Legal. E quais são suas primeiras lembranças de Olinda, assim, da cidade?


R – [Risos]. Olinda... do frevo. O tempo de frevo ali é impressionante como até hoje toma conta dessa cidade. É uma cidade muito linda, é uma cultura que devia ser muito mais explorada pelos brasileiros e, hoje em dia, não é. Mas o que, em torno de si, eu gosto mais de Olinda é o frevo, as brincadeiras, aquela malícia de você curtir sem estar de maldade com os outros. Apesar de que a violência vai existir e existe, mas é minoria. Sempre gostei mesmo foi do frevo.


P/1 - Você falou do frevo, em que período você via frevo? Era mais no carnaval?


R - Carnaval, mais no período do carnaval. Tem também o carnaval fora de época, que a gente tem entre janeiro, tem aquele carnaval fora de época, mas o bom mesmo de Olinda que eu curtia era o período do carnaval.


P/1 - Legal, e você falou do carnaval, você lembra dos primeiros carnavais de infância? Como é que era o carnaval, se você fosse contar pra alguém que nunca foi no carnaval em Olinda?


R - Era uma coisa louca [risos]. O frevo já tá dizendo em si, né, um pula pra lá, pula pra cá, sua a camisa. É muito gratificante.


P/1 - E qual era a diferença de quando você era criança? Como era o carnaval naquela época?


R - Olha, naquela época, quando eu era criança, a diferença é porque não se tinha tanta violência como hoje se tem. Carnaval se via aquelas brincadeiras, aquelas fantasias, a Pitombeira, o Elefante. Tinha vários blocos de você ver totalmente diferente a naturalidade. O carnaval de hoje você nem vê mais nesses blocos tradicionais que eu acabei de dizer, você não vê tantas fantasias, você não vê um investimento naquela cultura, que tinha na época que eu era pequeno. Então, houve muitas diferenças, mudou muito.


P/1 - Entendi. Você falou pra mim de Olinda, falou do frevo agora...


R - Foi.


P/1 - ...que outros lugares você ia que eram lugares que você gostava de ir de pequeno?


R - De pequeno era Recife.


P/1 - Recife.


R - Recife tinha o marco zero, uma parte de você se divertir, de você ter um pouco de lazer. Você não conhece, você não é daqui, mas a parte do marco zero eu acho muito interessante, aqueles prédios antigos que renovam cada tempo que passa. É muito interessante.


P/1 - Eu até conheço, naquela época já tinha a ilha ali na frente? A ilha do...


R - Já tinha.


P/1 - E aí vocês brincavam? Era pra lá que vocês iam...


R - Brincavam, então, com certeza. Sempre a gente ia pra lá pra se divertir quando a minha mãe tinha um tempo pra levar a gente e a gente ficava lá se divertindo um pouquinho, aproveitando um pouco.


P/1 - Legal. Douglas, você falou bastante da sua mãe, dela ser uma guerreira. Me conte um pouco sobre a sua mãe...


R - Com certeza. Oi?


P/1 - Quem é sua mãe, como é sua mãe, se você fosse falar dela. Qual é o nome dela?


R - Neuza Valda da Rocha Pereira. Minha mãe é extraordinária, ela nem parece comigo [risos].


P/1 – [Risos].


R: Porque eu digo assim, a minha mãe é ruiva, meu pai é bem moreno, mais escuro do que eu. Então, assim, hoje em dia, se você perceber, você vai ver a minha mãe ali e não vai dizer que é a minha mãe por causa desse retrato que eu acabei de lhe dizer.


P/1 - [Risos].


R - Quando eu falo muito dela é pelo amor que ela teve, em cuidar da gente sozinha com aquela dificuldade que era na época e ela conseguiu dar um jeito no destino, mudar tudo. Parecia que a gente não ia ter nada, ela conseguiu, aos poucos, buscar tudo. É isso que eu levo dela, a questão no meu pensamento com ela até hoje é isso, essa maneira, essa segurança que ela tem de enfrentar cada dificuldade e, até hoje, ela continua com essa mesma perseverança. Cada dificuldade, eu fico impressionado, ela passa do nada.


P/1 - Legal.


R - Enfrenta tudo, pode ser em qualquer época. Pode ser época ruim, de tristeza, ela enfrenta.


P/1 - E, Douglas, o que ela faz? Qual é o trabalho dela?


R - Olha, ela é enfermeira, mas já se aposentou. Hoje em dia é mais lazer, ela vive em casa só.


P/1 - Você falou dela ser enfermeira, você lembra, de pequeno, de você acompanhar ela no hospital alguma vez?


R - Não, porque na época quando ela se afastou, eu sou o último, sou o caçula. Ela, hoje, já tá com 70 anos, já tá idosa, então, na época, ela não gostava de levar os filhos no trabalho, como hoje em dia até não é muito permitido. Eu não acompanhei muito, não, mas ela me passou tudo, por exemplo, aferir a pressão, coisa que com 10 anos eu já tava aferindo uma pressão. Eu já aferia a pressão de todo mundo dentro de casa, quer dizer, naquela época, não se metia muito a parte de enfermagem, hoje em dia qualquer pessoa tá ensinando a aferir, mas naquela época não. Então, ela me passou os mecanismos da parte dela, da enfermagem, apesar de eu não ter seguido. Eu segui mais a parte de laboratório.


P/1 - Entendi. 


R - Chega junto, mas é diferenciado as rotinas.


P/1 - Você falou dela te ensinar a aferir pressão, como é que foi isso? Como é que ela te ensinou?


R - Ela chegou e ela andava muito com, esqueci o nome, aquele tensiômetro. Então, ela colocava e dizia: "Olha, você vai aferir a máxima e a mínima. O primeiro tom, você já escuta, então, você vai escutar", eu dizia "eu não vou escutar, não" e ela dizia "tenha paciência, você vai escutar, escuta primeiro". Aí, quando ela colocou, eu escutei o primeiro, só que eu tinha dificuldade de escutar o outro, é sempre isso. O primeiro a gente escuta, mas ela foi cada dia mandando eu me aperfeiçoar e, hoje em dia, dá pra eu fazer aferição de primeira. De primeira, na maior.


P/1 - Legal. E o que mais você lembra dela ter te ensinado? Coisas que você aprendeu com a sua mãe.


R - Coisas que eu aprendi com a minha mãe... ela passou de tudo um pouco, mas é como eu disse a você, é a perseverança, é você lutar. Você quer alguma coisa e você vai, é possível, não importa que seja duas vagas, três vagas, quatro vagas, ela sempre passou pra mim: "Tem que ser perseverante, você consegue. Esqueça o número de vagas, faça e vá-se embora".


P/1 - E a comida? Tinha uma comida diferenciada? Como era a comida da sua mãe?


R - Ah, diferenciada, assim, ela faz um arroz e um feijão daqueles, muito legal...


P/1 – [Risos].


R - ... Fora isso, apesar de ela não gostar muito de cozinhar, é excelente. Ela bota sempre um pouquinho de amor, modifica tudo e tudo fica ótimo.


P/1 - Tá certo. E, Douglas, você conheceu algum dos seus avós?


R - Conheci minha avó que era madrasta da minha mãe, eu não cheguei a conhecer realmente a mãe da minha mãe. Não cheguei, mas a madrasta da minha mãe eu consegui. É surpreendente que ela parece muito com a minha mãe, né, achei muito interessante, porque a minha avó foi a única que, fora o restante do parentesco da minha mãe, aceitou mais a gente, aceitou mais a nossa família. Porque, naquela época, o meu avô, pai da minha mãe, não aceitava muito a mistura de cor, a mistura de raça, tanto que ele nem chegou a conhecer a gente. E a minha avó, por ser madrasta, por ter criado minha mãe, ela aceitou a gente, ela abraçou a gente na causa mesmo, abraçou sem preconceito nenhum. E ai daquele que dissesse que a gente ia ser, que dissesse que a gente tinha um cabelinho ruim [risos]. Ela ia pra cima, ela enfrentava. É Esther Marinho, eu nunca vou esquecer a minha avó. Faz 20 anos que ela morreu, mas até hoje deixa uma saudade porque era outra, uma lutadora que passou por cima de tudo e de todos pra estar com a gente também.


P/1 - Me conta um pouco mais dela, quem ela era, o que ela fazia.


R – [Risos]. Ela era uma pessoa dinâmica. Ela achava que tinha que ser o correto, não tinha outro caminho. É o certo, é o certo, ela era uma pessoa justa. O certo, acabou-se, não adianta a gente ir por outro caminho, tinha que ir por aquele caminho. É uma pessoa que, como eu disse pra você anteriormente, ajudou a minha mãe a criar a gente, batalhou também junto com ela, não foi fácil e deixou a certeza de que a gente tem sempre que procurar o lado correto da situação. Falar mais sobre ela é meio difícil, porque vai deixar cada vez mais saudade ainda. Eu cuidava muito dela também, eu tenho lembranças dela, ela teve uma dificuldade de visão, aí ela precisou da gente. A gente a trouxe, ela morava em outro local em Olinda mesmo e ela teve glaucoma, houve perda total da visão. Então, minha mãe trouxe ela lá pra casa, a gente ajudou a cuidar dela. Ela gostava muito de ler, toda noite eu lia a bíblia pra ela, cada capítulo, Pedro, João, Tiago, tanto que eu tenho memorizado a bíblia na minha cabeça de tanto tá lendo. Tinha sempre aquela horinha, sete horas da noite que ela falava assim: "Cadê meu neto Wagner?", porque o pessoal lá de casa me chamava de Wagner e aqui eu sou conhecido como Douglas, na parte profissional. Então, ela dizia: “Cadê meu neto Wagner pra vir ler?", e eu dizia: "Pera aí", “A gente já sabe onde a gente parou, né? “Parou em Mateus”. Tem uma parte bíblica que Jesus dizia em Mateus, eu não vou esquecer, não é possível.


P/1 - [Risos]. Não tem problema.


R - Mas tem uma parte, eu esqueci mesmo.


P/1 - Mas você lia pra ela, basicamente era...


R - É, eu lia. Tinha várias partes bíblicas que a gente lia, que eu lia bastante pra ela. E o interessante é que ela tinha também memorizado e, quando eu ia dizer, ela já dizia na minha frente. São partes assim que eu me lembro dela, dessa convivência depois dessa doença que ela teve e foi surpreendente.


P/1 - Tá certo. E, Douglas, você falou pra mim que você é o caçula, né? Como é ser o caçula em casa? [risos].


R - Pô, ser o caçula é o máximo, porque minha mãe sempre me deu mais carinho. Não é que ela não tinha carinho pelos outros, só que aquele carinho diferenciado, aquele menininho desprotegido que ela achava, então, no dia a dia, ela sempre tinha aquele cuidado maior comigo. Puxava um pouco de diferença dos meus irmãos, porque eles achavam que ela tinha mais amor por mim do que por eles, mas a minha mãe sempre teve amor por todos, ela só tinha aquele cuidado maior por mim por ser o caçula, por ser o mais novo. Tipo, se apegar mais assim, pequenininho [risos].


P/1 - Legal. E, Douglas, você falou um pouco do frevo, que você gostava, mas quando você era pequeno, do que você gostava de fazer? Você falou do marco zero também, quais outras coisas você gostava?


R - Quando eu era pequeno, eu gostava muito de brincar mais de imaginar. Eu queria ser bombeiro, queria ser médico, eu sempre queria ser tudo [risos]. Eu até me metia em atuar, fiz várias peças de teatro, cursos de teatro, de artes cênicas. Já cheguei a passar com o Thiago Lacerda, tenho até foto, esqueci até de trazer a foto...


P/1 – [Risos].


R - ...pedi até minha mãe pra guardar. Quando ele tava ensinando a gente a contracenar, né. E eu achava muito interessante, porque eu era muito tímido, Gustavo. Eu era muito tímido, não enfrentava as coisas de frente, não. Aí, quando eu comecei artes cênicas, eu me soltei mais um pouquinho, comecei a atuar. Pena que eu não sei até hoje onde estão essas fitas e os locais onde eu fiz. Porque vinham umas empresas do Rio de Janeiro pra cá, aí eu me interessava e verificava se tinha alguma empresa que tava fazendo curso de teatro aqui. Quando eu via, eu já tava fazendo.


P/1 - E como começou isso? Quando você fez o primeiro curso, como você resolveu "vou fazer teatro"? Como você...


R - Foi com o ator Felipe Martins, eu nem sei onde é que ele anda hoje. Ele veio pra cá a primeira vez, em Recife, pra fazer esse curso no Português, que é um clube que tem aqui, Clube Português. Aí, eu vi o comercial, a propaganda e falei: "Vou fazer, vamos embora, vamos fazer". Tinha hora que eu queria desistir, dizia: "Não, isso não tem a ver comigo, não. Pra ser ator tem que ser bonito, tem que ser modelo. Não dá pra mim, não". Aí, minha irmã dizia: "Você tem uma arte diferenciada. De dentro, você é mais bonito. Você vai interpretar e mostrar para as pessoas como você é". Então, eu gostava muito, acabei entrando. Fiz, gostei, era interessante demais com o público imenso quando eu fui fazer a primeira peça. Até pensava que não ia dar muita gente, porque era iniciante, mas até que deu. Tem uma parte de direção em cima, lá no Clube Português, aí eu ficava falando: "Ô, diretor, eu tô num lugar melhor?", ele dizia: "Você tá, Wagner, você tá no local". Era muito interessante, eu gostei muito. Foi uma peça até engraçada, virou uma comédia, eu não me lembro o nome. Eu não encontrei mais o pessoal, porque eles eram de São Paulo e do Rio, mas era uma peça tão engraçada que eles gravaram. Eu começava com um jornal assim, eu gesticulava. Era uma parte pouco falada e muito gesticulada, então, se tornava muito engraçado. Eu me lembro muito pouco, porque já faz uns 16 anos, por aí.


P/1 - Entendi. 


R - Mas foi a parte melhor da minha infância. De ter me soltado mais, me conhecido, porque eu não me conhecia. Eu não sabia até onde ia o meu limite, então, eu gostei bastante.


P/1 - Você falou sobre se conhecer mais com o teatro. O que você conheceu do Douglas? Ou do Wagner [risos].


R - Do Wagner [risos]. Meu limite, que eu poderia, assim, ir muito além. Porque antes do teatro, eu achava que eu tinha aquelas quatro paredes, eu tinha que ficar ali e pronto, eu tinha medo de tudo. Eu tinha medo de enfrentar a vida, eu tinha medo de falar como hoje eu falei com você, normal, como eu brinquei com o câmera ali. Então, antes, eu não era assim, eu era muito tímido e não tinha esse jogo de cintura de estar conversando. Eu não conversaria assim com você, com a câmera aqui na minha frente, não. Então, eu vi que eu ultrapassei meus limites, eu vi que a gente realmente pode ultrapassar, pode ir além, que a gente pode conseguir. E o teatro me mostrou isso.


P/1 - Douglas, me conta um pouco, agora, do seu período de escola. Quais são as suas primeiras lembranças, tipo: "Pô, escola, Gustavo, eu lembro disso".


R - Primeira infância foi no colégio do estado, né, minha mãe infelizmente não teve a oportunidade de me colocar numa escola privada, foi num colégio do estado. Era um corre-corre danado, direto. Eu tinha boas notas quando eu era pequeno, qual é a criança que não vai dizer que tinha boas notas, não é? Eu sou suspeito [risos].


P/1 – [Risos].


R - Mas eu tinha, minha mãe é testemunha. Eu tirava muitas notas boas, me dedicava bastante. Tinha uma professora que era de ciências, além de ser tão linda, tão bonita, o nome dela eu não me esqueço mais, professora Sandra. Ela ensinava cada ditado, na hora certa ela dizia uma coisa. Tanto que, quando a gente falava demais, ela dizia assim: "Cuidado com o que você vai dizer, porque quem diz o que quer ouve o que não quer". Daí, até hoje, eu não esqueci, cada momento ela ensinava uma. Fora isso, era o dia a dia, brincadeira normal de toda criança, tinha a parte do lazer, a gente ia jogar uma brincadeirazinha. Era interessante, porque em vez da gente jogar bola, como a gente não tinha uma bola, a gente pegava umas pedrinhas e saía chutando umas pedrinhas e fazia a pedra de bola [risos]. Era muito interessante, tinha goleiro, tinha tudo e a gente saía chutando.


P/1 - Improvisado.


R - Tudo a gente improvisava, pronto. Era o mesmo que no teatro, vamos improvisar e improvisa. Foi o que acontecia e eu esqueci de dizer anteriormente. Eu esquecia, olhava pro diretor e ele dizia: "Te vira, improvisa". Pronto, improvisei, todo mundo bateu palma e ninguém sabe até hoje o que eu queria dizer. Só sei que todo mundo achou ótimo, magnífico, o pessoal ficou rindo que só, porque o intuito era esse mesmo. Tanto que o Thiago Lacerda, que era o diretor na época, depois que terminou, ele falou assim: "Mas tu improvisaste mesmo, de onde que tu foi tirar isso?". Eu disse "Sei lá, veio na cabeça", é isso que é improvisar.


P/1 – [Risos]. Isso que é improvisar. Douglas, aqui você tem uma reação forte com a praia, com o mar?


R - Tenho. Em que sentido você diz, essa relação?


P/1 - Por exemplo, você lembra de ir pra praia desde pequeno? É um lugar que você gosta?


R - Lembro, chamada Praia dos Milagres, que hoje a turma chama mais de Praia Del Chifre. O pessoal tira até onda: "Del Chifre por quê? Por causa de chifrudo? É a praia do chifrudo?", não, nada a ver. Eu conheci como a Praia dos Milagres, me lembro de várias vezes brincar bastante. Eu achava interessante porque, até hoje, tem muita onda, o mar é livre, não tem aqueles arrecifes, então, tem ondas demais. Hoje em dia, eu não sei como a gente enfrentava, porque puxa muito, mas a gente brincava bastante. É perigosa demais aquela praia, por isso que é considerada Praia dos Milagres, porque tem muito buraco e puxa você lá pra dentro mesmo. Eu me lembro da Praia dos Milagres, Itamaracá eu ia muito pouco, pra falar a verdade. Eu acho que eu fui pra Itamaracá umas três vezes no decorrer da minha vida, na infância eu dificilmente ia, minha mãe mal deixava a gente sair de casa.


P/1 - Entendi.


R - Porque ela já pensava na violência do dia a dia, então, essa preocupação total fazia com que ela vivesse assim. Ela foi criada daquele jeito, então, ela tornou a gente nessa mesma criação. 


P/1 - E a fase de adolescência, quando você já foi ficando um pouco mais velho?


R - Ô...


P/1 - O que mudou?


R - Mudou que vai ficando mais velho, naquela época, a gente vê interesse em namorar [risos]. 


P/1 - [Risos].


R - Hoje em dia, você vê os meninos de 12/13 anos, já estão aí embarcando. Eu me lembro de quando eu fui ter um relacionamento direto com uma mulher, eu já tinha 18 anos. Hoje em dia, com 16/17 anos você já é pai. Interessante, e eu acho que, na minha adolescência, eu aproveitei mais a parte de conhecer, né, namorar um pouquinho. 


P/1 - E a primeira namorada? Você lembra?


R - Ô, a gente nunca esquece. Não tem essa frase: "A gente nunca esquece"? Não esqueço, a Luciene, uma pessoa excelente, praticamente a gente aprendeu tudo junto [risos].


P/1 – [Risos].


R - Foi tudo junto, foi muito interessante, foi aquele jeito de se lidar cada dia. Foi tudo junto, foi demais.


P/1 - Você lembra como você conheceu a Luciene?


R - Conheci no colégio, num outro colégio que a gente estudou. E tudo apareceu de momento, a gente era amigo, né, nunca mais eu a vi. Mas a gente era amigo, depois de um relacionamento de amizade, pra lá e pra cá, ela só, eu só, aí vem pra cá, tu fica ali, tu vem aqui e pronto. A gente se relacionou e foi uma amizade direta, uma amizade. Aí a gente ficou, teve o período que a gente viu que era só amizade mesmo, que não dava pra ir mais adiante, aí a gente se separou. 


P/1 - E, Douglas, deixa eu te perguntar uma coisa. Você falou do carnaval, tem outras festas que acontecem? Festas regionais aqui em Recife que você...


R - Tem, culturais, só festas culturais. Aparece, assim, aniversário de Olinda, um dia desses tava tendo aquele, eu esqueci, tá fugindo muitas coisas da minha cabeça. Mas teve um evento cultural agora de livros, mas Olinda é mais assim na época de carnaval, de frevo. Tem suas épocas também quando tem a paixão de Cristo...


P/1 - E São João, por exemplo?


R - São João, pronto. O que eu achava interessante de Olinda é que antes, nos antigos governos, se investia muito no São João de Olinda. Hoje em dia, não se investe mais, não. Hoje em dia, se a gente sai daqui, se a gente quer ver uma quadrilha, alguma coisa assim, a gente tem que ir lá no Morro do Peludo, onde tá o pessoal da Globo [risos], que é o único que bota quadrilha. Mas pra gente ter assim, em Olinda, é muito difícil de ver.


P/1 - Mas você falou que teve uma época que teve. Você lembra dessa época, como é que era?


R - Teve, na época que teve dança junina era sempre bom. Um chamego pra lá, uma diversão pra cá. Vinha quadrilha de outros lugares pra gente ver as culturas de outros lugares. Eu gostava de ver tanto a cultura da gente, porque eu valorizo muito a nossa cultura, eu acho que falta mais investimento do governo pra dar mais valor, mas eu dou valor. E eu gostava de ver a cultura de outros lugares, as danças típicas de outros lugares, então, eu me envolvia mais nesse traje.


P/1 - E, Douglas, deixa eu falar um pouco de trabalho agora. Qual foi a sua primeira experiência profissional, primeiro trabalho?


R - Chegou à parte que é bom [risos].


P/1 – [Risos].


R - Foi no Jornal do Comércio, aos 14 anos de idade. Pense, já faz um tempinho [risos], foi ótimo. Eu pequenininho, cheguei pra minha mãe e disse assim: "Olha, eu vou trabalhar". E ela disse assim: "Mas menino, vai trabalhar pra quê? Não precisa, não, menino. Eu tenho condições já pra gente ficar tudo normal", "Não, eu quero ter meu dinheiro, eu quero ter minha liberdade". Mas eu fiz isso pra ter minha liberdade e pra me libertar um pouquinho da prisão das quatro paredes, porque minha mãe deixava a gente preso, então, eu disse: "É hoje". Aí, eu fui lá no Jornal do Comércio, que é o jornal que é aqui de Pernambuco e eles tavam contratando menores de idade com carteira assinada, porque era um contrato com o Ministério do Trabalho e trabalharia só quatro horas, recebia o mesmo salário mínimo e pegava das seis da manhã às (?) da manhã. Então, eu fui lá, levei minha mãe, “aperreei” bastante ela porque ela não queria a princípio. Ela ficava: "Você é menor de idade" e eu: "Bora, mãe, pra eu ter um dinheirinho. Eu vou juntando", aí ela: "Vai, tá bom". Aí pronto, fui. Chegou lá, falou até com a psicóloga, que eu conhecia. Primeiro eu fui lá no Jornal do Comércio, falei com a psicóloga, a psicóloga olhou assim pra mim e, como eu tinha 14 pra 15 anos, a minha estrutura, você pode até ver num retrato, era daquele tamanho mesmo. Eu achava: "Eu não vou crescer, não, é?". Então, a psicóloga disse assim: "’Oxi’, mas tu é muito pequeno pra estar trabalhando no jornal. Tu sabe que é um monte de lote de jornal que vai ter que botar na cabeça, né?", e eu digo: "Não, mas eu quero", ela: "Por que?". Porque, assim, além de eu achar interessante trabalhar num jornal, eu queria trabalhar em emissora de televisão de todo jeito. Eu botei na minha cabeça que eu queria trabalhar numa emissora de televisão, que eu gostava daquele jeito jogado da câmera, aquelas filmagens, "Eu vou ser artista". Coitado, não tinha um pensamento que era muito difícil naquela época, porque aqui em Recife não tinha como, mas eu peguei e fui. Aí ela disse: "Por que?", eu digo: "Porque eu quero uma oportunidade, depois eu quero trabalhar aqui com alguma coisa. Quero ser um câmera man, alguma coisa assim". Ela disse: "’Oxi’, tá bom, vai. Então, eu vou empregar você. Chame sua mãe, se sua mãe autorizar, aí você vai ver que tudo isso é ilusão, coisa da sua cabeça". Eu digo: "Tá bom". Minha mãe autorizou, eu saía vendendo jornal e eu fazia uma propaganda danada de jornal, viu? "Esse é o Jornal do Comércio, o jornal mais lido aqui de Pernambuco, não sai nenhuma tinta" e a tinta saindo na minha mão.


P/1 – [Risos].


R - Porque, naquela época, a tinta saía na minha mão e ela ficava preta. Eu dizia a propaganda, o pessoal achava interessante a maneira que eu dizia e eu lembro até hoje que um senhor chegou assim: "Esse jornal do comércio não é aquele que sai muita tinta?", "Não, senhor, não sai muita tinta, não, o senhor pode pegar aqui. Pegue desse jornal que o senhor vai ver que não tá saindo tinta", "Olha que esse jornal era conhecido antigamente por deixar a mão da gente tudo preta, cheia de tinta", "Não, senhor, mas o meu tá diferenciado. Não tá mais, o jornal mudou". Aí quando eu o dava, já era aquele jornal que já tava [risos] que minha mão já tinha absorvido a tinta todinha. Aí quando ele pegava, ele dizia: "Mas não é que não tem tinta?" [risos].


P/1 – [Risos].


R - Era muito interessante. Eu subia nos prédios, saía pelo centro de Recife, eu queria vender, queria passar mesmo aquela propaganda mesmo daquele produto. Eu achava que aquilo era um produto, eu tinha que vender, pronto e acabou e eu vendia. Quando eu chegava, já falava pro fiscal: "Toma, vendi" e ele dizia: "Vendeste?" e eu dizia: "Vendi, ‘oxi’, eu tenho que vender esse jornal na rua". Eu tô trabalhando pra aquela empresa, eu tô representando aquela empresa, então, eu vou dar o máximo de mim. Pronto [risos].


P/1 – [Risos].


R - Eu dava o máximo de mim. Veio o Jornal do Comércio, né, foi uma tirada muito grande, foi um bom aproveitamento profissional. Hoje em dia, eu agradeço muito que eu peguei o rumo de trabalhar. Como é bom você trabalhar cedo, é ótimo. Eu acho que todo adolescente tem que trabalhar cedo, porque você vai ensinando a trajetória da sua vida. Você não vai tendo tempo pra pensar em besteira, em outras coisas. Então, o governo podia até investir mais no profissionalismo dos jovens hoje em dia. Porque não pensa em besteira, não pensa em droga, não pensa em nada. Naquela época, era difícil, porque foi um projeto que o Jornal botou e o Ministério ficou meio em dúvida: "Será que vai dar certo? Será que não vai ser exploração infantil?", mas deu certo e foi bom e, hoje em dia, a gente vê que dá certo.


P/1 - E você falou que circulava por vários lugares...


R - Vários lugares.


P/1 - ...tem história? Você contou uma história boa aí do jornal, o que mais você tem de história?


R - Eu contei, tenho sim [risos]. Tinha uma senhora uma vez, eu fui subir num prédio, aí bati no prédio dela, cheguei lá na parte e bati, toquei a campainha e ela disse: "Diga", "Aqui, senhora, Jornal do Comércio pra senhora, pra ver a melhor notícia que tá tendo hoje, tudinho”, ela disse: "Que notícia? Eu não quero saber de notícia nenhuma, não. Nem de jornal eu gosto", "Mas, senhora, tem aqui, ó. Falando de aumento de salário mínimo, e a senhora não vai querer não?", "Aumento de salário?". Eu digo: "É", "Me dê pra eu ler", "Não, eu não posso dar, não, senhora. Porque esse jornal a gente não entrega assim, a gente tem que vender. Se eu não vender, como é que eu vou conseguir me manter dentro da empresa?". Aí ela olhou e fez assim: "Sim, mas pra eu comprar esse jornal de você, me convença", aí eu digo: "vou lhe convencer agora, porque hoje a senhora tá vendo que eu estou na frente da senhora, estou apresentando esse jornal, não porque eu só quero vender, mas porque eu quero mostrar o melhor das notícias pra senhora. Fora isso, eu vou lhe dizer uma coisa, a senhora vai comprar, porque a senhora é uma pessoa educada, uma pessoa gentil, até abriu a porta pra mim e, com certeza, a senhora tá vendo a minha idade, eu trabalhando, não vai deixar eu voltar assim triste, desapontado". Ela fez assim: "Pronto, você já me convenceu. Beleza, me dá aí, quanto é que é?". Quanto era naquela época, meu Deus? Eu nem me lembro mais, era cinco centavos, sei lá. Aí ela fez: "Toma aí", "Eita, mas só tem um problema", "E qual é?", "Eu não tenho troco", "Não é malandragem sua pra ficar com o troco?" "É não, senhora, eu desço a escada, troco o dinheiro e volto". Ela disse: "Não, não precisa, não, você já me convenceu também. Fica aí, o troco é seu" [risos]. 


P/1 – [Risos].


R - É muitas histórias, assim, comum. Teve o Jornal do Comércio, depois veio o Bom Preço, não sei se vocês já ouviram falar no Grupo Bom Preço...


P/1 - É o mercado.


R - ...que é um grupo forte. Eu só trabalhei em grupo forte, interessante, porque hoje eu tô trabalhando no Grupo Fleury e só trabalhei em grupo forte, tive sorte com esses detalhes. Porque numa empresa forte, né, você...


P/1 - Agora deixa eu só te perguntar uma coisa.


R - Diga.


P/1 - ...você lembra o que você fez com a primeira grana lá do Jornal do Comércio?


R - Ô [risos]. Comprei tudo aquilo que eu pedia à minha mãe e ela não tinha condições de comprar. Então, com 14 pra 15 anos eu ainda brincava. É interessante, porque como eu tô dizendo pra você, os meninos de hoje em dia já brincam de outras coisas [risos], mas eu brincava. Então, fui comprar aquela espada do Thundercats que eu queria tanto. Olha que época que eu fui buscar Thundercats, eu achava interessante, uma espada que tinha: "Thunder, thundercats", eu gostava muito. Era caríssimo e minha mãe dizia: "’Oxi’, eu não vou comprar isso nunca, é muito caro. Eu nunca vou investir nisso, não", mas eu digo: "Pois eu vou investir". E comprei, comprar aquilo que eu desejava, então, eu fui e comprei. Ficava no meu esconderijo sozinho, minha mãe vinha, me procurava e fazia assim: “‘Oxi’, cadê Wagner?" ou Douglas, como vocês queiram...


P/1 – [Risos].


R - ...às vezes dá essa confusão por causa desses dois nomes. "Cadê Wagner?", aí eu tava escondidinho, ela dizia: "Mas rapaz, tu ainda tá brincando desse negócio?", eu digo: "’Oxi’, não brinquei um pouquinho quando era menor, agora eu tô brincando".


P/1 – [Risos].


R - E meus irmãos ficavam em cima de mim, diziam: "Mas rapaz, tu vai crescer quando?", eu digo: "’Oxi’, eu sempre vou deixar essa criança dentro de mim", eu acho que ainda tem dentro de mim aquela criancinha que não saí nunca.


P/1 - Tá.


R - De vez em quando, eu volto um pouquinho a ela...


P/1 – [Risos].


R - ...que é bom, é bom você desestressar, rapaz, você leva tudo na esportiva. Hoje em dia, o que mais tá matando a população é o coração. Então, vamos dar um pouquinho de alegria ao coração? Vamos mudar pra outra parte na vida.


P/1 – [Risos]. E, Douglas, você me contou que você foi pro Bom Preço. Em que altura da sua vida você foi lá pro Bom Preço?


R - Altura da minha vida, eu cheguei no Bom Preço dos 18 pra 19 anos. Bom Preço foi outra experiência de vida que eu nunca pensei. Foi do mesmo grupo que era Paes Mendonça, vocês já devem ter ouvido falar nele. Eu queria estar trabalhando na empresa de Paes Mendonça, aí você vai me perguntar: "Mas por que?", porque eu achava o homem forte, um homem que tinha, tinha não, ele tá um pouquinho afastado, né, tá mais com sistema de jornal, de comunicação, mas é um homem que tinha perseverança. Eu achava interessante ele ir além, botar tudo na frente, ver logo o futuro, então, eu digo: "Eu vou trabalhar na empresa dele. De uma forma ou de outra, eu vou ajudar de alguma maneira". Então, eu comecei no Jornal do Comércio, né, porque a parte da televisão também era dele, depois que começou no Bom Preço. E eu dizia: "Eu vou trabalhar nesse Bom Preço", aí fui a primeira vez, fui reprovado. A psicóloga olhou assim, fui fazer o teste, ela diz: "Não, não dá, não. Você tem alguma experiência?", eu digo: "Não", "Eu vou botar você num setor de...", "Pode botar, eu enfrento a vida, eu enfrento tudo, eu já venho trabalhando desde os 14 anos" e ela dizendo: "Não, não, não dá, não", aí pronto, não deixou. Na segunda vez eu bati na porta dela, da psicóloga e disse: "Eu quero trabalhar aqui, por que tu não me dá a oportunidade de eu trabalhar?", ela disse: "Mas tu é teimoso, né?" [risos]. Pronto, fiquei, fui pro setor de carne, trabalhar no setor de carne, embalar carne. Eu era auxiliar de operador de carne, aquele que embalava. Tem o operador, aquele que cortava os dianteiros e eu só ia embalando, então, embalava e botava lá em cima da prateleira pra gente ir levando pra ------- E o Bom Preço foi uma experiência de vida gratificante mais ainda pra mim, por que? Porque trabalha, viu? Eu nunca pensei que ia trabalhar tanto, mas trabalhava, era pra cima e pra baixo, não parava não. Desde o momento que eu chegava até o momento que eu saía, eu não ficava sem fazer nada. Eu acho que eu nasci só pra trabalhar e quase não tinha tempo nenhum de divertimento, porque era o dia a dia.


P/1 - E você terminou a escola, Douglas? Com 18, você já tinha terminado a escola?


R - Já tinha. Os estudos eu terminei cedo, você vai chegar lá, eu sei que você vai me explorar mais ainda, eu vou deixar você vir me explorando, mas, como eu tô te dizendo agora, a escola eu terminei cedo. Eu sei que você vai perguntar assim: "Tu investiu em alguma coisa?", mas eu acho que você vai chegar lá, eu vou deixar o momento que você chegue lá.


P/1 - Não, mas pode continuar. Você fala, assim, você terminou a escola e você resolveu, você começou a trabalhar, né?


R - Eu fiz um curso. É, terminei a escola, trabalhei, né, eu já tinha trabalhado, como eu te disse antes, com 14 anos, trabalhei no Bom Preço. Depois que eu trabalhei no Bom Preço, veio outra empresa também que eu trabalhei, que foi a empresa de reagente. Veja só, eu vou chegar até as duas últimas empresas que eu trabalho agora, veja que coisa interessante. Eu trabalhei numa empresa de reagente, que vendia reagente para laboratório. Nisso, assim que eu terminei os estudos e saí do Bom Preço, foi isso mesmo que minha memória tá me dizendo. Então, fui trabalhar nessa empresa de reagente, o que aconteceu? Eu já tava fazendo um curso profissionalizante que era esse, o técnico em patologia clínica, lá por volta de 1999, quase pra 2000. Eu tava fazendo o curso de patologia clínica, tava terminando já, faltava um mês pra concluir. Então, eu fui trabalhar na empresa de reagente pra laboratório e, quando eu cheguei lá na empresa de reagente, em vez de eu fazer pra trabalhar com auxiliar de serviços gerais, que era só pra ficar lá fazendo reposição de reagente, fazendo limpeza, o dono da empresa, como eu tenho carteira de motorista, botou eu pra dirigir.


P/1 - [Risos].


R - Eu ia levar no Fleury, de Fiorino, aqueles carros que você leva os produtos, né? Então, eu que ia dirigindo. O que mais eu achei interessante é que eu ia levar os produtos dele no aeroporto internacional dos Guararapes e ia levar no escande, em cada canto eu ia levar. Mas quando eu fui levar no Aeroporto Internacional dos Guararapes, faltou freio no danado do carro. Eu, marinheiro de primeira viagem, eu olhei assim: "Eu vou entrar no desespero. Não, não vou entrar no desespero, não". O carro faltou freio, naquela avenida, o sinal aberto, o carro sem querer parar. Aí, eu usei a sabedoria, eu saí empurrando o carro, batendo no acostamento até ele parar. A roda da frente batia no acostamento, aí ela foi parando, parando e, de repente, passou por mim uma outra empresa de laboratório, que era da Diva Montenegro, o LAPAC [Laboratório Analítico de Patologias Clínicas], que teve conjunto com o Fleury. Então, eu disse assim: "Poxa, eu vou anotar essa empresa, porque eu já tô vendo que esse negócio de tá levando reagente pros cantos não tá dando certo, não. Ainda mais que eu tô trabalhando numa produção que nem é a correta, mas como ele me deu uma oportunidade, eu tô pegando também experiência e vou. Então, eu fui levar o reagente exatamente pra essa empresa, que é o LAPAC. Eu encontrei uma das donas lá, a filha da dona, quando eu a vi, uma pessoa toda nervosa, temperada, eu dizia assim: "A senhora que é Rose de Luna?", "Sou, por que?", "Eu queria entregar esse currículo pra senhora, como uma oportunidade de trabalhar aqui no laboratório de fazer coleta de sangue ou trabalhar na parte técnica, porque eu tenho curso técnico". Ela olhou pra mim e fez: "Mas você tem experiência, meu filho?", eu digo: "Eu não tenho experiência assim de hospital, mas tenho perseverança". Aí, ela: "venha cá, venha cá", foi levar até o Doutor Francisco, que é um dos diretores de lá e disse: "Francisco, vem cá. Olha aqui esse currículo desse rapaz, esse rapaz quer trabalhar aqui, colhendo sangue, tudinho. O que você acha?", ele olhou assim pra mim, daquela maneira brava dele e fez: "’Oxi’, mas tem nem experiência. Não, não, deixe, deixe, venha outro dia, quando ele for buscar experiência pra trabalhar aqui". Ela olhou assim pra mim: "Meu filho, fica pra outro dia", eu digo: "Dona Rosilda", "O que é, meu filho? Diga o que você quer", "Dona Rosilda, me dê uma oportunidade", "Oportunidade? Mas, meu filho, você não tem nem experiência. E se você fizer uma doidice aí? Furar o olho de alguém aqui?", digo: "Não vou furar olho de ninguém, não. Eu aprendi, fiz curso, fiz estágio, fiz tudo. Eu sei fazer", ela diz: "Olha, meu filho, não me ‘aperreie’, não. Faça uma coisa, deixa seu currículo aqui e depois você aparece aqui. Se tiver uma oportunidade, eu dou uma oportunidade pra você", aí eu: "Tá certo". Fui pra casa, voltei pra empresa de reagente, cada percurso que eu dava, cada viagem que eu dava pra levar os reagentes, eu deixava um currículo. Deixava um currículo num laboratório aqui, deixava um currículo num laboratório ali, até que Senhor Maurício disse assim: "Às vezes você demora, né?", "É, seu Maurílio, é porque, às vezes, eu fico deixando uns currículos", "Mas você quer sair daqui, é?", eu digo: "Mas eu não disse ao senhor que eu tô aqui só de passagem? Eu quero trabalhar no que eu me formei agora, no que eu fiz", "Mas, meu filho, mas você é um bom trabalhador, eu gosto de você", "Eu sei, mas eu tenho que correr, porque eu me formei. Senão, eu vou ficar pra trás, senhor Maurílio". Aí, ele fez: "É, mas quando você fazer alguns serviços, não demore muito não, viu? Entregue rápido e saia", digo: "Tá certo". Um certo dia, eu tava lá, liguei pra dona Rosilda novamente, falei "Dona Rosilda", "Quem é?", ela falava meio agoniada: "Quem é? Diga logo", aí eu digo: “É aqui, Douglas", ela fez assim: "Douglas? Quem é?", digo: "Aquele rapazinho que apareceu na sua frente, moreninho, tal, tal", ela fez: "Você de novo, meu filho?", "Como é? Vai dar oportunidade pra mim ou não?", ela falou assim: "Meu filho, é que você não tem experiência. Na área de saúde, sem experiência, é difícil, viu? Deixa você ficar maduro", eu digo: "Olha, maduro? Dona Rosilda, a senhora fala como se eu fosse uma fruta, eu não sou fruta pra ficar maduro". Se ela me dá oportunidade, eu vou-me embora. Aí, ela fez assim: "Olha, meu filho, deixa eu pensar", eu digo: "Olha, ainda tenho uma coisa pra senhora". Ela fez: "O que é?", "Eu tenho um parentesco que só, viu? Tudinho trabalha, tudinho tem um convênio", "Sim, meu filho, e o que é que tem que a maioria trabalha e tem convênio?", "A maioria só vai aí no laboratório da senhora", "Ih, é? Venha-se embora aqui pra gente conversar direito, venha" [risos]. Aí, eu fui, quando eu cheguei lá, eu fiz: "E aí, dona? Vai me dar oportunidade, eu saio indicando o pessoal todinho da rua pra vir fazer os exames aqui no seu laboratório", ela fez: “Você tem essa capacidade de fazer isso?", eu digo: "Tenho, a senhora tá com dúvida?", "Tenho, não. Eu vou fazer uma coisa, vou te dar uma semana. Tu vai ficar aqui de experiência uma semana, vamos ver se você realmente cumpre isso que você tá falando", eu digo: "A senhora vai ver, eu sei fazer tudinho". Quando eu comecei no outro dia, furei tudinho, já comecei a levar elogio, o pessoal: "Mas você não tá sentindo nada?", pra lá, pra cá. Só uma parte que eu não sabia fazer que era a parte micológica, de fazer a cultura micológica, que é na unha pra poder verificar fungo. Eu ficava enrolando, tudinho, ela pegou, me chamou e disse: "Olhe, eu tô vendo que colher sangue, você colhe rapidinho, mas eu não quero você aqui só pra colher sangue não. Eu quero você aqui pra tudo". Eu botei a mão na cabeça e pensei: "Ai, meu Deus, pra tudo? É tão difícil essa parte de cultura", ela fez: "Não é difícil, não. Você chegou aqui me dizendo o quê? Que tinha perseverança, que podia, que acontecia. Cadê aquele Douglas do começo, que disse que podia?", eu disse: "É, mesmo", "E ainda vou te dizer uma coisa, eu vou te dar só quatro dias. Se você não aprender, não fazer, eu vou ser clara com você, não vou ficar com você não". Ai, meu Deus, e agora? Eu saí até triste da sala dela, aí o pessoal da coleta que já tava entrosado: "Que foi?", "Eu vou ter que aprender isso aqui, e agora? Vai ser difícil", "Vai nada, tu vai, faz, tu luta". Eu cheguei em casa triste, pensei: "Mais um desafio, parece os desafios dos outros trabalhos que eu tive. No Bom Preço, eu tive que ficar empurrando dianteiro, empurrando, empurrando e eu não conseguia, o encarregado fez: ‘Vai, empurra que tu consegue’, eu digo: ‘Não, consigo, não, é muito pesado’, ‘Vai, empurra’”. Eu empurrei, mas não é que foi? E quase que derrubava ele, ele tava na frente, quase que ele caía. O dianteiro ia cair em cima dele e tudo, imagina, ia ser uma tragédia, porque é pesado que só, um boi. Aí, eu cheguei em casa e disse: "Não vou desistir não, eu vou conseguir. A primeira coisa que eu vou fazer é chegar bem cedo, eu vou chegar antes do meu horário, vou pegar a pessoa que mais sabe ali dentro e dizer 'Você vai me ensinar', eu não vou mais correr desse exame não". Eu cheguei e "Fulano, vem cá", "Diz", "Me ensina aí como é que faz essa cultura, nos pés, tem que cortar o dedo das pessoas?", "Não, que cortar o dedo?! Não precisa cortar não, é você ir assim, faz assim, ó", eu: "Tá certo". Eu comecei né, aí veio o primeiro cliente e ele disse: "E aí, vai nesse?", eu digo: "Vou". Todo mundo se esquivando, o pessoal tinha raiva desse exame porque era demorado, demorava uns 20 minutos às vezes. Você tinha que fazer bem, aí eu: "Eu vou", fui lá, a senhora olhando assim pra mim, brava, olhando assim pra mim: "Esse menino é muito novo", "Ei, você tem quantos anos aqui?", "Eu já tenho dois anos aqui", ela: "Você não é novato não?", eu: "Sou nada. Não sou novato não, sei fazer. Já tenho experiência, já vim de outro laboratório, já fiz, já aconteci", ela: "É mesmo?", "É mesmo", "Olha, meu filho, é porque eu tenho fungo aqui faz é tempo", "A senhora me diz uma coisa, a senhora vai muito em manicure?", ela: "Vou, meu filho", "A senhora leva seu material?", "Não, eu uso o material deles lá", digo: "Então, é por isso que a senhora tá pegando esses fungos, viu? Pense comigo, se a senhora levar seu material, a senhora não pega mais esse fungo aqui não. A senhora diz que é uma pessoa caseira, vive em casa, aposentada e, de repente, pegou fungo". Ela fez assim: "Olha, meu filho, você tem razão, tô vendo que você tem muita experiência no negócio" [risos].


P/1 – [Risos].


R - Experiência no negócio. "Eu tô vendo, é isso mesmo, meu filho. Foi aquela manicure que eu fui, que ela tinha até raiva de mim. Eu não via nem ela fazer a esterilização do material, ele botava o material de todo jeito mesmo no meu pé", eu digo: "Senhora, tudo bem. A senhora tá dizendo que foi a manicure, mas cuidado, viu? Senão, a senhora vai sair daqui, vai dizer que foi a manicure e ela vai vir aqui me pegar", "Não se preocupe que eu não vou dizer nada, não, mas você tem razão. De agora em diante, eu vou usar outro material, eu vou usar o meu material mesmo tudinho e vou dizer uma coisa, viu? Ficou excelente, você foi o único, a única pessoa dos laboratórios daqui de Recife que eu fui e fez o exame bem feito, é o que mais tem experiência", eu digo: "Meu Deus do céu". Pronto, eu calado na minha, sério. Quando eu saí o pessoal: "E aí, tu fizeste?", eu digo: "Eu fiz", "E aí? O que foi que ela achou?", "Oxi, ela achou ótimo, ela falou até que eu tenho experiência de mais de não sei quantos anos" [risos]. Nisso, a Dona Rosilda lá na sala dela, quando ela me chamou e disse: "Venha cá, meu filho, venha cá, eu quero conversar com você. Olhe, eu mandei um menino ir lhe acompanhando, ele foi lhe acompanhando de longe, sem você perceber, e não é que tu tem jeito mesmo pra fazer essas coisas? Eu sabia que você não tem experiência de nada, que você muito mal fez o estágio, mas eu sabia que tu tem perseverança. E não é que tu sabe mesmo? Vou te dar uma dica agora, nunca mais, toda vez que você for fazer uma coisa, não desista não. Não faça aquela cara que tu fez pra mim no primeiro momento, não, porque você fez uma cara que eu disse assim 'Ele não vai voltar mais, não, ele vai dar no pé' e você voltou, parabéns. Toda vez que a sua chefia lhe pedir alguma coisa, faça. Faça, porque sempre é uma experiência a mais, nunca diga 'não'".


P/1 – [Risos].


R - Pronto, eu levei essa experiência dela até hoje. Eu vi o conjunto, né, do laboratório LAPAC com o Grupo Fleury que na época era NKB, não sei se vocês, mas o Fleury sabe disso, isso aí vai passar nesse depoimento, eles sabem.


P/1 – [Risos].


R - Houve um conjunto, né, do Doutor Omar, que agora é o presidente do Grupo Fleury, teve o outro antes, que era herdeiro do Itaú Unibanco. Aí, houve esse conjunto e eu entrei no conjunto de Paulo Loureiro, que era Paulo Loureiro e Fleury e fui acompanhando. Depois houve a separação, né, que o Grupo Fleury não fez a aquisição do LAPAC que é onde eu tava trabalhando, mas mesmo quando eles estavam juntos, eu me interessava, eu queria saber mais desse grupo, eu entrava na internet da empresa e ficava querendo saber mais, de onde é que veio esse grupo, como tudo começou. E fui me aperfeiçoando quando eu chegava, porque tinha uma psicóloga antes e eles faziam um conjunto, juntava todas as marcas e fazia reunião, chegava pra psicóloga e dizia: "Ah, é fulano que tá hoje na presidência do grupo? Ah, eu sei, eu sei da história dele", ela fazia: "Como é que tu sabe?", eu dizia: "Oxi, quem mais entra no site pra ver sou eu. Eu gosto de ver grupos fortes, eu gosto de trabalhar em empresas de grupos fortes". Aí, foi levando [risos].


P/1 - E, Douglas, deixa eu te perguntar uma coisa. Você não me contou o período do técnico, como é que foi o período na escola técnica e por que você escolheu trabalhar na área da saúde?


R - Boa pergunta [risos], eu também me pergunto até hoje. Foi por acaso, por acaso mesmo. Assim, a princípio era uma oportunidade de emprego, como até hoje é, área da saúde aqui em Recife predomina muito, acho muito interessante. Porque você fez um curso técnico em laboratório ou enfermagem, você fica desempregado se você quiser. Se você quiser, você fica, pelo menos aqui em Recife. Quando eu digo Recife, é na rede metropolitana, né, então, na época, minha mãe disse assim: "Douglas, vá fazer o curso de patologia", que foi até uma vizinha da gente que indicou. Ela disse assim: O seu filho tá trabalhando no Bom Preço, tá querendo sair", porque, na época, não. Eu já tinha saído do Bom Preço, já tava parado, eu saí do Bom Preço porque houve aquela diminuição do quadro funcional, eu tive que sair, pronto, saiu eu e saiu uma remessa. A minha vizinha pegou e fez: "Bota ele pra fazer patologia clínica", eu digo: "Que danada é esse de patologia clínica? O que é isso, meu Deus do céu? É pato? Será que é pato, né? Relacionado à pato", aí minha mãe fez: "Vai ver, vai saber esse curso". E fui lá na Escola Politécnica que tem ali no Varadouro, cheguei lá, fui fazer. Interessante, tudo na minha vida é interessante, quando eu cheguei lá, esse colégio era feinho. Hoje em dia, se você for, a escola tá enorme, mas era feio, se chovesse o telhado molhava a gente tudinho [risos].


P/1 – [Risos].


R - Aí, quando eu cheguei a primeira coisa que eu disse foi: "Professor Iansi?", "Oi", "Como é esse curso de patologia?", "É assim, você vai trabalhar com laboratório, você vai trabalhar na técnica, ele nunca disse que eu ia trabalhar fazendo coleta de sangue (risos). Eu achava que eu ia trabalhar na técnica mesmo, fazendo as taxas de exame, né, na parte técnica, mas eu nunca pensei que eu ia colher sangue. Aí ele fez: "Mas vai ter essa parte porque o curso é completo”. Hoje em dia, tem o curso só de coleta, ele fez: "Bora, vai fazer não?", eu digo: "O senhor não vai dar um descontinho, não?", ele fez: "Desconto?", eu digo: "É, o senhor tá começando agora, sua escola, eu posso apelidar sua escola?", ele: "De quê?", eu: "Patinho feito, né, tá começando agora, é um patinho feio". Ele olhou assim pra mim e riu: "Patinho feio?", eu digo: "É, porque, se chover, a gente vai ficar onde?", aí ele: "É, pronto, eu te dou um desconto". Eu fui fazendo o curso dia a dia, fui gostando porque faz o curso e faz o estágio, eu fui gostando da maneira de desenvolver a cada dia do curso e disse: "Vou investir", foi daí que eu cheguei: "Vou investir nisso aí. Vamos embora, nada vai me parar", aí tem pessoas que dizem assim: "Você tem dificuldade na dicção, né?", porque eu nunca fui numa fonoaudióloga pra poder tirar essa parte de dicção. Porque, assim, quando eu vou falar, eu troco muito o R pelo L, aí muitas vezes vira motivo de gozação, né...


P/1 – [Risos].


R - ... Porque sabe, né? Tem pessoas que gostam de gozar mesmo, eu não sei como é o estilo de vocês aqui. Então, eu disse: "Ah, então, por causa disso, eu não vou fazer, não", mas hoje em dia, já tô começando a botar dificuldade na minha vida...


P/1 - [Risos].


R - Não, eu não vou botar dificuldade não. Se eu quiser, eu consigo. Hoje em dia, eu já digo: "Não, eu não vou fazer mais não que eu já tô velho pra fazer, já tenho mais de 30 anos, então, não vai dar, não". Mas quando eu chego em casa, vem aquela força de dentro de mim que diz assim: "Já passaste por tanta coisa na sua vida, já pegaste jornal, na vendeste as matérias do jornal daquela época, que tu eras menor, e conseguiste. Tu vais deixar, por causa de duas ou três pessoas, tu parar?". Eu mudo, eu mudo praticamente. Cada dia, eu vivo buscando forças pra poder ir além, ir até além do que eu quero.


P/1 - Tá certo. E aí, Douglas, pra terminar, eu queria te perguntar como é lembrar da sua vida toda e contar a sua vida? Dar essa entrevista, como foi pra você?


R - É, contar da minha vida, assim, que tema?


P/1 - Como foi dar entrevista?


R - Ah, como foi dar entrevista? 


P/1 - É.

R -Essa entrevista agora?


P/1 - Essa entrevista agora.


R - Foi excelente, interessante. Pena que o pessoal não te vê, né?


P/1 - É [risos].


R - Mas a cada momento que eu vou falando, tu vai rindo. O pessoal não vai te ver, só vai me ver, tem o Pedro ali, né, do outro lado. Devia mostrar esse povo todinho como é que fica. Foi muito bom, bom mesmo, você deixa a pessoa bem livre pra responder o que quer, foi uma experiência total. Eu olhando ali pro câmera man, mas foi muito bom. É bom trabalhar com a câmera, viu? Antigamente, eu tinha até medo de olhar, mas hoje em dia, viu, Pedro? Não é tão ruim estar olhando aqui, não, é que a gente olha pra câmera, mas olha pra tu de imediato, então, tapeia mesmo [risos].


P/1 – [Risos].


R - Foi ótimo, foi ótimo.


P/1 - Brigadão, Douglas. 


R - Brigado, brigado vocês.


P/1 - Eu que agradeço.


R - E vamos à 85 anos...


P/1 – [Risos].


R - ... de Fleury. Fleury é sempre a+ [risos].


P/1 – [Risos]. Tá certo.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

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