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História

Da pedagogia ao guaraná

História de: Carlos Roberto Fonseca Sarquis
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

Em seu depoimento, Carlos Roberto Fonseca Sarquis fala sobre sua família e sua relação com a platação, especificamente de guaraná. Conta sobre os movimentos sociais dos quais participou e também foi protagonista, além das conquistas realizadas pela comunidade. Aborda a dificuldade de se plantar na região sem um consenso das técnicas entre comunidade e dos próprios técnicos do governo e Ambev.

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História completa

Meu nome é Carlos Roberto Fonseca Sarquis. Eu nasci em Maués, em 5 de janeiro de 1971. O meu pai se chama Raimundo Sarquis e a minha mãe Conceição Sarquis. Meu pai trabalhava no pau-rosa, tirando o pau-rosa no interior, nas matas, aqui em Maués. Depois que terminou o pau-rosa, foi ficando difícil e ele passou a trabalhar com guaraná. A comercialização do guaraná cresceu muito naquela época e ele passou a trabalhar com guaraná. Foi dono de várias propriedades, de muitas terras. Minha mãe era doméstica, acompanhava-o com aquele trabalho todo de doméstica: lavar a roupa, fazer comida, tratava os peixes. O meu pai criou a gente trabalhando com os guaranazais, com o pessoal. 

Infelizmente, meu pai faleceu e ficou a gente. A gente ainda era pequeno e eu comecei a trabalhar com a minha mãe. Eu estou continuando um trabalho que aprendi com o meu pai e, independentemente dos estudos que eu fiz, eu estou aqui porque eu gosto. Foi uma coisa que eu aprendi mesmo, de natureza, com os meus pais. Eu aprendi a amar o trabalho que ele fazia. Eu me sinto feliz trabalhando com guaraná.

A cidade era bem pequena, bem pacata. Eu lembro - eu também não sou tão velho assim - que o pessoal usava muito as bicicletas. Só as ruas da frente eram pavimentadas. Não era asfalto, era cimento mesmo. As ruas de trás lá eram tudo no chão mesmo e tinha pouco movimento. O movimento maior que a cidade tinha era do mês de dezembro em diante. Era que chegavam os compradores de guaraná de fora e a cidade ficava movimentada. Vinha o período também da festa de guaraná e o pessoal ficava mais animado. Eu me lembro muito bem desse período. Depois passava aquilo e a cidade ficava calma.

Eu estudei em Maués mesmo, na Escola Adventista, porque na época o meu pai tinha condições de pagar a escola particular para a gente. Eu estudei na Escola Adventista, depois fui para escola pública mesmo, que foi o São Pedro. Então eu estudei na Escola Técnica. Foi na capital. A Escola Técnica Federal. Eu fazia o agrotécnico, ténico-agrícola, porque o meu pai trabalhava com gado, com guaraná. Então, eu quis estudar mesmo porque meu pai ia precisar mais tarde de alguém. Mas depois que meu pai faleceu, eu abandonei a Escola Técnica. Eu me dediquei à administração. Depois da administração veio o curso de Pedagogia aqui para Maués, da UFAM. Eu me inscrevi, fiz a prova, passei no vestibular e entrei na UFAM para Pedagogia. Já conclui, já terminei. Sou Licenciado em Pedagogia. 

A minha juventude foi meio badalada. Não de festa, negócio de festa, sair, coisas assim, mas de participar de eventos, de movimentos estudantis principalmente. Eu sempre gostei de reivindicar as coisas. Em Maués mesmo eu cheguei a ser presidente da UESM que era União Secundarista dos Estudantes de Maués e sempre estive a frente de associações, de estar no meio de movimentos sindicais e político-partidários.

Uma época que marcou mesmo foi quando nós formamos um grupo forte de jovens e nós fomos para Manaus para reivindicar junto ao Governador a biblioteca de Maués junto à Casa de Cultura que deu espaço para os jovens e também para o grêmio estudantil. Porque aqui em Maués as escolas não queriam adotar o grêmio estudantil. Era muito difícil a gente convencer os professores de que as escolas teriam os grêmios estudantis. E a gente queria apoio, não conseguimos em Maués e fomos para Manaus. Chegamos lá em Manaus e falamos com o Secretário da Educação do Estado, aquela coisa toda. Isso marcou minha vida. Nós conseguimos, quando nós voltamos, colocar o grêmio estudantil nas duas maiores escolas de Maués. Depois, fundamos a sede do nosso movimento, da nossa entidade, a UESM, montamos lá um escritório. Para a gente isso foi uma vitória, um começo muito grande de luta, de movimento.

Em Boa Vista do Ramos. Eu exerci o cargo de vereador em Boa Vista do Ramos. Na verdade eu fui suplente. O rapaz lá ficou dois anos, saiu e eu era o primeiro suplente. Eu assumi por dois anos a câmara de Boa Vista do Ramos. Essa experiência política-partidária que eu passei foi muito boa, não me arrependo do que eu fiz. Não segui carreira, não gostei. Não discrimino a classe dos vereadores, mas é uma coisa que não cabe, não bate muito com a personalidade da gente. Todo mundo diz: “Ah, eu queria ser vereador!” Mas muitas vezes você está lá, não sabe o que faz, o que você realmente está fazendo ali, porque a política é boa e ao mesmo tempo muito traiçoeira. Se você não sabe o que está fazendo, você perde o controle, você perde o seu caráter, você perde a sua personalidade, sua dignidade, do dia para a noite. Eu não queria arriscar isso e por isso que eu digo que eu tentei a faculdade.

Na verdade água e luz foi uma luta muito grande. Até que a água não, porque foi uma pessoa aqui de Vera Cruz. O senhor Luiz Canindé, que é a última casa aí, foi prefeito aqui de Maués e quando ele foi prefeito, a primeira coisa que ele fez aqui para Vera Cruz foi colocar o poço artesiano e colocar água em todas as casas. Até porque ele conhece a gente, mora praticamente aqui, a fazenda dele é aqui ao lado. Foi um presente que ele deu para Vera Cruz, uma obra muito grande. E também a luz, até tinha luz, só que para cá a energia chegava muito fraca. Ele também colocou um motor muito grande aqui em Vera Cruz, um motor de força para jogar energia para toda a vila. Só que a vila é muito grande, a ilha é grande demais e só chegava uma certa parte de energia boa. A outra parte, para cá, para nós, não chegava. Daqui para minha casa mais 20, 25 famílias que tem agora, não chegava energia. Quando foi um tempo que eu vim de Boa Vista para cá, eu disse: “É muito difícil a gente passar o Natal no escuro! Ano Novo no escuro, tudo no escuro! Essa luz, meu Deus do céu!” Foi que teve numa noite uma revolução, colocaram outro motor de luz lá. Fizeram uma indústria de farinha e colocaram o motor lá e eu disse: “Pô, mas já tem motor para lá! Outro motor para lá! Mais outro motor para lá!” Já eram três motores para lá e para nós aqui? O que adianta Vera Cruz ter três motores de luz e a energia e 20 e poucas famílias ficam no escuro? Então eu comecei a fazer um movimento muito grande. Eu dava aula aqui na Vera Cruz, lutei por uma vaga e dava aula para Educação Infantil na Vera Cruz. Eu comecei a fazer uma revolução com os moradores, pegamos umas 20 famílias: “Vamos lutar!” Não fomos atendidos e eu encabecei uma revolta muito grande aqui na Vera Cruz para conseguir. Fomos lá e trouxemos o motor de luz na marra. Carregamos e trouxemos para cá para o nosso lado. Colocamos, ligamos e tudo. Ficou uma maravilha, sabe? Então o Prefeito manda levar o motor de volta.

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