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História

Da menina tímida à atriz

História de: Mariana Leite Munhoz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Mariana nasceu em 30 de outubro de 1987 em Bagé, Rio Grande do Sul. Conta um pouco sobre sua infância em Bagé, em uma casa maravilhosa, mas que era longe de tudo, sobre sua adolescência onde mudar de escola a fez se transformar. Ao término da escola, começou a explorar o mundo para além de Bagé, vai morar em Florianópolis, conhece o amor da sua vida e nos fala um pouco de seu percurso até chegar aqui em São Paulo e se tornar atriz e dançarina. 

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História completa

P/1 – Mariana, bom dia. Obrigada por você ter comparecido para dar esse depoimento. Inicialmente, eu queria que você dissesse o seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R – É Mariana Leite Munhoz, eu nasci dia 30 de outubro de 1987 em Bagé, Rio Grande do Sul, às 8h15 da manhã.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – Vera Regina Leite Munhoz e Bayard Marcelo Munhoz.

 

P/1 – Você sabe dos seus avós?

 

R – Nome completo?

 

P/1 – É.

 

R – Ah! O meu avô paterno chama Ari, não sei das quantas (risos). A minha avó chama Clélia, não sei das quantas também. E a minha avó materna chama Rosa Branca alguma coisa Pacheco, o meu avô chama Paulo Tomás. Gente, não sei o sobrenome deles!

 

P/1 – Mas são todos de Bagé?

 

R – Todos.

 

P/1 – E eles sempre moraram lá? A história que você sabe.

 

R – Sempre.

 

P/1 – E o que os seus avós faziam, a atividade? Eles são vivos?

 

R – São (risos). O meu avô, eu acho que ele foi do Exército, gente que desapego! Ele trabalhou, eu acho, no quartel. As minhas duas avós, acho que eram donas de casa, não tinham nenhuma profissão. Minha avó materna costurava pra fora, bordava e tal. Agora o meu avô eu não sei. Que absurdo, não lembro.

 

P/1 – Isso são os paternos?

 

R – Não, os maternos que é o que era do quartel e a minha avó costurava. E o paterno eu não sei, que vergonha.

 

P/1 – Isso acontece. E os seus pais? O que eles fazem?

 

R – O meu pai, há pouco tempo eu descobri que ele é formado em duas faculdades, eu achava que era só Direito, descobri que ele é formado em Direito e Administração. Ele tinha um escritório de Advocacia e montou uma empresa de turismo, que era o sonho dele. Eu era bem pequenininha quando ele tinha escritório. Aí, depois foi a empresa de turismo. A minha mãe se aposentou novinha, ela trabalhava na Telefônica, na época chamava-se CRT [Companhia Rio-grandense de Telecomunicações]. Ela se aposentou com uns 40 e pouquinhos anos, depois ela ajudava na empresa. Aí, virou artista plástica. Minha mãe foi importante, foi ela e uma colega que levaram o telefone celular pra Bagé, ela que fez o curso e tal.

 

P/1 – Você lembra, mais ou menos, que época foi?

 

R – Não, eu lembro daquele trambolho que chegou em casa, assim, preto, gigante, que pra tu atender tinha que abrir o negocinho, levantar a antena e falar. Pra carregar era um negócio gigante também. Eu lembro que eu ficava brincando de fazer cena em casa sozinha, com aquele aparelho.

 

P/1 – E você sabe como os seus pais se conheceram?

 

R – Eu sei que eles se conheceram quando eles eram pequenos e eles brincavam, assim, sabe crianças que se odeiam, tipo, menino e menina? Eles nunca mais se viram e eles foram se encontrar... Porque o meu pai também foi do Exército, eu nem acredito nisso que ele foi porque não combina. Um dia ele tava lá, ele era tenente, alguma coisa mais que soldado. Como que é? Não sei, ele era importante também. E a minha mãe trabalhava na Telefônica, ela foi fazer um trabalho com aparelho, lá, sei lá, e eles se encontraram. Ele fala que ela tava usando uma calça vermelha (risos) e que ele se apaixonou pela calça vermelha, falou que daqui pra baixo, que absurdo! E eles começaram a namorar, foi isso, acho.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho. Tenho a minha irmã que vai fazer 24 agora, um irmão que vai fazer 20, vai ser pai agora. E eu tenho uma outra irmã, que é só por parte de pai, que foi do casamento dele antes da minha mãe, e uma que a gente descobriu há uns anos aí, fez teste de DNA e tal, ela tem quase 40 anos, 30 anos, sei lá. Porque ela teve uma filha e agora ela tá pensando na herança da filha, resolveu ver quem era o pai e... Sabe uma noite de carnaval, assim, na juventude?

 

P/1 – E qual o nome dos seus irmãos?

 

R – É Bayarzinho, Bayard Filho e a Rosana Leite Munhoz. A outra lá chama Lúcia e a outra, de pouco tempo, chama Daniele ou Daniela, alguma coisa assim. A minha sobrinha eu nem sei o nome dela.

 

P/1 – Você lembra da sua casa quando você era criança? Como que era essa casa, é a mesma casa?

 

R – A minha casa era a casa mais legal do mundo. Ela mudou porque a minha mãe adorava aumentar a casa, tipo, sempre tinha reforma, construção e tal. Mas eu lembro que no início, quando ela só tinha um andar, ela era muito escura, sabe aqueles móveis antigos? O banheiro, sabe quando a pia era toda marrom? Uma coisa estranha. E o sofá era todo escuro. Quando o meu pai começou a construir a empresa do lado da minha casa, o caminhão ia lá e despejava aquele monte de areia, cimento, quando chovia a gente fazia banho de lama. Era tudo escuro assim. Depois começou a construir, construir, construir, crescer, crescer, meu Deus do céu, e ela ficou a casa mais legal porque na parte de cima a minha mãe fez um labirinto, todos os cômodos tinham ligação, então, tu podia passar por toda a casa sem passar pelo corredor, sabe? Era muito legal de brincar. Mas eu também não era tão pequenininha assim.

 

P/1 – Até que idade vocês moraram nessa casa?

 

R – Eu morei até os 17, que foi quando eu saí de lá. Eu saí de lá, meus pais ainda ficaram acho que um ano morando lá. A casa está pra vender, mas tem cachorro ainda lá.

 

P/1 – Mas praticamente você cresceu nessa casa?

 

R – É, foi a minha casa, é a minha casa ainda, ela é linda!

 

P/1 – E você tinha amigos na rua, como que era?

 

R – Não, a gente morava longe de tudo, assim, periferia. Era tudo no centro de Bagé e era bem longe. Eu ficava muito deprimida porque nunca ia amiga na minha casa, sabe, eu gostava de muita gente na minha casa, talvez por isso que eu goste, e não tinha. Meu irmão fazia umas amizades na rua, eu ia junto, mas na rua não tinha, era bem chato. Eu lembro que eu nunca fui muito dependente, então, se eu quisesse sair de casa eu ia a pé pro centro, eu achava muito ruim morar longe de tudo. Os meus irmãos tinham que ter carona, “ai pai, me leva”. E a gente tinha motorista, não nosso, da empresa. Então, tinha que ficar levando, sabe? Era meio chato.

 

P/1 – Na empresa que o seu pai trabalhava?

 

R – É, o meu pai montou essa empresa. Eu nunca fui muito apegada a esses luxos, não.

 

P/1 – Empresa de quê?

 

R – De ônibus, de turismo.

 

P/1 – E você lembra das brincadeiras?

 

R – Olha, eu tive a infância mais sem graça do mundo, muito sem graça. Porque, primeiro, minha mãe nunca me contou história minha. É correto falar isso? “Me contou...” Ela nunca, sempre a minha irmã. Não sei se porque a minha irmã é a primeira filha e ela só tem lembranças da minha irmã. Eu falava: “Mãe, pelo amor de Deus, me conta uma história minha”. Mas, coitada, ela não tinha história porque eu era uma pessoa muito sem graça, eu não fazia nada. A minha empregada contava que minha mãe falava: “Cadê a Mariana, cadê a Mariana?”, procurando a Mariana, eu estava brincando de Barbie atrás do sofá. Tipo, eu não vivia, sabe, eu era muito tímida, extremamente tímida, e eu ficava no meu canto. A minha irmã falando, falando e eu sempre quietinha. Tem uma história que, às vezes, a gente ia em restaurante, eu ficava sentada e a minha irmã ia de mesa em mesa pedindo cereja pras pessoas. Minha mãe deixava e eu não tenho nenhuma história legal assim, era sem graça, tinha medo de tudo, não sabia fazer amigo. Pode contar uma história de quando eu era pequena? Uma vez eu fui pro colégio, a minha mãe fez um topete, ela pegou a franja assim, ela prendeu com o passador aqui, eu achei aquilo horrível, horrível. E eu fui pro colégio, eu me olhava no espelho e chorava, e ficava nervosa, e não desmanchava o topete, acho que em respeito a minha mãe (risos). Eu não desmanchei o topete, fiquei toda a aula com o topete e aquele dia eu estava muito, muito abalada. Eu lembro que eu comecei a andar no pátio na hora do recreio, assim, eu lembro direitinho dessa cena. Eu comecei a andar, sabe quando parece que todo mundo em câmera lenta, assim, aquelas crianças jogando basquete, uns grupinhos de meninas conversando e eu andando e olhando e falando, “eu não tenho amigos”. Eu estava na quarta série. E eu comecei a chorar porque não tinha amigos e aí a coordenadora da escola me chamou, eu chorava e não queria falar por que. Eu acabei contando e ela me levou pra classe, porque já tinha começado a aula. Eu cheguei na porta e foi um mico, né? Porque eu cheguei toda, ela abriu a porta, todo mundo me olhou e ela falou: “A Mariana vai entrar porque ela estava mal, mas agora está tudo bem”. Eu não quis entrar, não quis entrar, eu entrei. Quando eu entrei, sentei lá no fundo, aí, um coleguinha meu falou assim: “Ah, ela tá assim porque ela fez xixi nas calças”. Nossa, eu saí correndo de novo. Nisso, chegou uma menina, ela veio conversar comigo, a Ayla. Ela chegou e falou: “Ai Mari, não fica assim”. Ela levantou a blusa e falou: “Olha, tu nem fez xixi nada, viu?”. Depois ela virou a minha melhor amiga, a gente ficou muito amiga. Hoje, nem vi por onde ela anda, lá pelo Orkut eu sei, mas, enfim. Eu era muito tímida e me ajudou a ficar mais tímida essa vez. Depois eu mudei de colégio e mudou.

 

P/1 – Deixa eu voltar, já que você falou da escola. Você lembra do nome dessa escola?

 

R – Lembro. Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.

 

P/1 – E você lembra do primeiro dia de aula?

 

R – Bahhh, eu lembro que antes eu estudei em outra escola, tipo maternal, que chamava Casinha Amarela. Na Casinha Amarela eu lembro de alguns acontecimentos, era bem pequena. Eu lembro que eu sempre fui uma criança... sempre... Por exemplo, lá em Bagé tem a Semana Crioula, a gente fica uma semana que todo mundo anda pilchado que é vestido de gaúcho na rua, todo mundo fica tomando chimarrão, eles liberam as crianças pra ir pro pátio pra tomar chimarrão e ouvir música gaúcha.

 

P/1 – Quando que acontece isso?

 

R – Deve ser perto de comemorar a Revolução Farroupilha, deve ser nessa época. E eu lembro que sempre deixavam na nossa agendinha lá, “vir vestida de Prenda”. Tinha épocas que era piscina. Eu nunca levava pra minha mãe, chegava lá e estava todo mundo fantasiado, eu falava: “Gente, o que está acontecendo?”. Menos eu. Aí tem foto assim, todos os coleguinhas fantasiados e eu no cantinho (risos), tipo, com o uniforme, a professora ia lá e fazia um desenhinho no meu rosto (risos). Eu era sempre muito sem noção. Eu lembro pouca coisa, mas lembro que eu era assim. Nesse maternal eu lembro que nessa época, eu lembro direitinho que eu criava essas roupas assim, eu adorava saia rodada, na época da lambada. Adorava, então usava uma na cintura e uma no pescoço, fazia uma de blusa, não usava blusa. E aí, ficava rodando, rodando, rodando. Era louca. Isso que eu lembro do maternal. Depois, na escola, eu lembro pouca coisa, lembro das professoras.

 

P/1 – Tinha uma preferida?

 

R – Tinha, mas eu não sei o nome dela. Era gordinha, fofa, querida.

 

P/1 – Qual era a disciplina dela, você lembra?

 

R – Não, porque lá no pré é uma professora pra todas as matérias. Mas eu lembro muito bem da sala de aula. Ah! Eu lembro uma vez que teve uma festa de uma menina que eu achei incrível. Sabe aquele balão que fica gigante, no meio, a festa inteira e depois estoura e cai um monte de... A gente sempre ficava olhando, todo mundo tinha que tentar adivinhar o que tinha e ninguém imaginava, ninguém conseguia ver nada. E o pai foi estourar na hora do parabéns, era um monte de bolinha de isopor. Eu achei aquilo mágico! Começou a voar bolinha de isopor, parecia neve. Nossa, muito legal, muito mais legal que brinquedo. Eu lembro de bastante coisa, de detalhes, da pracinha, como é que era a pracinha. Eu lembro que tinha um muro que separava do “colegião”, a gente chamava, era o prédio com as outras turmas. Tinha um muro branco e ele tinha um monte de buraquinho, como se não tivesse colocado tijolos em alguns, tinha uns buraquinhos, e a gente ficava espiando o “colegião” de lá e eu lembro que a gente tinha aquelas brincadeiras, padoleta, essas coisas...

 

P/1 – Como é o nome da brincadeira?

 

R – Tipo padoleta.

 

P/1 – Como é padoleta?

 

R – Eu não lembro, tinha um que era: “babalu, babalu da...”. Sabe? (risos). Eu lembro que a gente fazia e no final tinha que fazer não sei o quê que virava ET. E a gente fazia com o pessoal do “colegião” por aqueles buraquinhos e eles brincavam com a gente, era a diversão. Me sentia tão importante quando alguém do “colegião” brincava com a gente.

 

P/1 – Mariana, você estava falando que vocês ficavam olhando e...

 

R – É, eu me sentia extremamente importante porque eles interagiam comigo assim. E quando eu passei para o “colegião”...

 

P/1 – O nome é “colegião”?

 

R – Não, a gente chamava. Que loucura, a gente chamava de “colegião”. Quando eu passei, nossa, eu sei que eu sempre fui da turma dos mais novinhos, assim. Porque lá é dividido pelo ano que tu nasceu, então, tinha duas, três turmas. Como eu nasci em outubro, eu era dos mais novinhos. Eu sempre achei isso muito chato, eu sempre achei os outros mais descolados e mais... Eu achava que eu era da turma dos retardados.

 

P/1 – Como você ia pra escola? Você lembra? Era longe da sua casa?

 

R – Ai gente, era um inferno, porque a gente morava muito longe e em Bagé é muito frio. Então, o que a gente fazia. Às vezes o meu pai acordava antes de nos acordar porque ele tinha que descer pra aquecer o carro, senão o carro não andava de tão frio. Às 07h20 era a primeira aula, tocava o primeiro sinal, a gente acordava muito cedo. Eu lembro que a gente saía na rua, tu não enxergava, tipo, dez metros. E a grama era, não é gelo que chama, tem um nome.

 

P/1 – Era geada?

 

R – Geada. Tudo branco e era muito. Eu lembro, que absurdo, porque eu faltava muito na escola. Eu lembro que a minha desculpa pra faltar era: “Ai, mãe, deixa eu faltar hoje, essa semana eu fui todos os dias”. Gente, que absurdo (risos)! Eu lembro que uma época eles resolveram fazer assim, a nota era dez, dez pontos. As provas valiam oito, dois pontos eram de comportamento. Então, tudo valia até oito e tipo, se tu tinha dois pontos de comportamento, tu tirava dez, senão, tu nunca ia tirar dez se não tivesse um comportamento bom. E aí, eu lembro na primeira vez que a nota foi assim, eles entregavam as notas e tal e foram lá dar as notas de cada um. E eu não tirei dois pontos. E tinha uma explicação, assim, cada nome uma frase dizendo o porquê. No meu dizia assim, “Mariana Munhoz, falta muito”. Eu fiquei pensando, “falta muito o quê?”, “o que falta muito pra mim?”, aí, depois eu descobri que era porque eu tinha muita falta. E também a gente tinha bastante falta porque a gente sempre chegava atrasado, sempre, e sempre obrigavam a gente a sair cedo. Era uma briga. Então, a primeira aula a gente sempre perdia, ficava lá na biblioteca esperando pra dar a segunda aula. Então, pegava uma falta por causa disso. A gente tinha muita falta. Coitados, nada com os meus pais, eles eram super certinhos, eles brigavam muito com a gente porque a gente se atrasava muito. Eram três pra se arrumar, tomar banho.

 

P/1 – Estudavam todos na mesma escola?

 

R – Os três.

 

P/1 – Pelo menos isso (risos).

 

R – É.

 

P/1 – E na escola você fez o curso, o antigo Ensino Fundamental, Ginásio, é isso?

 

R – Ensino Fundamental (risos).

 

P/1 – E depois você fez o quê, o colégio, nessa mesma escola?

 

R – Eu fiz essa escola até a sétima série. Na sétima série eu saí, porque o que acontece? Meu pai demorou muito pra fazer a matrícula. Eram sempre duas turmas, mas nessa época rodou gente, gente saiu, e eles fizeram uma turma grande. Então, eu fiquei de fora. Se eu fosse entrar teriam de dividir em duas muito pequenas, entendeu? Muito pouca gente. Então, eu fiquei sem escola e acabei mudando, fui pro Espírito Santo. A minha escola era de padre, o Espírito Santo era um colégio de freiras. E foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, mudar de escola, porque eu me transformei. Porque o Auxiliadora era uma escola mais carinha, era cheia de grupinhos, pra você entrar em um grupinho era, nossa! E quando eu saí, tinha um nome, sabe negócio do interior, tipo, você é fulana de tal, irmã do fulano de tal. E quando eu saí dessa escola eu me transformei, comecei a conhecer gente, virei uma pessoa falante, foi incrível! Fiz uma amizade que até hoje ela foi... Eu fiquei um ano nesse colégio, nossa, comecei a ficar com um monte de meninos.

 

P/1 – Como era o nome do colégio mesmo?

 

R – Espírito Santo. E foi muito bom. E depois eu voltei pro meu colégio. Eu adorei esse negócio de mudar e queria voltar diferente, sabe aquela coisa assim, pessoa confiante? Eu voltei pro Auxiliadora, fiz a oitava lá e me formei no Ensino Fundamental, fiz a formatura e tal, tudo bonitinho. E aí no primeiro ano eu saí do colégio de novo e fui para um outro chamado Albert Einstein. Era muito engraçado, era uma escola muito pequenininha e só de gente muito louca, assim. Era tipo os caras que não passavam de ano, pessoa meio drogada (risos) e foi muito legal de ver aquelas pessoas diferentes. Legal, conheci um monte de gente...

 

PAUSA NA ENTREVISTA

 

P/1 – Aí você foi pro Albert Einstein...

 

R – Eu lembro que todo mundo era muito louco e nessa época eu li um livro. Tinham umas pessoas que eram meio drogadas e eu queria ajudar, entendeu? Eu queria falar, tipo, não faça isso e tal. Bem na época eu estava lendo um livro de autoajuda. Eu nunca tinha lido um livro de autoajuda, só que era um livro espírita, naquela época eu lia muito livro sobre Espiritismo. E esse livro era incrível porque cada vez que eu lia o livro era uma coisa que tinha acontecido e nesse dia eu li sobre isso, que às vezes não adianta tu ficar colocando coisa na cabeça da pessoa porque ela vai aprender sozinha, quer dizer, não vai mudar nada o que eu falar. Aí, eu lembrei que eu achava que tinha evoluído tanto lendo aquele livro que eu comecei a parar de tentar convencer todo mundo. Se eu fosse vegetariana ia ser um problema porque eu ia querer convencer o mundo de ser vegetariana, sabe essas coisas assim? Eu nunca fumei, não fumo, mas eu tento convencer as pessoas a pararem de fumar, isso é meio chato, e eu acho que eu melhorei depois desse livro.

 

P/1 – E você...

 

R – Depois eu voltei pro meu colégio, eu me formei no meu colégio.

 

P/1 – No Auxiliadora?

 

R – No Auxiliadora. Eu fiquei dois anos fora, que foi muito interessante. Minha filha, meus filhos, porque eu vou ter gêmeos, eles vão mudar de escola em um determinado momento. Isso muda a pessoa pra novos ares, é muito bom.

 

P/1 – E você teve uma formatura, tudo, e você pensava em fazer alguma coisa além do colégio? Já tinha um sonho naquela época?

 

R – Gente, isso é um mistério do mundo, assim, porque eu pensava em profissões e elas eram absurdas, assim. Tipo, como eu gostava muito de livro, eu pensei em fazer Biblioteconomia, que eu descobri que existia, mas não sei de onde, só porque eu gostava de livro. Aí, na praia, eu adorava ficar enterrando algum objeto e ficar como se estivesse descobrindo um dinossauro, assim, eu achava que eu queria ser...

 

P/1 – Arqueóloga?

 

R – É, é! (risos).

 

P/2 – Paleontóloga?

 

R – É, alguma coisa assim, descobrir civilizações, sei lá. Só que nunca dava certo, passava pela minha cabeça por dez minutos, assim. Mas eu tenho registro. E eu não sei quando que eu fui resolver fazer teatro. Por que é um mistério? Porque eu nunca fui em uma peça em Bagé, eu não sabia disso, que eu não tinha ido a uma peça, porque eu lembro que quando eu cheguei em São Paulo, no meu curso eu tinha que assistir uma peça pra fazer uma prova, tinha que ler dois livros e assistir a uma peça. E eu fui assistir a peça, que foi lá no Sesc Consolação. Fui, assisti a peça, tal, normal. Depois, quando eu tava no segundo semestre do meu curso que eu fui descobrir que aquela foi a primeira peça da minha vida! Eu não sabia que eu nunca tinha ido ao teatro antes. Em Bagé tem o teatro da escola, não tem um teatro, sabe? Teatro fulano de tal, não existe isso. Eu nunca tinha assistido a uma peça antes, então, eu não sei. Eu sei que em Bagé as pessoas perguntavam por que eu queria fazer teatro, eu explicava qual era a diferença de atuar no palco e atuar no cinema, falava, “gente, porque o palco, o público”, tudo isso da minha imaginação porque eu nunca tinha nem lido sobre isso, nem assistido a uma peça, uma loucura. E também não sei quando eu decidi, acho que foi um pouquinho de milhões de coisas, assim, tipo, lembra quando eu contei do celular, que ficava brincando, fazer cena? Ah, sei lá, eu lembro de poucas coisas assim.

 

P/1 – Deixa eu voltar só um pouquinho, Mariana, uma curiosidade assim. Como que é um jovem de Bagé? Pra gente que é paulista, como é? Como ele vive?

 

R – Ai gente, é deprimente. Gente, é deprimente, é um negócio triste. Eu lembro que eu vivia naquela cidade, eu falava: “Que absurdo, eu não to me livrando dessa mentalidade”. Porque Bagé vive de balada, as pessoas juntam. Tem uma rua, a principal, chama Sete de Setembro. Essa rua gente, é ridículo. Imagina assim, chegava domingo, a coisa mais legal era ir pra Sete. As pessoas, algumas ficavam estacionadas, assim, tinham três quadras principais, e as outras que tinham carro ficavam dando volta. Horas (risos)! Sabe o que é horas dando volta? Eu acho que ainda existe isso lá. Aí, as pessoas ficavam tipo, essas três principais, mas a rua deve ter umas dez, então as pessoas ficavam dando voltas. Por exemplo, eu estou de carro, e tu tava lá na frente da sorveteria, aí, eu te abanava e voltava, quando eu passava de novo eu te abanava. Se eu não te abanasse uma vez eu era nojenta (risos). Gente, essa era a diversão de domingo. E de final de semana festa, balada, balada. De manhã a cidade para, tu não vê uma pessoa jovem na rua, estão todas dormindo, ou no colégio, mas não funciona, só balada. E a mentalidade, como eu tava falando, é meio triste porque é de interior também, mas tem uma coisa que eu acho que é de Bagé. Não sei, um jeito de pensar, de se interessar na vida do outro, de fofoca, aiiii. Eu não sei explicar, tu vai achar que é igual em todo interior, mas é diferente, é alguma coisa diferente, é uma, ai, é um jeitinho de pensar pequeno, sabe? As pessoas se incomodam com coisas tão... Não lembro de nenhum fato ridículo agora pra contar, mas é bem triste, assim, bem triste. Eu acho.

 

P/1 – Deixa eu voltar pro colégio. Logo que você saiu do colégio você já pensou em fazer uma faculdade? (risos).

 

R – Não, foi assim, quando eu terminei o terceiro eu namorava um menino, namorei dois anos. E ele foi morar em Florianópolis.

 

P/1 – Como é o nome?

 

R – Cristiano (risos). Deixo aqui muito claro meu carinho por ele. Ele foi morar em Floripa, então o nosso namoro todo praticamente foi baseado em Floripa. E os meus pais, com muito custo, deixavam eu ir pra visitá-lo. Então, eu me apaixonei pela cidade, assim.

 

P/1 – Era a primeira vez que você saia de Bagé?

 

R – Não, a gente viajava bastante. E todo mundo que mora em Bagé quer morar em Porto Alegre depois que sai do colégio. Como ficar em Bagé, quem fica em Bagé é fracassada. Fiquei em Bagé. E eu nunca gostei de Porto, tinha pavor de Porto Alegre. Porque o nosso dentista era lá, uma vez por mês a gente ia pra lá e o meu pai fazia o seguinte: a gente saía de Bagé cinco da manhã, chegava lá, almoçava no Mc Donald´s ou no Pizza Hut, que Bagé não tem, então era sensação. Ia pro dentista, eu e a minha irmã ficavamos tipo duas horas no dentista, eu e depois dela. Saía, meu pai ia ver alguma coisa de motor, e era uma inferno. E depois a gente voltava pra Bagé. Era um dia infernal na minha vida. E a gente não passava pelos lugares legais, era só por aquele centro e eu achava tudo cinza, tudo cinza, tinha pavor de Porto Alegre. Então, eu sabia que eu não queria ir pra lá. E eu falei: “Mãe, eu quero ir pra Floripa!” “A-ha, vai né, sei”. E eles não botavam fé que eu ia terminar o colégio e ir embora, eles meio que não estavam esperando, “ainda está debaixo da minha saia”? Então, tudo indicava que eu ia pra Porto Alegre, a minha irmã já estava morando lá, ela ficou um tempo, ela já estava há um ano lá. Eu fui conhecendo Floripa, me apaixonando: “É aqui que eu quero morar, porque eu quero morar”. Não pro resto da minha vida, eu sabia também que ia ser só um pedaço. Saí de Bagé, uma parte da vida de sair de Bagé. Eles começaram a falar: “Tá bom, você tem que pensar em uma faculdade”. E eu, “ah tá bom, Moda”. Porque eu costurava roupa na minha casa tinha uns pedacinhos de tecidos que o meu pai vinha pra São Paulo, ele trazia as mulheres das lojas pra fazerem compras aqui, então, às vezes levavam retalho, sei lá pra quê, sei que eu ficava fazendo blusa, saia, costurando. Então, Moda, vai. Aí, eu fui fazer o vestibular porque lá só tem na Federal e eu não passei, não tinha nem me preparado. Daí eu pensei: “Qual que é legal que eu posso fazer?”. Aí, foi por eliminação. Administração, não, que saco. Direito, não. Tudo não. E o meu namorado fazia essa faculdade, chama Sesc. E lá ele me falou que tinha um curso de Gastronomia. E um dia eu fui lá conhecer a faculdade, eu via aquelas pessoas de branco, e eu descobri que no primeiro semestre já tinha aula prática. “Olha que legal!”. Eu nunca tinha cozinhado na minha vida, tá? Olha que legal! Brincar de fazer comidinha, foi o que eu pensei, né? Eu fui, fiz, era uma Redação, eu fiz e pronto, vou fazer Gastronomia. Aí o meu pai, “ai, minha filha” “não pai, eu quero fazer Gastronomia”. Porque eu tinha um curso que era uma vez por semana. Ele falou: “Tu não vai morar em Floripa pra fazer um curso uma vez por semana só isso, né?”. Aí, eu comecei a fazer a faculdade e fiz um ano assim. Eu me alonguei, né?

 

P/1 – Tudo bem, tá perfeito. Lá você morava onde?

 

R – Em Floripa?

 

P/1 – Isso.

 

R – Então, esse meu namoro foi um demônio, ele era um demônio esse menino. Tadinho, minha família adora ele só por causa disso, sabe dó? Ele foi muito ruim pra mim, ele era muito ciumento, até que eu traí ele (risos). Porque no início do namoro eu estava gostando de outro carinha e dele também. Isso me deixava muito tempo. E eu resolvi terminar com ele por causa do carinha que era meu colega. E um dia a gente brigou, mas não terminou, e eu achei que a gente tinha terminado, eu falei “yes”. Ele saiu da minha casa, eu liguei pro meu colega e falei: “Vem me buscar para eu ir pro churrasco”. Eu fui no churrasco e fiquei com outro menino, ele descobriu e foi traição. E foi traição. E isso no início do namoro. Foram dois anos de namoro assim. Eu não sei porque ele me perdoou, ele me perdoou mas se vingou de mim o namoro inteiro. Tipo, eu não podia fazer nada, ir na padaria com a minha mãe tinha que pedir permissão pra ele, e ele não permitia. Brigava, eu ia na padaria, voltava e a gente voltava o namoro. Era um inferno. E como ele morava em Floripa minha mãe disse que eu fui interesseira, e eu fui. Porque eles não iriam deixar eu morar em Floripa sem ele, que era a única pessoa que eu conhecia em Florianópolis. Então, eu fiquei namorando ele até ir, quando eu fui, eu fui acho que em março de 2007, eu fiquei namorando com ele um mês, foi o tempo de eu achar uma quitinete, eu achei uma quitinete e terminei com ele. Aí, eu fique lá. Esse um mês eu fiquei morando com ele em uma praia lá, que foi um inferno, um lugar estranho. Aí, eu fui pra Bagé na Páscoa. E lá em Bagé tem uma festa tradicional da Páscoa que é “a” festa a fantasia. E ele não me deixava, óbvio, ir na festa. Eu queria ir. Eu não contei pra ele que eu queria ir. Vocês estão entendendo? Aí, a gente brigou por telefone e ele falou que eu tava brigando com ele porque eu queria ir na festa. Eu falei: “Eu não quero ir na festa, eu não preciso de festa. Pra te provar que eu não preciso de festa, a gente vai terminar hoje e eu não vou. E óbvio que se eu fosse todo mundo iria ficar sabendo, Bagé é uma fofocaiada”. Beleza, a gente terminou e eu fui. Só que eu fui, eu e uma amiga minha que também tinha um namorado ciumento.

 

PAUSA NA ENTREVISTA

 

P/1 – Você foi à festa...

 

R – Aí, eu e essa minha amiga que tinha um namorado em Porto Alegre e também era ciumento, a gente foi. A gente decidiu em cima da hora. A gente resolveu ir mascarada, mas não só mascarada, a gente tinha medo de mostrar o nosso dedo, caso alguém reconhecesse o nosso dedo, a gente pegou um macacão do meu pai, que ele tinha mecânico lá, a gente foi com um macacão, luva, o tênis, tipo do meu irmão, gigante, uma máscara, uma peruca e um boné em cima da peruca, tipo, nunca nos reconheceram. Foi a festa que eu mais me diverti na minha vida, foi a melhor festa do planeta, me diverti horrores, foi a prova que nem sempre a gente sai pra caçar, como os namorados ciumentos acham. Eu me diverti horrores. E até hoje ele não sabe, um dia ele vai saber e vai ser um prazer.

 

P/1 – Essa festa você tinha terminado com ele, né?

 

R – Aí, a gente brigou, no outro dia a gente brigou. Nossa, foi a briga do século! Aí, o que aconteceu? A gente brigou e ele era muito estúpido, sabe aquele tipo estúpido de homem? E a minha mãe não sabia que ele era estúpido comigo, que causava. Aí, essa vez a gente brigou e eu tava com o celular da minha mãe porque o meu não pegava lá, não sei. A gente começou a brigar, ele ligava e acabava, assim: “Porque eu vou te destruir – não destruir de bater né –, vou acabar contigo quando você estiver aqui, porque eu vou pegar a sua televisão”, eu tinha coisa lá, “e vou jogar na rua, suas roupas vão...”, começou a causar. E eu desligava na cara dele, e isso era o fim porque ele ficava muito irritado. Eu desligava e ele ligava. Uma hora eu peguei, atendi e não falei alô. Ele começou “porque você não sei o quê”. Aí, eu peguei, deixei o celular longe e falei: “Mãe, deixa que eu atendo”, como se quem estivesse ouvindo aquilo ali fosse a minha mãe. Nossa, aí acabou. Porque aí, ele não tinha mais cara pra olhar pra minha família, porque até hoje ele acha que minha mãe ouviu tudo aquilo lá. Depois eu contei pra minha mãe. Aí, eu voltei pra Floripa, a minha sorte foi que eu já tinha achado essa quitinete e eu já voltei direto pra quitinete e a minha irmã foi comigo. As minhas coisas estavam todas na casa dele, inclusive o Gogle, que é o amor da minha vida, que é a única pessoa que eu tenho em São Paulo. Aí, ele ia me trazendo as coisas e nunca levava o Gogle. Eu falava: “Cristiano, pelo amor de Deus, traz o Gogle. Então, ele ia, sabe, levando de pouquinho em pouquinho, tudo pra... Ai, coisa de homem chato. Teve um dia que ele apareceu com o Gogle lá, como eu chorava. Gogle é o amor da minha vida. Eu comecei a morar sozinha nessa quitinete, eu morei dois meses, e eu quebrei a perna. Eu não conhecia ninguém, só o meu ex. Eu fazia tudo sozinha, e foi muito bom. Eu fazia faculdade, andava de muleta pra todo canto. E com dois meses, como ele fazia a mesma faculdade que eu, eu não gostava muito de interagir lá para não encontrar ele. E aí, depois de um mês do fim do namoro eu comecei a conhecer pessoas e tal e eu conheci dois meninos, bonitinhos. Porque todo mundo achava os dois bonitinhos, eu achava só um. Um dia eles falaram assim: “A gente tá querendo mudar de casa e está procurando alguém pra morar junto”. Eu falei: “Eu”. Eu tinha 17 anos, imagina. Eu falei: “Mas ah, os meus pais não vão deixar”. A minha sorte foi que eles estavam lá em Floripa nessa época: “Não, Má, a gente precisa de alguém essa semana, se a gente não mudar, a gente vai ter que ficar mais um mês, tem que pagar o aluguel antes”, uma coisa assim. Eu fui, falei com a minha mãe, ela falou que não, não. Meu pai já tinha voltado pra Bagé e minha mãe ficou. Ela foi conhecer a casa e falou não porque a casa tinha terreno baldio atrás e do lado. Imagina, que absurdo! Aí, ela conheceu os guris e adorou eles, adorou de paixão, eles são uns anjos, e achou que seria muito mais seguro eu morar com eles que em uma quitinete que sabe-se lá quem poderia ser meu vizinho amanhã. Ela deixou. Em uma semana a minha vida mudou, eu estava em uma quitinete sozinha, fui morar em uma casa perto da praia com dois meninos, e um deles eu achava lindo. Eu pensava assim: “Eu perdi todas as chances agora porque ele vai me tirar de irmã, vai morar junto, né?”. Pensa, a gente tinha contrato de um ano. Se um dia ele ficar comigo, vai que um dia a gente para de ficar e está morando junto, coisa desagradável, né? Falei, ah, perdi minha chance. Aí, eu pensei, se eu me dedicar muito eu acho que com seis meses eu conquisto ele, seis meses. Aí, deu 18 dias e a gente ficou e estamos até hoje, é o amor da minha vida.

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R – Tiago. E o que aconteceu? A gente morou um ano junto nessa casa, foi lindo, perfeito. Morava junto, a gente não brigava nunca, tudo lindo. Aí, os meus pais não sabiam no início, quando ela conheceu: “Você não vai namorar nenhum deles, promete?” “Prometo”. Demorei pra contar pra ela, depois que ela sacou.

 

 

TROCA DE FITA

 

P/1 – Mariana, então, você estava vivendo em Florianópolis.

 

R – Ah, o Ti. Aí, os meus pais não sabiam, mas desconfiavam, porque eu morava com dois e quando eles iam lá visitar eu ficava, “Ti, quer não sei o quê?” “Ti”. E eu achando que estava disfarçando. E eles sacaram, óbvio. Eles descobriram e o amor da vida da minha mãe é o Tiago, eles amam o Tiago. A gente morou um ano nessa casa, perfeito, acabou o contrato e a gente foi morar no “ovo”. Até hoje meus pais não entendem como eu morei naquela casa. Porque Floripa é muito difícil de achar casa, muito difícil. A gente achou essa, era a única. Já viu um chão de tijolo? O chão era de tijolo. A parede era de tijolo, e o cara que fez a casa não se preocupou muito com o acabamento, então, ele tipo jogava o cimento assim, e tu via o tijolo. E tinta também, ele pegou, fez assim, e deu. Era assim, juro. A pia do banheiro era assim, não tinha como não molhar o chão. A mesa da cozinha era exatamente três palmos e era redonda, tipo assim (risos). Era muito ridícula a casa, minha mãe não se conformava. E em qualquer canto que me colocarem está ótimo pra mim. E eles não entendem isso, porque a minha casa em Bagé é uma mansão, aquela casa gigante. Mas pra mim não tem frescura, e eles não conseguem entender de onde vem isso. Nem eu. E a gente morou três meses nessa casa. E a gente conversando chegamos à conclusão que a gente deveria passar pela experiência de morar em casas separadas, porque a gente se conheceu morando junto. Então, coisas assim, básicas de relacionamento, a gente não passou, por exemplo, sentir saudades, de ele me ligar ou não me ligar, eu fazia coisas pra ele comer e tal. Ele me visitar, sabe essas coisas de início de namoro a gente não teve. A gente falou: “Vamos ver como é a experiência”. E aí, perfeito, a gente mudou, eu fui morar em uma casa muuuito longe, algumas quadras, e foi bem legal. Tem que ter seu canto, né?

 

P/2 – Mariana, como que você se virava com despesa essas coisas?

 

R – Paitrocínio cem por cento. Eu fazia cachecol pra vender a vinte reais, vendi, sei lá, cinco (risos). Eu acho. Tudo o meu pai pagava. No primeiro ano que eu fiz Gastronomia ele pagava tudo. Só no segundo ano que eu fui trabalhar.

 

P/1 – Você foi trabalhar de quê?

 

R – Fiz um ano de Gastronomia e o projeto de vida era ficar dois anos em Floripa, eu achava que mais seria muito tempo perdido e menos eu não ia aproveitar Floripa como eu queria. Então, foi um ano de Gastronomia. No segundo ano eu pensei assim, vou fazer um cursinho semi-extensivo, no meio do ano eu presto vestibular de Artes Cênicas, estudo meio ano e peço transferência pra São Paulo ou Rio de Janeiro, eram os meus planos. E lá em Floripa tem um curso de Artes Cênicas que é na Udesc [Universidade do Estado de Santa Catarina], que é estadual e só tinha no meio do ano a prova. Aí, eu fui lá na internet, vi a data da prova e tal, na outra semana me inscrevi no cursinho e comecei a estudar. E aí, lá pelo final do cursinho, assim, alguém perguntou. “Ah, Artes Cênicas” “Mas não vai ter” “Vai ter, eu vi na internet” “Não, não vai ter”. Eu fui ver na internet e tinham mudado a data, não ia ser no meio do ano, ia ser no final do ano. Eu falei: “Quer saber, eu não quero saber, não vou ficar mais tempo em Floripa” porque eu achava que estava perdendo. Aí, eu parei de estudar, não fiz vestibular nem pra outra coisa. E falei, “Vou trabalhar, o que eu vou fazer nesse meio ano agora?”. Aí, o primeiro lugar que eu fui, eu  consegui emprego, no primeiro dia. Eu cheguei na Chilli Beans, sabe, que vende óculos? Eu cheguei lá e estava a gerente lá, uma loirinha, com uns currículos na mão. Eu fui lá e entreguei pra ela. Aí, ela me fez umas perguntas, “pode fazer entrevista hoje?” “posso”. Ela me entrevistou, me levou na loja, começou a me ensinar como que funcionava, perguntou se eu podia ficar até as dez, eu fiquei aprendendo e na outra semana já comecei treinamento. A coisa mais fácil foi achar o primeiro emprego. Mas na verdade eu tentei um outro. Isso antes de eu resolver trabalhar, que parei o cursinho. Você acredita que eu fui pra Floripa, eu queria fazer Telemarketing. Fui fazer o curso, eram duas semanas, acordar cedo e ficar lá no curso. E eu sou nerd, qualquer coisa que eu faço eu tenho que fazer muito bem assim. Muito bem. Eu tive a nota mais alta do curso, perfeito. No final das duas semanas eles faziam uma prova com a fono. Eu não passei (risos). Inapta, ela colocou ainda. “Gente eu não acredito!”. Não acreditei, eu não pude trabalhar. Gente, façam essa prova no início do curso, pelo amor de Deus porque é um saco fazer aquele curso. Aí tá, me rebelei. Depois eu não quis mais trabalhar e depois eu fui trabalhar na Chillie Beans.

 

P/1 – Como era esse seu trabalho?

 

R – Modéstia à parte, eu era uma ótima vendedora, eu me descobri “a” vendedora, muito legal. Ah, era vender óculos. E é muito fácil vender óculos porque as pessoas já chegam provando. E tu vai criando métodos de venda, isso é muito legal. Eu era a que mais vendia. O chefe me adorava.

 

P/1 – Qual era o seu método?

 

R – Ah, tinham vários. Quando eu cheguei lá, tem óculos sport, de metal e grande, que tinha um nome. Quando ela me mostrou eu falei, “gente, qual é a diferença, porque você acha tudo igual, assim”? E com o tempo tu chegava lá e já sabia qual óculos ficava bem em ti, por causa do teu rosto e tal. E tinha várias técnicas. Por exemplo, eu achava que esse óculos ficava bem em ti, e tu colocava. A pessoa falava, “ah não, não tá legal”. Tá bom. Aí, eu ia lá e com muita cara de pau, porque as pessoas iriam perceber, eu pegava o mesmo óculos, mas com a lente diferente? Nossa, é esse, ficou perfeito! E levava. O mesmo óculos. Essa técnica. Eu sabia que era aquele que ficava bom nela e a pessoa tinha que levar aquele. Eu lembro que começou uma linha nova, porque lá são óculos baratos, né? E chegou uma linha de óculos que eram mais caros e vieram três. “Ah, porque tem que vender esses óculos”, e ninguém vendia os óculos. Eu falava: “Gente, eu vou vender esses óculos”. Eu vendi os três. Como foi a minha técnica eu não lembro, eu tinha uma técnica pra esses óculos. Ah, porque as pessoas sempre chegavam e falavam: “Ah, esse é o óculos novo”, e tinha o preço, que era mais caro. Eu acho que eu não falava do preço. A pessoa chegava na loja e eu dava aquele óculos: “Prova esse óculos”, e as pessoas se apaixonavam por ele, e levava porque já tinha se apaixonado e pagava mais caro. Eu sei que eu vendi os óculos, era uma graça, adorava.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo nesse emprego?

 

R – Ah, três meses. Foi lá que eu ficava na internet quando não tinha cliente e eu comecei a pesquisar uma faculdade aqui em São Paulo. E eu perdi a data, a inscrição de várias, várias. E eu achei uma. E eu coloquei na balança pra onde eu queria ir, Rio ou São Paulo. E a família do meu namorado é daqui, então, várias coisas fizeram eu pensar, inclusive isso, que, se acontecesse alguma coisa tinha a minha sogra aqui. Aí, eu comecei a botar na balança, é São Paulo, decidi. Não tinha mais universidade para eu vir fazer prova. Aí, eu achei uma, em Santana, chamava Famosp [Faculdade Mozarteum de São Paulo]. “Pai, dia dois de dezembro é a prova, você me leva?” “Te levo”. “Então, vamos”. Eles passaram em Floripa, ele e a minha mãe, me pegaram de carro e a gente veio pra São Paulo. Imagina, eu em São Paulo. Gente, nunca tinha vindo pra cá! Lembro que a primeira coisa que eu vi foi um prédio amarelo lá perto do Anhembi, sabe? Bem fino, assim. E eu lembro: “Eu estou em São Paulo”. E aí, a gente começou a procurar a faculdade, a gente chegou na hora da prova assim. E eu achei aquele lugar muito nada a ver, eu não sou aquela pessoa de energia, mas eu não gostei daquele lugar. Não gostei, eu falava, “gente, eu não me imaginava indo lá todo dia”. Sabe, assim? Eu fui fazer a prova, era uma Redação. A Coordenadora do curso falou assim: “Eu gostaria de deixar bem claro que nesse curso nós não formamos artistas, formamos professores” “Não quero mais”. Fiz a redação de qualquer jeito e saí da prova. Saí falando, “paii”. Mas eu só tinha acesso a tv em São Paulo, eu ouvi falar no curso do Wolf Maia. Então, o meu plano era fazer a faculdade e um outro curso. E eu: “Ai pai, vamos procurar outro curso que eu não gostei”. Ele falou assim: “Não, minha filha eu conheci um...”. Quando eu estava fazendo a prova eles conheceram um diretor de teatro, chama Ednaldo Freire, e ele falou do Célia Helena. Tem uma escola, se ela quer teatro, vai lá não sei o quê. Falei, “então, vamos hoje”. Aí, a gente foi, parou em um hotel que fica na Nove de Julho e fomos a pé até a São Gabriel. E quando a gente chega lá, é uma casa amarela, eu digo: “Ah, isso é uma escola?”. Dois andares, um portão branco. Quando a gente apertou a campainha, abriu uma menina, “aiii”, e eu “aiii, adorei já, já adorei”. Eu entrei e achei aquele lugar muito legal. “É aqui que eu quero estudar”. E eu lembro que eu tinha assistido no Vídeo Show, a Lígia Cortez fez uma novela, que foi Páginas da Vida, e ela foi convidada pra fazer e tal e ela fazia uma professora de teatro. E eu lembro que o Vídeo Show fez uma matéria com a escola dela, e eu lembro daquela escola, só que eu achava que era no Rio, pra mim era óbvio que era no Rio. Quando eu cheguei e comecei a olhar, eu falei, “gente, eu conheço esse lugar”. Era a escola que eu tinha visto na TV. “Nossa, que legal!”. E aí, pronto. Eu cheguei lá, a gente foi conversar com a Dirce, na secretaria, ela falou: “Ah, a gente tem exame, tem uma prova que tu faz pra entrar, mas é só semana que vem, dia nove”. E eu: “Ai, não acredito, por uma semana eu não vou poder fazer a escola, não sei o quê”. Isso era um sábado, né? Os meus pais tinham que voltar pra trabalhar. E o meu pai falou: “Não, a gente fica”. Aí, eu tinha que assistir a uma peça e ler dois livros. “Eu não acredito!”. A gente ficou uma semana em São Paulo, zanzando. A gente viu a peça, eu ficava no hotel lendo, eles iam pro Brás, pra 25...

 

P/1 – Você lembra qual peça?

 

R – É uma do Suassuna, chama “Pedra do Reino”, com direção do Antunes. E foi mágico, mágico porque eu não entendi nada da história, mas eles tinham muitos efeitos e cores. Sabe?

 

P/1 – E os livros, você lembra?

 

R – Lembro. Era uma peça que se chamava “Os Infiéis” e “O Tartufo”, do Moliére. E aí, eu fiz a prova. A prova tinha parte que era uma brincadeira, sabe brincadeira assim? E o que eles tinham que ver? A tua disponibilidade de brincar, porque se tu fica preocupado se tu tá errando, se não consegue, entendeu? Era mais ou menos o que todo mundo passa, na verdade, todo mundo. E aí tinha um texto que a gente tinha que ler, que eu li muito mal por sinal, muito mal. E uma prova, que aí era falar o que a gente achou do ator. Falei, nossa, achei um barato, mas o que eu achei do ator, gente? Não sei nada. Aí, tá, foi isso. Eles falaram, “ok, agora tu vai pra casa, em janeiro a gente dá se passou ou não”. Eu voltei pra Floripa, e daí eu passei, ah tá. Eu achei que as aulas começariam em março, falaram que começavam em fevereiro. E agora? Tenho que me despedir do meu namorado, como? Foi horrível, eu tinha janeiro pra me despedir dele e eu não estava preparada, achava que ia ficar dois meses. E nossa, foi uma choradeira, todos os dias, e chorava. “Vou ficar longe do meu amor” e tal. Aí, o meu pai tinha uma van, a gente botou todas as minhas coisas em uma van e veio pra São Paulo. Essa semana que eu fiquei aqui, que eles ficavam passeando, eu conheci a Ju, outra demônio na minha vida. A gente resolveu morar junto.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R  - Juliana Godine. A gente morou um ano juntas, eu e essa menina. Nossa, foi um inferno, muito chata, muito chata. Eu fiz o Célia, era para eu estar me formando agora só que eu tranquei esse semestre e volto no semestre que vem, porque o paitrocínio começou a secar a fonte, aí, tive que parar, mas no semestre que vem eu volto.

 

P/1 – E nesse tempo todo que você começou a fazer você foi conhecendo a cidade?

 

R – Quando eu cheguei em São Paulo, quando tu não é daqui, tu só vê notícia ruim. E na época que eu vim era uma época que as pessoas botavam fogo nos ônibus. Eu lembro que eu achava que São Paulo era o seguinte, se eu sair agora pra rua eu posso ser assaltada, a qualquer momento. Na teoria acaba sendo, né? Porque nunca tem hora nem lugar, mas a chance de eu ser assaltada era de 90%, achava isso. Eu lembro que a gente foi nesse prédio que a minha mãe alugou para eu fazer a prova. Eu entrei pra fazer o Célia e minha mãe falou, “eu vou procurar apartamento”. Eu falei: “Mãe, não procura que é muito caro”. Ela, “não, vou procurar”. Saí da prova e ela falou: “Seu apartamento já está alugado” “Quê?” “Conheci uma senhorinha, já dei um cheque e em fevereiro tu vem pra cá”. Dito e feito, em fevereiro a gente foi direto pro prédio. E no outro dia os meus pais tinham que sair, ela me deixou dinheiro e falou: “Mari, come alguma coisa, vai na padaria”. E me falaram que tinha uma padaria na São Gabriel, o prédio ficava de frente pra São Gabriel. Eu desci, comecei a andar na rua, louca pra olhar, pra conhecer, né? E eu falava: “Gente, eu não posso olhar assim porque vão perceber que eu sou turista. Se perceberem que eu sou turista vão me assaltar”. Então, eu louca pra ver a rua e tal e eu fui andando reto, e pensava: “Isso também tá parecendo que eu sou turista, parece que eu estou com medo. Então, mais natural”. E eu comecei a andar, assim, e eu lembro que tinha essa padaria, só que ela ficava do outro lado da rua. Óbvio que eu não olhei pro lado pra não parecer turista, então, eu fui andando reto, reto, reto, e achei uma confeitaria. Entrei na confeitaria, enxerguei e entrei. Era muito caro, eu lembro que deu pra comprar dois salgados, pra mim e pro meu irmão. Depois, eles foram embora, fizeram a minha mudança, ficaram um dia e foram embora pra Bagé. E eu fiquei em São Paulo. Foi muito legal. E na época eu só ia pro Célia Helena, que é na frente da minha casa, eu só fazia isso, Célia Helena-casa, casa-Célia Helena. E eu lembro que todo semestre o Célio Helena faz exame aberto, é um mês de peça de teatro. E eu ia assistir e não gosto de depender de nada de ninguém, então, eu ia sozinha. O que eu fazia? Eu lembro que antes de eu vir pra São Paulo me falavam assim, que eu tinha o cabelo muito comprido, eu não podia sair com o cabelo solto porque homem gosta de cabelo comprido pra puxar o cabelo, se um assaltante me visse, ele ia me puxar pelo cabelo. Então, eu fazia um coque baixo, assim, eu saía feia, botava uma calça jeans, um tênis, e um casaco que eu tinha, que é de homem, parece uma flanela, sabe? Um casaco de frio. Botava aquele casaco que vinha até aqui, abotoava ele até aqui e saía pra rua (risos). E não levava bolsa, não levava muito dinheiro, louca de medo. Nossa, que absurdo. E eu lembro que eu comecei a andar de ônibus e as primeiras vezes eu só andava de dia. Toda pessoa que entrava no ônibus era suspeita de botar fogo pra mim. Eu lembro que eu sentava assim, entrava uma senhorinha com uma criança, eu, “ela está disfarçando, está com uma criança pra disfarçar porque ela vai botar fogo no ônibus” (risos). Gente, era um horror. Depois, hoje, nossa, eu nunca vi um assalto, nunca fui assaltada. Ando, bem faceira não, eu me cuido, mas ando pro Anhangabaú 11 horas da noite, pego ônibus lá, sabe, eu to esperta, mas nunca aconteceu nada, graças a Deus.

 

P/1 – E esse projeto “Bárbaras”?

 

R – Depois de um ano eu fui morar com a Marcella, que é uma fofa. E a gente sempre conversou muito porque ela entrou no Célia depois que eu já tava lá, um ano depois. E a gente tinha muitas conversas, que a gente achava as mesmas coisas. Sabe uns absurdos, às vezes? Os colegas que não estão nem aí, um monte de coisa, a gente era muito igual. E na escola, todo semestre tem o EPA, que é um evento, que tu pode apresentar o que tu quiser, assim. “Ah, vamos fazer alguma coisa pro EPA”, só que a gente nunca sabia o que fazer, só tinha vontade. A gente pegou um texto, lia o texto, mas nunca rolava. Aí, um dia, eu estava apresentando a minha peça de quinto termo, meus pais vieram pra assistir e eu estava dormindo com eles na sala. Nisso, ela chega de manhã e me acorda: “Mari, não consegui dormir essa noite, aí eu fiquei pensando, não consegui dormir. E eu lembrei que o meu pai tem um esquema com a Imprensa Oficial, que talvez conseguiria um espaço pra gente. Então, eu fiquei pensando o que a gente poderia falar. E nós duas somos migrantes, e a gente poderia falar sobre mulheres que vieram pra São Paulo”. A gente começou a conversar sobre isso, nossa que legal e tal. E aí, tá. Tinhamos uma idéia o que fazer e talvez um espaço. Perfeito. Aí, foi passando o tempo e ela foi conversando com a Jana, que é colega dela da faculdade. “Então, eu tenho uma amiga e tal, e ela é muito inteligente, e ela estudou grego e fala não sei quantas línguas, fez Letras e ela tem vontade de escrever” “Então, vamos chamar ela”. A gente foi fazer uma reunião com a Jana. A gente chegou duas horas no café, a gente saiu tipo às sete. Porque a gente ficou conversando muito. A ideia era a gente trabalhar com depoimentos, a partir desses depoimentos a gente criar tipo improvisos, em cima desses improvisos, meu e dela, a Jana ia assistir e escrever. O que ela achou bom, o que ela não achou bom, essa foi a primeira idéia. E a Jana, beleza. A idéia era ela escrever, mas ela também estuda teatro, então, ia ser atriz do grupo também. E ela: “Não, mas eu quero escrever”. Ela falou do Museu. Eu lembro que uma vez eu tava em São Paulo, na 25 de março, e eu vi aquele monte de gente. Eu pensei assim: “Eu que sou eu, que nunca passei por muitas dificuldades, tenho umas histórias pra contar, que são minhas”, eu pensava, “imagina, cada pessoa dessa também tem uma”. Imagina quanta coisa, porque a gente tem muito autor, dramaturgo, mas a maioria é ficção, baseado na vida deles, da filha. “Quanta coisa não pode ser escrita? Que vontade de pegar um caderninho e ficar: ‘conta uma história pra mim, só uma história’”. Quando eu descobri que existia um Museu, que colhia, eu achei incrível, gente não acredito que isso existe, achei perfeito. A Jana falou e eu fiquei encantada. Aí, ela falou que ela podia conseguir aqui depoimentos de mulheres que vieram pra São Paulo. Ela falou com não sei quem, não lembro o nome, Júnior? Falou e ele separou alguns, a gente leu e é muito apaixonante. Eu já chorei lendo alguns, tal. E a gente veio conversar com a Sonia porque a gente queria uma carta dela de recomendação, não lembro pra quê, acho que pra mandar pra Imprensa Oficial, lá, não lembro. E nisso, conversando com a Sonia, ela falou que no outro dia ia ser o último dia do Edital do interações estéticas, que tinha que ter uma parceria com o Fundo de Cultura, e tinha que ter alguma coisa de multimídia. E a gente já tinha pensado em fazer um blog de tudo o que aconteceu com a gente. A gente falou: “Ok, vamos mandar” E aquela noite a gente madrugou fazendo projeto, orçamento, e a Jana escrevendo, e a Marcella fazendo conta, coisa que a gente nem tinha noção de valores e tal. E acabou que no outro dia, a gente podre, prorrogou pra mais dois, três dias. Aí, a gente arrumou ele, tal, melhorou a capa, a gente mandou. Enquanto isso, não sabendo se a gente tinha ganhado o projeto, a gente continuou a nossa pesquisa, que na verdade a gente se conhecia, mas nunca tínhamos trabalhado juntas. A gente começou a fazer, a gente alugou um espaço que é Pessoal do Faroeste, que fica lá perto da estação da Luz e lá a gente tinha um espaço de ensaio que era nosso, isso é mágico, é fora da escola, uma coisa desapegada. A gente fazia exercício, aquecimento, propostas, a gente começou a se conhecer trabalhando, e a gente já estava em algumas cenas e tal para o espetáculo em cima disso. E a gente tinha feito uma entrevista com uma migrante e tinhamos várias idéias. Nisso, a Marcella liga contando que a gente ganhou o Edital, a Jana viu na Folha. Nossa, a gente não acreditou porque, assim, ficou muito bem escrito, ficou muito legal o projeto. Então, chances a gente tinha, mas como a gente não tinha currículo, era uma companhia que estava começando, é meio difícil, né? Nossa, a gente ficou muito feliz. Muito, muito! Aí, deu um medinho de “oh, oh”, e agora nós temos que fazer tudo aquilo que prometeu, que era a teoria, e tem que bater tudo certo. Aí, nossa, até agora está caminhando, e vai caminhar, tudo perfeito, assim. Tudo dentro do prazo, está tudo certinho.

 

P/1 – Os resultados saíram quando?

 

R – Ah?

 

P/1 – Quando que saiu esse resultado? Foi agora, recente, né?

 

R – Acho que fez um mês que saiu. Eu acho. Deve fazer um mês. Aí, a gente começou a se organizar e tal. A gente tem uma artista plástica com a gente, que também é migrante. Ela vai fazer um trabalho de foto, arte, assim. Muito legal, está muito legal. E a gente queria fazer rodas de histórias, e a gente quer uma delas, duas na verdade, fazer em albergue. A gente foi, ligou pra vários albergues, e a gente conheceu um que não é só albergue, é tipo uma casa de apoio, então, as mulheres podem ficar lá de dia, só mulher e criança. E a gente, nossa, como é que a gente vai se aproximar dessas mulheres? Porque algumas vão lá porque sofrem violência, e é uma realidade diferente. A gente pensou: “como é que a gente vai?”. A gente pensou na roupa que a gente vai, pensar em como vai abordar as mulheres, então, a gente foi lá cheia de, “vamos combinar que vamos falar de tal jeito e tal”, a gente chegou lá, a gente se apaixonou por elas, elas se apaixonaram pela gente, foi uma coisa muito legal. No nosso plano seria a última roda, a gente tinha dois meses pra conseguir conquistá-las e fazer com que elas aceitem falar com a gente. Nossa! A gente foi lá e descobriu que tem mulheres que querem ser atrizes, aí, acabou que fora do projeto, está fora, a gente se comprometeu a fazer uma oficina com elas. Aí tá, a gente, “putz, será que a gente vai conseguir, porque já tem projeto e agora a gente vai fazer oficina”. Mas está certo, duas vezes por mês a gente vai lá, no final do projeto, que já tinha, vai ter uma exposição que vai ser aqui no Museu. Nessa exposição vai ter um sarau também, e o que a gente vai fazer com elas? Durante essa oficina a gente vai criar um produto, que vai ser qualquer coisa, que elas vão ser convidadas, mas às vezes não vão querer vir, não vão poder, vão trabalhar. Então, com cada uma, o que elas quiserem, com qualquer tipo de arte, mesmo se for, sei lá, o áudio de uma lendo uma poesia, qualquer coisa, a gente vai trabalhar com memória também, isso vai ser o foco. E, nossa, está apaixonante. É apaixonante trabalhar com pessoas. E eu me sinto tão profissional, é uma coisa tão fora da escola. Porque o Célia Helena é uma escola de pessoas que tem dinheiro, acho isso bem deprimente, porque não é a realidade do teatro aquilo que tu aprende ali. Você aprende a fazer e tal, mas tu convive com pessoas que estão ali só porque tem dinheiro, às vezes não tem mais nada pra fazer, “vou fazer teatro”, sabe? Então, é muito bom tu sair desse mundo, conhecer pessoas e trabalhar com elas. Eu estou amando, amando de paixão. A primeira roda vai ser agora dia 12, que vai ser com mulheres que a gente conseguiu, assim, tipo, a classe social está bem variada, a cidade e o estado de origem também, e vai ser muito legal.

 

P/1 – E como é que você chegou nessas pessoas? Como é que foi essa abordagem?

 

R – Então, a gente tentou pessoas, tipo, na Zé Paulino. Um dia eu subi a Zé Paulino inteira, passando de loja em loja, só que ninguém aceitava. Eu falava: “Gente, por quê? É por causa do jeito que eu to vestida? Eu não estou passando credibilidade? O que está acontecendo?” “Ai, a minha vida não, tenho vergonha”. Eu fiquei tão triste, eu falava: “Gente, por que elas não querem?”. Ai eu descobri, “ok”. Tipo, quem é você? Estou vendo na rua, falando se eu quero contar uma história? E nem era história da vida, era mais sobre migração e tal. Esse Ednaldo Freire, o cara que me indicou, quando cheguei no quarto semestre ele foi o meu professor. Nossa, eu amo ele, professor de Comédia, ele tem uma companhia que chama “Fraternal”. A companhia tinha um dramaturgo, o Luis Alberto de Abreu, que é o cara, ele escreve peça. E o que ele fazia? Exatamente o que a gente queria fazer. E teve uma peça chamada “Bora andá”, que são três histórias de pessoas que migram, só que é família. E o que aconteceu? Eu fui perguntar pra ele. A gente fez uma reunião, lindos, assim, para eu entender como que foi esse processo. Aí, ele me contou que eles conseguiam depoentes, iam na casa da depoente. Ele falou: “Ó, não dê trabalho pra essa pessoa, ela não pode se locomover, pergunta pra ela onde que é melhor e vai até esse lugar e faz um bate-papo. Bate-papo, bate-papo, bate-papo, grava, pra depois transcrever. E o que acontecia? Depois que transcrevia, os atores iam riscando o que eles achavam importante, na primeira leitura, assim. Aí, em cima daquilo, eles começavam a improvisar a cena. E o Alberto de Abreu ficava assistindo os ensaios e escrevendo a peça. Olha que fácil! Ele ia escrevendo a peça, o cara, e pronto, ficou pronta a peça, simples assim, e... Por que eu falei disso? Eu ia chegar em algum lugar.

 

P/1 – Como você estava chegando nessas pessoas.

 

R – Ah tá. E ele falou assim: “Comecem por pessoas próximas que vai ser mais fácil”. E no meu prédio tem muita, muita modelo. Só que acabou que a gente nem foi procurar modelo porque a gente começou a achar pessoas. Por exemplo, eu trabalho com evento de vez em quando, aí, eu fui fazer um evento em uma casa lá perto da minha casa, em uma mansão lá do milionário. E tinha a Cida, qualquer pessoa que eu já conhecia e que tinha um tipo de, sabe, tipo, nos gostamos? Eu já convidava e as pessoas vão gostando e vão topando. Ela topou, a diarista na nossa casa topou, ela adorou, está super empolgada, ela já convidou duas mulheres lá do bairro dela. E assim que a gente foi conseguindo. Tem uma que é colega da Marcella, tem uma outra que é colega da faculdade, a gente foi conhecendo. Tem uma menina que eu gravei um curta-metragem, ela tem uma amiga que já indicou, foi tudo assim, aos pouquinhos. Tem que ser dez, a gente já juntou as dez. A gente achou até que a gente ia acabar conseguindo  mais, no início dava um medo de “será que a gente vai conseguir?”. Deu, vai dar. Dia 12 é.

 

P/1 – E dessas histórias, tem alguma que tenha te sensibilizado mais?

 

R – Mas eu não...

 

P/1 – Você não ouviu ainda, vai ser ainda?

 

R – É.

 

P/1 – Você tem uma idéia do que vai ser, mas não tem a história ainda.

 

R – Não, nada. Tem uma que a gente já entrevistou e vai participar da roda, mas as outras eu não sei nada. Porque as pessoas acabam contando, na verdade. Porque você fala assim: “Aceita participar de uma roda?” “É simples?” “É, por exemplo, como é que foi chegar em São Paulo?” “Ah, eu aceito, porque quando eu cheguei em São Paulo...” e começa a contar. E eu falo: “Quê, deixa pra roda!” (risos). Às vezes, elas já vão falando assim.

 

P/1 – Deixa pra roda. Certo. E nesse seu trabalho como atriz, você chegou a fazer muitas peças?

 

R – Então, eu fiz as peças da escola, foram quatro. Porque no primeiro semestre tu não faz peça. Aí, a partir do segundo tu apresenta. Foram muito legais, muito legais, nossa, os diretores são incríveis. Problema é os colegas que muitas vezes não estão afim. E aí, esse semestre agora eu parei e comecei a ir atrás de trabalho com câmera, porque é muito caro um curso de câmera. Eu falei: “O que eu posso fazer?”. Os cursos de Rádio, TV e Cinema, eles precisam de ator pra fazer e eles não pagam cachê. Tem ator que acha isso injusto, eu acho isso óbvio porque ninguém que ganha um edital tem patrocínio, é dinheiro do bolso deles, né? Eu também, às vezes, tenho que aprender. Aí, eu fiz uns cinco trabalhos esse semestre. Comecei pelo Orkut, tipo “precisa de ator”, mandava, nossa, foi muito legal. Eu fiz um por faculdade, não repeti, fiz trabalho pra Anhembi, pra Belas Artes, Metodista, Uniban, nossa, foi incrível.

 

P/1 – Algum papel marcante que...

 

R – Ah teve, teve uma que eu fiz que foi o piloto de um seriado. Tinha 26 minutos. Muito legal, era Alissa. Sabe tipo seriadinho americano? E eu tenho um problema, problema não, é um problema, uma qualidade, eu não sei, que eu tenho muita facilidade em transformar qualquer coisa em humor. É bom, mas não é bom, porque não pode fazer tudo assim. E essa, eu tinha esse preocupação de “não posso fazer tudo igual, não pode ser tudo eu”. E bem na época eu comecei a fazer um curso, tranquilo, que era lá no Célia Helena, tipo uma optativa, não era cara, cem reais. E o meu professor falou isso: “Mariana, é muito bonitinho, engraçadinho, mas tem hora que só vão te chamar pra fazer isso”. Só que aí, ele me explicou, também, que em alguns trabalhos de câmera você pode ser tu, porque é totalmente tu em situação. Porque às vezes ator que você vê fazendo tudo igual, não é porque ele é ruim, é porque é esse ator que querem pra isso porque tem essa personalidade. Então, tudo bem. Eu acabei não ficando preocupada que eu tava fazendo uma personagem que é parecida comigo, e que tudo bem. Então, eu curti muito fazer. E ela era atrapalhada, e eu não sou atrapalhada, eu acho, um pouco, então, eu comecei a explorar isso, comecei a ficar atrapalhada na vida. Nossa, foi muito divertido fazer, um dia eu mostro pra você. Muito legal.

 

P/1 – Tem alguma coisa assim que você pensa, que papel você gostaria de ter? Se você pudesse escolher?

 

R – Tem uma peça de teatro do Tennessee Williams, chama “Um bonde chamado desejo”, eu sou apaixonada por esse peça. A personagem se chama Blanche Dubois. É a personagem mais incrível do mundo, mais incrível. Eu queria fazer essa personagem. Tem outras várias que eu conheço, mas essa é a top, é incrível. Vocês já viram, conhecem essa peça?

 

P/2 – Sim, eu conheço...

 

R – Sim, do Marlon Brando que foi quando ele...

 

P/1 – Mariana, você está aqui, 22 anos, Mariana, conseguiu vencer um edital, uma coisa que pra sua idade, pôxa vida, pra você e pro seu grupo. Como você vê isso, esses resultados?

 

R – Eu sou uma pessoa extremamente positiva e a minha mãe me ensinou que a gente tem que projetar as coisas. E eu, em São Paulo, eu me preparei muito pra vir pra cá e não sofrer. Então, tem acontecido tudo muito certo, até ter trancado o meu curso, todo mundo falava: “Ai, tadinha, na formatura”. Mas foi muito legal, porque eu vou mudar de turma, a minha turma nunca foi a turma que eu mais amava, eu vou conhecer uma turma nova. Então, tudo o que tem acontecido, o Edital, tudo, eu acho que é resultado desse pensamento positivo, sabe? Teve uma época que eu achava que isso era um problema porque eu me via não me emocionando mais com as coisas, eu falava: “Gente, uma atriz, tem que se emocionar, tem que ser à flor da pele pelo menos”. Eu percebi que não, que é uma fuga minha, tipo, “eu não posso sofrer, eu estou em São Paulo sozinha” e eu vim pra cá pensando assim, tem a família do meu namorado, mas eu não quis contar com isso. Eu não quero nunca achar que a qualquer momento eles podem me socorrer, entendeu? E isso fez eu ser extremamente positiva, tem gente que fala: “Nossa, Mari, como tu”... E nem sempre, às vezes, realmente, eu estou em casa, eu to meio malzinha. Mas esse jeito de ser “eu posso, eu consigo, tudo bem, tudo bem”. Eu acho que, como é que é a palavra? Acaba... tendo resultado no trabalho.

 

P/1 – É uma consequência?

 

R – Consequência. Isso aí, de tudo dar certo. Porque ator é muito difícil, e eu sempre achei que ia dar certo. Tanto que meu pai quase me convenceu a terminar Gastronomia: “Minha filha, pago uma viagem pra França pra ti, que legal, uma faculdade”. E eu falava: “Pai, pra que eu quero um diploma?” “Mas filha, profissão de atriz...”. Eu não conto com a possibilidade de dar errado, eu nunca contei. E eu convenci ele disso. Hoje, tudo bem de não ter feito uma faculdade, tudo bem se eu nunca fizer uma faculdade, convenci. Porque eu não conto com a possibilidade disso dar errado, sinceramente. Por exemplo, assim, eu já fiz dança de salão pensando em um Plano B, não se o teatro não der certo, mas uma graninha a mais, entendeu? Que já até rolou, eu ganhei primeiro dinheiro com dança que com teatro.

 

P/1 – Dança?

 

R – É, dança de salão, que eu me apaixonei.

 

P/1 – Em que fase isso se encaixa na sua vida? Como é que foi?

 

R – Eu comecei a dançar quando o meu namorado foi pra Austrália, faz um ano e três meses que ele está lá. Ele foi, eu comecei a dançar e virei bolsista de uma escola de dança. E eu dancei, nossa, eu dancei muito pouco, comecei em setembro e parei em maio. Só que foi o tempo de eu me dedicar tanto que eu já dei aula de academia, fiz apresentação já de personal, nossa. Porque eu falei, o que eu faço, eu tenho que fazer muito bem, então. E eu tive um professor que me chamou pra ser parceira dele, com um mês de dança. “Ah, você quer ser minha parceira? Porque aí a gente dá aula junto e se apresenta”. E eu: “Uau, claro que eu quero”. E foi incrível, eu fazia aula das sete às dez lá, três vezes por semana, e eu treinava todos os dias, o que acabou virando problema porque eu comecei, não a deixar o teatro de lado, mas a minha dedicação. Por exemplo, antes eu lia mais, eu, por exemplo, pra ensaiar eu tinha mais tempo. Aí, eu comecei, “pera aí, muita calma nessa hora”. Eu parei de dançar, parei, falei, “não quero mais”. Hoje eu danço assim, vou pra noite, na Vila do Samba, esses lugares, dançar. Porque essa dedicação, na época, apresentação tu tem que estar muito bem, tu tem que treinar muito e eu falei, não é o meu objetivo de vida apresentar. Seria, talvez, dar aula para eu ganhar um dinheiro a mais. Só que eu descobri que dar aula de dança é muito chato porque eu sou uma pessoa que não tem didática. Eu acho que eu teria com anos de dança porque eu posso te ensinar gafieira, com certeza, mas pra dez pessoas, um tem um ritmo, outro tem outro de aprendizado, e eu na frente. É muito difícil. A base, o passo básico é simples, mas se alguém me pergunta por que é essa distância? Eu não sei, eu já fico insegura, aluno já acha que... Então, eu descobri que não quero dar aula com dança de salão, não vou ganhar dinheiro.

 

P/1 – Você não chegou a dar aula.

 

R – Cheguei.

 

P/1 – E teve algum caso assim?

 

R – Não, mas não era um prazer. Eu não chegava pensando, “uhu, eu vou dar aula”, era uma preocupação, tipo “meu Deus, que medo, será que as pessoas estão entendendo?”. Isso não é legal, não sei, eu não me achei. Eu gostava de ser a parceira do professor, porque ele estava ali, qualquer coisa, ó, é ele que sabe. Aí eu adorava, era um prazer. Ele pegava os mais iniciantes e deixava comigo, aí, eu ficava ali, ele vinha e perguntava se estava tudo bem. Mas eu sozinha? Com meses de dança? É muita insegurança assim. Eu falei, ah não, gente. E foi eu parar de dançar, eu parei de dançar, tranquei meu curso e aí veio as Bárbaras. E eu não parei. Esse ano foi o segundo ano mais longo da minha vida. Sabe aquele ano que demora muito pra passar? Não porque é ruim, porque acontece muita coisa? Eu não acredito que eu fiz a última peça no meio do ano, parece que foi no ano passado, tudo mudou e se transformou.

 

 

TROCA DE CD

 

P/1 – O nome do projeto, como é que foi a definição desse nome?

 

R – As Bárbaras?

 

P/1 – É.

 

R – Vou falar. Eu não gosto desse nome, eu não gosto desse nome. A gente estava, ok, nos unimos em um nome, depois a gente pensa. Aí, um dia a Jana mandou um e-mail falando que ela pensou nas Bárbaras por causa dos bárbaros porque, além de ser o nome de uma mulher, é legal porque eram corajosos e migravam. Perfeito, eu entendi tudo, achei muito legal, só que eu não gostei da “As Bárbaras”. Por que eu não gosto? Porque eu acho que quando a pessoa vê “Companhia As Bárbaras”, a primeira coisa que pensa é, estão se achando. Tipo, três meninas. Ah, qual o nome da nossa companhia? Acho que nós somos incríveis, (muito boas), “As Bárbaras”, entendeu? Tem gente que, ok, remete, pensa nos bárbaros, mas é muito pouco. Eu falei isso, mas a Jana falou, com toda delicadeza, ela falou, querendo dizer assim (risos): “Mari, a pessoa que leu o mínimo pensa nos bárbaros”. Eu falei: “ok, Jana, eu leio, tu explicou, mas a primeira coisa, parece que a gente tá se achando”. Eu falei, “ok, vou fazer uma enquete”, comecei a perguntar pra todo mundo: “O que tu pensa com ‘As Bárbaras’? Seja sincero”. “Ah, que vocês são boas, que vocês todas se chamam Bárbara”. Nunca as pessoas pensam nos bárbaros. E ok, tipo, se elas pensarem nos bárbaros, ou se a gente explicar, tudo bem. Mas o fato de alguém, em algum momento, pensar no sentido incríveis, eu acho isso muito ruim, a gente está começando, nós não somos incríveis. E tem gente que realmente acha isso, eu não gosto. Talvez a gente vai mudar, eu estou tentando. Só que quando a gente mandou pro projeto, ‘ah, é o que a gente tem, vamos mandar’, as Bárbaras virou o nome do projeto, primeira fase. “Ah, mas tem que ter nome”, então vai, “Companhia As Bárbaras”, tal. Falei, tá bom, se a gente ganhar ficou, tá bom. Aí, a gente ganhou e agora a gente vai tentar falar com a Funarte se pode mudar, tem algumas sugestões mais legais.

 

P/1 – É? Você pode falar ou não?

 

R – Tem “Barbarella”, eu acho mais bonito, parece As Bárbaras e é o nome de um filme, uma história, nome de uma personagem que era guerreira e era, sei lá. Amei Barbarella, acho bem mais bonito. Ou Maria Maria, que eu acho lindo. Não é lindo Maria Maria? Que é o nome do primeiro albergue que a gente foi, que chama “Casa de Apoio Maria Maria”. Eu acho Maria Maria lindo porque é nome de mulher, pelo fato de serem dois, sei lá, cantado, eu acho bonito Maria Maria. E eu acho que tem muitas Marias no Brasil. E Maria é igual mulher pra mim, tipo, João e Maria, a Maria é a menina sempre. Eu acho muito bonito Maria Maria. Ou, Mulheres de Esparta, que eu acho também o fim, eu acho seco, comprido, careta, quadrado Mulheres de Esparta (risos). Não é? (risos). Vocês concordam? (risos).

 

P/1 – Mariana, uma curiosidade. Você como atriz, como que é, você tem que interpretar um personagem que você tem uma tendência à comédia.

 

R – Mas é na câmera isso.

 

P/1 – É. E se você não estiver legal aquele dia, como é que você consegue?

 

R – O humor?

 

P/1 – É.

 

R – Esse que eu falei do humor é na câmera, porque a câmera sempre tem que ser mais próximo do dia a dia, no teatro não tem esse problema. No teatro o primeiro personagem que eu fiz que foi o mais legal, era um personagem de Jorge de Andrade, chamava dona Mariana. Você perguntou do humor, né?

 

P/1 – Mas fala.

 

R – A dona Mariana era incrível porque era um personagem totalmente fora da realidade, quer dizer, na realidade, mas pra nossa realidade ela era uma ogra, tipo. Vocês já leram uma peça do Jorge de Andrade? Ai gente, o povo tem que ler peça de teatro, sabe? Porque é tão bom. E ela era muito diferente de mim. E quando o professor me deu essa personagem eu achei a melhor coisa do mundo, porque ela tinha 45 anos, e era uma peça realista, eu 45 anos, feia, horrorosa. Ela era feia, tinha buço, sobrancelha grossa e tal. E ela era uma mãe de quatro filhos e o jeito dela pensar é muito diferente. E eu estudei tanto ela que eu entendo ela perfeitamente. Qualquer pessoa que lê acha que é um absurdo o jeito que ela pensa, mas eu entendi tanto, construí isso tão bem na minha cabeça, que ok, eu fiz o personagem e, modéstia à parte, eu acho que eu fiz bem, eu me entreguei àquilo, fiz laboratório, passava dias na minha casa de dona Mariana. Nossa, foi uma delícia.

 

P/1 – O que seria uma coisa que a dona Mariana falaria, por exemplo?

 

R – (risos). Ela tem a voz bem grave, assim, a voz vinha aqui, ela era uma machona praticamente. Por exemplo, ela chamava as filhas de feia. Tinha duas filhas que queriam casar, elas eram feias, e ela achava que as filhas não podiam namorar na rua: “Vocês são feias, minhas filhas, sabe?”. Tinha uma, a Elisaura, ela tinha três filhas e um filho e o filho se apaixonou por uma menina que tocava piano, ela achava isso o fim. “Piano, o que vão fazer”. E essa menina que engravidou, a Elisaura, ela queria que o pai estivesse próximo dela na gravidez: “Como assim, próximo? Ele tem que estar na fazenda caçando”. E ela realmente entendia isso e era uma estúpida com a menina, no nosso entendimento. Mas pra ela, ela tava certa porque ela criou esse filho. É uma história linda, é muita complexa.

 

P/1 – Mas você consegue passar...

 

R – Uma frase, uma fala?

 

P/1 – Mostrar a Mariana pra gente?

 

R – Gente, ia ser muito difícil, porque essa mulher era, sabe, uma árvore centenária? Era a dona Mariana. Então, tinha que fazer tantos exercícios que eu ia criando assim. Por exemplo, ela não podia mexer a mão, ela era tipo uma árvore, com as pernas abertas, assim, sempre. Nunca, nunca apoiada, ela não é isso. E ela trabalhava muito, muito forte. E eu lembro que quando eu fazia ela, às vezes eu bambeava no dia e eu falava: “Não, não pode, ela é um peso, essa mulher. Quem quiser tirar ela do lugar não consegue”. E eu lembro que tinha vezes que eu dava o texto com o meu diretor pendurado em mim, ele vinha na minha cintura pendurado. Fazia peso para eu sentir que eu tinha que ser pesada. E eu lembro que eu fazia um exercício antes de fazer a peça, ou antes dos ensaios, eu botava as minhas duas mãos no chão, assim, e ficava imaginando que vinha da terra um monte de raiz, e ia me entrelaçando. Aí, eu ficava uns minutos assim e quando eu levantava, eu tava tipo uma tora no chão. Era a dona Mariana. Mas hoje é muito difícil porque ela é muito complicada.

 

P/1 – E dos personagens que você já interpretou? Fica alguma coisa pra você, que você leva com você? Um aprendizado?

 

R – Eu acho que qualquer coisa, qualquer experiência, qualquer coisa que tu lê, tu faz, fica. Qualquer. Essa personagem, nossa. E tanto que, na peça, ela era uma comédia. Mas não por eu fazer humor, porque eu fazia aquilo muito sério. Eu entendi tanto a cabeça dela que depois eu entendi que aquilo era um absurdo, então, as pessoas riam do absurdo, sabe? Por exemplo, ela chamar a filha de feia, as pessoas riam disso, “rarara”, e realmente hoje eu vejo e dou risada também, eu vejo o vídeo. Mas é uma coisa anormal. Ela é apaixonante a dona Mariana, vocês tem que conhecer. E tá. Daí da comédia. Segundo semestre foi a dona Mariana, terceiro eu fiz uma outra personagem que tinha 40 anos. Eu adorava fazer pessoas mais velhas porque eu acho que quanto mais difícil mais eu aprendo, então, eu adorava isso porque eu achava que tinha que trabalhar muito meu corpo, tudo e tal. Só que essa foi bem difícil fazer no sentido que eu não tinha diretor. Imagina que não falava nada, e não era porque não tava bom. Depois eu descobri que ele gostava do meu caminho, de como eu estava levando a personagem, mas ele não falava isso, não falava nada. E foi horrível, no começo eu chorava todas as aulas porque eu não conseguia fazer. Era horrível, mas eu aprendia bastante. E no quarto semestre eu fiz comédia, que foi a melhor coisa do mundo, também, porque ele me deu uma perua pra fazer. E eu fiquei meio assim, porque eu falava: “Putz, perua? Toda mulher faz uma perua.” Achei muito fácil, não fácil no sentido de “eu faço”, mas no sentido de “todo mundo tem jeito de perua, põe uma roupa de oncinha e fala assim, entendeu?”. É uma perua. Eu queria fazer uma coisa tipo, um homem, sabe uma coisa diferente? Falei, ok, então vou criar a minha perua. Só que no Célia Helena tu tem muito pouco tempo, eu acabei não conseguindo criar a minha perua, fiz a perua, de onça, que falava com a voz aguda, mas eu me divertia horrores. É muito bom fazer comédia. E tu perguntou se...

 

P/1 – Quando você não está bem...

 

R – Quando não tá muito bem.

 

P/1 – Como você consegue?

 

R – Não existe isso. Primeiro porque até hoje eu, graças a Deus, eu não sou uma pessoa que tenha problemas na vida. Eu não tenho problemas. E nunca aconteceu de acontecer uma coisa no dia e eu ter que fazer a peça mal. Nunca. Graças a Deus. E se tem alguma coisa, eu acho, não sei te responder isso porque acho que nunca aconteceu. Eu acho que se acontecer eu vou fazer porque é muito bom fazer teatro, acho que eu ia fazer e ia, sei lá, não sei, não sei.

 

P/1 – O que é então? Você se achou no Teatro, o que ele significa pra você?

 

R – Então, quando eu saí de Bagé o meu objetivo era ser atriz. Atriz. Eu falava: “Pai, eu vou estudar”. Tanto que esse negócio de eu não trabalhar, na época era uma coisa assim: “Pai, eu quero estudar, eu quero estudar, eu quero estudar, e eu vou ler muito livro”. E o meu pai compra livro pra mim, eu sou uma pessoa assim, eu não preciso de roupa, preciso de livro, sabe? Então, ele compra coleção de livro e tal. E acabou que teve uma época que eu falei: “Eu quero trabalhar porque é muito chato pedir dinheiro”. Ele falou, “mas a gente paga” “pai, mas é chato, eu não gosto de pedir dinheiro”. Eu vivo com muito pouco por isso, porque eu acho muito chato pedir. E eu falei, “quero trabalhar, quero trabalhar”. Eles me convencem hoje de não trabalhar, uma vez eu consegui um emprego em um café, eu ia trabalhar, ia ganhar mil e não sei quanto pra trabalhar em um café num shopping. Minha mãe falou: “Não, minha filha”, me convenceu, “Mari, tu me convenceu que queria ser atriz, queria ser uma boa atriz. Eu não deixei tu ficar longe de mim, eu sentir saudades, pra tu trabalhar num café. Eu podendo te pagar, eu vou trabalhar pra ti”, ela fala. Eu acho lindo, a coisa mais linda do mundo, só que é muito desagradável pedir dinheiro, e o que eu faço? Evento. Tudo bem, eu estou começando, então, não faço sempre, mas eu faço o suficiente pra não pedir dinheiro. Eles mandam, mas eu não preciso pedir, entendeu? Às vezes eles estão há maior cara sem mandar dinheiro, ela só me avisa: “Mari, te mandei 50 reais” “Ah que bom, mãe”. Eu to precisando, mas não dá tempo de eu pedir, entendeu? Eu to conseguindo isso, que é muito bom.

 

P/1 – O que é essa atividade?

 

R – Evento? De garçonete! É muito legal. Nem é serviço ajudar na cozinha, mas eu fico picando cebola, nossa, eu adoro. E eu trabalho em um buffet, eu só trabalho com eles, o ideal seria trabalhar com um monte, né? Mas como eu to começando e não tenho contatos, eles me colocaram de fixa, pra fazer amizade com eles, eles são uns amores, então, todo evento que eles fazem, eu faço, chama Buffet Alecrim. São uns fofos. Eu trabalho sempre com eles. Nesse final de semana eu fiz um por indicação, que foi muito punk, foram dois dias de trabalho das dez às dez, em um restaurante. Eu ficava de recepcionista, gente que coisa mais chata! Não adianta ganhar dinheiro pra não fazer nada, ainda se fosse nada nessa poltrona (risos), mas é nada de pé, “bom dia, boa tarde, tchau”. Eu preferia estar na cozinha, eu juro.

 

P/1 – E na cozinha você aprendeu a se virar?

 

R – Ô. Gastronomia, eu nunca fiz nenhum prato que eu fiz na faculdade porque são uns ingredientes malucos, umas coisas que são pra restaurante. Mas como eu fiz Gastronomia e eu morava com o Tiago, eu falava: “Vou fazer comida”, e ele foi meu cobaia em todos os pratos, todos ele provou a primeira vez. E eu me apaixonei, “nossa, tem coisa melhor que cheiro de cebola na panela, gente?”. E o que eu mais gostava é que é tudo por instinto, nunca tive receita em casa. Então, “mãe, como é que faz estrogonofe?” por telefone. “Ah, tu põe, não sei o quê, não sei o quê, não sei o quê” “ah, tá bom”. Eu ia fazer e falava: “Mas como é que eu sei que a carne tá pronta? Como eu sei se ela está crua ou se já passou do ponto?”. Então, ia por instinto. Sal. Gente, como que eu sei a quantidade pra esse molho? Aí, eu colocava, lembro, “Tiago, vem provar!”, porque eu não provo, eu não provo a minha comida, o Tiago prova e “tá perfeito”, eu “yes!!!”. Tudo assim, no instinto. Não faço idéia de quantidade, nada. Feijão. Eu amo o meu feijão, modéstia à parte ele é muito bom. E tudo assim, eu vou fazendo. Se me pedir a receita, vixi. Aí, eu criei esse prazer em cozinhar.

 

P/1 – Mas a Gastronomia ficou guardada lá na memória?

 

R – Eu tenho lá umas receitas, mas nunca fiz e nem vou fazer.

 

P/1 – Você tinha falado do seu namorado. Ele continua na Austrália?

 

R – Gente, ele continua. É incrível. Ele foi pra ficar um ano e eu super apoio, super apoio. Porque quando eu vim pra São Paulo ele também super me apoiou. E quando ele tava lá há uns cinco meses ele me falou que resolveu ficar mais dois anos, além do um ano. E eu entendo perfeitamente ele, entendo, na hora eu chorei, mas foi só um momento, e ok, tudo bem, tudo bem. Nossa, ele está lá. E agora, de três anos baixou pra dois, mas eu não sei se vai virar mais cinco, eu não sei realmente. Diz ele que não, mas eu concordo plenamente, nossa, eu sou muito fácil de entender. É o objetivo dele, ele acha que precisa ficar mais. Fica, eu to aqui, amo ele de paixão, não estou esperando no sentido de, eu não estou lá em casa parada esperando ele, eu estou aqui hoje, depois eu vou para uma peça, entendeu? Isso pra mim não é esperar, eu estou vivendo e se eu não amasse ele talvez eu ficaria com um outro, achasse um outro pra ficar junto comigo. Mas até hoje eu amo ele. Talvez a gente continue, talvez ele fique pra sempre lá, talvez ele ache uma loira, talvez eu ache um moreno aqui, talvez. Mas eu vou levando os dias até o momento exato de agora, e até o momento exato de agora eu amo ele.

 

P/1 – Só pra constar, o que ele está fazendo?

 

R – Ele foi pra aprender inglês. Ele está com 30 anos, bateu a crise que ele está com 30 anos, ele fez uma faculdade e o que mais ele tem de diferencial, além de ser um ótimo funcionário, porque ele é super dedicado. Ele queria falar inglês e ele sempre sonhou em viajar, era o sonho dele. Então, ele foi. Ele está lá pra aprender inglês e está trabalhando em obra desde que chegou. A ideia era ficar dois meses trabalhando em obra e depois conseguir uma coisa melhor. Não consegue. Lá não tem emprego. Ele disse que quando ele chegou lá tinham oito páginas de emprego no jornal, hoje tem duas. É muito difícil, ele tá lá, vai voltar fortinho.

 

P/1 – Mariana, a gente tá chegando ao fim mesmo da entrevista.

 

R – Ah tá.

 

P/1 – Mas tudo bem, você queria contar alguma coisa? Tem alguma coisa que você gostaria de deixar registrado?

 

R – Sabe o que eu acho que vai acontecer? Eu vou sair daqui e vou falar, aquilo! Mas agora... Eu acho que nada. Eu tenho certeza que depois eu vou lembrar de uma coisa super importante, legal, mas agora não. Já falei dos meus pais que me apoiam cem por cento, já falei de tudo eu acho, o que mais? Nada, mais nada.

 

P/1 – Se eu quisesse assim fazer teatro, agora, que conselho você daria?

 

R – Se você quisesse fazer teatro?

 

P/1 – É, assim. De repente eu chegasse, pá-pum. Mas eu preciso falar com alguém que faz teatro...

 

R – Bom, difícil porque eu fiz Célia Helena, mas eu não indicaria porque é muito caro, muito caro. Se meus pais não tivessem dinheiro, como que eu iria estudar tudo o que eu aprendi? É que eu não tinha nada, não conhecia nada de teatro, então, eu aprendi muita coisa. Eu acho que eu ia te chamar pra minha companhia (risos), estagiária (risos). Eu acho que em tudo na vida, por exemplo, em uma faculdade de Veterinária, tu tem que ser muito bom naquilo, acho que todo mundo vai ter o mesmo professor, vai ter o mesmo caderno pra ler, eu acho que tu tem que ir além disso, tu tem que ler fora, tu tem ali um mestre, pra mim o professor é mestre, ele tá naquele lugar porque ele sabe mais que tu, então, tudo o que tu puder sugar dessa pessoa, sugue, e tipo, ir além. Porque você só vai entrar no mercado de trabalho, todos se formaram na mesma faculdade ali, os seus colegas. Por que não todos conseguem emprego? Porque alguém ali vai ter um diferencial. Então, eu acho que estudar é a coisa essencial. Boto fé nisso, só estudo, estudo, estudo, já colhi alguns frutos e tenho certeza que vou colher outros porque eu deixei tudo pra trás pra fazer isso, nunca vou largar mão, nunca. Deixei cachorro, família, praia, que eu morei na praia, que é a coisa mais incrível. Lembra que eu falei que Porto Alegre é uma cidade cinza? Como que eu moro em São Paulo? Amo São Paulo, amo São Paulo, sou louca por São Paulo. Às vezes eu estou andando na rua, está aquele trânsito de carros e eu falo, “ai, olha que legal, eu estou em São Paulo”. Eu tenho total consciência que isso é muito bom, muito bom.

 

P/1 – Vou inverter, agora uma criancinha te encontra e fala: “Tia, o que é teatro?”.

 

R – Essa aí é forte, hein? (risos). Que difícil! É a mesma coisa que você me perguntar, “o que é felicidade?”. Teatro é...

 

P/1 – Mas é uma interessante analogia, você pensou na palavra felicidade, então, tem alguma coisa.

 

R – Tem, tem, mas é uma coisa muito ampla. Porque eu falei uma hora que eu saí de Bagé querendo ser atriz, hoje, eu mudei. Eu quero fazer Teatro, que é bem diferente. Não atriz sentido TV, porque pra mim ator tem que fazer tudo, não existe ator de cinema, ator tem que tá pronto pra trabalhar, que é interpretar, viver um personagem. A diferença é, antes eu queria ser uma atriz, que o diretor me chamasse e eu fosse lá e fizesse muito bem o personagem que eu teria de estudar e tal. Hoje eu quero fazer Teatro, que é diferente. Eu posso fazer Teatro e chamar atores e atrizes, mas quando quer fazer, tu quer, de alguma forma, transformar. E comunicar. A pessoa tem que sair dali diferente, talvez não mudar um conceito, mas transformada, tipo, sabe às vezes quando tu vai assistir a uma peça, ver um filme, sai e fica alguma coisa assim, ou boa, ou não, mas que te faz pensar e te faz discutir? Isso. Comunicar. Isso pra mim é Teatro, não é só uma mentirinha, viver um personagem, é esse personagem ter alguma importância. Tem peça pra mim, na minha opinião, que não tem que mais ser contada, não tem, tem que ficar pra ler. Tu tem que ler aquilo, mas hoje não transforma mais. Na minha opinião. Tem muitas peças que eu acho que sim, tem que ficar para uma leitura, mas não para uma montagem, que não muda muita coisa.

 

P/1 – Então, aquela criancinha tímida, com uma história sem graça, ela conseguiu...

 

R – Graças a Deus, gente. Se tem a ver com o colégio eu não sei, mas, eu me considero extremamente feliz, o que me causa uma preocupação, uma preocupação muito grande, que é a seguinte: Eu não sofro, isso é errado, eu preciso ser um ser humano, às vezes eu estou andando na rua, e eu gosto muito de andar na rua à noite, e eu estava andando na rua e eu falo, “ok, eu vou chorar, preciso chorar”. Alguém precisa chorar uma vez na vida. Daí, eu to andando e eu penso, “tá, o que eu posso pensar pra chorar?”. No Tiago? Tudo bem, eu entendo. Minha família, eu morro de saudades, mas tá, tudo bem. Então, tudo tá muito resolvido, ou isso é uma fuga, que eu resolvo tudo aqui, ou realmente está tudo realmente resolvido aqui. Aí, eu ligo pra minha mãe e falo: “Mãe, sabe, às vezes dá uma vontade chorar e não sei por que, eu tento achar um motivo para eu chorar e não tem” “Minha filha, tu tem um negocinho aí, apertando, porque tu é feliz”. O que ela fala? O fato de eu estar muito bem me preocupa porque na minha família talvez não esteja tudo bem, por quê? Porque eles estão juntos, família briga, tipo, às vezes minha irmã quer fazer alguma coisa e está lá trabalhando, então, eu ser muito feliz e estar em um lugar que eu quero, fazendo o que eu quero, com as pessoas que eu quero, super bem resolvida me preocupa, entendeu? Parece que não tá. Eu vou lá visitar a minha família eu fico com esse aperto, eu falo: “Gente, eu tinha que estar aqui dividindo esses estresses, sabe? Porque eu tenho o direito de estar lá super bem e eles não?”. Então, isso me preocupa, eu ser muito feliz assim. Muito. Eu acho que eu sou muito bem resolvida.

 

P/1 – Tudo bem? Então, a gente está fechando mesmo. Talvez essa felicidade seja boa pra você passar pras pessoas, né?

 

R – Éééé, com o Teatro! É! Não tem jeito, é isso mesmo.

 

P/1 – Mariana, a gente queria agradecer pela entrevista.

 

R – Eu que agradeço.

 

P/1 – Muito obrigada, mesmo.

 

R – Foi muito legal gente, adorei! De paixão!

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