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História

Da medicina à prefeitura

História de: Paulo Roberto de Santana
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Em seu depoimento Paulo Roberto de Santana relembra momentos de sua infância e juventude, seu esforço para passar no vestibular de Medicina, sua carreira na medicina até o momento em que se tornou prefeito de Camaragibe.

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História completa

R:... Eu começo com a minha história de vida, o que quê ela tem a ver com o meu momento hoje, enquanto Prefeito.

P/1: Isso! Bom, eu vou pedir pra o Senhor repetir pra mim o nome completo do Senhor, o local e a data de nascimento.

R: Paulo Roberto de Santana, nasci no dia 18 de novembro de 1955, em Iputinga bairro de Recife.

P/1: Bairro de Recife?

R: Isso.

P/1: Certo. Como seus pais se chamam?

R: Manuel Venâncio de Santana, Luci de Santana e Maria Alice Alexandre de Santana.

P/1: O que eles faziam?

R: Acho que quando você pergunta um pouco dessa questão, o meu pai era enfermeiro prático. Ele veio do interior pra Recife em 30, veio a pé, uma parte da família ficou aqui em Camaragibe porque não pode entrar em Recife por conta da Revolução de 30. Ele voltou, depois ele entra em Recife vai trabalhar em algumas casas de família como jardineiro, depois ele vai trabalhar no hospital da Tamarineira e com as freiras, ele termina indo trabalhar em serviço de auxiliar de enfermagem. Com o tempo ele vai se dedicando a enfermagem e tem uma excelente formação na área prática e em 1950, alguma coisa por aí, ele já era um dos enfermeiros, um dos melhores enfermeiros do Hospital Português, trabalhava com o pessoal de Urologia e ele atende um Secretário de Saúde do Estado de Pernambuco, que era Professor da Faculdade de Medicina. Ele atende, e esse médico chega lá pra passar uma sonda e ninguém em nenhum hospital, nenhum médico tinha conseguido e ele vai atende, orienta o médico, o Secretário de Saúde e passa a sonda. Aí a partir desse atendimento o Secretário faz uma sondagem nele e descobre que ele já é enfermeiro, e dá o diploma a ele da Faculdade de Recife de Enfermeiro Prático. Minha mãe que tinha também trabalhado no Hospital Português e casara-se. Depois de casada ela vai ter que ser dona de casa, e tem oito filhos, inclusive eu, o sétimo. Ela começa a atender em casa enfermagem, lá no bairro era conhecida como Dona Maria Enfermeira. Talvez seja daí a questão minha de Agente de Saúde, porque ela saia nas casas, fazia curativos dava injeção, fazia orientações, só não fazia o parto, mas orientava toda a população dali. Então ela é conhecida lá num bairro onde eu nasci lá em Iputinga como Dona Maria Enfermeira, era! Porque ela já morreu. E Dona Maria Enfermeira trabalhava fazendo isso e orientava muitos chás, plantas medicinais e tanto na casa da gente ela fazia essa prática de chás como ela fazia o atendimento. Essa coisa que aconteceu na minha formação é que vai mais adiante quando eu entro na Escola de Medicina ela tem um câncer, eu quase deixo a escola no segundo ano porque o no começo demorou muito a descobrir, causou uma revolta muito grande, ela morreu. Quando eu chego ao quinto ano de Medicina eu faço uma prova de terapêutica e coloco nessa prova... Havia uma questão lá... E a paciente era uma paciente que eu deduzia pelo diagnóstico que estava escrito, que estava na menopausa e ela tinha uma leve hipertensão. Essa coisa foi um fato que marcou muito minha decisão na vida sobre Saúde Pública, e eu descubro que o professor botou uma casca de banana, nós não tínhamos não fazia parte do programa menopausa, fazia hipertireoidismo, hipertensão e não menopausa, e o diagnóstico da paciente era menopausa, e ela tinha uma leve hipertensão. Eu faço a prescrição, a orientação psicológica e chás, chás pra pressão, que ela procurasse chás pelo menos alguns, né? E faz chá de chuchu, alguma coisa que eu já tenha ouvido falar, não tinha muita consistência nisso. Quando termina a prova, todo mundo conversando com o professor aquela coisa de quem acertou, quem não acertou o diagnóstico. Aí eu disse: ela estava na menopausa, aí o __________ disse: “É estava na menopausa. Não, mas não é menopausa, não caiu.”, “É diagnóstico diferencial do hipertireoidismo”. Aí o professor disse assim: ‘”O que foi que você fez na conduta?”. Aí eu fui falando a conduta né? Quando eu cheguei na hora dos chás, que eu falei quais eram os chás que ela tinha passado, aí ele perguntou pra mim: E você tá precisando de quanto? Ele me perguntou, eu fiquei meio desconfiado, disse: “De cinco”. Aí ele disse: nenhum aluno meu termina a Medicina passando chá, aí ele me deu quatro, mas eu só precisava de três e meio (risos).

P/1: (risos)

R: Aí essa coisa me marcou assim: pô, mas porque quê não podia ser chá né? A paciente tinha uma hipertensão leve, era uma conduta... E isso me fez no sexto ano, a querer pensar muito em chá. Por que não o chá? Porque tinha que ser o remédio alopático, né? Bom, eu faço meu sexto ano nos Hospitais de Recife, e quando termino eu quero fazer Saúde Pública e aí começo a me inserir no movimento popular. Vou fazer a residência de ___________ geral comunitária, lá em _____________geral comunitária aqui em Vitória de Santo Antão eu vou trabalhar dentro da comunidade, eu faço a opção pra ir pra dentro do Bairro, tem um momento de hospital, mas eu não era muito ligado a hospital, gostava de medicina, mas no campo. Então eu vou pra as reuniões que tinha uma Assistente Social que tinha uma vivência muito grande em comunidade, Lilia (Polie?). Aí Lilia quando veio, eu era o único residente do grupo que entrou que queria ir pra comunidade, o que eu quero é ir pra comunidade, daí... Mas não tem carro, não tem isso... Bom, eu vou dou um jeito eu fico numa comunidade de beira de estrada. Eu vou pra essa comunidade lá eu começo a desenvolver palestras de plantas medicinais, começo a desenvolver a questão de prevenção, não sei o quê e Lilia começa a ser o meu grande professor, ela era assistente social.

P/1: Qual é o nome dela?

R: Lilia (Polie?). Aí Lilia começa a anotar como é que é que eu me conduzia nas reuniões, minhas falhas meus... E depois eu ia muito à casa dela, depois a gente sentava fazia uma analise do que eu tinha feito na reunião e me reconduzia. Me instruía com livros, me dava material pra dialogar com ela e essa formação durante esses dois anos ela vai consolidando essa coisa aí, de Medicina Comunitária, de Plantas Medicinais surge a primeira coisa. Nessa residência ela me traz o Celerino Carriconde que trabalhava em Casa Amarela com plantas medicinais e nela os médicos lá em Vitória de Santo Antão, o Celerino, Pra conversarmos sobre plantas medicinais, já que eu tinha uma vontade muito grande. Só que eu já tinha descoberto muita coisa, que eu pra me informar em plantas medicinais tinha que descobrir o que o povo usava. Mas só que o que o povo usava não tinha rebatimento cientifico, eu fortalecia o uso, mas quando eu chegava pra um outro companheiro eu disse: rapaz lá,  eu estou trabalhando com chá e o cara disse assim: e tu sabe como é que isso atua? Quais são os efeitos colaterais, quais são isso quais são aquilo, eu disse: olha, na realidade os alopáticos eu também não sei como é que um AAS age eu não sei, eu sei que diminui a febre, faz isso faz... Mas eu também não aprendi isso. Então não faz muita diferença não. O que o pessoal usa geralmente não mata tá entendendo, então me dá mais segurança. Eu me envolvi nesse debate, mim e Celerino e traz uma coisa mais forte sobre plantas medicinais, ele já tinha uma inserção grande. Bom, quando eu termino a residência Celerino tem que viajar pra Inglaterra e ele coordenava o projeto de saúde de Casa Amarela, de 79 e 82, 83, acho que por aí. Aí a equipe fica sem o coordenador e eu fui indicado pra ir pra essa equipe. Eu chego à equipe num momento de conflito muito grande, havia uma resistência muito grande a um médico, Celerino tinha um... Era uma pessoa muito carismática, muito forte e a equipe não queria um médico, queria um médico, precisava de um médico, mas não um médico que fosse o dono da coisa, fosse da equipe. Éramos cinco. Bom, aí vou e assumo essa coordenação com essas restrições, a equipe me bota numa roda, uma enfermeira inglesa Janete que estava aqui a disposição de uma entidade de uma ONG, tinha uma menina de Santa Catarina, já não era enfermeira, outra enfermeira de Santa Catarina Fernanda Cruz, tínhamos três agentes de saúde da comunidade que estavam na coordenação, era (Gilvone?) que a gente chama Gil, (Paizinha?), e Cleide e faltava um médico. Então Celerino saí ____________ e eu chego à equipe. Bom, aí a gente começa a trabalhar em Casa Amarela, aí o que é esse trabalho de Casa Amarela, era o trabalho...

P/1: Deixa eu só voltar um pouquinho antes de você explicar que é esse projeto da Casa Amarela. Você sabe como se deu a formação dos seus pais como enfermeiros assim, quem ensinou eles a trabalharem como enfermeiros?

 

R: A formação deles se deu dentro do serviço. Nos tempos passado o Hospital Beneficente Português, eles não sei se por questão de recursos humanos ou economia dos portugueses mesmo em dinheiro, eles aproveitavam muito as pessoas que tinhas potencialidade pra aquela ação. E o meu pai era uma pessoa - é uma pessoa! Ainda é vivo - é uma pessoa muito... Sei lá intuitivo, ele tem uma instituição muito grande. E ele vem da roça, ele é agricultor aquela formação dele inicial é de agricultor, dentro do Hospital identificam ele com... Ele substitui alguém, faz uma limpeza num paciente, o trato que ele vai dando ao paciente é que chama a atenção dos superiores de ir treinando ele em enfermagem. Então ele primeiro é aquele atendente de enfermagem prático, depois, com o passar do tempo, ele passa a ser auxiliar de enfermagem prático, pela sua inserção mesmo em serviço. A formação dele é em serviço.

P/1: A prática mesmo.

R: Prático. Tanto é que o diploma dele é enfermeiro prático, ele tem um diploma da universidade bonito que ele nunca usou.

P/1: Não precisou. Ô Paulo e assim, você falou assim que vocês eram em oito irmãos. Como é que era o convívio na casa de vocês?

R: Nós morávamos numa casa... Era a melhor casa da rua, uma das melhores casas da rua, mas era muito simples a casa. Era uma casa...

P/1: Que bairro que era?

R: Lá em Iputinga. Um lugar chamado Poço Alto. A nossa rua é uma rua pequeninha, ela deve ter umas vinte casas no máximo, é uma rua muito pequena. E a casa da gente era de três quartos, um terraço, uma sala, uma copa, uma cozinha e um banheiro. Então era um quarto de meus pais, um quarto para os homens que eram cinco, e um quarto das meninas que eram três. Bom, era um ambiente difícil em termos de estudar, eu sentia muita dificuldade de estudar dentro de casa, era uma casa muito movimentada. Ia muita gente fazer curativo, muita gente tomar injeção, toda hora tinha gente chegando batendo palma, Dona Maria enfermeira pra tudo e a gente recebia muita gente do interior. Era uma espécie de uma casa de passagem ali, uma hospedagem de muitos... Minha família... Sempre chegava alguém doente, ou vinha da região da mata ou do agreste, ficava lá muitos dias e ia pra os Hospitais de Recife.

P/1: Pessoas da família?

R: Não, não. Muitos poucos da família eram amigos, pessoas que o meu pai conhecia, às vezes era mesmo! E quando ele... Chegou, quem? Não, era fulano que fulano mandou e não tem onde ficar, e o seu pai é enfermeiro conhece os médicos, sua mãe pode cuidar em casa, aí aquela pessoa às vezes passava oito meses com a gente dividindo aqueles seis meses, quatro meses. Bom, chegava gente de todo o canto, até vinha gente de Recife, eu me lembro assim: uma das meninas que tinha febre reumática (Fatinha?) e (Fatinha?) sofreu horrores com a gente, que ela era bem doentinha porque a gente fazia, pintava e bordava com a (Fatinha?) e chegava com os adultos que chegavam a gente respeitava mais, a criançada quando chegava entrava na zurra da gente. Então a infância era ali, eu estudava na Escola Pública no Padre Dehon na Avenida Caxangá. Bom, eu tinha algumas regalias pra mim, eu acho que formei também em médico porque eu tinha umas regalias. Uma família pobre e um vai ser médico, como é que se dá isso? Por quê? Eu no primeiro ano de vida fui desnutrido, muito grave, de terceiro grau, minha mãe chegou num determinado momento que disse que eu não... Que o pediatra disse: não gasta mais dinheiro com ele, ele vai morrer. Não gasta... O Doutor José Júlio era um médico particular, ele disse: não gasta mais não, ele vai morrer! Eu só tinha pele e osso, eu tinha uma diarreia assim fantástica, e a minha diarreia depois a minhas irmãs contaram qual era o motivo dela. Como a minha família era grande, as minhas duas irmãs mais velhas tem oito a dez anos mais do que eu apenas, então não eram mais velhas eram meninas, e os afazeres domésticos eram muito grandes essas minhas duas irmãs eram que faziam o meu mingau e fazendo o mingau na hora do lazer dela. Minha mãe ainda estava grávida acho que do meu último irmão e lá em casa era um em cima do outro. Então o que quê elas faziam? Elas pegavam o meu mingau, ia esfriar o meu mingau dentro do alguidar e elas botavam a água do alguidar dentro de uma panela.

P/1: O que é alguidar?

 

R: Alguidar é uma bacia de barro, de argila pra lavar pratos. Chama-se alguidar. E elas iam lá faziam o meu mingau, esfriavam o mingau ali nesse alguidar. Só que elas queriam ir brincar, elas jogavam a água do alguidar que nem sempre era limpa, muitas vezes era água já usada, como tinha dificuldade de água então aquela água você usava pra alguma coisa e ficava ali na bacia, lavava uma coisa e esfriavam o meu mingau com essa água. Então eu tive uma diarreia infecciosa violenta, só que elas não sabiam o que é que estavam fazendo, ninguém sabia o que era, eu só vim descobrir isso depois já estudante de medicina. Mas rapaz! Vocês iam me matar! Então é a água que jogavam dentro do meu mingau. Eu tive essa diarreia violenta e isso me levou a ficar muito fraquinho. Fraquinho era todos os cuidados, aqueles cuidados não sei o quê, minha mãe quando o médico disse que eu ia morrer meu pai chegou com uma amostra grátis de uma injeção, ela leu a bula e achou que aquele medicamento servia pra mim - aí eu não lembro qual o antibiótico - era o antibiótico que ela dizia a muito tempo, que foi o antibiótico que me salvou. Aí ela chamou a vizinha e disse: Farinha, Dona Alzira ela chamava de farinha, vamos dar essa injeção nele, ele vai morrer de todo jeito. Aí ela disse que pegou aquela pelezinha assim na bunda e fez, aí eu desmaiei, ela disse: morreu! Mas nada eu ia morrer de todo jeito. Quando foi mais tarde eu estava vivinho, ela disse que tinha parado a diarreia ela disse: vou dar a outra metade, era passado de 12 em 12 horas, pronto! Eu sei que essas três ou quatro injeções foi que me tiraram dessa infecção e eu escapei. Aí isso me levou a quê? A ser mimado, a ter regalias, por exemplo, enquanto a gente ia buscar água no... Pra ir buscar água no chafariz eu era o último a ir, só quando não tinha ninguém porque tinha os outros mais fortes. Bom, eu gostava muito de estudar, eu gostava de ler, de estudar, e aí aproveitava e ficava... Era muito calado, acho que próprio da desnutrição. Era aquele menino quieto calado, mas muito observador e eu ficava... Qualquer coisa eu queria ler, foi um maior ‘aperrê’. Minha mãe teve que me alfabetizar em casa porque meus irmãos iam pra escola, eu queria ir de todo o jeito, ela comprou um diabo de uma cartilha de ABC e ficou me alfabetizando em casa. Quando eu entrei na escola eu já tinha pego a cartilha do ABC todinha. Mas isso é a partir de sete anos, aí é que vem carregar água, esse negócio, eu não faço não! Eu fico o tempo todo fazendo os meus deveres de casa, me dedicando ao estudo. Acho que foi um fator também que me contribuiu assim: era um menino que não aguentava muita coisa, e eu era realmente muito magro. Eu sonhava feito bandeira de pirart, pano e osso.

 

P/1: (risos).

R: Bom, aquela coisa ali eu tinha uma vantagem. A vantagem era poder estudar, o ruim é que a casa não tinha muitas condições de estudo não tinha.  Bom, aí eu quis ser padre por sete, oito anos eu já queria ser padre, de todo o jeito eu queria ser padre e não sei o quê. Mas não tinha condições pra ir pra o Seminário, não tinha condições. Na minha família não tem nenhum histórico de iniciação desse tipo de coisa, de fazer nada disso. Bom, eu disse a minha mãe que eu ia ser padre e que eu ia resolver isso. Achar o que eu... Não resolveria não me deixou ___________ Com nove anos eu conheci um padre na Igreja Matriz, disse a ele que queria ser padre, eu já tinha feito a primeira comunhão e que eu nem sabia onde era o Seminário, nem a minha família sabia e não sabia como chegar lá. Aí ele disse: olha, o Seminário é em Pau D’alho - eu sei que ele era do Sagrado Coração de Jesus - e é pago o Seminário! Eu disse: é, mas eu não tenho como pagar, lá em casa não tem jeito de pagar nada. Bom, o padre disse: eu lhe arranjo uma bolsa, aí o padre foi embora, eu fui pra outra matriz indo um pouco pra várzea e eu fiquei angustiado com aquilo, que aos 10 anos eu tinha que ir pra o Seminário. Tinha que entrar lá na quinta série no meio do ano, e o padre sumiu, mas eu descobri aonde que ele estava. O Padre ________ ele tá na várzea. Chamei o outro meu irmão que era três anos mais velho do que eu, pegamos uma bicicleta e a gente veio até a várzea. Eu bati lá e disse: o senhor não disse que me dava, eu quero ir para o Seminário. Então na quinta série, e estudando aqui perto na Escola Olinto Vita aqui em Caxangá, e eu quero ir pra o Seminário. Aí ele mandou e... Preciso falar com alguém da sua família. Minha família não era muito da igreja, eram religiosos, mas não viviam muito eu é que vivia. Bom, aí minha mãe manda um recado, não tem tempo de ir lá vai outro irmão e ele me manda o dinheiro, dá o dinheiro pra comprar a minha bolsa pra comprar o meu... Eu ia ao colégio, ele me colocou como cada desafio, coisas impossíveis de ir pra um menino de 11 anos, principalmente ali aonde a gente morava. Ir ao Colégio, no Seminário saber quanto era, como é que era, enxoval que eu... A ___________ minha irmã mais velha ela foi comigo em Pau D’Alho. Chegou lá em Pau D’Alho que eu vi o Seminário, eu disse: é aqui que eu quero, tem tudo o que eu quero. Arrumei um ambiente ótimo, sala boa pra estudar, biblioteca não sei o quê, eu digo: tá é aqui que eu quero. Aí ele deu o que eu tinha que fazer, tinha que pagar o Seminário _________ e tínhamos que ter um enxoval. Um enxoval pra um menino tinha um mal... Três, quatro, cinco calças não é ____________ mas aí voltamos com a lista, fomos ao padre, ele deu esse dinheiro pra comprar o material. E fui atrás de minha madrinha, falei com ela que tinha que ir de todo o jeito que eu queria ir. Eu comecei a buscar várias pessoas pra poder me ajudar nisso. Bom, juntou-se... A verdade é que o bairro se juntou, de repente o bairro estava me ajudando pra eu ir pro Seminário. Aí me botaram no ônibus e me levaram pra esse Seminário aí, compramos a minha maleta e minha maleta, a roupa que eu cheguei no Seminário, 3 de agosto de 67. Cheguei lá, ah! “Não tá com saudade de casa, não?”, “Eu tô nada! Eu tô doido pra vir prá cá” (risos).

P/1: (risos).

R: Aí minha mãe: mas como é que você... Minha mãe chorava no dia que eu sai, que Virgem Maria. Não sabia por que chorava tanto, Eu estava tão contente porque eu ia estudar. Aí eu vou pra esse Seminário. Nesse Seminário eu acho que foi onde eu arredondei o estudo sabe, onde consegui aprender a estudar, porque em casa não tinha como aprender a estudar. Ali não, eu acordava. que não era coisa difícil de eu fazer, às cinco e meia da manhã, tomava banho no salão de estudo, eu adorava isso. A maior parte dos alunos detestava, eu não sabia, eu adorava descer tomar meu banho e estudar, antes de tomar o café da manhã. Bom, e isso me fez um hábito. Eu tinha hora de estudo, eu tinha hora pra ter aula, tinha hora de tudo, e aí eu quis estudar latim, eu era muito enxerido. Quinta série, ainda numa admissão eu queria estudar latim, porque eu ajudava a missa em latim a um tempão e eu não sabia... O latim eu só ia dá no segundo ano ginasial, mas eu já queria saber o que danado era o latim, o que é que pelo menos o que era a missa. Tinha um padre lá que vive e pede, começa a sentar comigo particularmente a falar da missa, o que era o latim e não sei o quê, começa a abrir pra o latim entendeu. Eu queria... Eu quero entender isso daqui, o que o danado é, o que é que a gente diz não sei o quê, a missa tinha mudado já estava em português, mas tinha uns padres que a gente ia aos lugares que eles fazia a missa tradicional. E aí bom, o cara começa a me falar em latim, o que é o latim e pa-ra-rá, pa-ra-rá, e quando eu cheguei no primeiro ano ginasial eu não sei, a gente começa a aprender francês. Aí eu disse olha: eu queria... Os padres eram europeus, belgas, holandeses e eu já no primeiro mês de francês já queria me corresponder com um europeu. Aí arranjam outro menino lá, eu andei dando muito trabalho a quem estava junto de mim, até hoje eu dou. Aí me arranha um menino pra eu me comunicar em francês, e eu escrevo que no começo é tentar escrever cartas em francês, e também aprendendo latim porque eu queria ser padre. Eu tinha que saber latim na minha cabeça, tinha que saber bem mesmo o latim, e eu tinha que saber outra língua, não sei por que eu queria naquele... Hoje eu sei porque... Eu gosto, mas naquele momento não tinha não, 11 anos porque que danado eu queria tanto o latim e queria saber francês? Bom, eu sou... Aí naquele tempo eu continuei a sendo um dos melhores alunos de sala. Sempre um... Não fazia grandes esforços não, achava uma besteira fazer prova, fazendo aquilo tão fácil. Era somente pegar e fazer meus questionários e passar duas, três horas ali pra não fazer... Eu não sabia por que os meninos sofriam tanto pra tirar nota ruim. Então faziam com mais facilidade. Bom, mas eu tinha uma dificuldade muito grande no Seminário, muito séria. Era pagar o Seminário. Minha família teve um abatimento grande, mas não era suficiente não, meu pai ganhava um salário mínimo e qualquer abatimento era pouco. O primeiro ano a gente já tinha ficado devendo o Seminário. No segundo ano o pessoal da capela onde eu morava lá em Poço Alto, uma parte da coleta da capela segue pra eu pagar o colégio, mas também ainda em abatimento, mas mesmo assim nós não conseguimos pagar. Aí no final do primeiro ano o padre Reitor chamou que já fazia um ano e meio que eu estava ali e minha família não conseguia pagar e não tinha jeito. Aí eu tenho que sair do Seminário. Pra mim foi um desastre, emocionalmente eu fiquei abalado porque eu saia porque eu não podia pagar, porque que o padre não podia... Eu queria ser padre, eu ia ser padre, podiam me dáar a bolsa.

P/1: O bairro continuava ajudando?

R: Continuava ajudando, continuou ajudando, continuou. O pessoal do meu bairro é muito solidário sabe, muito, era um pessoal assim... Era não, é! Tem todos os conflitos de subúrbio e dificuldades financeiras de tudo e tudo mais, mas era um pessoal assim... Bom, pelo menos eu não tinha grana e nem um grande motivo pra todo mundo fazer uma coleta e mandar pra mim na Igreja, mas tinha o... Quer dizer, eu acho que o pessoal tinha vontade que o bairro tivesse um padre, e tinha alguém que queria aí... Só que eu não era o único seminarista do bairro não, nós éramos três, era eu e mais dois o José Carlos, e o Paulo Bonfim que até trabalhava aqui com a gente. O Paulo Bonfim também teve que sair por questões financeira, e Zé Carlos também teve que sair por questões financeiras. Paulo Bonfim queria ser padre, Zé Carlos não, eu também queria. Bom, eu tenho que sair, eu volto aí vou me matricular num colégio, tinha quer ser um colégio bom. E colégio bom só privado, e não havia condições de me botar num colégio bom, mas a minha família: não, mas a gente botar você num colégio muito bom, era meu consolo. Bom, aí eu sabia que não tinha jeito, mas também não protestei porque não tinha que protestar, não tinha dinheiro pra me manter e nem ia botar a família numa situação dessa, só o meu constrangimento foi interno, foi o meu grande silêncio, eu fiquei em silêncio. Eu não protestei nada.

P/1: Com quantos anos você saiu do Seminário?

R: 13 anos.

P/1: Com 13.

R: Eu fui pro Ginásio Pernambucano, o (CEP?) que é um colégio tradicional, só que pra entrar no Ginásio Pernambucano é preciso fazer uma maracutaia. Não havia vaga no Colégio, eu ia entrar no segundo ano ginasial. Tinha um funcionário do Ginásio Pernambucano que morava lá junto de casa, ele preenche a minha ficha de matricula e com alguns funcionários ele bota no meio das outras, porque não tinha vaga de jeito nenhum. A turma que eu estava entrando toda ela tinha sido reprovada, era uns 52 alunos. Nesse ano iam ter três segundo anos, só eram dois, ia ter mais um e esse mais um era de uma turma todinha reprovada quer dizer, não havia vaga pra mim de jeito nenhum. Os dois que já vieram dos meninos do primeiro ano ginasial, e um era de repetente. Bom, ele consegue me jogar no meio desses repetentes, o diretor assina eu fico sabendo disso, fico super angustiado, meu primeiro ano foi terrível. Primeiro porque eu cheguei totalmente do Seminário. Estudava só de manhã, professor mal sabia quem era o aluno, não tinha nenhum contato, uma turma de maloqueiro, pequenos marginais assim, uma turma violenta, violenta. Tudo repetente, alguns eram mal vistos porque participava do movimento estudantil, eu não sabia o que era movimento estudantil. Eu dentro do Seminário, esses dois anos 67, 68 que o movimento estudantil tinha entrado pra umas lei aí pra... Tava tudo...E eu sabia lá o que estava havendo no país nisso aí, não sabia! Só sei que dentro da sala tinha uns meninos que eram visados que eram do grêmio, e eles tinham sido reprovados e eram as ovelhas negras, tinham os outros que eram mesmo bagunceiros, e eu entro nessa turma. Aí pronto, nessa turma era terrível Ave Maria. Bom, aí eu sofri o primeiro ano pelo contraste do que era o Seminário e aquilo ali, e pela relação com os professores, não havia uma relação professor aluno, era uma relação muito distante, muito distante, eu quase sai reprovado, porque sempre que o primeiro lugar eu fiquei praticamente em 3 segunda-época, fiquei em português, desenho... Eu fiquei em desenho que ninguém ficava, desenho mesmo todo mundo filava prova de desenho, e eu não filava aí eu fiquei em desenho, fui o único aluno que fiquei em desenho e precisando de muito, fui precisando de 6. Quando chegou na prova todo mundo filando e eu não tinha comportamento ético pra filar sabe, eu ficava e olhava que quê eu faço? Eu vinha de um colégio que eu estudava eu passava, eu não precisava disso, mas ali sei lá, eu não consegui desenvolver, eu dormia muito, dormia tanto em casa a tarde, eu já não estudava mais não. Bom, eu tinha... Eu quase fui reprovado, na realidade eu fui reprovado e me aprovaram. Eu quando fiz a prova de desenho que fiquei em segunda-época meu professor não apareceu pra aplicar a segunda-época porque ele nem sabia que tinha ficado alguém. Primeiro era pra todo mundo ter passado por média, eu já fiquei na final e sem ele tomar conhecimento. Aí ele chegou aplicou a prova e pensava que eu precisava de cinco ele me deu cinco, eu precisava de seis, aí fui pra segunda-época. Na segunda-época chega uma professora, o professor não foi. Aí eu estou lá e disse: cadê o professor pra fazer minha prova de desenho? Ah! Não, ele não vem tá viajando e não sei o quê, aí o outro segundo ano que era outro professor de desenho tinha ficado não sei quantos alunos em desenho, me botaram pra fazer prova. Só que a matéria que o outro professor deu não tinha nada a ver com o do outro. Aí eu cheguei pro professor e disse pra ele: olha isso aqui, porque que eu tinha que estudar? Ela disse: é, esse aqui não! O professor sumiu tá, ela disse: me dê, eu vou fazer sua prova. Aí a professora fez a minha prova né? Bom, se ele fez minha prova eu vou tirar 10.

P/1: (risos)

R: Quando eu fui receber o resultado, reprovado. Eu tinha tirado cinco. Se ele me deu cinco, cinco pra ela (risos). Aí eu fui pro pessoal da secretária, disse: eu não vou ser reprovado não! Chama o professor. Porque você não pode ser reprovado? Eu: não, eu não posso, eu não posso. Aí, Por quê? Por que a professora fez a minha prova. Não pode dizer isso aqui menino! Digo... (risos)

P/1: (risos)

R: Mas como é que eu fui... Ela fez a minha prova eu tirei 5, eu tinha que ter tirado 10. Aí me chamaram dentro da Secretária, e cadê a professora? A professora tinha tido neném. Aí, puta merda! A professora teve neném. Aí a menina disse vamos pegar a prova dele, pegou e disse: olha, minha letra é essa aqui veja, aí comecei a escrever, eu tinha uma letra muito feia. Tá vendo! Isso aqui é a letra da professora. Aí pegaram as folhas, é!, Fulana fez, mas fulana é louca. Aí eu expliquei porque ela tinha feito. A Nilce: quanto tu precisava? Eu disse: de seis. Como é que como tu ficaste precisando de seis com aquele professor babaca, eu disse: eu não filava. Aí olhou, aí... Que quê a gente faz? Vamos dar seis a ele, e ele passa. Aí me deram seis, pegaram a minha prova, jogaram no lixo e eu passei. Bom, aí no terceiro eu me orientei, comecei a entrar no clima da turma. Eu filava, aí eu comecei a filar, eu comecei a ser esperto, eu comecei a falar, gritar senão os meninos do ginásio falavam e eu engolia. Do terceiro ano em diante eu tomei rumo, retomei o Ginásio Pernambuco, aí foi uma boa base no colégio que ele tomou minha estima, retomou a minha autoestima , um colégio de fama né? Já tava na decadente sabe, mas por ser o Colégio Ginásio Pernambuco, e de vez em quando eles faziam aquelas aulas, e aqui estudou fulano estudou não sei o quê, estudou Agamenon Magalhães. Aí começava a falar do passado do colégio não sei o que, mas isso... Aí o colégio estava uma bosta, mas isso trazia a gente a vontade. Tem uns professores muito bons, Milton (Cetti?) a gente tinha ___________ sempre professor de música, professor de não de não sei de quê, tinha alguns que estimulavam o ensino. Tinha o Romeu Peréia, então a gente tinha professor de filosofia, ainda tinha alguma coisa. Ele estava em processo de decadência, mas ele ainda tinha várias coisas que os colégios estaduais - pelo menos naquele tempo ainda - ele estava perdendo isso, mas ainda existia. Eu peguei o que ainda existia, apesar de não ser de excelente qualidade. Mas esse pouco que existia estimulava muito a gente, a leitura, afazer trabalhos coletivos, a questão da sociedade pa-ra-rá, pa-ra-rá. O movimento estudantil era interessante dentro do colégio, a gente roubava os panfletos que eram proibidos, o carro jogava na quadra, passava aqueles carros jogava... No terceiro eu já pegava, no segundo eu não tinha coragem de pegar. No terceiro eu pegava, levava pro banheiro pra ler os panfletos do pessoal e quando terminar de o carro passar, os banheiros tava tudo lotado no colégio, todo mundo lendo os panfletinho do pessoal do movimento estudantil. Minha irmã chegava em casa falando das passeatas que ela ia no centro da cidade, as passeatas e achava interessante a ousadia dos estudantes. Minha irmã já era do segundo grau, ela chegava eufórica dizendo que... Eu me lembro, nunca esqueço, ela disse assim: ela desfilou com um burro e botou o nome do burro Castelo Branco, esse é o nosso presidente. E quando a policia veio, a cavalariça - minha mãe ficava angustiada - , quando a cavalaria veio a gente jogando um saco de bola de gude, os cavalos tudo derrapando, pisando ali na Guararapes, aí eu achava arretado e os cavalos não pegar e ______ me escondi dentro dos correios, eu me escondi não sei aonde aí começo aprontar. E minha mãe tinha o ideário católico, naquele momento era forte a família a propriedade, a gente não tinha propriedade porra nenhuma, não sei que propriedade a gente defendia? (risos) A dos outros! (risos). Aliás, meu pai plantava nos terrenos baldios do bairro. No momento de folga ele tinha um roçado, a propriedade nossa era dos outros... Permitida. E ele era lá, a tradição a família minha mãe ficava preocupada com aquelas questões, rosário em família, a igreja trouxe o terço em família não sei o quê, a família que reza unida permanece unida. Todo aquele movimento que a Igreja Católica trouxe paralelo ao golpe, que a gente vivia dentro de casa e a realidade na Rua da Aurora no Centro da Cidade que eu estudava era uma de protesto, um protesto forte, forte, forte. Eu tenho um sentimento muito governista, eu era tão governista, sabe, eu era tão assim: achava que o governo estava tão correto, que os comunistas queriam tomar, que era um absurdo e começava a haver um protesto que não batia, e minha irmã chegava em casa eufórica com as passeatas e minha mãe super preocupada com esse rolo todo. Eu ficava - é assim: eu era muito babaca de minha mãe - ficava aperreado porque quando minha irmã chegava dizia: não pode fazer um negócio... Minha mãe... Não pode trazer mais problemas. Eu ficava mais... Me interessava, eu senti uma vontade de tá naquilo sabe, algo da algazarra da coisa... E quando eu lia aquelas coisas me chamava a atenção, isso foi muito... Uma parte de informação política que eu tive assim de rua que foi muito interessante, eu __________ interessante, ela bateu muito, bateu muito. Quando eu chego mais adiante, eu já me rebelo contra o governo. Havia um grupo da gente, tinha Jader, Raul, alguns que a gente começava a conversar sobre o governo. Nas nossas casas os nossos pais eram extremamente governistas de todos os três, tudo muito governista, tudo lascado pobre, mas era governista até a alma, e a gente começou a contestar isso na discussão. A gente fez grupo de estudo, foi muito bom também. Fizemos um grupo de estudo paralelo ao Ginásio Pernambuco, o que eles estimularam. A gente começou a ler aqueles troço (Dener?) debaixo das roda, como é o nome daqueles autores antigos. Sei lá, era coisa de chinês não sei o quê, sabe. A gente começou a ler aqueles livros aí, sentia uma vontade danada daquelas coisas esotéricas diferentes, e algumas coisas falava muito da juventude do processo de ousadia, puxava muito por este tipo de literatura. Agora é um grupo autodidata. Autodidata tinha um estímulo do Colégio e tinha esse grupo certo, que três ou quatro alunos que a gente começou a se reunir, discutir outras coisas, espontaneamente a gente começou a discutir, mas havia esse cenário que levava a gente a essa coisa. Bom, essa parte aí foi que jogou a gente adiante. No segundo grau o fato novo que acontece na vida da gente é que o Colégio fica misto, o Colégio ficou misto. Aí foi bom, chegaram às meninas. Segundo ano do científico chegaram as meninas aí pronto, todo mundo a fim de namorar com as menina, um namorico danado. Bom, aí formasse um grupo bem, bem legal __________ dessa turma da gente. A gente forma um grupo muito bom, vem outros alunos no segundo grau, a gente já começa a sonhar com a Universidade né? Tudo classe média, classe média não!, Tudo pobre né? E o grande sentimento de todos era entrar na Universidade, e eu ainda pensava em ser padre. Eu ficava assim: eu dizia quando eu terminar o segundo grau eu volto, aí porque eu terminando o segundo grau tenho 17 anos, chegando no Seminário dizendo que eu quero ser padre vão me dá uma bolsa. Não é possível que não me deem mais uma bolsa, sem ter namorado esse tempo todinho chegando aqui eles vão me dar. Mas aí eu comecei a namorar. Comecei a namorar uma menina do bairro nem foi do Colégio, eu comecei a namorar no último ano no terceiro ano científico, mas eu já tinha decidido eu vou fazer Medicina e vou ser um padre médico, eu queria ser um padre médico e vou fazer isso. Mas eu comecei a namorar logo no terceiro ano científico, aí no namoro eu disse: não quero mais ser padre não, aí eu já descobri que não queria mesmo... Pronto! No terceiro ano científico a reforma do ensino do segundo grau no Ginásio Pernambuco eu peguei ela de cheio, aí ela acabou. Ela tornou o Ginásio Pernambuco igual a qualquer um outro, e ele era diferenciado. Nesse ano conclui a reforma do ensino e a reforma do ensino pra os Colégios era ver massificar o ensino, mas ele diminuía a qualidade dos que tinham, não leva os novos colégios...

P/1: A seguir.

R: Não. E o Ginásio Pernambuco que vinha decaindo cai de vez, justamente no ano do meu vestibular. Aí nesse ano eu não tenho Geografia, Matemática, eu tenho um professor só de Física ele só dava uma parte da física né? Eu sei que Geografia não tinha, olha foi um desespero. Alguns meninos que puderam foram fazer cursinho, faziam o Ginásio Pernambuco pela manhã e cursinho à tarde e eu não podia, então o que eu fazia? Eu passava a tarde na Biblioteca Pública no centro da cidade estudando prá o vestibular. Então os meninos iam pro cursinho, me traziam os cadernos todinho aí no outro dia eu estava estudante com os cadernos dele. Aí o grupo fazendo um com outro. Veio um menino aqui de Camaragibe, naquele tempo era um menino João Lemos, que foi Prefeito antes de mim e aí formamos um grupo de estudo. Aí bom, a gente precisa de um canto pra estudar e todo mundo sabia que eu ia levar pau, porque todos estavam no cursinho e eu não estava. Aí, fomos fazer um grupo de estudo vamos pra Camaragibe, eu digo Camaragibe só tem maloqueiro que tem aqui. Olhe, todo time de futebol que jogava no meu bairro de Camaragibe quando terminava o jogo lá era o maior cacete, os meninos apanhava  e quando a gente vinha jogar em Camaragibe apanhava, e se a gente vinha brincar aqui no Guarani Estrela aí quando terminava a festa a gente apanhava, quando os meninos iam brincar lá no Santo Antonio num Clube lá terminava em cacete apanhava. Então a minha imagem de Camaragibe era o lugar aonde só tinha maloqueiro, eu nem participava dessas ________ só sabia que tinha esse cacete.

P/1: (risos).

R: Aí eu disse a Raul: vou nada! Camaragibe não é lugar pra gente ir lá. Tu conhece Camaragibe Raul? O Raul morava lá na Embiribeira, não sabia nem quem que era Camaragibe, um carioca estava aqui há muitos anos não sabe o que quê é Camaragibe! E eu resisti até o mês de julho, quando a gente veio estudar no SESI.

P/1: No SESI?

R: É. Aí Dona Lilia, que eu fui depois da residência me reencontrar com ela, ela diretoria do SESI, era Dona Lilia. O João Lemos o pai dele tinha sido operário da fábrica, a mãe dele trabalhava com negócio de confeitaria, dava aula de confeitaria no SESI, de corte e costura esses grupos que tinham lá no SESI. Aí abre um espaço no SESI pra gente estudar nos finais de semana e à noite.

P/1: Olha!

R: Bom, aí a gente forma esse grupo de estudo e eu vou pra na marra, termino em dando em ser prefeito hoje né? 

P/1: (risos)

R: (risos) Bem que eu resisti... Eu resisti viu, a essa história. Aí vem pra cá e forma João Lemos, eu e Raul e Jader, umas meninas mais Jane, era uns 6 ou 7, e a gente forma esse grupo de estudo. E aí começa um dando aula ao outro. A minha família acha que eu vou levar pau no vestibular, e eu também achava. Eu: porra! Nunca tinha sido reprovado aí vou pra casa de meu tio ele disse: você não pode fazer medicina, não vai fazer medicina porque primeiro é um curso muito caro, você não vai poder ter ele como livre do... segundo é um curso de 6 anos, você precisa trabalhar e você vai ter que trabalhar, todo mundo na tua casa trabalha. Aí eu: tá certo!, faça outro curso. Aí digo: vou fazer reabilitação, fazer fisioterapia. Aí o Armindo chegou: tu vai fazer o quê? Vou fazer reabilitação, tu quer __________ não! Eu quero Medicina, mas eu não posso levar pau, eu tenho que trabalhar. Mas fazer Medicina não sei o quê blá-blá, todo mundo vai fazer... Tu queres, eu digo: tá tudo bem! E João Lemos tinha sido reprovado no vestibular, e era preocupação de todo mundo ele não podia levar pau de novo, mas se ele levar pau de novo meu pai não sei o quê e blá-blá-blá e ele estava no cursinho. Aí os esforços tendem ser um pouco mais pra em cima do João Lemos pra empurrar, ele não podia é levar pau né? Eu podia porque era o filho dele, mas se não podia de jeito nenhum que ia ser traumático. Bom, eu realmente levei pau, fiquei com 614.15 com 6l5.l4, faltava um décimo pra eu entrar. Aí os meninos: “Não! Vai desistir, vai desistir e tu entra.” Faltava uma pessoa só desistisse eu entrava e aquela torcida e desistiu coisa alguma. Eu fiquei o primeiro da lista.

P/1: Não entrou?

R: Não entrei. Fiquei o primeiro da lista. Rapaz, aquilo foi um trauma tão grande, e levou pau eu e outro amigo lá do bairro que queria Engenharia, Valério. Eu levei pau por causa de Química, não de Química não, de Física, que era minha grande calo era um calo miserável. Foram cinquenta questões, eu fiz um esforço britânico, aí eu fui falar... Só tinha 15 questões quando... Feitas e todas 15 certas, quando chegou a hora. Eu digo: porra eu tenho que chutar o resto, eu chutei todinho eu só dei um chute certo, acertei 16 questões, as 15 que eu tinha e mais uma de chute. E Raul tinha tido pra mim: Paulo dá pra gente fila a prova, aí eu falei: ô! Minha grande besteira foi não ter aceitado isso. Era muito fácil filar no vestibular naquele tempo. E disse: eu vou ao banheiro, e Raul... O Raul era muito bom, o Raul passou em nono lugar na Federal. Você deixa o gabarito debaixo do negócio da descarga, tu pega o gabarito e foge, de jeito nenhum! Eu não aceito de jeito nenhum, eu tenho que passar por duas médicas, eu nunca vou me sentir passado no vestibular Raul. Mas rapaz tu... Que eu estava indo muito bem em todas as provas, mas todo mundo sabia que a minha dificuldade ia ser física eu não tinha tido professor de física. Aí não, não vai dar eu entro na funda... Pelo menos na festa eu entro.

P/1: Tá. Deixa eu só te perguntar uma coisa: A gente pode estender um pouco mais?

R: Pode.

P/1: Porque tá muito interessante, senão tu vai estender um pouco mais aí fica uma narrativa bem completa.

R: Pode, pode. Aí eu não aceitei a fila mais uma vez e... Bom, levei pau né? Mas levei pau, João passou Raul passou Jane passou fiquei contente, me deu uma alegria o João passou principalmente o João. O João ter passado, eu porra fiquei feliz vim comemorei, aí disse: bom, eu não passei agora vou fazer uma coisa eu vou, vocês me esquecem e eu vou estudar. Como é que tu vai fazer isso? Eu vou no radialista o negócio lá é uma bolsa de estudo. Como é que tudo vai pagar como? Eu digo: olhe, eu vou falar no rádio leva a minha nota, __________ você não bota o nome dos alunos que passam? Pois o ano que vem você vão ter mais um... Esse apoio desse aqui tá garantido.

P/1: (risos)

R: Aí ninguém acreditou não. Mas eu fui no radialista cheguei lá pro diretor, pedi uma audiência com ele e fui pra ele bem incisivo, levei minha nota e disse: olha, eu passei faltou um décimo, estou em primeiro lugar na lista, ninguém desistiu e eu vou passar esse ano, e eu vou passar na primeira entrada da Federal e eu quero uma bolsa, só que eu não posso pagar nada. Aí o cara: não, mas não tem Roberto Pereira. Eu fui pedir uma bolsa de 100% ao cara, aí ele disse que ia me dá uma bolsa de 60% de abatimento, eu próximo pagaria 40% só que eu não tinha como pagar. Aí eu voltei e digo: Ah! Eu consegui 40% aí a secretária do governo é irmã de minha esposa, estuda na católica... Não já era professora, não sabia o que ela fazia. Aí ela chegou pra mim, eu estava conversando com minha namorada que é irmã dela, ela disse: eu vou lhe dar um presente! Eu nem sabia de nada eu disse: o que quê há? Vou lhe dá uma bolsa pra você passar no vestibular, agora você vai ter que passar!, Aí eu disse: olha não quero não, é orgulho não quero de jeito nenhum. Mas é um presente que eu vou lhe dar. Aí bom, eu precisava, né? “Então eu aceito, só que você não vai precisar o cursinho todo não”. “Não eu pago!”. “Eu posso pagar o curso mesmo”. “Não! Mas eu já negociei , o cursinho só precisa de 40% do valor”. Aí meio constrangido aceitei e fui pra o radialista pagando 40% da bolsa. Nesse cursinho... Só que o cursinho começava em março, eu fiz um esquema com o Valério. Disse: Valério, a gente levou pau - o Valério não sabia Biologia. Biologia eu sabia _______ e eu não sabia Física, ele sabia muito bem Física - você me ensina Física e eu Biologia, só que a gente vai fazer um calendário, a gente dia 3 de fevereiro a gente começa a estudar antes do cursinho e Valério tinha feito cursinho e tinha levado pau, e se eu não caio vai fazer cursinho, eu digo: tudo bem! Eu faço cursinho a tarde, de manhã a gente faz uma agenda de 7 e 15 da manhã até meio dia, a gente estuda direto, a gente não sai pra nada, quando for no mês de junho a gente tem que ter visto todo o programa do vestibular independente do cursinho. Aí fechamos _______ a gente fez um calendário, a gente conseguiu. No mês de junho nós reunimos todos os programas de todas as disciplinas, de 100%. Eu estudava de manhã e de tarde, ia pro cursinho a noite voltava estudava só, final de semana os 2 juntos o dia todo. Aí o _________ estudou mais, muito muito. Quando chegou o mês de julho aí teve uma enchente em Recife miserável. Em 75 foi uma enchente terrível eu estudando com Valério a gente morava em área de enchente. Disse: Valério tão dizendo que vem cheia, tu guarda o livro ________ nós éramos pobre, ________ conseguia o livro com muita dificuldade, mas tínhamos todos, todos os livros. Os livros de Raul vieram pra mim, o livro de João todo mundo deu os livros pra gente, nós temos tudo. O Valério põe o material pôs em cima do guarda-roupa só que a cheia cobre o guarda-roupa, acaba tudo o material da gente, tudo tudo tudo, mas eu chorava e chorava, aí que merda, vixe Maria foi o meu trauma. Mas, a gente já estudou tudo mas eu não tenho... A gente vai revisar... Aí, tá bom! Aquilo foi horrível, como eu chorei aquilo (PAUSA).

P/1: Quer dar uma parada?

R: A gente passa no vestibular, o Valério passa em primeiro lugar em Engenharia.

P/1: Ele queria prestar Engenharia?

R: É, ele fez Engenharia Cartográfica.

P/1: Ah! tá.

R: E passa em primeiro lugar...

P/1: Por isso que ele não sabia Física.

R: É. E eu passo em Medicina na Federal como eu tinha pensado, na primeira entrada e todo mundo, que eu tinha os meninos. Eu tinha que ser durão, eu não levei pau. Fulano passou na primeira entrada que foi Raul e João e Jader passaram na segunda entrada e eu passei na terceira entrada com os amigos, né? Eu não levei pau, tudo bem, tá certo! Aí foi um ano bom o Sport foi campeão...

P/1: (risos)

R: E eu mandei uma carta pros meninos. A gente se comunicava muito pouco, aí os meninos me deixaram estudar né? Eu mandei uma carta, o Sport ganhou um título no dia dos pais, era ________ assinado um jogo histórico com o Náutico, houve um problema na arbitragem o Sport só tinha perdido um jogo pro Náutico. O Náutico naquele ano queria ser campeão, mas o jogo foi muito rendinho e houve um problema lá na arbitragem, houve um pênalti ou não houve, um jogo... Um gol impedido, eu sei que o Sport ganhou o jogo de 2 a 1, era dia dos pais e eu mandei uma carta pros meninos, pra João, Jader e Raul lá na Faculdade dizendo a eles que o Sport era o melhor, que aquele era o meu ano. O João era do Santa Cruz e Raul não tinha time, torcia pra quem tivesse na frente e Jader era do Náutico. Mandei uma carta dizendo que era o ________ da cidade e não sei o que, uma carta grande e até hoje eles lembram dessa carta, todo mundo lembra e no final mandava uma risada ah-ah-ah, ria rubro negro, ria não sei o quê, uma carta grande. Bom, foi um ano que terminou... Teve esse negócio da enchente, então a gente se livrou a gente recuperou o que pode de livro e passamos bem no vestibular. E cheguei à Faculdade na terceira entrada, que era primeira entrada na Federal e eu nesse ano por pirraça eu só botei Medicina Federal porque eu poderia ter não sei quanto opções, o vestibular tinha mudado eu digo: eu não quero nadinha, o meu cartão vai ter uma única coisa Medicina, primeira entrada na Federal, eu nem boto segunda entrada. Bota aí! Eu digo: de jeito nenhum, eu sei que vou passar e não quero mais nada, só quero isso, porque agora eu vou me vingar. A prova de Física eu acertei 36 questões, de 40 eu acertei 36 foi a minha maior nota.

P/1: (risos)

R: Eu disse: Física não podia me derrotar. Porque sou submisso a Física? Eu tenho condições. Então das 40 questões eu acertei 36, eu fiz mil e poucos pontos em Física. Eu não me sai bem em francês porque eu não estudei quase nada, eu achava que sabia porque tinha estudado bem no Seminário e que mais tomei nota foi Francês e Português, mas Química, Biologia, Matemática esses negócios me levaram lá pra cima aí Português e Francês deu uma... Senão eu tinha passado entre os primeiros 10. Se eu tivesse pego Português e Francês e tivesse dado o mesmo tom que eu dei aos outros eu tinha ficado entre os 10 primeiros tranquilos. Mas eu comecei também a esnobar pra mim mesmo sabe, eu me esnobava pra mim mesmo. Pô, eu já passei aí comecei... Nos dias mesmo que tinha o vestibular acontecido, meu pai tinha umas casas no fundo do quintal que tinha sido o sustento da gente e elas tinham caído nessa cheia. Essa cheia foi terrível, ela entrou água na nossa casa, nunca tinha entrado, a casa da gente era um abrigo do bairro, era como uma das casas mais altas ficavam 100, 150 pessoas na casa nas enchentes. Nesse ano tinha 150 pessoas a água entrou, era a última casa não tinha mais pra onde sair, a gente saiu pulando os muros, a correnteza quase levando a gente e derrubou essas duas casas. No dia do vestibular minha mãe adoeceu por conta disso, ela emocionalmente acabou-se. Como é que agora a gente vai sustentar a mamãe daquele povo todinho? Aí, nos dias dos vestibulares eu resolvo trabalhar na construção aqui da casa, enquanto auxiliar de pedreiro lá. Não vai ajudar, não, eu vou ajudar eu já passei no vestibular, não... O pessoal fica preocupado comigo eu lá traçando a massa da casa, servente de pedreiro mesmo. Eu passei os dias do vestibular eu ia fazer a prova e voltava eu não ouvia rádio, não queria ver gabarito, eu digo: eu passei, eu chegava em casa com todos: foi excelente eu passei, ninguém vai ter mais trauma comigo, eu falei: ninguém tem mais isso comigo, ninguém. Verônica minha namorada: como foi? Eu digo: olha, foi ótimo eu estou passado, fique tranquila e eu lá fazendo com a casa. Houve suspeita de fraude no vestibular, com trauma miserável o resultado não saiu logo enquanto eles apuravam a coisa. Eu sei que eu me fiz de duro, de duro, num determinado momento cai num choro que eu não aguentava mais, cadê o resultado, logo no ano que eu passei e querendo lá o vestibular e não sei o quê. Bom, mas finalmente acho que passou uns 15 dias saiu o resultado do vestibular e eu passei, vibrei muito... Eu não vibrei comigo não, eu achava que eu deveria passar no anterior, fiquei sentado ali muito assim: eu tinha sido derrotado uma vez e aquilo era somente... Eu não sei, era uma reação muito estranha a minha assim, era como se eu tinha passado, mas não era... Eu não vibrava, era uma vingança, eu tinha me vingado do vestibular, eu falei: você é uma bosta, eu passei nesse, isso não vale merda nenhuma, aquela coisa assim sem sentimento nenhum. O que me animava era um amigo meu, muito... Que eu tenho um amigo de infância e que ele tinha levado um tiro aos 16 anos. Ele era um excelente jogador de futebol e levou um tiro brincando com outro amigo e ficou paraplégico, ele abandonou os estudos. Era um cara que todo achava que ele ia jogar nos times de futebol, ele iria... Ele era um cara muito inteligente e ele tinha abandonado os estudos e então chegando nesse ano do vestibular eu disse: Bico... Eu conversava muito com ele, eu disse: porque que tu não estuda pra vestibular comigo, porque você não faz um supletivo. Falou como é? A noite eu estou livre, eu posso te dá as aulas de supletivo e a gente vai estudando. A gente conversava muita porcaria lá no muro, em vez de tá aqui conversando besteira vamos estudar! Ele disse: tá vamos! E daí ele fez um supletivo, no primeiro semestre e estudando passou em todas as disciplinas, que podia ele tinha 21 anos ele podia o de segundo grau, aí ele passou em todinho. Eu disse: agora vamos estudar pra o vestibular? Que isso rapaz? Tu é doido! Não tá vendo que eu não passo. Eu digo: não, mas não custa nada e você estuda junto, agora eu vou Te dar nota... Eu aproveito que eu estudo durante o dia, a noite eu estou livre de Valério. Aí a noite eu te falo de Química de Física ou não sei o quê e pa-ra-rá, e a gente vai... Pensar em vestibular é besteira. Tu leva pau no outro ano tu passa. Aí o (Bico?) disse: Tá o que quê eu vou fazer no vestibular? Ah! vamos pensar não sei o quê, ele queria fazer Agronomia. Eu disse não quero fazer Agronomia. Vamos fazer Medicina comigo rapaz! Ele: como é que eu vou sair daqui pra Faculdade de Medicina eu não sei... Ele de muleta e não sei o quê e pobre lascado lá. Como é que eu vou pra Faculdade? Mas rapaz a gente faz junto! Vamos pra frente, vamos ver o que quê dá. E estou em casa o primeiro resultado que saiu foi de Agronomia, ele passou. Me passou em Agronomia. Pô, ele fez o Supletivo, fez o Segundo Semestre e passou no vestibular, aí sim me deu muita alegria sabe, me deu uma alegria muito grande. É como se fosse eu no outro ano sabe, e ele também era... Porra! Ele tinha conseguido sabe, era pra gente uma vitória. Eu cheguei lá ele estava no muro nem esperava lá com as muletas namorando lá, o Bico é muito namorador, ele casou-se depois com a minha cunhada, outra cunhada minha. Aí eu cheguei lá vibrando ele disse que nunca esqueceu o grito que eu dei na outra esquina da rua: Bico porra, tu passasse e vim vibrando e quando cheguei lá: que conversa é essa porra? Passou rapaz! Eu vi seu _______ Rapaz eu não posso ter passado. Eu digo: passou rapaz, em Agronomia na primeira entrada na Rural e aquele apoio todinho e eu não sei... Eu passei, eu tenho certeza que eu passei... Olha ninguém... Eu estou passado, agora eu não vou vibrar com esse negócio.

P/1: (risos).

R: Aí voltei pra casa lá, fiquei vendo televisão esperando o resultado. A família todo mundo reunido, todo mundo tinha um medo muito grande assim, que eu não tivesse  passado, eu disse: ó passar aí, mas eu passei, e quando saiu meu nome pronto, explodiram lá.

P/1: Saia na televisão?

R: Era na televisão. Naquele tempo era assim: todos os canais de televisão ficavam passando os resultados do vestibular, era um fato assim que tomava conta de todo mundo. E o cara lendo aqueles nomes todinhos. Pronto, eu passei aí chamou o _______ foi pra lá, ficaram comemorando até outro dia e eu fui ________ aí minha mãe adoeceu nesse primeiro ano de Medicina, começou aquele problema todinho e quando toco a faculdade.

P/1: Certo. Na Faculdade de Medicina, tinha alguma especialidade que te atraia mais?

R: Não, todo o semestre eu queria fazer uma coisa diferente.

P/1: (risos).

R: Tinha assim, por exemplo, quando eu paguei... Uma que me atraiu muito foi Nutrição. No terceiro ano de Medicina eu fui fazer uma cadeira de Nutrição optativa, fiz a Patologia da Nutrição não era obrigatório, mas eu quis fazer. Aí lá trabalhando com ratinho com Doutora Nair, com aquele negócio de desnutrição e eu fiquei muito tentando, eu disse: será que eu dei __________ certo, acho que eu deveria ter feito nutrição. Mas era terceiro ano de Medicina, desisti ali... Foi assim o mesmo assim que mais eu me aproximei de alguma coisa. O resto eu quis fazer clínica médica, eu quis fazer Endocrinologia em Clínica Médica. Ia fazer Endocrinologia na Clínica Médica era uma coisa que me chamava muito a atenção.

P/2: Mas você tem mestrado em nutrição.

R: É, depois eu vou fazer mestrado em nutrição. Eu sempre caía pra área de Nutrição porque Endocrinologia pegava muita parte de nutrição. Eu trabalhei em Hospital chamado Hospitais de BR, quinto e sexto ano como plantonista, estudando plantonista. Aí eu fazia pediatria, clinica médica, fazia cesárea, parto o diabo a quatro, mas é uma medicina ________. Eu tive uma formação muito ____________ mesmo. Então não tinha, quando paguei em Hematologia eu gostava de  Hematologia, quando paguei Reumatologia adorava de Reumatologia, Cardiologia eu era louco por Cardiologia e assim eu fui. Então eu... Quando eu terminava cada disciplina daquela, aí e agora? Estou doido por Hematologia, estou doido por Reumatologia, eu estou é doido nada! Que é quê tu vai fazer? É assim mesmo, eu gosto de tudo aqui eu gosto de tudo, todas as coisas da Medicina quando passavam eu gostava, eu adorava Medicina, eu gostava. Nada como o negócio ali de pegar o paciente, ler e estudar de descobrir o que o paciente tinha, de interagir com ele eu adorava sabe. Então tudo que vinha quando o professor apresentava bem a disciplina que eu tinha um contato eu gostava. Aí então finalmente, vou fazer clínica médica porque pega tudo. E aí fui fazer a... Fiz o meu sexto ano dentro do Agamenon Magalhães ali na Casa Amarela, fui Pediatria Obstetrícia fui ao Mário Lucena lá de Caxangá, mas eu quis fazer clínica médica. Não deu pra fazer clínica médica, eu terminei minha formação __________ mas eu tinha que trabalhar, eu já tinha um filho, eu me casei cedo, eu me casei no final do quinto ano. Quando minha mãe morre ficamos três irmãos em casa, os outros estavam casados. Meu pai não aguenta ficar em casa vai morar de novo no interior e nós três ficamos, eu e mais dois. Nós é que nos mantínhamos de tudo, meu pai ganhava o salário mínimo de aposentado e só dava pra ele, e nós temos que nos virar, então eu dava plantão, minha irmã trabalhava, cada um fazia alguma coisa e nós nos auto mantínhamos. Minha namorada também trabalhava, de modo que casar ou não casar nós não tínhamos expectativa de sermos ricos mesmo, casar era só juntar o que tínhamos, sabe. E até às vezes podia até dividir melhor a situação,  eu casei no quinto ano, no final do quinto ano. No sexto ano, em março do sexto ano eu fui pai, um ano e pouco depois eu fui pai, a gente não queria. Eu terminei aí o curso. Eu tinha sido pai e minha cunhada acidentou-se e estava casada com 16 anos e como ela tinha passado muito tempo sem ter neném apesar de ser muito nova, a gente ficou pensando que estava perdendo tempo. Podia acontecer alguma coisa na vida da gente, a gente estava adiando alguma coisa e resolvemos logo ter o nosso primeiro filho. Aí eu tinha que trabalhar mesmo, alguma coisa mais concreta.

P/1: Hum, hum.

R: E o que surge é uma Usina.

P/1: Usina?

R: É. Antes de eu pra __________ eu fui trabalhar numa usina. A Usina Trapiche lá na Mata Sul, Pernambuco. Aí logo _________lista, oito horas de serviço, morar lá a família fica aqui eu vou morar lá nessa usina, venho pra cá só aos finais de semana e lá eu encontro uma das Assistentes Sociais muito boas também, que é a Irene Travassos e Cacá. Bom, a gente se faz um grupo ali que vai trabalhar com trabalhador da cana. Ela era Assistente Social e a gente começa a fazer alguns trabalhados de grupo. Toda quarta-feira meu ambulatório não existia. O ambulatório ia pra o engenho, fazer palestra de educação, educação e saúde. Aí tem um problema político na cidade. O PFL naquele tempo era, eu acho que era...

P/2: PDS.

R: PDS, é no 83. Perde a eleição que nunca tinha perdido, lá ganha o PMDB o PMDB perde no Estado, todo mundo esperava que o PMDB ganhasse com Marcos Freire, mas perde no Estado, ganha Roberto Magalhães, mas o PMDB ganha nos centros assim, mais próximos da Capital. E _________ ganha lá também, e a Usina acusa a gente de ter feito um trabalho nos engenhos, porque o voto dentro do engenho é muito forte contra a Usina e acusa a gente desse trabalho de educação e saúde. O pessoal dos engenhos identificava a gente como de esquerda. Tudo isso. Eu nem votei no PMDB, eu votei no PT, votei na Conceição. Só que eu não revelava o meu voto a ninguém, havia um acordo meu com a Usina de eles não me meterem em política partidária, nem eles se meterem na minha vida e eu não iria fazer esse tipo de coisa. Mas na palestra de educação e saúde a gente falava da educação e da saúde só que isso é uma coisa política. E o canavieiro identificava a gente como aliado do Sindicato e não sei o quê, mas nós não falávamos nisso em nenhum partido, até nem votei no PMDB. Aí a gente ganha... O pessoal ganha lá e a Usina acha que nós somos os responsáveis, aí bota a Assistente Social prá fora né? Bota a Assistente Social prá fora e eu fico. Aí eu digo: porque não me botaram prá fora, fiquei angustiado ali. Eu com medo, muito medo. Havia um boato na cidade que eu tinha feito tanta coisa que eu tinha ganhado meu segundo filho agora - nesse momento eu já tava com segundo filho - que eu tinha ido com a mulher e o filho a pé, 6 quilômetros na procissão de São Sebastião, comemorar a vitória do cara da...(risos). Era os boatos que corria na cidade né, aí eu pedi demissão e vim embora. Aí vim fazer o concurso de residência, fui-me embora pra Vitória e vou depois pra Casa Amarela.

P/1: E que era esse projeto Casa Amarela que você tá falando, começou a falar?

R: O projeto da Casa Amarela, era um projeto financiado por 3 entidades internacionais.

P/2: Era um bairro bem populoso de Recife, mais populoso de Recife.

R: É, em torno de 350, 400 mil habitantes. Esse projeto tinha sido iniciado por Severino (Cariconde?) em 79 em bairro de... Da Guabiraba, em Casa Amarela, Alto José Bonifácio, Alto Santa Isabel, alguns altos de Casa Amarela. E ele tem um conflito com a equipe local e precisa viajar pra Inglaterra pra se aprofundar em plantas medicinais, aproveita o momento do conflito e vai se aprofundar em plantas medicinais em Londres e precisa de alguém. Então esse alguém indicado o Severino, a equipe registra um assunto... É um projeto financiado pela Oxford  naquele momento, pelo desenvolvimento de paz do Canadá e Cristian (Neid?) da Inglaterra, eram 3 entidades.

P/1: Todas estrangeiras?

R: Todas estrangeiras.

P/1: Por quê?

R: Olha...

P/1: Você tem ideia?

R: A gente teve durante muitos anos aqui no Brasil, várias entidades internacionais apoiando esse tipo de projetos. Ainda tem, essas ONG’S. Bom, havia uma... A nossa decisão era de trabalhar educação e saúde, a educação e saúde na questão de cidadania a questão de fazer com que o recurso público chegasse aos bairros pobres, essa a grande coisa. Só que a gente trabalhava com elementos que juntasse à comunidade de educação e saúde: plantas medicinais, prevenção de câncer, e a questão da discussão do saneamento básico no bairro de Casa Amarela. Bom, aí o Bairro de Casa Amarela é um bairro cheio de problemas de moradias. É um bairro de morros, em que tem muito deslizamento, tem muitas mortes. Então esse projeto trabalhava junto com as associações de moradores e a gente funda a Federação de... Junto a gente ajuda a formar a Feaca, que é a Federação das Associações de Casa Amarela. E essa Feaca a grande luta dela é por infraestrutura no bairro, escola, saúde e a questão da barreira. ________ barreira, tem a chamada comissão de barreira de Casa Amarela que se reúne a partir de 82 que é uma coisa fantástica. Ela reúne...

P/1: Que é isso? Que quê é essa comissão?

R: É luta por...

P/2: ________________

P/1: Ah! Tá.

R: É, então a população se reúne assim insistentemente pra exigir que os recursos prioritariamente dos municípios de Recife seja para a questão do morro. É o maior movimento que Casa Amarela reúne ali, e a gente da saúde era o suporte por quê? A gente fazia reunião de plantas medicinais e nas plantas medicinais a gente discutia: olha, a planta serve, serve, serve serve, mas faz-se necessárias ações que melhore a qualidade de vida. E a barreira? E sua pressão tá alta por quê? É, porque a mulher morava perto da barreira, é porque não tinha escola é porque não sei o quê. Então bom, a Senhora vai tomar o chá, mas tem que vim pra reunião, deve vim aqui porque aqui a senhora vem desabafar, além de trabalhar isso aqui. Aí tinha a Janete que trabalhava a questão da mulher, ela trabalhava a questão do corpo da mulher ta-ra-rá, e aí também chamava as mulheres a discutirem a sua inserção social, com essa questão. Então a Janete puxava a prevenção de câncer, nós fazíamos prevenção de câncer do períneo, a mortalidade de câncer em Recife era altíssima. Nós éramos campeões mundiais de câncer de cólon, a região metropolitana, então a gente trabalhava com a prevenção de câncer, nós fazíamos. E mandávamos isso pra rede privada... Pública! Com o exame feito. A gente fazia esse tipo de assistência. Eu fazia consultas e as consultas médicas terminavam prioritariamente em plantas medicinais e formavam agentes de saúde. Só que os agentes de saúde nosso eram todos voluntários. Os agentes voluntários de saúde nosso discutia saneamento básico, habitação, escola, saúde, posto de saúde. Aí eles tinham uma formação de iniciação dentro dessas lutas certo, e tinham uma formação técnica. Eles tinham que se especializar ou em plantas medicinais ou em vacinação ou em prevenção de câncer, ele tinha que ter alguma coisa de prestação de serviço em saúde certo. E o resto da sua inserção era na luta por condições de saúde. Então isso aqui, aí pronto... É onde eu adorava, as aulas e os cursos ali e a gente supervisionava. Eu comecei a criar o agente de saúde, foi um rolo desgraçado com a Sociedade de Medicina porque o Agente de Saúde eu comecei a fazer a pré.... O Agente de Saúde acompanhando a consulta do médico.

P/1: Dentro do posto de Saúde?

R: Dentro do posto né?

P/1: Isso tudo em Casa Amarela?

R: Em Casa Amarela. Eram 10 bairros. Eu pegava do Alto da Telha, Alto do Carroceiro, lugares perigosos nunca tive problema não, agora era realmente um lugar... Eu subia com vídeo, com televisão aquelas ladeiras ali nunca ninguém... muito pelo contrário, as vezes o cara que chegava com vídeo, a televisão que levava era um assaltante, mas ele levava lá pro Alto da Telha, eu saía do...

P/2: Muito diferente de assaltante aquele negócio do Brasil não, mas existia o problema _______?

R: Não, não. A gente tinha agente de saúde só em Pernambuco. Só em Pernambuco...

P/1: Foi um dos primeiros lugares!

R: Chegou o pessoal. Estou, estou. Esses agentes de saúde eles não existiam no país, existiam em Casa Amarela, aí começou a aparecer da Igreja lá em Afogados da Ingazeira na Diocese, na Diocese de Ganharúns, na Diocese de Petrolina no sertão de Pernambuco, em alguns municípios do Ceará. Isso em 82, 83 e aí começa a surgir os movimentos de agente de saúde em várias situações, de Pernambuco e do Ceará. E a gente fica trocando informações, a gente então organiza o Movimento Popular de Saúde em Pernambuco, o MOPS e a gente faz eu acho que nesses cinco anos de Casa Amarela e a gente consegue formar 800 agentes de saúde.

P/1: 800?

R: É, mais ou menos isso. Que o projeto financiava, a gente formou agente de saúde todinho. Eles se inseriam na rede social da Casa Amarela.

P/1: E esses 800 agentes de saúde ele era responsável por qual ação?

R: Não. Bom, ali no seu bairro ele não tinha o mesmo sistema de hoje. Ele trabalhava ali no bairro, no posto de saúde que agente era comunitário, geralmente dentro da associação de moradores e sua atividade ele não tinha famílias que... aquela gente...

P/1: De visitar.

R: Não, eles visitam assim: fazia curativos, mas não era... Ele não tinha, por exemplo, 50 famílias dele, 100 famílias dele, não. Ele tinha ações no bairro, porque a ação era muito pulverizada na questão de orientação de educação em saúde, em formação de cidadania mesmo. De politizar a população em busca, de fazer com que o poder público respondesse as demandas. Então ele, por exemplo, fazia uma reunião de grupo de hipertensos, grupos pra discutir verminose, grupo de plantas medicinais, era tudo... Ele tinha atividade de grupo certo. Então essas atividades de grupo eram dentro dos córregos e o morro. Por exemplo, na rua tal lá na Rua Adelino, um agente de saúde ia fazer uma reunião lá de plantas medicinais ou então ia passar um filme sobre prevenção de câncer _____________ uterino, sobre amamentação, sobre isso. Quando terminava aquela reunião, o agente de saúde passava os informes: olha, vai ter reunião de Barreiras, vai ter reunião na Luta do Posto, vai ter reunião na Luta da Escola, vai ter reunião disso, vai ter reunião... Ele levava as informações gerais da comunidade. Agora a gente precisa por quê? O problema tal, a dona fulana não sei o quê, a Barreira de dona Fulana não sei o quê, a violência. Então ele levava esse tipo de situação, a gente não tinha famílias nossas sabe, era o bairro todo. Então se trabalhava o bairro todo e fazia-se curativo e dava-se injeção e não sei o quê, esse tipo de coisa.

P/1: E Paulo, além dos cânceres de colo de útero, que você falou que era alto o índice, quais eram os outros problemas de saúde?

R: Uma situação critica. Verminose altíssima, desnutrição, a gente tinha muito caso de tuberculose, hanseníase, em Casa Amarela muita gente com hanseníase, hipertensão e era um problema seríssimo ____________. Aí você tinha uma baixa imunização com vacinas, muito baixa isso na população. Era muito baixa a cobertura de pré-natal, a amamentação insignificante (pausa). Acho que na outra situação... Então eram essas aí. A gente tinha situações mesmo de hipertensão, verminose lá e tinha situações de amamentação e diarreias. Diarreia com desidratação era muito alta, muito alta. Muitas crianças internadas naqueles tempos pra tomar só soro nos Hospitais. A gente trabalhava com soro caseiro. Bom, então essas ações o pessoal levava informação assim direto pra população, nossas reuniões de saúde eram muito bonitas eram muita gente que ia sabe, receber aquela informação, muita gente muita gente mesmo.

P/1: Que tipo de pessoas que iam? Eram donas de casa, jovens, como é que era?

R: Grande maioria dona-de-casa, mulheres. Maciçamente eram as mulheres que acompanhavam o programa, maciçamente. Inclusive os agentes de saúde em grande parte, eram mulheres, era difícil o agente de saúde homem, muito difícil. E geralmente eles não tinham também muito bom desempenho na ativa.

P/2: ____________né? __________ de Camaragibe ___________

R: Só os endemias é que são homens.

P/1: E como que eram escolhidos esses agentes voluntários?

R: Tinha os critérios. O agente de saúde ele era escolhido no seu bairro a partir de sua inserção nas lutas sociais. Ele tinha que vim de uma... Ele trabalha na comissão de barreiras então ele pode vir, ele trabalha na comissão da luta do posto, ele trabalha na comissão tal, ele tinha que ter uma inserção. Então a comunidade ali dizia: fulano da... Eu acho que vai um bom agente de saúde, porque afinal de contas eu tenho tanta vontade de trabalhar esse negócio de saúde, de ver pressão de não sei o quê, de trabalhar isso, e ele estava lá, eu disse: tudo bem! Agora você não pode deixar as lutas de barreira porque aqui você vai ter somente um instrumento pra fazer. Tinham dois grupos, um grupo que trabalhava a saúde e um grupo que chamava rede que era outro grupo, que nós não trabalhávamos. Mas assim: eram dois grupos que trabalhavam em Casa Amarela, a rede de Educação uma rede muito boa de alfabetização de adultos a noite, eram dois grupos que trabalhavam dentro da Feaca com saúde, outro educação. O de educação também escolhia-se professores com método do Paulo Freire e aí era bonito demais, muito bonito você ver os líderes comunitários que eram professor leigos. Leigos assim: eles tinham formação, eles sabiam ler e escrever, mas não eram professores, geralmente não tinha formação de professor.

P/1: Não tinha formação de escolas.

R: É, e ali a rede todinha os formava em alfabetização no método do Paulo Freire, em termos dentro da rede à noite. Muitas vezes nós da área de saúde íamos à sala de aula discutir um problema de saúde com pessoal de educação. E nas reuniões de Barreira estava o pessoal da rede e o pessoal do projeto de saúde de Casa Amarela. Obviamente os dois grupos se competiam quem fazia o melhor trabalho. Mas se davam muito bem, se davam muito bem assim: que a gente tinha um objetivo maior era trabalhar as 400.000 pessoas daquele bairro, então tinha que se muita... Então tinha um grupo de Barreiras, o grupo, aliás, de... A rede e o grupo de saúde. Aí tínhamos o grupo de Barreiras que era o maior que tinha na cidade, naquele meio de mundo ali, que reunia... Aonde tinha reunião de barreira nós íamos, porque era um problema muito evidente e era um risco de vida. Trabalhavam os líderes comunitários que nem estavam na saúde nem na educação, trabalhavam nesse outro viés, de tá lá com saneamento e tá... Então Casa Amarela era um envolvimento político fantástico, fantástico. Os cinco anos ali foram uma escola, foi minha segunda universidade.

P/1: De que ano que era essa escola, do projeto Casa Amarela?

R: De 83 a 88, aí eu saio, faço concurso público, canso, desgasto cinco anos, cansei de tá dentro do projeto né? Começa a ter conflitos, é preciso renovar a equipe há a necessidade de renovar, vim outras pessoas. Sai um, começa a sair outro então começa a entrar novos atores. Os agentes de saúde queriam os três agentes de saúde que eles tinham colocado na coordenação e tem até um aí que entrou depois, tá aí pra falar comigo agora, e aí a gente fica... Bom, eu comecei a ficar meio também desgostoso, porque o pessoal queria apenas... A gente ganhava muito pouco, nosso salário era baixíssimo eu ganhava seis salários mínimos, eram 24 horas de serviço. Então aí... É salário mínimo antigo, e é por isso que valia eu acho que 50 dólares. Nosso salário era baixíssimo. Mas vamos falar do agente de saúde que estava com a gente no grupo parece-me que eram três salários mínimos e era bastante razoável pra miséria. Por isso muitos agentes de saúde queriam entrar na coordenação do projeto, porque também tem uma inserção de luta grande e queriam aqueles três salários. Aí entra, aí começa a ver a... Aí eu digo: “Olha, eu cansei eu acho que tem que vir outro grupo, eu vou pra outra coisa. Aí eu vou, faço concurso público. Havia um questionamento muito grande que a gente ali não tinha pra onde ir e não sei o que, que a gente... Como se... Como nós nos envolvemos 5 anos ali, então a gente não estudava mais a coisa. Aí digo: bom, eu não vou ficar nessa coisa aqui, ficar dependendo de projeto de não sei o que e ba-ba-bá, o resto da minha vida. Também não é por aí. Aí faço o concurso de Olinda, pra médico de lá sanitarista e passei, passei bem. Passei em primeiro lugar no concurso de Olinda, dei uma estudadinha e passei em Olinda e no mesmo tempo eu passo no mestrado de Nutrição.

P/1: Em nutrição!

R: Nutrição em Saúde Pública. Aí eu passei no mestrado. Durante o tempo que eu estava no projeto, eu fiz um curso de Sanitarista Unesp, e a Fiocruz.

P/1: Ah! Tá.

R: Deu um curso de Sanitarista acho que em 87, seis meses de curso.

P/1: Na Fiocruz?

R: É. Fiocruz...

P/1: Você ia pro Rio?

R: Não, foi aqui em Recife.

P/1: Foi aqui?

R: É, foi descentralizada. Eles fizeram em algumas capitais, a gente teve. Aí então eu peguei... Eu acho que foi a segunda turma da Fiocruz de Pernambuco. Aí peguei seis meses de curso aí dei uma retomada muito grande em políticas sociais, no conteúdo político que estava sendo colocado pelas academias que eu estava afastado dele, isso me deu uma reestruturada, aí quando eu fiz os dois concursos eu tinha uma base pra passar, aí eu passei, como Sanitarista como pra o Mestrado. Eu pego as duas áreas e vou pra Olinda. Aí Olinda é um desastre, Olinda é um desastre. A rede estava muito bem organizada, o pessoal tinha pego um governo que tinha dado uma força muito grande na saúde, mas era muito burocrática. Eu vinha do movimento popular, nós tínhamos ido ao... Eu estava com o pessoal da saúde com o ônibus pra Brasília aqui e enfrentando Brasília com Sarney, conseguimos vagas com o delegado, tinha enriquecido muito o movimento popular. O movimento popular estava muito forte em Pernambuco, o MOPS muito forte, o movimento estava muito estruturado depois de 86, eu estava em todo... Foi quando eu cheguei a Olinda, ali lá vai eu supervisionar a rede, ir pro posto de saúde e não sei o quê. Eu pego cinco postos de saúde pra supervisionar e eu não gosto, eu gostava de tá dentro do posto. Aí quando eu chegava ao posto estava lá o dentista que não queria nada, o médico também aquela coisa assim sabe, e eu não tinha, eu não sei Olinda não me atraia, não era o meu cenário. Ficar ali em Olinda pa-ra-rá, aí vem a campanha política daqui de Camaragibe, em 88. Aí chega João Lemos lá em casa, conversamos e não sei o quê. Rapaz! Me chamaram pra sair de candidato, aí eu disse: que foi meu filho, que quê tu acha? Eu digo: tu tem vontade de trabalhar nesse negócio, eu vim conversar contigo que tu que vive metido em política. Aí eu digo: olha, eu acho uma boa, mas é pra trabalhar mesmo. Aí ele: não, quero saber se você me ajuda, eu digo: eu lhe ajudo, aí a gente senta. Qual é o partido, ele: PTB, o partido de Getúlio Vargas. Isso tá parecendo desgraça.

P/1: (risos)

R: Aí ele: mas é do Getúlio Vargas que trabalhou pelos trabalhadores não sei o quê. Eu disse: não é bem isso, que eu era do PT e João achava que tinha muito a ver. Então ele trabalhou muito com a gente na escola, foi muito amigo de farras de brincadeiras e tudo o mais, na questão política ele não entrou. No movimento estudantil ele não foi, então ele não percebeu trabalhado nesse sentido e era médico, era um médico muito bom em Camaragibe que trabalhava nos hospitais e o pessoal queria ele pra serviço de uma chapa, pelo PTB. Aí eu, porra! Que isso aí eu fui saber que quem era que estava por trás, aí era o cara do PTB, ele vinha do PMDB que tinha perdido o espaço pro PMDB pra o Lapena, e tinha uma história de resistência ele vinha no MDB de luta né? Então ele tava no PTB por falta de espaço, disse: é, a história é essa então tudo bem vamos tocar. Aí vim pra Lilia (Colie?) e perguntei: Lilia e aí? A Lilia trabalhava aqui no SESI. A Lilia disse: não rapaz! Arnaldo Guerra é o melhor nome, vai ser difícil ganhar, mas com o João é possível, e eu acho que você deve dá uma força. Aí tá bom, mas a orientação que eu devia dar uma força aí me sentei com o João Raul, disse: de jeito nenhum quero votar nele aí, não vá não sei o quê e ba-ba-bá, eu acho que você deve ir. Aí bom João tu define só o que quê é que tu vai fazer ou acha que não, ou acha que sim, mas João estava com muita vontade, aí ele embarcou. Lá vem eu ajudar na campanha do PT, trabalhando numa campanha do PTB. Bom, aí eu venho trabalhar eu e o João Lemos, a minha experiência que ele queria que eu viesse trabalhar com vídeo e televisão com a comunidade, trabalho educativo, pra ganhando o governo, a gente continuar esse trabalho educativo, já detinha essa experiência em Casa Amarela. Aí eu vou, tá bom. Eu venho pra cá e começo a trabalhar nos morros daqui com vídeo e televisão, plantas medicinais tã-tã-tã, prevenção de câncer aí eu trago fita, e aí a gente começa. Só que eu não vou pra os palanques, no palanque do PTB  eu não subo nem a pau, agora fazer o trabalho de politização de conscientização, retomar que foi... Até que tinha sido uma sacanagem do pessoal que era o pessoal da ARENA que estava no MDB, não tinha nada a ver, o pessoal do MDB estava no PTB, e aqui não tinha um PT sólido, a gente vem e começa a trabalhar nos bairros ele ganha a eleição a vice-prefeito. Aí, pronto se juntou Raul, Lilia e disseram: você botou João na fria agora você vai ter que ir pra dentro de Camaragibe. Eu não podia vir, porque o meu salário aqui era menor, o meu salário em Olinda era R$ 280,00 aqui era R$ 210,00 como secretário, eu digo: eu não posso. Aí tem que ir e não sei o quê, pela causa. Eu sei que pela causa eu me ferrei e vim, eu perdia R$ 70 ou R$ 60 por mês de salário e vim pra cá. Logo em janeiro assumi a Secretaria de Saúde, aí vim tentar trazer o que a gente tinha combinado com o Arnaldo Guerra, o ____________ era por ________ governa, eu vinha banhado da oitava conferência nacional de saúde, da participação popular de formação dos conselhos e pronto. E trabalhar educação e saúde, aí que... Primeiro o governo não aceitava que implantasse o programa de agente de saúde, ele não existia, 89 não existia ainda oficialmente. O Ceará começa no ano seguinte, nesse ano ou no ano seguinte, aí o governo local não aceitou que eu implantasse a experiência piloto e não sei o quê ba-ba-bá, ele não acredita nisso. Foi eu fazer o conselho municipal de saúde, a primeira conferência municipal de saúde o governo, o prefeito vai e vibra aí chegam pra ele dizem assim: “Paulo tá tirando o poder de você”, porque quando trabalha é tirando o poder do Prefeito e botando no Conselho, realmente tinha sentido o Conselho ia ser deliberativo, mas não era tirando o poder nesse sentido e era deslocando a questão do poder da questão do debate e da constituição mais democrática. Mas estava muito longe de chegar ao povo tá com um poder nas mãos, mas eles já tinham medo do fantasma do povo (risos) e esse primeiro ano de governo da gente é conflituoso. A gente tenta criar a Secretaria de Ação Comunitária, olhe: aí foi... Aí chamou a mulher do Prefeito, Lilia (Polie?), que era muito amiga deles, chamamos Celina Leite assistente Social, um grupo da Universidade Lúcia Pontes, um grupo de Assistentes Sociais e a gente vem pra cá construir uma Secretária de Ação Comunitária em quem o vice prefeito iria ficar na Secretaria de Ação Comunitária e eu na Secretaria de Saúde. Quando o projeto tá todo pronto aí o governo rompe com o vice, não aceita fazer a Secretaria de Ação Comunitária, ele já tinha tido uma briga com a gente em fevereiro porque ele não aceitou equipar o salário ao salário mínimo, que era uma promessa de campanha e nós... Eu e o vice-prefeito fomos à câmara dizer que o governo ia pagar um salário mínimo, quando nós chegamos aqui o Prefeito disse: olha podem ir à câmara hoje à noite, digam que vamos pagar o salário mínimo a partir de março. Quando a gente chega no outro dia ele disse: eu não vou pagar, porque minha mulher e meus filhos disseram que não tinha que pagar e aí foi um rolo danado. Aí a gente falou: paga ou então a gente sai agora, começou a pagar em março. Tivemos esse rolo do salário mínimo, o rolo com a conferência municipal de saúde, com o conselho municipal e com a secretária de ação comunitária. Aí chegou em janeiro eu entreguei, eu digo: entreguei, não dava mais, não havia espaço político pra gente fazer, mas ainda assim implantou a prevenção de câncer na cidade que não tinha, implantamos o sistema de vacina em toda a cidade, nós só tínhamos quatro postos de saúde os postos de saúde só fechavam até... Uma hora da tarde fechava, a gente abriu o segundo turno com o rebu que a prefeitura, todo mundo só trabalhava até uma e meia, escola, posto de saúde, tudo. Aí a saúde começou a trabalhar dois expedientes, foi um rebu porque eu queria fazer diferente. Ah! Porque o posto fecha de uma e meia, o posto tem que ser aberto à tarde, vou dividir o pessoal, uma parte trabalhar de manhã, outra a tarde. Eu não diminui o recurso humano, eu só fui trabalhando o que tinha. Pedi um concurso. Bom, aí fizemos isso implantamos essas questões e deixamos a expectativa de mudar o modelo com o agente de saúde. Fomos embora, tchau! Eu tinha me inserido no pós ____ no Conselho do Secretaria Municipal de Saúde do Estado, tinha sido eleito secretário geral e o Estado tinha me dado um apoio muito grande, é o segundo governo Arraes. Então por exemplo, medicamentos o governo municipal não me dava aí o governo do Estado me dava, vinha um caminhão de remédio aí eu chegava pra frente ___________ estou ganhando um caminhão de remédio. De quem é isso? Do Estado! Aí eu consegui fazer, eu queria que o senhor fizesse o convênio pra prevenção de câncer. Mas eu vou gastar quanto? Nada, é o Estado que vai fazer, e assim foi tã-tã-tã, o que eu fui colocando, eu trouxe muita coisa de fora. Bom, deixamos aí e fomos embora. O Conselho ficou vivo, não foi empossado, mas ficou vivo aí o Conselho se bateu _______ Nesse momento eu faço o concurso pra professor da Paraíba, eu estou terminando o meu mestrado e passo.

P/1: De Medicina?

R: É Não eu faço na área de nutrição.

P/1: De nutrição então?

R: Materno infantil. Aí passei no concurso e em 91 eu saio de Camaragibe. Cheguei em 89 até 91 eu fico, vou embora em João Pessoa e vou trabalhar lá e transfiro a minha tese de mestrado pra João Pessoa, porque era aqui eu ia fazer o baixo peso ao nascer na cidade de Camaragibe, por 10 anos. Eu ia fazer um estudo histórico sobre 10 anos de baixo peso. Aí eu perco isso, eu transfiro pra João Pessoa e faço o baixo peso nascer na cidade de João Pessoa.

P/1: E quanto tempo você fica em João Pessoa?

R: Dois anos.

P/1: Dois anos.

R: Dois anos, termino o meu mestrado. Aprendi minha tese aqui, defendi a minha tese e entro no ano da eleição de novo pra Prefeito, aí eu venho pra cá estudar a eleição. Fico na assessoria do João Lemos ajudando ele a pensar a campanha, a não ser que tenha um grupo mais dentro e fico mais fora, fico mais...

P/1: O João Lemos que entra como candidato a prefeito?

R: É, ele era o vice candidato a prefeito. O prefeito resolve se omitir não apresenta nenhum candidato e em determinado momento o governo resolve apoiar João Lemos que era a única saída moral que eles tinham. Não dá pra apoiar a oposição os Lapena voltam forte, ou eles apoiam João Lemos ou apoiam o Lapena. O Lapena a gente tinha derrubado em 89 e eles voltaram a apoiar. Então há um apoio, mas um apoio não explicito, a sociedade fica meio temerosa dessa questão, porque ninguém sabia se apoiava ou não apoiava, queriam rejeitar o governo que estava certo e só apoiavam João Lemos se ele não tivesse esse apoio, João Lemos só podia ser prefeito se tivesse esse apoio, e essa confusão danada isso atrapalha um bocado, mas ele é eleito prefeito. Aí ele prefeito e eu sou chamado pra deixar a Universidade e vir a ser assessor. Eu assumi a assessoria, montei a Secretaria de Saúde, chamei as pessoas... Peguei o pessoal do núcleo da saúde pública, chamei algumas pessoas tanto até montei, fiquei só na... O João queria que eu fosse o seu Secretario de Saúde, eu não queria ser porque eu achava que se eu entrasse como Secretaria de Saúde eu ia ter esse caminho que eu tive hoje, eu desconfiava dele. Não eu, eu prefiro ficar na assessoria e na Universidade dando as minhas aulas. Bom, aí não é possível a Secretaria exige que eu seja Secretario, exige mesmo. Secretario lá não consegue desenrolar, o cara fica só esperando, aí em agosto em assumi a Secretaria de Saúde. Aí pronto, assumi a Secretaria de Saúde, mandei... Trouxe os agentes de saúde, e comecei tudo o que eu tinha planejado em 89 eu comecei a despejar. Projeto piloto, projeto de saúde, plantas medicinais tudo isso eu começo a fazer em 93. Aí pronto, começamos com dois agentes de saúde em Tabatinga, com a desnutrição que é um bairro nosso aqui tem muita desnutrição. A universidade de Doutora Naíde tem um projeto do Protemol de combate a desnutrição, um projeto muito rico e eu vinha da área de nutrição recente e combatia a desnutrição, aí pronto! Peguei o projeto que me ofereceram aí então formamos 10 agentes de saúde e fomos trabalhar a desnutrição dentro desse mato e foi um sucesso. Conseguimos muitos resultados positivos com esse projeto. Enquanto isso o governo tinha mudado, já era o governo do PFL e eu criei o programa nacional de agente de saúde, que esse nosso era municipal esses 10. Mas havia entraves políticos no Estado pra implantar. Mas aí eu vou pra Brasília, em Brasília eu consigo o apoio de Fátima lá em Brasília.

P/1: Não era o PACS ainda?

R: Era o PACS.

P/1: Já era o PACS.

R: Já era o PACS, era o PACS.

P/1: Quando vem a nível Estadual já é o PACS, né?

R: Já é o PACS. Aí, Fátima aqui eu tinha passado na Paraíba eu tinha os meus dois anos lá me mandei pra dentro dos agentes de saúde da Paraíba. Fizemos um encontro lá, reunimos, botamos uns 5000 agentes de saúde dentro da Universidade numas férias. Revolucionamos aquela Universidade. Então a gente ficou conhecido, Fátima foi trabalhar em Brasília e quando a procurei em Brasília no PACS, tinha respaldo do que eu queria implantar. Aí passamos, o Estado teve que aprovar o programa da gente, a gente implantou no terceiro ano de governo, do segundo pro terceiro. Implantamos o programa nacional mesmo a revelia do governo do Estado, mas fui obrigado a implantar numa decisão nacional e foi implantado. Implantamos aqui e aí eu comecei a querer o programa saúde da família porque eu tinha participado dessa discussão na Universidade. Eu ia muito a Brasília não sei o quê, tinha essa discussão aí eu queria o programa. Aí nisso... Por isso que eu queria que Camaragibe participasse. Conversei com o João como era e João aprovou aí eu fui atrás do recurso pra implantar, a gente não tinha recurso, mas eu queria aprender o programa. Eu fui a Niterói que lá tinha o programa, fui a São Paulo na Zona Norte que tinha um programa, tinha 10 equipes lá, fui à Campina Grande que estava implantando e Quixadá. Niterói e São Paulo eu fui só, Quixadá e Campina Grande eu fui com o João Lemos. Fomos os 2, pegamos uma Kombi aqui mandamos _______lá fora e quando a gente voltou tinha a ideia todinha. Bom, aí implantamos a saúde da família. O programa de agente de saúde estava no seu início, tinha três meses aí vem o saúde da família, casou bem. Foi assim uma coisa muito bem feita. Os agentes de saúde começam a dar resposta positivas demais, o programa saúde da família nos quatro bairros que a gente implanta dá uma repercussão fantástica, redução de mortalidade infantil, cobertura vacinal. Ele responde assim brilhantemente. Em Niterói eles tinham uma assessoria de Cuba e eu peguei um pouquinho dessa assessoria de Cuba. Eu levei o material e disse a ele como era as tarde, como é que eu pensava. E ele disse como é que era, algumas coisas... Olha, o bairro tem que ser um bairro que termine num canto, quando você veja o limite do bairro você veja a população desenhada tã-tã-tã, aí eu trouxe aquelas ideias que ele me passou e quando implantei, implantei nessa lógica que eu tinha visto em Niterói em São Paulo, Quixadá e Campina Grande. Aí dei uma apurada. Eu vi as falhas do pessoal, eles me apresentaram as falhas: olha, por aqui a gente tinha dado essa dificuldade, mas se a gente tivesse vindo por aqui talvez não tivesse tido. Aí eu peguei esse talvez não tivesse tido, ou por aqui e implantamos. Então implantei com um tempero da gente, mas com nada diferente no sentido do que eu já tinha visto, mas com as diferenças que eles tinham apontado.

P/1: E Paulo tinha... A UNICEF estava presente?

R: Ainda não.

P/1: Ainda não.

R: Ainda não. Ela fica presente depois. Quando a gente implanta o programa, depois a gente vai... Como dá resultados positivos a gente vai atrás da UNICEF pedir apoio. A UNICEF apoia um Boletim nosso, apoia a informatização, dá a gente um computador, pede a gente pra incluir o controle da mortalidade mensal que nós não tínhamos isso. É uma resistência minha e do grupo, não sei o quê e bá-bá-bá, mas a gente implanta a mortalidade e controle mensal, começa a rever nossos princípios técnicos que devem tá meio superados e a gente implanta o controle de mortalidade mensal. ___________ começa a trabalhar nesse viés e o UNICEF financiava se a gente trabalhasse por aí também. Bom, aí o programa dá uma resposta muito boa, muito boa. As quatro primeiras equipes revertem situações que a gente não acreditava. Eu acreditava...

P/1: Que situações?

R: Mortalidade infantil de mais de 100 por 1000, reduzi a 30 por 1000 por seis meses, eu não pensava, eu o máximo _________ vou reduzir a mortalidade infantil a metade, em 4 anos. E com seis meses já estava com 30, assim: não morria mais nenhuma criança com diarreia, começou a aparecer coisas assim que surpreendia naquelas quatro projetinhos piloto. Então foi... Aí se estimulou a Secretária de Saúde que tinha ficado com pé atrás no seu conjunto pra implantar o programa, o programa ficou vinculado ao Secretário que nenhuma diretoria quis, achava que eu estava botando a minha cabeça muita a vista à risca. Eu disse: tá tudo bem! Então eu assumo. Segurei o programa, trouxe uma aluna minha da Paraíba que tinha sido uma das melhores alunas da residência de lá, fui professor da residência médica de lá, Fernanda que tinha ido trabalhar comigo na comunidade de João Pessoa e eu disse: Fernanda pode desempenhar bem, já que ninguém quer eu vou buscá-la.

P/1: Fernanda?

R: É. Ela foi minha aluna lá. Aí eu trouxe Fernanda pra coordenar o programa. Houve uma ciumeira, uma resistência... Primeiro que o programa a maioria do pessoal não tinha crédito, segundo outra pessoa. Aí bom, Fernanda você vai trabalhar diretamente comigo, o programa de agente de saúde e o saúde da família, vamos tocar isso aí. Pronto, foi a pessoa do perfil ideal mesmo, porque ela tinha sido minha aluna, me conhecia trabalhando com agente de saúde, eu tinha sido supervisor dela numa cidade do interior na residência em Fagundes, a gente tinha um casamento bom, bem feito. Aí ela deu a resposta bem direitinho. A gente sentava, o que a gente planejava ela tinha uma sistemática, ela é muito sistemática bem diferente de mim, eu não sou sistemático. Ela tem uma sistemática tão bem arrumadinha, a gente discutia, ela botava tudo e fazia acontecer. Pronto, dessas quatro equipes a gente fez sucesso aí o João: eu não quero sucesso, eu quero seis mais. Eu quero sucesso, eu quero mais seis equipes. Tudo bem, tá aqui o resultado, tá bom, tá bom, tá bom, agora eu quero mais seis equipes. Aí implantamos mais seis, fomos a 10, aí mais resultados positivos, ele: bom, eu quero mais 10. Aí...

P/2: Teve a visita do Ministro da Saúde né?

R: É. Eu fui visitar Adib Jatene logo que ele assumiu o governo, aí o João disse: que quê tu vai falar? Eu disse: eu vou levar um relatório, levar um relatório do sucesso das quatro equipes. Aí eu cheguei lá... O Adib é uma pessoa muito interessante, atencioso, um cara muito competente e ele tem esse negócio de esquerda direita, ele tem uma visão muito supérflua, acho que era menor acho. Quando eu cheguei pra Adib, ele me atendeu oito horas da noite, e é estranho o Ministro tá lá às 8 da noite trabalhando, que chegou do rio naquele dia, não teve tempo e eu entreguei o relatório pra ele aí eu fiz um desafio disse: Ministro, esse relatório eu terminei o mestrado, eu sou professor e o pessoal que faz esse relatório é um pessoal muito competente, ele pode tá muito bem escrito e não ser verdade. Aí disse: lá na minha terra tem um ditado que diz que lugar aonde eu nunca fui peru dá coice. Queria que o senhor lesse mas o senhor fosse conferir isso aqui. Eu não vim pedir nada, eu vim trazer resultados, afinal de contas isso é financiado pelo Ministério e tá aqui o relatório. Aí coloquei o que tinha feito como é que estava, o pessoal tinha medo que Adib Jatene, a (Cosac?) não assumisse o programa, tava mudando de governo, nós tavamos... Tinha saído de Santilho do governo do Itamar, tinha entrado Fernando Henrique e o outro, e um cardiologista e ele vai dá apoio a saúde pública? Aí bom, o pessoal da (Cosac?) a gente tinha combinado, eu seria eu o Odorico do Ceará e o outro secretario, não sei qual era o terceiro. Nós seríamos os três escolhidos pra falar com o Ministro pra tentar convencê-lo, cada um a seu modo. Aí eu vendi o programa, vendi o programa ao Ministro e pedi. Ele mandou uma equipe, primeiro veio uma equipe analisar os dados, a equipe veio verificou que estava tudo ok. Aí na segunda rodada já veio o Ministro e a primeira Dama, aí pronto! Isso foi um reforço, foi muito bom a visita dele, porque repercutiu positivamente à Cidade, a auto estima do povo que estava usando um programa sabendo que havia um referencial a nível nacional, o UNICEF começou a dá apoio mais concreto à gente também - eles já estavam, o UNICEF já estava aqui antes do Ministro - mas aí houve um reconhecimento dos resultados, foi colocado isso. Fernando Henrique ainda fez um favor pra gente de colocar isso na imprensa a nível nacional, isso foi uma coisa muito importante. O presidente citar Camaragibe como modelo de saúde e pra gente era interessante porque a gente estava fazendo um trabalho muito sério, estava dando certo e a gente precisava de recurso pra isso continuar. E como nós tínhamos esse respaldo de UNICEF, até o próprio Fernando Henrique respaldou foi assim: pra gente se consolidar enquanto modelo foi fundamental. O próprio agente de saúde se sentiu mais valorizado, a Dona Ruth Cardoso veio aqui, foi muito bom. Os agentes de saúde apresentaram uma pecinha pra elas aí a troco da saúde, ela tomou o café da manhã com a gente, inaugurou um posto de saúde da família. Criou um clima muito positivo, foi um clima muito positivo. A gente tinha resultados bons, quando o pessoal veio criou um... Então o pessoal da gente da saúde é muito besta, tanto é... Tem que ter até muito cuidado dessas besteiras dele.

P/1: Ô Paulo, e hoje assim: você é o Prefeito de Camaragibe. Como quê... Você continua acompanhando o programa de agentes comunitários? Como é que isso? Você acompanha, como é que é isso?

R: É essa a questão, eu não gostaria de tá acompanhando tanto, eu queria que o Secretário de Saúde acompanhasse mais, eu queria me dedicar mais as outras áreas, aos morros e a educação. E queria que a Secretaria de Saúde tivesse numa situação que tocasse o plano, mas eu tenho que tá muitas vezes lá dentro. De vez em quando há situações que tem que ser revistas, senão o programa desanda certo, senão a... Eu sinto aí, eu tenho medo às vezes muito medo que o programa perca as características, a Secretária de Saúde ela tem como modelo hoje a entrada é o Agente de Saúde, é o Programa de Saúde da Família e as vezes eu sinto uma tendência a abandonar isso. Ai veio o (Cemec?) nosso a engolir, mas aí eu tenho... Eu volto, vou para dentro das secretarias sento, a gente tá tentando contornar isso aí. Então tenho tido uma presença... Eu acho que até mais do que eu queria ter, eu queria ter bem menos, bem menos. Eu acho que eu já passei e deixei uma estrutura, tem que vir outro time e tocar e avançar, tocar no sentido de avançar e eu me inseri em outra área, se eu não fosse Prefeito, eu seria Secretário da Educação, eu não seria Secretario de Saúde se eu tivesse sido vice-prefeito eu teria sido... Não queria trabalhar na área de saúde, eu queria... Queria muito que acontecesse o que tá lá e avançar, agora hoje eu estaria na Secretaria da Educação. Então eu estou nesse dilema aí nesses seis primeiros meses por quê? Eu queria que a Saúde já tivesse andando com muita autonomia, no sentido de... Autonomia no sentido de implantar o modelo e consolidar, ela tá com muita autonomia para desviar o modelo às vezes (risos). Aí eu... A gente tem tido alguns desencontros.

P/2: Mas a determinação do Prefeito isso não vai mudar, né?

R: Não, não pode mudar. Mas isso tem me gastado energia com isso, porque eu em vez de tá com mais com o pessoal do morro, com a questão do lixo buscando recurso pra saneamento de trabalhar mais a educação, aí de repente a saúde rummm! Eu tenho que despender esforços aqui. Então é uma coisa que é só você ir tocando e organizando e fazendo com que o trabalho aconteça. Não ficar no gabinete com mil e uma reuniões, é ficar nas reuniões vendo a ação, uma reunião que discuta a práxis, teorizar a práxis. Não ficar naquela coisa teorista do sanitarista, não pode. A teorização tem que ser na práxis, e a práxis reorientar a teórica, a teoria aí é por aí. Bom, aí de vez em quando a gente tem tido esses conflitos nesses seis primeiros meses. O programa tá andando, precisa terminar ele precisamos mais de dez equipes, eu calculo entre oito a dez. A gente tem uma dificuldade em determinar o número de equipe, pelo senso. O sendo de Camaragibe é furado, não bate a população. Então a gente trabalha com a população, então quando você diz falta oito equipes que você pega a quantidade de população que tem não bate, não bate pelo sendo. Então é de oite a doze equipes que a gente precisa mais, terminar o modelo e fazer cinco policlínicas, porque o modelo tradicional pra mim tá falido, tá falido. Esse foi minha briga dentro da Secretaria de Saúde. O Centro de Saúde como ele está estruturado não resolve, ele não resolve, ele tem que ser... O agente de saúde tem que atender a população em casa junto com o médico de família e tã-tã, criar pra um centro de saúde com outra perspectiva já com uma população não de livre demanda, uma população referenciada. O cara vai ao Cardiologista, ali tá o clínico, pediatra. Ele vai ao Cardiologista, ele vai ao Psiquiatra, ele vai ao Gastroenterologista, ele vai ao Dermatologista, mas referenciado pela rede com consultinha marcada nele. Então seriam cinco na cidade Policlínicas, no centro do sistema um Hospital Materno Infantil, um pequeno Pronto Socorro o que a gente já implantou do núcleo de reabilitação e mais adiante uma Clínica Médica. O modelo de Camaragibe pra mim ele se encerra aí. Aí ele vai ter que procurar situações de Tecnologia de ponta pra gente, ultrassonografia e pa-ra-rá, o que tem aí de mais moderno. Aí ele vai se estruturando e vai colocando algumas, mas não pode ir colocar essas coisas prioritariamente. Tem que vim, porque senão é um custo muito grande.

P/1: É.

R: Essa parte que a gente tá colocando de Medicina ela é barata em longo prazo. No primeiro momento ela é cara, porque você tá atendendo a população que não era atendida, então ela é cara. Quando você tiver isso estabelecido, mais adiante vai ser barato. Hoje é muito caro esse sistema, mas é um caro que trás um retorno muito grande social que se torna barato, você entendeu?

P/1: Em longo prazo?

R: É, em longo prazo. Porque o que quê você tá atendendo? Você tá atendendo quem nunca foi atendido, você tá indo buscar o cara em casa, isso custa dinheiro. Agora antes você se omitia, o cidadão tava lá na sua casa, gestante a criança sem ser vacinada, a hanseníase, a tuberculose, o hipertenso e quer dizer, isso terminava sendo muito caro ao sistema porque esse cidadão ele já aparecia com AVC, com a criança complicada no parto, com a meningite, com a diarreia, com a desidratação. No último relatório que o Ministério da Saúde me entregou de custo que a gente tem é fantástico a queda do que nós gastamos antes dos programas e agora com a internação, é fantástica a queda, é muito... Mas é uma diferença. Eu não tenho o número decorado, eu tenho uma dificuldade muito grande de fixar esses números assim. Mas é ______ simples, o gráfico...

P/1: Internação?

R: É, o custo... É exato. O custo que o sistema gastava.

P/1: E quais são os problemas de saúde hoje, assim que quê continua sendo esses principais problemas de saúde?

R: Veja bem, a gente tem um pré-natal muito bom, a vacinação muita boa, a imunização... Agora o principal desafio é manter isso muito bem, certo. Nós não precisamos pensar em vacinar mais crianças que nós já estamos com 100%, mas temos que manter esses 100%, aumentar a amamentação. Agora, essas situações tão sendo revertidas, o perfil epidemiológicos da cidade tá mudando, as doenças que normalmente apareciam tão mudando, mas aí o que quê vai acontecer? O outro desafio, como trabalhar realmente as doenças novas: as cardiopatias, a questão do acidentado de trânsito, a questão do acidentado do trabalho, a questão dos AVC’S.

P/1: AVC é o quê?

R: Acidente Vascular Cerebral.

P/1: Ah! Certo.

R: Consequente da hipertensão. Então a gente começa a ter um...

P/2: Mudança de perfil.

R: Exato. Essa mudança muito...

P/1: É clara?

R: Clara, muito clara. Tá muito claro isso. Se você pegar o resultado da saúde você vai ver que tem outro perfil epidemiológico a ser atendido. Então qual é o desafio: primeiro você tem uma situação de qualidade de vida, a questão sanitária não resolvida. Então se você não tem criança internada com desidratação, não significa que você acabou a diarreias porque não tem saneamento. Essa criança não chega desidratada porque tem uma ação imediata, mas ela tem tido diarreia, ela tem tido esse agravo à saúde. Então o desafio é você... Aparentemente acabou a diarreia, não tem criança sendo internada com diarreia aparentemente, mas tem muita diarreia, então você precisa agir na qualidade de vida. Então o desafio hoje é manter, essa coisa tem que ser mantida o desafio técnico do cara vacinar, de oferecer o soro, de fazer o pré-natal e tã-tã, e ao mesmo tempo vir com a ação que vá responder à melhoria do ambiente, porque a saúde ambiental tá precária. Você melhorou alguns indicadores dessa saúde, então esses indicadores que eram muito sensíveis... Não, mortalidade infantil é muito sensível com qualidade de vida, não é não! Parece contraditório, porque você diminui a mortalidade infantil e a qualidade de vida tá precária. Como ninguém tá vivo, mas tá morando... Dentro da merda, mal muito mal. Tá morando dentro da fossa. Então esse é o desafio, como você segurar isso daqui sem perder esses indicadores e vim melhorando outras situações que vá responder esse, e aí você vai bater no teto. Que a mortalidade infantil vai chegar em 6, 8 por 1000 que aí é difícil diminuir dela tá, mas isso tem que ser quantitativo com qualidade de vida. Não tá combativo, o desafio maior é esse, manter... Ter essas novas doenças que nós... Que ela começa a aparecer no cenário, só que a gente não pode pensar que abonando esse aqui perde esse novo cenário, aí pronto aí vai voltar a ter entendeu.

P/1: (risos)

R; O caminho é complicado. E você trabalhar a qualidade de vida. Agora essas outras doenças querem resposta, esses novos que aparecem. Então o desafio é administrar esse novo perfil epidemiológico, fazer com esse não seja novamente o perfil de futuro e fazer com que essa qualidade de vida responda a isso aqui. É o desafio maior é esse.

P/1: Certo. Paulo, eu gostaria de encaminhar pra o final da entrevista, então eu vou fazer assim mais ou perguntas e mais... Aí você pensa se é mais da vida profissional, mais da vida pessoal. Que quê você gostaria de realizar aí dentro dessa tua trajetória de vida, trajetória profissional assim, que quê você gostaria de realizar ainda, qual é o sonho que você tem?

R: O meu sonho é muito imediato. Eu queria, por exemplo, eu queria deixar essa cidade com saneamento básico resolvido, eu queria deixar assim 100% dessa cidade com Saneamento Básico resolvido, se eu conseguisse isso. Se eu conseguisse deixar com que não houvesse mais nenhuma morte em morro, nenhuma sabe assim: não porque a gente tirou a família antes da casa cair, que é o que a gente tá fazendo certo, mas fazer com que dentro dos morros não houvesse mais a situação de agravo à saúde e à vida que existe. Então se eu conseguisse eu acho que eu partia pra uma coisa sabe, assim: eu não sou muito de ficar muito tempo numa única coisa, eu acho muita pobreza passar... Pobreza de espírito mesmo, você tá... Não sei o quê, eu queria ser Prefeito só essa vez, eu gostaria de ser só essa vez sabe, terminado eu ia fazer outra coisa. Só se esse grande desafio não tivesse aí, talvez me estimule. Hoje pra mim, minha realização profissional era deixar essa cidade saneada, 100% dela saneada, com esse programa de saúde... Assim...

P/2: Pondo o lixo lá___________

R: É, ela saneada como diz respeito ao lixo, a água e ao esgoto. Então não é difícil, é uma cidade deste tamanhinho em termos de... 52 quilômetros quadrados.

P/1: Quantos habitantes têm?

R: 120, 130, né? É uma besteira, eu acho uma besteira, sabe, eu acho. Então, um país de 140 milhões, se eu imaginar 140 milhões é difícil, mas se eu imaginar 120.000 eu acho uma besteira. Eu tenho 40, 20, 30.000 domicílios no máximo, 30.000 casas. Quem sabe, quando eu digo saúde eu vi assim: eu tenho 2000 crianças menor de um ano e eu não tinha vacinação dessas 2000, achava uma coisa tão estúpida porque são 2000 crianças pra vacinar. Besteira, 10 milhões não sei o quê, é um número muito grande, mas 2000? A gente não conseguiu?  Tem mais 30.000 casas com saneamento, com lixo resolvido, com a água, agora isso é besteira pra um país rico como o nosso eu acho assim uma besteira muito grande, muito grande. Então pra esse desafio sabe, você imaginar tecnologia de ponta pra o bairro, pra a cidade aí não, eu acho que é uma coisa muito longe, mas qualidade de vida no que diz respeito a saneamento, lixo, isso é coisa que tinha que ser resolvido a 30 anos no país. A gente tem dinheiro pra fazer isso, tranquilo. Não precisa fazer nenhum golpe militar, não precisa fazer nenhum grande estardalhaço nesse país pra resolver saneamento, lixo, qualidade de vida nessa situação, não precisa.

P/2: Aliás ______________

R: Aí pronto, a gente tá puxando pra o agente de educação, vê se a gente cria na educação também essa sistemática de deixar o aluno dentro da escola e melhorar a formação dele, pra mim é um desafio grande que não... Eu vejo muito factível, eu acho que isso factual isso aí é factual. Mais difícil pra vai ser saneamento, porque é um recurso muito... Ele tá disponível até no país nesse momento, eu estou até num momento bom. Ele tá disponível, mas é um recurso muito concorrido politicamente, muito concorrido politicamente. Não existem muitos interesses atrás desses recursos, é um recurso alto. Existem muitos interesses privados, interesses outros com esses recursos. Bom, é o meu sonho hoje deixar essa cidade, melhorar a qualidade de vida dela pra que essa questão da mortalidade que a gente resolveu ela fique resolvida e venha outro cabra que toque outra loucura aí.

P/1: Tá ok Paulo.

R. À vontade.

P/1: Obrigada pela entrevista, muito boa mesmo.

R: Obrigado. Desculpa aí a gente ter falado demais e ter até complicado.

P/1: Não, de maneira alguma.

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