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História

Da Manchúria para Taubaté

História de: Galina Bespaloff
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2004

Sinopse

Infância em Harbin, na Manchúria. Educação russa. Invernos rigorosos. Revolução russa contada pelos avós. Imigração para o Brasil. Descrição da Viagem. Primeiros tempos em São Paulo. Trabalho como desenhista. Casamento. Mudança para Taubaté. Início do comércio de jóias. Planos Econômicos. Tipos de consumidores. Peças exclusivas.

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História completa



Família
Meu nome é Galina Bespaloff, sobrenome do meu ex-marido, mas me conhecem mais como Gália. Eu nasci na Manchúria, norte da China, na cidade de Harbin, que foi praticamente construída pelos russos, com costumes russos em 4 de fevereiro de 1940. Meu pai chamava-se Alexander Piskunova e minha mãe, Evdakia Smorchevsky. Meus avós, por parte de pai eram Anfisa Pisconoff e Alexander Pisconoff e por parte de mãe eram Stipan Schumiloff e Ana Schumiloff. Meu avô materno era engenheiro da construção civil e o paterno era militar, mas depois que foi para China começou uma sociedade com um colega. Primeiro trabalhavam com uma charrete, depois compraram um carro pra trabalharem como taxistas. Quando meu pai era moço, eles já tinham uma frota. Meus pais foram pequenos para China. Nasceram, como meu avós, na Rússia. Minha mãe estudou em um colégio de freiras e depois casou, quer dizer não trabalhou muito fora. Meu pai trabalhou como taxista. Eu nasci em Harbin e depois morei a seis horas de lá, na mesma estrada de ferro. Muitas cidades se formaram enquanto construíam a estrada de ferro.

Cotidiano
Naquele tempo não existia televisão e poucas pessoas tinham rádio. Os aparelhos de som que existiam eram de girar uma alavanquinha. O fogão era de lenha. Como nós morávamos em uma casa maior e melhor, tínhamos aquecimento a vapor, o forno esquentava água. As estações eram bem definidas e o inverno bem rigoroso. E era divertido, porque quando somos jovens tudo parece muito bom.

Migração para China
Depois de Revolução de 1917 muita gente saiu da Rússia. Nem todo mundo concordava com o regime. Então a mudança provocou descontentamento e muita desordem. Meus pais e avós foram militares. Como ambos eram cossacos, eles recuaram para China, porque a estrada de ferro do norte foi construída pelos russos em 1906. A estrada passava por muitas cidades russas, com clube, cinema e tudo mais. Então era mais fácil, como eles estavam na Sibéria, imigrar para a China, como muitos russos, quem eram da Rússia Central, foram para Iugoslávia, França... Diziam que a China a vida era melhor e tinha uma colônia muito grande. Nossos programas de estudos vinham da Rússia. Todas as escolas usavam o mesmo programa. Os livros com que estudei, minha irmã, usou quatro anos depois. Alguns dos meus parentes voltaram para a Rússia. Meus avós nos contavam histórias e também tínhamos muitos livros da Rússia. Para se ter uma idéia mais fiel daquilo que estava acontecendo no país, é só assistir aquele filme Doutor Jivago. Eu li o livro original, em russo, e achei que foi um filme muito bem feito e meus avós contavam coisas muito parecidas como aquela. Houve muita desordem na China. No Brasil, quando cheguei, era regime militar. Mas foi uma passagem mais suave, comparando com a Rússia. Acho que a Rússia serviu de exemplo de como as coisas ficam quando se chega ao extremo. Na China li muita literatura a favor do comunismo. E quando cheguei aqui, vi muitos livros de militares que saíram para a Europa. Então tive a oportunidade comparar um extremo e outro, tirar a média.

Cotidiano na China
Eu estudei dentro do programa russo porque a cultura chinesa, naquele tempo, era muito diferente: o modo de se vestir, o que usávamos em casa, na cozinha... Tudo que tínhamos ou foi trazido da Rússia ou comprávamos de Breganha, onde podíamos adquirir alguma coisa, porque os chineses usavam pauzinhos. A roupa que eles usavam era uma espécie de calça. Mais tarde, na época que eu estava saindo, começaram a fazer vestidos. As minhas professoras eram russas mesmo. Desde criança tínhamos liberdade de falar, aprendemos que o valor da pessoa é o que ela é e não o que ela tem. Então, tudo que não achávamos certo, não concordávamos. E acho que isso foi muito mais saudável. O programa da nossa escola era muito puxado, nós entrávamos às oito horas e saíamos uma e pouco. Tomávamos um lanche muito bom na escola. Quando eu chegava em casa, precisava estudar porque não tinha jeito. Era proibida de ir ao cinema durante a semana. E se você tentava quebrar essa regra, sempre tinha um professor na porta do cinema, na cidade tinham umas quatro ou cinco salas. Nós tínhamos segurança, podíamos ir ao campo tranqüilamente. Todo mundo tinha documento e se você quisesse ir de uma cidade pra outra, precisávamos fazer visto. Então, se acontecia algum crime era muito fácil pegar a pessoa. Eu lembro que quando eu tinha treze, catorze anos apareceu na cidade uns cartazes colados dizendo que iam executar sete pessoas, um por estupro, os outros por crimes diferentes. E era para o público ir assistir. Os russos eram contra essas coisas, mas acho que os chineses gostavam de ver, porque fomos ver depois o campo fora da cidade que eles iam matar as pessoas. Então, as pessoas ficavam com medo das punições. A cidade Harbin tinha uma parte só de russos, com casas russas, tudo feito por eles e a parte chinesa. Quando um chinês abria loja, uma vendinha, ele abria na parte dos russos, porque aprendia a falar russo. A China daquele tempo era bastante atrasada e naquela região tinha pouca população. Eu nunca vi essa superpopulação da China. Então tinha uma espécie de amizade entre russos e chineses, porque um dependia do outro. O povo russo gosta de comer bem, os chineses são mais moderados. E a comida era totalmente diferentes, os costumes, modo de se vestir, aparência também. As escolas eram separadas, mas as faculdades e oficinas russas eram melhores, então alguns chineses estudavam lá. Mas na realidade eles entravam para aprender primeiro a língua e depois a profissão. A leitura era muito cultivada, todo mundo lia. Ainda não existia televisão, a única coisa que tinha era o cinema. Nas férias nós podíamos ir ao cinema, e era relativamente barato. E lá também uma vez por semana tinha palestra, alguma coisa cultural e depois filme de graça. Quem entrava na palestra assistia um filme depois. Os nossos jogos eram diferentes dos chineses. Nós gostávamos de uma assim: um arremessava a bola, outro corre, outro tem que pegar e bater - não sei se tem algum equivalente aqui. Ou jogos de escrever, responder algumas perguntas. Nós gostávamos também de dançar. Quase todos os bairros tinham clube. Era difícil conseguir comprar discos, mas no clube ele tinham ou algumas pessoas cantavam. Na escola, tinham vários grupos que você podia aprender a tocar algum instrumento ou fazer alguma coisa de madeira, algum artesanato. Isso era normal para ocupar nosso tempo. Nas férias nós íamos ao rio, quem tinha bicicleta andava, ou passeávamos no parque, fazíamos piquenique... O povo chinês é muito trabalhador. Eles plantavam muito e vendiam. Os chineses não consomem pão, eles comem arroz, branco sem nada ou cozido com alguma coisa. Eles também comem bastante verdura e pouca carne. Eles faziam um pão sem sal, branco, feito no vapor e os russos são acostumados com pão. Então teve uma época que estava faltando pão, tinha fila e uma quantidade certa para conseguir. Em 1945, quando a parte em que morávamos estava ocupada pelos japoneses e os chineses estavam adquirindo a liberdade deles, faltou pão de tal modo que não tinha nenhuma farinha branca. A única ciosa que tinha era milho, então nós comíamos um tipo de mingau de milho, pão de milho. Chegamos a enjoar de milho. Nós recebíamos jornal e minha mãe lia em voz alta para o meu padrasto - que meu pai morreu muito cedo. Eu escutava muito sobre a guerra e pensava: “Puxa, se vai ter guerra como é que nós vamos ficar aqui?” Eu olhava pros céus e imaginava: “Por que não vamos para lá? Enquanto tiver guerra, ficamos lá um pouco. Acho que os anjos ficam segurando a vela acesa lá em cima”. Depois teve essa confusão dos japoneses fugindo, os chineses mataram muita gente nessa época. Nós tínhamos acesso a muita coisa: livros, cinema, alimentação sadia. Eu senti mais problema com os meus filhos, com falta de segurança aqui. Mas na Rússia meus pais reclamavam porque não tinha, por exemplo, azeitona. Só conheci azeitona aqui no Brasil. Quando meu pai falava disso eu pensava: “Que gosto isso tem, doce ou salgado?” As pessoas se lamentavam de algumas coisas desse tipo, mas como eu não conhecia essas coisas, elas não me faziam falta. Quando era pequena, as pessoas podiam comprar tecidos à vontade, mas depois nós recebíamos um ticket com a cota do ano. Então, tínhamos que nos virar com aquilo. Para os chineses isso não foi tão pesado e eles conseguiam vender esses tickets para os russos. Algodão, que usávamos no dia-a-dia, a compra era limitado, mas veludo e seda, que eram mais caros, podíamos comprar quanto quiséssemos. E, por exemplo, se você ia casar, recebia uma cota extra, ou se alguém morria também, porque o chinês tem costume de colocar tudo branco. Os chineses também usam pouco óleo, um litro era suficiente para um mês, mas para os russos não. Muita gente criava animais, porcos. E esses animais precisavam ser fiscalizados por um órgão do governo depois os donos tinham que pagar uma taxa. Os chineses, para na precisarem fazer isso, criavam, matavam e vendiam escondido os animais. E nós aproveitávamos a banha para ter com que fritar. Em casa nós tínhamos comida russa. Quando queríamos sair, íamos para um restaurante chinês. Na nossa cidade cada um tinha a sua cultura e todos eram amigos, só quando Stalin morreu é que as coisas mudaram um pouco. As coisas começaram a ficar meio estranhas quando Stalin morreu. A Rússia mudou de rumo, ficou mais livre. E os chineses continuaram muito rígidos. Então começaram, de leve, a perseguir os russos. As pessoas eram pressionadas a voltar para a Rússia, então a maioria foi para lá, inclusive minha avó, ela falava que queria morrer na pátria dela. Aí os russos doaram as escolas construídas para o governo chinês. Não podíamos vender nada, senão não iam permitir a saída do país. Então entre russos fazia-se assim: arrendavam as terras por vinte, trinta anos. Era um jeitinho para recuperar dinheiro. Muita gente voltou para a Rússia quando o Stalin morreu, porque iam pagar a passagem, dar certas garantias... O governo russo convidou, porque queria povoa aquela parte do Cazaquistão onde só viviam nômades, como foi para China antes: governo russo pagava passagem, e moradia. A segunda vez que fui para a Rússia, eu estive em Cazaquistão, onde meus parentes moravam, minha tia estava velha, doente, ela era uma pessoa muito importante na minha vida. O local era uma planície e a vegetação era muito baixa, então os russos fizeram trouxeram muitas árvores típicas da Rússia Central e plantaram lá. Na China tinha ventos muitos fortes e no outono nós usávamos lenço. Sempre que ventava muito, nós amarrávamos lenço pra defender um pouco os olhos. Nós tínhamos que andar praticamente empurrando porque o vento muito forte. E quando eu cheguei em Cazaquistão e vi aquele vento tão forte, lembrei que na China era a mesma coisa. Muitos russos foram para o Cazaquistão e também para o Uruguai. Inclusive meu padrasto tinha pedido pra ir para o Uruguai, mas teve uma época que fecharam as fronteiras de lá. Então as pessoas escolhiam a Bolívia ou o Brasil.

Cozinha familiar
A minha avó paterna era vegetariana. Então, acho que já tinha no meu gene, no sangue, a tendência para isso. Eu sempre gostei gostava de pastelzinho com ricota e de saladas. Adoro quando viajo para fora do Brasil, mas sinto falta da comida daqui porque tem muitos vegetais. Na Europa, por exemplo, nunca tem tanta verdura. Eu lembro de um prato festivo que faziam, um pastelzinho assim, cozido. Na Liberdade, em São Paulo, os restaurantes que trabalham com comida chinesa e japonesa sempre tem.

As dificuldades para imigrar
Meu padrasto é descendente de polonês, e minha mãe era russa, mas eles não queriam ir para Rússia. Então, como não dava para imigrar para o Uruguai nem para Austrália, que as fronteiras estavam fechadas - porque muita gente estava indo para lá - , então escolheram o Brasil. No Brasil nós tínhamos gente conhecida. Nos inscrevemos para pedir documentos para vir para o Brasil e eles demoraram dois anos para ficarem prontos. Para sair da China precisávamos fazer alguns exames. Eu tinha um problema no pulmão, aí demos um jeitinho para que isso não aparecesse nos exames. Quando fui tirar chapa para os documentos da primeira vez, deu o problema. Mas na sala podiam entrar umas seis pessoas e ficava tudo escuro. Então eu levava alguma amiga da minha escola e ela tirava a chapa no meu lugar.

Viagens antes de imigrar
Ficamos em Tienzing um mês e depois fomos para Hong Kong por mais dois meses. A comida era boa, a vida tranqüila, não precisávamos fazer nada. Lá eu tive que tirar outra chapa, mas já estava tudo bem. Saímos de Harbin, já indo a direção de Hong Kong quando tinha 17 anos, em 1956. Foram dois dias e meio de trem para chegar em Tienzing. Foi a primeira vez que eu vi o mar e, de longe, vi também a Muralha da China. De Tienzing nós pegamos um pequeno navio e fomos até Hong Kong. Em Hong Kong eu tinha dois amigos – um mais novo e outro mais velho – e nós saíamos muito juntos: andávamos de barco, passeávamos na montanha, íamos para o mar... Então, na realidade, eu ficava muito com meninos e por isso me machucava muito. Uma vez machuquei joelho e deu problema, juntou água, quase que fiquei inválida. Um médico famoso lá me atendeu. Bolou uma pomada para eu passar e depois esquentar o local com uma lâmpada por um tempo. Quando aconteceu isso com o meu joelho, fiquei no hospital. Tudo era ruim lá, a comida... Aí não comia e apareceu a tuberculose. Perdemos um ano com isso. Nós tínhamos muitas expectativas, principalmente quanto à língua. Nós tínhamos um livro em português e parecia muito difícil. Na escola eu tive aulas de inglês, mas português era diferente. E também não sabíamos dos costumes do Brasil. Os russos nos escreviam e diziam “Aqui não tem bacia para lavar roupa”, e o meu padrasto fez uma mala grande e colocou bacia. Nós viemos com muitas malas, “Que não tem tábua de esfregar roupa”. Então, na alfândega foi estranho o pessoal abrindo as nossas bagagens. Mas quando chegamos, entendemos porque não tinham essas coisas: as pessoas usavam tanque. Lá não tínhamos máquina de lavar nem tanque, usávamos uma banheirinha, de criança, ou uma bacia funda com uma tábua. Trouxemos bacia, a tábua e moedor de carne. Falaram também que em Taubaté não tinha toda essa variedade de queijos. Acho que tinha mozarela e queijo-minas. Escreveram também dizendo que aqui não tinha uma espécie de salaminho, então meu padrasto comprou uns dez pacotes e nós trouxemos. Esperamos pelo navio em Hong Kong por dois meses e depois demoraram mais 45 dias para partirmos. O navio era cargueiro e também de passageiros. Ele saiu de Hong Kong, parou em Penanc - na Ilhas Malaios -, Porto Maurício, Madagascar... Só depois que foi para Brasil.

Hospedaria dos Imigrantes
Chegamos primeiro no Rio de Janeiro. Quando chegamos no Rio de Janeiro era de noite, então era muito bonito, muitas luzes. Nós achamos que era um mundo mágico. Ficamos parados no porto e depois desembarcamos em Santos. Lá pegamos em trem até o camping da Hospedaria dos Imigrantes, na Mooca, São Paulo. Lá ofereceram comida pra nós: café, naquela caneca de alumínio, e pão com mortadela. Eu achei mortadela legal e nunca tinha tomado café preto antes, pensei que parecia veneno. O que me chocou foi que o pessoal não agüentava comer dois pães - de manhã davam dois pães. Então, pessoal comia a mortadela e jogava o pão no canto, tinha montes de pão no canto. A minha avó dizia que quando comíamos, não podíamos derrubar migalha no chão, porque muita gente passava fome. Na hospedaria tinha muitos italianos. Eram dois salões grandes: um só para mulheres e outro, com beliches, para homens. As pessoas podiam ficar lá até arranjar um serviço. Mas algumas pessoas arranjavam trabalho e disfarçavam, e alguém acusava: “Aquele lá arranjou serviço e está aqui”.

Vida no Brasil
Aqui entrei na escola e achei muito bom. Comecei a trabalhar, eu estranhava a língua, mas eu trabalhei muito. Nós ficamos duas semanas na hospedaria e depois fomos para a casa de conhecidos, o primo do meu padrasto estava no Brasil. Então fomos para casa deles e ficamos numa garagem. Logo alugamos uma casa de fundo, num cortiço. Eu não achava aquilo um problema, para mim era tudo normal. Eu comecei a trabalhar e quando chegava sábado eu ficava contente porque estava livre para fazer o serviço de casa, cuidar das minhas roupas... Aqui tinha bastante russos, e nos reuníamos para ir ao cinema. Tinha um clube russo em Indianópolis, São Paulo. Morava na Vila Zelina e na região (Vila Alpina, Vila Prudente e Indianópolis) tinha bastante russos. Todos se divertiam juntos, porque as pessoas não sabiam a língua e os costumes daqui. O que eu mais estranhei aqui foi quando comecei a trabalhar e tinha um rapaz comigo. Eu achei que o nosso namoro era amizade, bem devagar. Eu ainda não sabia falar português e me virava no inglês e ele me dizia: “Boyfriend, girlfriend” e eu entendia amizade. Depois de uns tempos ele pegou na mão e foi uma sensação fora do comum. Fomos juntos no cinema e, na hora de despedir ele me agarrou. Aquilo foi chocante para mim. Eu contei para uma amiga e ela disse: “Mas você também...” “Mas ele falou amizade.” Quer dizer, foi mal-entendido. O rapaz era bom, me ajudou bastante no serviço. Logo que cheguei comecei a trabalhar como desenhista numa firma que tinha engenheiro e projetista russos. Eu me virava com russo, mas eu tinha alguns equívocos. Eu desenhava, entendia o desenho, mas copiava o que estava escrito. Uma vez o engenheiro me chamou e perguntou: “Gália, o que você acha que está escrito aqui?”. Eu falei: “Acho que portão”, porque era o portão de entrada de uma fábrica, mas estava escrito “portaria”. Eu errei uma letra e saiu “porcaria”.

Trabalho
Eu fiz curso de desenho na China. E fui trabalhar em São Paulo em uma construtora. Fazíamos instalações elétricas, hidráulicas e acho que civil também. Depois passei para outra firma de instalações elétricas. Eu comecei a trabalhar menor de idade, quando fiz 18 anos meus colegas falaram: “Pede aumento, você ganha pouco”. Eu pedi aumento, mas não me deram e me demitiram. Procurei outro emprego e pedi para receber o dobro e consegui. Logo o dono da empresa anterior me chamou para voltar. Quer dizer, em dois anos e pouco trabalhei em três empresas. Sempre como desenhista. Logo que comecei a trabalhar, comprei o primeiro fogão de casa. Achei uma maravilha que pode pagar em vezes, não precisava pagar tudo na hora. Em geral, os brasileiros são muito gentis com as mulheres. Na primeira firma que trabalhei o engenheiro falou: “Gália, põe aquele vestido e aquela boina vermelha, que você tem”. Eu falei: “Mas por quê?” E ele respondeu: “Você fica mais bonita assim”. Na segunda firma o cara olhou e perguntou: “Mulher desenhista?” Me deram um teste escrito. Tudo mundo fala que eu tenho escrita para desenho boa... Aqui, ser desenhista era profissão de homem. Na Rússia tinha uma professora que falava: “Para mulher é estrada, para homem é calçada”. Porque se a mulher quer, ela vai. Na Rússia ainda tem essa divisão. Como tinha poucos carros, até hoje poucas mulheres dirigem, porque a maioria não tem carro. E quando tem, quem dirige é o homem. Mas a maioria dos médicos é mulher. Mas isso aconteceu forçosamente... Porque durante a Revolução e a na Segunda Guerra muitos homens morreram. Então faltava homem para trabalhar. E as mulheres ficaram nas fábricas, tudo ficou nas mãos delas.

Família
Minha mãe costurava um pouco e meu padrasto era marceneiro. Ele fazia essas rodas grandes de carroça e pregos. Na sua marcenaria tinha uma parte para fundir e malhar ferro. Ele pegava o ferro esquentava, cortava, batia e o prego ficava quadradinho. Ele começou a trabalhar em sociedade com uma pessoa, mas depois os dois se separaram e meu padrasto ficou com a oficina mecânica, porque sabia fazer muita coisa: ele podia fazer mala, mesa, carroça, roda... A minha mãe queria mudar para Taubaté, mas eu tinha um emprego em São Paulo. Então ela veio e eu fiquei.

Casamento
Eu conheci meu ex-marido em um baile da colônia russa, ele era do Rio de Janeiro. Quando tinha esses bailes, vinha gente de Campinas e de vários outros lugares, porque a festa era interessante. O nosso namoro era complicado, porque eu morava em São Paulo e ele no Rio. Eu o conheci em outubro e no Natal ele convidou minha amiga, a irmão dela e eu para ir para casa dele. E nós fomos. Naquele tempo a estrada tinha uma pista só e o ônibus demorava para chegar. E no Natal ele ficou comentando: “Nós vamos casar?” No ano novo ele me convidou pra passar lá e já me pediu em casamento. E três meses depois nós casamos. Ele também é russo também nascido na China. E por coincidência, o pai dele era sócio do meu avô no primeiro carro. Fui morar no Rio de Janeiro e no começo estranhei porque achava o mais abusivo, em São Paulo o pessoal é mais sério. Sinceramente eu não gostei Rio. Além disso, só tinha a família do meu ex-marido lá. Eu senti falta do meu ambiente, e no início eu não me dava bem com a família dele. Mas no fim da vida da minha sogra, mesmo eu já separada do meu ex-marido, nós tivemos relacionamento muito bom. Foi um amadurecimento, de ambas partes. Casamos em 1960 no Rio e já fomos para lá. Minha mãe falou que eu não deveria casar, ela dizia: “Quando você tiver 18 anos você vai fazer o que quiser”. Eu fiz 18 anos e eu comecei a falar: “Eu vou ao cinema, eu vou a tal lugar...” E quando estava com 20 anos, falei: “Eu vou casar” e ela me falou: “É muito cedo”. Mas meus pais tinham que assinar toda papelada. Na realidade eu fui muito independente, dando cabeçadas, mas arcando com conseqüências. Nessa época eu parei de trabalhar.

Migração
Eu queria sair do Rio de Janeiro a todo custo. E meu marido comentou uma vez: “Queria abrir algum negócio”. Eu falei: “Cidade pequena é melhor...” Na realidade eu comecei forçar para vir para Taubaté, porque minha mãe estava aqui. Nós viemos uma vez para a cidade e fizemos conhecimento do comércio, quem era ourives, quem era relojoeiro. Então, primeiro nosso contato foi para pesquisar tudo, isso foi em 1960. Nesse mesmo ano nasceu meu primeiro filho. E em 1961, nós já estávamos em Taubaté. Nós simplesmente pegamos o caminhão e viemos. Minha mãe até se assustou: “Caminhão de mudança, com tudo?” Viemos para a casa dela. Logo em seguida nós compramos um terreno e começamos a construir, mas antes alugamos uma casa. Meu marido é ourives, é um bom profissional. Ele pegava serviço no Rio, fazia bijuteria, montava e desmontava a vitrine, tudo em uma bicicleta. Deixava tudo numa malinha e de noite ele tirava tudo e levava para casa e de manhã fazia tudo de novo. Chegamos em Taubaté nos anos 60. Lá, perto de mercado, tinha aqueles cavalos para todos os lados, charretes, sujeira, muitas moscas. Era muito comum as pessoas andarem de charrete, porque táxi eram poucos e caros. A estação de trem funcionava bem, viajei muitas vezes para o Rio de trem. Tinha os trens normais e o Pulmann, com poltronas e vagão restaurante. Em Taubaté era meio estranho mulher usar calça, as pessoas comentavam, mas em São Paulo as mulheres já vestiam. Eu usava jeans... E se a mulher ia ao médico, o marido precisava ir junto. Claro que eu não fazia isso, porque ele estava ocupado o tempo todo. Quando precisávamos comprar bilhete para o Rio de Janeiro, ia eu ou ele. Para ir para São Paulo, ia sempre só um de nós, porque alguém precisa ficar com a criança. Uma vez perguntaram para o meu marido: “Como você deixa sua mulher ir sozinha pra São Paulo?” Nós chegamos mudando mesmo. Eu não sabia fazer café e não fazia questão de tomar. Meu marido levantava cedo para pegar o ponto na Cinelândia, nós morávamos perto dessa praça. Depois resolvemos mudar o nome do lugar e colocamos Ponto Azul, porque azul representa esperança. Antes, onde agora é a loja de móveis, tinha uma Casas Pernambucanas e um bar enorme - então, de manhã nós íamos tomar café no bar. Mais uma vez éramos totalmente fora dos padrões: mulher junto com marido no bar, encostada no balcão tomando café...

Comércio de Taubaté
O comércio de Taubaté era pequenininho. O primeiro supermercado abriu em 1968, um Pão de Açúcar. Nós estranhamos muito, porque não tinha nada lá, as pessoas estavam acostumadas a ir para São Paulo comprar tudo. Há vinte anos, para conseguir uma embalagem boa, produtos de papelaria, precisava comprar em São Paulo. Só tinha uma livraria, a Universal, mas hoje tem várias pela cidade, mesmo com a situação de crise. Acho que pessoal está lendo mais do que antes. Acredito que a cidade progrediu bastante, apesar de toda crise. As pessoas têm que soltar sua criatividade, pensar em alguma coisa para fazer.

Ponto Azul
A nossa primeira loja, a Cinelândia, vendia bijuteria. Quando abrimos o Ponto Azul, um espaço maior, nós começamos a colocar um pouquinho de ouro e pegar bastante serviço, porque as pessoas já nos conheciam. Tinha um relojoeiro, um senhor, que trabalhava conosco. Durante um tempo nós tentamos colocar louça, relógios, para diversificar. Depois, eu queria voltar pra São Paulo, porque eu conheci a cidade. Nós liquidamos tudo em Taubaté e fomos para São Paulo. Foi uma cabeçada, porque ficamos em São Paulo um ano e meio e meu marido não conseguia ganhar dinheiro. Passamos necessidade mesmo, porque tínhamos que restringir comida e eu não podia trabalhar - o meu segundo meu filho tinha nascido. Então nós resolvemos mudar de volta para Taubaté e lá abrimos uma oficina. Ficamos com a oficina uns dois anos, e em 1968 abrimos uma loja, a Joalheria Bespaloff. Ficamos naquele lugar mais ou menos vinte anos. Nesse intervalo eu separei e passei a trabalhar na indústria. Mas quando precisava de dinheiro extra, eu pegava algumas jóias, vendia e ganhava 20%.

Volta para o desenho
Quando desquitei, fui trabalhar em uma indústria de Taubaté como desenhista na Mkal durante um ano. Eu estava fazendo curso de desenhista mecânico, tenho até o diploma, e logo entrei na Mkal. Depois de um ano, fiz ficha para trabalhar na mecânica. Mas quando chegou a carta me chamando para lá, eu estava de férias, fora de Taubaté, e quando eu cheguei consegui entrar na mecânica. Nesse setor, eu trabalhei oito anos. Nesse intervalo, começou uma crise, o governo não pagava serviço, tiveram alguns cortes seguidos de muita intriga. Então eu queria sair de lá.

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