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História

Da luta pessoal à luta social

História de: Airton Donizete de Góes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/06/2018

Sinopse

Airton Donizete Goes é jornalista e trabalha na AFUBESP - Associação de Funcionários do Banespa. De família pobre, conta sua trajetória, de um colégio interno católico ao curso de Economia na PUC; do engajamento político de esquerda, que o levou a Cuba e à Nicarágua;  do retorno ao Brasil e a entrada no curso de Jornalismo na Universidade Metodista à luta com o filho, que nasceu com hidrocefalia e mielomeningocele; do trabalho como jornalista ao ativismo social na região de Cidade Ademar, onde mora.


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História completa

P/1 – Então Airton, a primeira coisa que eu queria é que você falasse seu nome completo e onde você nasceu.

 

R – Eu sou Airton Donizete de Góes. Nasci em Avaré, uma cidade do interior de São Paulo.

 

P/1 – Quando você nasceu?

 

R – A data real foi dia cinco de fevereiro de 1960, mas como acontece muito no interior e em outros lugares, eu fui registrado com atraso. Tinha uma pequena multa lá e meu pai não tinha dinheiro pra pagar.  Depois de 15 dias, se você vai registrar, tem multa. Ele não tinha grana pra pagar e registrou no dia 22 de março de 1960.

 

P/1 – Um mês depois... É isso, mais de um mês?

 

R – Fiquei mais de um mês mais novo.

 

P/1 – E como você comemora agora o aniversário, qual dia (risos)?

 

R – Até terminar o primário, eu sempre comemorava dia cinco de fevereiro. Durante toda a minha infância, comemorei dia cinco de fevereiro. Um dia, a diretora pediu o meu registro e me contou que eu fui registrado em dia errado. Então eu tenho duas datas: em casa continuo comemorando dia cinco de fevereiro, mas no meu trabalho, por exemplo, é no dia 22 de março.

 

P/1 – Você tem dois signos então também (risos)?

 

R – Tenho (risos). Eu considero o real, sou aquariano do dia cinco de fevereiro.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chama-se Antônio Mariano de Góes e minha mãe, Durvalina Rodrigues de Oliveira.

 

P/1 – E seus avós?

 

R – Eu não conheci meus avós. Aliás, conheci só minha avó por parte de mãe, mas ela morreu quando eu era muito novinho, então eu não tenho lembranças deles e não guardei também o nome deles.

 

P/1 – E o que seus pais fazem, faziam?

 

R – Os dois são falecidos. Lá no interior meus pais eram boias-frias... Lembrar−se de pai e mãe é sempre complicado...

 

P/1 – Sossegado.

 

R – E quando vieram pra São Paulo... Peraí.

 

P/1 – Toma uma aguinha, fica sossegado.

 

R − Quando vieram pra São Paulo, vieram ser faxineiros na indústria Matarazzo.

 

P/1 – Os dois?

 

R – Os dois. Trabalharam na mesma empresa, na metalúrgica Matarazzo. Isso foi nos anos 60. Depois minha mãe foi ajudante de cozinha e meu pai − ele faleceu quando eu tinha 16 anos −, acho que a última profissão dele foi essa mesmo, de faxineiro. Ele não sabia ler nem escrever e minha mãe foi por muito tempo ajudante de cozinha.

 

P/1 – Nessa própria empresa?

 

R – Não, depois ela mudou de empresa. Foi trabalhar num restaurante popular como ajudante de cozinha.

 

P/1 – Você então veio pequenininho pra cá?

 

R – Eu vim criança pra São Paulo. Devia ter uns cinco, seis anos. Não tenho nenhuma memória da época do interior.

 

P/1 – Então você viveu cinco anos lá.

 

R – É, mas desse período eu não guardei nada, eu só sei o que a minha mãe me contava, o que meus irmãos mais velhos contam. Eu sou o caçula da família, então eu tenho só o que eles contam. Fui me conhecer por gente, ter lembranças, depois que cheguei a São Paulo.

 

P/1 – Eles vieram pra São Paulo em que ano?

 

R – Acho que em 65 ou 66. Eu estava com seis anos.

 

P/1 – E você veio pequenininho pra cá?

 

R – Vim pequeno pra cá.

 

P/1 – O que você fazia no interior, você não se recorda de nada?

 

R – Não, não me lembro de nada, só lembro o que minha mãe me conta, que eu dava muito trabalho (risos), porque tinham que trabalhar e eles trabalhavam por produção, então não tinham com quem me deixar. Às vezes eu ficava com os irmãos mais velhos, um pouquinho mais velhos. Nós somos cinco e tínhamos também mais um, mas ele faleceu. Meu irmão mais velho faleceu. Eu sou o caçula e minhas irmãs cuidavam de mim.

 

P/1 – E sua família veio de onde? Como sua família chegou a Avaré?

 

R – Meus pais também são do interior de São Paulo, da região de Lençóis Paulista, Macatuba, Avaré, então eles trabalhavam por ali, sempre como trabalhador boia-fria ou como colono de alguma fazenda. Eu nasci numa dessas fazendas em que eles trabalharam, na época era plantação de café. A maior parte das fazendas daquela região eram plantações de café e eles trabalhavam na lavoura.

 

P/1 – E os ancestrais? Foram de alguma corrente migratória, são italianos... Você sabe?

 

R – Sabe que eu pesquisei um pouco isso, depois de adulto? Descobri pouca coisa da minha família. Eu sei, por exemplo, que até meu tataravô − embora eu não saiba o nome −, pelo que minha mãe conta, eram todos brasileiros. Por parte da minha mãe, todos brasileiros. Da parte do meu pai, eu só conheci o tio Trajano, o irmão dele. Não consegui descobrir nem o meu avô, nem a origem dele, não sei. A mãe da minha mãe veio de Minas, minha avó é uma mistura de branco, negro, índio.

 

P/1 – Ela era descendente de negros também?

 

R – Também.

 

P/1 – Então provavelmente você tenha alguma ascendência africana?

 

R – Também. Minha mãe fala que meu avô, que eu não conheci, era negro. A minha mãe tinha uma cor de pele mais escura que a minha. Meu pai era bem claro, tinha os olhos azuis. Era uma mistura muito grande mesmo.

 

P/1 – Quando vocês vieram pra São Paulo, em 65, 66, você lembra em que bairro vocês vieram morar?

 

R – Aí eu já lembro bem. Nós viemos morar na Vila Santa Catarina.

 

P/1 – Região Sul mesmo?

 

R – Região Sul. Pertence à subprefeitura do Jabaquara e era um bairro, na época, bastante longe do centro. Não tinha praticamente nenhuma rua asfaltada, a gente brincava na rua de terra. Na época, em 65, 66, tinha muita área vazia, então dava pra molecada jogar bola, tinha campinho, era...

 

P/1 – Hoje é completamente urbanizada, a região da Vila Santa Catarina.

 

R – Hoje é tudo asfaltado, tudo urbanizado.

 

P/1 – Por que vocês foram pra essa região, você se recorda? Era perto dessa empresa onde eles foram trabalhar?

 

R – Porque os irmãos da minha mãe migraram antes, então vieram todos pra aquela região também, ali na região do Jabaquara, Cidade Ademar. Ficaram todos por ali, então ela veio pra ficar próxima da família. Veio a família inteira: meu pai, minha mãe... Logo em seguida eles se separaram. Minha mãe não tinha condições de pagar... Foi morar de favor na casa de uma tia, num quarto.

 

P/1 – Seu pai permaneceu lá?

 

R – Não. Separaram-se, ele mudou de casa também e aí ela não tinha condições de pagar o aluguel, foi morar num quarto no Jardim Miriam. Nós nos mudamos pro Jardim Miriam, que pertence hoje à subprefeitura da Cidade Ademar.

 

P/1 – Você ficou com sua mãe, na casa da sua tia?

 

R – Aconteceram várias coisas ao mesmo tempo. Meu pai se separou da minha mãe, não tinha condições de pagar o aluguel, minha mãe mudou pra um quarto cedido pela minha tia no Jardim Miriam e me colocaram num colégio interno pra estudar, aí não tinham condições de pagar. Então eu falo que sou filho da Irmã Lina, que é a pessoa desse colégio interno que cuidou... Acho que ela tá viva ainda, esses dias eu a vi na televisão, bem velhinha, porque ela tem um orfanato de crianças até hoje. A Hebe Camargo foi falar com ela. Faz uns dois anos, eu a vi e reconheci. Ela ainda cuida de crianças.

 

P/1 – Que bacana. E onde era?

 

R – Jardim Guarulhos.

 

P/1 – Como é o nome do colégio?

 

R – É... Como é que era... O nome da escola, ai... Eu tenho no diploma escolar.

 

P/1 – Ah, mas tudo bem.

 

R – Então...

 

P/1 – Você passou a sua infância inteira no colégio interno?

 

R – Até meus 11 anos.

 

P/1- Até os 11? E depois?

 

R – Vinha pra casa só nas férias.

 

P/1 – Você ficava lá na casa da sua tia, junto com a sua mãe?

 

R – Isso. Era um quarto só, onde dormiam minhas três irmãs, eu, meu irmão e minha mãe.

 

P/1 – Só você foi pro colégio interno?

 

R – Só eu, por ser o caçula.

 

P/1 - Os outros irmãos tinham quantos anos?

 

R – Meu irmão é três anos mais velho que eu, então é o segundo mais novo. Minha irmã tinha uns 15, 16 anos. Ela foi trabalhar de doméstica.

 

P/1 – E aí ela morava na casa da família?

 

R – Morava com a gente.

 

P/1 – Morava com a sua mãe também.

 

R – Isso, todos os filhos ficaram com a mãe. Nenhum dos filhos ficou com o pai, então todos...

 

P/1 – E aí você foi pro colégio?

 

R – Isso.

 

P/1 – Os outros trabalhavam, como era?

 

R – Minhas irmãs, que eram as três mais velhas, eram mulheres. A Luzia, a Adenaide e a Isabel foram trabalhar em casas de família, bem cedinho. Bem novinhas, todas foram.

 

P/1 – Nenhuma estudava?

 

R – Elas começaram a estudar, mas nenhuma foi adiante no estudo naquela época. Meu irmão começou a vender coisa na rua: vender uva, vender sorvete, essas coisas.

 

P/1 – Ele passava o dia vendendo coisas e depois voltava pra casa?

 

R – É, e minha mãe sempre trabalhando também.

 

P/1 – Como era o contato com sua família enquanto você estava no colégio interno? Vocês se falavam por telefone, ela ia te visitar nos fins de semana?

 

R – Ela ia me visitar de vez em quando, meu pai também ia me visitar de vez em quando. Nas férias eu vinha pra casa, ficava lá uns 15, 20 dias.

 

P/1 – Eles continuaram trabalhando na mesma empresa, ou quando eles se separaram sua mãe já tinha saído?

 

R – Eu não lembro muito bem dessa época porque eu era muito pequeno, mas a impressão que eu tenho é que eles passaram a trabalhar em empresas diferentes, porque passaram a não ter contato, não foi uma separação amigável. Eles brigavam muito, tinham muitos problemas financeiros e isso também causa muitas brigas. Minha mãe era alcoólatra, isso também atrapalhava bastante, então...

 

P/1 – E pra vocês, era difícil essa época que eles estavam juntos?

 

R – Era muito difícil.

 

P/1 – E sua mãe se curou desse vício depois que ela se separou do seu pai?

 

R – Não, ela nunca se curou.

 

P/1 – Nunca se curou, continua?

 

R – Ela chegou a fazer aquele Alcoólicos Anônimos, isso bem depois, quando eu já tinha uns 17, 18 anos, já estava adolescente. A gente apoiou, ajudou, ela conseguiu ganhar até aquela medalhinha de um ano − eles dão aquela medalhinha de um ano sem beber −, mas depois ela voltou e bebeu até o final da vida.  Inclusive a morte dela foi causada pelo alcoolismo.

 

P/1 – Cirrose?

 

R – Ela caiu, bateu a cabeça.  Estava alcoolizada, bateu a cabeça, entrou em coma e não voltou.

 

P/1 – Isso foi também foi determinante pra você ir pro colégio interno?

 

R – Você fala, o alcoolismo?

 

P/1 – O por quê de você ter ido pra um colégio interno, você também contribuiu?

 

R – Acho que a separação dos pais também contribuiu.

 

P/2 – De quem foi a decisão de que você fosse pro colégio interno?

 

R – Ah, foi da minha mãe. Acho que pra todos, o problema de ficar longe da família... Foi muito dolorido, principalmente quando é pequenininho, né?

 

P/1 – Quantos anos você tinha quando eles se separaram, só pra situar um pouquinho?

 

R – Cinco, seis anos.

 

P/1 – Logo que eles chegaram a São Paulo?

 

R – Foi logo depois. Quando eles chegaram a São Paulo, os problemas que já havia acho que se ampliaram. Acho que um ano, dois anos depois que nós chegamos a São Paulo já estavam separados.

 

P/1 – Antes de você ir, como era a convivência com as outras crianças? Como era o seu bairro? Você brincava bastante, saía na rua? Como era a infância, ser criança na Vila Santa Catarina quando você chegou, em 66, 67?

 

R – Ruas de terra, então a gente brincava muito na rua. Tinham os vendedores, tinha o bananeiro que vendia banana, ele puxava uma carrocinha cheia de banana, então a gente corria atrás dele, chamando ele de bananeiro... Agora o fato dos pais trabalharem, mesmo quando eles estavam juntos e você não... Você ficar com o irmão ou com alguém, um vizinho tomando conta... Não é uma infância muito boa, eu não tenho recordações muito boas. Lembro que eu brincava como qualquer criança, mas não é uma coisa que eu fale “Olha, eu tive uma infância feliz”. Não é uma coisa muito legal, mas a grande diferença em relação à atual é que a gente tinha muito espaço. Tinha muitos terrenos vazios na região, não tinha asfalto, tinha pouco carro, não tem esse trânsito maluco que tem hoje, então dava pra gente brincar legal na rua. A gente brincava de esconde-esconde, brincava de pião, bolinha de gude. Em qualquer terreno baldio fazia os boxes pra brincar de bolinha de gude, de pipa, então era uma coisa legal em termos de espaço. Hoje em dia você... Em qualquer bairro daquela região você tem tudo ocupado, né... Todos os terrenos ocupados, superpopulação, uma casa em cima da outra, tudo asfaltado, muito fio e não tem mais terreno baldio pra você jogar uma bolinha, pra você...

 

P/1 – Quando chovia, vocês lá no barro brincando, chegavam todos sujos em casa?

 

R – Putz, minha mãe batia na gente direto porque sujava tudo a roupa; ela já pensava que ia ter que lavar, então era uma (risos)...  Não era muito fácil. Minhas irmãs, pra ir trabalhar elas tinham dois sapatos: um mais velhinho, pra chegar até o asfalto, pegar ônibus e outro pra depois, quando chegasse no trabalho. Trocar pra não ficar com aquele sapato cheio de barro no trabalho, então era comum elas fazerem isso depois de uma chuva.

 

P/1 – Voltando um pouquinho, quer dizer, avançando um pouquinho, como foi essa separação da sua família pra você ir pro colégio interno? Como foi isso pra você? Foi uma coisa terrível ou foi um alívio porque talvez o clima em casa fosse um pouco pesado? Como você recebeu isso, você se lembra disso?

 

R – Como as brigas eram muito frequentes, mesmo sem ter muita consciência disso porque eu era muito novo, muito criança... Mas eu acho que no fundo, a gente entendia que não tinha outro jeito mesmo, sem racionalizar muito. Agora, o que doeu mais foi ir pro colégio, né, foi o dia que eu fui pro colégio.

 

P/1 – E aí lá você conheceu bastante criança? Como foi?

 

R – Tinha bastante criança e tinha até não tão crianças, né, adolescentes também. Lá também tinha horário pra estudar, tinha horário pra trabalhar, porque a gente ajudava a limpar também o colégio, tinha horário pra tudo, né?

 

P/1 – Era um colégio católico?

 

R – É. Isso foi legal porque me ajudou a ter uma certa disciplina. Depois de adulto eu fui ler aquele livro “Fidel e a religião” e muitas coisas que ele fala, porque ele também foi educado num colégio jesuíta... Muita coisa do depoimento dele eu acabo me identificando, porque ele também fala dessa coisa de você aprender uma disciplina. Isso  dá mais forças pra você alcançar seus objetivos, isso foi importante e você ficar ouvindo todo dia... Irmã Lina, os professores falavam muito isso “Olha, você tem que sair daqui pra estudar, pra trabalhar e ajudar seus pais.” Isso influencia bastante a gente. Então foi importante ter ido pra lá porque, apesar de todas as dores que isso causou, eu saí de lá com essa vontade de estudar bastante, trabalhar e conseguir ajudar a família.

 

P/1 – E lá era o ensino fundamental normal? Você chegou lá, fez “prezinho”, como era?

 

R – Eu fiz o primário lá.

 

P/1 – Do pré até a oitava série?

 

R – Eu fiz até a... Lá era até a quarta série na época.

 

P/1 – E a quarta termina com 11, é isso?

 

R – Eu terminei com 11, repeti um ano, no segundo ano primário, levei bomba (risos). Com 11 anos terminei o curso, foi quando eu saí, aí vim trabalhar, já vim ajudar a família...

 

P/1 – Esse período foi legal pra você? Você conheceu gente legal, conseguia ser feliz nessa época? Como foi?

 

R – Não. Feliz não dá pra ser, né, porque longe da família é meio complicado, mas eu brinquei como qualquer criança. A gente tinha horário pra brincar. A gente jogava bola – eu sempre gostei muito de jogar bola, nunca joguei bem (risos) −, então lá nós tínhamos times de futebol em que a gente jogava, tinha campo de futebol, mas você ficar longe da família é muito complicado.

 

P/1 – Quem eram essas crianças, como era o perfil dessas crianças? Você se recorda de que tipo de gente que ia pra lá? Porque, com certeza, cada um tinha uma história própria e tem um motivo pra ter ido parar lá, mas você lembra mais ou menos o perfil? Quem você conheceu, fez bons amigos lá, como era?

 

R – Não, depois nunca mais tive contato com nenhum deles, mas eu imagino pelo tipo de garotos que eram pessoas simples também, com histórias parecidas, né? Não tem nada que eu destaque.

 

P/2 – Como que era sua relação com a Irmã, você se sentiu acolhido por ela ou...?

 

R – Ah, muito.

 

P/2 – Tinha uma relação de afeto?

 

R – Ah, ela tinha. Ela tem essa coisa de afeto com as crianças, não só comigo, com todas até hoje. Ela se dedica a isso até hoje, imagina, uma vida inteira, né? Às vezes eu até penso, um dia, se eu tivesse condições, de escrever um livro sobre ela.

 

P/1 – Era uma educação rígida porque era um colégio católico? Era rígida a disciplina?

 

R – Era. Tinha horário pra tudo, todo domingo você tinha que assistir a missa e tinha o sermão do padre, ele sempre tentando formar dentro da visão deles. Da visão católica daquela época, considerando que naquela época era anos 60 e eles tentavam incutir na gente todos aqueles valores da época, da religião também, então é... Por exemplo, o dia em que minha mãe me levou lá, eu não sabia que eu ia ficar lá. Minha mãe me levou, eu achei que estava fazendo um passeio. Hoje não me lembro se ela me falou que eu ia ficar lá e eu não consegui entender isso, mas ela me entregou na mão da Irmã Lina, aí a Irmã Lina me abraçou...

 

P/1 – Como você recebeu a notícia que ia sair de lá, quando foi? Você sabia que terminando a quarta série vocês saíam?

 

R – Então, só concluindo. A Irmã Lina me abraçou e minha mãe saiu correndo, foi assim que ela me deixou lá... Mas depois ela começou a me visitar e com o tempo eu fui entendendo melhor aquela situação. Pra sair de lá houve toda uma preparação, então já começaram a me “formar”: “Olha, você vai terminar, depois você vai voltar pra sua casa, aí você vai ajudar sua mãe.” Meu pai já não morava junto − “Vai ajudar tua mãe, vai estudar, isso é importante”. Eles foram me preparando pra sair e quando eu saí, foi quase uma coisa normal, natural. Logo que voltei pra casa já comecei a trabalhar.

 

P/1 – Quando você volta pra casa, a sua mãe já tem a casa dela ou você foi morar com a tia também?

 

R – Deixa eu me lembrar... Nós moramos... Eu vinha pra casa nas férias, naquele quarto que a minha tia cedeu. Durante quatro, cinco anos, minha família morou nesse quarto e, é incrível falar isso agora, mas não tinha energia elétrica.

 

P/1 – Não tinha?

 

R – Não tinha. E eu lembro que tinha lamparina, isso em São Paulo. Eu lembro que ganhei um bicho de pelúcia na época. Era todo coloridinho o bicho de pelúcia.  Pela luz da lamparina, vai ficando todo escuro, pela fumaça... Então não tinha luz elétrica. A gente dormia no chão, tinha só uma cama e dormia naqueles acolchoados. Forrava o chão com acolchoados e dormiam todos ali. Minha mãe na cama, mais um ou dois ali com ela e o restante no chão – acho que uma das irmãs dormia com ela e o restante no chão. Depois nós mudamos dali, fomos morar num bairro próximo chamado Vila Clara, aí sim, já era alugado.

 

P/1 – Mas espaço de vocês, da sua família?

 

R – Isso, só da minha família, porque aí todas as minhas irmãs trabalhavam, né?

 

P/1 – E quantos anos você tinha?

 

R – Ah, eu não estou bem certo se foi quando eu voltei pra casa ou um pouquinho antes, mas foi nessa época que nos mudamos pra essa nova casa e todos trabalhando. Como a gente morava em casa alugada, a gente mudou muito e sempre pra aquela região, sem ir muito longe. Morei muitos anos ali, na região do Jardim Miriam. Morei na Vila Joaniza, que também pertence à subprefeitura da Cidade Ademar, então morei sempre por ali. A gente mudava muito. Às vezes vencia um ano de aluguel, já tinha que mudar.

 

P/1 – Quando você saiu − só voltando um pouquinho −,  saiu do colégio, foi morar de novo com a família e falou que começou a trabalhar. Você parou de estudar?

 

R – Não, sempre continuei estudando.

 

P/1 – Você estudava e trabalhava?

 

R – Sempre continuei estudando.

 

P/1 – Você fazia o que?

 

R – A primeira coisa que eu fui fazer, com 11 anos, é tentar vender sorvete que nem meu irmão fazia, então nós tentamos fazer juntos, mas eu não era um bom vendedor (risos). Meu irmão já era um moleque descolado na rua e eu não, era todo tímido, não conseguia. Eu me sentia meio envergonhado, na verdade eu me sentia envergonhado de fazer aquele trabalho, aí um senhor me ofereceu trabalho numa oficina mecânica.  Não era de carro, era uma oficina de geladeira, ele consertava geladeiras, aí eu passava o dia lixando geladeiras pra ele pintar. Lixando, ajudando, era um ajudante, pra ele consertar as geladeiras. Ele tinha dois funcionários, dois meninos, então eu ganhava menos que o salário mínimo − bem menos, talvez metade do salário mínimo da época − e ficava ali, trabalhando nessa oficina de geladeira e estudando. Sempre estudando a noite, nos colégios públicos lá da região, só que o ensino na época eu acho que era melhor do que hoje. É isso, sempre trabalhando muito.

 

P/1 – Só voltando um pouquinho, como era a questão da venda de sorvetes? Você tinha um carrinho, uma geladeirinha e ia vendendo na rua?

 

R – É, meu irmão que me levou pra tentar vender junto com ele. Então a gente ia às fábricas de sorvete, eram fábricas pequenas da região mesmo, ali daquela região. Fabricavam sorvetes, eu não sei muito bem o processo porque eu era moleque e nunca me preocupei com isso.

 

P/1 – Mas era picolé?

 

R – Era picolé. Era mais gelo do que (risos)... Era, imagino, sem entender muito o processo, como se fosse um Ki−suco que eles colocavam pra gelar e colocava numa caixa de isopor. Você pendurava a caixa de isopor e saía pela rua: “Sorveteiro”.

 

P/1 – Você lembra onde vocês iam vender?

 

R – Sempre pela região. A gente nunca ia muito longe, até porque a gente não tinha dinheiro pro ônibus e então ficava sempre ali. Nós não tínhamos nenhuma técnica de vendas, saber que ponto era melhor e onde não era. Era mais na intuição mesmo, né?

 

P/1 – Mas vocês iam às avenidas mais movimentadas?

 

R – Não, não necessariamente. A gente não tinha...

 

P/1 – Pelas ruas do bairro?

 

R – Pelas ruas da região. Às vezes andava quatro, cinco quilômetros pra ver se conseguia vender alguma coisa, mas meu irmão era melhor vendedor que eu, então eu já...

 

P/1 – (risos) E aprendeu sozinho, né?

 

R – Quem, meu irmão?

 

P/1 – É, a vender sozinho.

 

R – Meu irmão era moleque de rua, né? Ele teve todas as vantagens e desvantagens de viver na rua. Uma das desvantagens foi ele não se preocupar muito com ensino, com a escola, então ele não era bom aluno. Abandonou no ginásio e nenhum dos meus irmãos foi além do ginásio. Das minhas irmãs, a que se esforçou mais conseguiu concluir só o ginásio, seria hoje o primeiro...

 

P/1 – A quinta série?

 

R – Não, a oitava, né? Era a oitava série. Hoje é o primeiro grau, então concluiu o primeiro grau, mas não foi além disso.

 

P/1 – E você? Continuou estudando? Você trabalhava de dia, você trabalhou na oficina reformando geladeira...

 

R – Isso, primeiro esses bicos de tentar vender alguma coisa, em que eu não fui bem sucedido (risos), depois tinha geladeira e com 13 anos eu fui com minha mãe ao Juizado de Menores. Eu não lembro bem como é feito isso, mas ela me deu autorização especial junto ao Juizado pra eu tirar carteira profissional. Ainda tenho guardada... Eu tinha 13 anos quando tirei a carteira e aí ela arrumou emprego pra mim no prédio em que ela trabalhava. Ela trabalhava nessa época como ajudante de cozinha e me arrumou emprego de office-boy, lá no centro da cidade. Eu ia trabalhar junto com ela no mesmo ônibus, no mesmo horário e voltávamos mais ou menos no mesmo horário.

 

P/1 – E aí você ia pra escola? Você voltava do trabalho e ia pra escola?

 

R – Isso, voltava e ia pra escola. Sempre assim, sempre estudando à noite.

 

P/1 – Isso com 13 anos, mais ou menos?

 

R – Com 13 anos, foi meu primeiro registro em carteira.

 

P/1 – Era em que lugar, no centro de São Paulo?

 

R – No centro, tem um... É um prédio chamado ________________, que fica bem, ali na [Avenida] Prestes Maia.

 

P/1 – Prédio comercial?

 

R – Um prédio comercial. Lá dentro desse prédio tinha uma papelaria. Eu era office-boy dessa papelaria. Fazia de tudo lá, ia entregar material, limpava loja − porque a loja ficava dentro do prédio, aí limpava a loja.

 

P/1 – Nessa época em que você era adolescente, tinha amigos? Como foi essa adolescência em que você trabalhava o dia inteiro, estudava à noite? Dava tempo pra sair com os amigos, você conseguia namorar?

 

R – Ah, é... namorar nessa época era... Era um pouco cedo, mas dava pra ter aqueles flertes de adolescente, aquelas paixões recolhidas. Eu era muito tímido nessa época, bastante tímido, até por ter estudado no colégio. Era muito tímido, então minhas paixões nessa época eram paixões platônicas, né?

 

P/1 – Com 13, 14 [anos]?

 

R – Já tinha as minhas paixões, paixonites platônicas, de criança. Mas eu tinha os amigos do bairro, as pessoas que moravam próximo. Tinha o Josa, que era meu amigo porque a gente morava numa casa em que a dona também morava no mesmo quintal, na Vila Clara. Depois, com o passar dos anos, eu fui... Eu até descobri que o Josa foi preso, tornou−se um marginal. A última notícia que eu tive dele foi que estava preso. Como muitas crianças daquela época que não conseguiram oportunidades, talvez... Não sei, mas era um grande amigo meu, a gente brincava junto.

 

P/1 – Nessa época mais ou menos de 13, 14 anos?

 

R – Nessa época.

 

P/1 – Quanto tempo você ficou nesse emprego?

 

R – Esse emprego...

 

P/1 – De office-boy.

 

R – [No] meu primeiro emprego eu fiquei exatos nove meses e aí eu continuei procurando emprego. Isso foi em 73. Encontrei emprego em uma empresa multinacional, em Santo Amaro. Era a época do milagre econômico, então muitas empresas colocavam cartazes “Procura-se”. Era comum você passar em frente às empresas e ver lá “Precisa-se”, “Procura-se”, então sempre estava olhando, sempre estava vendo alguma coisa, porque eu não gostava de trabalhar de office-boy. Eu me lembro, eu trabalhava de office-boy nessa papelaria, aí pedi pra sair, porque eu tinha que carregar muita coisa pra entregar, muitas vezes pacote pesado, papel sulfite... Eu tinha que andar, não tinha dinheiro pro táxi.  Naquela época era ônibus, então tinha que pegar ônibus, aquela dificuldade toda pra entregar aqueles materiais nas empresas que compraram esses materiais, eu ficava...

P/1 – Então voltando um pouquinho, você trabalhava de office-boy num condomínio lá da Prestes Maia no centro da cidade e você não gostava, então você procurava emprego. Como era a época pra procurar emprego?

 

R – Tinha muito emprego, era uma época que o país estava crescendo, depois eu fui entender. Na verdade, eu nem sabia que era a época do milagre econômico − depois eu fui estudar sobre isso −, mas tinha muitas placas de “Precisa-se”.  Você comprava o jornal de domingo, principalmente de domingo e encontrava quatro, cinco cadernos de emprego, então eu quis sair. Minha mãe não queria que eu saísse porque eu trabalhava perto dela, ela trabalhava de ajudante de cozinha num restaurante que ficava no mesmo prédio. O prédio chama−se ___________, um prédio grande da Prestes Maia, um dos mais altos de São Paulo. Eu trabalhava no sétimo andar, então na hora do almoço eu descia e almoçava de graça, porque o dono do restaurante, que era o patrão dela, me cedia o almoço de graça por ela trabalhar lá. Tinha essa comodidade de não precisar levar marmita, comer lá, então ela achava que eu não deveria sair, mas eu falei pra ela que eu precisava sair porque eu não gostava do emprego e eu queria... A empresa só tinha um funcionário, era o dono da papelaria e eu, que fazia tudo lá, não tinha pra onde crescer, então eu queria sair...

 

P/1 – E você já tinha em mente nessa época o que queria fazer ou você queria qualquer emprego que não fosse esse?

 

R – Não, eu queria mudar de emprego, mas não sabia onde eu queria. Na sequência arrumei um emprego, outro de office−boy, lá no centro também, numa empresa na Avenida Ipiranga. Eu comecei a trabalhar nessa empresa e já não podia almoçar onde minha mãe trabalhava porque mudei de emprego, então o próprio dono do restaurante falou “Agora não.” Aí eu teria que levar marmita. Eu levava marmita todo dia e me lembro que um dia, logo no começo desse novo emprego, a marmita azedou; eu falei “Puxa.” Não tinha o que comer, fiquei sem almoço. À noite falei pra mãe “Eu preciso arrumar outro emprego”. Estava há pouco tempo lá, não tinha sido registrado ainda. Eles pediram pra ficar uns dias antes de registrar e foi bom pra mim, porque  aí eu falei “Ah, não dá pra ficar lá levando marmita. Eu preciso arrumar outro emprego.” A região de Santo Amaro fica mais perto da região da Cidade Ademar; era um bairro industrial na época, tinha muitas fábricas ali. Eu comecei a procurar emprego naquela região de Santo Amaro. Arrumei emprego através do jornal; eu vi o anúncio “Precisa-se aprendiz de arquivista.” Eu falei “aprendiz de arquivista?” O nome é engraçado, né? Eu falei “Bom, não deve ser difícil aprender a arquivar as coisas”, mas na verdade era outro nome [para a função] de office-boy. Na prática era isso, mas eu fui e preenchi ficha lá. Eu já estava com 14 anos e uma das coisas que me agradou muito é que era uma empresa grande, tinha 1200 funcionários.

 

P/1 – Tinha mais estrutura?

 

R – Tinha, e tinha restaurante no local. Ah, que maravilha (risos), não precisava levar marmita, ter lugar pra comer todo dia. Na hora que falou que tinha restaurante no local eu falei “Precisa trazer marmita?” “Não, aqui tem restaurante.” “Ah, então que maravilha.” Então eu fui trabalhar lá e comecei a ganhar um pouco melhor. Eles pagavam o salário mínimo – até então eu não tinha conseguido ganhar o salário mínimo. Encontrei lá uma pessoa – encontrei várias pessoas boas na minha vida – encontrei um senhor chamado Luciano. Um português, rigoroso, sério. Eu trabalhei nessa empresa oito anos, aí no convívio com ele descobri que ele tinha uma filha e o sonho dele sempre foi ter um menino. Ele não tinha, aí quase me adotou como filho. Pouca gente gostava dele porque ele era muito rigoroso, ele era chefe de departamento pessoal. O chefe de departamento numa fábrica, numa empresa grande, geralmente é a pessoa mais odiada da empresa, porque é o cara que tem que descontar se o cara chegou atrasado, se a justificativa que o cara fez não convenceu. Então seu Luciano era muito rigoroso com todo mundo. Comigo, ele me tratava super bem, sempre me ajudou muito. Ele me emprestava o jornal pra ler todo dia, ele comprava o jornal e eu lia o jornal que ele comprava, isso me ajudou muito. Eu me lembro que um dia eu voltei da “cidade”, que eu... Na prática eu era office-boy mesmo, aprendiz de arquivista era o registro na carteira...

 

P/1 – Foi um golpe do português (risos)?

 

R – Eu não sei se eles tinham essa denominação, porque eu não sei de onde eles tiraram, mas na prática eu ia pra “cidade”, fazia serviço de boy, né? Lembro que eu fui um dia pra “cidade” e choveu. Meu sapato era aqueles − hoje não existe mais −, mas eu tinha um sapato de Verlon, que era uma espécie de borracha, e sapato de Verlon tem dois problemas: primeiro que ele dá um chulé danado, mas é porque era barato, então a gente comprava esse. Choveu nesse dia e eu me molhei inteiro, inclusive o sapato de Verlon (risos). Quando eu voltei pra empresa, parecia um frango molhado e o sapato fazia “tchec, tchec, tchec”, todo molhado. No dia seguinte ele me entregou de presente um guarda-chuva, uma capa e um sapato. Então foi uma pessoa que eu tenho boas recordações também.

 

P/1 – Você entrou lá com quantos anos, 14?

 

R – Quatorze anos.

 

P/1 – E ficou lá oito anos?

 

R – Fiquei lá até os 22 anos, sai de lá aos 22.

 

P/1 – Uma coisa que me ocorreu: nessa época você falou que na casa da sua tia não tinha energia elétrica. Quando vocês foram morar no espaço de vocês, já tinha?

 

R – Já tinha.

 

P/1 – Como vocês conservavam o alimento antes disso? Não dava pra ter geladeira, não dava pra ter nada? Como era, você se lembra disso? Só voltando um pouquinho, depois a gente volta...

 

R – Minhas tias que vieram antes pra São Paulo moravam num terreno grande, em casa. Nesse terreno tinha três famílias morando (risos), isso é muito comum na periferia. Então tinha de um lado uma casa com uma tia, do outro lado outra tia, seriam duas casas no térreo e esse quartinho ali em cima. A gente subia uma escada, era só o quartinho que ficava em cima, inclusive pra ir ao banheiro tinha que descer a escada. Mesmo à noite, tinha que descer a escada e passar por fora da casa pra ir ao banheiro. Quando a gente tinha alguma coisa pra guardar, alimento e tal, a gente deixava na geladeira de uma das tias, guardava...

 

P/1 – Ah, porque só uma das casas que não tinha energia elétrica?

 

R – Só esse quarto em cima que não tinha.

 

P/1 – Ah, vocês não tinham, mas embaixo...?

 

R – Embaixo tinha.

 

P/1 – Lá não tinha luz, mas vocês conservavam alimento lá embaixo, tinha geladeira na parte de baixo. Tá certo?

 

R – Isso.

 

P/1 – Você se lembra de alguma história interessante que aconteceu nesse período em que você estava nessa empresa? Voltando já pros seus 14 anos, dos 14 aos 22 que você passou lá, você concluiu o segundo grau? Você concluiu o primeiro, fez o segundo grau e estava nessa empresa...

 

R – Eu fiz o colégio, estava nessa empresa, aí quando concluí o colégio eu... “Bom, agora tenho que fazer faculdade”. Eu perguntei lá: “Escuta, eu tenho que fazer faculdade, o que eu devo fazer?” Eu não tinha definição ainda. Depois de três anos de empresa me subiram de cargo.

 

P/1 – Você não era mais o arquivista?

 

R – Não, me passaram pra auxiliar de compras. Com 17 anos, eu era auxiliar de compras e já era o melhor salário da minha família.

 

P/1 – E 17 anos você estava no terceiro colegial?

 

R – Isso, estava concluindo o terceiro colegial, aí me passaram pra auxiliar de compras, já tinha o melhor salário da família. Eu perguntei lá pra empresa “O que eu devo [fazer]?” Porque eu gostava de trabalhar lá, aí o pessoal: “Você tem que fazer, você é auxiliar de compras. Quer continuar na empresa? Se fizer economia, administração é uma coisa que pode te ajudar aqui na empresa.” Aí eu fiz, prestei vestibular pra economia e entrei na PUC.

 

P/1 – Você pagava?

 

R – Pagava.

 

P/1 – Com o seu salário, você conseguia pagar a PUC e ajudar em casa?

 

R – Conseguia.

 

P/1 – E você se divertia? Você usava seu dinheiro pra... Como você gastava o seu dinheiro nessa época, aos seus 17 anos?

 

R – Ah, eu me lembro que tinha uma coisa que eu gostava de fazer, aliás todo mundo ali do... Eu estudei no Martins Pena nessa época, que era um colégio ali da Cidade Ademar. Tinha uma namorada que estudava na minha classe, então a gente de vez em quando gostava de ir a rodízio de pizza. Naquela época tinha o famoso Grupo Sérgio (risos), não sei se vocês já ouviram falar (risos)... A gente era muito babaca naquela época (risos), a gente ia lá e apostava em quem comia mais (risos), porque pagava um valor só.

 

P/1 – O quanto viesse, comia à vontade...

 

R – É, então a gente apostava quem comia mais. Eu me lembro de uma dessas disputas. Eu consegui comer nove pedaços, é muita coisa. O que ganhou o apelido dele era Gordo, ele comeu 24 pedaços. Lembro−me até hoje.

 

P/1 – Nossa, o seu máximo foi nove e ele comeu 24?

 

R – Vinte e quatro. O apelido dele, até pelo volume dele, era Gordo. O Gordo comeu 24 pedaços.

 

P/1 – Ele sempre ganhava?

 

R – Ah, ele era campeão, né? E então, eu gostava de ir ao cinema.

 

P/1 – Com a sua namorada? Conta dela um pouquinho pra gente, como você a conheceu, com quantos anos?

 

R – Foi no terceiro colegial e foi... Acho que a primeira namorada, [namoro] mais sério mesmo. Até então eu tinha paixões platônicas, geralmente não correspondidas, né? Paquerava as minhas primas.

 

P/1 – Que moravam perto?

 

R – É porque... Tudo próximo, sempre estava na casa de um... Uma das nossas diversões de domingo era ir almoçar na casa de uma tia. Ou elas vinham almoçar em casa ou a gente ia almoçar na casa das tias, então era uma festa. Final de semana, comer uma comida diferente e aí paquerava as primas. No terceiro colegial foi que eu tive uma namorada. Um pouco mais sério, demorou um pouquinho mais.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Eu tive duas namoradas no mesmo ano, um namorico e um namoro mais sério. Uma se chamava Roseli...

 

P/1 – Que foi a primeira, a do namorico?

 

R – É, que foi um...

 

P/1 – Um affair?

 

R – Foi um namoro mais curto e depois eu tive outro namoro. Eu fui conhecer o pai dela e tudo, comecei a frequentar a casa dos pais.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Rapaz, me fugiu o nome agora, mas depois eu vou lembrar e vou te falar. É porque eu a apelidei de Biscoito e eu a chamava mais de Biscoito do que pelo nome.

 

P/1 – Você chamava pra ela inclusive?

 

R – Pra ela. “Oi, Biscoito, tudo bem?” Não me lembro porque a apelidei de Biscoito, mas depois eu vou lembrar o nome dela. A gente ficou acho que um ano namorando, já de ir em casa e tal.

 

P/1 – Conheceu o sogro, a sogra?

 

R – Conheci. Família Branco, eu lembro o sobrenome dela. Eles eram do Paraná e também tinham migrado pra São Paulo, mas depois terminou o namoro e não tive mais contato.

 

P/1 – Então ela acompanhou essa sua transição do colegial pra faculdade, ela estava com você ainda?

 

R – Nós estudamos juntos, praticamente o ano inteiro. Terminamos o colegial, continuamos um pouquinho, porque eu não entrei logo em seguida. Não consegui − eu prestei, mas levei bomba.  Aí fiz o [cursinho] Objetivo da [Rua] Vergueiro. Depois do cursinho, eu prestei vestibular e passei na PUC. Estava com 19 anos. Como eu faço aniversário no começo do ano, eu prestei vestibular com 19, mas eu comecei com 20 anos de idade.

 

P/1 – E como foi? Conte um pouquinho da sua impressão. Como é entrar numa faculdade, porque é um ambiente completamente diferente, com outras cabeças. Outros tipos de gente, você conhece muita gente diferente. Foi impactante?

 

R – Foi tudo... A fase dos 18 aos 20, quando eu terminei o colegial e cursinho e faculdade... Foi um período de grande transição na minha vida, grandes mudanças.

 

P/1 – Conta um pouquinho pra gente.

 

R – Bom, eu tinha falado que eu era uma pessoa muito tímida. Eu era muito esforçado, profissionalmente e na escola. Eu nunca fui muito brilhante. Tem pessoas que são brilhantes, que se olhar um... Já sabem e já entendem tudo, captam as coisas muito fácil. Eu sempre fui muito esforçado, mas lia muito.

 

P/1 – O que você gostava de ler?

 

R – Eu lia jornal, né? Eu trabalhava ainda nessa empresa. Seu Luciano era bem mais velho que eu, ele era como se fosse um pai. A gente almoçava junto, conversava e... Eu não lia livros muito bons na época, porque eu lia tudo que caía na minha mão. Eu lia tudo, até bula de remédio eu queria ler, então eu pegava o que estava mais próximo, mais prático. Tinha um cunhado que gostava de ler livros de gibi, de bangue-bangue, sabe aqueles livrinhos de bolso? Não sei se ainda existem, tinha livrinhos de bangue-bangue de bolso, não aqueles que têm desenho, só historinhas mesmo. Caía na minha mão, eu lia. Tinha uma revista chamada Seleções, que eu não sei a pronúncia...

 

P/1 – Reader’s Digest.

 

R – Eu não sei a pronúncia, mas era... Lia livros sobre a Segunda Guerra Mundial porque tinha um amigo que gostava e tinha uma coleção. Ele emprestava, aí eu lia, mas eu lia quantidade, eu não lia qualidade.  Mas aí começou uma grande fase de transição na minha vida. Aos 18 anos eu deixei de ser tão tímido. Na empresa em que eu trabalhava nessa época, nessa fase de transição eu conheci o Humberto. O apelido dele era Dentinho e foi uma pessoa que nos apresentou, ela me conhecia e conhecia ele. A gente trabalhava na mesma empresa, tinha se visto, mas nunca tinha conversado, porque eram 1200 pessoas na empresa, né? Empresa grande... Ela falou “Pô, você é um cara inteligente, pensa muita coisa legal. O Dentinho é um cara muito legal, é cabeça boa também, você não queria... Vamos lá conhecer ele.” A gente se tornou grandes amigos. Eu tive três grandes amigos nessa empresa: o Seu Luciano, um rapaz que trabalhou comigo de office-boy chamado Sebastião... Dos dois office-boys nos tornamos amicíssimos, de um ir à casa do outro, de ele conhecer minha mãe, eu conhecer os parentes dele. Uma vez, nós passamos férias lá em Minas Gerais − a família dele é lá de Minas −, fomos a uma cidade no sertão, no Polígono das Secas, que é a parte norte de Minas, quase chegando à Bahia. Nós fomos passar umas férias lá (risos)... Coisa de doido. E esse Dentinho, muitos amigos, mas esses foram os mais. O Dentinho influenciou muito minha vida, porque ele era militante da DS; ele era um cara de esquerda, a DS era uma tendência na época, 78, 79. Era um grupo de esquerda que depois, futuramente... Com a criação do PT, acabou fazendo parte do PT.

 

P/1 – DS?

 

R – DS, Democracia Socialista. Ele já era um militante na época da DS, na época não existia o PT ainda.

 

P/1 – Qual época, mais ou menos?

 

R – Em 78, 79. Ele teve muita influência na minha vida. Na época, ele fazia parte da oposição metalúrgica de São Paulo e a empresa em que eu trabalhava era uma metalúrgica americana, então ele começou a... Ele tinha um grupo de estudos, naquela época a esquerda tinha muito essa coisa de ter grupos de estudos. Ele me convidou pra fazer parte do grupo de estudos. Eu nunca me filiei à DS. Assumi a militância da DS, mas eu me identifiquei com ele, com as propostas da esquerda e aí comecei a ler qualidade, né?

 

P/1 – Antes de você entrar nisso, eu queria só fazer uma pergunta que eu esqueci antes. Durante o período de estudos você ia melhor em que tipo de matéria? Humanas?

 

R – Humanas. Eu tinha trauma de matemática, tenho até hoje, então sempre me dei mais... Eu gostava de História, Língua Portuguesa, Geografia.

 

P/1 – E isso te facilitou então, voltando agora... Entrar nesse grupo de estudos foi bom porque você já tinha essa aptidão pra estudar História, política, Geografia?

 

R – Na verdade, foi tudo casando. Na empresa que eu trabalhava tinha um pessoal da esquerda lá dentro, militante. O Dentinho era, vamos dizer assim, o principal. Faziam parte da Oposição Metalúrgica de São Paulo, que tinha toda essa formação de esquerda.  Então o Dentinho começou a me indicar, por exemplo, pra ler Marx, “O Capital”, ter grupo de estudos pra fazer reflexões sobre esses livros. Na faculdade eu fui entrar onde? Na PUC, certo?

 

P/1 – Que era um grande centro...

 

R – Isso, que era um grande... Era uma época de efervescência da esquerda, na PUC também. Eu fui fazer economia, mas no curriculum de economia você passava três anos estudando Marx, “O Capital” [partes] um, dois e três. A parte de matemática era secundária no curso de economia. Tinha as cadeiras de matemática, que eu não gostava, ia muito mal e tinha a parte teórica − eu gostava da parte teórica. Então foram casando as coisas, né?

 

P/1 – Você se formou em economia, terminou o curso?

 

R – Não, não terminei o curso.

 

P/1 – Por que, o que aconteceu?

 

R – Primeiro, essa guinada na minha vida em termos de postura. Eu mudei como pessoa, já não era tão tímido. Eu comecei a participar desses grupos de estudo e já comecei a me identificar com a esquerda. Se até aquela época eu pensava em subir na vida, a questão financeira era a mais importante, ela perdeu importância. Na faculdade também eu comecei a entender um pouco os movimentos estudantis; lá na PUC a gente fazia greve até por causa do preço da refeição. Aumentava o preço da refeição, o pessoal parava a faculdade pra discutir o preço da refeição. Comecei a entender isso um pouco melhor e, bom, a mudança foi tão radical que as 22 anos esse processo estava completo... De mudança. Eu participei de uma greve, fui um dos líderes da greve dessa empresa, fui mandado embora por justa causa.

 

P/1 – Porque apoiou a greve?

 

R – É, por causa da greve. Não apoiei, eu fui um dos cinco...

 

P/1 – Que encabeçou, você encabeçou...

 

R – É, tinha uns cinco líderes da greve, eu fui um dos cinco.

 

P/1 – O seu Luciano mesmo foi quem te demitiu?

 

R – É, ele mesmo que me demitiu, ele que veio me dar a notícia. Pra ele, deve ter sido muito duro e era uma época ainda... Já não tinha tanto aquela repressão, já se desenhava uma abertura no Brasil, mas de qualquer maneira ainda se chamava a Polícia Federal pra greve.

 

P/2 – Em que ano foi isso?

 

R – Oitenta e dois.

 

P/2 – Oitenta e dois?

 

R – Oitenta e dois. Nos dias da greve tinham vários agentes da Polícia Federal dentro da fábrica. Eu me lembro que um dia − nós ficamos uns dez dias paralisados −, eu lembro que um dia estava fora da fábrica, eu estava no portão e fecharam o portão pra eu não entrar. Os seguranças da empresa, eles fecharam, mas tinha polícia da PM também na porta, então eu lembro que eles não queriam que eu entrasse. Eu era um dos líderes da greve, aí o Dentinho falou “Oh, você tem que entrar, é uma questão de honra você entrar pro movimento, porque eles querem isolar você, querem deixar você do lado de fora pra você não entrar.” Foi uma muvuca tremenda e entramos, aquele empurra−empurra, rasgaram toda a minha blusa, mas consegui entrar e no final da greve, porque nós não... Na época eu não entendia muito bem. Eu tinha uma visão de esquerda, mas eu não entendia essa coisa mais geral da economia, porque a fábrica estava sendo fechada no Brasil e nós estávamos em greve pra evitar demissões. A nossa greve era porque a empresa ia fazer cortes, ia demitir muitos funcionários e nós estávamos fazendo greve pra evitar essas demissões. Hoje eu sei que nós não tínhamos a mínima condição de vitória porque a...

 

P/1 – A fábrica já ia fechar...

 

R – Ela fazia aquelas ________________ de banco, o nome da empresa é, na época chamava-se _______________, fabricava aquelas _______________ de banco. Pela lei da informática da época, empresas multinacionais não poderiam fabricar esses equipamentos no Brasil, na área de informática, na área eletrônica. Então se não podia fabricar o futuro, aquelas máquinas eram elétricas, não eram máquinas, hoje tem as _______________ de banco. É tudo computador, terminais, funcionavam praticamente como terminais. Então esse era o futuro.  Eles não podiam fabricar, então ia fechar a fábrica.

 

P/1 – E como é a sensação de participar de uma greve. Mais que participar, encabeçar. Como foi isso pra você?

 

R – Ah, dava um frio na barriga danado (risos).

 

P/1 – De medo, de orgulho, de tudo?

 

R – Não, é... eu acho que o que prevalecia na época era a gente se sentir herói. 22 anos, você imagina, né? A gente queria mudar o mundo, a gente achava que aquela greve ia ajudar a mudar o mundo. A gente era muito inocente nesse aspecto, a gente achava que “Oh, essa greve aqui vai ajudar muita gente”.

 

P/1 – Você tinha 22 anos, né?

 

R – Vinte e dois anos. E nós... Primeiro isso, segundo o medo danado, porque ainda tinha...  Embora não fosse mais o período negro da ditadura, ainda tinha a questão de ser preso, da Polícia Federal. Qualquer greve, qualquer agitação, os caras chamavam mesmo a Polícia Federal, então nós tínhamos... E insegurança econômica porque, pô, e se eu perdesse emprego, como ia ficar? Na época, o milagre econômico já tinha acabado, foi um período ruim da economia brasileira. No início dos anos 80 foi aquele período que teve saques em Santo Amaro, depois se espalhou pela cidade inteira. Foi o período de muito desemprego, então como vai ser? E na época minha mãe estava viva, eu morava com minha mãe ainda.  Ela [dizia] “Pô filho, não entra nessa não, vai perder o emprego, tudo aquilo que você conseguiu você vai...” Mas eu era muito orgulhoso, hoje eu sei que eu era mais orgulho do que o sentimento revolucionário. Eu me achava o máximo e estava completamente equivocado. Bom, aí fizemos a greve e, terminada a greve, todos os líderes foram mandados embora. Os cinco líderes foram mandados embora por justa causa, nós fomos trancados numa salinha da própria empresa pela própria Polícia Federal que estava lá e depois nós fomos chamados um por um pra sermos informados que estávamos demitidos. A ordem veio de cima, seu Luciano conversou comigo e falou “Oh, eu gosto muito de você, mas acho que você está equivocado. Essa sua greve aí não ajudou em nada, só te prejudicou e eu não posso fazer nada, porque a ordem vem da direção da empresa.” Aí entrei com ação contra a empresa.

 

P/1 – Ganhou ou perdeu?

 

R – Como a empresa estava fechando, eles não tinham interesse em manter o processo na justiça, né? Depois de uns seis meses, eles me chamaram pra fazer um acordo porque pra eles não interessava encerrar a atividade e manter essa briga na justiça com cinco funcionários. Eu fiz um acordo, não era o acordo que eu queria, mas foi o possível e esse acordo me ajudou. Quando eu recebi esse dinheiro, me ajudou a comprar a primeira casa que nós tivemos em São Paulo.

 

P/1 – Você ficou desempregado depois que você saiu de lá?

 

R – Fiquei seis meses desempregado, não conseguia emprego em lugar nenhum.

 

P/1 – Então foi o período até esperar sair esse acordo, aí depois desse acordo você arranja emprego?

 

R – É, depois do acordo eu consegui o emprego, aí...

 

P/1 – Mas quando você foi demitido, você saiu você saiu sem direito nenhum,  porque foi justa causa?

 

R – Sem dinheiro nenhum.

 

P/1 – Uma mão na frente e outra atrás?

 

R – Uma mão na frente e outra atrás. Imagina minha mãe, como ela ficou brava comigo (risos), até pela situação financeira da família que piorou muito, né? Mas aí eu tinha as minhas irmãs, tinha duas irmãs já casadas. Tinha outra, a terceira irmã na sequência, ela já estava numa situação melhor. Meu irmão estava trabalhando também, então deu pra segurar. Minha mãe sempre trabalhando, mas foi uma época difícil. Seis meses desempregado, sem dinheiro e tinha... Foi nessa época que começou, ficava difícil pagar a faculdade.

 

P/1 – E você chegou a tentar uma bolsa, alguma coisa desse tipo?

 

R – Não, não tentei.

 

P/1 – E aí você teve que trancar? Trancou o curso, parou a faculdade?

 

R – Aí parei a faculdade...

 

P/1 – Estava desempregado. O que você fazia nesse tempo?

 

R – Ah, procurava emprego, só procurava emprego, mas continuei a militância na esquerda, continuei participando das reuniões da esquerda.

 

P/1 – Da DS?

 

R – É, porque depois da DS eu conheci outros grupos. Por exemplo, na oposição metalúrgica tinham vários grupos diferentes e eu sempre me portei como independente. Eu não me filiei a nenhuma tendência.

 

P/1 – Mas pensava parecido?

 

R – É, me identificava, mas nunca me filiei a nenhuma tendência e frequentava as reuniões em Santo Amaro, tinha um... bom, é isso. Que mais?

 

P/1 – Como você arruma outro emprego, como foi?

 

R – Eu fui procurando, mandando curriculum, aí consegui um emprego numa empresa da região de Santo Amaro também, chamada Ebracon.

 

P/1 – Fazia o que?

 

R – Fabricava equipamentos de comunicação. Era considerada uma metalúrgica também, mas...

 

P/1 – E você entrou pra fazer o que lá?

 

R – Eu entrei pra trabalhar na área de compras.

 

P/1 – Também? Que era uma coisa que você já fazia na outra?

 

R – Isso, eu já fazia na outra também.

 

P/1 –Você gostava dessa empresa? Era legal?

 

R – Olha, pra quem ficou seis meses desempregado...

 

P/1 – Era uma maravilha.

 

R – Era uma maravilha! Depois, é assim [que] funciona a cabeça das pessoas, a minha acho que não é muito diferente. Quando você arruma emprego, você está lembrando daqueles seis meses, aí você acha uma maravilha. Você está lá, vai passando o tempo e você esquece os seis meses que ficou desempregado (risos), você começa a ver os defeitos da empresa. Por exemplo, eles atrasavam o depósito do fundo de garantia, não depositavam o fundo de garantia todo mês religiosamente como deveria ser, então você começa a ver outros problemas na empresa.

 

P/1 – Você ficou quanto tempo lá?

 

R – Três anos e saí de lá porque arrumei emprego numa outra empresa.

 

P/1 – E você não quis voltar pra faculdade? Você não voltou?

 

R – Não é que eu não quis voltar. Na verdade, não gostei muito do curso de economia também, então tinha a situação financeira. Vamos dizer, o ponto inicial foi a situação financeira, mas acho que não foi o principal porque depois eu poderia ter voltado, poderia ter concluído, mas eu comecei o curso de economia naquela preocupação de ter uma ascensão profissional.

 

P/1 – Até porque o seu Luciano te indicou isso, né?

 

R – Isso. Depois, com essa mudança de visão de mundo, eu comecei a participar da militância. Comecei a namorar também, várias namoradas. Aquele rapaz tímido que era inicialmente... Comecei a ter uma vida, vamos dizer, mais agitada, então eu já não era tão esforçado nos estudos. A única coisa que eu preservei dessa época é a vontade de ler muito, de gostar de ler.

 

P/1 – E você teve algumas namoradas, teve alguma que marcou, alguma que você ficou mais tempo?

 

R – Ah teve. Namorei a Adélia, nós quase casamos. Ela queria casar na igreja e tudo.

 

P/1 – Quantos anos você namorou com ela?

 

R – Entre idas e vindas − eu posso estar errado, mas acho que foram uns oito anos, cara.

 

P/1 – Com quantos anos você a conheceu, com 23?

 

R – Eu a conheci na verdade com... Ela trabalhou comigo na época da __________, conheci ela na época da empresa ainda.

 

P/1 – Você começou a namorar com ela nessa época?

 

R – É, ela participou da greve também.

 

P/1 – Ela foi uma das demitidas?

 

R – Foi uma das demitidas também.



P/1 – Voltando um pouquinho, você participava dos grupos de estudo, conheceu uma namorada na empresa que você trabalhava, saiu da faculdade... Conte um pouquinho mais da sua vida depois disso?

 

R – Eu já estava muito envolvido com os grupos de esquerda, participava da oposição metalúrgica de São Paulo.

 

P/1 – E de outras iniciativas?

 

R – É, de outras, mas sempre na área sindical. Minha militância nessa época [era] sempre na área sindical. Eu era novo, tinha 20 e pouquinhos anos. Na verdade um aprendiz, tinha muitas pessoas muito mais experientes. Pessoas oriundas do partidão, que eram as pessoas que explicavam tudo.

 

P/2 – Você chegou a conhecer o Lula?

 

R – Naquela época eu conheci o Lula, já tinham ocorrido aquelas greves do ABC. O Lula já era uma figura conhecida da imprensa. Eu tive a oportunidade de vê-lo pessoalmente em algumas reuniões do movimento sindical. Eu me lembro que um dia cheguei em casa e falei para mãe: “Mãe, ó, hoje o Lula esteve na nossa reunião e depois ele tomou cachaça com a gente na padaria. Foi legal, o Lula é uma pessoa muito legal, muito simples”... E a minha mãe sempre com muita desconfiança (risos) disso tudo. No final, antes dela morrer, ela acabou entendendo tudo, mas no começo, foi muito difícil para ela aceitar essa mudança, porque o sonho da mãe era que eu assumisse um cargo importante numa empresa.

 

P/1 – Ser bem sucedido?

 

R - Que melhorasse também o nível de vida dela, porque ela merecia muito. Porque foi uma vida muito difícil, então ela tinha planos para mim. Igual hoje − eu tenho um filho. Querendo ou não, você tem planos para o filho, só que a gente só vai entender isso depois que tem os filhos. Enquanto a gente não tem, a gente é muito vaidoso, muito orgulhoso e acha que tem que fazer só aquilo que você quer fazer. Voltando um pouquinho nessa época, conheci o Lula, mas não cheguei a ser amigo dele, ele certamente nem sabe o meu nome, nem sabe que eu existo.

 

P/1 – Mas vocês já sentaram na mesma mesa, alguma vez na vida?

 

R – Já participamos das mesmas reuniões, eu como aprendiz, e ele falando. Já tomamos cachaça na mesma padaria (risos).

 

P/1 – Conte um pouquinho dessa namorada. Você a conheceu na primeira empresa, não na segunda empresa que você trabalhou?

 

R – Não, na segunda empresa registrada.

 

P/1 – Na segunda empresa em que você trabalhou registrado. Você a conheceu mais ou menos em que época, estava com 22 anos?

 

R – Inclusive foi ela que me apresentou o Dentinho. Ela já conhecia o Dentinho.

 

P/1 – Como é o nome dela?

 

R – Adélia.

 

P/1 – Conta um pouquinho dessa história com a Adélia. Você ficou uns oito anos com ela, entre idas e voltas?

 

R – Eu não tenho certeza das datas, mas entre idas e voltas uns oito anos, acho que por ai. Talvez até um pouco mais que isso.

 

P/1 – Você chegou quase a casar com ela?

 

R – Nós quase chegamos a casar. Eu ia à casa dela, conheci os irmãos dela, família de mineiros.  A gente se gostava, mas eu reconheço agora: eu passei essa fase, eu me tornei um cara muito mulherengo. Todo mundo tem os seus defeitos e eu tinha esse defeito, eu era muito mulherengo. Eu namorava com ela, mas ao mesmo tempo tinha alguns casos fora. Ela era muito ciumenta e nós brigávamos muito, por conta dessa... Por minha culpa, ela não tinha culpa nenhuma. Eu era o lado errado, mas assim mesmo nós passamos bastante tempo juntos. Quase casamos, nós chegamos a pensar em casar, aí eu comprei − não compramos juntos, mas eu comprei um apartamento para mim, já pensando inicialmente em casar. E depois em morar sozinho, saí da casa da minha mãe.  Minha mãe, como eu já te falei aqui, era alcoólatra, isso me incomodava muito. Minha irmã mais velha aceitava melhor, sempre falo para a Luzia que ela conviveu melhor com a minha mãe. Ela aceitava melhor o problema, sempre tratou minha mãe com muito carinho. Nos piores momentos, mesmo quando minha mãe estava bem alcoolizada, ela sempre chamava a mãe de “mãezinha”. Ela teve uma paciência muito grande com a minha mãe. Eu reconheço que não tive essa paciência. Isso era uma coisa que me incomodava e eu não queria ser responsável por ninguém. Eu queria viver a minha vida, eu queria morar sozinho.

 

P/1 – Esse vício da sua mãe alguma vez a prejudicou no emprego? Ela chegou a perder emprego por causa disso? Como ela lidava com essa situação?

 

R – Diretamente não. Pelo menos que eu saiba, ela nunca foi mandada embora por conta disso, porque ela sempre trabalhou muito, foi sempre muito trabalhadeira. Por exemplo: à noite ela bebia, [no] final de semana ela bebia, quando não estava em trabalho. Se ela bebia no trabalho, ela bebia pouquinho, então não deixava... Ou então os patrões tiveram paciência com ela, não sei, mas também pelo fato dela ser muito “trabalhadeira”, talvez eles relevassem. Se eventualmente aconteceu isso −  porque não dá para saber, né, não estava sempre junto −, mas se eventualmente ocorreu alguma coisa assim, pelo fato dela ser muito trabalhadora, compensou um pouco e eles relevaram isso. No final de semana minha mãe era... Durante muitos anos, não na fase final da vida dela, mas quando eu era adolescente, ela bebia e fazia escândalo, então eu me sentia muito envergonhado com isso. Era o período em que eu era tímido ainda, nossa... Você imagina?

 

P/1 – Não lidava muito bem com isso.

 

R – Então ela brigava com as minhas tias, brigava com os meus tios, brigava com os meus irmãos, brigava com a gente.

 

P/1 – Vocês nunca pensaram em interná-la não, vocês nunca tiveram essa ideia?

 

R – Não, nunca pensamos em interná-la. Pensamos em ajudá-la, a levamos ao AA [Alcoólicos Anônimos], mas interná-la... Talvez meus irmãos mais velhos talvez tenham pensado nisso, para mim nunca passou isso.

 

P/1 – Voltando um pouco.  Você chegou a casar depois da Adélia?

 

R – Nós pensamos em casar, estava encaminhando para isso, aí me deu um medo danado de casar.

 

P/1 – Pela responsabilidade?

 

R – Pela responsabilidade e no fundo eu sabia que eu não estava preparado, até porque eu era mulherengo. Eu queria... Eu passei de uma fase muito tímido para muito safado.

 

P/1 - Os extremos, de um extremo ao outro?

 

R – Não é uma história muito diferente. Tem muita gente que se casa novinho e aí não curtiu a vida. Depois que está casado, resolve curtir. Essa fase depois do casamento eu acho pior, inclusive, então eu estava numa fase de curtir a vida, né? Conhecia muita gente, muitas pessoas, participava de vários movimentos.

 

P/1 – Não era a hora ainda?

 

R – Eu me sentia muito paquerado, entendeu? E paquerava também, então no fundo eu sabia que não estava preparado, bateu um tremendo medo de casar.  Eu falei para ela “Não dá, não quero casar, você vai ficar magoada, mas não quero casar.”

 

P/1 - Você já morava sozinho, nesse apartamento que comprou?

 

R – Já morava nesse apartamento sozinho, já tinha saído de casa. A minha mãe tinha ficado muito triste no dia que saí de casa, mas já estava lá, e aí eu falei: “o que dá para a gente fazer, se você topar, [é] a gente morar junto. Se der, a gente fica junto. Se não der..” Eu achei que isso era menos responsabilidade (risos).

 

P/1 – Do que assumir um casamento?

 

R – Assumir um casamento civil, igreja.

 

P/1 – Nessa época você fazia o que profissionalmente, você trabalhava onde?

 

R – Nessa época eu trabalhava, se não me engano, na Hartmann & Braun. É porque depois eu fui trocando de empresas, nessa época sempre na área de compras, aí eu falei para ela que não dava para casar. Mesmo assim, ela topou morar junto. Nós moramos juntos seis meses. A gente brigava quase todo dia, não de agressão física, né?

 

P/1 – Mais de bater boca?

 

R – Bater boca todo dia. Eu queria sair, ela: “não vai sair não”. “Agora que eu vou” (risos), mas nunca por culpa dela, sempre por minha culpa. Eu não estava preparado, ela estava preparada, ela estava mais madura pra um relacionamento assim. Embora gostasse muito dela, eu não estava preparado pra esse tipo de compromisso, aí moramos seis meses juntos e não deu certo. Separamos, não tivemos filhos, nada. Foi pouco tempo.

 

P/1 – O que acontece na sua vida depois disso?

 

R – Depois disso? Esses caminhos pela esquerda me levaram a tomar uma decisão. Ah! Depois da Hartmann & Braun − eu trabalhei pouco tempo na Hartmann & Braun −, eu fui trabalhar na Cervejaria Brahma.

 

P/1 – Compras também?

 

R – Sempre na área de... Na Brahma a gente chamava de suprimentos, eu era assessor de suprimento. Na Brahma eu tinha uma vida financeiramente mais confortável. Na época eu ganhava em torno de 2.000 dólares, seria o que? 4.000 reais hoje? Só que naquela época o dólar valia mais, agora ele está desvalorizado (risos). O dólar valia um pouquinho mais, então sei lá, uns 5.000, 6.000 reais naquela época. Tinha uma vida confortável, passava o tempo todo viajando. A Brahma tinha várias fábricas no Brasil inteiro, então a gente ia visitar as fábricas, fazer uma vistoria na área de suprimentos. Tinha uma vida confortável, mas não estava feliz.

 

P/1 – Porque o seu negócio era o engajamento político?

 

R – É, eu não estava feliz.  Eu decidi... Eu tinha um amigo meu na Nicarágua − ele não era nem amigo, era um conhecido −, mas eu comecei a entrar em contato com ele através de outras pessoas. Foi na época que os Sandinistas estavam no poder, Daniel Ortega era o presidente da Nicarágua e havia a contrarrevolução financiada pelos Estados Unidos. Era uma guerra civil, na verdade: a contrarrevolução financiada pelos Estados Unidos combatia o governo sandinista. Ele estava na Nicarágua e muita gente − muita não, né − algumas pessoas de esquerda estavam indo pra lá pra, na nossa visão da época, ajudar na revolução Sandinista.

 

P/1 – Você foi também?

 

R – Eu resolvi ir também.

 

P/1 – Quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha 28 anos.

 

P/1 – Com a cara e a coragem, você se mandou aqui do Brasil e foi pra Nicarágua?

 

R – Eu tinha uma Brasília − na época, Brasília era um carro (risos) −, aí vendi a Brasília e fui. Passei por Cuba, fiquei um mês em Cuba, depois fui pra Nicarágua.

 

P/1 – Como foi passar por Cuba?

 

R – Cuba, eu fui mais para conhecer, porque todo nosso referencial de esquerda na América Latina era Cuba.

 

P/1 – Foi uma decepção ou foi o que você esperava?

 

R – Não foi uma decepção porque eu já estava preparado, já tinha lido bastante sobre Cuba, já tinha bastante informação das pessoas que estiveram em Cuba.

 

P/1 – Então não te impactou muito?

 

R – Não, não me impactou muito. O que eu achei interessante de lá não foi do ponto de vista político, foi conhecer o povo cubano, porque nos 30 dias que eu fiquei lá eu fiz questão de não ser um turista. Por exemplo, eu pegava ônibus, fiz questão de tentar me aproximar das pessoas. Percebi que o cubano é... Na minha visão, o cubano é um baiano de Salvador com mais cultura, é um baiano com uma cultura melhor.

 

P/1 – É um povo acolhedor?

 

R – É um povo acolhedor, alegre, me lembrava muito Salvador. Adoravam novelas, gostavam dos brasileiros. Eles paravam para assistir novelas à noite. Sete, oito horas da noite, nos horários das novelas principais. A ilha parava − a Escrava Isaura lá foi um sucesso estrondoso, sabe? Então gostei do povo cubano, independente de qualquer coisa. Independente da questão ideológica, eu me identifiquei com aquele povo. São muito parecidos com a gente, uma mistura de raças, muitos negros, mulatas.

 

P/2 – Músicas cubanas?

 

R – Eles adoram música e gostam de fazer festas. Essa coisa das regras do socialismo, do controle socialista, da revolução, não é tão grande assim como as pessoas imaginavam. As pessoas faziam festas, se divertiam...

 

P/1 – Quanto tempo você passou?

 

R – Eu passei só um mês lá.

 

P/2 – Você chegou a ficar na casa de algum cubano ou foi em hotel?

 

R – Não, eu fiquei em hotel, mas eu ia visitar os cubanos. Consegui conhecer alguns cubanos. De ir visitar a casa, comer com eles, de visitar bairros pobres de Cuba, porque algumas pessoas falavam ”Pobreza lá eles não mostram”. Não é bem assim, eu conheci bairros pobres. Pobreza é pobreza em qualquer lugar do mundo. Talvez o que eles conseguiram do ponto de vista social é distribuir um pouco melhor. A questão da pobreza, não tem uma coisa tão chocante, mas pobreza é pobreza. Eles têm problemas também. Quer dizer, eu estou falando de uma coisa que vi há 20 anos. As coisas devem ter mudado também lá.

 

P/1 – Conta um pouquinho da Nicarágua. Foi pra Nicarágua e ficou quanto tempo?

 

R – Então eu fui pra Nicarágua com aquela ilusão.

 

P/1 – De que ia ajudar na Revolução?

 

R – De que ia ajudar na Revolução, preparado psicologicamente para pegar em armas, entendeu? Pra ajudar a revolução mesmo. Você chega lá, vê que não é bem assim, então você já... Do ponto de vista ideológico, a Nicarágua foi uma grande lição pra mim, porque a gente, eu e aqueles jovens aquela época. Nós nos achávamos revolucionários, eu me achava o cara (risos).  “Quero ser revolucionário, quero ser um Che Guevara”, aí você chega lá e vê que as coisas são muito complicadas, não é pra qualquer um. Uma das coisas que eu aprendi lá, por exemplo, é que, a não ser que você chegue lá para ser um líder, você pega a coisa no começo... Pra você pegar uma coisa que já está encaminhada, já tinha um... Por exemplo, o Che quando chegou – na história, fazendo um paralelo − quando se juntou ao Fidel, eles desembarcaram em Cuba com 14 pessoas. Quer dizer, eram mais pessoas, mas no desembarque morreu muita gente. Eles tinham 14, quer dizer, eles foram iniciantes, ele foi um dos iniciantes da guerrilha, então a gente pegou a coisa no começo. Na Nicarágua a revolução já tinha acontecido, os Estados Unidos já tinham chegado ao poder, eles estavam lutando para manter o poder, contra o pessoal armado pelos Estados Unidos. Era outro processo. Não tinha a mínima condição de eu lutar ao lado de San Diniz, então era uma ilusão, na verdade eu acabei fazendo trabalhos humanitários.

 

P/1 – Foi bom também?

 

R – Foi bom também, conheci muita gente bacana, mas entre você ir lá pra ajudar na revolução e você ir fazer trabalhos humanitários, tem uma diferença. (risos)

 

P/1 – Tem bastante.

 

R – Tem uma diferença, então foi um aprendizado pra mim, porque nós no Brasil aqui, com todas dificuldades que nós temos, não sabemos o que é um processo revolucionário, nós não sabemos. Nicarágua, quando eu cheguei lá, 50 % da população estava desempregada. Desempregada, entendeu? Então você comprava banana por unidade, me dá duas bananas. Durante muito tempo lá eu comi banana com pão.

 

P/1 – E como que você sobrevivia, de onde você tirava dinheiro?

 

R – Eu fui com uma pequena reserva, né?

 

P/1 – Lá você não trabalhava?

 

R – Eu comecei a fazer trabalhos comunitários. Esse trabalho eu consegui fazer não junto aos Sandinistas, na verdade o meu contato com eles foi ver o Daniel Ortega discursando em praça pública lá e conversar com algumas pessoas que faziam parte, que tinham lutado lá pra tomar o poder. Mas para adquirir conhecimento, não pra trabalhar junto. Eu fui trabalhar com o pessoal de El Salvador que estava refugiado na Nicarágua. Os Sandinistas tinham tomado o poder, estavam no poder da Nicarágua e a guerrilha salvadorenha lutava na época pra assumir o governo em El Salvador. Lutava contra o governo de El Salvador, que era o governo de direito. Tinha muita gente de El Salvador vivendo na Nicarágua como refugiado. Então eu comecei, tem a Igreja Luterana do Salvadorense e junto a Igreja Luterana, que fazia um trabalho social. Comecei a ajudá−los nesse trabalho social, entendeu?

 

P/1 – Quanto tempo você passou lá?

 

R – Eu fiquei lá sete, oito meses.

 

P/1 – Voltou para São Paulo?

 

R – Aí voltei para o Brasil.

 

P/1 – O que você fez aqui?

 

R – De novo fui procurar emprego. Arrumei emprego numa outra metalúrgica, Hime metalúrgica, e trabalhei muito. Isso nós já estamos − demorei muito para arrumar emprego – [em] 89, deixa eu ver... 89, 90, mais ou menos.

 

P/1 - Você tinha trinta anos?

 

R - 29 anos.

 

P/1 – Ah, vinte e nove anos.

 

- Nasci em 60. Foi em 89, mais ou menos. 88, 89, esse período. Aí voltei, fui procurar emprego. Trabalhei numa metalúrgica, também próximo a Santo Amaro, na região da chácara Flora, também na área de compras.

 

P/1 – Trabalhou por quanto tempo lá?

 

R – Um ano. Fui demitido, aí resolvi tentar montar um negócio próprio.

 

P/1 – E o que você montou?

 

R – Montei uma locadora de vídeo.

 

P/1 – Deu certo?

 

R – No começo, deu.

 

P/1 – Quanto tempo você aguentou?

 

R – Eu fiquei até 97, 98 com a locadora, sete anos com a locadora. Vendi para o rapaz que trabalhava comigo, pra ele pagar em parcelas. Só tinha ele de funcionário, ele ficou com a locadora e sobreviveu até recentemente. Fechou há uma semana.

 

P/1 – Putz, você fez o que depois que saiu de lá?

 

R – Quando eu voltei, eu voltei com outra cabeça, sabe? Da Nicarágua, foi um aprendizado tudo aquilo pra mim. Voltei disposto a voltar a estudar, fui prestar vestibular de novo. Primeiro fui me acertar financeiramente, porque não dava para estudar; fui arrumar emprego. Arrumei outro emprego, fui cuidar da questão do estudo... Ah! Aconteceu uma coisa nesse período que impactou muito minha vida, nessa minha ida pra América Central. Nesse período minha mãe faleceu.

 

P/1 – Você estava lá quando ela faleceu?

 

R – Quando ela faleceu, entendeu? E as coisas que acontecem internamente na gente mudam muito. Eu tinha uma visão muito errada da vida. Achava que ia ser o que eu quisesse ser, o meu futuro dependeria só de mim. Eu era muito autossuficiente, não, né? Eu comecei a aprender aí que a vida não é bem assim, que a vida leva a gente, às vezes, pra lugares que você não quer, pra situações que você não deseja e que você pode resistir tentar resistir, mas não tem jeito. Então a morte da minha mãe... Ela morreu quando eu estava fora, eu fiquei sabendo depois de 15 dias que ela tinha morrido, por telefone, e as pessoas aqui no Brasil, meus irmãos falaram “não adianta você voltar, não volte. Volte quando você tiver que voltar, porque ela já foi enterrada”, mas isso me causou um impacto terrível, terrível, terrível, um sentimento de culpa impressionante.  Paguei muito caro por ter ido, ela não queria que eu fosse, né? Imagina, hoje eu entendo, que mãe vai querer que um filho vá para um país que está aquela turbulência, com guerrilha, com uma revolução em processo. Via as noticias de lá, de que a “contra” atacou não sei que cidade. Ela não queria, chorou muito no dia que fui, então foi um baque tremendo na minha vida, um arrependimento. Uma coisa interessante eu aprendi a partir daí: para sermos melhores filhos, nós teríamos que ser primeiro pais e mães, porque não dá para você ter uma dimensão. Eu tenho um filho de quatro anos e fiquei imaginando que o meu pai, minha mãe... O que eles passaram, as coisas que eu fiz e como eles sentiriam. Fico imaginando meu filho adulto, falando “ó pai, vou pro”... Qual o país que está em turbulência hoje? “Pai, eu vou pro Iraque, vou pro Iraque lá”, como é que eu me sentiria? Eu era muito arrogante, muito presunçoso, mais do que revolucionário, entendeu? Eu me achava um revolucionário, mas na verdade era um presunçoso, eu era um vaidoso. Queria fazer só as coisas que eu queria fazer, então me custou muito caro isso. Então voltei para o Brasil. A morte da minha mãe, o aprendizado que eu tive na Nicarágua mudou completamente, novamente a minha forma de ver as coisas, e aí fui procurar emprego, consegui um emprego.

 

P/1 – Teve seu negócio.

 

R – Nesse tempo que eu estava empregado a minha vida voltou a melhorar de novo.

 

P/1 – Prestou o vestibular.

 

R – Comecei a pensar em estudar, prestei o vestibular pra Jornalismo, que era realmente o que eu queria fazer. Prestei a Metodista e a Cásper Líbero, não prestei PUC. Passei nas duas e optei pela Metodista, aí fiz Jornalismo na Metodista. Formei−me com 34 anos, jornalista.

 

P/1 – Em que ano você se formou?

 

R – Eu me formei em 94.

 

P/1 – Nesse meio tempo você se mantinha com a locadora e foi trabalhar como jornalista?

 

R – Aí foi legal, sabe por que? Porque por tudo que eu tinha vivido, eu podia aproveitar mais a faculdade, dar mais valor.

 

P/1 – Muito mais que as pessoas mais jovens.

 

R – Foi legal porque [n]a locadora você trabalha muito à tarde. Locadora tem mais movimento à tarde, à noite também.

 

P/1 – Você estudava de manhã?

 

R – Estudava de manhã. Eu era o tio da turma, né? A molecada, tudo jovenzinho, 18, 19 anos. Eu já estava além dos 30 (risos), me formei com 34 anos.

 

P/1 – Caminhando um pouquinho pro fim, como é que foi quando você se formou, você continuou na locadora? Você chegou a trabalhar como jornalista?

 

R – Assim que eu me formei, eu comecei a tentar trabalhar na área. Eu me mantinha com a locadora, mas queria trabalhar na área e arrumei emprego com o pessoal que editava a Folha Bancária de Osasco, pequenos contatos da esquerda.  Através daqueles contatos consegui trabalhar com esse pessoal, bons amigos até hoje. Renato Rovai, um grande amigo hoje, um palmeirense que... Lorena Segato que também... Eles eram editores dessa empresa que fazia a Folha Bancária de Osasco e fui pra lá, eles me deram oportunidade.

 

P/1 – E você se casou?

 

R – Quando eu voltei da Nicarágua, minha mãe tinha falecido, aí fica aquele vazio terrível, foi a pessoa mais próxima de mim. Depois eu vim a ter outras perdas na vida, mas foi a pessoa mais próxima de mim, então minha mãe era... Eu não sabia que ela era tão importante na minha vida e aí houve essa mudança, essa experiência da Nicarágua. Entre essas mudanças, eu falei “Preciso assentar agora o facho” e em 90 eu já conhecia uma pessoa, desde a época que eu tinha ido pra Nicarágua. Essa pessoa escrevia cartas pra mim. É a Maria de Lourdes, a Malu, e nós resolvemos morar juntos. Eu falei “vamos morar juntos?”

 

P/1 – Em 94?

 

R – Não, em 90.

 

P/1 – Antes da faculdade.

 

R – Depois de voltar da Nicarágua. Eu já tinha o apartamento que eu tinha comprado, naquela época anterior, e a gente passou a morar junto. Estamos juntos até hoje.

 

P/1 – Tiveram filhos?

 

R – Em 94. No dia 20 de março de 94 nós tivemos o Raul e aí foi outro aprendizado. A vida vive me batendo e me ensinando muitas coisas. Eu tive um filho deficiente, o Raulzinho nasceu com hidrocefalia e mielomeningocele, que é aquela espinha aberta, que não fecha atrás. Ele veio com um monte de problemas de saúde e foi uma lição de vida também, outra lição de vida. Ele sobreviveu até os seis anos, ficou conosco até os seis anos.  Fez treze cirurgias, mas nunca... Era sempre pra prolongar a vida e não...

 

P/1 –  ...pra salvar.

 

R - Ele nunca falou, nunca andou. No começo ele ainda sorria pra gente, um sorriso lindo, mas depois, com o passar dos anos, nem isso. Foi um período muito difícil, eu larguei a militância da esquerda, parei de _____, foi um período em que me dediquei ao estudo e à família, foi um período que...

 

P/1 – Viveu até 2000 então?

 

R – Ele faleceu em 2000, com seis anos. Tudo que eu fazia era pra tentar cumprir bem a minha missão de cuidar dele, cuidar da família e foi um período dificílimo, nossa! Eu falei que tinha perdido uma pessoa muito próxima, minha mãe, e foi a outra pessoa, filho.  Você vai aprender o sentimento de pai pra filho e numa situação muito mais difícil, porque não era um filho saudável, não era um filho que a gente sonha, inteiro. Uma das coisas que eu aprendi com ele é que, de todas as coisas que eu fiz ou tentei fazer na vida, a coisa que eu consegui fazer melhor foi cuidar dele, foi dar carinho, atenção. Mesmo naquelas condições difíceis, eu me tornei um pacifista, eu que tinha ido pra Nicarágua disposto a pegar em armas pra defender uma ideologia, um princípio. Nesse processo do Raul eu me tornei um pacifista, repensei meus valores. Lá em Nicarágua eu cheguei inclusive a... Não foi graças a Deus, olhando agora... Pelo processo que eu passei não cheguei a participar de nenhum combate, de atirar em ninguém, mas eu aprendi a manusear o M16, que é aquele fuzil americano. Quando eu me lembro disso − e hoje eu tenho toda uma preocupação pacifista −, fico meio envergonhado de ter pensado em usar uma arma.

 

P/1 – Mas foram momentos diferentes. Foi um baque na família, com certeza, essa questão do Raul. Você estava contando um pouquinho pra gente sobre seu filho, sobre essa mudança, a permanência lá na Nicarágua. O que acontece a partir daí e como a família se reergueu desse baque, que foi perder o Raul, que viveu só até os seis anos de vida, embora vocês soubessem. Como a família se reergueu?

 

R – Olha, é muito difícil. Não desejo isso pro meu pior inimigo, porque os estudiosos dizem que a maioria das famílias se desestrutura quando tem um filho com deficiência. A gente conseguiu a duras penas se manter juntos, um apoiando o outro, mesmo porque pra um só cuidar não seria possível. É uma coisa inviável, um só suportar tudo, todo esse problema. Ele era um bebê totalmente dependente, até pra se mover, pra se mexer de um lado pro outro, então tinha que ter sempre... Ele usava vários aparelhos, inclusive pra respirar. Equipamentos caros... Então financeiramente, emocionalmente é impossível suportar sozinho. Então um apoiou o outro. Por isso que eu falo: de todas as coisas que eu fiz, a única que eu fiz − talvez não a única, mas a coisa que eu fiz melhor − foi cuidar dele. Mesmo ele não falando nada − ele nunca falou −, ele me ensinou muitas coisas.

 

P/1 – Você era jornalista nessa época, trabalhava em Osasco?

 

R – [Quando] Eu me formei jornalista, ele já estava conosco já, um bebê. Tenho fotos com ele, eu com minha beca de formatura, mas não deu pra levá−lo na festa de formatura porque ele tinha muitos problemas. Não tinha como tirá-lo de casa, ele passava uma fase no hospital e outra em casa. Era sempre assim, uns meses no hospital, outros meses em casa. Várias vezes o médico falava que ele não ia sobreviver. Ele fez 13 cirurgias e sempre resistiu. Quando ele faleceu, a gente já estava pela milésima vez informada pelos médicos que ele poderia ir a qualquer momento. A gente acha que está preparado, mas nunca está. Aí o sofrimento inevitável, passamos dois anos lambendo as feridas pra nos recuperarmos. Até pensamos se íamos continuar juntos ou não. Nós tínhamos uma situação, agora ele não está mais conosco, o que vamos fazer? Decidimos ficar juntos. Decidimos também ter um outro filho − que é outra decisão complicadíssima, depois de ter um filho com deficiência.

 

P/1 – Poderia ter o mesmo problema? É um problema genético que ele teve?

 

R – Quando nós começamos a pensar em ter outro filho, nós fomos procurar as informações, estudos. Fomos informados que não, o que aconteceu conosco poderia ter acontecido com qualquer casal. Não era um problema genético, de uma propensão maior nossa de ter uma criança... Ou de qualquer outro casal, a propensão é a mesma, segundo nos informaram, e aí fizemos um planejamento pra ter um filho. Continuamos juntos, tivemos outro filho, se chama Vinícius. Talvez pela lei da compensação, extremamente saudável, forte, um terremoto.

 

P/1 – Nasceu em 2002?

 

R – Não, nós demoramos dois anos pra decidir e depois fomos pegar informação. Ele nasceu em 2003, está com quatro anos.

 

P/1 – E você trabalhava no Jornal de Osasco?

 

R – Folha Bancária de Osasco. Depois um dos editores, o Lorian, me convidou pra trabalhar. Ele fazia outro jornal, chamado Jornal da AFUBESP − Associação dos funcionários do Banespa. Inicialmente do Banespa... Ele me convidou pra ir, estava precisando de um jornalista. Eu fui e estou lá há dez anos. Nós criamos um site depois, agora tem um jornal e um site. Tem um jornal de aposentados, estamos fazendo... Tem mais um jornalista agora, porque cresceu a área. Tem a Érica e eu. Nós fazemos jornal pro pessoal da ativa, jornal para os aposentados do banco e temos o site da AFUBESP na internet, em que a gente coloca notícias.

 

P/1 – E sua esposa, faz o que?

 

R – Minha esposa, depois que perdeu... Que nós perdemos o Raul, ela nunca mais conseguiu arrumar outro emprego estável. Trabalhou com a irmã dela numa escola de inglês, mas não... Depois tivemos outro filho e ela agora está fazendo um curso de informática. Ela está tentando se requalificar para voltar ao mercado.

 

P/1 – Como que você caiu no Fórum Social da Cidade Ademar?

 

R – Quando nós estávamos com o Raul, eu deixei tudo. Só cuidei da vida profissional e da família. Como a AFUBESP, que é onde eu trabalho, é uma entidade de trabalhadores, eu sempre tive essa proximidade com o movimento dos trabalhadores. São bancários, mas do ponto de vista profissional, trabalhava com eles. Foi bom porque o meu trabalho jornalístico tinha essa afinidade. Era uma entidade que defendia o direito dos trabalhadores bancários, mas do ponto de vista de militância, eu tinha abandonado tudo. Depois, com a morte do Raul, eu me abri de novo pra vida, voltei a... “Bom, agora o que vou fazer?” Além da vida pessoal, eu queria fazer outras coisas e voltei a participar mais dos movimentos populares. Esse tempo todo, como eu morei na mesma região − desde que a gente veio para São Paulo, praticamente aquela região da Cidade Ademar, Jabaquara −, eu conhecia muita gente ali, então eu resolvi que eu precisava ajudar a melhorar aquela região. Não mudar de bairro, porque a tendência é que quando a gente começa a mudar de vida, muda de bairro, né? Tem um padre chamado Padre Maurílio, que é um dos sobreviventes da Teologia da Libertação. Ele está com 76 anos atualmente e sempre teve um papel muito importante na região, sempre teve uma visão social muito importante. Eu sempre mantive contato com ele, até em função da questão espiritual. Ele sempre teve essa preocupação social e aí eu voltei a ter essa preocupação social e militar − a preocupação sempre tive, mas voltei a militar na área social.



P/1 – Desde quando você está lá?

 

R – Eu voltei em 2003, mais ou menos, 2004.

 

P/1 – E está até hoje? Qual é o seu papel lá dentro?

 

R – Eu sou o que a gente poderia chamar de animador do Fórum. Sou um organizador social, então eu faço isso nos meus horários vagos, faço isso voluntariamente. Na região tem vários movimentos sociais: tem movimento de saúde, que é antiquíssimo, tem movimento de moradia, tem o movimento “Construtores da Paz”, devo esquecer alguns.  Tem vários movimentos e várias entidades sociais. Tivemos a ideia baseada na experiência do Fórum Social Mundial e também daquele fórum em defesa da vida do Padre Jaime em Grajaú. Nós tivemos a ideia de tentar um fórum também, desses movimentos e dessas entidades, na Cidade Ademar.

 

P/1 – E com que frequência vocês se reúnem? Como funciona?

 

R – Mensalmente no fórum. Agora nós estamos muito ligados em parceria com movimento Nossa São Paulo.  Desde que surgiu o [movimento] Governa São Paulo, nós procuramos ter uma aproximação com o movimento.

 

P/1 – Quando foi?

 

R – O Governa São Paulo surgiu em maio.

 

P/1 – Deste ano mesmo?

 

R – Foi em maio e nós já tínhamos o Fórum da Cidade Ademar. Quando nós tivemos as primeiras informações − quem estava participando, as propostas do Governa São Paulo, resolvemos que valeria a pena conhecer melhor. Um dia, no começo desse ano − acho que foi em abril, se eu não me engano −, Oded Grajew foi ao Jardim Ângela, lá onde tem o Padre Jaime. Ele foi fazer uma palestra sobre o movimento Nossa São Paulo. Foi antes do lançamento, aí nós fomos, algumas pessoas do Fórum da Cidade Ademar, até o Jardim Ângela pra ouvi-lo. Gostamos muito do que ele falou e pensamos: “Poxa! Essa coisa é muito interessante”. Gente nova, diferente, apartidária, que incentiva a participação da população, que tem por objetivo melhorar a cidade.  Uma coisa que nos marcou muito: ele falou muito em combater a desigualdade social. Isso é uma coisa que nos interessa muito na periferia, então já voltamos de lá conversando: “Que tal levar o Grajew pra fazer essa palestra na Cidade Ademar?” O Fórum organizar uma palestra dele, fomos com essa idéia. No Jardim Ângela, a palestra foi para poucas pessoas e quando nós pensamos na cidade Ademar, eu falei: “Vamos fazer uma coisa aberta, pra chamar todo mundo, quem quiser vem”. Foi no dia 15 de maio, se eu não me engano, o lançamento do _______ São Paulo, nós fomos ao lançamento. Padre Jaime também estava lá. No dia nós convidamos o Oded para fazer uma palestra. A gente marcaria com antecedência pra convidar as pessoas, mas precisaríamos que ele confirmasse a presença. Ele confirmou dias depois. Fizemos a palestra dele no CEU Alvarenga e tinha 300 pessoas na palestra dele, conseguimos levar 300 pessoas para ouvi-lo.

 

P/1 – E qual que é a primeira ação que vocês estão fazendo juntos ou vocês estão apoiando da Nossa São Paulo?

 

R - Feita a palestra do Oded, muita gente gostou, mas nem Jesus Cristo agradou todo mundo. Algumas pessoas [disseram] “Ah! Isso aí é coisa do PT e tal, Oded Grajew foi assessor do Lula”. Outros faziam a crítica contrária: “É um projeto pequeno−burguês, é o pessoal que tem grana que quer vir para a periferia e não quer mudar nada”, não sei o que... Pessoas que não conhecem o trabalho do Oded Grajew, mas muitas pessoas gostaram. Nós procuramos trabalhar com as pessoas que gostaram. “O que vamos fazer daqui pra frente?” Nós tivemos essa preocupação. Entre as propostas do Governa São Paulo está aquela do orçamento municipal, que é pra fazer um estudo sobre o orçamento municipal, como que é distribuído atualmente, até pra gente poder combater essa desigualdade que tem na distribuição dos recursos da cidade. Nossa idéia foi a seguinte: “Bom, o que nos une?” O que poderia nos unir aqui pra gente trabalhar, porque o fórum tem diversas entidades, diversos movimentos, diversos interesses. Tentar trazer mais recursos pra Cidade Ademar é uma coisa que todo mundo topa, todo mundo, por que? Porque se trouxer mais recurso vai melhorar a região como um todo, então era uma coisa que unificava todo mundo. A primeira coisa que nós tentamos trabalhar junto com o Governa São Paulo é discutir o orçamento municipal. Nós fizemos três debates na região sobre o orçamento municipal, como é feito o orçamento, como a população pode influenciar nisso, por que a distribuição do orçamento é tão injusta. Eu vou dar um exemplo para você, Cidade Ademar é um dos piores índices sociais da cidade, a região frequenta aqueles... Sabe aquele índice do IDH, Índice do desenvolvimento do Mundo [Humano]? Frequenta os piores lugares, está sempre [entre] os cinco piores, é o terceiro entre as 31 [sub]prefeituras da cidade e é a terceira que mais envia jovens pra antiga FEBEM − agora Fundação Casa, né? Imagine a questão social, tem 400 mil habitantes e tem, por outro lado, o terceiro menor orçamento da cidade em termos de subprefeitura, então há uma questão que precisa ser discutida, que é a questão da distribuição do recurso. A gente, nesse processo todo, entendeu que essa forma injusta de distribuir os recursos da cidade perpetua a miséria e a pobreza na periferia. Queremos rever isso, queremos influenciar isso. [Na] Cidade Ademar, a população, com as informações que tiveram através desses debates, ficou bastante interessada em discutir e tentar influenciar nessa questão. Nós temos falado, em todos os lugares em que a gente tem oportunidade, que o pessoal do movimento Nosso São Paulo quer mudar a cidade. As pessoas envolvidas têm essa visão de mudar a cidade, então é o seguinte: “Nós estamos nessa, mas que fique muito claro: se a periferia não mudar, a cidade não muda”. Não adianta, pra mudar a periferia precisa ter uma distribuição melhor de recursos, precisa ter investimentos sociais. Esse tem sido nosso primeiro trabalho.

 

P/1 – E vocês também lutam pela melhoria dos transportes?

 

R – A questão do transporte na periferia, não só na Cidade Ademar, como em qualquer lugar é complicadíssima. Lá não tem movimento de transporte organizado. Já teve movimento de transporte organizado e forte. A gente não tem mais, mas é um dos problemas da região.

 

P/1 – Tudo o que vai fazer demora muito? Muita gente lá depende do transporte público?

 

R – Muita gente. A gente cada vez mais, com esse negócio de Dia Mundial Sem Carro, a gente está observando melhor. Acho que até seria legal pra todo mundo observar melhor a sua realidade. Você observa que tem muito carro na periferia, o trânsito está chegando à periferia. Lá na antiga Estrada dos ________, que é uma das avenidas principais da região... Dependendo do horário, é difícil você ir de uma ponta a outra. É uma avenida apertada, avenida de mão dupla, então dependendo do horário, você demora pra passar. Você vai, por exemplo, pro Jardim Ângela − a gente tem também bastante atividade junto com o pessoal do Jardim Ângela, do Fórum Social Sul −, então às vezes você pega a Estrada do M’Boi Mirim, tudo parado também. É uma avenida da periferia, tem bastante carro também, mas a maioria das pessoas ainda depende do transporte público.

 

P/1 – Você também?

 

R – Eu pego ônibus e metrô todo dia pra trabalhar.

 

P/1 – Você não tem carro?

 

R – Nós temos um carro − é um Corsa 97 −, mas como eu trabalho no centro da cidade, não tem estacionamento. Ou o estacionamento é muito caro e não vale a pena, então eu uso o transporte coletivo todo dia pra trabalhar, pra voltar do trabalho.

 

P/1 – Quanto tempo você demora?

 

R – Olha, se o ônibus não demorar muito, uma hora e quinze [minutos], mais ou menos. Uma hora e quinze, entre sair da minha casa e chegar no trabalho. Se, por acaso, o ônibus demorar e tiver algum problema no metrô, mais tempo, mas nós temos vizinhos que demoram duas horas, duas horas e meia.

 

P/1 – Isso te motivou de alguma forma a aderir também ao Dia Mundial Sem Carro, ajudar o pessoal do Nossa São Paulo a apoiar nessa questão?

 

R – A primeira coisa que eu achei legal é porque eu não uso o carro para trabalhar, então eu, de certa forma, já estou me enquadrando já no Dia Mundial Sem Carro. Eu acho que nós temos que despertar, inclusive na periferia também, essa preocupação com a qualidade de vida, qualidade do ar que a gente respira. Lá é um manancial, a Cidade Ademar é uma região de represa, então nós temos um prejuízo enorme ao meio ambiente, pelas ocupações dessas áreas de mananciais. Pessoas não têm onde morar acabam tendo que morar ali, onde não deveriam morar, em função da área de manancial. É uma área extremamente populosa. É difícil. Fora das regiões de mananciais, onde você não pode construir, nas regiões onde se poderiam construir, está quase tudo ocupado. 23 por cento da população mora em favelas.  Superpopuloso, você passa na _______ ali que é um formigueiro humano. Nós temos que encontrar nossa preocupação. Lá no Fórum, o que tenho discutido é encontrar formas do transporte coletivo ser acessível para essas pessoas. E ser mais rápido, para que elas não precisem também... Eu sei que todo mundo hoje, em função do transporte coletivo ser precário, o sonho hoje de todo jovem da periferia é ter um carro. Velho, caindo aos pedaços, mas ele quer ter um carro pra sair com a namorada no final de semana, não depender do ônibus. Lá também tem a questão do perigo, da violência, que é outra questão. O carro poderia garantir um pouquinho mais de segurança, ele não precisa andar do ponto [de ônibus] até onde ele mora. Às vezes é uma região perigosa, ele evita isso, então nós achamos que essa preocupação de não usar o carro tem a ver com a qualidade de vida.

 

P/1 – Você vê alternativas ao uso do carro?

 

R – Eu acho bom. As pessoas que não têm carro obrigatoriamente têm que usar o transporte coletivo, com qualidade ou sem qualidade. Eu sei que hoje, infelizmente, não tem qualidade. Pras pessoas deixarem o carro na garagem, precisa melhorar muito o transporte coletivo, precisa melhorar bastante. Nós vamos partir dessa conscientização maior que o Dia Mundial Sem Carro vai trazer. Nós pretendemos refletir mais sobre isso, mas eu penso que tem coisas que podem ser simples. É comum, por exemplo, eu chegar na estação Conceição pra pegar o ônibus que vai me levar até em casa e ter três filas de pessoas esperando ônibus. Três filas enormes e nenhum ônibus.

 

P/1 – E vai lotado, o ônibus?

 

R – Vai lotado.

 

P/1 – Tanto pra você ir trabalhar quanto pra voltar?

 

R – Pra voltar pra casa é mais complicado. Pra ir é mais tranquilo, vamos dizer assim. Mas pra voltar, aquele horário... Seis horas, seis e meia, esse horário é terrível. Às vezes tem três filas lá, as pessoas ficam esperando com a maior paciência do mundo e nenhum ônibus.

 

P/1 – O motorista respeita as pessoas? O que você acha?

 

R – Ah, eu acho que falta uma conscientização e acho que não é culpa do motorista. Mas falta uma conscientização do poder público de tentar colocar ___________ pra essas pessoas que trabalham no serviço público de que elas estão ali pra prestar serviço à população, e falta essa conscientização. Acho que não devia partir do motorista; deveria partir, no caso de São Paulo, da Prefeitura, tentar dar esse tipo de conscientização aos seus funcionários, de que eles estão ali pra prestar serviço público. E quando falta isso, você vê de tudo. Você vê motorista que respeita, outros que não respeitam.

 

P/1 – Você já viu alguma situação, assim, que revoltou, que te marcou?

 

R – De ônibus? Ah, eu vejo muita briga em ônibus. Por exemplo, o ônibus tá superlotado e alguém vai passar e não consegue. As pessoas não conseguem ver além do problema delas então, até por não poder culpar outra pessoa, culpam aquela pessoa que está tentando passar ou que está barrando a passagem e fica bate-boca, discussão. Isso acontece muito. Talvez falte uma dimensão de que o culpado não é nem o cara que quer passar nem o cara que tá ali parado. É culpa de __________ que não dá uma condição de transporte adequado.

 

P/1 – Como que está sendo a atuação do Fórum Social na Cidade Ademar, em Pedreira, no Dia Mundial Sem Carro?

 

R – Nós estamos divulgando em todos os nossos eventos, principalmente nos debates mensais. Tivemos debate sobre orçamento, nas reuniões do movimento de saúde... Nós temos o panfleto do Dia, nós temos divulgado... A importância das pessoas usarem esse dia pra refletir. Nós queríamos até fazer um debate nesse dia, tínhamos planejado de fazer uma atividade, que seria uma discussão sobre transporte coletivo, mas não conseguimos viabilizar esse debate por falta de espaço. Nós usamos o salão paroquial da igreja e, como cai no sábado o Dia Mundial Sem Carro, o salão é usado pras atividades da igreja. Tem o casamento, as atividades próprias da igreja.

 

P/1 – Vocês tiveram que adiar?

 

R – Nós tivemos que adiar. Nós pretendemos, assim que for possível, marcar uma data pra fazer um debate sobre transporte coletivo, refletir melhor sobre isso. Inclusive pra ter propostas, não ser uma coisa só de criticar e tentar: “Bom, e o que a gente pode fazer pra tentar... De propostas pra melhorar o transporte aqui da nossa região, da Cidade Ademar”

 

P/1 – Pra finalizar, eu queria saber quais foram as principais lições que você tirou da  trajetória que você passou, e não foi pouco, até hoje. O que você tira de lição de tudo isso?

 

R – Eu tive várias lições pessoais que talvez não... Mas em termos de movimento, que eu acho que talvez fosse importante... Durante muito tempo na minha vida, eu acreditei que as mudanças eram feitas pela força, que as grandes mudanças eram feitas através de revoluções. A gente sempre sonhou com isso, durante uma parte da vida, e eu aprendi com a minha experiência de vida que o mais difícil é mudar a gente mesmo. O mais difícil é você, porque todo mundo quer mudar alguma coisa. Se você for pensar, todo mundo quer, até quem você acha que não quer mudar. O difícil é que pra mudar eu preciso mudar primeiro, eu preciso também mudar ou mudar junto. Eu acho que essas mudanças não virão de alguém que você simplesmente eleja e o cara vai sentar lá, vai ser o salvador da pátria. Não vai, infelizmente não vai ser. É mais fácil, mas não vai ser assim, a mudança vai ser uma luta cotidiana de mudar a si mesmo, você ir mudando a tempo de mudar outras pessoas. E na questão do Movimento São Paulo, que eu acho interessantíssimo, é importante pra cidade, fundamental. Eu também estou __________ sucesso a partir do momento que as pessoas [estão] envolvidas com isso e eu faço parte do problema também. A gente tem que lutar todo mundo junto, a forma de encarar as coisas da cidade. Como eu moro numa região de periferia, eu acho que até as pessoas da periferia também têm que se conscientizar, têm que aprender novas formas de participação... Porque se as pessoas não participarem dificilmente as coisas vão mudar, vai ser mais uma grande ideia, mas uma que vai passar e a gente não vai ter um resultado daqui a alguns anos: a cidade realmente mudando.

 

P/1 – Tem algum sonho que você não realizou, que ainda quer realizar na sua vida?

 

R – Ah, tem muitos sonhos.

 

P/1 – Um em especial, assim, maior?

 

R – Maior sonho? Olha, nesse momento que eu tô vivendo, eu tenho um sonho que eu acho que é um, tenho vontade de ____________ coletivo. Eu tinha falado aqui que tenho um sonho de escrever sobre a irmã Lina. Acho que _________ livro, mas esse é um desejo pessoal. Eu tenho um sonho coletivo, que eu gostaria que fosse coletivo: que a gente realmente... Que eu estivesse presente, vendo modificações importantes na cidade de São Paulo, que é a cidade em que eu vivo e a região em que eu vivo, Santo Amaro, que tenha mudanças, que as pessoas participem mais, influenciando mais e vendo as pessoas sendo respeitadas.

 

P/1 – Agora, finalizando de vez, como você se sentiu em contar a sua história de vida pra gente?

 

R – É uma experiência diferente (risos), bastante diferente. Eu acho que eu gostei. Em alguns momentos eu até me emocionei aqui, porque no dia-a-dia a gente não fala muito sobre a gente, né? Pra mim, foi até um momento pra refletir um pouco. Você tá sempre pensando na vida, em alguns momentos da vida, mas passar a sua vida contando pra outra pessoa... O que você viu, porque na verdade eu estou passando a minha visão sobre a minha vida, mas talvez outra pessoa, vendo minha vida, conte diferente (risos).  Você vai vendo, vai analisando sua vida, acaba sendo um momento de reflexão. Acho que eu saio daqui um pouco mais humano, sabe? É falar “Minha vida foi isso. E agora, o que vai ser?” Acho que é um pouco diferente, mas bacana. Eu gostei.

 

P/1 – Que bom. Quer falar mais alguma coisa, quer colocar mais alguma coisa que faltou dizer?

 

R – Ah, não. Acho que tá bom.

 

P/1 – E você quer perguntar alguma coisa?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – Então a gente encerra aqui.







 




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