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História

Da literatura à farmácia

História de: Dorival Marraccini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Nesta entrevista, feita em 1999, Dorival nos conta sobre vários momentos de sua vida, como a infância no bairro do Paraíso, sua paixão pela literatura, sua viagem a Cuba, sua atuação como funcionário da Rhodia e como empresário.   

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História completa

 

P/1 – Seu Dorival, vou pedir para o senhor se apresentar de novo: o nome, o ano em que você nasceu e a data de nascimento.

 

R – O meu nome é Dorival Marraccini. Nasci em São Paulo no bairro do Paraíso, em dois de novembro de 1922.

 

P/1 – Os nomes dos pais do senhor?

 

R – O nome do meu pai é Hugo e da minha mãe é Laura.

 

P/1 – E a atividade deles?

 

R – O meu pai trabalhava no jornal Folha da Noite.

 

P/1 – Ele era jornalista?

 

R – Ele era linotipista.

 

P/1 – E a origem da família do senhor, o senhor sabe qual é?

 

R – Por parte de pai são toscanos, anarquistas. O meu avô trabalhou na Estação da Luz, no prédio da Estação da Luz.

 

P/1 – Na construção do prédio?

 

R – É, na construção, ele era empreiteiro do Ramos de Azevedo. Ele era grande construtor, aqueles sobrados fantásticos de construir. Construiu casa para ele na Oscar Porto.

 

P/1 – Aqui nos Jardins?

 

R – No Paraíso também, na Rua Coronel Oscar Porto. Eram construções belíssimas.

 

P/1 – Eles vieram para o Brasil...

 

R – Eles vieram para o Brasil. Ele veio com a mulher e parece que tinha um filho que já era italiano, o tio Nando. E logo foi engajado lá, ele era construtor do Ramos de Azevedo. Vocês conhecem acho que de nome o Ramos de Azevedo, era um senhor engenheiro. Eu sei que ele participou no prédio da Estação da Luz.

 

P/1 – Ele participou da construção?

 

R – É, como empreiteiro de obras ele participou. A família do meu pai era uma família loquaz: faladores, italianos puros, toscanos. Da minha mãe era calabrês o pai, Chico Sapateiro.

 

P/1 – Chico Sapateiro?

 

R – Chico Sapateiro, ele era sapateiro. E assustava os filhos porque bebia e à noite tinha alguém que ia apanhar. E a minha avó era austríaca.

 

P/1 – Austríaca?

 

R – Que mistura, não? Os filhos eram todos assustados porque ele bebia e à noite desancava em algum filho e batia. Mas isso é história triste, vamos passar adiante.

 

P/1 – O senhor passou a infância onde, em que bairro o senhor viveu?

 

R – No bairro do Paraíso, a infância no bairro do Paraíso.

 

P/1 – Como era a casa em que o senhor morava, o senhor lembra dela?

 

R – Era uma casinha geminada da minha avó. Meu pai era modesto, mas o meu avô toscano tinha casa pegada à casa da minha avó que era um sobradão, desses que eu falei, colossal. Ele tinha chácara no fundo lá no Paraíso, em frente ao metrô.

 

P/1 – Em frente ao metrô Paraíso?

 

R – Em frente ao metrô Paraíso, era ali na Rua Vergueiro. E era muito bacana, ele tinha frutas, a gente pegava frutas, do nosso quintal dava para subir nas árvores e pegar ameixa. A minha mãe era muito bonita, uma mistura de calabrês com austríaco.

 

P/1 – O senhor lembra como era o bairro do Paraíso nessa época?

 

R – O bairro do Paraíso era um paraíso, como o nome está falando. A gente tinha os amigos na Haia - tinha a confeitaria Haia, na esquina da Paraíso com a Vergueiro. Nos reuníamos, íamos para o Trianon; o Trianon tinha a gafieira, [o] baile e a gente ia a pé pela Avenida Paulista, aqueles casarões bonitos.

O meu tio Pereira, português, era pintor. O Tio Pereira, da família de beatos, era pintor, mas gostava de literatura, gostava de música, adorava o Caruso.

 

P/1 – Ele era casado com uma irmã?

 

R – Ele era casado com uma irmã de minha mãe que era fanática religiosa, castrou os filhos.

 

P/1 – Católica?

 

R – Católica. Castrou os filhos. Quando ela morreu, eu me lembro, o padre disse que quando ele… Tinha um sermão que ele fez de exortação. Ele disse que quando tinha dúvidas pensava nela e a fé se renovava. Eu achei bonito.

Ela era fanática. E os filhos foram todos lá da mamãezinha.

 

P/1 – Todos também ficaram?

 

R – É, o meu primo pintor, que foi um grande pintor, já foi premiado, solteirão. E as duas primas, virgens. (risos) E ele se queixava, o português… Eu tinha muita amizade e um dia eu, conversando com o meu primo na casa dele e bebendo umas cervejas – porque ele só bebe cerveja preta –, comecei a contar do pai dele, das conversas que eu tinha do pai dele e ele disse: “Poxa, como é que você sabe do meu pai coisa que eu nunca soube?” Eu disse: “Porque vocês só adoravam a sua mãe, teu pai era o demônio!” Da família toda da minha mãe, o português era o demônio! Ele não acreditava em Deus. (risos)

 

P/1 – Deveria ser uma relação complicada.

 

R – Era uma relação complicada. Ela não era ruim, coitada. Era fanática religiosa, tenho pena dela, mas ela castrou os filhos. E quando eu tomava o partido dele a família, então, ficava louca comigo. Eu defendia o Pereira. Ele [se] chamava José Pereira, ele tinha uma raiva porque toda hora apareciam homônimos, um título protestado.

 

P/1 – Tinha cobrador.

 

R – Ele ficava louco! “Puxa vida, chamar Pereira!” (risos)

 

P/1 – E quem morava na casa do seu pai?

 

R – Era a casa da minha avó. No começo eles casaram e foram morar [lá], então ela morava em um quarto e cozinha na casa da minha avó, ali na Rua Vergueiro.

 

P/1 – E a autoridade em casa?

 

R – Meu pai trabalhava à noite. Ele era autoridade e não era. Ele era muito boêmio. Meu pai trabalhava à noite de jornalista, saía às quatro horas do jornal [e] ia para os bordéis. Gostava do Carnaval que era uma coisa! O vestido de noiva da minha mãe serviu para ele desfilar nos Fenianos. (risos) Ela foi ver o desfile e o viu no cavalo com o vestido dela, ele pegou escondido o vestido dela.

 

P/1 – Ela descobriu lá na avenida?

 

R – Descobriu lá na avenida que ele tinha pego o vestido de noiva. (risos) É uma história interessante!

 

P/1 – E o senhor estudou onde, seu Dorival?

 

R – Eu estudei no Ateneu Brasil, no Paraíso. Ótimo, um ginásio bom. José Vicente era o diretor, Mairá era o vice-diretor. É um bom colégio, a minha iniciação em Inglês foi lá. E eu gostava de Literatura, tinha um professor de História, Tibor David, que era um excelente professor, tornava a história atraente, então eu gostei sempre de história. O início é importante. Tibor David, não esqueço dele. O professor de desenho...

 

P/1 – O senhor tinha acesso a livros e tudo o mais?

 

R – Tinha acesso porque um bedel lá do ginásio, do Ateneu, trabalhou na Biblioteca de São Paulo, então eu pegava e pedia adoção de Somerset Maugham, tudo que podia ele trazia.

 

P/1 – Então o senhor gostava de Somerset Maugham?

 

R – Eu gostei porque o Somerset Maugham escreve num inglês bem simples. A obra-prima dele é essa que você falou, “Servidão Humana”. E o Somerset Maugham tem isso de bom, além das “Histórias dos Mares do Sul” que ele escreveu, e peças teatrais, a carta dele, [o conto] “Chuva”. E ele fazia uma história resumida da literatura para quem quisesse, para iniciantes. Ele fez o resumo da vida dele e eu sempre gostei, era um inglês fácil de ler. Ele não era um [James] Joyce. Eu tento ler Joyce em inglês e não consigo. “Ulisses”, estou na metade e não consigo e agora, com dificuldade de ler, é assim. E ele pôs as dez maiores novelas da humanidade, ele escolheu. A primeira era “Guerra e Paz”, [de] Tolstoi, depois “Ana Karênina”, [de] Tolstoi. Depois vinha o Dostoievski, “Os Irmãos Karamazov”, tem aquela figura bonita do Aliócha, uma família de gente cheia de problemas. Não sei se você leu “Os Irmãos Karamazov”...

 

P/1 – Não, não li.

 

R – É uma família cheia de problemas, mas tem uma pessoa de um santo, é o Aliócha; O que mais se aproxima de um santo seria esse personagem, o Aliócha. Quando eu vejo um cara bom eu digo: “Pô, você me lembra o Aliócha!” E tinha o Stendhal, “O Vermelho e o Negro”. Eu não me lembro tudo agora, mas tinha as dez maiores novelas: tinha o “Castle of Parma”, tinha “Madame Bovary”, e tinha o Balzac com “Velho Goriot”, “O amor extremado”. Eram escritores que esgotavam o assunto, ele fala sobre amor filial, amor do velho pelos filhos, o Velho Goriot fala tudo. O “Guerra e Paz” é uma história da transição, um país em transição, a Rússia, invasão napoleônica. Se o Hitler tivesse lido “Guerra e Paz”, aquele idiota, ele nunca teria tentado invadir a Rússia porque em “Guerra e Paz” você vê que os generais russos só fizeram besteira, cometerem os maiores erros e foram derrotados. E o Napoleão, aquele gênio – perto do Hitler ele era um gênio militar. Se o Hitler tivesse lido “Guerra em Paz” com atenção ele não teria tentado invadir a Rússia, mas foi bom porque de repente eles estariam aí dominando a gente. Ele queria criar o Império dos Mil Anos. Eu não sei como meu filho gosta de alemão; vive lá na Alemanha, o Val.

 

P/1 – Na sua família existia alguma expectativa que você seguisse alguma profissão, alguma coisa?

 

R – Farmacêutico era a esperança que podia formar em curso superior, tinha que ser em Farmácia. A Rhodia custeava os estudos, eu visitava médicos.

 

P/1 – E o primeiro trabalho do senhor?

 

R – Eu trabalhei na Folha como auxiliar de contabilidade, mas com dezesseis, quinze anos, não me lembro. Quinze, quatorze anos. Meu irmão, por meio de um professor que ele tinha, conseguiu o emprego na Rhodia, e como ele era irmão e pai me levou pra Rhodia também para eu para poder estudar Farmácia. Nunca tinha sonhado com Farmácia.

 

P/1 – Nunca tinha nem imaginado.

 

R – Nem imaginado!

 

P/1 – E a adolescência do senhor, como foi?

 

R – Muito cinema, leitura, passeios pela Avenida Paulista, [no Belvedere] Trianon era gafieira. Podia-se passar a noite brincando, conversando, era outra cidade. A Avenida Paulista era uma avenida sossegada, tranquila à noite.

 

P/1 – Muito namoro, paquera ou não?

 

R – Muito! As empregadinhas que sofriam porque as meninas de família não eram como hoje. Quem pagava o pato eram as empregadinhas.

 

P/1 – Eram as empregadinhas? O senhor se lembra da sua primeira namorada?

 

R – A primeira namorada era uma menina filha de um cocheiro.

 

P/1 – Filha?

 

R – Filha de um cocheiro, vizinha de frente. Uma vez eu escrevi uma carta de amor para ela e minha mãe pegou, me fez um escândalo. (risos)

 

P/1 – O senhor escreveu uma carta de amor?

 

R – É, escrevi uma carta de amor.

 

P/1 – O senhor, então, entrou na Rhodia com que idade?

 

R – Acho que com quinze, dezesseis anos, acho que foi isso. Foi nessa época que eu saí da Folha e meu irmão me levou pra Rhodia. E lá eu fui office-boy. Comecei a fazer o curso científico, eu estava preparado para Letras e fui para o científico. Fui office-boy do Marc de Sépibus, não sei se você já ouviu falar. Ele era diretor, não era administrativo. Ele era comercial e cuidava de todos os farmacêuticos que trabalhavam no interior, uma turma de puxa-sacos terrível. Eu ficava na sala, ficava lendo. Aproveitava que tinha que ficar lá esperando ordem dele e ficava lendo, era bom.

 

P/2 – Isso já era em Santo André?

 

R – Isso era em Santo André. Eu fazia o científico à noite, no [Colégio] Oswaldo Cruz.

 

P/2 – E como o senhor se deslocava?

 

R – Trem. [A] estação ali na [Avenida] Rangel Pestana, qual é aquela estação? Descia ali. Era dura a vida. Saía mais cedo da Rhodia, pegava o trem, ia pra São Paulo para fazer o científico, o pré-médico. Dois anos era de pré-médico e depois prestar o concurso na USP [Universidade de São Paulo].

 

P/1 – E seu irmão trabalhava na Rhodia com o quê?

 

R – Ele era chefe. Primeiro ele foi correspondente, ele era muito bom em português. Ele era contador e depois foi chefe de vendas.

 

P/1 – Chefe de vendas da área farmacêutica?

 

R – Ele não era farmacêutico, não conseguiu estudar e quis que eu estudasse. Ele queria ser dentista e também se frustrou, coitado, mas ele gostava muito da Rhodia. Ele também era um pouco vaidoso, mas bem menos do que esse [Eduardo] Valente Simões. Esse é um poço de vaidade, discurso, foi presidente do Conselho Regional de Farmácia, Conselho Federal. E uma vez o [Carlos Henrique] Liberalli, o professor Liberalli, foi contra ele ser presidente do Conselho.

 

P/1 – Era contra?

 

R – Eu soube dessa história por um amigo que ele foi… Ele perdeu a paciência do Liberalli ser contra: “Mas por que o senhor é contra?” Ele disse: “Porque você é incompetente!” (risos) “Eu te acho um incompetente para ocupar o cargo!” E ele era mesmo, era um farmacêutico que não sabia a valência do carbono, é demais. É capaz que ele morreu e eu estou falando mal de gente que já morreu, mas ele era muito vaidoso. Eu disse: “Olha, a fórmula está errada!” “Eu nem sei, mas então o que é CH?” Eu disse: “Olha, ele pode ser uma hidroxizina ou um outro hidrogênio.” E era CH2 mesmo. E ele teimou, o que ficou feio. Se ele reconhecesse, estava tudo bem, o que ficou feio naquele mundaréu que estava lá assistindo é que ele ficou discutindo a valência do carbono e eu peguei e saí nervoso, eu era tímido, eu fui urinar! (risos) Aí o Julio Jales Brom, de quem eu era datilógrafo, que era o redator-chefe das publicações médicas e farmacêuticas da Rhodia, pegava o pai-dos-burros e falava: “Não, vamos ver.” E foi lá ver a fórmula, e eu estava certo: era CH2, não era CH. O João Batista Domingues não tem culpa, eu nunca conversei com ele sobre o assunto. É que ele passava borrão mais do que desenhava, ele vinha com aquilo tudo colorido, bonitinho, ele vinha com os quadros. Era desses caras, cara de pau, tipo o Maluf, não sei se você é malufista.

 

P/1 – Não. (risos) Então você entrou para trabalhar como office-boy?

 

R – Office-boy no Sépibus, então eu via uma porrada de puxa-saco que vinha lá, que alisava o braço do homem, e o homem no fim dizia: “Você é um vagabundo, só fica lendo aí!” Ele era muito mordaz, o Sépibus, mas era um bom sujeito e conhecia muito a natureza humana. Ele sabia que os caras puxavam o saco dele, mas ele deixava, ele gostava. (risos)

 

P/1 – E a coisa da mística Rhodia?

 

R – A mística Rhodia! Quem te falou em mística Rhodia, o João Batista Domingues? Mystique, a Mystique. O Valentim também veio aqui?

 

P/1 – Não, o Valentim...

 

R – Faleceu?

 

P/1 – Não, ele está um pouco adoentado e é muito tímido também, então acabou...

 

R – Ele escreveu sobre a Anita Garibaldi.

 

P/1 – Anita Garibaldi, [o programa] O Céu é o Limite.

 

R – O Céu é o Limite, eu não sei. Eu acho que ele respondeu. (risos) Aí você vê que ele não é tão tímido o Valentim Valente, ele foi no Céu é o Limite, eu nunca sonhei.

 

P/1 – De office-boy o senhor foi trabalhar com o quê?

 

R – É, o Sépibus fez um elogio na saída. Ele disse: “Tem uma coisa: vai estudar. O que você quer? Trabalhar no laboratório ou trabalhar na propaganda médica?” Eu pensei e fui almoçar com o farmacêutico que ia sair; eu ia pegar a seção de injetáveis na Rhodia. E almoçando com o velho, ele disse: “Aqui o negócio vem todo mastigado, vem a fórmula, você põe no caldeirão, mistura. A rotina é essa, vem tudo pronto. Você não vai inventar nada, não vai criar nada.” Eu escolhi a propaganda, eu quis liberdade.

 

P/1 – O senhor fez Farmácia enquanto estava trabalhando com o Sépibus, é isso?

 

R – Não, aí eu estava fazendo o pré-médio. Enquanto eu trabalhei com o Sépibus eu fiz o pré-médio, [por] um ano e pouco, dois anos. Ele quando se despediu, eu ia para a faculdade, tinha prestado exame. E quando prestei exame foi gozado, mas deixa, senão eu me confundo todo.

Ele me disse que eu era discreto, que não tinha transpirado, que eu tinha ouvido o diabo naquela sala. Não vou entrar em detalhes, mas os homens puxam mesmo o saco. E ele me achou discreto, que não tinha transpirado nada, e eu mesmo era um túmulo. Sabia que o que eu via lá entrava aqui e saía ali, e não vou contar aqui para vocês. (risos) Tem coisas que depõem contra a pessoa, fica ruim.

E na faculdade deu no exame -  eu estava tentando o Orsini, teve o exame oral entre o Orsini e o Rocha que era Anatomia, professor de Anatomia que estava me analisando em inglês. Eu lia em inglês, não lia muito bem em inglês porque eu não tinha prática, mas eu lia e traduzi bem. Fiz o texto que ele quis e ele me deu dez. E quando chegou com o Orsini, ele me deu dois e meio e disse: “Você vai pela nota que o Rocha está te dando. Você vai entrar, mas vai penar comigo!” E eu penei, repeti o primeiro ano por causa dele.

 

P/1 – Por causa dele?

 

R – Ele era um grande professor, foi diretor do planetário. E graças a ele eu aprendi muito de Física. Fiquei dois anos fazendo Física com ele. Depois que eu tive a indústria com o meu irmão que eu saí da Rhodia, eu patenteei um sistema de eletrólise. A gente imitava tudo dos americanos. A eletrólise você sabe que são dois eletrodos que fazem aquela ionização, são dois eletrodos, mas dois eletrodos retos. Então os americanos recomendavam pôr soda, um pouco de bicarbonato de sódio. Aqui recomendavam pôr sal, era muito perigoso. Inventei um eletrodo envolvente e consegui a patente. Não tinha dinheiro para patentear nos Estados Unidos, os americanos não tinham isso, então é uma prova que eu aprendi Física.

 

P/1 – O senhor patenteou isso aqui?

 

R – Patenteei, agora está em domínio público já há tempo. A fábrica ainda existe, meu genro é quem conduz a fábrica. É porque dos meus filhos, o Val é sonhador, gosta de jardinagem, de pintura. Eu pus ele na fábrica e ele pintou a fábrica. Depois de quinze dias eu voltei, saí, ele tinha pintado a fábrica. Fazer o quê?

O Hugo gosta de levar a vida, quer paz. Hoje está em Monte Verde com um sítio. Onde eu estava?

 

P/1 – Os tempos de faculdade, como foi esse período?

 

R – Eu entrei e repeti o primeiro ano por causa da Física. O Orsini era um carrasco, mas ele tinha razão. Eu me enamorei da Química Orgânica, aquele homem fazia a gente gostar. A Química é um negócio fascinante. Misturei ciência e literatura, mas continuei na literatura, sempre lendo.

 

P/1 – Sempre lendo!

 

R – A minha tendência é a para a literatura.

 

P/1 – O senhor nunca se arriscou a escrever nada?

 

R – Não, não. [Sou] vagabundo, preguiçoso.

 

P/1 – O senhor estudava na [Faculdade de Farmácia de Odontologia, na Rua] Três Rios?

 

R – Na Três Rios eu fui presidente do Centro Acadêmico. Pobre como eu era, fui. É que eu fiz a pacificação, tinha sempre briga entre Farmácia e a Odontologia. E eu disse: “Poxa, vamos acabar com isso! Um ano põe um da Farmácia, um ano põe uma da Odontologia.” A ideia vingou e eles, como homenagem, me puseram como candidato. E quando tem que fazer o discurso? Eu detesto fazer discurso, eu acho uma coisa tão falsa! E ali era tudo catedrático, e eu precisei me dopar, tomei Amplictil para fazer o discurso de posse. (risos)

 

P/1 – O senhor tomou Amplictil para fazer o discurso?

 

R – Tomei, é gozado, não é? A timidez é ruim, atrapalha muito a gente.

 

P/1 – E como foi o discurso, o senhor lembra alguma coisa?

 

R – Eu não me lembro, mas o discurso foi bom, eu caprichei. E passei, me formei na faculdade, tinha grandes amigos. O Adhemar de Barros patrocinou, foi nosso paraninfo, porque o Lineu Prestes era um puxa-saco do Adhemar. O reitor da universidade me chamou quando eu era presidente e disse: “Olha, tem uma viagem à Argentina garantida desde que vocês façam ao governador paraninfo.” E eu cantei a turma, disse: “Uma viagem à Argentina, pô!” Eu não era ademarista, mas fui lá convidar o Adhemar. O Adhemar era um cara gozado. Perto desses bandidos que tem hoje, até que ele era um ladrãozinho. (risos) Era um principiante.

 

P/2 – E teve mesmo essa viagem para a Argentina?

 

R – E foi boa, a viagem pra Argentina foi boa. Foi gente da Odontologia, foi gente da Farmácia, estivemos no Uruguai, fomos de trem. O Prestes Maia estava [lá], a verba foi tirada lá da repartição de água. (risos)

 

P/1 – Repartição de água?

 

R – Da repartição de água tirou a verba. E foi agradável o Uruguai: passamos pelo Uruguai todo, atravessamos o Rio da Prata para ir para Buenos Aires. Mas era muito idealista, recusamos. O Perón ofereceu avião; o Perón era ditador, nós estávamos cheios do Vargas e não quisemos. Bobos, nós devíamos ter ido.

 

P/1 – Ele ofereceu avião?

 

R – Ofereceu para levar a gente pra Bariloche. Mas nós éramos também muito boêmios. Eu e um amigo tínhamos conhecido duas dançarinas naquele de bater pé, como é? Aquelas castanholas? E preferimos ficar em Buenos Aires.

 

P/1 – O senhor dançou tango lá ou não?

 

R – Não dancei, mas pulei muito na cama com ela (risos). Não era de dançar tango, eu gostava de dançar um blues. Gostava mais de música americana, [George] Gershwin, [Cole] Porter, Irving Berlin.

 

P/1 – The big bands?

 

R – É isso aí.

 

P/1 – E no período da faculdade o senhor estava trabalhando na Rhodia?

 

R – Fazia faculdade e as horas vagas eram poucas. A faculdade era de manhã e de tarde e ia visitar médico quando tinha uma folga; apresentava duas visitas médicas e eles se contentaram. Era uma boa companhia. É o que eu te digo: como companhia é excelente. Tem uns homens que sempre atrapalham, uns vaidosos, outros não, mas tinha excelentes colegas, como Julio Jales Brom.

O Greco era um químico e tinha um laboratório no Cambuci, o Retorta. Ele lutava que nem um danado! Na guerra faltou AAS, ácido acetilsalicílico, então um diretor da Rhodia e ele fabricavam. Ele fabricava em pequena quantidade o acetilsalicílico, o Greco, e não vinha mais da Europa. O Raimundo Lou, o chefe dos laboratórios, pediu para ele aumentar a fabricação, ele disse: “Posso!” Só que ele cobrava, vamos dizer, dez reais o quilo e você vai comprar cem. O Greco cresceu, o laboratório dele cresceu.

 

P/1 – Durante a Guerra.

 

R – Era um modo de mandar divisa para lá. Não sei se vocês cortam isso aí.

 

P/1 – O senhor comentou que trabalhou nas publicações médicas.

 

R – Trabalhei. Eu trabalhei para o Sépibus, mas disso eu estou meio confuso, é que eu fiquei um ano com o Julio Jales Brom. Eu acho que trabalhei um ano com o Sépibus e era datilógrafo do Julio Jales Brom, depois fui para a revista. Gostava de desenho, ilustrei uma. Tinha o Penildon Silva.

 

P/1 – A gente o entrevistou.

 

R – Entrevistou o Penildon? Pô, ele é médico, era farmacêutico nessa época. E ele me estimulou muito: “Pô, você desenha bem!” Não gostava de desenhar rosto e eu desenhei no socorro; ele fez um artigo sobre socorros de urgência e eu desenhei, eu fiz os desenhos. Eu não tinha a prática, mas era meio para quebrar o galho.

 

P/1 – Isso nas publicações médicas e farmacêuticas?

 

R – Publicações médicas e farmacêuticas. Eu não sei, eu acho que saiu em publicações médicas, não me lembro. Eram duas revistas: uma era para os médicos, outra era para os farmacêuticos. Acho que eu fiquei um ano nisso, não me lembro com precisão. E depois fui trabalhar na agência de São Paulo, na agência na [Rua] Benjamin Constant. Era um armazém na Rhodia, o gerente era o Ritchie, um italiano. Tinha o Artur Maurano, me disseram que faleceu.

Fui trabalhar com o Bernardo José de Freitas, que era o chefe de propaganda. Durante um tempo eu visitei médico.

 

P/1 – Como foi esse trabalho, a timidez?

 

R – Não, não tinha problema com médico. A timidez minha era de fazer discurso, ficar em frente ao microfone. Eu gosto de um papo assim como estamos tendo. E visitava muito bem, não tinha problema. Eu notei que o nível caiu quando agora, depois que saí da Rhodia e fui batalhar pelo meu vaporizador, visitei um médico, fui fazer a propaganda que eu sabia, eu ensinava. Porque depois eu fui chefe de um setor com sete farmacêuticos, foi a maior parte que eu passei na Rhodia foi como chefe de setor.

Visitando um médico - eu não vou citar o nome porque não me lembro e é bom que eu não me lembre - relativamente moço, eu expliquei que o meu vaporizador, com os próprios sais que tinha na água fazia a eletrólise, porque a água normal tem sais. Como eu dobrei o campo de ação, fiz um teste com um sobrinho meu que era engenheiro, ele testou. Esse médico disse: “Mas não é desvantagem não ter sal, não precisa pôr sal?” Eu dizia: “A vantagem é que o senhor liga o aparelho e acabou, depois de dez minutos está vaporizando.” É vapor quente para doenças do aparelho respiratório. Ele disse: “Mas o sal ajuda, não é?” Eu disse: “Ajuda no quê, doutor? O sal ajuda na eletrólise, é um choque entre elétrons e forma fricção, e a água vaporiza, o sal não evapora.” Ele disse: “Não, mas o sal ajuda!” Então eu vi que o nível estava caindo para caramba. Nunca me esqueço disso.

O sal não evapora! Se você faz uma sopa, qualquer dona de casa sabe que se você concentrar a sopa fica salgada, o sal não sai, não evapora, só substância volátil evapora. No vaporizador tem um receptáculo para pôr substâncias voláteis; com o calor ela ajuda, vem junto, mas o que vale é o vapor quente para a criança. Então eu vi nessa pequena entrevista com o médico que o nível tinha caído muito. E ele tinha que saber. Você sabe que o sal não evapora, e ele pensou que o sal ajudava na cura da bronquite. O sal poderia irritar se evaporasse, não é?

 

P/1 – E o senhor lembra os produtos principais que o senhor propagou?

 

R – Eu propagava os produtos da Rhodia. Quando lançaram a Amplictil, era uma revolução na psiquiatria. Aí o Simões fez conferências e mais conferências.

 

P/1 – Sobre o Amplictil?

 

R – Sobre o Amplictil. E numa dessas teve esse quiproquó.

 

P/1 – O senhor recebeu algum treinamento, alguma coisa ou não?

 

R – Tinha, o Simões dava aulas. Ele gostava de dar aula. Mas tinha gente boa, esse Sépibus era um belo sujeito. Quando ele se aposentou eu era chefe, ele estava na porta. A Rhodia tinha construído o prédio da [Rua] Libero Badaró e eu comecei… Ele já estava velhinho, estava com a minha idade ou mais. E toda aquela gente que passava que foi protegidos dele – nunca fui, mas ele também nunca me tratou com injustiça. Eu estava com um auxiliar meu, o Milanezzi; ele morava ali na Paulista e eu não conseguia táxi, ninguém convidava [o Sépibus para uma carona].

Eu disse: “Eu vou pra Vila Mariana, eu levo o senhor para a Avenida Paulista.” E ele era muito gozador. Sentou do meu lado e o Milanezzi atrás, e aí ele disse: “Pôxa, Marraccini, você também arranjou um puxa-saco!” (risos) O Milanezzi ficou louco! “O que ele falou?” Ele era gozador, ele disse: “Você que era lá o meu office-boy também tem o seu puxa-saco preferido!” Ele era irônico, mordaz, não deixava escapar uma oportunidade.

 

P/1 – Como era esse ambiente da Rhodia?

 

R – Era meio bom, não era ruim, não. A competição era terrível sempre, nas grandes companhias. Vaidade, picuinha, isso tem, mas a maioria era gente boa.

 

P/1 – Quando o senhor comentou que Rhodia era uma grande companhia, foi em que sentido?

 

R – [No sentido] Que ela tinha essa mística de ter farmacêutico, até na propaganda médica exigia farmacêutico. Tinha o [Laboratório] Silva Araújo Russel, que usava médico.

 

P/1 – Porque é uma característica da Rhodia de ter farmacêuticos na propaganda?

 

R – É, e o Silva Araújo, médico. Eu achava um exagero. Ficava um choque um médico fazendo propaganda médica para outro médico. Tinha cara meio grosseiro, eu soube de caso mesmo. No Silva Araújo teve um caso, o cara era médico e disse: “Ô, colega!” O cara disse: “Péra lá, eu não sou seu colega!” É um cara filho da mãe, disse: “Eu sou médico, você é propagandista!”

 

P/1 – Criava um mal-estar.

 

R – Um choque. Já farmacêuticos, eles aceitavam normalmente.

 

P/1 – Era a principal característica, exigência, da Rhodia que fosse farmacêutico?

 

R – Era que fosse farmacêutico. Depois eles abandonaram isso, eu cheguei a ter farmacêuticos e leigos juntos. Isso já nos últimos tempos, tinha o Rui que não era, tinha até o chefe de orquestra, o Adamastor. Ele tinha uma orquestra e trabalhava. Ele revelou Jair Rodrigues - eu vi o Jair Rodrigues num programa de televisão falando. “Onde você começou?” “Eu comecei na orquestra do Adamastor! Em Santo Amaro, numa espelunca lá.”

 

P/1 – E ele era propagandista da Rhodia?

 

R – Era propagandista da Rhodia. Era o que me dava mais trabalho, xingava-o para caramba. Malandro. Você sabe que músico é músico, eles só entendem de música. E sabe o que ele vai ser? Pega a religião, Testemunhas de Jeová. A mulher dele teve uma anemia e o desgraçado não quer fazer transfusão de sangue. Eu precisei pegá-lo pela gola do paletó e dizer: “Quer que a mulher morra, quer ficar viúvo? Que que é?” “Não, é que a religião proíbe, tem soro!” “Mas ela precisa de hemácia e ninguém inventou hemácia. Inventaram soro para desidratação, mas hemácia não tem!” (risos) Tem cada religião! Essa de Testemunha de Jeová devia ser proibida.

 

P/1 – Eles proíbem a transfusão, não é?

 

R – Proíbem a transfusão, eu não sei o que é que há. Religião é uma droga, não? Atrapalha! E esses crentes? Eu tive um caseiro crente. Eu estava vendo televisão lá em Bertioga e ele me chamava, “Seu Dorival, eu preciso falar contigo!” “Que é, Luís?” Saía, porque ele não podia ver televisão, saco! (risos) Os crentes proíbem a televisão. Até que hoje deviam proibir mesmo, tem tanta porcaria na televisão.

 

P/2 – O pastor comprou uma!

 

P/1 – E já está chegando a segundo lugar de audiência.

 

R – O da Igreja Universal. Essa Igreja Universal é um escândalo, e os caras pagam 10%, os religiosos.

 

P/1 – Seu Dorival, que área o senhor cobria em São Paulo? Tinha uma área específica?

 

R – Vila Mariana, Pinheiros, por isso que eu me lembrei da [Rua] Cardeal. Vila Mariana, Pinheiros, Vila Clementina, era uma faixa assim.

 

P/1 – E naquele tempo como era o cotidiano de um propagandista?

 

R – Propagandista? Eles vinham de manhã, tomavam um café, batiam um papo, depois saíam para as obrigações. À tarde faziam o relatório.

 

P/1 – Tudo de terno, pastinha?

 

R – Tudo de terno, gravata, era horrível! (risos)

 

P/1 – No sol quente!

 

R – No sol quente com o paletó, então você tirava o paletó. Quando entrava no consultório punha o paletó. Era horrível!

 

P/1 – E a relação com o médico?

 

R – Eram boas, eu tive grandes amigos. Tive grandes amigos médicos, como Dorival Decoussau, que é pai do Caio, que jogou no São Paulo.

 

P/1 – O jogador?

 

R – Caio está no Flamengo hoje. Dorival Decoussau e outros médicos que eu não me lembro o nome de todos. Doutor João Amorim, depois foi parteiro da minha mulher. Acho que ele faleceu, se não me engano, era um grande parteiro. Foi ele que fez os três partos da minha mulher.

 

P/1 – Os três partos?

 

R – É. O Val, o último, foi que precisou de circuncisão até, tinha aquela pele muito comprida.

 

P/1 – Fimose.

 

R – E ele me obrigou a assistir. É uma coisa simples hoje em dia. A religião judaica tem muita higiene, você sabe. Eles têm muitas medidas higiênicas. Pelo menos tem essa, o Hugo fez também. Eles não comem porco, têm umas medidas higiênicas, pelo menos têm.

 

P/1 – E nessa época, propagava-se, vendia-se? O senhor vendia também?

 

R – Propagava, eu tinha vendedores e propagandistas, eram sete; acho que eram quatro propagandistas e três vendedores. Vendedor era o Adamastor, o Piegá, coisa assim, o Milanezzi. E os outros que eram farmacêuticos eram propagandistas, eles ainda conseguiam manter, mas depois isso acabou, hoje em dia.

 

P/1 – Quando acabou, o senhor sabe? Por que acabou?

 

R – Eu não me lembro, sinceramente. Acabou porque ficava difícil, eu acho que farmacêutico escasseou. Tinha muita mulher, no curso de Farmácia predominavam mulheres.

 

P/1 – Não tinham mulheres propagandistas?

 

R – Não tinham. Ainda tinha aquele preconceito contra mulher. Nunca vi propagandista mulher na Rhodia e não vi em outros laboratórios também.

Quando fui chefe eu dava muita liberdade para o pessoal e eles não gostavam. Em uma ocasião, o Freitas me pediu que fosse na hora do almoço, depois das duas horas, passar na casa de cada um ver se o carro estava na garagem, e eu disse: “Olha, então vocês contratam um detetive, porque eu sou farmacêutico.” Aí já começou o negócio. Pô, você acha justo? Pois ele achava que devia fazer. “Não, precisa porque o pessoal tira soneca!” Eu disse: “Poxa!” Eu também tirava soneca porque se eu saía do almoço e já ia, não rendia o trabalho. (risos)

 

P/1 – A sesta.

 

R – Meia hora de uma sesta.

 

P/2 – O senhor se tornou chefe quando? Como foi?

 

R – Não me lembro a época. Eu me tornei porque eles resolveram ampliar o corpo; os antigos, que éramos seis, ficaram todos chefes, cada um com seis, sete. Ampliou tremendamente, a cidade cresceu, foram trinta anos. Acho que depois de dez, doze anos, eu fiquei encarregado de setor.

 

P/1 – Setor queria dizer o quê? Uma área?

 

R – Uma área, essa área que eu estou te falando: Vila Mariana, Ipiranga, Vila Clementino, Pinheiros, Vila Madalena. Eu gostava da Vila Madalena. Hoje eu nem sei, hoje deve estar só bairro, eu não passo mais lá.

 

P/1 – E como era a Vila Madalena nesse tempo?

 

R – Era um sossego! Bairro gostoso, bacana, tranquilo, só gente fina.

 

P/2 – Não tinha boemia?

 

R – A nossa droga de elite! A elite brasileira é uma droga. Ou não é?

 

P/1 – E como chefe o que o senhor tinha que fazer, ficar controlando?

 

R – Eu tinha que ensiná-los a falar com o médico, a orientar num produto, principalmente quando começou a escassear farmacêutico, então ficava mais difícil. Quando era colega, eu dizia: “Você entende tanto quanto eu, escuta. Formado em São Paulo, leia.” Vinha as literaturas. Quando era essa turma [de] menos conhecimento, eu tinha que orientar.

 

P/1 – O senhor dava algum curso, treinamento?

 

R – É, conversava com um, conversava com outro, as dúvidas que tinham. “Qual é a dúvida nisso?” “O que eu falo?” “O importante é isso.”

 

P/1 – Teoricamente o senhor tinha que fazer controles também?

 

R – Também um controle. De vez em quando eu ia visitar um médico para ver se ele estava sendo visitado. “Vamos sair hoje juntos!” Eu não gostava muito, mas eu fazia, eu cumpria essa obrigação.

 

P/1 – Ficar do lado.

 

R – De espião.

 

P/1 – E de modo geral todo mundo cumpria?

 

R – Cumpria, eles entendiam e eu nunca achei um médico que não conhecesse o cara. Porque a tática era você pegar e ir num médico que ele não fosse. (risos)

 

P/1 – Num médico que ele não fosse?

 

R – É, porque ele dizia: “Vamos visitar isto, isto, isto.” “É, mas eu quero visitar o fulano de tal!” Para ver se ele estava. (risos)

 

P/1 – Como você media o trabalho?

 

R – Tinha a produção, o meu setor era o que mais vendia. Por incrível que pareça, era na amizade e a gente ganhava sempre. Na venda ganhava, na propaganda eu não sei como é que eles aquilatavam, mas vendia-se, era o setor que mais vendia.

 

P/1 – O setor que mais vendia era o seu?

 

R – Era. Depois, no final, começaram as proteções, deram melhor zona para um cara. O Gasômetro era uma zona de grande distribuição, quem ficava com o Gasômetro já levava uma vantagem terrível. Você vendia para os grandes atacadistas, matava, mas isso foi no finzinho mesmo.

 

P/1 – Tinha algum tipo de premiação?

 

R – Tinha prêmio. Eles davam prêmio, tinha uma comissão sobre as vendas. Mas o rateio era feito igualmente entre todos os setores, isso também era... Mas era um detalhe.

 

P/1 – Não era só entre o setor que ganhava?

 

R – Eram cinco, seis setores e se cumpria a meta. Era uma meta geral e o chefe controlava os setores, mas geralmente o meu setor em São Paulo ganhava. No final começamos a perder porque deram essa zona filé mignon para outros elementos. Eu já estava meio na geladeira.

 

P/2 – Essa zona dos grandes atacadistas, que o senhor falou, do Gasômetro...

 

R – O Gasômetro era o grande atacado farmacêutico, não sei se ainda continua, mas era.

 

P/2 – Mas é ali no Bairro do Brás?

 

R – Ali no Bairro do Brás, o Gasômetro. Tinha umas três ou quatro firmas que eram grandes atacadistas de produtos farmacêuticos, e já estava mudando a mentalidade e a farmácia. A Rhodia vendia direto para as grandes farmácias, então as pequenas farmácias se serviam dos atacadistas.

 

P/1 – O senhor se lembra dos principais atacadistas desse período?

 

R – Eu não me lembro do nome, isso aí [faz] tantos anos, mas é fácil de verificar, eu acho que ainda tem. Tem até um primo advogado que numa dessas firmas ele trabalha, mas eu não lembro do nome, esqueci.

 

P/1 – O senhor comentou do carro. A Rhodia dava um carro, o senhor tinha?

 

R – A Rhodia dava o carro, dava seguro, pagava por quilometragem. O Freitas vinha no fim do mês fiscalizar o velocímetro.

 

P/1 – A função do Freitas era essencialmente fiscalizador?

 

R – É, e ele adotava como a Bíblia o manual da falsidade: “Como influenciar pessoas e conquistar amigos.” Ele chamava todo mundo de irmão. (risos)

 

P/1 – Ele era conhecido como “o grande irmão”?

 

R – É, era “o grande irmão”. O Simões adorava, vocês precisam imitar esse homem porque esse homem é uma lição de vida! Ele lia o manual, a Bíblia dele era o manual da falsidade [do] Dale Carnegie: “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.  Foi a única coisa que ele conseguiu ler na vida. (risos)

 

P/1 – E o salário era bom?

 

R – Era bom, dava para levar uma vida digna.

 

P/1 – O senhor era casado na época?

 

R – Tinha casado.

 

P/2 – E como foi o casamento do senhor?

 

R – Foi o mais simples possível porque a família era contra; eu tinha vivido com a minha esposa uns tempos. Não a minha mãe, a minha mãe recebeu a minha esposa, mas os outros católicos fanáticos.

 

P/1 – Por que o senhor não tinha se casado ainda?

 

R – Não, não tinha me casado. (risos)

 

P/1 – Onde o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Eu a conheci num churrasco. Ela que me escolheu, ela era muito atrevida. (risos) Foi uns amigos que convidaram [e] ela apareceu. Ela trabalhava numa loja boa na [Avenida] Brigadeiro [Luís Antônio], a Satiki, e era bonita, vistosa. Eu estava ali… Um amigo convidou, veio ela e mais uma amiga. Eu sei que uma hora ela veio me tirar para dançar, mulher escolhe. A gente pensa que conquista e é conquistado.

 

P/1 – Ah sim, isso é verdade! Seu Dorival, o senhor acabou saindo da Rhodia?

 

R – Acabei.

 

P/1 – Conte essa história.

 

R – O final foi triste. Tive que brigar com o cara porque deram o serviço sujo. Ele informava os meus ajudantes, os meus auxiliares e não me informava.

Tinham programado que eu tinha que sair, acharam que eu tinha que sair, acho que era isso; eu estava com 29 anos, 28. E o meu irmão tinha saído. Eu tinha montado com ele uma indústria de plástico, mas ele que estava… Eu não participava, nem ia lá porque sabia que tinha espião.

 

P/1 – Tinha espião?

 

R – É, da Rhodia, devia ter. Tocamos a fábrica de plástico, mamadeira e chupeta, e depois que ele faleceu fui para o vaporizador que eu lhe contei. Mas teve esse, eu não me lembro do nome, Silas parece que era. Deram um serviço sujo para ele e eu precisei pegá-lo um dia, prensar e disse: “Você está me prejudicando? Você informa as coisas e não me informa? Que chefe sou eu? Você está fazendo serviço sujo que a turma está te pedindo pra fazer, mas eu vou te morder.” “Não, não é isso, o seu irmão era meu amigo!” Meu irmão já tinha saído, eu disse: “Não põe irmão no meio que eu estou aqui!” E pus o cara no lugar dele, ele então foi lá e disse: “Não, ele está disposto a isso.” Eu disse: “Eu quero é me aposentar, 30 anos eu saio, no dia seguinte vocês me pagam o que eu tenho direito e tudo bem, mas não me façam o que estão fazendo porque você vai se danar, você vai se machucar!” Teve essa coisa desagradável.

 

P/1 – O irmão do senhor já tinha saído?

 

R – Tinha saído. Ele brigou com o Simões, se recusou a cumprimentar o Simões. O Simões usava ele e abusava, sabe como é? Ele era também um pouco vaidoso e achava que não estava certo. Mas ele era um cara que levava a Rhodia a sério, tanto que o Emile Blanchi, que era o presidente da Rhodia, mesmo pedindo demissão, deu-lhe um prêmio. Deu não sei quanto, ajudou a gente a montar a indústria.

 

P/1 – Seu irmão foi chefe do DPESP [Defensoria Pública de São Paulo], não foi?

 

R – Foi. .

 

P/1 – Geral, não é? E ele não era farmacêutico?

 

R – Não era, mas era um bom organizador, sempre foi meticuloso. E conhecia a natureza humana, sabia tirar das pessoas o melhor. O [Antonio Carlos] Rizzo, vocês não entrevistaram o Rizzo?

 

P/1 – Entrevistamos também.

 

R – O Rizzo é uma excelente pessoa, foi auxiliar do meu irmão. O Carvalho, entrevistaram o Carvalho?

 

P/1 – O Carvalho também.

 

R – O Carvalho era um bom puxa-saco, mas tudo bem. (risos) Ele substitui o meu irmão, era um puxa-saco. Que mais você quer saber? Fala, ajuda!

 

P/2 – Como era a concorrência da época? Quem eram os concorrentes da Rhodia?

 

R – Silva Araújo, Abbott, Schering, Bayer, um monte.

 

P/2 – E havia lealdade?

 

R – Havia. Dpois o governo militar fez aquele sistema de desenvolver a indústria nacional permitindo que eles tivessem preços. Então criou-se a indústria nacional, começaram a aparecer uns laboratórios de BO, eles imitavam os produtos estrangeiros, não tinham que gastar dinheiro em pesquisa. E deu BO - era bonificado, era bonificação - então o farmacêutico comprava um e ganhava três, outro dava dois, dava um lucro fabuloso e o humilde é que era enganado, porque quem que vai lá e paga dez vezes mais caro, cinco vezes mais caro um produto? É o humilde. Era assim que queriam desenvolver a indústria nacional. Errado, eu acho.

Eu fui visitar… Depois que saí da Rhodia fui vender em Minas para um atacadista, para minha firma, a Sucipla, e esse atacadista tinha um laboratório. A seção de injetáveis dele era tijolo à vista, uma poeira desgraçada. Eu disse: “Mas como?” Em Belo Horizonte, pertinho do centro da cidade, permitiam aquilo.

 

P/1 – O laboratório todo sem estrutura nenhuma.

 

R – Tudo sem estrutura e os preços eram exorbitantes sempre, cinco, seis vezes mais caro.

 

P/1 – Não tinha o CIP [Câmara Interbancária de Pagamentos] na época?

 

R – Não havia. O Brasil melhorou muito, eu acho. O Fernando Henrique tem uma luta terrível e estão fazendo onda contra ele. Ele está com a popularidade lá embaixo. Eu acho que nós estamos num sistema capitalista, não tem saída, essa globalização… Não sei, não sei a ideia de vocês.

Eu acho o Fernando um cara excepcional, não tenho nada contra ele, pessoalmente nada. Ele está um pouco mole? Está. Tem que negociar com esse Congresso ou não? Nós estamos numa democracia ou não estamos? Tem outro jeito? Não sei. Eu reconheço que ele está contemporizando muito, eu reconheço, mas você tem que negociar e nós estamos mal-acostumados. Os caras querem cargo, querem... Qual é o outro jeito? Ditadura? Ele é patriota, se há alguém que é contra a ditadura é o Fernando. O Collor não envergonhava a gente? O Bush fazia do Collor, dizia que ele era o Indiana Jones. (risos) Eu li que chamavam o Collor de Indiana Jones. O Fernando é respeitado aí fora. Eu já bem vi que você não é fernandista.

 

P/1 – Eu? (risos) Não.

 

R – Eu não sou fanático, mas eu tenho lido, tenho visto, ele está lutando para acertar.

 

P/1 – Errado, mas está, não é? (risos)

 

R – Está errado, está negociando, mas qual é o outro sistema?

 

P/1 – O senhor teve empresa. Como foi esse trabalho com a empresa? Quais eram as principais dificuldades, como foi isso? Já que o senhor falou de sistema.

 

R – A dificuldade é que eu sempre acreditei muito no ser humano. Eu dei sociedade para uma mulher que me roubou, 10%. Meu irmão faleceu, eu fiquei sozinho, então tinha que lidar com vendas, pus a canga e fui. Mas a empresa está lá até hoje com o meu genro e ela continua sócia com 10%, só que ele agora está em cima, e eu não ficava em cima. Ela ganhava no bicho de quinze em quinze dias. (risos)

 

P/1 – Carro novo, casa nova.

 

R – É, tinha chofer.

 

P/1 – Tinha chofer?

 

R – Tinha. Em certas coisas eu fui muito ingênuo.

 

P/1 – Onde era essa empresa?

 

R – Ainda está lá, é no Ipiranga. É uma travessa da Avenida do Cursino, agora me esqueci a rua. Desculpe, é a idade.

 

P/1 – E o senhor trabalhou, era sócio?

 

R – O prédio é meu e da filha do meu irmão. Meu genro paga para ela dois mil de aluguel e para mim mil. E ele toca. Ele é psicólogo também, conheceu a minha filha na escola de Psicologia. Ele é psicólogo e toca, mas ele continua com o vaporizador.

 

P/1 – Com o vaporizador?

 

R – Vive à custa do vaporizador.

 

P/1 – E começou como empresa de plástico, é isso? E depois foi se transformando ou foram duas empresas diferentes?

R – Era uma indústria de plástico, a gente fabricava a mamadeira. A mamadeira, eu a desenhei, a Glug, era uma mamadeira de injetar. O meu irmão tinha só chupeta, aí quando eu saí da Rhodia, no dia seguinte eu estava na Sucipla. Eles: “Tire umas férias.” “Não, agora vamos lutar, arregaçar as mangas.”

No dia seguinte estava trabalhando na Sucipla. E aí fiquei amigo de um italiano que conhecia tudo de plástico, injetava para a gente, porque a gente não tinha máquina. Compramos máquina porque o italiano me ensinou todos os segredos - Nicodemo Pastorelli, um ótimo sujeito, grande amigo. E fomos fabricar Mamadeira Glug. Glug era conhecida. Depois veio a concorrência italiana, veio a americana, e chupeta e mamadeira eles dominavam, então ficamos... O vaporizador, tinha um judeu que era concorrente nosso. Ele entrou, impugnou a minha patente várias vezes, mas perdeu. E hoje imita - entrou em domínio público, o desgraçado imita.

 

P/1 – Ele imita?

 

R – Imita.

 

P/1 – E está até hoje como concorrente?

 

R – Eu não sei, não tenho falado com o meu genro sobre isso, mas até uns anos atrás ele estava ainda imitando e agora não dá para a gente, é uma imitação escandalosa. Ele foi contra, impugnou várias vezes, a patente demorou para sair, mas saiu.

 

P/1 – Como foi esse processo de registrar a patente?

 

R – Você entra no serviço de patentes. Entrava com a descrição completa do aparelho, a vantagem. Embora eu imitasse um aparelho americano, o formato, mais ou menos, o fundamento, que eram os eletrodos, eu fiz a patente. A patente me garantia tanto que está aí até hoje.

 

P/1 – Mas o que era? Era um processo, o senhor tinha que ir lá mostrar?

 

R – Não, eu tinha uma firma que [se] encarregava, era o Massaro. Eu explicava a ideia e ele desenvolvia. Era um despachante de patentes, o Massaro, na Rua Direita. Um cara honesto, gente boa. E ele disse: “Tem que ver nos Estados Unidos.” Quando eu fui ver o preço para patentear nos Estados Unidos, não tinha.

 

P/1 – Era caro?

 

R – Era caro, ficava caro. A firma era modesta, mas o meu genro até hoje vive com ela.

 

P/1 – E os americanos usam esse sistema também, não?

 

R – Para te ser franco não sei, eu acho que não. Americano gosta de fazer a coisa mais bonita. Eles têm muitos recursos, se preocupam com a estética do aparelho, não com a funcionalidade.

 

P/1 – E o senhor trabalhou, o senhor vendia o produto?

 

R – Vendia o vaporizador. O Glug até hoje vende, às vezes vejo em algumas farmácias, casas de artigos hospitalares.

 

P/1 – Mas o senhor mesmo vendia também?

 

R – Vendia. Aproveitei das amizades que eu tinha com farmacêuticos e visitava e forçava a coisa, outros estados. Eu peguei representante no Rio, tinha Jair Vasconcelos, tive que fazer muita farra com ele porque carioca é um buraco. (risos) Rio Grande do Norte, Bahia tinha representantes, em Belo Horizonte era o J. Nunes Braga. No Rio Grande do Sul não me lembro, Rui Araújo. Distribuía, até hoje vende vaporizador, o meu genro vive disso. Acho que é eficiente o aparelho, acho que tem cinquenta anos.

 

P/1 – Cinquenta anos?

 

R – Deve ter por aí. Quarenta anos tem, com certeza.

 

P/1 – E o senhor ficou trabalhando na firma até quando?

 

R – Até quando houve o estouro do Banco Auxiliar. Eu aplicava dinheiro no Auxiliar e perdi todas as minhas economias. Uma das coisas que falam mal do Fernando Henrique, por exemplo, que ele...

 

P/1 – Salvou banco.

 

R - Ele salvou banco, mas salvou o pequeno aplicador. Ele achou que era uma injustiça e eu acho que ele está certo. No tempo do Sarney, o Banco Auxiliar estourou e ele não teve dúvidas, foi só o saldo. Eu era freguês porque o gerente do Auxiliar era um amigo meu de infância. Eu não era especulador, mas o seu Abreu Sodré foi na televisão e eu vi dizer: “Ah, são especuladores!” Eu sei que me devolveram a metade do dinheiro depois de um ano, a metade do dinheiro no tempo daquela inflação galopante que era horrível.

 

P/1 – A metade do dinheiro?

 

R – A metade porque foi o que sobrou. O dono do Auxiliar tinha passado a CICA [Companhia Industrial de Conservas Alimentícias]. A CICA, que ele mandava dizer  para a gente que era firma dele, ele pôs no nome dos filhos. Uma puta de uma injustiça, você vê que coisa! Então a CICA ficou à parte, a CICA garantiria tudo, mas não.

 

P/1 – A CICA ficou fora do acordo.

 

R – É muita injustiça. Então o Fernando hoje, quando salvou os bancos… Deve ter tido, especulador tem em todo lugar, mas eles não vão ter que pagar com o que eles têm? Não estão permitindo que fiscalizem as propriedades deles fora, tudo isso? Parece que tem, hoje tem juiz sendo julgado. Vocês são novos, não viram, isso aí nem era concebível no Brasil, juiz ser julgado. Hoje esse do Tribunal Regional do Trabalho, que é um escândalo, ele se defende bem, é juiz competente, mas ele está sendo julgado e estão vendo as propriedades que ele tinha em Miami, nas Ilhas Cayman e no diabo a quatro, quando é que se sonhava isso no Brasil? Juiz é intocável, a toga é intocável, ou não? Era assim até pouco tempo atrás, estão melhorando, já é alguma coisa.

A democracia anda devagar, a corrupção predomina. Outro dia vi o Covas, você pode comparar o Covas com o Maluf, você viu o diálogo entre o Covas e o Maluf? O Maluf: “É, você anda falando mal da minha mulher porque anda vendendo frango superfaturado?” O Covas disse: “Maluf, você é um alvo tão bom que eu não preciso atacar a sua mulher, você é um alvo.”

 

P/1 – Ele só já basta, já tem bastante coisa para falar dele.

 

R – Eu falo para os meus amigos, para gente humilde, eu digo: “O Maluf tem tantos processos nas costas, hoje estão vendo que tinha mesmo.” “Mas não aparece nada, o senhor lê onde?” “Eu leio no jornal. O senhor lê jornal?” Não, não leem jornal, brasileiro não lê jornal e é enganado fácil. O nosso zé-povinho é enganado fácil, é ou não é?

 

P/1 – É verdade.

 

R – Então eles não leem, não ficam a par. E isso dos bancos eu acho que ele fez bem porque tem gente modesta ali que aplicou dinheiro, isso é uma desgraça e eu saí da firma. Eu larguei, meus filhos não queriam, eu disse: “Firmino” - meu genro -  “pega isso que eu vou largar, não aguento.” Entrei em depressão e larguei. E ele está tocando até hoje.

 

P/1 – O senhor entrou em depressão?

 

R - Ele já estava trabalhando comigo, o meu genro.

 

P/2 – Queria voltar um pouquinho, uma curiosidade. Queria que o senhor falasse um pouco como era a vida e o trabalho na época da Segunda Guerra.

 

R – Eu mais ou menos contei para vocês. Na Guerra nós sofremos pouco aqui, quase nenhuma influência. Quem se interessava lia, eu lia a desgraça que estava acontecendo na Europa, mas relativamente faltou pouca coisa. Faltaram medicamentos, certos medicamentos, então deram várzea que o Greco desenvolvesse o laboratório dele e devem ter tido outros casos. Eu sei desse do ácido acetilsalicílico. E é isso aí.

Esse Dantas era o chefe da fiscalização do exercício profissional, tinha um salão enorme. Ele disse: “Mas onde é que você estava que eu não te conheci?” Eu o conheci numa homenagem que o Conselho fez e calhou de eu encontrá-lo. Ele era honesto, chefe de fiscalização, agora usavam o nome dele, os ficais diziam: “Olha, eu tenho que dividir com o chefe.” E hoje ele ganha sabe quanto? Mil e duzentos reais. Eu ganho 811! Eu disse para ele: “Se consola, Dantas, eu da privada ganhava trinta salários, mais ou menos, ou mais, e estou com 811.”

 

P/1 – Porque o senhor ficou com a aposentadoria só do INPS [Instituto Nacional de Previdência Social]?

 

R – É.

 

P/1 – O senhor não ficou com nenhum...

 

R – Nada. Graças à Sucipla eu me desenvolvi, eu tenho minha casa aqui boa em São Paulo, mais a casa lá em Bertioga de frente para o mar. Uma casa modesta, eu construí com demolições da [Avenida] Paulista, mas mais a [Avenida] Brasil, quando abriram a Brasil. É boa casa, um dia vocês podem visitá-la.

 

P/1 – Opa, com certeza!

 

R – E tinha amigos na Bertioga, farmacêuticos. Eu fui para Bertioga quando não tinha luz.

 

P/1 – O senhor foi morar em Bertioga?

 

R – Depois eu fui morar, eu morei dois anos lá, mas estava nessa fase de depressão, então foi ruim. Mas só isso, eu venci.

 

P/1 – O senhor comentou que construiu a casa com demolição, como foi?

 

R – Com demolição. Eu comprava material usado das grandes casas que estavam demolindo na [Avenida] Brasil, de uma delas eu gostei tanto que da porta da frente, as portas, tudo foi comprado. E um lambri, tinha um lambri lindo todo facetado. Eu imaginei, tinha imaginação de fazer uma sala de almoço lá porque eu construí... Tive casa comprada pequena, modesta, depois construí. E o cara me deu o lambri de presente; tinha comprado quase tudo, os madeiramos, assoalho, tudo.

 

P/1 – O assoalho, tudo?

 

R – O assoalho até hoje é de madeira.

 

P/1 – Na casa do senhor tem a história toda dos barões do café então?

 

R – Tem, tem lá. Tinha coisas incríveis. A porta era uma porta com divisão, era uma porta corrediça grande, toda cheia de vidros. Até hoje está lá, tem 32 anos, está perfeita. Eram madeiras de lei, o trilho que corria era inglês, eu fui olhar, era inglês – made in England – importavam até o trilho de porta de correr. (risos)

 

P/1 – Importavam tudo.

 

R – Importavam quase tudo, só não importavam café.

 

P/1 – Lembrando disso, como foi essa coisa da matéria-prima na época da empresa do senhor?

 

R – Eles tiveram dificuldade. Tiveram de comprar no Brasil, nesse caso o Greco, é o que sei.

 

P/1 – Não, mas na empresa do senhor, o senhor tinha algum problema?

 

R – Teve, de plástico. O que me ajudou muito foi o Viriato, da Rhodia, que era chefe do Sindicato de Plástico. Teve dificuldades, era racionado, aí eu apelei para o Viriato. Ele era chefe do Sindicato de Plástico, tinha saído da Rhodia, tinha sofrido muita desilusão também e me deu as firmas, poliolifinas e outras, aí facilitou minha vida. Ele facilitou muita a minha vida, era matéria-prima. Teve dificuldades.

 

P/1 – Teve dificuldade também?

 

R – Teve. E do Dantas. Vamos voltar ao Dantas, que era um cara excepcional. Noventa e dois anos, está sozinho; era um leão, é um velho fora de série. Ele anda doente, anda muito isolado. Ele mora na [Rua] França Pinto, eu telefono para vocês, dou o endereço e telefone dele. Ele vai ficar bravo comigo, mas merece. Ele fica zangado, mas também é vaidoso, ele gosta.

 

P/1 – Depois eu vou pegar direitinho com o senhor alguns dados dele, o senhor me passa e a gente vai entrar em contato com ele.

 

R – Eu passo, vale a pena.

 

P/1 – E depois o senhor se aposentou e saiu da firma. O cotidiano do senhor passou a ser como?

 

R – É, tocando a firma. Quando faleceu o meu irmão eu senti falta porque o meu irmão era um grande administrador e eu em administração sou uma negação, deixei para essa bichinha aí que me roubou.

 

P/1 – O senhor colocou uma sócia, foi isso?

 

R – Eu dei 10% para ela e dei 10% para o encarregado das máquinas. Era um nordestino e eles tinham relações. Ela era casada, mas tinham relação, e tinha relação com o bicheiro, que confirmava que ela ganhava de quinze em quinze dias. É uma história...

 

P/1 – História de sociedades.

 

R – De sociedade.

 

P/1 – Depois que o senhor saiu da firma, como foi?

 

R – O meu genro comprou a parte do Zé Maria, que era um nordestino, alagoano. Era um cão fiel, mas estava apaixonado por ela. Devia estar e não acreditava. Eu sei que em uma ocasião disse a ele: “Está faltando dinheiro.” Só para ter uma ideia [de] como eu tenho certeza que ela me roubou, eu disse: “Nós vamos é fechar isso aqui, não dá, eu não tenho mais dinheiro para pôr.” Eu tinha perdido dinheiro no Banco Auxiliar. E ela encontrou um cheque de duzentos mil, vamos dizer, duzentos mil dólares que estava no fundo da gaveta e salvou a situação, depois à tarde. Aí eu peguei e disse: “Pô, isso é demais! Nessa situação você esqueceu o cheque de 200 mil de quem?” Tenho certeza que ela me roubava. Hoje ela anda modesta, está pagando lá mesmo.

 

P/1 – Está pagando lá.

 

R – Está pagando lá.

 

P/1 – Não esperou para pagar lá em cima, não (risos).

 

R – É isso, tempo de dificuldade de matéria-prima, petróleo escasseou, teve racionamento de gasolina, eu estou esquecendo. Mas passava, dava para tocar.

 

P/1 – E o senhor depois, hoje?

 

R – Hoje eu vivo do aluguel da metade do prédio, os 811 [reais] e sou responsável… Era responsável por uma farmácia particular - é o Djalma Andrade Teles, lá na avenida Formosa. Tiro mais seiscentos e poucos - e do Hospital Morumbi Psiquiátrico. Mas eu era um homem que se valia de tudo. Ele não era médico, o Machado não é médico e foi descredenciado do SUS [Sistema Único de Saúde], e eu dei baixa graças a um amigo que tinha lá. Ainda recebi o meu Fundo de Garantia e vou vivendo assim. E tinha um apartamento que eu comprei e vendi, é isso que eu troquei com outro, estou com dificuldade de vender, então está me ocupando.

Quase não consigo ler, então a minha distração predileta é ler jornal. Livro eu não leio mais; já li o suficiente, está na hora de botar para fora.

 

P/1 – O senhor não pensou em escrever nesse tempo?

 

R – Pensei, mas eu era meio preguiçoso. Precisa ter vontade, eu acho que eu não tinha muita ambição, acho que talvez fosse isso. Tinha muita coisa para contar, mas eu gosto de um bate-papo.

 

P/1 – Bater um papo, isso é bom mesmo. Deixa eu perguntar uma coisa que o senhor comentou antes da entrevista, que o senhor pegou aquela história do fundo de garantia de estabilidade, que ofereceram na Rhodia essa opção...

 

R – É, eu recusei. Eu disse: “Não, eu fico com a estabilidade, falta pouco?” E aí mudou o tratamento.

 

P/1 – Dentro da Rhodia?

 

R – Dentro da Rhodia.

 

P/1 – Porque para a Rhodia interessava que...

 

R – Que optasse pelo Fundo de Garantia, porque o Castelo Branco fez isso para o capital estrangeiro entrar. Acho que foi isso, o motivo era esse: a estabilidade.

O Getúlio Vargas era... Getúlio, político matreiro, e Vargas estadista, ele criou leis. A CLT [Consolidação das Leis do Trabalho] foi criação de Getúlio, o salário mínimo começou com Getúlio e a estabilidade depois de dez anos foi lei dele. Ele tinha parte de estadista dele, eu acho. Qual é o nome da nossa história que se imolou pelo Brasil? Ele tinha sido eleito pelo povo e o Lacerda, aquele grande tribuno, fazendo carga porque o burro do guarda-costas dele foi tentar matar o Lacerda e matou o Major Vaz, não sei se vocês estão a par.

 

P/1 – Acertou o pé do Lacerda.

 

R – Então tiro no pé, o Getúlio disse: “Aquele tiro no dedão do Lacerda foi um tiro no meu coração.” O nego era um cão fiel, ele não foi consultar o Getúlio, eu não acredito! Ele pôs um pistoleiro vagabundo ali para matar o Lacerda.

 

P/1 – Acho que tem uma coisa a ver com irmão, não é?

 

R – Como o pai do Collor, o pai do Collor atirou no João e matou Joaquim lá no Congresso, vocês sabem dessa história? Não é verdade? Não foi assim?

 

P/1 – Foi. O senhor foi sindicalizado? O senhor é sindicalizado?

 

R – É, sou do Sindicato dos Farmacêuticos e do Conselho Regional de Farmácia.

 

P/1 – O senhor participa ativamente do sindicato?

 

R – Não participo. Eu não participo porque eu acho que a mocidade está muito confusa. Eu vi esse pessoal… Em Cuba, o chefe da nossa delegação, que é um rapaz que me ajudou muito com o deslocamento, me deu toda a assistência, me levou no aeroporto, tudo bem, excelente!

Esse doutor Ramón veio uma noite nos visitar, eu já contei ou não? O doutor Ramón era Presidente do Sindicato dos Trabalhos de Saúde de Cuba e diretor do maior hospital de Cuba. Ele veio com o filho dele e o guarda-costas no hotel. O guarda-costas se encostou ali num canto, o filhinho dele… Até me falou, ele disse: “Olha, eu trago o menino porque ele é muito tímido para se desembaraçar.” É um homem excepcional esse doutor Ramón, o pai dele foi herói da Sierra Maestra. E estávamos conversando sobre Guantánamo, eu perguntei para ele: “Em 2003 os americanos têm que se retirar, será que eles vão se retirar, doutor Ramón?” Ele disse: “Não vão, e nós não vamos. Eu tenho carabina lá no meu consultório, na minha sala, a gente atirava neles, mas eles têm o pé para soltar uma bomba atômica em Cuba, invadir, nós vamos para os tribunais internacionais.”

E conversando, e todo mundo “doutor Ramón” para cá, “doutor Ramón” para lá; as mulheres predominam, sempre mulher. Uma hora ele chamou o nosso chefe de delegação e disse: “Mário, Rodrigo gosta de uma cerveja. Rodrigo está lá no bar” - estava já duas horas lá no bar - “Gosta de uma cerveja e ninguém se lembrou de oferecer uma cerveja.” Ele deu uma. Às vezes a nossa mocidade é socialista, mas esquece do ser humano. Era só o doutor Ramón e o coitado do Rodrigo, que também estava desempenhando uma função, [ele] não tinha ainda bebido uma cerveja depois de uma hora e meia, duas.

Um tapa de pelica. Eu não comentei, mas observei. O que você acha? Eu acho que é muito idealismo, mas há pouca profundidade. O ser humano é fundamental, eu gosto de gente simples e achei aquilo uma grande lição, mas ninguém percebeu, ninguém notou. A mulher fútil, todas elas queriam conquistar o doutor Ramón que era muito simpático, queriam cair nas graças dele e ele estava ali cumprindo uma função.

 

P/1 – Atividade política, o senhor exerceu em algum momento da vida?

 

R – No tempo de faculdade, quando fui presidente, participei. Eu era contra o Getúlio. Aí é que está e é o que eu digo agora: o Getúlio, na época dele, foi bom para o Brasil. Eu acho. O Getúlio veio como ditador, mas depois foi eleito pelo povo. O zé-povinho o elegeu. E ele elegeu antes dele o Dutra. O Dutra foi, ele recomendou e acabou, então o povo gostava dele. Era o pai dos pobres, o Getúlio.

 

P/1 – Quando o Getúlio se matou, como o senhor viu isso?

 

R – Eu achei uma injustiça terrível, eu fiquei revoltado porque o Lacerda era um demagogo, você sabe. Um grande tribuno, mas um demagogo. Era um grande tribuno, fez uma carga violenta e pegou os militares, e os militares deram um ultimato para o Getúlio sair. Ele tinha sido eleito pelo povo e se recusou a sair. A primeira vez, quando ele era ditador, ele saiu pacificamente. Mas depois o velho achou que tinha sido eleito pelo povo e meteu um tiro no coração.

Qual é o outro brasileiro que se imolou pelo Brasil? Tem algum caso? Tiradentes? Tiradentes foi forçado, mataram na marra. Outro? Eu estou velho, pode ser que eu.... Começaram a inventar que tinham matado o Getúlio. Ele se matou, meteu um tiro no coração. Ele disse: “Só me tiram daqui morto.” Tinha sido eleito pelo povo, numa consagração fabulosa. Errei também. Cheguei a participar quando mataram o estudante no Largo São Francisco, eu estava ali no meio.

 

P/2 – Em 32?

 

R – O ano eu não me lembro. Mataram dois estudantes lá no Largo São Francisco, de Direito.

 

P/1 – Na época da Guerra mesmo, não era?

 

R – Eu não me lembro. José Carlos, não é? Eu não me lembro direito com precisão.

 

P/2 – O senhor era menino na época que estourou a Revolução de 32?

 

R – Era criança. Eu via meus tios comentarem, mas não estava nem aí. Não posso te falar nada. Eu sei, depois de ler, que o Getúlio avançou, veio. Ele disse que ia amarrar o cavalo dele na Praça da Sé ou qualquer coisa assim. Ele era um patriota, acho que o Getúlio era um patriota. Hoje eu penso assim. Era um político matreiro, usava as pessoas. Eles usavam. Mas ele fez muita coisa pelo zé-povinho.

 

P/1 – Seu Dorival, se o senhor fizer uma avaliação da trajetória do senhor de vida profissional e tudo, o senhor mudaria alguma coisa? Se fosse começar de novo?

 

R – Eu devia ter tido um pouco mais de força de vontade de escrever. Isso aí eu me penalizo muito. Escrever seria o grande objetivo meu, era a minha tendência. Por exemplo, na depressão, o que me salvou foi a leitura. E eu conseguia, quando estava mais negra a coisa, eu entrava dentro de um livro e conseguia fugir. A minha psiquiatra é uma baiana negra. Disse: “O senhor escolheu um bom meio de fugir. Tem uns que fogem para a droga, outros fogem para o álcool, outros para o revólver, e você fugia para um livro.” E é verdade, eu fugia para um livro. Eu ficava lendo.

 

P/1 – E o senhor tem um grande sonho, seu Dorival?

 

R – Hoje não tenho mais. Esperando o fim chegar.

 

P/2 – Vai demorar ainda.

 

R – É, espero que sim. (risos)

 

P/1 – O senhor mora hoje com a sua esposa?

 

R – Eu e ela só, mas eu tenho meus filhos. O Hugo, que está lá no Monte Verde, em Camanducaia, vem toda hora. O Val está na Alemanha, fica de vir. Minha filha presta boa assistência.

 

P/1 – O senhor tem netos?

 

R – Tenho dois netos. Estão condenados, têm uma doença, Mal de Stargardt, na vista, não tem cura por enquanto. A ciência não faz nada e eles estão perdendo a visão, os dois. É genético, é do meu genro. A mãe dele tem um olho perdido, a irmã dele tem um outro olho perdido e os meus netos têm os dois olhos atacados. São coisas... Por enquanto, nada. Eu falei com meu oculista, que é muito amigo meu, e disse: “Nem traga eles aqui porque no momento não tem o que fazer.”

 

P/1 – E são crianças ainda?

 

R – Não. Meu neto está com dezesseis anos, o mais velho, e o outro, com doze, treze anos. E eu tenho glaucoma, operei glaucoma, tenho cristalino falso, já fiz ponte de safena, fumo (risos). Já estou com doze anos de ponte de safena. Dizem que a média é essa, eu falo com o meu cardiologista, a média de durabilidade. Ah, deixa para lá isso aí, varia muito. Eu não me deixo influenciar.

 

P/1 – Seu Dorival, tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de falar?

 

R – Acho que não, acho que esgotei o assunto.

 

P/2 – Eu queria perguntar para o senhor o que o senhor viu em Cuba nessa viagem?

 

R – Em Cuba eu vi isto: eles nivelavam pelo cortiço. Em Cuba os hospitais são excelentes, por exemplo: fomos à casa dos alienados. Eu participei dessa [visita] com o professor Ramón, no hospital geral. Estive no hospital de oftalmologia por causa do deslocamento de retina, tive vitiligo, numa clínica. Eles estão bem avançados em vitiligo. Como eu trabalhei no Hospital Morumbi de Psiquiatria, é droga, droga, droga. A relação de paciente é 70% droga, 20% álcool e 10% doenças mentais. Lá, não. Eu pedi a relação para ler e o diretor era um negro. Eu conheci médico negro em Cuba de monte, 70 % são negros, são ótimos médicos e eles se orgulham da raça. O nosso negro é diferente, não é? O Pelé é um exemplo, só se junta com branca. Eles não, eles têm orgulho da raça negra, da origem africana deles.  

Lá eu vi e não tinha drogado e eu disse: “Como é? Drogado não tem.” Alcoolismo tem, mas poucos casos. A maioria é catatônica, é esquizofrênico, é depressivo. Mil leitos no hospital, tudo limpinho. E eles dão tarefas manuais. Quando nós entramos, eles tocaram “Garota de Ipanema”, tinha uma orquestra no centro. Tem vinte mil metros quadrados o hospital de alienados, só jardim. Os pacientes ficam cuidando do jardim, isso, aquilo. Comida eles mesmos fazem. Eles estão adiantados.

Tem coisa muito boa em Cuba. É um país pequeno e tem isso, não entra droga. Eu perguntei para o diretor: “Mas e drogados?” Ele disse: “Não entra droga aqui.” Prostituição tem. Com o negócio do turismo tem muita prostituição. No hotel aparecia prostituta de tudo que é jeito.

Polícia ostensiva não vi. Eu queria ir à casa do Emiglio – o Emiglio viveu muito tempo em Cuba, eu o admirava muito – então procurei um chofer para ir à casa do Emiglio, mas ele não era chofer, não tinha a tarjeta, o cartãozinho. Então eu vi a primeira polícia que apareceu primeiro e, com muita educação, pediu licença: “Queria que você me desse o seu cartão.” “Não, é meu irmão, é que eu vou levar esse senhor na casa de Emiglio.” “Ah, tudo bem, mas o senhor tome cuidado, veja a tarjeta.” Mas não vi nada ostensivo.

Agora eu vi coisas lá, num domingo, num parque lá perto do hotel. Tinha uma fila enorme, gente modesta ali. Era para sorvete, com um cartãozinho eles tiram o sorvete barato; para o estrangeiro você entra pelo outro lado, você tira. Tem essas coisas, eles estão vivendo o turismo.

Para mim não ia servir, nesse estágio da minha vida. Eu prezo muito a minha privacidade e eu lembro do velho que teve… Não pode dizer “toma cuidado”. O velho não podia falar na frente dos rapazes. O doutor Jivago fala disso. Em “Doutor Jivago”, o médico tem que viver numa casa com gente, qualquer coisa assim. E eu notei isso, que eles perdem a privacidade, moram em conjunto. Na casa dos potentados, que nós passamos para ir em hospitais – isso era a casa de todos os cubanos que estão lá em Miami –, tem roupa estendida, são casas bonitas, mas vira um cortiço.

Mas é melhor do que nós. Nós temos a favela, que é uma coisa degradante. Eles estão melhores do que nós, eu acho. Há mais justiça para todos. A minha camareira, dona Márcia, era uma professora, acha justo o regime, acha tudo bem. Eu considero o Fidel um patriota, e o Che Guevara o maior idealista do nosso século. O próprio americano reconhece isso, eu vi no Times outro dia o Che Guevara sendo elogiado. Errado pode ser, vir morrer na Bolívia na mão da CIA [Central Intelligence Agency] -   aquilo foi a CIA, não é?

E o Allende no Chile? Eu fui ao Chile dois anos depois, quando estava o Pinochet. Poxa, era só ônibus e polícia em todo o canto, era um estado policialesco. Os americanos fizeram uma carga contra o Allende tremenda. O Allende era comunista, médico, competente. Fecharam tudo para o Allende e a gente da CIA ia minando aquele povo e o Pinochet bombardeou La Moneda e matou o Allende. O Allende morreu lutando. O Pinochet já está velho, mas não merece perdão. Ele matou. Não sei se vocês viram “Missing - Desaparecido”, um filme americano? Aquilo explica bem a mentalidade americana. No “Missing” eles se atreveram até a matar cidadão americano, aquele pai americano é um caso verídico. O consagrado diretor gosta de filme político, ele dirige bem. Ele já fez também filme contra o comunismo, mas ali mostra bem, o pai vê no fim que mataram o filho dele e a nora consegue convencer o pai. E eles não iam se atrever se não tivesse um sinal branco, uma permissão da CIA para matar o rapaz. O rapaz era um idealista americano. Você se lembra da história? Quando ele vai falar com o cônsul, ele se recusa a dar a mão para o cônsul porque o filho dele foi morto. Um colega de prisão fala para ele: “Não, o seu filho morto, eu vi quando atiraram nele. Então ele se recusa a dar a mão para o cônsul e o cônsul diz: “Ah, você se recusa, mas você leva aquela vidinha boa lá porque nós fazemos esse serviço sujo aqui.” Não sei se você se lembra disso. Ali está a verdade da história. Eles defendem aquele meio de vida deles com unhas e dentes. Meu genro me levou para os Estados Unidos e eu conheci a Nova Inglaterra, a bandeira americana. Mas eles são patriotas para o país deles.  

 

P/1 – O modo de vida deles é o que importa.

 

R – É, o modo de vida deles é o que interessa, os outros que se danem.

 

P/2 – Por todos os meios necessários.

 

R – Eles não invadem Cuba porque eles têm medo da opinião pública. Foi o que o doutor Ramón me disse. “Nós não vamos tirá-los, nós vamos para tribunal internacional”. Eles não vão sair em 2003. Os ingleses, eu admiro mais. Os ingleses entregaram Hong Kong, não entregaram? Eu prefiro o inglês, mil vezes ao americano.

 

P/1 – Os ingleses também não queriam peitar a China, não é? Ninguém quer peitar a China.

 

R – Ninguém. Americano tem um pavor louco da China. É o país do futuro, vai ser a potência do futuro, talvez. Dizem que eles estão se preocupando com a educação na China. Eu acho que – eu não vou ver isso – a China tem grande possibilidade. Os romanos também desapareceram, por que os americanos não vão? (risos)

 

P/1 – Então, senhor Marraccini, o que o senhor achou de ter dado esse depoimento?

 

R – Ótimo. Acho que eu estou com gente boa, esclarecida, simpáticos. Gostei. Me deixaram à vontade.

 

P/1 – O senhor ficou à vontade mesmo?

 

R – Fiquei à vontade, falei até coisa que não devia. (risos)

 

P/1 – O microfone não assustou o senhor?

 

R – Não, eu esqueci e a idade também vence. Agora diz que tem uma pílula que vence a inibição, a timidez, já ouviram falar?

 

P/1 – Nada de Amplictil?

 

R – Não. Dizem que é uma pilulazinha que vence a timidez. Deve ser ótimo. (risos)

 

P/1 – Ainda prefiro o copo de cerveja.

 

R – (risos) Também. Aí perturba as ideias.

 

P/1 – Você quer perguntar mais alguma coisa? Fique à vontade.

 

P/2 – Uma curiosidade minha: antigamente, nos bailes de Carnaval, o pessoal usava lança-perfume.

 

R – É. Usava, cheirava.

 

P/2 – O senhor chegou a viver essa época? Participou dos bailes de Carnaval?

 

R – Participava, a Rhodia fabricava o Rodouro, o lança-perfume. A Rhodia que distribuía.

 

P/2 – E o senhor estava trabalhando lá nessa época?

 

R – Trabalhava.

 

P/2 – Como foi a proibição? Como repercutiu lá dentro da Rhodia?

 

R – Não foi bem recebida. A turma cheirava. Você sabe que ele tem uma ação de euforia, você cheirando. Aquilo não era para cheirar, era para jogar, porque ele evapora muito rápido. Ele está concentrado ali numa temperatura e na temperatura ambiente ele evapora instantaneamente, aquele friozinho, perfumado. Feriu os interesses da Rhodia. Mas eu acho que a proibição foi bem-feita porque havia abuso.

 

P/1 – O senhor pulou Carnaval com o lança?

 

R – Pulava. Usei, eu ganhava sempre da Rhodia.

 

P/1 – E como é que o senhor usava o lança?

 

R – Eu tentei chegar a cheirar, mas não agradou. Eu nunca tive tendência. Maconha eu nunca experimentei. Meu filho experimentou, mas eu nunca experimentei.

 

P/1 – Mas jogava nas moças?

 

R – Jogava. Cheguei a cheirar, mas eu não gostei. A mocidade quer experimentar de tudo, só que hoje em dia está horrível. Crack...

 

P/1 – Senhor Dorival, eu gostaria de agradecer ao senhor.

 

R – Eu que agradeço a vocês... Eu construí uma casa na outra, vendi a da Penha e comprei esse de um empreiteiro que faleceu. Uma boa casa.

 

P/1 – Não é essa que o senhor montou com as demolições?

 

R – A demolição foi a de Bertioga.

 

P/1 – Ah, de Bertioga, entendi.

 

R – No litoral. A de Bertioga foi feita com demolição.

 

P/1 – Está lá? O senhor ainda vai para Bertioga?

 

R – Vou, tenho muitos amigos velhos lá, mas eu também gosto de me relacionar com os jovens. Tem um cara que tem uma pousada pegada à minha casa que faz um negócio gozado. Ele pega um peão de obras e o torna um grande funcionário, e o cara é um ignorante. Mas ele tem essa qualidade. Exigente, é uma prisão de luxo. Tem três rapazes: um é do Paraná, o gerente, e os outros, do Norte. Bacana. Eu passei até a admirá-lo. Então é isso aí, eu tenho muitos amigos. É bacana a pousada, eles têm todo o conforto. Isso é um rapaz com poucas letras, mas são gente boa. Eu me distraio muito por lá à noite para bater papo.

 

P/2 – O senhor gostava da boemia aqui em São Paulo?

 

R – Gostava. Mulherengo...

 

P/2 – O que tinha aqui em São Paulo que o senhor frequentava?

 

R – Tinha a gafieira, baile. No começo, quando eu era bem jovem, era a empregadinha que pagava o pato. (risos) Mas depois, com funcionária da Rhodia, tive vários casos. Nunca fui santo.

 

P/2 – O senhor falou também do gosto que o senhor tem pela música.

 

R – Eu gosto de música.

 

P/2 – E como que apareceu isso para o senhor?

 

R – Na minha juventude, assim como vocês têm hoje Veloso, Tom Jobim, quem mais? João Gilberto.

 

P/2 – E o senhor tem um gosto sofisticado para aquela época?

 

R – Para aquela época era, mas nem tanto. O Frank Sinatra, por exemplo, como cantor eu gostava muito porque ele pronunciava tão bem o inglês que eu entendia tudo, e uma voz muito gostosa. Mas eu gostava mais de orquestrada, como Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin. A influência americana sempre predominou sobre a gente, a literatura americana. Eles têm grandes literários.

 

P/2 – O senhor já leu Nabokov?

 

R – Nabokov eu não li. “Lolita” eu acho que li. Eu me baseei muito no Maugham, então li tudo o que tinha de Dostoievski, li Tolstoi. Tolstoi foi um cara fora de série. Guerra e Paz vale a pena ser lido.  

 

P/2 – O senhor gosta mais do romance dentro da literatura?

 

R – Hoje eu gosto mais da biografia. Eu já cansei da fantasia. É que esses grandes escritores esgotavam o assunto. O Tolstoi em “Guerra e Paz” esgotou o assunto sobre um país em transição. Ele criou uma personagem bonita, a Natasha. E nós todos temos uma dualidade, a parte boa e a parte ruim. Ele tinha o príncipe e o Pierre, que era a parte boa. O Pierre era um filósofo, que espiona a vida, masturba sobre a existência humana, e o príncipe é um cara patriota, ele era senhor de grandes terras. Quando ele ficou velhinho, quis dividir as terras e a família quis interná-lo como um louco.

Você sabe que o Tolstoi morreu numa estação de estrada de ferro, fugindo da família, porque ele queria dividir entre os servos. Primeiro comunista. Ninguém cita isso, mas a verdade é que ele queria dividir toda aquela terra entre os servos, e a mulher achou que ele estava louco e pôs a polícia em cima dele. Ele fugiu de casa e morreu numa estação de estrada de ferro. Ele foi enterrado, não me lembro a idade, mas ele já estava bem velho, beirando os 90 anos.

 

P/2 – Dos modernistas russos, o senhor leu?

 

R – Eu estou por fora.

 

P/1 – Maiakovski?

 

R – Não li.

 

P/1 – E os brasileiros?

 

R – Eu acho que os antigos escritores esgotaram o assunto. A literatura tem sempre cânones. Mas Balzac, por exemplo, esgotou o assunto que ele enfrentou. Proust, “À procura do tempo perdido”. Não deu tempo de ler os modernos e a vista foi falhando. Hoje em dia eu já não leio tanto.

 

P/2 – Nas décadas de 30, 40, 50, o senhor teve contato com a literatura de São Paulo, com os escritores?

 

R – Não, não tive contato. Eu me dediquei mais ao comércio, à indústria, e não tive essa oportunidade. É uma pena. Você encontra grandes caras. Esse Dantas é um cara bacana. Eu vou te dar o endereço dele.

 

P/1 – Eu ia pegar com o senhor.

 

R – Porque ele pode falar sobre a Rhodia, ele conhece muita coisa da Rhodia. Porque quando eu tinha qualquer problema na Rhodia com o serviço de fiscalização, quem ia era o meu chefe, o Freitas.





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