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História

Da Itália para o seu prato

História de: Sérgio Picchiarini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

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IDENTIFICAÇÃO [Me chamo] Sergio Picchiarini, nascido na Itália, em 8 de outubro de 1934. [Meu pai se chama] Ricciotti Picchiarini, e minha mãe é Maria Ilide Possentini Picchiarini. [Eles] nasceram: o meu pai em Popiglio, em Toscana, na Itália, e a minha mãe em Bagni di Lucca, também Toscana, Itália. [Meu pai] era mecânico industrial. Eu ajudava o meu avô na oficina mecânica que tinha lá numa cidade pequena lá da Itália, chama Popiglio, essa oficina vinha já de diversas gerações. COTIDIANO NA ITÁLIA Depois por um azar, que eu tinha feito inscrição lá pra fazer engenharia mecânica e continuar no ramo do meu avô, não pude continuar porque fui fazer um curso de garçom, em Viareggio, e comecei mudar de profissão. CURSO NA EUROPA O curso já havia começado quando eu cheguei em Viareggio. Já estava com 20 dias, então eram 66 alunos que entravam. É um hotel alugado pelo governo, e essa escola é do governo italiano. Quando eu entrei foi uma surpresa, eu pensei que eu ia no mar todo dia porque ali tinha o mar, mas não. Era um regime firme. Me deram um quarto do hotel. Fui lá na secretaria, conversei, me deram um pacote assim de livro, era francês, inglês, arte culinária, qualidade de vinho. Olhei pra todos aqueles livros ali e falei: "Poxa vida, eu vim aqui pra passar o mar, mas eu vou ter que estudar todos esses livros aqui? Ainda inglês e francês..." Ah, aí eu dei uma olhada assim mais ou menos mas nem cortei as folhas do livro. O que aconteceu? Como eu entrei atrasado, já começaram os exames pra aquelas pessoas que já estavam lá estudando desde o início do mês. Meu colega de quarto me chamou: "Olha, você está vendo esses dois vermelhos, vão pra casa, são eliminados do curso. Todo mês vai, os últimos dois que ficarem vão pra casa." Tirando os dois eu era o último. Eles me deixaram de propósito ali no penúltimo, porque eu tinha entrado só fazia três dias. Então eu falei, quando vi, falei: "Puxa vida, voltar pra minha cidade, expulso da escola é demais, não vou querer fazer isso." Voltei pro quarto, comecei a abrir os livros, comecei a estudar um pouco. Consegui ficar pela metade, eu falei: "Aqui estou, aqui eu fico, não me interessa mais do que isso." A minha ideia era justamente passar seis meses, e depois desistir do curso pra pegar o outro. Mas depois eu comecei a gostar do negócio e aí eu completei um ano e meio de curso. Veio que eu tinha que fazer especialização pro exterior, e por isso que eu saí da Itália e vim pro Brasil. As aulas de culinária eram de prática também, se faziam junto com o chef da cozinha, porque o garçom, na Itália, não faz o prato mesmo, mas ele sabe tudo o que vai no prato. Ele tem que saber, se o freguês pergunta o que é que tem, ele tem que dizer desde o cheirozinho até o sal e a pimenta. Porque muitas vezes o freguês não gosta do alho, não gosta da cebola, não gosta de uma coisa, ele tem que saber: "Ah não, não quero isso, não como isso, não como aquilo...". Então, a gente tinha a escola de arte culinária. O hotel era mantido pelo grupo todinho, então nós tínhamos cozinheiro, então éramos divididos em duas equipes, uma equipe de dia era estudo, então, e outra equipe de serviço. Faziam a comida para todos os alunos do hotel, eles almoçavam primeiro, porque de serviço almoçava primeiro, e depois o que era de estudo, a gente saía das aula e ia pro salão como freguês. Éramos servidos por nossos colegas, pelos nossos garçons, e você tinha que apontar todos os defeitos que ele cometia. Você era servido como cliente. Como se fosse um hotel de primeira linha. Depois, quando chegava o verão, porque isso aqui era mais no inverno, esse preparo. Quando chegava o verão, o hotel entrava em funcionamento com turista. Fiquei no salão, então atendi, fiquei servindo durante seis meses o turista mesmo. Tinha que aprender desde estender uma toalha em cima da mesa, colocar um guardanapo, um talher na posição certa, o copo na posição certa, tudo isso era ensinado. Eu gostava mais de arte culinária, ia muito bem. Detestava inglês. Língua não era o meu forte, nem italiano. IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL Pra terminar esse curso eu tinha que sair da Itália. Eu tinha 18 anos, minha mãe não achava bom. Eu era filho único e tal, era impossível ela me mandar sozinho pra França, pra Inglaterra, ou pra Suíça. E com a ajuda de um pessoal da cidade mesmo: "Não, você tem que mandar o rapaz pra fora, deixa ele ir embora, pra progredir, fazer alguma coisa a mais." No final da coisa, colocaram uma parte no currículo que dizia: "Se algum aluno quer ir para a América do Sul, ninguém foi ainda pra lá, se tiver um candidato que gostaria de ir, experimentar, ver como é esse campo aqui na América do Sul." Então, minha mãe vendo aquilo ali, como tinha uma irmã da minha mãe que morava em São Paulo, falou: "Bom, se você tiver que ir num país estrangeiro, você então vai pra América do Sul, vai pra São Paulo, que lá você vai com a minha irmã." Por isso que eu vim ficar aqui no Brasil. INFÂNCIA Minha infância foi na guerra, Segunda Guerra Mundial. A brincadeira nossa era um pouco até violenta, era sempre luta, nós tínhamos o batalhão da cidade de baixo contra o batalhão da cidade de cima, seria o exército mesmo de criança e a gente não jogava pedrinha, jogava bomba um contra o outro. A gente pegava essas bombas que era pra fazer explodir a dinamite, pegava dos alemães que tinha um depósito de armas, roubava deles, depois lutava um contra o outro, fazia essa infância meio violenta. Até que nós tivemos um acidente feio, um amigo meu e o meu primo ficou cego e outro amigo meu morreu, e dali em diante paramos de fazer essas brincadeiras. IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL [A viagem] pra mim era uma aventura. Tinha 18 anos, apesar que eu vinha pra minha tia que eu conhecia, mas pensei sempre num passeio, uma aventura, um país novo. Vim aqui pra aprender, pra estudar o ramo de garçom, de hotelaria e aqui não havia nenhuma escola, naquela época não havia nada. Quando cheguei aqui eu não pude continuar o meu curso, aprender mais alguma coisa, porque eu sabia mais, com o pouco que eu tinha estudado. Então a minha coisa era voltar para a Itália o quanto antes, mas devido que a minha volta teria que ser paga, eu tinha que pagar a passagem de navio, então tinha que ganhar esse dinheiro pra poder ir embora. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO Comecei a trabalhar de garçom, primeiro ali na Praça Júlio Mesquita, trabalhando ali, dois, três meses, eu tive uma ajuda de uma professora do Caetano de Campos, naquela época me ensinou um pouco o português, eu aprendi logo. Ela [a professora de português] era freguesa do restaurante e veio me ajudar, colaborou comigo, me dava uma lição à noite. Dali eu mudei para o Restaurante Carlino. O Restaurante Carlino era na Avenida São João também, mas já pegado ao Art Palácio, no Paissandu, em frente. O dono era um italiano de Lucca, da minha região, pra mim foi que nem um segundo pai. Ele me ajudou em tudo, me deu bastante apoio, que depois de um ano e meio que eu estava com ele lá ele mesmo me incentivou a fazer uma sociedade, então compramos. Comprei um restaurante em sociedade com mais dois, dentro do Clube de Regatas Tietê, lá na Ponte Pequena. Fiquei no restaurante durante um ano e meio, fiz dois Carnavais lá. Foi muito bom, mas sabe como é, clube, sócio, tem muito diretor. Todo mundo queria mandar, achei que não era aquele o meu lugar, vendemos, saímos da sociedade. Aí eu voltei pro Carlino porque tinha o apoio do seu Marcelo. CLIENTES [Ali] eram freqüentado por muitos artista italiano, europeu, porque ali tinha o Municipal, que funcionava com ópera, com concerto. Naquela época, em 1954, 1956, tinha muito cantores italianos que vinham. Fora uma clientela que ele tinha, muito grande, de italiano mesmo e de brasileiro também. Mas por ele estar perto do Municipal, e ser um restaurante assim tradicional, nós tínhamos muita influência desses artistas que vinham para o concerto aí no Municipal e se dividiam, vinham no Carlino, no Brahma. Esses eram os restaurantes daquela época, os melhores daquela redondeza, o Bolonha, ali no Anhangabaú. Essa era a nossa clientela. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – TRABALHO COMO REPRESENTANTE Eu resolvi ir pra Itália porque já tinha o dinheiro pra passagem, só que antes de ir para a Itália me veio uma ideia, eu falei: "Agora eu quero conhecer um pouco de São Paulo, da cidade, do interior do estado, do Brasil. Voltar pra Itália, pelo menos contar alguma coisa que eu vi, não vim só pra São Paulo, não vi só Santos". E aí pus um anúncio no jornal, era: "Moço, com 19 anos, se oferece pra viajar pra qualquer parte do país, viajando pra representação, qualquer coisa, ou caixeiro-viajante, qualquer coisa." Só eu, a minha ideia era unicamente pegar pra três, quatro, cinco meses assim, conhecer mais ou menos o Brasil e depois me retirar pra Itália, esse era meu plano. Mas, com isso aí, veio uma firma italiana que era na Vila Prudente, e tem indústria, chamava Empreendedor de Tecidos e Papéis Litespa Ltda. O dono era um era italiano, os outros era descendentes, acho que é italiano também, mas pela parte judaica. Gostaram de mim, me pegaram pra fazer as representações e comecei a viajar. Nas primeiras viagens eu comecei a ter lucros maravilhosos, aí comecei a mudar um pouco a ideia de não voltar pra Itália. Passaram-se dois, três anos trabalhando com essa firma, vendedor exclusivo dele, mas ganhando razoavelmente bem. Aí eu resolvi: "O que eu vou fazer na Itália? Fazer garçom, fazer isso, voltar fazer mecânica com o meu avô..." Meu avô já tinha me tirado da herança porque eu tinha passado pra ser garçom, não mais mecânico, tinha quebrado a tradição da família. Eu tinha achado um campo muito bom, estava bem protegido com essa firma, tinham um bom lucro, razoável. Tinha uma estabilidade, porque a firma me dava bastante apoio. Vendo isso, eu tinha minha mãe sozinha na Itália, resolvi e falei: "Olha, mãe, pra eu voltar aí eu não sei o que eu vou fazer, aqui eu já estou mais ou menos colocado, eu acho que é melhor você vir pra cá pra nós ficarmos juntos." Aí ela veio. Em 1958, comprei uma casinha e aí começamos a vida de representações. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL – PIATTO D’ORO Eu trabalhei de representante até 1970. Até que em 1970 um dos antigos sócios que foi sócio no Clube de Regatas Tietê me chamou e falou: "Sergio, você não quer fazer uma sociedade?" Eu falei: "Uma sociedade? Aqui em São Paulo?" "É, aqui em São Paulo." "Mas o que é que vamos fazer?" "Sabe o que acontece, o Restaurante Fasano, a Confeitaria Fasano está querendo se desfazer das Casas Fasano, e tem a parte industrial, na Rua Anhaia, e nós somos já quatro sócios, e já compramos a parte industrial, e vamos ficar com a Vieira de Carvalho, o Restaurante Fasano.” Depois eles viram que tinha uma loja no Shopping Center Iguatemi muito melhor que uma coisa assim e eles resolveram desistir da Vieira de Carvalho pra ficar com o shopping. Um tinha confecções, o outro tinha uma loja de tecidos, o Juliano Jóia tinha loja de joias e o outro sócio que entendia do ramo, que era o Donato, do Massas Donas. Me chamaram justamente pra ajudar na sociedade e também pra colocar cinco casas novamente como o Fasano era, mais ou menos parecido com o Fasano. A sociedade não deu certo, se desentendeu e eu fiquei lutando pra ficar com o Piatto D'oro [que] até hoje eu tenho, que é o sucessor do Fasano. Eu fiquei com a fábrica na Rua Anhaia, depois tive que vendê-la porque eu saí do shopping em 1985. Fiquei 15 anos no shopping e o restaurante, a confeitaria Piatto D'oro no shopping era um ponto de muita gente, era um ponto de encontro, era um nome já feito na praça, um local bem frequentado. Tanto é verdade que quando eu fui obrigado, por causa de uma reforma que o shopping fez e me tiraram a área da parte da cozinha, então não havia condições de ficar mais o Piatto D'oro daquele jeito, então eu fui obrigado a desistir. Mas eles se arrependeram muito, muitas vezes me chamaram: "Ah, vamos arranjar uma outra loja, vamos fazer uma outra coisa..." Mas eu tinha montado uma já na Rua Iguatemi, pertinho do shopping, no início da Iguatemi, em frente ao Rubayat, a pracinha. PRODUTOS Era restaurante, era a confeitaria, tinha uma porção de coisas, mas mais era rotisserie. Tinha lanche, tinha as coxinhas Fasano, que são famosas aqui em São Paulo, conhecidas, continuam no Piatto D'oro comigo. Tem muitas pessoas que até hoje dizem que no shopping vinham com dez anos, hoje estão com 30, 20 anos, se lembram e vão comer a coxinha lá. É diferente, é uma coxinha muito boa e bem feita. Hoje estamos na Rua Iguatemi. Virou mais restaurante do que rotisserie. Ainda temos fregueses de rotisserie, o freguês já conhece a casa desde o shopping, então continuaram. No sábado e no domingo, é restaurante mais que rotisserie. No shopping já era, as pessoas escolhiam, fazia pratos, servia na mesa, mas ela escolhia na rotisserie, fazia o prato dela ali mesmo como se faz agora nessas casas que vendem por quilo, aquelas coisas mais. Então naquela época, já em 1970 eu fazia isso. Não é que fui eu o inventor disso, foram os fregueses, porque tinha as coisas lá para viagem, tinha pimentão, champignon. Comia de pé, não tinha mesa naquela época, comia de pé, no pratinho, no balcão assim, então eu servia um pouco de cada, pesava, era vendido. Mais tarde eu coloquei as mesinhas no shopping, não eram muitas. Nós tínhamos 20 lugares pra sentar, ficou mais cômodo pro freguês comer e tal. Começaram a querer uma lasanha, um prato quente, não só mais o prato frio. Depois de 1985 quiseram fazer aquela reforma e eu fui obrigado a sair do shopping. FUNCIONÁRIOS Eu mantenho toda a produção do restaurante, eu e os meus profissionais. Tenho um empregado que já comigo há mais de 15 anos. Hoje não preciso ensinar muita coisa pra ele, mas normalmente vem um novato, eu ensino. Quando aperta o negócio, eu vou na cozinha, faço prato. O freguês sabe que eu faço mesmo, me pede alguma coisa diferente, eu vou lá, ensino qual é a coisa diferente, mas eu mesmo faço. Se precisar servir, sirvo na mesa, ajudo a manter o restaurante. Tem freguês que só procura a gente, muitas vezes tem freguês mesmo que fala: "Onde que está o Sergio?" "Ah, está lá em cima." "Chama ele, que eu quero falar com ele." Pra ser atendido por mim e não pelo garçom. LOJA DA RUA IGUATEMI Na Rua Iguatemi tive que montar uma coisa completamente diferente, partir mais pra restaurante. No Iguatemi era mais uma delicatessen, não? A pessoa comia coxinhas, salgadinho, croquete. Eu havia posto uma estufa maravilhosa com todo tipo de salgado, a pessoa ia lá pra tomar um chope, salgadinho, um lanche, sanduíche de pão italiano, tinha inventado um sanduíche de pão italiano e esse foi um sucesso no shopping. Mais tarde, apareceu no shopping o Viena, que hoje é uma cadeia muito grande. E ele imitou bastante o Piatto D'oro, começou a fazer o sanduíche igual, outras coisas e teve um sucesso maravilhoso. CASAMENTO Eu e a minha esposa somos um pouco parentes, somos primos de terceiro grau. Quando eu cheguei da Itália, trouxe um órgão justamente pra essa moça, essa menina que tinha 12 anos, que depois virou minha esposa. Ela estava estudando música, sabendo que eu vinha, fez a encomenda. Veio até o porto de Santos para pegar a harmônica dela. Na volta, na subida da serra de Santos, pra cima, acho que o táxi estava muito carregado, ela dormiu no meu colo até São Paulo, por incrível que pareça, hoje virou minha esposa. Eu tinha mais idade, ela ficava estudando. A gente se via, porque na mesma rua, ela disse que ficou impressionada desde que me viu lá em Santos e falou: "Ah, eu quero esse moço." Por isso que ela conseguiu, ficou sempre atrás, uma coisa e outra e deve ter sido isso. [Ela] trabalha junto comigo no restaurante. A função dela é a parte administrativa, caixa, faz compras. Eu fico mais na parte de produção, pra administrar, tentar atender o freguês, inventar pratos novos, fazer cardápio novo, tudo é parte minha. PRODUTOS [Pra inventar cardápio] precisa ter um pouco de ideia, um pouco de imaginação também, e um pouco de esperteza, copiar, ver. De vez em quando que eu saio, vou no exterior, numa coisa e outra, fico olhando, fico apreciando alguma novidade, alguma coisa e eu já penso quando voltar para aplicar no restaurante. Vou inventando, vou mudando de acordo com o meu padrão. Muitas vezes a receita é de um modo, mas eu a modifico de um modo que sirva pro meu restaurante. CLIENTES O público sempre é exigente. O restaurante tem que estar capacitado para atender. Meus fregueses sabem que é um restaurante italiano, querem comer uma coisa italiana. Eu não faço feijoada, porque a minha clientela quando vai pensar em comer uma feijoada não vai pensar nunca num restaurante italiano, no Piatto D'oro, vai pensar em uma outra cantina típica. FUNCIONÁRIOS Os profissionais são cearenses, são pernambucanos, e a gente ensina a essas pessoas, muitas vezes analfabetos, não sabem ler mas sabem fazer a comida, eles aprendem, a gente treina, treina, treina, faz aquele prato, aprende fazer o prato italiano. Aliás, um dos maiores restaurantes daqui de São Paulo, a parte de cozinha você pode ver, é tudo cearense, pernambucanos, baianos. A mão-de-obra, quando eu cheguei da Itália, era mesmo cozinheiro, garçom, eram tudo espanhol. TREINAMENTO No dia-a-dia, não pode dar um ensinamento de ficar ali sentado numa mesa com ele não é? Durante o dia eles começam a fazer uma coisa, dali passam a fazer outra coisa, e vão aprendendo a fazer. De repente, depois de três, quatro anos que estão com a gente, sabem fazer muita coisa. Vão aprendendo. FORNECEDORES Ultimamente, tenho ficado muito no shopping, tenho ido de shopping em shopping, Na rua, tenho comprado pouca coisa. Antigamente, comprava muito na 12 de Outubro, na Lapa. Depois que surgiram os shoppings, é muito mais fácil. Sou obrigado a fazer supermercado, faço as compras do restaurante junto com a minha mulher. Nós vamos no Ceasa, Macro, supermercados grandes, pra ter um preço melhor. O Mercado Central fica fora da minha mão, muito longe, num ponto muito difícil de acesso. Para quem trabalha na Faria Lima é muito mais fácil Ceasa, Macro, outro supermercado como o Eldorado, que está perto, algum Pão de Açúcar que é mais perto, e alguma coisa. E tem vendedores que vêm visitar a gente e a gente compra por pedido. Têm fornecedores que vêm quase semanalmente, outros vêm mensalmente. Depende do artigo que você precisa. A gente compra uma quantidade pequena pra justamente ter sempre o produto o mais fresco possível, nunca se comprou quantidade pra guardar muito. VIAGENS PELO BRASIL Quando eu peguei essas representações, não conhecia nada do Brasil, só conhecia São Paulo. Peguei essa representação de propósito pra conhecer o Brasil. A firma me deu campo livre fora da capital, eu podia andar onde eu quisesse pra vender os produtos. Então eu fiz todo o estado de São Paulo, cidade por cidade conheço. Viajei de 1957 até 1970, então soma diversos anos. E parte do Triângulo Mineiro, do estado de Goiás, sul de Minas. Fiz em Minas diversas cidades, até Varginha, nunca fui a Belo Horizonte, não conheço. Da parte de cá, norte do Paraná, conheço todas as cidades, até Paranavaí. Até me fizeram uma brincadeira em Paranavaí. Naquela época, o norte do Paraná era só barro, daqueles vermelhos, a gente tinha que andar com cachecol, e virando o colarinho da camisa porque você chegava na cidade, tinha uma poeira que parecia um tijolo, e com o suor, que você transpirava com o calor, e mais o pó que... formava um tijolinho mesmo. A gente virava o cachecol pra poder chegar na cidade e estar mais ou menos em condições de entrar, isso era a vida naquela época. Depois asfaltaram, foi um progresso rápido. Mas quando eu cheguei, a primeira viajem que eu cheguei em Maringá, à noite sempre se reúnem todos os vendedores pra jogar um baralho, faz um bate-papo, então eu perguntei pra ele se tinha mais alguma cidade, porque eu não conhecia, queria conhecer. Acho que dois vendedores estavam ali brincando comigo talvez, se olharam um com o outro e disseram: "Ah, existe Paranavaí mais adiante." Então eu falei: "Então, amanhã eu vou pra Paranavaí." Me deixaram, eu peguei a jardineira. Cheguei em Paranavaí, e o que era? Era uma aldeia, não tinha nada na cidade, aquilo que era Paranavaí. Mas me mandaram de propósito. O pior de tudo que, quando eu cheguei lá com o ônibus, eu entrei no empório, pedi pra urinar, fui ao mictório, quando eu voltei o ônibus tinha ido embora. Fiquei o dia todo naquele empório. No início, fazia as viagens de trem, ônibus, jardineira. Depois de 1959, 1960, comprei o meu primeiro meu carro, aí comecei a andar de fusquinha. CLIENTES DA REPRESENTAÇÃO Os clientes eram indústria de móveis, porque nós tínhamos pano de couro pra estofamento de móveis, tínhamos pano oleado para fazer encadernação e também a indústria fazia uma lona pra jipe, impermeabilizava o tecido de lona pra capota, então vendia nas agências de jipe mesmo. O norte do Paraná era das minhas melhores clientelas, porque lá só ia jipe, naquela época, era tudo barro, tudo lama, o jipe era o maior carro de lá. Então se usava muito a lona, que a lona estragava, tem que trocar a capota, furava, então era uma boa venda com um bom comércio também. E no estado de São Paulo além da encadernação de livro, tal, tinha as indústrias de sapato, que a indústria de sapato, também a palmilha que vai dentro do sapato, muitas vezes não é feita de couro. Naquela época, era de papel, era um papel impermeabilizado e com uma resina, coberto de resina, imitando couro, perfeito, trocava, durava muito tempo, parecia não estragar, mas era de papel, era pra sapato mais popular, mais econômico. MOSTRUÁRIOS O mostruário tinha diversas cores, então cada tapeçaria usava uma cor, um produto, você chegava com o mostruário, mostrava: "Eu quero dez metros, 20 metros, 50 metros..." Vendia por rolo, que nem hoje se vende o rolo plástico. O plástico acabou completamente com o pano couro, a indústria foi obrigada a se modernizar e fazer plástico também, fazia um plástico diferente. FORMAS DE PAGAMENTOS [O pagamento] era faturado, a gente pagava 30 dias, 60 dias dependendo. Dependendo, a indústria mesmo dava prazo, não era vendido à vista. No interior ainda tinha o transporte, a gente vendia e depois a duplicata era pro banco. VIAGENS COM AS CRIANÇAS Teve uma época que [a minha mulher] viajou comigo, ela gostava muito de viajar, antes de ter o primeiro filho, a Rosângela, nós viajávamos muito. De vez em quando eu a levava, fazíamos 20 dias fora, porque sempre junto, em conjunto, então viajava. Depois que ela ficou grávida continuamos a viajar bastante tempo. Mais tarde quando veio o segundo filho, chama Ricardo, viajamos com ele pequenininho, diversos lugares. A gente não tinha problema nenhum porque ia no hotel. Eu deixava no hotel, eles olhavam a cidade, brincavam e eu fazia as minhas vendas, depois voltava à noite no hotel. Assim se divertia um pouco, passeava um pouco. COTIDIANO Meu cotidiano é ir pro restaurante, abrir mais ou menos nove. Saio 2 da manhã, 3 da manhã. Ou vou fazer compra. Estou sempre preso pelo restaurante. De terça a sábado o restaurante fica aberto até meia-noite, o domingo é só almoço, até 5 horas da tarde. Depois fecha. E segunda-feira é descanso semanal de todos os empregados, aí só reabre na terça-feira, com isso eu tenho um descanso também pra mim. Direto é difícil. LAZER Se pudesse viajar pro exterior, pra outro lugar, pra Itália, muito bom. Em setembro agora eu fui pra Itália, gostei demais, voltei pra minha terrinha, se eu pudesse ainda continuaria. Inclusive, eu fiz de propósito férias coletivas, já dois anos, que muito poucos fazem isso, eu fecho o restaurante de propósito pra poder viajar. Então todo mês de setembro eu vou pros Estados Unidos, tenho família lá, e vou pra Itália, quando eu puder uns dias mais. SONHOS Agora, depois de tantos anos de restaurante, tanta coisa, meu sonho é de parar, voltar pra minha terra, passar um bocado de tempo lá, na Itália. Isso seria um bonito sonho, mas é um pouco irrealizável porque já tenho família, já tenho filho, é um pouco difícil você deixar tudo isso pra trás. Mas quem sabe eu consiga fazer pelo menos, não sei, uma boa, umas boas férias, não mais de dez dias, 15 dias, mas um ano, dois, e matar bastante a saudade.

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