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História

Da infância na roça ao ofício de alfaiate

História de: João Dias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/07/2021

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família. Breve descrição da atividade dos avós e dos seus pais. Infância no na fazenda de seu avô, em General Salgado (SP), onde nadavam, andavam a cavalo, comiam fruta do pé e brincavam com seus irmãos. Os trabalhos diários na fazenda e os estudos. Com apenas 12 anos ia para a cidade aprender o ofício de alfaiate, onde foi aprendiz de um italiano. Aos 17 anos, já sabia fazer um terno inteiro. Casou-se cedo, e foi trabalhar como alfaiate em São Caetano do Sul (SP), onde permaneceu com a família até 1984. Em São José do Rio Preto, foi trabalhar como alfaiate com um amigo, em 1987. O negócio prosperou e rendeu muito trabalho. Confeccionavam roupas para médicos, juízes e também produziam roupas para muitos casamentos da cidade. A propaganda era feita através de seus clientes, que indicavam os serviços, ressaltando a qualidade das peças, bem como, dos tecidos, ressaltando a importância de uma peça elaborada por um alfaiate. Com a pandemia, ficou um tempo parado e retornou posteriormente realizando pequenos consertos para não deixar de trabalhar. Para o futuro pretende se aposentar, trabalhar menos e viajar com sua família.

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História completa

          Eu nasci dia 2 de setembro de 1949, em General Salgado, que fica bem próximo daqui. Meu nome completo é João Manoel Dias, mas o de profissão é João Dias Alfaiate. Eu nasci na fazenda, na beira do córrego. Eu fui uma criança feliz, porque tudo que eu tive na infância, essa molecada de hoje nem pensa em ter. Somos em 13 irmãos, e nós trabalhávamos na fazenda, acompanhávamos os retireiros que trabalhavam ali. E, por fim, eu e um dos meus irmãos assumimos o sítio – porque daí meu pai já tinha vendido parte da fazenda pra pagar os outros irmãos, e ela ficou só com 50 alqueires.

          E a gente ficou no comando: tirava leite, fazia roçado no pasto... era isso aí: era nadar nos córregos, andar a cavalo, roubar melancia nos sítios dos vizinhos - sendo que nós tínhamos tudo isso no nosso sítio, mas a do vizinho era mais gostosa. (risos) Jogava bola... o sítio, lá, era uma bênção, e todas as ruas da cidade terminavam em algum sítio.

          Então, na parte da manhã era tirar leite, e depois disso eu ia pra cidade aprender a profissão de alfaiate. O que eu queria ser mesmo, na época, era mecânico. Eu tive chance de ser torneiro mecânico, mas aí a minha mãe falou: “Não, suja muito a roupa”. Aí eu fui pra alfaiataria, que era um serviço limpo e muito importante. Fui aprender desde garoto. Com 12, 13 anos que eu comecei. E quando a gente entra numa alfaiataria, começa a aprender a arrematar calça, fazer bolso de calça... e vai indo, até que começa a fazer calça. Depois, é daí pra cima.

          Existe uma hierarquia no alfaiate: primeiro é aprendiz, depois, oficial. É, na verdade, primeiro é gancho, arrematador de calça. Depois começa a aprender a fazer calça, é aprendiz. Depois já parte pra paletó, é oficial de paletó. Eu dei sorte, porque com 17 anos eu já era oficial de paletó.

           Em General Salgado, as coisas dependiam de lavoura. Tinha aqueles fazendeirões que iam lá pra fazer terno, e por isso, nessa época, a gente trabalhava muito. E lá não tinha um alfaiate só, tinha três. Três alfaiatarias. Só que eu dei sorte, porque eu aprendi com o melhor, que era um italiano velho.

          Aí, em 1971 eu fui pra São Paulo. Eu já era casado nessa época, mas deixei a esposa aqui em General Salgado, pois nós já tínhamos a primeira filha, e fui pra São Caetano do Sul, no bairro Fundação. Aí trabalhei lá por um mês, de experiência, gostei e vim buscar a família. Ficamos lá até 1984 e depois viemos embora pra São José do Rio Preto, onde montei a alfaiataria aqui no centro.

          No Bairro Boa Vista, onde eu estou até hoje, perto da Santa Casa, é uma quadra pra cima de uma das avenidas principais, da Bady Bassitt. Na época, ainda, de lojas famosas de tecidos, a gente comprava aqui – tinha lojas em shopping também. Mas agora só existem três lojas de tecido na cidade. Uma é boa, e duas são médias. Mas o forte dos tecidos que eu compro é tudo em São Paulo; aqui eu compro muito pouco.

           A gente fazia muito casamento no passado, muita roupa para noivos, padrinhos. Mas de um certo tempo pra cá, o que começou a atrapalhar foram as “alugadora” de roupa, que derrubaram o alfaiate. Porque hoje você vai numa alugadora, digamos, com 300, 400 reais, e você sai prontinho de lá pra ir pro casamento.

          Eu cobro hoje, pra fazer um terno, 800 reais. Não tenho muitos, mas tenho uma clientela à altura. Eu faço roupa pra juiz, pra médico, pra advogado, pastor de igreja... mas ultimamente, do ano passado pra cá, está ruim com essa pandemia. Então, agora eu estou vivendo (risos) nas custas da minha filha. Mas tenho, digamos, juiz de Direito que faz roupa comigo; eu tenho promotor, vários advogados, vários médicos pra quem a gente faz roupa... e também as pessoas que passam na rua, que veem a vitrine e informam os outros.

          Agora, hoje, com essa crise danada, a gente está vivendo de conserto de roupa. O forte, hoje, é conserto. As pessoas compram roupas na loja e trazem pra gente fazer ajustes. Então, quando você vê eles durinhos na rua, bonitinha, certinha... foi reformado no alfaiate. É, a roupa feita é feita pelo peito e pela cintura. Agora, nós, não. Eu, pra fazer um blazer, eu tiro 12 medidas. E depois ainda tem prova.

          Tiro a medida, aí eu peço o tecido; ele vem, eu corto, ponho em prova; ele vem, e eu provo. Depois de provado, eu o desmancho todinho, porque eu vou recortar e começar a fazer. Eu trabalho um dia, pra depois começar a fazer a roupa dele. Um dia eu perco em prova. É assim.

          E hoje a gente faz alguma propagandinha na internet, no Google, essas coisas... mas muito pouquinho. A gente já é conhecido no pedaço. A pessoa vai a uma loja comprar um tecido e pergunta: “Onde tem um alfaiate?” Eles já indicam a gente. Aqui teve muitos alfaiates, muito bons, muitos! Mas ficaram velhos, a maior parte morreu. Eu estou a caminho, com 71. (risos) Meu colega, 70. Mas eu, pela minha idade, estou muito bem ainda, viu? Eu estou tranquilo, sossegado.

          Numa cidade tão quente como São José do Rio Preto, o tecido especial, pra que fique mais fresco, é a sarja, pra calça; tricoline 100% algodão pra camisa; pro terno de advogado é o Super 120, Super 150, que já é uma roupa cara. Isso aí é pra juiz, pra advogado, pra médico. E eu tenho uma vitrine lá, só pra guardar tecido e aviamento. A minha vitrine é a minha propaganda na parede: João Dias, alfaiate.

          Mas quando começou a pandemia, fiquei três meses fechado. A minha filha, essa caçula, a Kely, é enfermeira. É enfermeira formada na Famerp, aqui no Hospital de Base. Então, ela disse: “Pai, não põe nem o nariz pra fora do portão”. Ficamos dentro de casa aqui, três meses. E mesmo hoje… mesmo hoje, eu e minha esposa já tomamos a segunda dose da vacina, e ainda estão no nosso pé; ali, ó!

          Aí, quando acabar a pandemia, eu vou limitar meu tempo: vou trabalhar menos do que eu trabalho e passear mais com meu neto, que ele precisa. Agora, o que eu vou acrescentar é: eu sou muito feliz na minha profissão... e gosto muito. Eu faço a coisa muito bem-feita, porque eu gosto muito do que eu faço. E minha esperança é que, digamos, mais uns dez anos, vai existir uma minoria de alfaiate. E esses que sobreviverem vão ganhar dinheiro. Ah, é. Vão ganhar.

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