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Da incerteza, a certeza

História de: Margarida Morais de Lima
Autor: Margarida Morais de Lima
Publicado em: 21/11/2016

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Nasci no dia 23 de junho de 1971 em Alpinópolis, Minas Gerais. Tive uma infância tranquila na roça com meus pais, Lázaro e Maria da Conceição, e mais três irmãos. Os dois irmãos mais velhos são homens e se chamam Antônio e Sebastião. Eu e minha irmã Ana Maria somos mais novas sendo que, com diferença de cinco anos para a Ana Maria, eu sou a mais nova de todos. Sempre estudei em escola pública, em Alpinópolis, cidadezinha do interior onde não havia muitas opções de trabalho e de estudo. Quando terminei a 8ª série, minha irmã já tinha se formado professora e começou a dar aula na roça. Tudo era muito difícil naquela época e para chegar até a escola onde ela dava aula a opção era pegar carona em cima de um caminhão que transportava leite. Fui algumas vezes com ela e observando-a, mesmo com a pouca idade que tinha, já sabia que não queria aquilo para minha vida. Mas com todas as dificuldades financeiras e sociais daquele tempo eu não tinha nenhuma opção de receber um diploma e tentar algo melhor. Por isso minha irmã me aconselhava a me formar professora também e assim pelo menos teria uma profissão. Então comecei a estudar. Fiz quatro anos de Magistério e mais um ano de Especialização em pré-escola. Nesse tempo encontrei professoras apaixonadas em ensinar e minha irmã sempre me incentivava. Terminei os estudos e meu primeiro trabalho foi em uma creche registrada de secretaria. Lá acabei participando de várias festividades com as crianças. Fantasiava-me de Papai Noel, apresentava teatro para as crianças e gostei muito, mas sempre que via o brilho nos olhos da minha irmã e a sua empolgação ao falar de seus alunos começava a me questionar. Ainda não tinha certeza se era aquilo que eu queria. Comecei então a refletir e decidi que queria estudar mais. Meu irmão mais velho, o Antônio, saiu com 17 anos de casa para poder estudar e conseguir melhores oportunidades de trabalho. Com a graça de Deus e muita luta ele se saiu bem. Fez um curso técnico de Química e conseguiu emprego no laboratório de uma grande indústria. Inspirando-me na atitude desse meu irmão resolvi fazer faculdade de Química. Lá em casa tudo era resolvido com a minha mãe e então fui falar com ela. Para não dizer não, resolveu jogar a responsabilidade para o meu pai e me disse para falar com ele, na certeza de que eu nunca teria coragem e mesmo se tivesse, ele jamais deixaria afinal, meu pai era muito autoritário, não “dava papo” para filho. Falei com meu pai e esse “falar” com meu pai foi uma das decisões mais difíceis que tomei na minha vida. Em um belo dia chamei meu pai para conversar. Lembro-me como se fosse hoje. O encontrei na rua na cidade e falei que queria conversar. Ele parou, sentou na calçada e falou que eu podia falar. Sentei ali do seu lado e fui logo dizendo: quero estudar mais. Não sei se ele estava na “veia boa” naquele dia só sei que, para espanto de todos, sua resposta me fez até flutuar. Ele respondeu: “olha, cê sabe que não tenho condição de pagar estudo procê, mas o que eu puder fazer eu faço”. A partir daquele dia minhas asas começaram a bater e minhas forças aumentaram. Ninguém mais me segurou. Saí de uma cidadezinha do interior e fui com muita coragem para uma cidade grande onde consegui me formar. Fiz cinco anos de Química Industrial e Licenciatura. Nesse tempo de faculdade o dinheiro era “curto”. Meu pai pagava a faculdade, mas eu tinha que trabalhar para pagar aluguel e me sustentar. Foi então que surgiu o concurso de professores municipal e eu não pensei duas vezes, fiz e passei. No entanto, aconteceu uma transformação na minha vida. Comecei a dar aula com a orientação da minha irmã, Ana Maria, aquela cujos olhos brilhavam quando contava as histórias de seus alunos. Todas as dificuldades que encontrava pedia conselhos para ela que sempre me dizia: “Faz assim que dá certo!”. Com os obstáculos iniciais sendo vencidos me vi “tomando gosto” pela profissão. E assim terminei a faculdade. Dando aula conseguia, além de me sustentar, pagar minha faculdade. Estava feliz, independente, e me sentindo realizada. Comecei a namorar um dos meus colegas de sala na faculdade chamado Fernando. Estava amando. Amando o namoro, amando a vida e amando também minha profissão. Casei-me com Fernando e Deus nos concedeu dois filhos lindos e perfeitos, Eduardo e Maria Fernanda. Hoje, com 20 anos de sala de aula, posso dizer com convicção, que nasci para ensinar e também aprender. Saber que posso fazer a diferença na vida de muitas crianças me deixa muito satisfeita e feliz. Para maior satisfação ainda encontrei no meu caminho, com a graça de Deus, a AJA (Alfabetização de Jovens e Adultos) que também me realiza e completa. Hoje não ensino e aprendo somente com crianças, mas também com jovens e adultos que não tiveram oportunidade de estudar quando pequenos, pois, tinham que trabalhar para ajudar seus pais. Esses jovens e adultos, pela primeira vez em suas vidas abertos para o saber, voltam para a escola todos os dias felizes e satisfeitos. Ver e viver isso é maravilhoso! E assim continuo meu caminhar de vida, pedindo a proteção de Deus. As borboletas trilham seus caminhos em subidas e descidas e, assim como elas, também vou eu...

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