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História

Da Ilha da Madeira às flores brasileiras

História de: Maria Augusta Lopes Alexandre
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Infância na Ilha da Madeira. Pai era padeiro e migrou sozinho para São Paulo, onde trabalhou em fazenda de café. Vinda da família e lembranças da viagem e da cidade de São Paulo. Trabalho familiar na fazenda de café. Migração para a cidade de São Paulo. Produção e comércio de flores e verduras em chácara arrendada pelo pai. Distribuição desses produtos e costumes da época. Trabalho na produção de flores. Casamento e costumes da época. Primeira banca de flores do marido e a freguesia. Transformações do comércio de flores; principais espécies comercializadas e formas de embalagem. Costumes da época e distribuição de flores. Abertura de outras floriculturas. Auto-retrato e sonhos.

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História completa

Identificação

Meu nome é Maria Augusta José Lopes Alexandre, eu nasci na Ilha da Madeira, Funchal, em 4 de abril de 1913. Meu pai se chamava Manoel João Lopes e minha mãe, Hermínia Paula Lopes. Meu pai era padeiro.

 

Infância

Eu não tive infância. Vim com nove anos. Eu ia entrar na escola, fui um dia só e no outro já vim para o Brasil! E fui para uma fazenda, lá não havia escolas, eu não tive infância. Fui trabalhar junto com o meu pai. Aos nove anos, eu já bordava. Lá, a gente vivia de bordados, e, de noite, sentada num banquinho com uma lamparina na frente, eu já ajudava a minha mãe e a minha avó a bordar. Ali na Ilha da Madeira, a gente vivia dos bordados, que iam para a França, Inglaterra, Estados Unidos. Eram muito famosos. Lá nós tínhamos casas boas, até palacetes, mas não nos deixaram tomar conta porque meu avô morreu quando meu pai tinha cinco anos e a família toda encobriu. Nós ficamos sem nada, sem saber! A minha casa tinha uma sala, dois quartos; tinha embaixo a casa do meu avô. E tinha mais casas, lá, era um lugar com fartura, com vinhas, com verduras, era muito bom. Brincadeiras de infância, na minha terra não tem, cada um ficava na sua casa. Os que já podiam ajudar, ajudavam. Os encontros das pessoas, das famílias, dos primos, dos vizinhos era domingo quando a gente ia à igreja O meu pai era muito religioso. Ele se sentava na mesa, se benzia, se alentava, se benzia, se deitava, se benzia; estava sempre dando graças a Deus. Uma pessoa muito católica. Eu tinha uma irmã, que ainda é viva, ela veio para cá com um ano e tinha um outro irmão, com seis anos, faleceu. Faleceu lá no interior. Minha avó tinha uma galinha com uma porção de pintos. Eu já estava com alguns quatro anos, achei aquilo tão bonito, e fui pegando um por um e espremendo. Espremi! Eu pegava, achava bonito, não sabia o que era aquilo! Eu achava bonito pegar e espremê-los! Até que eles morreram. Quando a minha avó veio...

 

Imigração para o Brasil

Quando eu vim para o Brasil, meu pai já estava cá há um ano. Ele veio porque não teve meios de pegar um pedaço de terra, uma propriedade, porque esconderam tudo o que era dele. O meu pai foi à África fazer o serviço militar e quando voltou, queria trabalhar, mas lá não tinha meios, então ele veio pro Brasil. Ele era filho único. Não sei de nada da minha família, da família do meu pai. Não tem irmãos, não tem tios, não tem ninguém.

 

Viagem de navio e trabalho nas fazendas

A gente comprava a passagem lá, se contratava, se alistava, que nem fazer aqui uma excursão. Pegava o navio, chegava aqui, os fazendeiros tinham os administradores, os fiscais que iam em Santos, escolhiam aquelas pessoas que precisavam e levavam para a fazenda. Uns iam para um canto, outros iam para outro. Meu pai foi para a Fazenda dos Penteados, em Vila Bonfim, região de Ribeirão Preto. Era produção de café. O meu pai já estava nessa fazenda, então nós tínhamos que ir pra lá. Levamos três meses de viagem. Eu subia nos mastros até lá em cima, os marinheiros iam até lá me buscar. Uma hora eu estava dentro do navio, outra hora eu estava fora do navio. Estava sempre andando, não tinha sossego porque não tinha para onde ir. E eu me perdi no navio. Minha mãe andou perguntando se alguém tinha me visto e ninguém viu. Aí, me pegaram e levaram pra primeira classe. Tinha uma família de ingleses velhos e eles queriam me levar pra a Inglaterra, pensavam que eu tinha subido no navio e que estava lá perdida. Eles queriam me levar para a Inglaterra. Então eu fiquei na primeira classe, estava tão bom! Eu estava com um casal de velhos, eles me deram um rastelo e um regador vermelho. Eu olhei e não gostei muito não. Eu era menina, porque é que eu iria querer aquilo lá? Se fosse uma boneca ou outra coisa... Mas eu já estava interessada em viajar com eles, aí passou um marinheiro, me pegou na mão, deu voltas no navio inteiro: "Quem é que perdeu essa menina, quem é que perdeu essa menina?" Ninguém disse nada, não apareceu dono. A minha mãe descobriu onde eu estava, com os ingleses. Eles não queriam entregar-me para ela. Queriam me levar mesmo, eles estavam gostando de mim. Minha mãe teve que ir lá no comissário buscar os papéis e os documentos todos para eles me entregarem. Nós vínhamos embaixo. Eram camas beliche. Nós dormíamos embaixo, mulheres, criançada tudo embaixo e os homens dormiam todos em cima. Às vezes os homens ficavam lá, aqueles velhos, bêbados, bebendo até tarde. Quando chegava hora de subir parecia que eles até entortavam o navio. Muito bonita a viagem. Quando chegou, não sei se na Bahia, ele encalhou numa ponta de areia, aí veio um reboque e tirou. Eu estava olhando na hora que tirou. Ele encostou, pôs a tábua e eu pumba! Já saí para a terra, fugi do navio. Tinha umas negronas com aqueles balaião de coco, laranja, era um mercado. Eu estava passeando, olhando, admirando tudo quando uma negrona fala assim: "Essa menina está perdida. Ela não é daqui. Ela deve ser do navio." Chamou a polícia, que me pegou e me levou de volta. Mas foi muito bom. Aí eu vim até Santos. Quando chegamos lá, entramos na imigração. Eu já fui junto com a imigração da fazenda, que é onde estava meu pai, já fui encaminhada para a imigração, ali pro Brás, onde tem uma imigração muito grande até hoje, nós dormimos ali. Nós passeamos na cidade, fomos visitar uns conhecidos na Rua Maria Marcolina e eu andei no alicerce de Santo Antônio do Pari, estavam fazendo a igreja. O Tietê chegava até ao fundo da Maria Marcolina, estavam mudando ele para o outro lado. E andei toda a Rua Maria Marcolina, não tinha muito comércio porque toda a gente que vinha da Europa, que sabia fazer uma costura, que sabia fazer um sapato, fazer um chapéu, fazer ternos, vinha tudo para a Maria Marcolina. Eles moravam na mesma casa. A casa era de dois cômodos e cozinha, a sala era pequenina, mas eles costuravam naquela sala. Assim que começou São Paulo. Quem era costureira fazia costura, quem sabia fazer bolsa fazia bolsa, quem sabia fazer cinto, fazia cinto, quem sabia fazer chapéu, fazia chapéu. Cada casa de família empregava os próprios filhos e ficavam ali, faziam a comida. Eram portugueses, espanhóis, italianos. Era tudo de encomenda, o comércio era muito fraco naquele tempo. O ano era 1922. Ficamos uns dias em São Paulo antes de ir para a fazenda, mas os dias que a gente ficou por aí a gente passeou. Depois, quando eu vim da fazenda fui morar na Penha.

 

Cotidiano na fazenda

Na fazenda eu era obrigada a trabalhar com o meu pai, com a enxada! O menino que quase seis anos também tinha a parte dele. Era tudo contratado na fazenda, as crianças também. Não recebia nada, mas estava junto com o pai. Naquele tempo o cafezal era feito em ruas. A gente ia numa e o meu pai ia noutra. De vez em quando ele vinha e ajudava a gente. Os dois pequenos com uma enxada na mão, o que é que fazia? Se ficasse em casa, o fiscal ia buscar. Minha mãe ficava em casa, pra fazer a comida, buscar água na fonte. Mas nós já tínhamos que acompanhar o meu pai. Escola não tinha. A gente aprendia alguma coisa na colheita do café. Juntava a molecada, vinha aqueles sacos enumerados pra ensacar o café. A gente olhava no saco e escrevia no chão, aprendi assim! Foi uma época muito boa, saudável porque eu trabalhei junto com o meu pai na fazenda. Nossa distração era trabalhar. Quando vinha pra casa, à noite, a gente ainda ia buscar uma verdura, uma coisa qualquer pra levar pra criação que tinha em casa. E a vida era assim. No outro dia, continuava de novo. Mas a gente tinha milho verde, tinha feijão, tinha tudo! Os patrões eram muito bons. Nós carpíamos o café do patrão e ele nos dava 25 mil réis por ano. Depois a gente juntava mais com a colheita do café que a gente pegava, sempre dava pra pegar uns 600 cruzeiros, uma coisa assim por ano. Mas nós tínhamos a nossa casa, nós tínhamos luz, ele nos dava terreno pra plantar batata, pra plantar mandioca, pra plantar milho. Nós tínhamos todo o conforto, não faltava nada. Os colonos viviam supercontentes, nós tínhamos a casa cheia. Nós só comprávamos o sal e a farinha, o resto nós tínhamos tudo em casa. Nós colhíamos feijão, arroz, milho, criávamos porcos e o patrão nunca se incomodou com a gente. O Brito era genro do velho Penteado, casado com a filha dele, mas a fazenda ficou com o nome de Penteado, Brito Penteado, porque a filha era do fazendeiro, que era dos Penteados. Gente muito boa. Nós ficamos lá aproximadamente cinco anos. Nós saímos de lá porque teve uma epidemia entre as crianças e o médico da fazenda era contratado pro ano todo. Mas quando precisou, descobriu-se que ele era um médico falso, tinha roubado um documento de um médico no Rio de Janeiro e veio se empregar na fazenda. Morreu muita gente, ele matou muita gente naquela fazenda. A epidemia foi gripe. De modo que numa casa morriam dois, noutra casa morriam três... Então meu pai ficou desgostoso e saiu de lá, mas os patrões eram muito bons. Ele não dava remédio nenhum; ele dava uma garrafa de água inglesa, que parecia um licor, era só aquilo que ele dava pra todo o mundo. Meu irmão já estava com 11 anos e o médico, para fazer experiências, já que ele não era médico, pegou uma ferradura, uma coisa de raspar cavalos e pôs assim nas costas do meu irmão, em vivo. Isso daí era médico? O menino morreu, assim, envenenado. Antes de falecer ele subia na cama, subia nas paredes, não tinha quem segurasse. Desesperado pra morrer! Aí meu pai ficou desesperado, os vizinhos ficaram todos desesperados, queriam pegar o médico. Mas o médico foi vivo, quando viu que a turma estava esperando ele, não apareceu mais.

 

Mudança para São Paulo

Aí meu pai foi trabalhar numa descarga, numa estação. Naquele tempo vinha tudo de trem, ele carregava e descarregava os trens com outras pessoas, lá tinha muita gente. Ele ficou trabalhando lá mais ou menos uns oito meses. Depois viemos pra São Paulo. Lá no interior falavam que aqui era tudo dois mil réis. Então ele disse: "Nós temos 200 mil réis, vamos pra São Paulo e nós compramos tudo lá. Arranjo um serviço, com 200 mil réis a gente compra o que precisa." Aí nós viemos. Aqui não arranjava emprego, não tinha emprego nenhum. E os dois mil réis não deram para nada. A gente não tinha onde ir buscar outro, foi comendo aquele, deu uma parte para pagar o aluguel, 30 mil réis pro aluguel de cômodo e cozinha, passamos a dormir no chão, sem nada. Nós deixamos panelas, deixamos tudo lá. Só trouxemos uma máquina de pé, que o meu pai me comprou quando eu tinha 16 anos. Ele pegou essa máquina e, sem emprego, sem nada, foi na casa de um senhor italiano que tinha um armazém e deixou lá como garantia para nós comermos. Arrebentou a revolução de 30 e toda a gente ia na venda buscar, comprar isso, comprar aquilo e nós a ver navios. Não tínhamos dinheiro, nem emprego, nem nada. Meu pai saiu daquela casa, arranjou uma outra casa e um terreno, onde ele foi fazer a chacrinha. Era na Penha. E ele plantou cebolinha, couve, alface, flores, muito copo de leite, dálias. Saía na rua e vendia. Quando ele vendia já fazia cinco, seis mil réis, já dava pra comprar um feijão, um arroz. Naquele tempo, toda a gente carregava cestas. Não havia feiras! A feira da Penha começou mais ou menos em 1929, mas você ia na feira e só tinha as bancas, não tinha ninguém porque eram muito longe as chácaras. E quem plantava tinha que carregar nas costas, ou em sacos, ou na cabeça, de qualquer jeito, porque não havia condução. Só quem podia comprar um cavalo ou ter uma carroça já tinha um meio melhor de vida. Ele ia com a cesta e batia nas portas, e a freguesia acostuma. Tinha gente, portugueses aqui na Vila Maria, que criava cabras. Eles tinham sete, oito cabras que eles amarravam, faziam uma canga, botavam as cabras na rua e iam pro Brás, pra cidade, vender leite. Quem levava o leite era as cabras! Ele parava a cabra e tirava o leite na frente do freguês. O outro tinha uma vaca que ficava num ponto qualquer da cidade. Todo o mundo sabia que o vaqueiro estava lá com a vaca. Iam lá, ele já tirava o leite e já vendia. Não tinha mercados, não tinha nada. Era tudo muito longe. Meu pai ia sozinho, ele tinha a freguesia dele, quem passava na porta também comprava. Eu o ajudava a plantar. Eu sei plantar tudo, sei colher tudo, sei como é que se faz uma fazenda, sei como é que se faz uma chácara, eu sei de tudo, aprendi tudo. Na chácara eu comecei a lidar com flores, peguei a manha das flores. Parece que elas gostavam de mim. Ajudei meu pai na chácara até quando me casei e vim trabalhar pra mim.

 

Casamento

O Corinthians, que antes se chamava Pinhense, tinha um jogo de várzea pertinho da minha casa. E não ia muita gente pra ver o jogo, ia mais pra passar o tempo. Então eu fui nesse jogo e quando voltava, encontrei o meu marido. Mas eu nunca tinha falado com ele. Ele veio comigo do jogo e me perguntou se eu queria namorá-lo e mais isso, e mais aquilo, e mais não sei o quê. Eu fiquei quieta, não falei nada. Fui pra casa e falei com o meu pai. E ele estava na rua, estava lá fora. Eu falei para o meu pai porque ele era muito namorador, na chácara dele não faltavam mulheres, então eu tinha medo. Ele era vizinho. Chamei o meu pai e falei: "Ele quer namorar comigo, mas só se for pra casar, porque eu pra namorar com ele não vou namorar, não!" Ele namorava uma, largava, namorava outra, largava e eu estaria nisso aí? Não! Eu nunca tinha namorado ninguém. Então eu combinei com o meu pai lá dentro: "O senhor chama ele e diz que se ele quiser namorar comigo, tem que casar." Ele chegou lá: "Entre pra dentro." Entraram. "Pois é, acontece que o senhor quer namorar com a minha filha." Ele gostava muito do meu pai. E o meu pai também, porque eram vizinhos. "Então vamos fazer o casamento!" Então meu marido falou: "Não, a gente espera aí uns seis, sete meses, eu não tenho isso, não tenho aquilo, não tenho dinheiro..." "Não, não tem importância!" Na segunda-feira seguinte, meu pai pega dois leitões e vai na igreja da Penha falar com o padre. “Eu tenho uma filha, o rapaz é muito bom, mas ele é muito namorador, preciso que faça o casamento deles." O padre, mais que nada, falou: "Traz. Manda eles virem aqui à noite." Lá, o padre olhou para a minha cara e falou assim: "Vocês são malandrinhos, não? Sabe lá o que é que vocês andam fazendo por aí. Então, vamos casar." E marcaram o casamento. Foi no dia dos meus anos, dia 4 de abril, e eu me casei no dia 12 de maio! Eu não pensava em amor naquele tempo. A minha ideia era que eu iria me casar e seria uma esposa, teria filhos, seria dona de uma casa. Eu não pensava em sexo, não pensava em nada disso, não sabia de nada.

 

Banca de flores

A primeira banca de flores foi no Teatro Municipal. Quando nós começamos a plantar, outros também começaram. Levávamos tudo ao Teatro Municipal, ficava cheio, era um campo, era uma feira. Depois tiraram dali para fazer o Viaduto do Chá, que antes era de madeira. Quando eu passava lá eu tinha medo, se tivesse bonde passando eu não passava. Quem comprava era quem ia ao Teatro Municipal, quem tinha carro, que era só quem era rico. Quem era pobre tinha que andar a pé. Vendíamos para as senhoras beatas, que levavam pra Santa Izildinha, Santo Antoninho. Depois, fui para a Praça da República e de lá passou pro Largo do Arouche. Na praça não vendia nada. Depois, quando começou a Caetano de Campos, vinham os alunos. Tinha a festinha das professoras então levavam uma florzinha pra elas, levavam uma florzinha pra casa, e assim começou um negociozinho. Hoje tem o Dia das Mães, tem o Dia dos Namorados, naquele tempo não tinha nada. Do Teatro Municipal as flores foram logo espalhadas pro mercado grande, que antigamente não existia. O mercado de São Paulo era ali na General Carneiro, era um barracão, tinha porcos soltos, galinhas, cabras, coelhos. Quem fornecia àquele mercado eram os portugueses que moravam no Marengo. Ali na Quarta Parada havia muita chácara. Os chacreiros tinham carro de bois. Eles traziam a verdura, vinham a pé, guiando os bois até o mercadão. Não existia nenhum tipo de flor que era mais vendido porque havia só flores baratas. A gente colhia rosa, cravo, copo de leite, margaridão, tudo flores mais brutas. Não tinha flores como hoje, criadas em estufa. A gente fazia muita economia. A gente não passeava, não ia pra lugar nenhum, só trabalhava. Então algum dinheirinho que ficava, a gente segurava. Na minha chácara eu tinha leitão, galinha, cabrito, eu tinha tudo na chácara. Muitas vezes o meu marido veio na feira com cestas de flores e levou tudo de volta, às vezes não tinha dinheiro pra pagar o bonde, que era 200 réis. As flores eram vendidas em maços. A gente fazia aqueles maços e amarrava. Alguns tipos eram vendidos por unidade. O embrulho era só um papel. Para os casamentos, só faziam o buquê, depois que foram passando mais modernos, fazendo tapete, fazendo mais isso, mais aquilo. Isso foi devagar. Festa de casamento antes era uma mesa grande, leitão, cabrito, frango, macarronada, era tudo isso. Não tinha nem flores, não tinha nada! Foi indo que a turma se acostumou. Um compra, o outro compra, da um presentinho porque um ramo de flores é muito mais barato que um presente, então muita gente preferia dar um ramo de flores. Depois que saímos da Praça da República, dava medo de passar lá. Não parava ninguém ali. Não tinha ninguém e era pouca gente em São Paulo. Ali era uma passagem perigosa. A Praça Clóvis tinha cavalos e burros, era um pasto até 1930. Hoje vende mais porque hoje a população aumentou, então namorados presenteiam namoradas, isso foi devagarinho até que se lançou. Hoje o comércio é muito grande, naquele tempo não tinha nenhum prédio na cidade. Tínhamos uma loja que foi demolida pelo metrô. Foi uma loja boa que nós tivemos, Floricultura Dora. Hoje tem a loja da São Francisco, que funciona bem, tem uma gerente que toca, uma senhora muito séria. E também a da Avenida São Luís, onde tínhamos os patos. O meu filho começou a loja com artigos pra fazenda, então ele pôs os patos ali, dava milho e tratava deles. Nós tínhamos um senhor lá, que era o senhor Faustino, um senhor já de idade e ele até que vendia muito bem as flores.

 

Reflexões e sonhos

Hoje, eu faço comida pra mim, eu vou ao mercado, ao supermercado, lavo a minha louça, limpo as paredes, faço todo o serviço do meu apartamento. Com o negócio de plantas eu parei. Trabalhei mais ou menos até os 70. Eu não mudaria nada na minha trajetória. Quando eu vim que eu vim trabalhar na cidade, eu andava dois quilômetros a pé. Pagava o bonde, custava 200 réis. Eu vinha de tamancos, da Penha até o Brás, não tinha nenhuma roupa pra vestir. Todo o mundo que trabalhava também não era rico. Mas uma me deu um vestido, uma blusa, às vezes me convidavam pra almoçar na casa delas. Ninguém andava com um chinelozinho, uma coisa que espantasse. Era todo o mundo de tamanco. Eu comprava um tostão de banana e um pãozinho de 200 réis, eu passava o dia todo. Mas se voltasse tudo, voltava com gosto! Eu tenho tanta coisa pra realizar ainda, mas isso é segredo.

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