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História

Da horta para a freguesia: tudo picado!

História de: Regina Hiroko Hatano Kogawa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/07/2021

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família. Breve descrição da atividade dos pais e dos avós. A mudança de fazenda em fazenda com a família, a vinda para Ribeirão Preto para morar com a sua avó. A venda de verduras e legumes por parte de seu tio, que foi quem inseriu seu pai no ofício. A iniciação no trabalho aos 10 anos de idade, regra da família. Breve descrição da Av. Dom Pedro, na cidade de Ribeirão Preto. A ida à escola e as brincadeiras de rua.  Decisão de trabalhar com a família. Como conheceu seu marido e foi trabalhar com ele na horta. A análise de mercado e a demanda de seus clientes que a incentivaram a investir em legumes picados, daí o nome, Regina Picadinhos. A entrada para o Mercadão Municipal de Ribeirão Preto e um novo método de trabalho. O legado da família.

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História completa

          Sou Regina Hiroko Hatano Kogawa. Eu nasci no dia 24 de julho de 1976, em Guaíra, no estado de São Paulo. Mitu Hatano é o meu pai, e Mieko Sameshima Hatano é minha mãe. Eles sempre trabalharam em lavoura, e quando meu avô faleceu, deixou um sítio para cada filho. Alguns foram bem, outros não foram. E o meu pai foi um deles, que perdeu o que meu avô tinha deixado, e foi trabalhar na lavoura para outras pessoas. E aí foram muitos anos assim, com a gente sempre mudando. A minha avó falava para mim que o meu pai parecia cigano, e a gente passou realmente por várias fazendas em Minas.

          Até que a minha mãe veio pra Ribeirão e conversou com os meus tios, que são irmãos dela. Eles vendiam verdura e legumes na rua. Depois eles compraram um espaço no Ceasa e começaram a trabalhar com comércio, começaram a melhorar a condição de vida. Aí meu pai também passou a trabalhar na feira - meu tio ia com ele, ensinou como funcionava tudo. Então as coisas começaram a melhorar, meu pai comprou um terreno e montou a casinha dele lá no Ipiranga. E eu, desde criança, ia com ele, porque lembro que a minha mãe sempre falava assim: “Deu dez anos, mais tardar dez anos, tem que trabalhar.” A a gente sempre teve isso na cabeça, dez anos. Tanto que o meu filho mais velho começou com dez anos.

          Comecei a trabalhar na feira, então, bem cedo, e quando eu tinha 18 anos eu também fui trabalhar fora: trabalhava na feira no fim de semana e trabalhava no shopping de segunda-feira a sábado. Meu compromisso era com eles; eu tinha que trabalhar na feira. E aí eu conheci meu marido nessa feira - ele trabalhava com verdura. O pai dele é do Japão, bem raiz mesmo, mas ele nasceu em Ribeirão. A gente ficava bem do ladinho um do outro, eu com tomate e ele com a verdura. A gente começou a conversar um pouco mais, e foi surgindo algo mais entre a gente. Graças a Deus, não foi como os meus pais, por Miai, que é o casamento arrumado, né? Eu tive a felicidade de poder escolher um marido. A minha mãe, tadinha, ela não teve.

          Quando a gente se casou, começamos a procurar outros lugares para tocar a horta, e aí minha cunhada comprou uma chácara. Então ela falou assim: “Regina, tá vendendo aquela chácara ali do lado? Está vendendo”. Eu falei para o meu marido, e ele: “Você está louca? Não tem dinheiro para comprar isso, não”. Mas aí a gente foi procurar o dono da chácara. Se eu te contar, essa pessoa deve ser de outro planeta, de outro mundo. O ‘seu’ Zen era um agrônomo, trabalhava na usina. Chegamos lá no Jardim Paulista, tinha carro importado na garagem. E aí a gente foi lá, conversou, perguntou o preço e voltamos para casa. Meu marido: “Bem, você está doida, de onde nós vamos tirar esse dinheiro?”

          Mas chegou uma hora que o ‘seu’ Zen falou assim para mim: “Vocês não querem alugar? Eu alugo para vocês a chácara”. Aí eu olhei para ele: “’Seu’ Zen, eu não quero alugar, eu quero comprar”. Nós pensamos em toda possibilidade. E o ‘seu’ Zen falou assim para mim: “Olha, eu queria muito um alguém. Eu queria muito vender a minha chácara, porque eu quero que ela produza. Terra foi feita para produzir, e a minha terra está parada”.

          Enfim, nós vendemos a casa da Cohab para ele. Além de ele ter me vendido a chácara com o valor venal, ainda tirou mais 4 mil reais. E tudo foi acontecendo. E todo dia eu pedia a mesma coisa: “Meu Deus, me dá uma luz”. Eu chegava no tanque, onde a gente lavava as verduras, pegava meu montinho de couve e colocava embaixo do tanque. Parecia um ritual. A couve é um dos meus carros chefes de venda. E sempre tinha alguém que pedia meio maço, pois antes era tudo maço grande. E as pessoas falavam: “Nossa, mas é muito. Você não faz meio?”. Ninguém gostava de fazer meio maço. Mas eu fazia. Um dia, eu falei assim: “Também vou vender meio maço, né?”.

          E tinha umas clientes ali na feira de terça-feira que falavam assim para mim: “Regina, eu quero couve, mas eu quero picadai”. Até que um dia eu peguei o pacotinho de couve picada de um colega, que vendia picado, bati o olho e falei: “Nossa, mas acho que essa couve aqui dá pra melhorar”. Aí eu comecei a picar em casa. Aí foi gradativo, foi de pouquinho. Mas foi assim que eu passei essa credibilidade para os clientes. E foi assim que eu descobri que isso era a minha missão!

          Depois, meu marido começou a me apoiar a fazer os picadinhos, e tudo foi muito mais para frente no dia que ele viu que o negócio estava indo, que ele resolveu botar a mão na massa comigo. Aí o negócio deslanchou. Hoje, na produção dos picadinhos, nós somos em mais de 40 pessoas. Vendemos para fora de Ribeirão Preto, e a nossa produção aqui é diária, então não tem estoque. Porque nós fornecemos para toda a cidade de Ribeirão e para toda a região.

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