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História

Da geologia na essência ao trabalho em equipe

História de: Entrevista de Guilherme de Oliveira Estrella
Autor: Tayara Barreto de Souza Celestino
Publicado em: 08/07/2021

Sinopse

Guilherme de Oliveira Estrella, carioca, filho de funcionários públicos, teve dois irmãos. Nasceu em 1942, formou-se geólogo em 1964. Casou-se antes de terminar a faculdade, ingressou por concurso na Petrobrás, trabalhando em várias regiões do país e no exterior. Atuou na Braspetro, Cenpes, chegando a diretor da Petrobras, após sua aposentadoria. Tem quatro filhos.

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História completa

 

 

Projeto Memória Petrobras
Realização Instituto Museu da Pessoa

Entrevista de Guilherme de Oliveira Estrella

Entrevistado por Márcia de Paiva e Miriam Figueiredo

Rio de Janeiro, 12 de novembro de 2008

Código: MPET_HV002

Transcrito por Paula Leal

Revisto por Lilian Bueno

 

P/1 – Boa tarde, gostaria de começar a entrevista pedindo que o senhor nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Guilherme de Oliveira Estrella, eu nasci no Rio de Janeiro, né, em 18 de abril de 1942. Lá se vão já quase 70 anos [risos]. A vida passa rapidinho,a gente conduzindo, mas foi isso, eu sou carioca, nascido na Ilha de Governador, numa época em que a Baía de Guanabara era um paraíso, sem poluição, né, e que nós crianças, na praia, brincávamos com os golfinhos que vinham nos beliscar. Então eu sou testemunha da degradação absoluta que essa cidade sofreu e a Baía de Guanabara inclusive, de qualquer maneira é isso.

 

P/1 – O senhor cresceu lá na ilha?

 

R – Nascido e criado na mesma casa, na casa de meus pais. Depois comprei a casa de meus irmãos e só saí dela com 51 anos de idade porque me aposentei e fui morar em Nova Friburgo.

 

P/1 – Bacana.

 

R – Muito bem, então eu sou... peguei o pós-guerra, com o Brasil se reorganizando, o fim da ditadura Vargas. Os meus pais eram funcionários públicos, então nós sempre participamos muito, ligados muito ao governo, essa coisa toda. Acompanhamos a evolução brasileira do pós-guerra, né?

 

P/1 – Tinha essa discussão em casa também sobre o país?

 

R – Ah, sempre muito presente, nós éramos três irmãos homens e sempre as discussões eram permanentes, né?

 

P/1 – O senhor pode falar o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chamava-se Arnaldo Estrella e minha mãe Yara de Oliveira Estrella. Tem uma curiosidade: tinha um grande pianista brasileiro chamado Arnaldo Estrella e, por vezes, meu pai era confundido com o pianista. Às vezes, ele chegava e, numa certa ocasião, eles foram à Caxambu aqui no sul de Minas, a uma estação de água, e quando desceram pra jantar tinha um piano instalado e o dono do Hotel chamou a maior sociedade de Caxambu [risos] pra que meu pai desse um concerto, né? Aí meu pai teve que esclarecer, isso aborrecia ele, né. Depois que faleceu, minha mãe casou-se novamente e meu padrasto também era funcionário público e tudo mais, mas uma vida normal, uma família de classe média.

 

P/1 – E seus irmãos? Na escala o senhor é qual?

 

R - Não, eu sou o caçula, caçula temporão, né, meu irmão seguinte era quase dez anos mais velho que eu e os outros eram colados. Ambos faleceram e trabalharam na Petrobras inclusive, ambos trabalharam na Petrobras, um aqui, né, na área administrativa, Ricardo, e o outro era empregado da Interbras, o Jorge.

 

P/1 – Eles entraram antes do senhor?

 

R – Não, eu entrei antes do que eles, interessante, eu entrei antes. A Interbras foi formada depois, o Jorge entrou e meu irmão Ricardo formou-se em administração mais tarde, fez concurso e entrou na Companhia.

 

P/1 – É o Ricardo... e o outro?

 

R – E o Jorge, né, mas então... a família, aliás, a Petrobras faz parte da nossa família e de tudo quanto é empregado da Companhia, tem essa coisa de fazer parte.

 

P/1 – Como foi a sua escolha também profissional?

 

R – Ah, a minha escolha profissional foi interessante.

 

P/1 – Quando o senhor descobriu?

 

R – É, não, naquela época... Eu sou de uma geração que o camarada tinha que ser engenheiro, médico ou padre ou advogado. Eu, na escola, no colégio lá do Rio de Janeiro, a gente cursava o científico, né, que era o segundo grau, o final do segundo grau; eu comecei a entrar num cursinho porque tinha que fazer um cursinho pra fazer vestibular, porque era muito difícil passar e aquela coisa toda. Era de tarde, eu comecei a chegar muito tarde em casa, eu estudava de manhã e chegava muito tarde em casa, e no final das contas o curso científico mesmo do colégio começou a ser, e a gente realmente... O sistema de ensino era um sistema público de ensino, mas turmas pequenas. O Brasil era outro país, aliás, injusto, mas nas capitais e nas grandes cidades nós tínhamos privilégio, e o restante do Brasil abandonado, né. Mesmo nas grandes cidades a gente tinha os colégios públicos que eram poucos, a gente fazia o concurso pro colégio público _ quer dizer, aquela coisa de, era um privilégio mesmo pra classe média. Nós tínhamos uma assistência permanente dos professores e o professor de ciências que era de história natural, no colégio que eu estudava, que era ao mesmo tempo Diretor do Museu Nacional Quinta da Boa Vista (eu não esqueço o nome dele porque ele me influenciou diretamente, José Lacerda de Araújo Feio), e o professor Feio chegou e disse “Olha, ô Guilherme, tô sentindo que você tá diminuindo sua produtividade, vamos dizer assim o seu desempenho aqui, o que tá acontecendo?” “Não, é que eu quero ser engenheiro, aquela coisa toda, tô fazendo o cursinho pré-vestibular”. Ele disse: “Olha, tem uma profissão nova...”. Isso foi em 1960. “Tem uma profissão nova surgindo no mercado aí que o governo estruturou os cursos. Essa profissão ela não está regulamentada ainda, mas é a profissão de geologia”, e as aulas de biologia eram dadas no Museu Nacional, por isso que ele como Diretor sabia. Eram às quartas e sábados, no Museu Nacional. Então ele, e aí eu me interessei junto com um outro colega. Então acabamos vendo que era uma coisa interessante - hoje é uma coisa, realmente, em termos de amplidão de conhecimento, geologia é uma coisa maravilhosa, né, eu sou um apaixonado mesmo pela profissão que escolhi. Então nos interessamos, acabamos passando no vestibular também, mas era um vestibular que enquanto na engenharia eram poucas matérias em geologia tinha inglês, tinha história natural, tinha também matemática, tinha química, física ao lado dessas outras matérias, né? E foi assim então que esse homem, né... É aí saímos do cursinho, retomamos a nossa forma, sei lá, que ele tinha notado que tinha decaído, né [risos], e passamos pra geologia. Eu comecei em 1961, era um curso muito, extremamente demandado do aluno. Eu me lembro que a gente entrava com a luz acesa no inverno e saía com a luz acesa, era de sete às sete, e nas férias não tínhamos férias, a gente fazia excursões de campo. As matérias exigiam que a gente fizesse as excursões e passávamos um mês, dois meses, fora; isso já era uma absoluta novidade e, pra nós que gostávamos, o trabalho de campo pro geólogo até hoje é uma coisa espetacular, né, então foi assim, aí...

 

P/1 – E como curso novo, qual era a expectativa de trabalho, o que foi passado também?

 

R – Não, pois é, o curso foi criado pelo Presidente Juscelino Kubitschek, naquela fase, nos planos de desenvolvimento, porque ele foi o primeiro a montar um plano de desenvolvimento nacional, viu-se logo que um país gigantesco como esse, um país continental, não tinha profissionais que cuidassem, enfim, do estudo do subsolo brasileiro e  a geologia vinha, eram engenheiros, pessoal de história natural, essas coisas (absolutamente abnegados). O governo não tinha uma infraestrutura que inclusive remunerasse decentemente, então viu-se logo, o Juscelino viu, o governo Juscelino viu que necessitava formar quadros pra esse conhecimento que é um conhecimento base para o desenvolvimento de qualquer país, né, principalmente o país como o Brasil. E também a Petrobras que tinha sido fundada e nós... A Petrobras era obrigada a mandar gente pros Estados Unidos pra tirar o curso de geologia, né, então um geólogo pra indústria petrolífera é uma profissão básica, e o Juscelino então... E, antigamente pra se montar um curso universitário tinha um Conselho Nacional de Educação, era uma coisa complicada, e o Juscelino ante essas dificuldades legislativas criou um curso especial junto ao Ministério de Educação, na Diretoria de Ensino Superior. Ele fundou a chamada Cage, que era [Campanha de Formação de Geólogos], e instalou-se um curso diretamente ligado ao Ministro da Educação. Nós não pertencíamos às universidades, né, era um curso diretamente ligado a essa Cage, com uma certa liberdade de contratação de professores, porque também não tinha professores no Brasil, chamavam professores americanos, europeus, alemães principalmente, né?

 

P/1 – O quadro era quase todo estrangeiro?

 

R – Eram muitos estrangeiros, eram muitos, né, e então foi assim... Esse foi um curso que o Juscelino fundou. Tinha uma colher de chá que a gente dizia que quem entrava na Geologia não servia o Exército, tinha baixa, e naquela época não tinha esse negócio, naquela época a gente servia mesmo, né. Não que o serviço militar... o serviço militar é uma coisa necessária, inclusive, até pra formação do cidadão, mas de qualquer forma, é ou era considerado uma interrupção na vida escolar, embora tivesse o CPOR também, que conciliava o interesse dos estudantes com o serviço militar, mas de qualquer maneira o Juscelino até com, interessante, sobre protesto das Forças Armadas, o Juscelino decretou que os estudantes de Geologia tinham isenção do serviço militar, e nós _ eu e todos aqueles que entraram em Geologia naquela época _ tínhamos isenção do serviço, até porque era um curso de horário integral, como eu disse, né, não dava pra fazer o CPOR por exemplo, porque era nos finais de semana, a gente não tinha final de semana praticamente. E o curso... eu sou de uma turma em que a Geologia era uma Geologia mais romântica, né, por exemplo, uma coisa que eu falo sempre, é, era proibido fotografar. Hoje a fotografia é uma ferramenta do geólogo, mas na minha formação era proibido fotografar.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque nós tínhamos que desenhar os afloramentos, né, porque na essência lá do ensino, da didática, dizia o seguinte: quando você desenha você aprende também, então você tinha que desenhar porque ali você estava aprendendo, porque bater uma fotografia pra depois ver no escritório aquela fotografia e interpretar aquela fotografia, lá não. E pra isso tínhamos uma cadeira de desenho à mão livre. Era muito interessante, porque no primeiro ano de geologia a gente aprendia a desenhar à mão livre, era um pintor brasileiro, né, era um pintor carioca contratado que nos ensinava a desenhar.

 

P/1 – O senhor se lembra quem era?

 

R – Pois é...

 

P/1 – Porque é tão curioso.

 

R – Eu sou, meu Deus do céu.

 

P/1 – Tudo bem, vamos continuar.

 

R – Mas de qualquer maneira, é, era uma curiosidade porque a gente, né, num curso universitário que não tinha nada a ver com artes e essa coisa toda... O desenho à mão livre era muito interessante porque ele era um pintor, mas enfim, foi assim que nos formamos, né, turma muito pequena, de oito alunos somente. Éramos turmas pequenas, curso todo especial, o governo dava uma atenção realmente especial a essa formação dos geólogos, né, no início, mas não pertencíamos à universidade nenhuma. A profissão não estava regulamentada, então só foi regulamentada até no período em que houve o golpe militar em 1964, e o Ranieri Mazzilli - que era o Presidente da Câmara - assumiu a Presidência naquela troca ali da deposição do João Goulart, a entrada dos presidentes militares, né. E assumiu o Ranieri Mazzilli, e o filho do Ranieri Mazzilli, que era o Luís Guilherme, geólogo, ele tinha se formado duas turmas antes da minha, e naquele período ali do Ranieri Mazzilli passar uma semana, três, quatro, cinco dias na Presidência da República, né, aí o Luís Guilherme tinha se formado no Rio de Janeiro. O Ranieri Mazzilli regulamentou a profissão, né, foi uma coisa mais ou menos assim: não sei se, mas sei que ele, que a regulamentação veio daí, e depois a escola passou a fazer parte da Universidade do Brasil, que era com sede ali na Praia Vermelha, era uma coisa que até hoje está decadente, mas é uma coisa lindíssima: aquele conjunto arquitetônico da Praia Vermelha que é da exposição de 1908 a depois de 1922, né, que é da Exposição Nacional, né, remanescentes, coisas lindíssimas. E fomos absorvidos pela Universidade do Brasil, mas logo depois com a Reforma Universitária formou-se a Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas no meu diploma ainda é da Universidade do Brasil.

 

P/1 – E o senhor quando se formou tinha algum contato?

 

R – Eu me formei em 1964, né, e em pleno primeiro período da ditadura militar. Nós não tivemos a solenidade de formatura; não aconteceu porque nós escolhemos um paraninfo lá, eu acho, da turma que tinha sido cassado, era um deputado que tinha sido cassado. Se você me perguntar o nome eu não sei mais, mas aquilo criou uma confusão danada na escola: o diretor da escola foi lá e disse que nós éramos irresponsáveis, estávamos expondo a escola a uma exposição aí junto ao governo militar, mas nós, claro, quem é que vai convencer um menino de 21, 22 anos a deixar, a renunciar suas posições e suas opiniões, né, a gente não é cativo, mantivemos. Mas aí ele cancelou a solenidade, e foi complicado porque tinha colegas que não eram do Rio de Janeiro, as famílias, quer dizer, aquela solenidade para as famílias era uma coisa importantíssima, tinha gente que vinha do Pará, do Nordeste, mas não teve. Nós formamos em 64 e já naquelas primeiras fases do Regime Militar não se comparam à repressão de 68 e 69, porque aí, essa mancha negra na história do Brasil, né... Mas de qualquer forma nós não tivemos a formatura e, mas a Petrobras, pela primeira vez, foi o primeiro concurso público de admissão da Petrobras, foi em 1964, porque antes a necessidade de geólogos era tanta que a Petrobras contratava diretamente, não tinha, mas em 1964 foi o primeiro concurso público, e foi até uma coisa interessante porque, é, tinham acho que 25 vagas.

 

P/1 – Só pros geólogos?

 

R – Só pros geólogos, 25 vagas, e eu fiz o concurso, todo o Brasil, o pessoal de todo o Brasil fez o concurso e eu tirei, a minha classificação foi a 27ª colocação. E ela fazia o seguinte: ela mandava os telegramas e a pessoa tinha uma semana pra responder ou não. E eu entrei logo, eu fui 27º, quer dizer, logo em uma semana teve gente que não respondeu e, foi interessante, algum dia há um tempo atrás eu fui ver quem é que tinha desistido [risos]: era um gaúcho que desistiu e eu entrei na vaga dele. Tenho que encontrar esse cara pra agradecer a ele [risos].

 

P/1 – E da sua turma da faculdade entrou também alguém com o senhor?

 

R – Entraram quatro geólogos, né, colegas da mesma turma, e trabalharam na Petrobras. Um foi mandado pro Maranhão e não quis ir, e os outros dois ficaram na Petrobras e são aposentados, Giuseppe Bacoccoli e o Edson, não me lembro o sobrenome.

 

P/1 – Tudo bem, então seu ingresso foi em 1964?

 

R – Aí ingressei em 1965, me formei em 1964 e ingressei no dia oito de fevereiro de 1965. E tem uma curiosidade porque eu me casei estudante, casei no último ano. Minha mulher era professora de Educação Física, né, então a gente se virava.

 

P/1 – Qual é o nome dela?

 

R – Eliane, ela já é falecida, né, e aí fiz o concurso. Mas eu fui obrigado a...porque eu me casei em setembro...eu era bolsista da Comissão Nacional de Engenharia Nuclear, então com aquele dinheirinho e com o trabalho dela a gente se virava, mas eu fui obrigado a garantir o meu emprego logo depois de formado, porque já casado, aquela coisa toda, e o Museu Emilio Goeldi do Pará abriu vagas. Eu passei a fazer parte dos quadros do museu a partir já do final de 1964, só que o homem, o diretor do Museu não me disse, eu não havia sido informado que deram uma grana da CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] e que a grana mesmo só ia pintar no outro ano. Eu disse, quando eu me deparei com essa situação, casado e a bolsa da Energia Nuclear certamente terminaria no final do ano, dezembro, né, então eu fiz concurso pra Petrobras, né? Muito bem, ao ser chamado pra Companhia eu me desvencilhei lá do Museu, né, do Emilio Goeldi. Estava morando no Rio de Janeiro, não tinha ido pra lá ainda, e isso tomou um tempo, eu não, antes de eu efetivamente me liberar do Museu, mas de posse do telegrama da Companhia eu vinha... era na Rio Branco 10, lá na Praça Mauá. Eu fui e me apresentei, e era a Dona Nadir do Serviço Pessoal, esse nome eu não me esqueço, e expliquei o caso e ela: “Não, se desvencilhe lá do Museu, não se preocupe, já anotei teu nome, você já veio aqui e disse que quer o emprego da Petrobras”. Isso foi em meados de janeiro e eu fui lá, acabei indo dia oito de fevereiro, só que tinha o seguinte: a Petrobras tinha uma regra que quem entrasse depois do dia cinco de fevereiro perdia a primeira promoção, a gente entrava como técnico estagiário, depois passava pra técnico A e quem entrasse mais, um ano depois, era esse período, né. Mas quem entrasse no dia oito de fevereiro tinha que esperar mais seis meses pra passar pra técnico A, e eu fui nesse negócio, né, e a Dona Nadir também não me avisou nada, porque senão tinha feito na hora, né, mas vim atrasado nas promoções. Até que chegou uns dez anos depois houve um  acerto de contas e aí eu cheguei na minha turma, cheguei na mesma função em termos de carreira, né, na mesma função da minha turma, mas passei uns dez anos aí sempre atrasado, o pessoal era promovido [risos]. Mas muito bem, aí entrei como geólogo de poço.

 

P/1 - Fez o curso, foi também?

 

R – É, naquela época não tinha esse curso, naquela época a gente fazia um curso depois, a gente entrava mesmo era na briga lá, né, e tínhamos um curso de três semanas pra aprender, aquele primeiro contato, ainda que eu tivesse estagiado já na Petrobras. Eu mantinha um estágio também de dois ou três meses com os alunos de Geologia, né, tudo bem, e aí as operações estavam tão... A empresa estava aumentando o nível de volume de operações e o curso não terminou; no meio do curso o pessoal disse: “Olha, estamos precisando de vocês no campo”, aí jogaram a gurizada pra aprender lá.

 

P/1 – Pra qual campo o senhor foi?

 

R – É, aí eu fui pra Bahia, né, fui pra Bahia e já no segundo poço que eu era o júnior. São dois geólogos que acompanham o poço, tinha o geólogo do poço e o geólogo auxiliar, eu era o geólogo auxiliar, foi o campo de Miranga, descobrimos o campo de Miranga que depois foi uma experiência, a primeira experiência que eu tive mesmo com petróleo ainda em 1965.

 

P/1 – Já com uma descoberta?

 

R – Já com uma descoberta, Miranga era um campo espetacular, né?

 

P/1 – Qual foi a sua sensação de descobrir petróleo, assim?

 

R – Ah, é interessante, aquilo é a coroação de um trabalho, quer dizer, um profissional, pra qualquer profissão, você sabe disso tão bem quanto eu, a gente vê o trabalho, a coroação daquele trabalho, daquele esforço, né, e depois entender que aquilo não é um ato isolado, né, isso que é importante. Aquilo é produto de um trabalho em equipe que vem lá de trás, né, de levantamentos e interpretações geológicas. Quando a gente perfura um poço na verdade aquela perfuração é o final de um processo que envolve centenas de profissionais, né, equipe de profissionais pra alocar aquele poço. Então esse entendimento é fundamental, né, e a descoberta do petróleo, petróleo ou gás, que nos dá essa visão, né, isso é importantíssimo, a empresa, como toda a indústria de petróleo é uma indústria de trabalho em equipe, então isso é importantíssimo. Mas aquela sensação que eu tive, né, não só a satisfação de ver não era uns poços exploratórios, a gente furava dez ou 12 poços pra descobrir petróleo, né, então não era comum, como hoje não é comum, mas de qualquer maneira dá também, a gente tem também a nítida dimensão do que é todo o trabalho que demora muito tempo, então, muita competência, muito treinamento das pessoas, né. Então aquilo é o coroamento de um grande trabalho, né, e o que tem também de interessante, tem a ciência na base, quer dizer, a exploração de petróleo tem conteúdo científico, né, até hoje no pré-sal a gente não conhece a base do pré-sal. Estamos aí com a Universidade brasileira nos ajudando, mandando gente pro exterior, porque é uma rocha pouco conhecida, imagina 40 e tantos anos depois, né, então está também, uma coisa também que a área de exploração e produção tem essa característica que é o tempero, vamos dizer assim, da nossa produção. Cada dia é um dia, né. Antigamente a gente dizia ponta de broca, de barriga de mulher e de cabeça de juiz só sabe depois que acontece. E hoje a barriga da mulher não tem mais, porque aí eu digo pra minha filha que a geração dos meus filhos já não teve mais aquele...

 

P/1 – Guardar surpresa?

 

R - Não, aquela sensação, aquela satisfação de esperar a enfermeira. A enfermeira chegava na porta e dizia “É um menino, é uma menina”. Então hoje não, hoje o pessoal já sabe, não tem mais essa, então a gente toda hora. Eu tive quatro filhos, então a gente tinha essa sensação de saber se era menino ou menina, e isso tem um sabor, que hoje essa gurizada, tô vendo a moça ali [risos], essa gurizada não tem, já sabem, compra tudo cor de rosa ou azul. Aquela coisa toda, a gente não [risos]... Tinha o tamanho da barriga, se a barriga era muito embaixo, se era muito em cima. “Esse é menino, a barriga tá muito embaixo”, essa coisa toda, não tinha essa coisa, sabor, né, que hoje a gurizada no computador já tá sabendo de tudo, perdeu esse romantismo, mas também existem outros, claro. A vida passa e se modifica e sempre tem um sabor da vida, claro, eles têm. Certamente aproveitam em outras dimensões que nós não tínhamos naquela época, né?

 

P/1 – Mas esse sabor de ver o petróleo, assim, pela primeira vez também deu uma emoção?

 

R – É, é emocionante mesmo, quer dizer, a gente, porque...

 

P/1 – Jorrou, assim, esse? Porque é meio de filme, né?

 

R – Não, aquela imagem daquele... dos campos de Texas, surgindo. Até outro dia vi um filme também, aquilo na verdade é o descontrole. Naquela época as ferramentas não tinham -as ferramentas de perfuração- a parte de segurança era muito precária, então perfuravam um reservatório de alta pressão e aquele negócio vinha, depois é que eles iam tratar, e era um desperdício danado. Mas já modernamente não tem mais isso, quer dizer, você identifica e faz um texto totalmente controlado, mas de qualquer maneira é uma sensação extremamente agradável. E o petróleo é interessante, ele tem um cheiro, tem o cheiro de petróleo. É aquela coisa que pra nós é inconfundível, né, ele cheira.

 

P/1 – É um cheiro bom?

 

R – É um cheiro bom [risos], pra nós é sempre um cheiro bom, né, então foi lá que comecei mesmo, né?

 

P/1 – E lá de Miranga o senhor fez outros trabalhos, como é que foi, ficou ainda um tempo fazendo?

 

R – Não, pois é, aí a gente era geólogo de poço mesmo, a gente saía de um poço e ia pra outro.  Essa coisa toda foi o início daquela turma toda, é o início normal, alguns geólogos vão pra superfície, fazer trabalho de superfície, e essa turma de superfície era considerada uma turma de elite, e nós do poço éramos considerados o pessoal de segunda categoria. Tinha essa divisão: o cara de superfície via os afloramentos, quer dizer, era a profissão mesmo aplicada como a gente tinha aprendido na escola, mas a geologia de subsuperfície que era o geólogo do poço era muitíssimo importante, porque a gente tinha análise das rochas que eram perfuradas e demonstradas pela perfuração, a gente analisava e fazia geologia também, né. A gente dizia o seguinte: “o pessoal de superfície interpreta o que vê, e de subsuperfície a gente interpreta o que não vê”. Tudo informação indireta: amostras da broca de perfuração, então era mais difícil, havia sempre essa disputa, mas nós da subsuperfície é como se fosse uma turma de segunda classe na área de exploração, né [risos], mas depois a gente, bom...

 

P/1 – Passaram por muitos lugares?

 

R – Muitos lugares, muitos lugares, eu fiquei na Bahia lá uns quatro anos, no Recôncavo Baiano, e perfuramos, acompanhei muitos poços, e acompanhei poços, por exemplo, no Tucano, em que o telegrafista deles passava a coisa pelo telégrafo, “pápápá pápápá”. Imagina isso hoje, né? [risos]

 

P/1 – Como é que era essa Petrobras dessa década de 60?

 

R – Olha, era interessante, a gente, o Brasil submetido a uma ditadura militar cada vez mais violenta, né, e a gente na Petrobras o trabalho era tão apaixonante, quer dizer, a empresa tem isso, né, a Petrobras tem esse negócio: a gente se apaixona pelo trabalho e pela Companhia, né. E na minha geração, certamente, até a gurizada que está hoje na Companhia, o pessoal sente que nós fazemos um trabalho em prol do Brasil. Eu tenho filhos que trabalham em multinacionais, enfim, e tudo o mais, mas não tem isso, o trabalho deles é mais trabalho individualista. Tá, é mais pra satisfação pessoal, mas não tem isso que a gente tem na Petrobras, essa coisa que a gente tem consciência de que trabalhamos para o Brasil também, a coisa do nacionalismo. Isso é uma coisa interessante, quer dizer, só quem passa é que conhece essa coisa que a gente tem, então o trabalho era tão envolvente e tão absorvedor das nossas atividades, das nossas mentes, os corações, e aquela coisa toda que a política, quer dizer, tudo ao que o Brasil estava sendo submetido, quer dizer, de ditadura, acho que passava mais ou menos ao lado. Não pra todos, mas pra muitos, inclusive eu mesmo, ainda que tenha tido uma atuação política no Diretório Acadêmico e tudo o mais, mas o trabalho da Petrobras nos envolveu, né. Então, era isso, quer dizer, desde o início a gente era envolvido nessa coisa que tinha algo mais, que a gente fazia algo mais do que aquele próprio trabalho de sobrevivência, de mantermos as nossas famílias. Na Petrobras tem isso, né, é aquele ditado, desde o primeiro dia que a gente pisa na Companhia aquela coisa está envolta, nós somos envolvidos nisso, as famílias são envolvidas, né? É um negócio impressionante: a Petrobras é uma coisa séria [risos].

 

P/1 – E seus filhos nasceram na Bahia?

 

R – Eu tenho dois filhos baianos e dois filhos cariocas. Perdemos um, mas os dois baianos nasceram na Bahia e muito bem, coisa absolutamente normal, a Bahia tinha um monte de hospitais, essa coisa toda, né... Mas se formaram nessa... nós passamos dez anos sem admitir gente, né, eles se formaram nesse período, então tiveram que seguir suas vidas e hoje tão aí trabalhando, engenheiro, jornalismo, no comércio também, mas...

 

P/1 – Qual o nome deles?

 

R – Pedro, Maria e Renato.

 

P/2 -  Em 1968 você falou que ficou quatro anos, em 68 o senhor participa da primeira exploração no mar, como foi?

 

R – Isso, é uma coisa interessante porque outro dia nós comemoramos aqui os 40 anos do primeiro curso, né, e precisavam do geólogo de poço, então nós não estávamos sabendo de nada, mas a sede da Companhia aqui preparou uma lista de seis geólogos de poço que seriam os escolhidos nas unidades para acompanhar os poços na plataforma continental que ia começar e eu fiz parte dessa lista. Éramos seis: o pessoal chamava dos Golden Boys, aquela coisa toda e nós então viemos:  o Bacoccoli, o Murici, que hoje está na ANP, o Rudimar Antonio Juliano de Campos, o Paulo de Tarso Araripe, eram mais de seis, eu e tinham dois: um era o Enio Barreto, que está aqui, e outro o Silvio, porque o Enio e o Silvio foram tirados do grupo pra estudar oceanografia, porque a gente não conhecia nada sobre o subsolo marinho pra assentar as plataformas. Então os dois foram mandados pros Estados Unidos e ficamos nós aqui, depois o grupo foi... mas esse era o grupo inicial (a gente veio em abril de 1968), depois vieram um pouco mais, a partir de abril de 1968, né. Em junho de 1968 iniciamos o poço, e foi assim que eu vim pro Rio, e me apresentei aqui, todos nós nos apresentamos e começamos a já fazer os prospectos, elaborar os prospectos de poço, aquela coisa toda, então assim que eu vim pro Rio.

 

P/2 - Como foi essa primeira experiência?

 

R – Pois é, foi realmente uma coisa absolutamente nova, né, então. E o Brasil foi um dos pioneiros também na perfuração marítima, tinha perfuração marítima costa afora mesmo, porque tinha perfuração ali no Dom João de Santos, na Venezuela, no Lago do Maracaibo, no México, mas eram aquelas zonas de transição quase, águas muito rasas. O Brasil acho que foi o segundo ou o terceiro, a sonda que nem o Falcão disse naquele dia: só tinha duas sondas, era essa que veio trabalhar conosco e uma que estava no Golfo do México, perfurando 15, 20 metros de profundidade de água. Então foi uma sensação também muito interessante, fez parte, quer dizer, a gente, na verdade nós somos envolvidos nisso. A empresa é muito dinâmica.

 

P/1 – E o que se discutia com essa ida ao mar em geologia? Era uma expectativa?

 

R – Não, a discussão era o seguinte, quer dizer, havia o Relatório Link, né, já bem anterior, mas que já mostrava que as perfurações terrestres nas grandes bacias sedimentares que foi, eram a Bacia do Paraná e a Bacia do Amazonas, que eram grandes bacias, elas não tinham surtido resultados positivos. Então ficamos nós nas pequenas bacias do Nordeste brasileiro: Potiguar, bacia do Rio Grande do Norte foi descoberta muito depois. Era Sergipe, Alagoas e Recôncavo, e já naquela época se constatou que se a gente visse o futuro, 50 anos depois, essas duas pequenas bacias não seriam. E Espírito Santo também, que já tinha sido começada a exploração em Espírito Santo, não seria suficiente pra produzir petróleo pra um país desse, né? Então a decisão de ida ao mar foi uma decisão extremamente estratégica e de longo prazo. Nós já não tínhamos autossuficiência na época, então, quer dizer, essa é uma coisa da Petrobras também: a visão estratégica da empresa em relação ao suprimento brasileiro de gás e petróleo, petróleo e gás. É uma coisa que já os fundadores da Companhia, os pioneiros da Companhia tinham em mente. Aliás essa é uma característica dessa Companhia, a Petrobras é muito diferente. Nós tínhamos, até o governo passado, até a época das privatizações, nós tínhamos muitas empresas estatais: Petrobras, Eletrobrás e mais outras. A Petrobras é diferente das outras porque as outras foram decorrentes, a fundação das outras empresas foram decorrentes da nacionalização e da estatização de empresas estrangeiras que tinha, que já operavam no Brasil - telefonia, telecomunicações, energia. A Petrobras não, a Petrobras foi fundada do zero mesmo, não tinha uma empresa, então enquanto as outras empresas ao serem fundadas e constituídas como empresas estatais elas traziam a cultura das empresas estrangeiras que operavam no Brasil. Às vezes aquilo era um conglomerado de empresas, umas inglesas, outras americanas, canadenses, francesas, era um negócio meio confuso. Cultura de Companhia é uma coisa seríssima, né. Na Petrobras não, a Petrobras fundou do zero e com brasileiros, né, tinha os técnicos estrangeiros, claro, pra nos auxiliar, mas em nenhum momento o controle da Companhia deixou de ser brasileiro. Então tem isso, desde o início carregamos a nossa cultura e isso diferencia a Companhia das outras empresas.  A visão estratégia sempre foi uma constante naqueles que gerenciaram a Petrobras, desde os pioneiros, pensavam lá na frente, com treinamento de gente, eu sempre pensei. O Doutor Leopoldo teve uma visão de um centro de pesquisa, isso na década de 60 já. Depois demorou, enfim, a empresa sempre muito avançada, sabe, inclusive em termos de ambiente brasileiro, em termos de empresa mesmo, de ambiente brasileiro; de modo que essa coisa da ida pra plataforma foi uma decisão estratégica, assim: “Olha, tudo bem, mas nós precisamos avançar, né?”, e essa coisa permanece até hoje. Isso que é interessante: a empresa sempre pensa na frente, isso dá uma consistência à nossas atividades espetacular, né, o que diferencia a Companhia de outras empresas.

 

P/1 – O senhor volta pro Rio já, o senhor já veio pensando nessa atividade dirigida pro mar, como foi?

 

R – Não, já vim nessa atividade.

 

P/1 – Pra formar um grupo?

 

R – É, então formamos um grupo, criou-se um setor chamado Seplal [Serviço Especial de Exploração da Plataforma Continental], que tinha o Garcia, engenheiro Garcia como gerente, tinha um outro gerente e a gurizada entrou ali pra auxiliar essa turma mais velha, né, e começamos a trabalhar, começar a trabalhar. Primeiro, a sede da Companhia já era aqui, aliás a Petrobras se dividiu, a diretoria na Candelária lá no Banco de Tóquio, e a parte técnica aqui Seplal foi construído nós fomos pra um andar ali na Uruguaiana na esquina com a Presidente Vargas e ali foi que nós começamos a estabelecer mesmo, começamos a estudar e descobrimos Guaricema, logo em novembro daquele ano. E aí já tinha material pra estudar a segunda fase, uma primeira fase exploratória com a descoberta. Começou a fase de distensão da descoberta e depois de desenvolvimento. Então, quer dizer, a coisa já tomou conta do processo exploratório, não tínhamos produção, a área de produção nunca deixou a produção ficar só na plataforma continental. O negócio era político mesmo dentro da Companhia, quer dizer, encontraram exploração, criou um núcleo só pra plataforma, só pro mar, aí a produção disse: “Não, eu vou ficar com “, a exploração e perfuração criou o grupo e a produção nunca deixou se criar um grupo de produção no Seplal. Mas enfim, isso aí veio, aí foi uma... Depois da descoberta de Guaricema passamos um período bastante crítico, porque não descobrimos mais nada até a descoberta de Campos, da Bacia de Campos, que foi em 1974, eu nunca... mas a minha relação com a Bacia de Campos é uma relação distante em termos de data e de acontecimento, porque eu nunca trabalhei em Campos, eu nunca trabalhei na Bacia de Campos.

 

P/1 – Mas o senhor continuava fazendo a exploração também ligada ao mar ou fazia as duas coisas?

 

R – Não, só ligada ao mar. Com o, já mais tarde, com o término do Seplal, com a extinção do Seplal, então nós fomos distribuídos ao longo, nós fomos designados pra fazer estudos de Bacia, né, ao longo da margem continental brasileira toda. Então aqui na sede da Companhia foram construídos grupos de geólogos e geofísicos pra estudar as bacias como um todo. Tinha a Bacia de Santos, o pessoal da, então tinha uns grupos juntando geólogos e geofísicos, foram construídos diversos grupos pra estudar as bacias marítimas, mas que tinham continuação, as bacias marítimas são as bacias terrestres que se estendem para o mar, né? Fora a Bacia de Santos, que não tem nada interno, né? Mas de qualquer maneira foram construídos grupos e começamos a trabalhar então na interpretação dessas bacias e na geração de novas locações. Eu trabalhei então, eu trabalhava do alto de, entre Vitória e Maceió, toda essa faixa marítima. Eu trabalhava junto com outros geólogos e geofísicos e a curiosidade é que nunca descobrimos nada [risos], enquanto o pessoal da Bacia de Campos descobria, descobria e a gente poço seco, poço seco [risos].

 

P/1 – E como é que era a logística no mar naquela época?

 

R – Ah, era terrível, nós, é, o primeiro poço lá no Espírito Santo a gente entrava num barco na Baía de Vitória, tinha até na traseira do barco um convés lá. Aquilo era um passeio de iate na Baía de Vitória, mas quando saíamos pro grosso mesmo, aí a coisa era difícil, né, então nós chegávamos lá absolutamente arrasados em termos físicos e psicológicos [risos]. E a logística era uma cestinha, aquela cestinha e tudo mais e teve uma vez que nós esperávamos um homem que era o técnico de perfilagem, né, e o mar batendo e a cestinha lá, vieram alguns, depois outros, a gente: “Pô, cadê o cara? Não apareceu”. Daqui a pouco eram os marinheiros, eram todos estrangeiros, né, saíram carregando o cara, o cara carregado assim, o cara estava praticamente desmaiado de tanto colocar cargas ao mar durante horas, que eram sete horas, aquilo era um sofrimento interminável, aí começamos a reclamar e o Hélio Pereira que era o adjunto do apartamento, era o superintendente adjunto, disse: “Não, que é isso, bobagem, tem que enfrentar a coisa mesmo, no meu tempo...”. Aí ele contava as coisas do tempo dele, que ele andava de canoa não sei das quantas, geólogo, e aí: “Não, Doutor Hélio, mas o senhor precisa ir lá”,  e ele efetivamente alguns meses depois foi ao campo, né, foi a uma sonda nossa e não aguentou, na metade da viagem ele disse pro comandante “volta”, Aí aprovou os helicópteros que a gente queria que a Petrobras pusesse helicópteros, aí ele aprovou com a experiência própria dele, mandou voltar o barco [risos].

 

P/1 – Aí que saíram os primeiros helicópteros?

 

R – Aí que saíram os primeiros helicópteros, né, que nos levavam, mas até lá a gente sofria horas.

 

P/2 - Você lembra quando mais ou menos que aconteceu?

 

R – Não, eu não me lembro a data, eu acho que Guaricema nós já tínhamos helicóptero, em Guaricema.

 

P/2 - Em 1968?

 

R – É, em 1968, foi naqueles seis meses, né, que a gente pressionava o Hélio e ele: “Não, vocês falam bobagem, pessoal mimoso”, aí contava as histórias dele, porque realmente cada geração mais antiga enfrentava condições piores de campo e essa coisa toda. E ele achava, até que ele foi lá, como eu disse, e mandou o barco voltar porque não aguentou [risos] e aprovou os helicópteros, né?

 

P/1 – E desse, também da sua transferência, como é que foi também essa passagem pra Transpetro, perdão, pra Braspetro?

 

R – A Braspetro foi fundada porque nós importávamos petróleo e os países árabes, os principais fornecedores brasileiros do petróleo, eles criaram uma classe especial de clientes, né, então eles, essa classe era de empresas, de países que investiam em exploração nos países árabes, que eles tinham deficiência técnica e tudo mais. Porque era tudo feito por empresa estrangeira e quando começaram a ser nacionalizadas, no Iraque, no Egito, na Líbia, na Argélia, até no período que estes países tinham saído das Guerras de Independência e essa coisa toda, eles nacionalizaram principalmente as americanas e europeias que exploravam, né, e as empresas retiraram seus técnicos e tudo mais, claro. Então eles ficaram com uma dependência técnica, inclusive uma deficiência técnica, então chamavam a empresa principalmente dos países para os quais eles forneciam petróleo pra explorar lá, né, e houve um fato interessante. Quando o Iraque nacionalizou as empresas de petróleo, a British Petroleum, a Corte de Haia decretou embargo do petróleo iraquiano, e o governo brasileiro rompeu o embargo, necessitava do petróleo e rompeu esse embargo, e comprava petróleo iraquiano. Isso deu um caso internacional, mas o governo brasileiro com uma posição muito firme, então as nossas relações com o Iraque eram relações privilegiadas por causa disso. Nós também tínhamos, mas enfim, aí criamos a Braspetro. Para a  Braspetro assegurarmos o fornecimento por parte daqueles países nos quais nós atuávamos como Braspetro o fornecimento de petróleo. Então era Argélia, Líbia, Egito, Iraque e Irã, essas sucursais, vamos dizer assim, da Braspetro foram todas. E era uma coisa muito interessante, porque tinha um período fixo de permanência no exterior, não é como hoje que a nossa área internacional tem gente com anos e anos, na Braspetro. A gente sabia que ia passar dois anos, no máximo três anos, excepcionalmente quatro, mas havia um rodízio, e eu fui pra trabalhar na Braspetro. Mas pra trabalhar aqui no Rio, ela estava formando também um staff, vamos dizer assim, mas já no primeiro ano as operações no Iraque começaram a aumentar e eles criaram uma gerência de exploração em Bagdá e eu fui convidado e aceitei, né? Bagdá naquela época, os países árabes eram considerados em situações desconfortáveis pra gente trabalhar e especialmente o Iraque, era considerado, assim, o fim do mundo trabalhar no Iraque, mas eu tinha trabalhado lá na Braspetro aqui na sede. A gente com contato permanente, o pessoal do Iraque era o que menos reclamava, o pessoal da Líbia reclamava e tudo mais e a turma do Iraque lá tranquila. Então já denotava que o trabalho em Bagdá era um trabalho, enfim _e realmente foi _, quer dizer, foi uma experiência espetacular.

 

P/1 – O senhor foi com a família?

 

R – Fomos com a família, todo mundo. Minha mulher dizia: “Onde vai a corda vai a caçamba, não pode ir a corda sozinha” [risos]. Então fomos com a família e nos demos muito bem, passamos dois anos e pouco lá e uma experiência espetacular. Descobrimos Majnoon, que era um grande campo; Majnoon é o último, não teve campo maior, agora tão dizendo que num país aí descobriram um campo também gigantesco; Majnoon é o último maior campo descoberto, quer dizer, depois de Majnoon ninguém, não houve mais outra descoberta maior que Majnoon.

 

P/1 – Me conta como foi essa descoberta.

 

R – Ah, foi, a Petrobras fez um trabalho lá, um trabalho de excepcional qualidade, né?

 

P/1 – E foi durante a sua gerência lá, né?

 

R – É, aí que está...

 

P/1 – Não, tudo bem que é um trabalho de equipe...

 

R – É um trabalho de equipe, quer dizer, nós fizemos um trabalho de mapeamento de superfície, com dois geólogos, um está vivo ainda, o Airton Northfleet, o outro já falecido, Celso Fontes. Foi um trabalho de primeiríssima qualidade, a estrutura geológica de Majnoon se reflete na superfície, no solo, de uma maneira sutil e esse pessoal conseguiu delimitar essa estrutura, definir essa estrutura na superfície, trabalho de primeiríssima qualidade. Depois fizemos sísmico e estava lá a estrutura belíssima e furamos um poço seco em outra estrutura mais ao sul chamado Sinbad e terminamos o mapeamento de Majnoon e trouxemos a sonda pra Majnoon. Outra sonda pra Majnoon que a sonda da Simbad deu bronca lá também, e nós trouxemos pra Majnoon, mas é um trabalho, foi um trabalho excepcional, toda a competência da Companhia, ali a gente via. Foi reconhecida por todo mundo, quer dizer, realmente nós, uma empresa muito competente nessa área de exploração, como em todas as outras áreas, mas eu falo de exploração porque é a que eu conheço mais, mas foi um trabalho excepcional, e foi uma, pusemos a sonda, perfuramos e começamos a fazer testes para obter óleo. Geralmente você queima o óleo e não podíamos queimar, porque a fronteira iraniana estava a alguns quilômetros e os iranianos de binóculos, acompanhavam as nossas operações. Quando você queima óleo representa que você descobriu petróleo, então nós não pudemos queimar, tivemos que abrir imensos diques, piscinões lá e botávamos óleo no piscinão, né, então foi uma descoberta, um campo até hoje intocado.

 

P/1 – Tá lá até?

 

R – Até hoje está lá.

 

P/1 – Fechado?

 

R – É, a descoberta foi tão grande que o governo iraquiano chegou pra nós e falou: “Olha, não estava nas expectativas, vocês descobriram um campo de tal forma gigantesca que pra nós”, eles foram muito honestos e transparentes quando disseram “pra nós é politicamente impossível que a gente permita que uma riqueza dessa fique nas mãos de uma Companhia estrangeira, ainda que uma Companhia estatal, ainda de uma país amigo nosso que é o Brasil, nós vamos ter que dar um jeito nisso”. Aí fez uma negociação que a empresa foi ressarcida e o Brasil também, que abrisse mercado, inclusive foi a Mendes Junior pra lá pra construir estradas, a Volkswagen importou os Passats iraquianos que até hoje rodam no Rio de Janeiro que na época fez mais do que podia exportar. A Sadia também acho que, naquela época, começou, então houve abertura pros países árabes, pros produtos brasileiros, então foi muito positiva a nossa ida.

 

P/1 – Gostaria que o senhor contasse alguma história de lá desse país tão diferente.

 

R – É, tem várias histórias, quer dizer, é, uma vez minha mulher e outras, né, deixa eu ver se me lembro. O Iraque era um país leigo, as mulheres no Iraque não tinham, não havia nenhuma diferença, o governo impunha inclusive, por exemplo, que nas repartições públicas metade tinha que ser de mulher. Nós fizemos a nossa, os iraquianos aplicavam, investiam muito em educação, e quando descobrimos fizemos um laboratório de geologia ao lado da Universidade de Bassora, que era do outro lado do rio. A gente tinha que atravessar e a gente via os alunos, a maioria dos alunos eram moças, então, quer dizer, não tinha nenhuma diferença, no clube lá as mulheres se banhavam de maiô de duas peças, na época não tinha biquíni mas maiô de duas peças, enfim, não tinha, era um país leigo; hoje até houve um grande retrocesso que então se restauraram as histórias antigas e do ponto de vista ocidental atrasadas, né, normas de postura feminina. Muito bem, mas de qualquer maneira as mulheres, as nossas mulheres então uma vez foram lá, duas ou três pegaram um táxi e foram ao centro; na volta, ao lado do rio, era uma avenida ao lado do Rio Tigres, e o motorista de táxi parou, o motorista de táxi parou e elas já ficaram preocupadas, e o cara disse alguma coisa lá e desceu o rio. E elas preocupadíssimas: “O que vamos fazer aqui, cara...”. Daqui a pouco veio o cara lá de baixo com uma bandeja com refresco, e elas nos contaram que ficaram apreensivas mas não, o cara foi fazer um favor pra elas, né, e tinha outras coisas. Uma vez estávamos conversando, as auxiliares domésticas lá das nossas mulheres elas não recebiam ordens, elas só podiam receber ordens do marido; não recebiam ordens das mulheres. Então simples, a gente dizia mais ou menos o que elas tinham que fazer na casa e elas faziam todo dia, mas qualquer coisa diferente que as nossas mulheres queriam que elas fizessem elas não podiam, tinha que telefonar pra Braspetro pra gente falar com as empregadas, e as mulheres ficavam [risos], elas só recebiam ordens dos homens e não das mulheres [risos]. Foi muito engraçado, muito bom lá. Inclusive, outro dia, eu estava contando, os meninos estavam na escola, tinha uma escola internacional lá e a gente fazia os aniversários deles e tudo mais, e tinha negros, tinha orientais, tinha malaios, tinha europeus, os eslavos, gente de olho azul e loiros, né, os noruegueses, mas a gente via que entre as crianças não há preconceito, isso tudo é feito pelos adultos, infelizmente.

Então era bonito a gente ver aquela criançada toda sem nenhum tipo de preconceito, sem nenhum tipo de diferenciação entre uma criança e outra, né? Os meninos também foram, os filhos também, teve uma experiência boa, enfim, tudo bom. E a Braspetro, quero falar mais da Petrobras, a Braspetro foi uma experiência, tem sido uma experiência, foi a, quer dizer, foi o berço dessa grande competência internacional que hoje a Petrobras atua nos outros países. Aquilo foi o início de uma convivência com culturas diferentes, com regimes políticos diferentes, com empregos diferentes, com visões de mundo diferentes, que hoje a área internacional aí opera da Companhia, de modo que foi novamente uma decisão também estratégica da Companhia de fundar uma empresa pra também atuar no exterior, e que deu certo, porque hoje a empresa é uma empresa integrada com essa parte do exterior também fazendo

 

(Troca de CD)

 

R – ... por parte de nossa competência.

 

P/1 – Em termos de geologia mesmo, explorar num país diferente também trouxe ganhos pra...

 

R – Ah, sim, também é muito interessante porque a geologia é universal, a geologia eu diria que é universal mesmo; é uma ciência que está em todas as partes do planeta. Então o conhecimento da evolução geológica do planeta é fundamental pro geólogo onde quer que ele trabalhe, ele pode trabalhar no Brasil, mas ele tem que ter o conhecimento de como a coisa funciona, né. Tá tudo interligado, a geologia é uma ciência, é puramente, não é puramente, é especialmente sistêmico. Então depois que novas teorias vieram esclarecer uma porção de coisas que a gente não sabia, quer dizer, tem um terremoto na China e duas semanas depois o Etna na Itália põe a fumarola dele, quer dizer, tá tudo interligado. A gente vê que o planeta é um planeta dinâmico, a geologia é uma ciência que engloba todo o planeta, então o conhecimento da geologia de outros países é fundamental pro exercício da profissão no Brasil.

 

P/1 – Foi um ganho de experiência então, né?

 

R – Excepcional, e tem sido, a atuação da área internacional, a troca de informações e de interpretações geológicas da área internacional e aqui a parte toda de exploração tem um ganho pra empresa, pra competitividade da empresa enorme, né?

 

P/1 – Bom, e o seu retorno ao Brasil, o senhor voltou pra que...

 

R – Voltei pra trabalhar nessa costa, nas bacias da costa leste brasileira.

 

P/1 – Mas ainda naquela mesma divisão que o senhor estava, de Vitória pra cima ou pegando a costa inteira?

 

R – A empresa passou por uma série de reestruturação, então se criou a diretoria de exploração separada da diretoria de perfuração e produção, e na diretoria de exploração tinha uma divisão que era Divisão de Interpretação de Bacias e nessa Divisão eu fazia parte da costa leste, então era o chefe do setor. Aí a empresa já com Campos, a Bacia de Campos já produzindo, já tendo essa grande perspectiva que a Bacia de Campos é uma coisa, é, especial, a Bacia de Campos a gente produz, é uma Bacia muito pequena que a gente produz muito, né; geograficamente pequena e a gente produz muito petróleo. Então as atividades de produção principalmente são atividades extremamente concentradas num pequeno espaço que é uma coisa difícil, é única no mundo, a Bacia de Campos é única no mundo em termos de atividades de logística e de transporte de pessoal e de produção de petróleo em relação à sua relativamente pequena dimensão. Aí vem e fui pro Cenpes [Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello], fui ser chefe do setor de geoquímica do Cenpes. O relatório que nós fizemos de uma definição das rochas, da equipe, foi uma equipe grande que eu coordenei, uma definição das rochas geradoras, que a gente tinha dúvida, naquelas rochas que geravam petróleo, então fizemos e se achou por bem que eu seria, era com base em estudo geoquímico e que a empresa, era uma geração que a empresa não perguntava pra onde a gente queria ir, isso era coisa secundária, então quer dizer, “Você vai pra tal lugar”, e assim fui designado pra chefe de setor de geoquímica do Cenpes, do Centro de Pesquisa e ali no centro de pesquisa então fiz, fui chefe de setor, chefe de divisão, supervisor adjunto e geral.

 

P/1 – Aí teve a Divisão de Exploração e aí foi...

 

R – Aí teve lá uma escadinha de ascensão gerencial, né, eu era chefe de setor aqui, fui ser chefe de setor lá, né, se aplicou em todas as bacias sedimentares os conceitos, as metodologias e as técnicas desse relatório que nós fizemos da Bacia do Espírito Santo, que teve como autor principal um geólogo da Chevron que nos deu uma consultoria e uma pessoa que, marcante mesmo na história da exploração, ele é sempre reconhecido pras coisas.

 

P/1 – O senhor poderia explicar um pouquinho melhor?

 

R – Não, a gente tinha dúvida qual era a rocha que gerava petróleo, né, a gente descobria o petróleo, mas não sabia de onde vinha, aliás, as informações diziam que ele vinha de um lugar, de uma tal rocha, de uma determinada rocha. Essa coisa era meio complicada; havia perguntas e questões em relação a esse processo que aquela solução não respondia, mas era uma solução. Muito bem, e a gente na Bacia do Espírito Santo, eu era o geólogo e o ____________ era geofísico, o Joaquim também era geofísico, o Araripe também era o outro geólogo, a gente alocando e perfurando poços secos, então um monte de poços secos, não achava óleo, e começamos a ver de onde é que vem, onde é que está, e esse geólogo é um geólogo francês, acho que vivo ainda, trabalhou na Chevron de São Francisco e esse cara publicou um artigo no boletim da Associação Americana de Geólogos de Petróleo. Eu li esse artigo e até traduzi esse artigo e esse cara dava umas dicas sobre deposição de rochas geradoras; eu pensei: “Pô, esse cara talvez possa ajudar a gente aqui”, e foi assim, aí então entrei em contato com ele e tudo mais e o cara veio, a Chevron liberou ele, o cara veio ao Brasil e já nas primeiras análises de mapa ele já disse: “Olha, vocês estão enganados, porque não vem dali não, deve ser outra coisa”. E assim foi, ele, nós recolhemos amostras, levamos pros Estados Unidos em um laboratório que ele mesmo tinha montado, na Chevron ele não era reconhecido; ele mesmo tinha montado e daí surgiu a definição da rocha geradora, toda essa faixa litorânea brasileira cientificamente, com precisão científica, e foi muito interessante, porque esse homem nunca cobrou nada, esse homem, quer dizer, ele transmitiu um conhecimento, uma competência que ele tinha. A Chevron liberava porque ninguém dava bola pra ele na Chevron, interessante, e ele só exigia que só viajava com a mulher dele, e de primeira classe, né, então aquilo na Petrobras era: “Como é que a gente vai conseguir primeira classe?”. Mas afinal conseguimos e ele veio duas ou três vezes aqui e deu essa gigantesca contribuição, e nunca cobrou, nem nunca falou em dinheiro, interessante, nunca esse homem falou em dinheiro. Ele fazia o trabalho dele e nunca pediu mais nada. Uma vez uma coisa interessante que ele chegou, antes de vir na primeira vez ele viu os melhores hotéis do Rio de Janeiro e tinha aquele Caesar Park ali na frente de Ipanema, então ele pediu o Caesar Park, era o melhor, é um dos melhores hotéis do Rio de Janeiro e levamos o homem pra lá, fui buscá-lo no Galeão, aquela coisa toda, paparicar o cara, né. E ele era meio arrogante, no início a primeira impressão era que o cara era um sujeito arrogante; depois não, muito bem, instalamos ele a mulher lá, ele era francês e a mulher americana, ele e a mulher lá no Caesar Park. Tá bom,  voltei pra casa e depois quando era dez horas da noite, eu deixei meu telefone, voltei pra cá na Ilha do Governador. Eu tinha uma Brasília [risos]. E ele no telefone disse: “Olha, muito barulho aqui, eu quero mudar de hotel.” “Mas são dez horas da noite.” “Não interessa, eu quero mudar de hotel porque minha mulher não tá conseguindo dormir”. Tá bom, então saio eu de Brasília, com minha Brasília da Ilha do risos], e o homem era todo sofisticado viajando de primeira classe, mas eu levei ele de Brasília pro Méridien e ele ficou lá no Meridien lá. Mas depois ele, aquela postura meio arrogante que ele tinha, mas depois a gente viu que aquilo não tinha nada de consistência, era uma pessoa extremamente, tanto que não falava em dinheiro, o sujeito era um geólogo absolutamente aberto, é interessante. Foi isso. Aí foi uma coisa importante que me levou pro Cenpes, isso foi que me levou pro Cenpes e eu fiz carreira gerencial lá. É uma escola, né, o Centro de Pesquisa da Petrobras é uma, o Ministro Aureliano Chaves que era Ministro da Energia tinha uma frase assim, porque houve um problema lá sobre qualidade de combustível, uma coisa dessa e o Cenpes tinha uma análise, tinha um opinião e uma outra instituição aí tinha outra, isso levaram pro Aureliano Chaves, então ele: “Se o Cenpes diz essa é a opinião correta”. E isso aí ficou, né, o Cenpes é um órgão excepcional da Companhia. Uma coisa, eu sempre digo: a Petrobras não é uma empresa de tecnologia, a Petrobras é uma empresa de exploração, de perfuração, de produção, transporte e refino de petróleo. A tecnologia é uma ferramenta fundamental pra gente conseguir os nossos objetivos empresarias, né, então o Cenpes ele dá esse suporte tecnológico no sistema tecnológico, o Cenpes é o principal órgão de tecnologia da Petrobras, então essa visão da integração do Cenpes com um órgão operacional, conosco aqui, é fundamental pra que a gente consiga, tenha conseguido o sucesso que a gente conseguiu. O Cenpes tem essa função e desempenha com brilhantismo, é um órgão reconhecido internacionalmente, é uma vitrine da Companhia. A atual administração está construindo um segundo bloco, a segunda área do Cenpes em frente, enfim, é uma experiência também espetacular, o que demonstra também a visão estratégica sempre da empresa. A Petrobras tem a característica de investimento nas pessoas, no treinamento e na competência de todo mundo, essa é a característica da Companhia que dá essa força da Companhia, somos efetivamente uma Companhia de petróleo extremamente competente e competitiva, né?

 

P/1 – O senhor pega o Cenpes num período também de muita ebulição, né, de muito crescimento, com o Procap, com o primeiro plano estratégico.

 

R – Isso, aí descobre-se os campos, Marlim...

 

P/1 – Os grandões.

 

R – Os grandões em águas profundas e não tem tecnologia de produção, né, e assume a superintendência do Cenpes o Paulo Silveira, esse homem, até ontem eu vim de São Paulo com ele. Esse cara é também um cara visionário, né, foi o Silveira que introduziu na Petrobras o conceito de qualidade total no modelo japonês que é um modelo que, interessante que com essa onda neoliberal que o mundo submergiu a qualidade total foi, a gente quase não ouve mais, mas uma coisa até hoje está presente nela, e o Silveira nos serviços de materiais introduziu a qualidade total ou no Serviço de Planejamento, eu acho, e depois ele foi superintendente do Cenpes. Então criou o Procap, que é um programa sistêmico, de capacitação tecnológica para atender justamente as necessidades de fornecimento de equipamentos e processos de produção em águas muito profundas, que não estavam disponíveis pras empresas fornecedoras, então esse Procap não foi fácil a constituição do Procap, houve muita resistência, mas a diretoria da Companhia apoiou a idéia do Silveira, como sempre, e constituiu o Procap, que foi um sucesso absoluto. Então eu peguei, na verdade, esse período do Cenpes que depois se espalhou pra toda a Companhia o termo de qualidade total, revisão sistêmica, tudo aquela abordagem do todo ao invés da abordagem alopática, dos alopatas e cartesianos, daquelas coisas pequenininhas e pontuais. Isso surgiu no Cenpes. Então o consultor e até pessoas da universidade brasileira, essa onda dessa nova abordagem do processo todo, né, a gente era tudo partidozinho, então foi importantíssimo essa minha passagem pro meu aprendizado, no Cenpes e dentro dessa onda, vamos dizer assim, desse movimento de uma nova visão, uma nova abordagem do processo produtivo da Petrobras.

 

P/1 – No Cenpes também, o que mudou desde a sua entrada, o senhor passou a acompanhar também a parte de pesquisa?

 

R – Não, olha, é o seguinte: a empresa tem uma dinâmica própria, sabe, a gente influencia, cada um de nós influencia na história da Companhia, né, mas ela tem, eu diria sempre que o melhor gerente, eu era superintendente do Cenpes, eu dizia o seguinte “Olha, o melhor superintendente do Cenpes é quando ele não tá presente ninguém sente a falta dele, esse é o melhor superintendente” [risos], e hoje eu já tenho, hoje como Diretor eu já tenho uma opinião diversa dessa. Eu digo o seguinte: "O melhor gerente é aquele que quando sai as coisas melhoram, essa é a função do gerente, é preparar os seus, o seu quadro, né, muito melhor do que ele mesmo”. Essa é a principal função do gerente: tem que ter a consciência de que quando ele sair daquele cargo a empresa vai melhorar, e aí eu falo isso pros meus filhos e meus filhos. Mas, é claro, se a cada diretor que saísse a Petrobras piorasse já tinha acabado [risos], e é isso mesmo, então essa é a principal função do gerente. O gerente tem que trabalhar pra que quando ela saia as coisas melhorem, essa é a coisa principal. E outro dia até aconteceu o encontro lá com a Ministra, ela elogiou muito o Carminatti, que é o gerente executivo de exploração, elogiou e ela brincando comigo disse: “Olha, o Carminatti é melhor que  você”. É claro que é melhor do que eu, eu não ia escolher como gerente executivo um cara que fosse pior do que eu, tem que escolher um cara que é melhor do que eu” [risos]. Ele é muito melhor do que eu, então essa é a função do gerente, quando sai as coisas melhoram. Antigamente era quando sai ninguém nota pela falta mas não é não, quando sai as coisas, as pessoas tem que ser melhores do que nós pra sair com a consciência tranquila que a Companhia vai melhorar. Mas então lá no Cenpes era isso, a Petrobras dá apoio às pessoas, permitir alguma experiência que se tenha, mas apoiar que eles, escolher os melhores, reconhecer os talentos, desenvolver a cultura da Companhia, o nacionalismo, isso é importante. Então é isso que eu tenho feito, né, porque a Petrobras, a seleção brasileira quando ganhou a primeira Copa do Mundo em 1958 na Suécia, notaram lá que o Feola, que era o técnico, ele dormia durante os jogos, ele dormia, técnico do Palmeiras, né, e daí foram perguntar pro Feola: “Não dá, você não ia à Copa e tudo mais e você dorme durante os jogos, qual é a instrução que você dá?” e o Feola disse: “Eu só dou uma instrução: ganhe o jogo”. É a mesma coisa que eu faço aqui com o pessoal, só dou essa instrução: “Ganhe o jogo” [risos]. Agora tem que escolher os bons, tem que escolher os melhores pra que eles saibam ganhar o jogo, então colocar perna-de-pau aí não vai dar certo. Então é isso que eu faço, eu só digo: “Ganhem o jogo”. Eu não faço mais do que isso, senão eu atrapalho.

 

P/1 – Nessa época também da sua superintendência também estava havendo a abertura política, né, também, houve alguma mudança na Petrobras? O que mudou, como é que foi isso?

 

R – Ah, houve, houve, quer dizer, é, a turma de geólogos é uma turma diferente, o pessoal diz que os geólogos têm que discordar um do outro. Quando dois geólogos discordam há uma leve possibilidade de um deles estar certo, agora quando eles concordam certamente os dois estão errados [risos]. Então geólogo é uma turma difícil de lidar, a gente é obrigado a, a nossa profissão é a profissão das incertezas, então a gente lida com as incertezas, então isso se reflete em toda a estrutura intelectual do cara, nada é certo e nada é errado, é tudo ali, todo conceito tem que ser sempre discutido, e isso é levado também pra parte política, pra parte ideológica, então há sempre um cadinho de discussões e de conflitos, somos uma classe muito conflituosa entre nós mesmo, porque a discórdia faz parte da nossa, teve um consultor italiano, que a primeira vez que ele veio aqui ele disse: “Pô, mas vem cá”. O grupo que ele trabalhou não discordava, ele disse: “Geólogo tem que discordar, geólogo não pode concordar com outro”. Ele deu aquela, né, tudo bem e nós, na verdade com a ditadura, a gente, não é só a geologia não, os profissionais faziam política nas suas associações de classe, não eram os sindicatos, porque até os sindicatos eram amordaçados. Nas Associações científicas que aí tinha aquele véu da ciência, vamos fazer ciência nada, a gente discutia política e as eleições inclusive eram ideológicas dentro de uma associação, né. Então a gente fazia isso fora da Petrobras, com a abertura política, aquela transição da história brasileira, a gente nunca faz as coisas abruptas. Brasileiro tem esse negócio de tudo suave, tranquilo [risos]. Então nós tivemos a oportunidade de discutir mais o Brasil internamente, isso é importante, a nossa atuação é de tal forma importante pro Brasil que é necessário que a gente também discuta o Brasil aqui dentro, como hoje fazemos, então foi essa a grande diferença, a grande evolução. Porque a gente discutia mas não formalmente, não oficialmente, e passamos a discutir oficialmente, trazendo inclusive pra dentro da Companhia consultores que abriam as discussões políticas, trazendo a cidadania, o exercício da cidadania também pra dentro da Companhia, que eu acho também que é fundamental. Então essa fase vamos dizer de extensão que é o final da ditadura, pro primeiro governo que foi do Tancredo que faleceu e aquela coisa toda trouxe pra Petrobras essa distensão, inclusive em relação aos dirigentes sindicais, em relação aos dirigentes das associações profissionais, que tinham na Petrobras aqui dentro sempre uma restrição na sua atuação. Então houve uma abertura, então foi uma coisa muito positiva, a chamada Nova República, que naquela época se chamou de Nova República até a consolidação democrática durante o Governo Sarney. O primeiro período foi chamado de Nova República, foi muito importante sentirmos mesmo no dia a dia da Companhia.

 

P/1 – Desse período do Cenpes o que foi um momento marcante pro senhor, teve a superintendência de pesquisa, a superintendência geral?

 

 R – Olha, o momento marcante que eu posso dizer foi o recebimento, quer dizer, da escolha da Petrobras pro primeiro prêmio da OTC, foi um momento muito marcante. Foi em 1992 e aquele foi porque foi o primeiro reconhecimento formal e institucional da competência da Petrobras, da Companhia em termos internacionais, né, aquilo foi uma coisa que não foi do Cenpes, é claro, foi de todo o conjunto de exploração e produção da Companhia. E aquilo levou a Companhia a um patamar diferenciado entre as outras Companhias estatais do mesmo top ao qual a empresa pertencia desse grupo, então aquilo foi um momento marcante, da parte da Companhia como um todo e do Cenpes. Porque por uma questão também que eu até estive envolvido também, é, um acidente, que quem ia representar o prêmio pela Petrobras era o Presidente Ernesto Weber, mas ele na véspera foi substituído pelo Benedito Moreira, ambos grandes presidentes da Companhia. Benedito também um grande presidente, e não deu pra nenhum deles ir à Houston receber. E eu estava em Houston e me designaram, a diretoria me designou pra receber o prêmio. Então ali o Cenpes, quer dizer, estava presente naquele recebimento do prêmio, então isso foi para o Cenpes, isso foi uma coisa importante. Então acho que foi um fato, assim, relevante naquele período que eu estive lá, e que não se deve ao Cenpes, porque o Cenpes faz parte do sistema tecnológico como eu falei, é o principal órgão de tecnologia, então o OTC é um prêmio da Petrobras.

 

P/1 – Foi o primeiro grande prêmio, assim, importante da Petrobras?

 

R – Na área de exploração e produção foi, depois ganhamos novamente em 2001 se não me engano, mas na área de exploração e produção foi um fato que eu acho que o Cenpes sempre se sentiu partícipe de um evento, de um acontecimento importante pra Companhia, porque ele trouxe sempre também quer dizer, na esteira disso trouxe o Cenpes pra assumir uma função de maior importância pra Companhia.

 

P/1 – Dessas, eu queria também só ver se a gente podia recuperar um pouquinho, dessas grandes descobertas gigantes, né, de Roncador e Marlim também, como é que pra exploração o que isso mudava na saída também mais pro fundo isso muda? Como é que?

 

R – Na verdade, quer dizer, a descoberta dos grandes campos em águas profundas, pras empresas de petróleo a área de E&P é uma área radical, em termo de raiz, né, da indústria petrolífera, quer dizer, não existe grande empresa de petróleo sem que tenha uma área de produção e exploração também forte, então as outras áreas, claro, refino, tem a mesma importância, mas tudo nasce lá, tudo nasce na exploração. Outro dia, até levamos um geólogo pra ir à China ver o navio que estava sendo construído lá, quer dizer, o negócio dele ali, da cabeça dele é ter o navio construído na China, por ter um navio construído aqui também no Brasil com milhares de trabalhadores. Isso surgiu da cabeça do cara, e ele, a semente está ali, então, é, essa área de exploração, até perdi, fui contar...

 

P/1 – Dos grandes campos, poços grandes pra exploração.

 

R – Exatamente, então a nossa área vive de abertura de novas fronteiras e quando você descobre, quer dizer, quando eu acho o caminho das pedras como a gente fala, descobriu aquele modelo de sistema petrolífero que deu certo numa perfuração que a gente descobriu, ali imediatamente o pessoal da geologia monta aquilo tudo e descobre e define situações análogas e semelhantes. Aí é uma série de descobertas, mas isso acaba, isso são fases, então teve a fase terrestre, por exemplo, das bacias terrestres, depois teve a fase da parte marinha que no início quebramos a cara porque descobrimos Guaricema e não mais descobrimos nada, quer dizer, aquele modelo que montamos pro Guaricema estava errado. Começamos a furar poço seco, descobrimos uma ou outra coisa, mas muito pequeno, até que descobrimos a Bacia de Campos na água rasa, montamos um modelo, os geólogos montaram um modelo e ó, aí teve aquela fieira de descoberta na Bacia de Campos, mas aquilo acabava, enfim, a gente trabalha sempre com fronteiras, a gente tem que abrir novas fronteiras, e as águas profundas foram, sucederam as águas rasas na Bacia de Campos, quer dizer, se descobriu aquele negócio e “Olha, vamos ver o que tem mais adiante”. Então a sísmica foi mais adiante e aí se descobriram os grandes campos – Marlim, Roncador, quer dizer, isso é um processo contínuo e entra o pré-sal agora. O pré-sal é, as coisas, quer dizer, se encaixam perfeitamente no processo, quer dizer, o pré-sal é a nova fronteira, se nós não tivéssemos descoberto o pré-sal, se o pré-sal não tivesse ali pra ser descoberto e tudo mais nós estaríamos com um problema já pra daqui a dez anos, quinze anos. Nós estávamos com um problema porque os campos declinam, esse é o grande desafio da área de exploração, é ali o dia inteiro procurando coisa nova, que a coisa na hora que você acha você mata uma charada e aquela coisa está resolvida, mas dura dez anos, só dez anos, os campos entram em declínio. esse é o negócio da área de E&P, é a briga contra o declínio da produção, a manutenção da produção, com o crescimento da produção, isso é um dia a dia absolutamente ao mesmo tempo estressante mas desafiador, então o pessoal é muito entusiasmado. Então quando a gente descobre uma coisa nova, que se abre uma nova perspectiva aí, agora é o pré-sal aí, o pessoal tá trabalhando aí 14 horas por dia, né, então aí eu viajo, essa coisa toda, e quando volto tá tudo feito, o pessoal avançou mais. É isso o que eu digo pra eles: “Vão fazendo, né?”.

 

P/1 – Houve algum fator determinante...

 

R – Só pra terminar, então quer dizer, as descobertas em águas profundas fazem parte desse consenso de abertura de novas fronteiras. Hoje, por exemplo, nós temos uma costa equatorial brasileira, na década de 70 nós tínhamos o (PAS 11?), descobrimos um óleo de excelente qualidade, tá na minha sala ali, excelente. Produziu durante seis meses, mas até hoje a gente não descobriu, não definiu qual o sistema petrolífero, um baita de um desafio geológico, né, voltamos, vamos voltar o ano que vem a perfurar novamente alguns blocos que adquirimos lá no Barreirinhas no Maranhão, mas é um baita desafio, entre o Ceará e o Amapá é uma área que não tem produção, e o petróleo tá ali, e o PAS 11 ali que nós descobrimos não conseguimos destrinchar no sistema petrolífero, assim como Guaricema também é difícil, Piranema que descobrimos também é difícil. Os geólogos, é um negócio muito complicado, mas muito complicado mesmo. Então vivemos de fronteira, é o desafio da abertura de novas fronteiras que a nossa, que é a base do nosso entusiasmo e quando descobre o pré-sal aí é esse momento absolutamente excepcional que a gente tá vivendo hoje, né, de entusiasmo.

 

P/1 – Eu quero até chegar lá, só queria, só pra não também pular a sua trajetória tentar recuperar, não sei se o senhor se incomodaria da gente comentar como foi também sua saída do Cenpes?

 

R – Não, a saída do Cenpes foi o seguinte: o exercício da gerência em qualquer parte, ela tem alguma coisa de representatividade, quer dizer, você, o gerente, não é isolado, trabalha com sua equipe e ele não, ele de certa forma ele representa todo aquele grupo de pessoas que ele tá naquele momento gerenciando, e houve um episódio que a gente tinha no Cenpes uma escolha, antigamente era grupo quatro, era uma promoção de topo de carreira mesmo, e a gente tinha todo um sistema que demorávamos pra ser o mais justo possível na avaliação das pessoas que tinha gente, era geólogo competindo com engenheiro de processo de refinaria. O Cenpes tem isso, o Cenpes tem toda a Petrobras ali, porque nas áreas isoladas é mais fácil você: “Não, esse geólogo merece mais que o outro geólogo”. É mais fácil você dizer porque você tem mais ou menos o mesmo parâmetro, agora quando você compara o geólogo com um engenheiro de processamento na refinaria não é uma coisa fácil, tem que levar em consideração uma série de outras, é, dimensões no desempenho da profissão do cara pra você dizer: “Não, esse engenheiro de processo merece ser promovido no lugar desse geólogo”, né. Uma coisa complicada, então nós tínhamos todo um, montamos um processo de escolha das pessoas e tudo mais, muito bem, e no topo da lista saiu o Diomedes Cesário, que é um engenheiro brilhante, o cara dedicado à empresa, brilhante, competente, aquela coisa, uma unanimidade, né, mas ele era presidente da Associação de Engenheiros de Petróleo, da AEPET [Associação Dos Engenheiros Da Petrobras], e a diretoria, num retrocesso gigantesco para os idos da ditadura militar, a diretoria negou a promoção ao Diomedes, porque ele era chefe, ele era presidente da associação, e isso é uma coisa absurdamente absurda, não podia ficar essa coisa, não podia passar assim, sem. E eu como superintendente do Cenpes que fui, formalmente encaminhei a lista que tinha a minha assinatura, e era o primeiro dos dois ou quatro que iam ser promovidos né, e tinha minha assinatura, quer dizer, a hora que a diretoria disse que o profissional que eu indiquei como primeiro e mais, quer dizer, mais capaz a diretoria diz que não vai promover esse cara e quando eu pergunto diz que era porque era o Presidente da AEPET, pô, aí não dá, né, a gente tem que ter sangue de barata, e eu prejudicaria o Cenpes se eu não tivesse pedido demissão do cargo. O Cenpes ficaria diminuído em relação a uma atitude absolutamente absurda,  autoritária e retrógrada. Retornamos à ditadura militar quando um profissional que exercesse um cargo de direção de Associação profissional não era promovido na Companhia. Aquilo foi um absurdo, então não teve jeito, né, eu representando o Cenpes disse: “Não, vocês têm que escolher outro superintendente, porque comigo eu não posso conviver com esse tipo de postura, uma coisa absolutamente repugnante, né?”. Eu me senti, o Cenpes se sentiu atingido e alguma coisa tinha que ser feita, então eu saí.

 

P/1 – Mas foi apoiado por todo o Cenpes também, né, teve o apoio?

 

R – É, eu acho que é uma coisa de tal forma absurda, né, que é indescritível, como é que a gente pode misturar as coisas? O homem é um cara merecedor da promoção e essa coisa toda, então o Cenpes como Instituição se sentiu, quer dizer, ele protestou, o Cenpes protestou através do seu superintendente que tem a representatividade, eu representava o Cenpes, então não podia, esse foi a representação de protesto, de indignação do Cenpes diante uma decisão absolutamente repugnante [risos], como pode na cabeça da pessoa, um profissional de primeiríssima, né?

 

P/1 – É, essa história é triste.

 

R – É, mas faz parte, isso aí faz parte, é o que eu digo pros meus filhos: “A sociedade não tá formada, a sociedade, principalmente a sociedade brasileira, nós estamos em formação, nós temos que construir a sociedade, é um país em formação”. Então essas coisas nós estamos num processo, isso é bom, isso não aconteceria na Holanda, por exemplo, nem na Dinamarca [risos], que é tudo aquela paz ali, pelo menos aparente, né? Não aconteceria, então acontece no Brasil, isso aqui faz o Brasil um país legal da gente viver nele.

 

P/1 – Aí o senhor quando saiu...

 

R – É, aí foi uma coisa que a Petrobras tem essa coisa, a Petrobras manda na nossa vida, né, então aquele que em algum momento diz: “Olha, você não manda em mim”, ah, esse cara é um cara maldito [risos], e foi assim que foi. o superintendente, já se falava que os superintendentes caíam pra cima, o cara saía de superintendente mas pegava um lugar em Londres, pegava um lugar em Houston, ia pra Braspetro ser gerente geral no escritório de Paris, essa coisa toda, a gente dizia que caia pra cima, né, e eu, mas eu pedi demissão e a Petrobras disse: “Como é que você ousa pedir demissão de um cargo de superintendente quando você foi designado pra ser superintendente e tinha que ser superintendente, aguentar ser superintendente do Cenpes em qualquer situação, até eu Petrobras dizer “Você sai daí porque é mais superintendente”. Essa é a cultura da Companhia, né, essa é a nossa verdade, mas eu não superei esse negócio, achei que tinha um limite e pedi pra sair, muito bem. Quando eu saí então vim ser geólogo, era o Lucchesi o superintendente do Depex, me apresentei pro Lucchesi: “Eu tenho um diploma lá em casa que tá enrolado, que eu pendurei na parede que diz que eu sou geólogo”, e assim foi, eu vim pra ser geólogo do Depex, e o Depex tinha uma sala que o pessoal botava, chamava barbearia, porque o pessoal sentava ali [risos] e o Lucchesi e outro superintendente encostando os caras. E eu entrei na barbearia ali, tentando fazer alguma coisa, mas aí pedi a aposentadoria, vi que não dava mais e pedi a aposentadoria e acabei me aposentando. E aconteceu até um fato interessante, porque o Lucchesi só tinha um problema no Paraná e eu já estava com o processo de aposentadoria em curso, aí o Lucchesi falou: “Vá ao Paraná, vá à Curitiba ver o que a gurizada tá fazendo”.  Eu fui ao Paraná, neste ínterim saiu a minha aposentadoria,mas saiu retroativo, quer dizer, isso foi no final de março e saiu a partir do dia primeiro de março, e eu tive que pagar a minha viagem à Curitiba, a minha estadia em Curitiba [risos]. Daí eu tive que pagar porque eu já estava aposentado. Eu paguei, naquela época a gente tinha o sopão que dizia, né, dava um incentivo à aposentadoria e foi descontado no meu sopão [risos]. E eu viajei e eu fui pra um hotel lá que é o Hotel Bourbon, que é um hotel de pessoa jurídica, não é hotel de pessoa física, pessoa física precisa ter muita grana e eu tive que pagar a hospedagem no Hotel Bourbon [risos]. Mas enfim, isso faz parte da história, mas aí me aposentei.

 

P/1 – Mas levou uma vida de aposentado, foi trabalhar ou?

 

R – Ah, ótimo, não, fiquei, fui pra casa. Se tem uma coisa que eu sei fazer bem da vida é fazer aquilo que eu gosto e quero, aí eu faço bem, né?

 

P/1 – O que o senhor gosta de fazer?

 

R – Ah, eu gosto de fazer tudo, eu sou curioso, fui estudar botânica, fiz um curso de catador de sementes, é uma coisa fantástica, sabe que existe uma profissão de catador de sementes?

 

P/1 – Eu conheço um da Amazônia.

 

R – Não, aqui no Estado do Rio de Janeiro, na nossa mata atlântica, é o especialista, ele cata as sementes pra formar os hortos, os hortos florestais do Estado, né, eu até fiz um curso de catador [risos]. Agora eu não subi na árvore, não deu pra subir [risos], mas eu gosto muito, a vida pra mim não vale ser monótona não, né, então fui até, engraçado que a gente fazia um curso, não é um curso, um dia a gente tinha uma assistente social, um psicólogo dizendo como é que a gente tinha que enfrentar a aposentadoria, então a mulher lá que nos deu a aula nos disse o seguinte: “Olha”, porque ela tinha recolhido informações das mulheres dos aposentados, né, então formavam, então dizia o seguinte: “Olha, aposentado primeiro tem que acordar cedo todo dia; segundo, fazer a barba, porque o cara acorda tarde e não faz a barba e já começa a complicar dentro de casa;  terceiro, tirar o pijama, porque o cara acordava tarde, não fazia a barba e nem tirava o pijama, né, e quarto e último, não comprem aquele Coquetel de palavras cruzadas porque o cara [risos] acordava às 11 horas, não fazia a barba, não tirava o pijama e sentava numa mesa e fazia o dia inteiro caça-palavras [risos], e as mulheres então ficavam uma fera, então não fazendo isso vocês vão enfrentar a vida de aposentado. E teve até um episódio que se conta, nós tínhamos um geólogo, um geofísico que queria se aposentar, ele queria se aposentar e o diretor, o Carlos Walter, e dizia: “Carlos Walter, quero me aposentar”. Mas tinha o negócio que pra se aposentar o sopão tinha que ser aprovado pela diretoria, os primeiros sopão, e ele falou: “Não cara, mas você é um cara moço, não vai não”. Mas o cara: “Não, quero me aposentar” e tal, e o Carlos falou: “Tá bom, então vou botar na diretoria, se prepare”. E o Carlos Walter botou, disse ele: “Ó, vou botar na diretoria, pode ficar em casa já, só vou botar na diretoria, já falei com outros diretores”. E o cara ficou em casa, então ele disse que o cara em casa primeiro chegou, aquele hábito de acordar cedo acordou cedo, mas a mulher dele trabalhava e a filha também estudava, estudava cedo, então ele já de pijama ali no corredor, né, o pessoal disse “Bom, o que você tá fazendo aqui? Dorme mais um pouco” [risos], aí ele, a mulher e a filha saíram pra trabalhar e ele morava na Praça da Tijuca e viu lá e tinha uma mesa de buraco e bisca que os aposentados... e ele disse: “Bom, tenho que me juntar nessa turma, né?”. E se vestiu, botou o chinelão, a bermuda, a camisa e foi lá, e chegou, e ele conhecia todo mundo que ele era morador ali. Aí disse que quando ele chegou assim perto o pessoal tava ali e um deles olhou  disse assim: “Ô fulano, não vai dizer que se aposentou, né?” e ele: “Ah não, é que hoje eu fiquei em casa” [risos]. Voltou pra casa e disse: “Não quero mais me aposentar, agora não.” [risos], mas o Carlos Walter conseguiu tirar o papel da diretoria, né, e ele desistiu de ser aposentado por causa disso. Mas não aconteceu comigo, fui pra casa cuidar de planta, cuidar dos meus livros, e passei bem, eu estava perfeitamente bem aposentado, quando eu fui chamado pra um outro convite pra ser diretor da Companhia, mas tava em casa.

 

P/1 – Como o senhor se sentiu com o convite quando veio esse convite?

 

R – É, ser diretor da Companhia é uma coisa, é uma honraria.

 

P/1 – Queria que o senhor dissesse também qual é a direção, só pra deixar gravado.

 

R – É de exploração e produção, né, da Companhia. Quer dizer, ser diretor da Companhia é uma honraria, e eu não vou fazer demagogia, mas a minha maior honra é de trabalhar com essas pessoas que estou trabalhando. Quer dizer, você vê que você trabalhou 40 anos numa empresa e essas pessoas você nota o mesmo sonho deles, o mesmo sonho que eu tive, o mesmo empenho que eu tive, essa coisa toda, quer dizer, tá neles, gente competente, quer dizer, é um honra realmente, uma honra pra mim ser diretor da Companhia. Mais do que isso, trabalhar com eles realmente é uma coisa espetacular e eu fui recebido com carinho até pela minha senioridade, né, eles me tratam com muito carinho, enfim, realmente, e a turma é muito boa, mas a turma é muito boa. É turma de elite mesmo mundial, eu pego meus gerentes executivos que gerenciam lá, é turma de elite mundial, é, e as equipes, né, você vai nas equipes entusiasmadas ao trabalho que é uma coisa espetacular, tem os nossos defeitos? Tem os nossos defeitos, muitos, mas eles são amplamente superados pela qualidade das pessoas. É uma coisa espetacular mesmo, eu digo que eu tenho filhos trabalhando em multinacionais e não vejo isso, quer dizer, eles não são, mas não, a Petrobras é muito boa, é uma coisa séria mesmo [risos] e as pessoas que vêm aqui, no Cenpes. Eu contratei um cara, tava havendo um problema lá e eu contratei um cara que veio de São Paulo pra ver a relação da empresa com seus empregados lá no Cenpes. O Cenpes é um órgão que tem certas características especiais, então contratei o cara, consultor, eu vi lá uma referência a ele numa conferência que ele tinha feito, aí com três dias ele pediu pra falar comigo, lá no Cenpes, ele disse: “Olha, tô entregando, não quero, desisto do contrato.” “Por que?”. “Porque a relação entre a Companhia e seus empregados no caso da Petrobras não está nos livros que eu estudei, isso é um negócio muito mais sério, profundo e geral, numa dimensão muito maior, eu não posso contribuir, eu não conheço isso então tô aqui rescindindo o contrato, vou estudar essa coisa e depois”. É isso, realmente essa ligação da Petrobras é um coletivo, não é uma coisa individual, é um coletivo, então isso, e essa foi a minha grande satisfação, eu tenho uma honra enorme de trabalhar com as pessoas, né? Agora, tem uns, já praticamente considero que cheguei ao meu limite mesmo, e tenho que dar abertura pra essas pessoas, é um cargo de confiança do governo também então não posso, mas de qualquer forma essa foi a minha sensação, minha sensação é realmente, com os problemas que toda grande empresa tem, mas é uma satisfação muito grande, e o trabalho é deles, eu sou o Feólogo, né, eu só mando eles ganharem o jogo [risos].

 

P/1 – Muita coisa tinha mudado, o senhor estranhou?

 

R – Muita coisa, muita coisa tinha mudado.

 

P/1 – Como o que, por exemplo?

 

R – Não, é engraçado, boa pergunta essa. Eu acho que essa é uma coisa que efetivamente recuperamos, eu quando cheguei aqui, eu passei oito ou nove anos aposentado, mas nunca perdi o contato não, sempre no Cenpes com aquela minha turma do Cenpes e tudo mais. Então quando eu cheguei aqui eu não encontrei uma empresa de petróleo, eu encontrei uma instituição de investimento financeiro no setor petrolífero, isso é completamente diferente de uma empresa de petróleo, a empresa de petróleo, principalmente a área de exploração e produção, tem que correr risco, né. Essa é uma característica nossa, por isso que os banqueiros não são petroleiros, porque o banqueiro empresta e ele não corre risco, nós temos que correr riscos, então, e as equipes sabem disso: o arriscar na perfuração, na exploração, na compra de um bloco exploratório, essa conta toda faz parte do nosso dia a dia e é a base da nossa atuação. E a hora que você for levar isso ao extremo de saber se é melhor você aplicar aqui ou numa aplicação financeira que aliás hoje está mais que desmoralizada, né, mas naquela época era melhor você aplicar numa aplicação financeira do que furar um poço de petróleo com alto risco e um alto investimento que você tinha na área de exploração e produção, então essa foi uma coisa que eu estranhei quando eu cheguei aqui, a própria área de exploração e produção, embaixo do diretor, subordinado a ele diretamente, não tinha nem a exploração e nem a produção, não tinha, nenhum cara da produção e nem um cara da exploração.

 

P/1 – Como é que tinha ficado, pode explicar um pouquinho melhor?

 

 R – Ah, era uma coisa, era um corporativo, era a gerência corporativa, tinha embaixo dela a exploração e produção, como é que um diretor de exploração e produção não tem o contato direto com o responsável pela exploração e o responsável pela produção? É uma coisa que eu estranhei porque tudo, exploração e produção, era considerado serviço pra gerar renda e recursos pra instituição. Era uma visão diferente, né, eu não vou dizer nem errada, mas na minha experiência de indústria petrolífera era uma visão diferente, era uma visão mais financeira, mais de aplicação financeira do que enfrentar riscos de exploração, furar poço, porque a gente tem que furar poço pra descobrir petróleo, né, então isso...

 

P/1 – Foi remanejado.

 

R – Aí foi, preparamos uma reestruturação da área de exploração e produção e hoje eu tenho um engenheiro de produção chefe, que é uma mulher brilhantíssima, competentíssima, que é a Solange, e tem um geólogo chefe, essa é a tradição da empresa petrolífera ter um engenheiro de produção chefe e ter um geólogo chefe, né, ter os dois, ambos brilhantes e fazem, quando eu não estou, fazem melhor do que quando eu estou [risos].

 

P/1 – É a Solange e o...?

 

R – A Solange e o Carminatti hoje, e tem os responsáveis pela exploração nas áreas do Nordeste e do Sudeste, que são pessoas também extremamente competentes, só pra citar o Figueiredo que é do Sul-Sudeste, que já implantou mais de uma dezena de unidades de produção, 43, 47, 48, 49, 50, 51, 52, 53, 54, e pra um, Peroá-Cangoá, e não passa um ano que o Figueiredo não implante uma ou duas unidades, grandes unidades de produção. Tem uma que tem a capacidade de trabalho gigantesca, uma competência mesmo, esse pessoal é, o Carminatti, que é um geólogo de mão cheia, um cara do Nordeste que foi nomeado este ano que criamos, o Formigli também que é excepcional que foi trazido pro pré-sal e trouxemos o cara da Bahia, um menino da Bahia, o Cristóvão, né, que é um menino também extremamente experiente, enfim, é esse pessoal que a minha grande satisfação é trabalhar com eles.

 

P/1 – Esses últimos anos ocorreram várias ações assim, bastante, emocionantes, né, pra vida do país e pra Petrobras, queria que o senhor também comentasse como foi também, é, toda a festa da autossuficiência, se estamos mesmo autossuficientes?

 

R – Isso, essa foi a grande, vamos dizer, a grande efeméride aí desses últimos anos, a autossuficiência era um sonho dos nossos fundadores, daqueles caras que se reuniram numa mesa ali e “Vamos fundar uma empresa de petróleo”, né, convenceram Getúlio Vargas a mandar aquela mensagem ao Congresso, e enfim, no bojo, também esqueci de dizer que nós não somos, não só aquele ato de ser uma empresa brasileira, com raízes brasileiras mesmo, mas foi produto de uma movimentação popular. Nós fomos, o povo brasileiro foi às ruas: “O petróleo é nosso”, aquela coisa que, aquilo deu, a Petrobras tem em suas raízes lá, a gente tem essa ligação mesmo com o povo brasileiro, mesmo com o país. Então, a autossuficiência tava ali, o pessoal plantou a semente da autossuficiência ali, sempre foi o sonho, e o atingimento da autossuficiência coroa não essa gestão não, eu sempre digo, a autossuficiência é produto daquela semente, e dali o pessoal regando, cuidando, né, ela ia ser atingida em algum dia e foi atingida nesse período. Não tem, ninguém é melhor hoje do que éramos há dez, há vinte, há trinta ou quarenta anos atrás, a autossuficiência estava ali, sempre foi o grande sonho nosso, né, e hoje a gente tá vendo que com o pré-sal, né, aí que também, quer dizer, o Brasil ele é um país que vai consumir petróleo, que vai consumir energia, não é bem o petróleo, nós sermos um grande país, já somos um grande país, um grande território, né. Mas pra gente levar as condições elevadas de nível de socioeconômico a todos os brasileiros nós vamos ter que ter uma condição de energia muito maior do que temos hoje, o nosso consumo de energia per capita ainda é muito pequeno, e o consumo de energia é um dos fatores de qualidade de vida, né, de nível de conforto e enfim, até a liberdade do cidadão, né, então a gente precisa, nós precisamos ter muito mais energia pra manter o crescimento brasileiro. Então o pré-sal vem, atingimos a autossuficiência, quer dizer, a gente não fica mais subordinado a muitas coisas externas pro nosso suprimento, mas o pré-sal vem adicionar aquilo que vai ser necessário pra manter o crescimento nacional, a energia vai dar ao governo possibilidade de fazer o planejamento energético nacional cinqüentenário que é importantíssimo, né, e ele veio aí se juntar nas outras fontes pra, enfim, pra que o país efetivamente se transforme em uma sociedade, evoluída sob o ponto de vista de nível de vida da população, e que a gente, nós temos gigantescos problemas ainda, né? Pela primeira vez na vida eu moro na zona sul do Rio de Janeiro, até pelo salário que eu chamo de principesco de diretor da Petrobras, mas é brincadeira, mas não é possível ser no Leblon que você não pode parar no sinal nove, dez horas da noite que você vê as nossas crianças fazendo, né, isso é uma coisa que tem que atingir a cidadania, não é possível nós convivermos com esse tipo de coisa, né, criança tinha que estar na escola, com seus pais, na sua família, né, ali tem criança de sete, oito, nove anos de idade, isso é uma coisa inaceitável, é inaceitável, faz mal. Como é que a gente pode usufruir de certas coisas na sociedade sabendo que parte da nossa sociedade vive nesse tipo de situação absolutamente desassistida, né, então aí a gente vê o tempo passar. Isso é uma coisa que faz muito mal, e a Petrobras, e até especialmente nesta gestão, nós temos grande preocupação com a responsabilidade social. Isso é uma coisa que a empresa tem muito mais hoje do que tinha antes de eu me aposentar, responsabilidade nas comunidades que a gente atua e tudo mais; é uma atividade absolutamente extraordinária da Companhia até hoje, mas enfim no que a gente puder contribuir pra que essas diferenças na sociedade brasileira sejam melhoradas é fundamental, porque a gente vive, é duro a gente ver isso, eu fico revoltado.

(Troca a fita e não retorna com o final da entrevista)

 

(Continuação Guilherme Estrella)

 

P/1 – Só pra gente também voltar também, a gente já tem tecnologia também pra produzir...

 

R – Temos, temos, o pessoal tá falando, a gente vê as pessoas que são de fora da companhia falando, temos tecnologia, não tem problema nenhum, tá tudo na mão, tá tudo na mão.

 

P/1 – O pré-sal também ele tem uma certa distância da costa significativa, maior que o normal, né?

 

R – É, vai ter, vai ser necessário uma nova abordagem sobre o ponto de vista da logística, naturalmente, mas não há nenhuma dificuldade, não há nenhuma dificuldade e nós temos todas as soluções de engenharia. São soluções conhecidas, tá entendendo, e não há nenhuma barreira tecnológica pra ser vencida, né, agora que nós estamos investindo grandemente em novos procedimentos, para que diminua o custo, então, mas não, mesmo no estágio atual é perfeitamente produzível, quer dizer, tem sustentado, econômica e financeiramente sustentável, não tem problema nenhum, agora a gente tem um trabalho constante de diminuição de custos, né, e aí a abertura de novos conhecimentos. O que eu diria é o seguinte: mais do que novas tecnologias que são necessárias é o conhecimento sobre a rocha, essa rocha é muito pouco conhecida, então nós estamos acumulando conhecimento, já completamos, já produzimos o primeiro posto lá no Espírito Santo, então vamos instalar um teste de longa duração em março do ano que vem no campo de Tupi e são os dados dessa rocha, da capacidade produtiva dessa rocha, dos processos de produção internos nessa rocha de petróleo e gás, que aí sim vai nos dar conhecimentos necessários pra enfim adotarmos modelos diferentes, mas não tecnologias diferentes, modelos diferentes, seja na parte de produção, seja na parte de logística. Mas não tem problema nenhum não, nós estamos mesmo com essa crise. Os programas estão todos confirmados, não vai ter problema nenhum de a gente colocar em produção já o piloto em dezembro de 2010 e daí pra frente segue a vida normal da instalação de nossas unidades.

 

P/1 – Com o piloto já tem produção, em 2010?

 

R – Dezembro de 2010 é a data do piloto, vai produzir cem mil barris por dia e dois e meio milhões de metros cúbicos de gás que vai pra Mexilhão e daí pra São Paulo, pra nossa rede de gás, né?

 

P/1 – O primeiro piloto é Tupi?

 

R – Tupi, o primeiro piloto é em Tupi que é o nome, ainda não é o nome do campo. Tá tudo certinho, não tem problema nenhum.

 

P/1 – Tá certo. Do nome de campo o senhor ajudou a dar alguns também?

 

R – Ah, sempre...

 

P/1 – Isso a gente não falou, passou e eu queria só também retomar...

 

R – É, são tantos os campos que nós descobrimos, né, que os nomes portugueses já foram esgotados, nós estamos dando os mesmos peixes, mas os nomes em Tupi-guarani, né, Robalo, Badejo, (Cocoroca?), essas coisas todas já foram usadas, então nós vamos aos dicionários e vemos “Robalo” como é que chama?”, “Ah, chama Jupirá.” então dá o nome de Jupirá. Então a gente tá dando o nome, né, Uruguá, Tambau, tem Pirapitanga, tem uma série de nomes, então vão ter que escolher um nome lá pra Tupi, tem gente que quer botar Lula, acho que merecedor, que é um organismo marinho, que não é só nome de peixe, tem peixes, crustáceos e moluscos, vamos dizer assim, e Lula é um molusco marinho [risos].

 

P/1 – Eu queria perguntar, já encaminhando então pra gente fechar, qual foi o maior desafio enquanto diretor mesmo? Enquanto diretor e enquanto sua trajetória inteira.

 

R – O nosso maior desafio foi, é, encarar a necessidade de abertura de uma nova fronteira, esse foi o maior desafio e a equipe de exploração e perfuração, e agora de produção que tá entrando já no pré-sal está, respondeu com extrema competência, quer dizer, nós estávamos numa bacia concentrada na Bacia de Campos, com óleo pesado, campos maduros já, em declínio de produção, então a empresa, o grande desafio era nós abrirmos a nova fronteira, que não sabíamos qual era, quer dizer, ela tinha que ser aberta correndo risco, com agressividade exploratória, que é o que caracteriza as empresas de petróleo como eu falei, e isso, e as equipes responderam com extrema competência, as equipes de exploração. Fomos pra buscar novos reservatórios, novos prospectos, e partimos pra Bacia tanto de Espírito Santo como de Santos, e acabamos descobrindo o pré-sal, então esse foi o grande desafio, quer dizer, hoje é como eu disse, se não tivéssemos o pré-sal nós estaríamos numa situação extremamente delicada, porque os campos estão em declínio, os campos declinam 10% ao ano em produção, os grandes campos nossos estão em declínio e não tem outros grandes campos pra serem descobertos na Bacia de Campos, as grandes estruturas, pelo menos no conhecimento geológico que nós temos hoje, né. Então havia o grande desafio da abertura de uma nova fronteira exploratória e de produção, e isso foi atingido, que o pré-sal veio nos dar, também não tem mais outras, porque a gente só chega até três mil metros de profundidade d ́água. Acaba a prospectividade mesmo em todas as bacias do mundo, em todos os oceanos do mundo, então nós estamos próximos já do limite, então acho que esse foi o grande desafio que a gente, que as equipes venceram.

 

P/1 – Aí dessa nova fronteira levou um tempo até que descoberto o trabalho, até a descoberta, só pra gente poder ter uma ideia?

 

R – Olha, é o seguinte, é tudo ligado uma coisa com a outra, quer dizer, é, a Bacia de Campos é a Bacia mais prolífera do Brasil até hoje, né, então a concentração de esforço exploratório na Bacia de Campos é uma coisa até natural porque ela era a que mais, né, mas não, é o que eu disse, nós tínhamos que ter outras áreas de  exploração, né, então a desconcentração do esforço exploratório na Bacia de Campos é que eu acho que esse foi o grande desafio nosso, e aliás eu repito, as equipes responderam com extrema competência, quer dizer, abrindo novas perspectivas, é, mapeando novos prospectos tanto na Bacia do Espírito Santo quanto na Bacia de Santos, né, e daí veio o pré-sal, esse foi o grande, quer dizer, essa passagem, né, essa passagem que foi fundamental, né, de a gente passar de uma, a gente abrir uma nova fronteira exploratória que vai garantir, certamente daqui a uns 20 anos, a Bacia de Santos daqui a uns 20 anos é mais produtora que a Bacia de Campos, então isso faz parte, então essa passagem foi o desafio do mar, né, descobrimos o primeiro poço, o Campo Guaricema mas depois entramos numa fase de investimento sem retorno, né, até que descobrimos a Bacia de Campos nas águas rasas, quer dizer, aí foi a nova fronteira que sustentou a continuidade da área de exploração e produção da companhia depois em águas profundas, quer dizer, a gente vai passo a passo, sempre essas passagens que são os grandes desafios nas áreas de exploração e produção das empresas petrolíferas, quer dizer, esse que as equipes responderam aí com brilhantismo como sempre.

 

P/1 – Foi uma retomada, né, então da sua também, quando o senhor voltou como diretor, né, que essa área tava um pouco parada?

 

R – Não, como eu disse, a gente tava concentrado na Bacia de Campos, o óleo barato, o óleo tava muito barato mas essa visão de risco ela não, a empresa petrolífera não pode perder, sabe, outro dia eu estava nos Estados Unidos e o camarada falou comigo: “Olha, vocês no bloco de Mexilhão”. Nós já tínhamos perfurado nove poços no bloco de Mexilhão, então quer dizer, só a Petrobras faz uma coisa dessa, não é só a Petrobras, a Petrobras está entre as poucas empresas petrolíferas que tem essa agressividade, e corre o risco, quer dizer, no décimo posto nós descobrimos o Mexilhão que vai produzir 10 milhões de metro cúbico de gás. Então essas coisas é que uma companhia de petróleo não pode perder, não pode ser conservadora ou super conservadora no investimento exploratório, e isso realmente houve uma virada, nós hoje somos uma das empresas petrolíferas que mais investe em exploração, em termos de investimento mesmo, de grana.

 

P/1 – Qual foi sua maior alegria aqui na Petrobras?

 

R – Minha maior alegria na Petrobras foi a autossuficiência, não é só minha, essa é de todos os empregados da Petrobras, sejam contratados diretamente ou trabalhando conosco, essa foi a maior alegria, não tem dúvida, essa foi a que coroou uma coisa espetacular, acho que pro Brasil como um todo, também, coisa que todo brasileiro, a empresa brasileira, a maior alegria foi essa mesma.

 

P/1 – A gente sempre pergunta o que é que mudou nesses anos todos de trabalho lá de 65, pra cá, o que, uma característica da Petrobras que mudou e uma que permaneceu?

 

R – Bom, a que permaneceu como eu disse foi a nossa cultura, a obrigação com o Brasil, isso permaneceu, às vezes mais, às vezes menos; mas você destampa e está ela lá, você destampa e aí fica todo mundo, então isso permanece. Agora o que também mudou muito, que dizer, com a quebra do monopólio estatal, a empresa sofreu uma reestruturação que é forçoso reconhecer de uma maior organicidade a gestão da Companhia, isso [é muito importante, nós, eu não gosto de usar essa palavra de modernização que esse negócio de moderno é discutível, mas de qualquer maneira nós ajustamos e configuramos a nossa, o que se chama também de Governança Administrativa para uma grande Organização. Quer dizer, nós temos uma Governança que nos permite, enfim, gerir a Companhia da melhor maneira possível em termos financeiros, principalmente, então nós temos todo um procedimento interno de gestão. Ás vezes eu acho até, eu pessoalmente, exagerado, mas de qualquer forma conformou um modelo de gestão que é efetivamente muito benéfico, quer dizer, é uma coisa que dá segurança na gestão da Companhia, acho que nós não tínhamos toda essa, as coisas não estavam interligadas, era uma coisa muito em parte. Hoje a gente funciona integradamente, isso é uma coisa importante.

 

P/1 – Diretor, tem alguma coisa que a gente não conversou e que o senhor gostaria de deixar registrado também?

 

R – Acho que não, acho que não, não tem, é isso mesmo, não tem nada que eu me lembre assim de importante, falei sobre tudo [risos].

 

P/1 – Queria perguntar se o senhor gostou de ter participado também do Projeto Memória.

 

R – Gostei sim, falar sobre a Petrobras é sempre bom, a gente fala até demais, emociona, entusiasma. Então essa coisa toda faz parte da vida, é uma coisa séria [risos], alguém ainda vai ter que enxugar isso algum dia, porque falar bem da Petrobras está dentro da gente, é falar bem do Brasil, dos brasileiros, da nossa bandeira que às vezes é esquecida. A gente canta o hino nacional e isso faz parte, a gente tá construindo o nosso país, a gente tem que amar as nossas coisas e a Petrobras é uma coisa brasileira, do Brasil, bem radical mesmo, e isso é bom.

 

P/1 – É isso aí. A gente gostaria de agradecer muitíssimo a sua contribuição pro projeto. Obrigada.

 

R – Por nada.

 

--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

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