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História

Da Espanha, contra a escravidão no Brasil

História de: Carmen Bascarán Collantes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Na história da luta contra o trabalho escravo no Brasil, uma de suas principais personagens é espanhola. Natural de Oviedo, Carmen Bascarán Collantes trocou uma vida confortável na Europa pela cidadezinha de Açailândia, no Maranhão, quando tinha 51 anos, em 1995. Ali, junto de um pequeno grupo da comunidade, fundou o Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos, que se tornou referência no combate às cruéis condições de trabalho ainda impostas por certas fazendas e carvoarias da região. Carmen emocionou-se ao se lembrar de como algumas dessas vítimas já a agradeceram por terem sido, pela primeira vez, tratadas como gente. Seu depoimento tem outras muitas passagens marcantes, da militância política em sua terra natal a uma engraçada situação que vivenciou no Brasil, ao (tentar) aprender a falar português. 

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História completa

Carmen Bascarán Collantes, nasci em Oviedo, Astúrias, Espanha, em 19 de setembro de 1944. Eu passei a ir a colégio normal como todas as crianças. Terminei o primeiro grau, terminei o segundo grau. Fiz o que é equivalente aqui ao vestibular e entrei na faculdade. Eu comecei Medicina, isso é uma história. Começava a fazer Medicina, estive um ano e meio fazendo Medicina, e por um problema de saúde tive que deixar. Então, comecei a fazer História, na minha cidade. A Medicina fiz em Santiago de Compostela, depois fui para minha cidade fazer História. Comecei a fazer História, continuei fazendo História também dois anos e me enamorei. O normal é que, quando vais a casar, poder deixar os estudos, porque vai ser uma mãe de casa, e naquele ambiente que eu me movia. Deixei de estudar e me casei e passei a ter filhos. Tive um, tive dois, tive três e, por acidente, tive quatro. Então, me dediquei mais ao trabalho de atender a quatro filhos pequenininhos e que foram crescendo, mas a esse tipo de trabalho e sempre com um certo compromisso com questões sociais, porque sempre essa coisa ficou em mim.

 

Vir aqui foi mais tarde, quando meus filhos terminaram todos os estudos. Terminou Política e Sociologia, Maria terminou Veterinária, Juan terminou Turismo e Ana fez Enfermagem, com uma especialização em Medicina Tropical. E, então, antes de eu ter síndrome do ninho vazio, eu falei: “Meus filhos, sou eu que vou voar agora. Vocês ficam no ninho, e eu vou.” Era alguma coisa que eu já vinha trabalhando muito, muito. Eu tinha um irmão aqui, Carlos, que é missionário comboniano, que está aqui há 38 anos. E ele estava morando aqui, em Açailândia.

 

Chegamos a Açailândia, e chegamos a São Luís no dia 24 de julho de 95. Começamos a conhecer a realidade de Açailândia e, imagina, sem falar uma palavra de português. Aquilo foi uma tragédia, uma tragédia. E eu tenho muita facilidade, falo muito, mas sou tímida, mesmo que não pareça. Falar com a gente sem poder falar foi um desastre, um desastre.

 

Os meninos riam de nós. Eu sempre lembro e conto. Quando eu achava que falava português... Não falo português hoje, então, imagina como falava! Era uma reunião com meninos, com criancinhas pequenas. Eu achando, olhando para a meninada: “Me entenderam tudinho.” Fui para minha casa, para Carlos, meu irmão: “Carlos, tivemos uma reunião, e os meninos escutaram tudo, entenderam tudinho.” E nisso chegou um menino: “Pai Carlos, Pai Carlos, essa mulher quer falar japonês.” Aí, caiu tudo (risos).

 

E começamos a falar da necessidade de montar alguma coisa que a gente tivesse como referência. Os padres combonianos, por outro lado, também eles estavam falando nas comunidades, com outra gente, e juntamos aquela vontade de um grupinho, éramos 12 pessoas. E começamos a fazer reuniões em casa de um, em casa de outro: “O que fazemos?” “O que não fazemos?” E surgiu o tema dos direitos humanos. “Rapaz, aquilo que falam são os direitos humanos, não se respeita a vida, não se respeita nada, e por que não fazemos uma associação dos direitos humanos?” E começamos. Começamos pelo grupo de 12 pessoas, fizemos uma feijoada, não tínhamos onde cair mortos. Fizemos uma feijoada para 250 pessoas, e foi a primeira feijoada que fizemos, porque, depois, virou tradição. E arrecadamos 1.200 reais, e, com aqueles 1.200 reais, nos legalizamos, fizemos a legalização do Centro de Defesa.

 

E começamos, fizemos a primeira assembleia, e na primeira assembleia elegeram quatro prioridades para serem trabalhadas. Uma era trabalho escravo, que nós não sabíamos o que era muito bem. Havíamos escutado que havia trabalho escravo, mas não sabíamos muito bem do que se tratava. Isso foi em novembro de 96, novembro de 1996. Quatro dias depois de vir aqui, chamaram à porta, um rapaz que se chamava Francisco, e começou a contar uma história de uma carvoaria, da qual ele vinha com uma ferida aqui na cabeça, havia caído uma tora. O gerente, o rato da carvoaria, o havia largado e o havia deixado ferido. Passou a contar uma história que nos deixou de queixo caído. “Rapaz, é trabalho escravo”, estávamos pensando. Só que, dois dias depois, chegaram quatro, três. Então, o trabalho escravo veio a nós, e não nós ao trabalho escravo.

 

E 40% de escravos brasileiros são maranhenses. Nós temos, por exemplo, aqui, o Senhor Resende. O Senhor Resende é reincidente, por quatro, cinco vezes com trabalhadores escravos, e continua. E nós temos por aqui um prefeito que também tem uma fazenda que também tem trabalho escravo. Nós temos, ultimamente, há cerca de dois meses, um juiz de direito de que tem uma fazenda aqui que também tem trabalho escravo. Porque uma coisa que nós sempre escutávamos era: “Nós não sabemos a legalidade.” Quando um prefeito, um juiz de direito são os donos da fazenda onde existe trabalho escravo, não dá muito para acreditar que não sabem que a gente tem que beber a água que tem de ser limpa, ter um lugar para dormir que seja decente e não onde dorme rato.

 

Eu não estou falando de teoria, estou falando de gente, de gente que, depois de estar morando aqui conosco por uma semana, 15, 20 dias, quando saem pela porta, pedem a bênção e dizem: “Nunca ninguém nos havia tratado como gente, é a primeira vez que nos sentimos gente.” Escutar isso parece uma novela, não é uma novela, não é uma novela. O que é isso? O Brasil não é um país pobre, não. De quem é a responsabilidade? O Brasil não é um país pobre, não. É rico pra caramba. Os ladrões e os criminosos têm que pagar por isso, têm que pagar algum dia, têm que pagar isso algum dia.

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