Busca avançada



Criar

História

Da carpintaria ao museu

História de: David Mora de Rezes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/11/2005

Sinopse

 David Mora de Rezes nasceu no o Rio Grande do Sul, na cidade de Horizontina no dia 12 de outubro no ano de 1959.  Mudou-se com toda a família para Foz do Iguaçu no ano de 1980. Começou o trabalho na carpintaria da Itaipu Binacional onde atualmente trabalha no Eco Museu. 

Tags

História completa

P/1 - Bom, gostaria que você começasse dizendo seu nome completo, o local e a data de nascimento.
R - Bom, meu nome é David Mora de Rezes. Se chama David porque tem um D maiúsculo no final.
P1 - Você nasceu?
R - Nasci no Rio Grande do Sul, Horizontina.
P/1 - Em que dia?
R - Dia 12 de outubro. Dia das Crianças, por isso que eu ainda me sinto criança.
P/1 - 12 de outubro de que ano?
R - De 1959.
P/1 - 1959. O nome dos seus pais?
R - Valdomiro Moura de Rezes, meu pai, e a minha mãe é Maria Denise Furtado.
P/1 - A sua mãe nasceu na Argentina?
R - É, a minha mãe, na verdade a minha mãe é castelhana, nascida na Argentina.
P/1 - O seu pai é daqui mesmo e qual era a atividade dele?
R - Ele é nascido no Rio Grande do Sul, em Três Passos. Agora todos nós moramos aqui em Foz mesmo. Ele exerceu a função de carpinteiro, qual essa eu trago hoje. Graças a Deus que eu peguei esse ritmo do velho. E vivemos aqui em Foz praticamente toda a família.
P/1 - Toda a família. Quando vocês mudaram para cá?
R - Em 1980 a gente saiu de Santo Antônio do Oeste, uma cidade muito carente, muito pobre. Inclusive, eu também bastante carente, pobre demais. E graças a Deus tivemos esse privilégio de vir para cá e se agregar nessa empresa.
P/1 - Veio toda a família?
R - Toda a família.
P/1 - Você tem quantos irmãos?
R - Nós somos em sete irmãos. Quatro homens e três mulheres.
P/1 - Vieram todos?
R - Todos.
P/1 - Vocês vieram por que lá a situação estava ruim e aí acabaram vindo?
R - Sim. A gente trabalhava como autônomo fazendo casa. Mas a situação vai se complicando, então tem que se achar uma válvula de escape. E se demos bem, né?
P/1 - Você se lembra a primeira vez em que você entrou na Usina de Itaipu?
R - Lembro.
P/1 - Você lembra da imagem? Qual foi a imagem que te marcou quando você entrou aqui a primeira vez?
R - Primeiramente é a fila que a gente enfrenta para fichar. Fica na fila o dia todo. Por sinal é até bem atendido aqui. Mas retorna um dia, outro dia não dá certo, vai tentando até que dá. Mas quando entra aí tem aquele encaminhamento, fichamento, exame e vai embora. Mas quando me colocaram lá no setor, aí eu fiquei assim meio desatualizado, porque é a primeira empresa que eu trabalhei, né?
P/1 - Por que você trabalhava como carpinteiro ajudando seu pai?
R - É, autônomo. E até nem tinha costume de ver tanta gente, tantos funcionários. A minha referência era 41 mil, então era muito funcionário tudo junto ao mesmo tempo, correndo atrás de trabalho e às vezes do alimento também. Era muita gente, então era uma correria.
P/1 - Então vocês chegaram aqui em 1980, aí vocês já ouviram falar de Itaipu. Você estava me contando que vocês queriam vir para cá. Como é que foi?
R - Sim. Porque cidadezinha pequena, na época em que estavam detonando o canal de desvio, então isso as rádios colocavam em sintonia para escutar o barulho. Então, para a minha mãe Foz do Iguaçu era um fim de mundo.
P/1 - As rádios punham o barulho das explosões?
R - Justo, justo, da explosão. Daí a gente dizia para a minha mãe: “Mãe, ainda nós vamos trabalhar nessa obra!” “Deus me livre, meus filhos, não trabalha não!” Na verdade, a gente chegou a trabalhar os três irmãos aqui. Hoje só tem eu e mais outro. Então isso marcou, né, deu certo que a gente chegamos aí.
P/1 - A sua função hoje, David?
R - Eu cheguei à ficha na Itaipu de carpinteiro, mas hoje a minha função é auxiliar de manutenção.
P/1 - Certo, então a sua primeira atividade aqui foi de carpinteiro?
R - Sim, sim.
P/1 - O que você fazia?
R - Eu cheguei a construir um barraco. Nós temos um museu lá, muito lindo, bem rústico assim. Então, este foi meu último trabalho de carpinteiro. Então, agora, razão de eu trabalhar no Museu, a gente trabalha muito com montagem de exposição, desmontagem, organização, viagem nesses municípios lindeiro, montar a exposição. É divulgar e levar o trabalho de Itaipu.
P/1 - Então tá, do Museu você já vai falar daqui a pouco. Eu quero que você me conte quando você chegou. O que você fazia aqui na carpintaria?
R - Aqui?
P/1 - É. O que um carpinteiro fazia?
R - Aqui é assim: aqui a gente fazia, por exemplo, a chefia trazia os projetos e mostrava. “Olha, eu quero que faça esse tipo de painel, entendeu?” “Entendi.” A gente ia, fazia, efetuava o trabalho e tinha outra equipe que transportava para o local e fazia a montagem desses painéis. Então, o meu trabalho mesmo o era usar as máquinas, montar os painéis, fazer segundo o projeto.
P/1 - O painel era o quê?
R - O painel era essas fôrmas de caixas todas com detalhes para descer o concreto. Que fica esse formato de Itaipu aí nos blocos.
P/1 - E variava, então os painéis tinham medidas e formatos diferentes?
R - Sim, sim, cada projeto tinha mil detalhes. Então, um setor pegava um X detalhe para fazer aquele tipo de painel. Mas era sempre variado.
P/1 - E o ritmo era sempre muito rápido?
R - Acelerado, era acelerado. Inclusive agente tinha capa para trabalhar em dia de chuva. E não era qualquer chuvinha aí que fazia a gente se esconder não. Porque era o forte da obra, então tinha que produzir os painéis porque senão o concreto não segurava. Era um ritmo bem acelerado. E fazia muita hora, muita hora.
P/1 - Você trabalhava em turno, como que era?
R - Troca turno também.
P/1 - Quer dizer que mesmo à noite a carpintaria rodava?
R - Sim, sim, dia e noite. É uma equipe de dia e outra de noite.
P/1 - Sim. E como que era o almoço de vocês, o transporte?
R - O almoço era uma correria, viu? Até eu me lembro muito bem que a gente desceu com o papa-fila - era bem de frente aqui - e eu por perna curta acabei caindo. A gente tinha que fazer uma curva para chegar no refeitório. Então, resultado, eu tive que sair rolando, porque quando eu queria levantar alguém me jogava no chão de novo. Aí enfrentava uma fila para comer. Lá dentro a comida era à vontade, era muito boa a alimentação da empresa. Mas era tudo em questão de segundos, era tudo na loucura, era tudo correndo.
P/1 - Certo. O que vocês faziam nas horas de lazer?
R - Bom, eu assistia muito, tipo assim, futebol. Eu não participo de esporte, mas eu assistia luta de boxe. Quando era época de festa genuína, aqui, a Unicom privilegiava o funcionário, ela dava muito esporte. Então tinha pau-de-sebo, aquele negócio. Era engraçado porque a peãozada se unia para tirar o prêmio que estava lá em cima. Mas às vezes quando fazia aquela pirâmide, quando alguém estava para alcançar lá a equipe de baixo não agüentava, aí caía tudo de volta. Então era um sarro.
P/1 - Era divertido.
R - E tinha cinema. Apesar que eu estudava aqui no Mobral na época, né?
P/1 - É, eu queria te perguntar isso também.
R - Eu fazia Mobral.
P/1 - Você fazia Mobral aqui na empresa?
R- Aqui na empresa. Comecei com a Unicom, e hoje com a Itaipu eu concluí meu segundo grau pela empresa também.
P/1 - Então, e os alojamentos como que eram, era muita bagunça, como que era?
R - Era bom, era bom, mas às vezes dava bagunça, sabe, porque só tinha homem.
P/1 - Dava briga?
R - Dava, dava briga, só que a segurança trabalhava com uma eficiência, assim, total. Era muito bom.
P/1 - Depois você ficou nessa carpintaria e hoje você trabalha no Eco Museu.
R - Sim.
P/1 - Como se deu essa passagem, como que é a sua evolução profissional? Da carpintaria, que outras etapas você teve?
R - É, foi bem mais técnica agora, né, porque antes até o uniforme era mais à vontade, hoje em dia já tem que trabalhar com mais perfeição até no sentido de que eu represento uma empresa muito grande.
P/1 - Então, mas aí você estava na carpintaria e daí como é que você fez?
R - Ah, mudou totalmente.
P/1 - Foi mudando?
R - Mudou, mudou.
P/1 - Acabou a construção, você acabou ficando por aqui?
R - Sim, sim, mudou o ritmo. Por exemplo, eu nem carpinteiro não sou mais na função, né?
P/1 - Pois é, pois é.
R - Então já é outras funções. Como eu mostrei lá naquela época os abastecedores que a gente fazia. Era muito bom, a gente viajava. Proporcionava o colono, tinha esse privilégio, e a Itaipu não admitia ele pegar água do lago, mas ela dava todos os recursos. Que era um abastecedor comunitário a cada três quilômetro em torno do lago, né, na região lindeira.
P/1 - Que etapa você acha que foi mais importante de Itaipu?
R - Etapa?
P/1 - Da construção, assim.
R - Ah, da construção?
P/1 - É, o que você acha que foi mais marcante?
R - Quando represou o lago, né, quando encheu o lago. Foi porque mudou totalmente, geograficamente, né, mudou. Daí a gente pôde ver as belezas, a eficiência do homem que construiu isso daí.
P/1 - Você é casado David?
R - Sim.
P/1 - Quantos filhos você tem?
R - Tenho quatro filhos. Três meninos e uma menina, né?
P/1 - E o que você faz hoje nas suas horas de lazer?
R - Eu sou muito conhecido onde eu moro, então, por exemplo, eu vou na igreja - eu sou evangélico -, visito meus pais, faço alguma visita também. Mas nesse meio também eu tive um tempo para fazer algum serviço particular. Eu trabalho particular também, tipo assim, no sábado, algum dia à noite.
P/1 - Serviço de carpintaria?
R - Não, o que imaginar de serviço braçal eu sei fazer.
P/1 - Por que você está na área de manutenção, né?
R - Sim, sim.
P/1 - Me fala do Museu. É bom trabalhar lá no Museu?
R - O Museu, eu sempre digo nas reuniões que nós temos que o Museu é uma segunda família que eu tenho, e digo isso porque eu convivo mais com eles do que com a primeira família minha, que é meus filhos, esposa. Então, eu tenho um carinho por todos os meus colegas de trabalho, de funcionário à chefia. Para mim, eu me sinto realizado de trabalhar no Museu.
P/1 - Conta um caso de Itaipu para a gente. Um “causo”.
R - Um “causo”. Bom, entre tantos, tem um que eu me recordo, é o seguinte: no próprio, a gente dizia o Bandeco, o Bandecão, né?
P/1 - O que é o Bandecão?
R - É o almoço. Então, vinha as bandejas através de uma roleta. Então, vinha as bandeja e a gente na fila. Então eu pegava, chegava outro, pegava. E a bandeja era alimento à vontade, mas tinha pessoas que era exagerado, que pegava uma vez e repetia duas. Só que depois ele saia batendo a barriga e dizia assim: “Esse Bandeco não tá com nada!” Mas ele repetia duas vezes. Ainda passava catando o resto, pão, carne. Era incrível. Um frango, um frango assado era dividido em quatro partes. Era uma loucura.
P/1 - Nossa!
R - Aí ele passava juntando. “Vou levar para os meus cachorrinhos.” Mas na verdade não era para os cachorrinhos.
P/1 - David, o que você achou de ter dado essa entrevista para o Memorial do Trabalhador?
R - Olha, eu, sinceridade, eu não esperava isto. Mas eu me sinto assim, poxa, emocionado até. É um peso, é uma responsabilidade, que no meio de 45, 50 mil funcionários que trabalhou, entre tantas pessoas que de repente é até melhor do que eu... Mas eu fui um dos 30 escolhidos. Então, isso daí é gratificante.
P/1 - E você ficou cheio de expectativa, né, para dar essa entrevista?
R - Sim. Por exemplo, a noite passada eu já fiquei até preocupado. A minha esposa falou: “Não, fique tranqüilo, não vai ter problema!” Porque eu jamais, eu não conhecia isso aqui, não tinha idéia, não imaginava como é que era.
P/1 - Então valeu a pena?
R - Valeu a pena mesmo, é muito bom. É mais uma etapa da minha vida que eu realizei, né?
P - David, você quer acrescentar alguma coisa que eu não perguntei?
R - Bom, existe mais histórias. Também eu posso agradecer alguma coisa. Mas, como sempre digo, eu como evangélico só tenho a agradecer a Deus porque essas bençãos é demais.
P/1 - Então tá bom, obrigada David.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+