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História

Da brincadeira ao trabalho

História de: Mirna Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

Mirna Lima considera-se uma uberlandense autêntica. Possui boas lembranças da infância, das brincadeiras e da casa de estilo colonial onde cresceu, e especialmente do avô que a incentivava a estudar. Em sua história de vida, recorda o período de cinco anos em que esteve fora de Uberlândia. Lembra-se do primeiro salário que ganhou aos treze anos de idade, trabalhando como auxiliar de escritório em São Paulo e como foi retornar à cidade natal, onde seguiu a carreira em Ciências Contábeis. Em 1964, Mirna igressou na empresa Irmãos Garcia e lá permaneceu trinta e três anos.

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História completa

 

R – Meu nome é Mirna Lima, que teria também que ser Carvalho, porque o meu avô materno era Carvalho. Mas meu pai omitiu o Carvalho. Na verdade, eu seria Mirna Carvalho Lima. Nasci aqui em Uberlândia, no Fundinho. Sou uma uberlandense autêntica. Nasci e fui criada na rua _________.


P/1 – Em que ano a senhora nasceu?


R – Que dia? Dia 11 de novembro [de 1941].


P/1 – Os nomes de seu pai e de sua mãe, por favor.  


R – O meu pai se chamava Vicente de Paula Lima. Era baiano de Lençóis e veio pra Minas criança ainda e minha mãe era Dona Diva Carvalhinho, ainda é viva. E ela nasceu em Estrela do Sul. A família de minha mãe veio toda de Estrela do Sul. Eles vieram pra cá no começo dos anos 1940. Aqui pra Uberlândia. 


P/1 – E qual era a atividade de seu pai?


R – Meu pai, basicamente era mecânico, mas ele era o que a gente chama de mil instrumentos. Não tinha nenhuma profissão. Na verdade ele era mecânico. 


P/1 – E sua mãe?


R – Minha mãe era costureira. 


P/1 – A senhora conheceu seus avós


R – Conheci. E bisavós, inclusive. (risos)


P/1 – Bisavós?


R – (risos) Tinha o meu lado mineiro que era de ascendência portuguesa, que era o lado de minha mãe. Meu avô se chamava Odilo Alves Carvalho, ele era de... (esqueci o nome da cidade). Aqui do Alto Paranaíba mesmo. E a vovó era lá de Estrela do Sul. Minha mãe também nasceu lá. E meus avós paternos eram baianos, como eu já disse, de Lençóis, e migraram aqui pra Minas Gerais. Devem ter vindo nos anos... final dos anos 1920 pra cá. Porque meu pai veio criança.


P/1 – Como era o nome deles?


R – O meu avô se chamava... Vovô Láu. O nome dele era Laudemiro e minha avó que era a avó Sinhá. O nome dela era dona Carmozina. E tinha minha bisavó, que a gente chamava de vovelha, que era bem velhinha. Era avó de meu pai, ela morreu aqui em Uberlândia com cento e cinco. Ela viveu cento e cinco anos. Eu tenho bem lembrança que ela ainda viveu, durante a minha infância, contando histórias da Bahia. Ela era uma baiana mesmo, daquelas que hoje não existem mais. (risos) Uma baiana diferente. Mas, depois que eles vieram pra Minas, passaram muitos anos aqui, e então praticamente eles se tornaram mineiros. As minhas tias por exemplo, as irmãs do meu pai, elas não tinham nada de baiana. Ela foi criada aqui em Minas Gerais, então os costumes da minha família são os costumes da família normal de Minas Gerais.


P/1 – Quantas irmãs a senhora tem?


R – Eu tenho duas irmãs só. Uma mais velha que eu. Eu sou a do meio. E uma caçula que é temporona. Nasceu bem depois de mim. Eu já tinha treze anos quando ela nasceu. 


P/1 – Como era a casa de sua infância, a casa lá do Fundinho. 


R – Ah. Era uma casa antiga, daquela de muitas janelas na frente. Uma casa colonial mesmo. De quintal enorme, era um pomar. A lembrança que a gente guarda e que é maior ainda. Hoje eu passo lá e acho até pequena. Quando eu era criança, aquilo lá era um universo. Era enorme. Era uma casa bem mineira mesmo. Antiga. A minha infância foi uma infância muito boa, muito bonita, principalmente porque eu tinha um avô fora do comum.


P/1 – Como é que era esse cotidiano, beleza toda desse tempo?


R – Tanta coisa, que pra contar assim em pouco tempo, não tem como. Mas, a minha infância foi muito boa, com muita liberdade.  Aquela rua, onde eu nasci, era do Tiro de Guerra pra baixo. A gente brincava na rua, tinha muita criança, uma rua cheia de criança, foi uma infância lúdica mesmo. E ainda tinha, colaborando com isso tudo, eu tinha esse avô que era muito especial. Pai de minha mãe. Eu era a netinha predileta dele. (risos) Eu era muito levada, muito sapeca, muito moleca, mas ele nunca deixava eu apanhar. Sempre ele me socorria. Na hora do aperto, ele me socorria. Ele contava histórias. Ele era um avô diferente. Ele me ensinou a ler, fez muito a minha cabeça, ele era diferente. Falava pra mim que eu tinha que estudar... Eu cresci já com essa ideia, que eu não era uma pessoa pra... Eu não ia ser uma mulher pra casar e criar filho. Ia ser uma coisa diferente. Um pouco eu cumpri o desejo dele, um pouco não, infelizmente a vida me jogou por outros caminhos. Quando eu era criança eu lia jornal com ele, ele deitava pra ler o jornal e eu deitava com ele também, tanto que eu aprendi a ler e eu acho que não tinha nem cinco anos, eu já lia. Eu falava pra ele que eu ia ser jornalista, que eu ia escrever jornal um dia. Mas isso ficou só no sonho, porque infelizmente depois eu não pude ir pra São Paulo estudar Jornalismo. 


P/1 – Esse era o avô?


R – Vovô Dido. 


P/1 – A senhora estava falando da sua casa. Como era essa casa, quantas pessoas eram, como era a divisão de cômodos?


R – A casa, era como as casa antigas até hoje. Na verdade eram mal divididas. Era uma casa grande. Ela tinha uns cinco quartos, aquelas janelonas e aquelas portas enormes. Quase não tinha vidro, não tinha nada. Era janela e só. Eu sei que ela tinha uma sala onde se recebiam as visitas. Tinha o que a gente chamava de varanda, que era uma sala que pegava quase o comprimento da casa inteira, e era ali onde a família se reunia. Onde se fazia tudo. Inclusive, mamãe costurava lá, lá se ouvia o rádio. O rádio ficava lá. Naquele tempo só tinha o rádio. Todas as atividades da casa se faziam nessa varanda. Essa varanda dava pro quintal e tinha três janelas e uma porta. Tudo dava pro quintal. Então, quando ali, você via todo aquele verde, e como minha avó cultivava muita flor e meu avô cultivava horta, a gente ficava de frente pra horta e pro jardim. Era bem bonito. Uma casa pobre, simples, mas gostosa… Do outro lado ficava a cozinha, com fogão de lenha e... Que mais... Deixa ver. Primeiro o banheiro era do lado de fora, depois meu avô fez um pra dentro. Eu lembro que quando eu era bem pequenininha, o banheiro era do lado de fora. Meu quarto, o quarto que era nosso, dava pra rua. Era o lado da casa mais alto. Então, por exemplo, se eu ficasse na janela, ficava toda poderosa, lá da janela vendo o movimento da rua. E, quando a gente é criança, a tendência achar que estava bem alto. Então, aquela janela ali, era a minha televisão. Eu ficava na janela vendo o movimento da rua. Então, no dia que tinha exercício do Tiro de Guerra, era posto privilegiado. Ficava na janela assistindo. Os rapazes marchavam, faziam exercício. Era tudo feito ali, na porta da minha casa.   


P/1 – Nesse quintal, o que tinha além da horta? Tinha árvores frutíferas? 


R – Tinha. Tudo quanto era fruta que você perguntar tinha. Tinha mangueiras enormes. Tinha o pé de goiaba,  que era o meu predileto, lugar aonde eu ia pra ler e estudar. Subia no pé de goiaba e tinha lugar certinho pra... Levava um travesseiro  e estudava lá em cima desse pé de goiaba.   (risos) E tinha também muito bicho. Tinha cachorro, tinha gato, tinha galinha.Meu avô criava galinha, e tinha os bichos que de vez em quando meu pai trazia. Ele gostava de trazer bicho, tanto que na época tinha como um zoológico. Tinha coelho, tinha... Teve uma vez que ele trouxe ate um veadinho.Um bambi.  Trouxe pavão...Uma vez ele me deu um pavão. Meu pai era assim. Era um aventureiro, uma pessoa diferente, muito especial. 


P/1 – Como eram as brincadeiras dessa criançada?


R – A brincadeira de rua, era toda noite. A gente reunia a meninada na rua, bem em frente à minha casa bem ali na esquina entre Edgar Dantas esquina com a Lúcia Matos, ali era o ponto predileto da criançada porque tinha um poste de luz lá na esquina, e ali a gente brincava. Brincava de tudo, de piques, de roda, de... Tinha brincadeiras mil. Brincava de tudo. A gente brincava muito de cinema, de fazer filme de faroeste na rua. Aquela época era de brincadeira. Tinha fases. Tinha uma época que era bolinha de gude. Jogavam bolinha de gude. Tinha uma época que era andar de patinete, que aqui a gente fazia de madeira. Cada época uma coisa. Uma época a gente soltava balão, outra época a gente... Tempo de carnaval eu brincava de cantar. A gente decorava todas as músicas de carnaval, então ganhava aquele que sabia mais. E sentava a meninada em círculo e cada um cantava no meio, uma música de carnaval. Coisas que existiam nos anos quarenta mesmo. Nos quarenta, cinquenta. Era diferente. Infância nessa época era muito diferente de hoje. 


P/1 – E a sua primeira escola dona Mirna, a senhora se lembra dela?


R – Lembro. Eu estudei meu curso primário inteiro no Colégio Brasil Central, ali na pracinha, que era bem perto da minha casa. Entrei pro curso primário, eu tinha seis anos. Eu era precoce, sabia ler. Foi uma beleza. Meu curso primário foi ótimo, foi realmente o que abriu minha cabeça pra gostar de estudar. Sempre gostei. Fui boa aluna. 


P/1 – Alguma professora especial, alguma que marca?


R – Ah. Muito. A minha professora me acompanhou do primeiro ano até o quarto. Aquele tempo tinha uma professora só. Ela se chamava Maria Helena, dona Heleninha, e era filha de educadores também. Ela era daquela família dos ________do Dr. ____ Era sobrinha deles. Era uma família de educadores. Era uma professora muito especial, muito boa. 


P/1 – E depois do primário, a senhora mudou de escola?


R – Não. Continuei lá. Estudei lá até o terceiro ano ginasial, que foi no ano que nos mudamos pra São Paulo. Meu pai foi trabalhar em São Paulo, e nós fomos pra lá. Passamos cinco anos fora daqui. 


P/1 – Como foi a mudança?


R – Foi muito boa. Foi muito excitante. Sair de uma cidade pequena como era Uberlândia e ir pra São Paulo… Pra mim foi um deslumbramento. 


P/1- A senhora sabe precisar o ano dessa mudança? 


R – Que nós fomos pra São Paulo? Foi em 1954. Não,1952.


P/1 – Na cabeça dessa criançada com toda liberdade, na rua, no quintal, vai pra cidade grande. Como é que foi?


R – Foi um choque, porque a gente chegou em São Paulo, não podia sair. Era diferente. Era um outro mundo. No começo foi triste, mas logo depois a gente vai pra escola… E São Paulo naquele tempo não era São Paulo de hoje. Eu ia pro colégio sozinha. Estudava num colégio na Lapa, e ali não tinha muito problema.  Não tinha violência, não tinha nada. Eu andava pra todo lado. Logo eu aprendi a me virar e ia até no centro de São Paulo. Eu tinha o quê, uns treze anos. Com treze anos ia pro centro de São Paulo sozinha. Às vezes minha mãe falava... Se bem que eu sempre fui independente, nunca tive medo de muita coisa, acho que por causa dessa infância livre que eu tive. Eu ia comprar as coisas pra mamãe no centro de São Paulo, pegava o ônibus e ia tranquila. 


P/1 – Qual foi o motivo da mudança pra São Paulo?


R – Pra São Paulo? Foi trabalho do meu pai, ele foi trabalhar. 


P/1 – Trabalhar onde?


R – Numa fábrica de máquinas de lavar roupa, que era de uma família amiga da gente, de ligação assim, lá... dos avós. Então eles convidaram meu pai pra trabalhar, e ele foi. Mas aí nós acabamos ficando pouco tempo lá. Eu tinha uma tia que morava em Belo Horizonte, e nós acabamos indo pra Belo Horizonte, moramos lá dois anos e no fim tivemos que voltar pra cá, porque minha avó, mãe da minha mãe, ficou doente e minha mãe era a única filha pra tomar conta dela. E a gente voltou. Nesse tempo eu já trabalhava em uma empresa lá em São Paulo, e em Belo Horizonte estava bem. Mas tinha que vir embora, porque minha mãe não ia ficar aqui e ele lá.


P/1 – Fale um pouco de seus estudos em São Paulo. Seus estudos continuaram lá ou em Belo Horizonte?


R – Eu fiz dois anos do ginásio estadual lá na Lapa.


P/1 – Morava lá na Lapa também?


R – Não. Nós morávamos no Alto da Lapa, que era um bairro logo ali, colado ali.  Ai, eu fiz a quarta série lá… Não. No ano em que nos mudamos, eu fiquei sem estudar porque foi assim, comecei a fazer o ano aqui, depois não teve jeito de transferir para lá, então esse ano ficou um ano ficou perdido. Então no outro ano eu fiz a quarta série lá. Aí depois, em Belo Horizonte, comecei o curso Técnico de Contador, porque eu já trabalhava. Quando eu fui pra Belo Horizonte, cheguei lá e a primeira coisa que eu fiz foi arranjar um emprego. 


P/1 – Seu primeiro emprego foi lá em Belo Horizonte


R – Não. Foi em São Paulo mesmo. 


P/1 – Qual foi seu primeiro emprego?


R – Foi lá nessa fábrica em que meu pai trabalhava. A gente morava lá, porque tinha um apartamento, uma casa, que era junto com a fábrica. Eles tinham uma indústria de máquinas de lavar roupa, e um laboratório, que fazia remédios. Em cima desse laboratório tinha um apartamento. E o pai desse amigo do meu pai perguntou se a gente não queria morar lá. Pra nós era ótimo, porque era junto com o trabalho dele. E nós morávamos junto. E eu comecei a ir lá pro escritório, de brincadeira, como criança. Eu ia pra lá brincar. Brincava de trabalhar. E acabei trabalhando de verdade. Foi lá meu primeiro trabalho. 


P/1 – A senhora fazia exatamente o que lá?


R – Ah. Eu era tipo assim… Hoje eu acho que eu era um boy (risos). Fazia de tudo. Abria correspondência, entregava, fazia a circulação da papelada do escritório, tirava nota fiscal… Essas coisas que os boys fazem. 


P/1 – Mas era pra ganhar?


R – Ganhava meio salário mínimo. Era uma festa o dia que eu recebia esse dinheiro, porque, criança ganhar. E naquele tempo meio salário mínimo, era muito dinheiro. A primeira vez que eu recebi, o primeiro salário que eu recebi foi muito engraçado. Eu fui com meu pai na feira, na Lapa e comprei um sapato de salto alto. A primeira vez. Comprei um sapato anabela e o salto era dessa altura. (risos) Era criança, ainda. Treze anos era criança mesmo. Naquele tempo, doze, treze anos, era criança mesmo. Não tinha nada de mocinha não. Eu comprei um sapato de salto alto e uma anágua bem rodada. Usava aquelas anáguas bem rodadas. Aí cheguei toda feliz em casa. A primeira vez. Ainda sobrou dinheiro. Sobrou muito dinheiro.

 

P/1 – A mudança pra Belo Horizonte foi motivada pelo quê?


R – Primeiro porque a gente lá em São Paulo estava muito sozinho. Nós tínhamos a tia que morava em Belo Horizonte, que era de Estrela do Sul também, e que tinha mudado com a família dela toda pra lá. O plano era as duas irmãs, minha mãe e minha tia ficaram juntas, e meu pai mudou pra lá, pra Belo Horizonte. Depois não deu certo. Mas a primeira ideia era essa. Outra coisa foi porque não deu certo o emprego do meu pai. Ele se indispôs com o patrão e não quis ficar.  Então, meus tios convidaram e nós acabamos indo pra Belo Horizonte. 


P/1 – E foram morar com a família?


R – Não, não. Nós morávamos em outra casa. Era perto, mas era em outra casa. 


P/1 – E qual foi a passagem que a senhora ficou de contar, já conseguindo um emprego em Belo Horizonte, a primeira coisa que a senhora foi procurar?


R – Fui. Aí eu fiquei em Belo Horizonte e logo logo eu fui procurar um emprego. Arranjei um emprego numa fábrica de roupas. Quando eu cheguei lá, era uma indústria de roupas masculinas. Eles fabricavam camisas e roupas de homem. E eu fui trabalhar lá no Departamento Pessoal. Trabalhava eu mais um rapaz de São Paulo, mais duas do _. Eu sei que eu me dei muito bem lá, nessa fábrica. Era uma fábrica... Não eram grandes, mas era um tamanho bom. Na época que eu trabalhei lá, e lá tinha uns duzentos empregados, mais ou menos. E a gente trabalhava no Departamento Pessoal. Eu sei que eu gostei muito do trabalho, logo eu peguei a rotina daqueles trabalhos, e quando eu estava lá cinco meses, mais ou menos, meu chefe foi embora, ele era o rapaz de São Paulo. Um belo dia não apareceu já de manhã. Foi embora. Aí um diretor da área administrativa chegou e me perguntou se eu dava conta de fazer a folha de pagamento daquele mês, até ele arranjar outra pessoa e contratar. Aí eu falei: “Pode deixar que nós fazemos a folha de pagamento. E fiz logo, deu tudo certo. Beleza. Aí eu fui promovida. Eles nem contrataram outra pessoa. Me deixaram  tomando conta do Departamento Pessoal. E fiquei eu, foi uma filha dos donos da fábrica trabalhar lá comigo pra aprender o trabalho, e eu sei que eu fiquei lá. Aí, quando eu estava no auge, achando uma maravilha, meu Deus. Aí, eu tinha dezesseis anos, o meu salário foi dobrado. Passei a ganhar mais do que um salário mínimo de maior, porque a gente ganhava salário mínimo de menor. Fiquei ganhando bem. Ótimo aquilo. Aí nós tivemos que vir embora. Mamãe teve que vir cuidar da minha avó que estava mal e o pessoal da fábrica não queria de jeito nenhum que eu viesse embora. Um diretor telefonou pra minha mãe e falou: “Olha, a senhora vai deixar ela aqui, porque (e uma do levar?) essa menina pra lá. Não tem nenhum futuro. Não pode, de jeito nenhum ir embora. Ela vai ficar lá na minha casa, vai estudar na mesma escola que meus filhos... Mas, minha mãe não deixou. Eu não queria vir embora não. Vim embora assim apaixonada, chorando, porque nessas alturas, eu já gostava muito de Belo Horizonte. Eu gostava da escola, gostava de tudo do trabalho. Mas pensei: “Não vou ficar aqui sem ela de jeito nenhum”.


P/1 – Como foi a viagem de Belo Horizonte pra Uberlândia?


R – De trem (risos). Quando nós voltamos, nós voltamos de trem. Eu e minha irmã. Que minha mãe tinha vindo com minha irmãzinha pequena. Voltamos nós duas de trem. Levava o dia inteiro de Belo Horizonte até aqui. Saía de lá de manhã, viajava o dia todo e chegava aqui à noite. 


P/1 – E aqui a senhora veio continuar os estudos?


R – Eu cheguei aqui já adolescente. Mas foi bom ter voltado. Depois que eu cheguei, encontrei com os meus amigos de infância e logo me integrei na cidade, acostumei, achei bom outra vez. 


P/1 – Nesse tempo todo a senhora já tinha vindo à Uberlândia?


R – Não. Saí criança e voltei mocinha.


P/1 – Que cidade a senhora encontrou, voltando aqui?


R – Aí, a cidade já tinha crescido, já tinha dado uma crescidinha boa. Tinha mudado. Mas no fundo no fundo, continuava a mesma. Pra mim era a mesma, porque eu voltei pra mesma rua, as mesmas pessoas, os mesmos conhecidos.  Só tinha crescido no tamanho, na cabeça. Mas, foi muito bom, com a experiência de morar em duas cidades maiores, cidades grandes, eu voltei mais sabida, sabendo mais do mundo, com consciência do que era o mundo. Era um mundo diferente.


P/1 – Um minuto, só pra trocar a fita. 

 (conversa que não tem sequência)


P/1 – A senhora estava começando a falar da cidade que a senhora encontrou aqui. Era diferente? Era maior?


R – Aí, por exemplo, quando eu voltei, as ruas já estavam quase todas calçadas. Já tinha asfalto, coisa que quando eu fui embora não tinha. Tinham asfaltado a Avenida Afonso Pena, a cidade já tinha crescido bem. Eu me lembro que eu fui… A maior surpresa pra mim foi quando eu fui a primeira vez no Praia Clube, porque o Praia Clube que eu lembrava era aquele quando eu ia com meu pai que era uma beira de rio só e mais nada. Tinha um trampolim. Era um embrião de um clube. Aí, quando eu voltei, o Praia Clube estava começando a crescer. Tinha piscina, foi uma das coisas que eu lembro que me espantou na volta. Estavam construindo o Uberlândia Clube...Tinha mudado bastante. 


P/1 – E os seus estudos aqui em Uberlândia. Continuaram?


R – Eu voltei pro colégio Brasil Central, fiz o último ano lá, do curso de Técnico de Contabilidade e fiquei (completo?). Fiquei sem estudar um bom tempo, porque eu não queria fazer nenhum curso daqueles que tinha aqui. Porque quando eu voltei, tinha curso só de Direito... Ou era Direito ou era Letras. Tinha a Faculdade de Filosofia, mas pra quem queria fazer Jornalismo, não me servia. Então, fiquei esperando. Falei: “Deixa ver o que vai acontecer”. Então, fiquei um tempo sem estudar. Aí, até que enfim abriu uma luz no fim do túnel. “Oba, chegou um curso diferente.” Como eu trabalhava na área de Contabilidade, e abriu a Faculdade de Ciências Contábeis, aí falei: “Chegou a hora de eu ter que fazer.” Aí, prestei vestibular e entrei. Eu fui da primeira turma. Fui da primeira turma de Contábeis. 


P/1 – Voltou pra Uberlândia uma pessoa que já trabalha, o que a senhora foi fazer?


R – Aí, cheguei aqui e arranjei emprego, logo assim, de cara, fui lá, fiz um teste e passei e entrei.  Tinha uma loja que chamava A Escolar, que é hoje onde é a UNIP, essa UNIP, ali da praça. Essa loja, que é o embrião, que é de onde nasceu essa empresa do Saraiva, do seu Carlos, Saraiva. Mas eu trabalhei só no tempo que era A Escolar. Era uma empresa que era do seu Edmir(?) Travalhini (?). Ele era de São Paulo, empresário de São Paulo, associado com as Catarelli, aqui de Uberlândia. Abriram essa... Que era uma livraria, mas era uma loja de departamentos, vendia eletrodoméstico, vendia artigos de presentes, vendia discos. Ela tinha de tudo essa loja. Aí, entrei pra trabalhar nessa loja, e sabe de quem que eu fui colega lá? Da dona Ofélia. (risos) Era secretária do meu chefe, era secretária dele, e foi lá que eu conheci o doutor Luiz, que ele era estudante, era namorado da Ofélia, noivo dela e às vezes ele ia lá buscá-la no trabalho, e a gente: “Ah. Esse é o noivo da Ofélia”. (riso). Mas nem pensar que um dia eu ia trabalhar com ele. 


P/1 – O que a senhora fazia lá na Escolar?


R – Eu era tesoureira, tomava conta do caixa, do movimento bancário, pagamentos, isso tudo. Entrei lá pra fazer esse trabalho, lá me dei bem, fiquei. Aí, trabalhei lá até 1963? Acho que até o final de 1962, 1963, não sei. E aí eu fui trabalhar na Uberlândia Automóveis, ali na Ford. Trabalhei lá um ano só. Foi ótima mudança, porque lá eu já fui como contadora.  Eles me contrataram pra ser contadora. Cheguei lá era uma menina e fui ser chefe de escritório. Foi um impacto, porque o pessoal que trabalhava lá era todo antigo e eu cheguei uma menina, pra tomar conta daquele escritório enorme. No começo eu não fui muito bem recebida não. Aquele choque. Aí depois deu tudo certo.


P/1 – E como a senhora reagiu à essa resistência?


R – Eu acho que eu reagi bem, porque, engraçado que quando eu cheguei lá, eu achei que _____ depois a gente percebe que eles não me receberam bem porque achavam que era um desaforo vir uma pessoa mais nova, bem mais nova, e pra ganhar mais, e pra ser chefe. Mas aí, acho que eu fui conquistando aos poucos, porque se a gente trabalha bem... Lá, o trabalho era assim muito...muito... Como eu podia dizer? Não tinha uma boa organização, a empresa. Vivia atrasada, o trabalho vivia atrasado e cada um fazia só aquilo. Então, eu dei uma revolucionada lá. Mudei todo mundo de lugar, e fui vendo quem era o melhor pra fazer isso, quem era o melhor pra fazer aquilo, e todo mundo logo aprendeu a fazer... Fui mudando as pessoas de lugar, então, todo mundo foi aprendendo várias coisas. E as pessoas gostam de aprender. Então, ficou acreditando as pessoas, tanto que uma das que mais me maltratou quando eu cheguei lá, hoje é minha comadre. Fui madrinha da menina dela. Ficamos amigas pra toda vida. Aí, deu tudo certo, mas eu fiquei lá só um ano, porque aí o seu Agenor me convidou pra trabalhar. Ele ficou sabendo que eu tinha aquela contadora e tal… E estava precisando de uma que a dele tinha ido embora, tinha ido pra São Paulo. Aí, não sei quem falou… Foi no ano em que eu entrei no Irmãos Garcia, no ano que eu entrei pra Faculdade. Uma das minhas colegas de Faculdade que trabalhava na BC Garimpo, me indicou pra ele. E eu fui lá fazer uma entrevista com ele. 


P/1 – A senhora lembra desse dia?


R – Lembro. 


P/1 – Como é que foi?


R – Foi bem interessante porque ele me fez sentir como na entrevista que nós estamos colhendo aqui. Ele perguntou todo meu histórico, como tinha sido. Eu conversei bastante com ele. Aí ele falou: “Olha, se você vier pra cá...”. O problema é que era chefe da minha família. Nessas alturas já não tinha mais meu pai. Era responsável pela minha família. Eu que tomava conta. Eu sustentava a casa. Era problema de ganhar, ganhar mais. Contei pra ele quanto que eu ganhava lá, e ele falou: “Eu te pago o dobro”. Pense bem. Ganhar o dobro! Sem pestanejar. “Tô vindo amanhã.” Mas aí eu tive que… Meus outros patrões não queriam que eu saísse de jeito nenhum, tinham gostado do que eu tinha feito lá. E aí me ofereceram, pra eu… Que com o tempo eles pagariam a mesma coisa se eu ficasse. Mas, aí eu já tinha ido lá no outro emprego, e tinha visto que naquela lá ela ia ficar naquilo, como realmente ficou. Aí todo mundo: “Ah. Você tem que ir, porque essa é uma empresa, os Irmãos Garcia é uma empresa muito melhor”. Tinha outras empresas também, mas não era um grupo, mas a gente sabia que ia crescer, e fazendo a CTBC também. Já pensou. Imagine se eu ia perder aquilo. De jeito nenhum. Fui. E gostei. Acho que quem realmente me incentivou a ir foi essa conversa que eu tive com o seu Agenor. Foi essa uma empatia à primeira vista. Acho que ele gostou de mim e eu gostei dele. Mal sabia eu, que eu ia pegar uma fera (risos).


P/1 – Como é que se escondia essa fera?


R – Ah. Ele era uma pessoa muito especial, seu Agenor. Aparentemente assim, ele era um cavalheiro, mas ele era uma pessoa muito exigente, muito brava. Era assim mesmo. É daí que a gente aprende. 


P/1 – Como é que era a Irmãos Garcia? Como era a empresa?


R – Quando eu entrei lá. Ela já era concessionária Chevrolet, mas ela vendia... Também... Ela tinha uma parte lá, um setor que vendia eletrodomésticos. Era a nossa tragédia, porque vendia fogão à prestação, fogão, geladeira, televisão, tudo à prestação. E então, tinha serviço pra não acabar mais. Naquele tempo não existia computador. Já pensou? Vendia um fogão em vinte e quatro vezes. Tinha que fazer vinte e quatro duplicatas. (risos) Eu tinha que trabalhar muito pra dar conta. Era uma empresinha, empresa média. Tinha um faturamento grande, muito bom. Tinha oficina. Lá, era uma miscelânea. Tinha esse negócio de vender eletrodoméstico. Vendia peças de automóveis e tinha oficina e vendia carro. Então, era bem complicado. Não era muito fácil não. 


P/1 – E quais eram as suas responsabilidades lá?


R – Eu já entrei como contadora. 


P/1 – Tinha uma equipe?


R – Tinha. Tinha uma equipe, tinha o nosso chefe. O nosso administrador era o seu Humberto Ciampolini (?), que era responsável pela área fiscal. Era bom porque tinha essa pessoa lá, que tinha muito conhecimento, ele era uma pessoa bem madura, bem... Conhecia bem a área fiscal. Eu aprendi muito com ele. Ele era sócio lá. Depois ele ficou sócio da empresa. Foi diretor lá até quase a empresa ser vendida. Eu fui pra ser contadora, eu era contadora, era chefe de escritório também, não era muito e tenho muito passado pela parte administrativa da empresa.


P/1 – Em que medida se entrecruzavam, digamos assim, os negócios de Irmãos Garcia com a CTBC.


R – A CTBC. Essa história é interessante, porque eu me lembro do seu Alexandrino. Nessa época que eu entrei nos Irmãos Garcia, seu Alexandrino já tinha a CTBC, mas ele não havia se desligado. Ele era Presidente lá dos Irmãos Garcia. Ele era o Diretor Presidente. E ele ia todos os dias. Ele era muito... Achava interessante ele com o seu Agenor, eles eram dois irmãos que tinham um relacionamento assim muito próximo, muito estreito. Eu achava engraçado que ele chegava de manhã lá, toda manhã. Isso eu via. Ele ia todos os dias lá.


P/1 – Seu Alexandrino? 


R – Seu Alexandrino. Ele chegava, entrava na sala do seu Agenor: “Bom dia”.Estendia a mão. Pegavam na mão um do outro: “Bom dia”.”Bom dia.”   Aí sentava ali... Ele tinha uma sala. Seu Alexandrino tinha uma sala lá, que era  aqui no prédio antigo ainda, ali na Afonso Pena, e o escritório ficava...A gente subia uma escada e tinha a sala do escritório. E tinha uma divisória de madeira com vidro, que era a sala do seu Alexandrino.  Tinha estante, tinha os documentos dele, a mesa dele.  Ele chegava, tinha um sofá de couro marrom, muito bom, muito confortável, e ele todos os dias dormir uma sonequinha. Ele ia depois do almoço.Ele chegava lá, entrava lá pra sala dele e ficava aquele silêncio. Falavam baixinho. Nessa hora não podia conversar (risos) Não podia conversar alto nem bater à máquina.  Sshiii silêncio.  Ele dava a cochiladinha dele lá, toda tarde. Era raro o dia que ele não ia lá.


P/1 – Muito tempo?


R – É. Aí ele ficava lá uma meia horinha só. Dava uma cochiladinha. A gente sabia que ele estava deitado lá no sofá dando cochiladinha.  E aí quando: Rumm rumm,  rumm.  Tinha acordado. Aí liberava, podia bater na máquina, conversava.Todo mundo falava baixinho no telefone, porque era a hora do repouso dele. Ele saia: “Boa tarde”. “Boa tarde”. Passava todo sério lá e ia embora. A hora que ele saía: não tinha uma vez que não tinha um comentário. A gente comentava dizendo: “Ah. Hoje ele dormiu pouco. Hoje não sei o quê”. De vez em quando ele me chamava pra saber das coisas. Perguntava, chamava lá. Como é que estava. Mas, era interessante.


P/1 – Que retrato a senhora faz dele? A senhora seria capaz de descrevê-lo?


R – Ah, seu Alexandrino? Ele era uma pessoa bem... Como que eu vou dizer? Não sei, porque na verdade, o contato que eu tive com ele foi mais de mesmo ambiente, porque trabalhar com ele direto, nunca trabalhei. De vez em quando ele ia me inquirir sobre os problemas da empresa. Mas eu me lembro dele, que ele era um velhinho bem alegre. Adorava moça. Gostava demais de ver moças. Moça era com ele mesmo. Ele era assim, muito vivo. Quando eu o conheci, ele devia ter uns setenta e poucos anos. Setenta, por aí. Mas ele adorava ver moça. Ficava todo alegre. Chegava lá e gostava de ir onde as moças estivessem. Mas ele era bem alegrinho.


P/1 – Nessa época, voltando um pouco, como é que a senhora podia nos descrever essa relação de Irmãos Garcia - CTBC. Eram dois negócios grandes...


R – Diferentes, assim. Seu Agenor contava a história, que quando eles compraram a CTBC, que o seu Alexandrino comprou. A história toda você sabe não é?  Como foi a compra da CTBC. Ele contava assim: que o seu Alexandrino investiu tudo que ele tinha na CTBC. Então, que ele falou pra ele, que ele podia ficar tranquilo que Irmãos Garcia garantia a vida dele. Tanto é que ele era Diretor Presidente lá e ele recebia... Os honorários maiores que Irmãos Garcia pagava, era pra ele, seu Alexandrino. Então, ele viveu durante aqueles anos todos com a retirada que ele fazia nos Irmãos Garcia. Então, ele não precisava da CTBC pra nada. Ele não precisou da CTBC pra se manter durante aqueles anos do começo da empresa. Eu lembro da gente pagar os honorários dele. Todo dinheiro que ele precisava, ele buscava lá nos Irmãos Garcia. Irmãos Garcia durante muito tempo pagando e segurou a barra dentro dessas empresas, que lá era realmente a empresa maior, onde tinha mais capital. E era uma empresa que tinha um capital de giro bom, bem significativo. 


P/1 – Chegava a fazer a cópia para chegar a fazer a expansão da telefonia?


R – Sabia. Sabia sim. Eu me lembro de eles terem buscado dinheiro lá. Na verdade era a caixa forte da época no grupo. Tinha bastante dinheiro empregado no grupo.


P/1 – E eles só tomavam decisões que tinha aquiescência do Seu Agenor?


R – Lógico, lógico. Ele era um entusiasta. Seu Agenor, ele era entusiasmado com a CTBC e com o crescimento do grupo. Tanto é, que eu me lembro direitinho, que quando foi feita a primeira reunião pra se fundar o grupo... Lembro direitinho o dia... Eu estava nessa reunião.


P/1 – A senhora sabe o dia? A data? Conta pra gente.


R – Eu me lembro que foi uma reunião, não me lembro se foi na CTBC, acho que foi na CTBC. Foi quando se começou a falar em grupo, que ia nascer um grupo. Aí, eu me lembro que eles fizeram uma reunião que foi num evento que teve lá no Hotel Presidente, no saguão do Hotel Presidente. Foram todas as empresas. Ou não? Não foram todas não. Foram as concessionárias que nesse ponto já tinha a Intermac (?), a Lariça, Irmãos Garcia, tinha Táxi Aéreo, as que eram ligadas ao ramo de veículos, transporte. Todas as empresas. E aí, pela primeira vez o doutor Luiz falou em grupo DC, que estava nascendo o grupo DC.


P/1 – O doutor Luiz foi nessa reunião?


R – Foi, foi. Nós acabamos de criar. Porque lá eles estavam entusiasmados com essa história de sinergia, uma palavra que eles gostam muito, que ele falam muito, e que as empresas precisavam se unir, e que elas juntas ficariam mais fortes. E foi  aí que começou, porque Irmãos Garcia era uma empresa à parte. Ela não tinha nada a ver com o grupo DC. Ela era separada. E aí, acho que foi em 1975. Depois que nós entramos pro grupo e ganhou o nome DC na frente, porque até então era Irmãos Garcia só, foi depois que nós mudamos pra concessionária lá em cima, na Afonso Pena. Nós mudamos pra lá em 1977, então essa transformação, essa mudança pra DC Irmãos Garcia deve ter sido em 1978, 1979. E aí, o capital passou… Eles fizeram uma apólice capital lá pra emprestar, porque estavam todos descapitalizados nessa época, porque tinham feito a construção. Tinha feito aquela construção enorme lá, daquele quarteirão todo e estavam começando a construir os barracões, onde era o Departamento de Peças e que hoje onde é a CTBC Celular. Então, o grupo, nessa época fez um investimento lá...


P/1 – Na DC?


R – Não em Irmãos Garcia e ali é que deu a reversão do capital, porque seu Agenor era sócio majoritário e com essa inversão ficou minoritário. Ele não era mais majoritário. Ficou ele. O maior acionista era Alexandrino e a DC Algar. Naquele tempo era só Algar ainda.                

   

P/1 – A Algar veio depois, não? 


R – Logo depois. O primeiro nome do grupo era... Impar. Estou fazendo confusão. Algar é agora. Era DC Impar, que era a holding que controlava as empresas. 


P/1 – O que se significou pro seu trabalho e para a visão que a senhora tinha dos negócios?


R – Ah. Mudou. Mudou bastante, porque você fazendo parte de um grupo, você tem que prestar contas. É diferente. Apesar de que a gente estava já bem modernizada, a empresa, mas entrar para um grupo, foi um avanço. Aí, a gente não trabalhava só pra gente. Por exemplo, no meu setor administrativo, eu tinha que falar com outra esfera. (risos) Mudou bastante.


P/1 – Significou mais responsabilidade? 


R – Sem dúvida. Mais responsabilidade.


P/1 – E como é que a senhora, que estava num ramo da entidade que não era exatamente telefonia, telecomunicações, como é que a senhora começa a conviver com uma empresa de telefonia que está se expandindo facilmente, criando um vínculo com as comunidades. Como foi isso?


R – Bom, pra nós, pra gente como profissional, a mudança foi esse impacto mesmo, de passar a pertencer a um grupo e também no sentido da administração mesmo. Mudou bastante, porque aí, seu Agenor já não era mais aquela pessoa isolada ali, comandando aquela empresa. Ele tinha que prestar contas pra holding, mudou a visão dele. Ele também teve que mudar totalmente de comportamento empresarial e fazer parte de um grupo. Agora, pra nós foi isso. Pra gente como profissional foi muito bom, porque logo, logo o grupo começou a investir na gente, nas pessoas. Então, nós começamos a receber treinamento. Eu nunca tinha tido assim um bom treinamento, porque, como concessionária Chevrolet, a indústria proporciona bastante isso aí pra gente. Eu era acostumada a ir muito em eventos, em reunião de negócios. Pra mim, assim, não teve um impacto muito grande não, porque ir pro grupo DC foi bom porque a gente começou a fazer parte de um universo maior. Tinha as reuniões, os encontros, as reuniões gerenciais aonde você ia pra prestar contas, mostrar sua empresa. Começou isso profissionalmente no meu setor administrativo, foi muito bom. Me enriqueceu muito. Mas eu já tinha certa prática disso aí, porque eu estava acostumada a frequentar os cursos da General Motors. 


P/1 – Diante dessa nova postura, a senhora se reportava a quem?


R – Bom, primeiro o seu Agenor, que era o meu diretor e em segunda instância era o pessoal lá da diretoria, da administração do grupo. Aí, logo logo veio o seu Mauro Grossi, que durante um certo tempo era o seu Wilson que era o diretor nosso. Mais esse outro tinha muito contato com a área financeira mesmo, do grupo. Porque transitava muito dinheiro entre uma empresa e a outra. Então, você estava sempre em contato, um contato diário mesmo. 


P/1 – Quem que era seu contato com eles?


R – Com o grupo? Dona Ilce (risos), que ela era a tesoureira lá. Prestar contas era com dona Ilce. Dona Ilce era nosso contato direto.


P/1 – E era bom o contato?


R – Ah. Ótimo. Ela era uma pessoa fora do comum, a dona Ilce.


P/1 – Fala um pouquinho dela.


R – Falo sim.  Ela era uma pessoa muito humana, muito gentil, muito fina. Uma pessoa espetacular. 


P/1 – Vamos precisar trocar a fita.


R – De novo? (risos)


P/1 – Dona Mirna, essa revolução, digamos assim, gerencial lá na holding, muda todos os processos de trabalho, amplia responsabilidades e cria novas sinergias? (risos)


R – Aí foi uma época nova. Foi como começar tudo de novo, porque a empresa mudou. Mudou bastante, depois dessa ligação com o grupo. Mudou em todos os  aspectos. Deixa pensar. Porque a gente era uma empresa totalmente autônoma, tudo era decidido pelo seu Agenor e mais ninguém. Aí, ele teve que dividir realmente as responsabilidades. Em certos aspectos foi bom, e ao mesmo tempo pra uma pessoa já mais velha e já mais acostumada a ser independente, a tomar suas próprias decisões, acho que pra ele não foi muito fácil essa integração. Foi bem traumática. Mas aos poucos ele foi se adaptando, até que chegou a ponto de... Mas aí, é a tal história, (risos). Quando... Se encontraram dois pólos antagônicos, ele de um lado, o Mário Grossi do outro. Eram duas pessoas de temperamento forte, mais que antagônicos. Aí, houve o choque inevitável. Choque de opiniões, de maneira de encarar os negócios. Era tudo diferente. Eram duas culturas diferentes. Houve aquele choque. E o seu Agenor já vinha, há bastante tempo atrás ele já vinha falando em preparar alguém, que ele queria aposentar, que já estava cansado. Estava chegando a hora já de ele passar a bola. Mas, foi meio de repente que isso aconteceu. Aí, ele foi um pouco triste.


P/1 – Como é que foi esse episódio?


R – Não sei se eu devo falar sobre isso. É uma questão tão... Não sei. Mas ele foi embora pesaroso de estar indo. Isso eu posso garantir. 


P/1 – Lembrando da chegada do senhor Mário Grossi coincidiu com o momento em que o grupo havia, pelas análises que se fazia na época, havia inchado. Tinha a CTBC...


R – Ele tinha crescido horizontalmente muito e as coisas ficaram mesmo um pouco fora de controle, e precisava de uma pessoa pra...


P/1 – Mas antes da chegada de Mário Grossi, essa situação complicada,  principalmente pras pessoas como a senhora, que estavam na área de crítica ou financeira ou administrativa, ele ficava numa situação meio desconfortável, não?


R – Em um certo aspecto, não. Porque, por exemplo, Irmãos Garcia era uma empresa muito sólida. A gente tinha uma tranquilidade muito grande, era uma empresa que tinha um capital de giro muito bom, ela não passava por problema nenhum, o negócio de veículos estava indo de vento em popa, foi naqueles anos do milagre. A gente estava em expansão, a empresa, tanto é que construiu um enorme de um prédio do lado, pra negociar peças, e do outro, outro, onde era, é a Image, onde é hoje a Image que era a Mototil, a revendedora de motos Yamaha. Então, a empresa tinha crescido. Ela estava bem. No nosso caso lá, as outras empresas de veículos podiam até estar em crise, mas a gente não. A empresa estava bem. 


P/1 – A senhora diria que essa situação, vir a ser um grupo, teria comprometido essa expansão?


R – Olha, o negócio de veículos, eu trabalhei nele trinta anos, então eu aprendi que é um negócio assim: que ele tem que ser muito, mas muito bem administrado, mas tem que ter um enorme jogo de cintura pra se gerir um negócio de veículos, porque é um mercado muito louco. Muda… Durante o ano, ele muda várias vezes de panorama. Agora, imagina ao longo dos anos. Então, é um negócio muito específico. A pessoa tem que realmente entender daquilo, gostar e saber levar, entendeu. Ele depende de decisões muito rápidas. Por exemplo, está uma crise no país. Então, você tem que mudar toda a estratégia, em questão de um mês tem que mudar tudo. Não pode esperar, depender de decisão de fulano, de beltrano, da aprovação deste nem daquele. Não. Tem que ser ali na hora. “Vamos mudar de estratégia pra fazer isso aqui hoje e pronto.” Tem que ser assim. O negócio. Então, o impacto que teve para nós, foi esse, porque aí, passou a depender da decisão de outros. Você não podia decidir ali, o que devia fazer. “Vamos aplicar capital nisto?” Não. Tinha que tomar opinião, saber se podia fazer aquilo ou não podia. Então, a empresa realmente, ela ficou um pouco engessada. Ficou dura. No negócio de veículos não pode ser assim. Nesse aspecto, eu acho que, por um lado, foi supervantajoso ter entrado pro grupo, porque a gente ficou com uma retaguarda em todos os aspectos; financeiro, profissional, administrativo... A gente já tinha retaguarda aquele... Como é que eu posso dizer? Um ancoradouro mesmo. Você podia ficar tranquila, que você estava trabalhando, que você fazia parte daquele grupo, estava tranquila. Mas, ao mesmo tempo, tinha esse problema, da mobilidade do negócio.


P/1 – Isso não comprometeu o clima dos negócios propriamente dito?


R – Acho que sim, tanto é que a decisão veio em seguida, que era sair do negócio.  


P/1 – E essa decisão foi tomada já no tempo do seu Mário Grossi?


R – Já. O Mário Grossi, na verdade foi ele que (riso) tomou a decisão de sair do ramo de negócio. 


P/1 – Que tipo de impacto isso causou nas pessoas como a senhora e as pessoas de sua equipe, como é que foi?


R – Foi um choque. O seu Agenor já estava afastado da empresa. Mas, foi um choque. Foi uma coisa assim... Eu não sei. Você vai vivendo o dia a dia, e aí você acaba até entendendo o motivo e as razões. Realmente a… Como eu vou dizer? A intenção era boa, era direcionar o grupo pro caminho dele, pra vocação real do grupo, que era realmente o ramo de comunicação. Não tinha nada a ver com veiculo na história, não tinha nada a ver. Mas, fazia parte. A empresa, por exemplo, Irmãos Garcia foi a empresa mãe.  Era uma empresa assim... Por exemplo, eu achava que eles nunca iam se desfazer dela, que tinha tudo começado ali. Por exemplo, seu Alexandrino, o xodó dele era a Irmãos Garcia. Várias vezes eu ouvi ele falar isso. A empresa era uma empresa modelo no grupo. Não podia nunca... Se ele fosse dele, nunca eles tinham se desfeito dela, porque ele não permitiria. Lembro de uma passagem muito interessante: uma vez que, logo que a empresa entrou pro grupo, a DC Impar, ele ligou um dia...  Ele tinha feito uma mudança na composição do capital e passou as ações do seu Alexandrino pro grupo. Aí, ele me ligou, muito bravo comigo: “Onde já se viu?” Como eu tinha feito aquilo, de transferir as ações. Que ele tinha assinado um livro de registro de transferência. Não sei se ele não tinha entendido, como é que foi, eu sei que ele não sabia como tinha acontecido aquilo. Aí ele me ligou bravo. Eu falei pra ele: “Não fomos nós que fizemos. O livro foi pra lá, e eles fizeram tudo lá. Foi o Departamento Jurídico da DC Impar que fez. Não fomos nós”. E a S/A, quando muda  as ações, a empresa mesmo não muda nada. Ela não altera em nada. Altera lá na esfera da diretoria só. Aí, ele ficou bravo demais, e: “Manda esse livro pra cá que vai reverter isso tudo pra trás outra vez. Não é pra tirar minhas ações do meu nome”. Aí, acho que era por uma questão fiscal, não podia ficar no nome dele. “Então, vou pôr no nome da Maria.” Da Dona Maria. Então, transferiram as ações tudo outra vez, pro nome de dona Maria. Então, dona Maria ficou sendo a maior acionista do Nordeste durante um bom tempo. 


P/1 –_______


R – Assim, pra ele era um negócio... Você vê, era tudo farinha do mesmo saco. Afinal de contas, os donos eram os mesmos. Não tinha nada a ver. Mas ele não queria. Ele queria que no papel ainda tivesse o nome dele. Ele não queria misturar o que era dele, com o que era do grupo.


P/1 – Com essa reestruturação, dona Mirna, qual foi o destino tomado pela senhora e por sua equipe?


R – Na Irmãos Garcia? A maioria das pessoas ficaram lá nos sucessores, na Realcar. A maioria dos empregados ficaram lá. Muito poucos não ficaram.


P/1 – Realcar?


R – Realcar.


P/1 – Era uma outra empresa?


R – Era. Um outro grupo, que comprou a concessionária. 


P/1 – E esse negócio a senhora acompanhou?


R – Acompanhei. Foi agora em 1997. Ela foi vendida pra esse grupo, que é um grupo de Brasília. 


P/1- Certo. E continua com a bandeira Chevrolet e tudo?


R – Continua. No mesmo lugar, no mesmo prédio. Inclusive, o prédio lá ainda é de propriedade do... Agora dos herdeiros do seu Agenor. Eles alugam o prédio. 


P/1 – E a senhora, e a equipe?


R – A minha equipe ficou lá. Aí, eu... Logo que vendeu e tal, eu já falei que eu não ficaria. Porque logo veio o convite pra eu continuar lá, tomando conta da... Eu teria que continuar tomando… Alguém teria que tomar conta do acervo, do nome Irmãos Garcia, da empresa, que ela não morreu. Ela ficou viva ainda. Ela foi vendida, mas a empresa não morre assim não. Permanece. Então, eu fui pra tomar conta dela, e acabei tomando conta dela e das outras. Todas as outras que foram fundidas. Elas ficaram comigo. Eu precisei ir, porque eu estava há trinta e três… Falei: “Porque eu vou mudar agora, nessas alturas do campeonato?”. Fiquei trinta e três anos, vou ficar até. E trabalhava na Algar, é muito bom né.


P/1 – E no que consistia esse cuidado com as empresas que foram desativadas, em que consistia o trabalho?


R – Meu trabalho? Brincam muito lá comigo, que foi causa dos falecidos. Agora todos os falecidos estão comigo, (risos) que são nove. Nove falecidos estão comigo. Eu tomo conta da parte fiscal delas, por exemplo, durante bem uns cinco ou sete anos, você tem que tomar conta daquela vida, da vida do passado dela. Então tem muitos, uma infinidade de aspectos que a gente tem que tomar conta. Do condicionamento dos arquivos até a empresa passar realmente aqueles anos que surgem os problemas fiscais. Estou lá, tomando conta dela. Irmãos Garcia, que era uma filha pródiga, bem estruturada, tanto assim do lado fiscal, era uma empresa limpa, sem problema nenhum. Ela virou a CTBC Celular. O CGC é o mesmo. Só mudou o nome e por incrível que pareça, ficou até no mesmo endereço. (risos) Hoje ela é CTBC Celular. Eu me orgulho muito de ver que ela foi escolhida pra ser CTBC Celular, porque realmente ela não tinha nenhum problema.  Era uma empresa enxuta, sem...


P/1 – Interessante.


R – Eles me chamaram e perguntaram: “Tem algum problema?”. Falei: “Não, não tem problema nenhum. Pode fechar os olhos e...”. E realmente. O pessoal da CTBC foi lá e nunca me ligou pra falar: “Oh, eu não estou vendo... tem uma passagem que está atrapalhando”. Não.


P/1 – Ela era a empresa modelo, não?


R – Era. Ela era realmente uma empresa modelo.


P/1 – A constituição do grupo Algar, ficou muita coisa diferente daquela primeira ideia de holding, da DC Impar, ou foi assim uma mudança de denominação e algumas acomodações?


R – Não, não. Mudou realmente. Depois, com o tempo, a gente foi vendo que foi crescendo e foi ampliando os horizontes, e realmente a gente viu que se transformou num grupo. Aquele embrião, que no começo era assim (risos)... De pouquinho em pouquinho foi se tornando realmente um grupo. 


P/1 – A sua atividade de hoje, no grupo, qual é? 


R – É, como eu disse. Eu estou tomando conta lá do... Por enquanto eu estou fazendo isso, tomando conta das empresas que fecharam. 


P/1 – Do grupo? Da holding?


R – É. Na verdade, eu estou locada na ISPES (?), que é uma empresa criada pra prestar serviços pras outras. Pra prestar serviço administrativo. Então, é nessa área que eu estou trabalhando. Gerencio... É com contabilidade que a gente trabalha. Agora, eu, na verdade, eu faço mais é a parte fiscal. Tomo conta dos problemas que surgem na área fiscal, dessas empresas que estão fechadas. 


P/1 – Tinha sentido pra senhora, pessoal, que quando a senhora teve de sair da Irmãos Garcia?


R- A mudança foi… Engraçado. Eu sabia que um dia eu ia chegar. Foi assim interessante. Por exemplo, pra mim, foi eu ter me afastado daquela equipe que eu trabalhei durante tantos anos. Pense bem. Eu passei… Eu me formei, equipes, pessoal tudo passando pela gente. Você deixa aquilo tudo pra trás e vai começar tudo de novo. Mas, na verdade, eu fui lá pra Algar e continuei convivendo também com uma porção de pessoas que eu já conhecia, que eu já tinha convivido. Porque a gente tinha muita ligação com o pessoal da Algar, principalmente com o setor de auditoria e contabilidade. Então, as pessoas não eram estranhas pra mim. Eu fui pra um ambiente que me era familiar. Então, eu me senti em casa lá. Aquilo não fez diferença nenhuma, porque era um lugar que eu já ia regularmente. E as pessoas também, me receberam muito bem. Eu acho que era assim tipo “prata da casa”. Sempre me relacionei bem com o pessoal lá da Algar, então foi muito bom. Pra mim não teve grandes impactos. Não foi tão grande. Talvez se eu não tivesse ido pra lá, seria. Mas eu continuei vendo as mesmas pessoas. De vez em quando eu encontro com o doutor Luiz. Ele vem, me abraça. A gente não encontra muito, mas se você passa muito tempo sem ver, quando vai... Você  sente que você é uma pessoa que realmente é querida. Eu me sinto querida lá. 


P/1 – A senhora teria uma relação funcional fácil com o doutor Luiz? 


R – Não. Funcional não. Às vezes, nas famosas reuniões gerenciais, comerciais, nessa fase a gente encontra debate, conversa e tudo. Na hora de prestar contas, encontrava. Pelo menos de três em três meses estava lá. (risos)


P/1 – Com essa experiência toda, principalmente a vivência que a senhora teve nesse grupo, o que a senhora enxerga pela frente? 


R – Espero (risos) e faço força que continue como até hoje, crescendo sempre. Acho que não tem como não dar certo mais. Pra mim é um grupo que tem um futuro brilhante. Eu falo isso pelo tipo de negócio que eles acertaram.Ter entrado pra ele.


P/1 – O que a senhora seria capaz de dizer pra alguém que estivesse entrando hoje no grupo? Um associado recém contratado. O que a senhora diria pra ele?


R – Que ele é um felizardo, porque realmente é um grupo, é uma maneira diferente de trabalhar. A gente vê pelas outras pessoas que a gente conhece, a vivência que a gente tem. Eu vou te dar um depoimento meu, pessoal que é o exemplo disso tudo.  Estou te contando isso e você já vai entender o gesto. Dois anos atrás, em fevereiro de 1999, eu descobri que eu tinha câncer de mama. Então, é um choque. Uma doença dessas, nessas alturas da vida. Eu tive que fazer cirurgia... Eu já estava lá na Algar. Mas eu era contratada, fizeram um contrato comigo, eu prestava serviço e tudo bem. Aí, depois que eu fiz a cirurgia, que eu passei pelo tratamento... Primeiro, que eles me deram toda a assistência, apesar de eu não ser associada do grupo, ser simplesmente uma contratada. Mas fui muito bem acompanhada. Eles me deram toda a assistência. Aí, depois que eu fiz a cirurgia e estava fazendo o tratamento, e eles me chamaram, e simplesmente me propuseram... O que eu achava de deixar de ser contratada e ser admitida como associada de novo, porque eles achavam que me daria mais segurança, mais tranquilidade, tinha convênio médico que cobria todos os meus possíveis problemas que viessem pela frente. Então, como disse uma amiga minha, isso não existe. Simplesmente não existe. Quer dizer, numa hora dessas, qualquer outra empresa, se você é contratada mesmo, é o que eles querem é se livrar de você. Eles fizeram o contrário. Me contrataram de novo pra eu ficar tranquila. Acho que, diante disso não preciso mais... Acho que grupo nenhum tem essa filosofia.


P/1 – E fundamentalmente perfeito não é?


R – De apreço mesmo, pela sua pessoa, por ser aquilo que você fez. Acho que foi porque eu realmente fiz, porque eu acho que durante todos os anos que eu trabalhei no grupo, eu dei o melhor de mim. E realmente pra mim foi um grande reconhecimento que eles tiveram com a minha pessoa. Tanto que hoje, já tem três anos que eu estou contratada, três não. Dois. Porque foi logo que eu melhorei. Porque durante esse tempo todo que eu fiquei doente, eu não parei de trabalhar, eu continuei. Fazia meu tratamento, mas eu fazia de quinta feira e sexta. Domingo. Segunda já estava lá de volta. Porque o Hospital das Clínicas aqui é barra, a gente passar por ele. Mas, graças a Deus eu passei bem, não tive problema nenhum. Consegui fazer os dois tratamentos ao mesmo tempo, o de Rádio e o de Quimio, e estou bem. Eu fiquei um fiel retrato do grupo. Então, eu não preciso dizer mais nada. 


P/1 – O que a senhora achou de ter dado esse depoimento?


R – Foi muito bom. Foi ótimo. Fiquei envaidecida de vocês terem me convidado e posso dizer que minha vida, mesmo que tivesse ido fazer Jornalismo em São Paulo, tivesse feito aquilo que eu queria, teria sido de uma outra maneira, mas também, o de ter ficado em Uberlândia, e de ter ido trabalhar com essas pessoas, não fez nada pra pior.  Às vezes até melhor. Porque, eu trabalhando aqui, eu tive tempo de me dedicar à minha família, criei... Graças a Deus, a família é pequena, mas hoje em dia tá todo mundo encaminhado. Fiquei com uma sobrinha. Minha irmã teve dois filhos e a menina acabou ficando comigo. Hoje ela já formou, é engenheira elétrica, começando a carreirinha dela agora. Sempre dei um suporte bom pra minha família, todo mundo hoje em dia, está bem encaminhado na vida. Então, uma coisa compensou a outra.


P/1 – Muito obrigada por esse lindo depoimento que a senhora deu para nós.


R – De nada. 


P/1 – Obrigado mesmo. Foi muito bom. Você não sabe o quanto foi importante esse depoimento para nós...


    


 

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