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Da admiração nasceu uma grande amizade

História de: Antônio Carlos Salmito
Autor:
Publicado em: 14/11/2021

Sinopse

Antônio Carlos Salmito nasceu em Teresina, capital do estado do Piauí, no dia 17 de setembro de 1945. Filho mais velho de 11 irmãos, seu pai era empresário na área de transporte e sua mãe era comerciante. Desde muito pequeno trabalhou na loja da família.

Em 1962, com 17 anos, decidiu migrar para o Rio de Janeiro indo morar na casa de amigos da família. Enquanto terminava os estudos, passou a frequentar a repartição de seu protetor no Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE) para aprender o ofício. 

Depois serviu ao exército no Forte de Copacabana, onde fez amizade com Cesar Maia. Quando saiu, voltou a trabalhar, de forma remunerada, no Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE) fazendo as estatísticas de consumo de energia elétrica.

Convidado por um amigo, em 1969, passou a trabalhar na área de planejamento, assessorando a diretoria de FURNAS, onde conheceu o fundador da empresa e então presidente, o Dr. John Cotrim. Também em 1969, se casou.

Sua graduação em Administração de Empresa foi paga por FURNAS. 

Encerrou sua carreira no Comitê Brasileiro do Conselho Mundial da Energia.

Devido à grande amizade e admiração criada ao longo dos anos de trabalho em Furnas, Salmito cuidou do Dr. John Cotrim nos últimos anos de sua vida. 


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História completa

Um pequeno excerto sobre a vida de Salmito

[...] quando ele (Jonh Cotrim) era presidente de Furnas, que foi inaugurar a primeira unidade geradora da Usina de Furnas, já tinha se instalado o golpe de 64 e ele avisou para o professor Antônio Dias Leite Junior, que era Ministro de Minas e Energia, vamos inaugurar, mas eu vou citar que o projeto foi de Juscelino Kubitschek. E o ministro tem que aceitar e engolir. E ele citou com todos os Castelos Brancos e pretos que estavam lá. Ele não perdoava não. Porque ele não era político, ele não era político. Para tu ter uma ideia, ele passou de Juscelino até ir para Itaipu, não era para qualquer um, tinha que ser muito respeitado.

 

Eu não tinha nem terminado o ensino médio quando “estagiei” no Conselho Nacional de Água e Energia Elétrica, mas isso abriu portas para FURNAS, por quê? FURNAS era uma empresa de quê? De energia elétrica. E tinha um presidente, chamado John Cotrim, que era um homem de visão. Ele não se confirmava só com informações do Brasil. Ele foi indicado pelo Presidente Juscelino Kubitschek, lá atrás, quando ainda era o governador de Minas, para ser o representante da Cemig, recém-criada, no comitê brasileiro do Conselho Mundial da Energia. E isso era uma coisa Internacional, e que mexia com essas estatísticas. E uma pessoa que tinha se preparado sem saber a mexer com tudo isso, nacional e internacionalmente, fui eu.

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

FURNAS era no escritório central, na Rua São José, 90. Nós ficávamos à disposição da diretoria. Tinha umas tarefas diárias e algumas coisas extras, que era assessorar a diretoria também. Com o tempo, isso gerou um pouquinho de ciúme, o que é natural. Um moleque novo desse chega aqui, e toda hora é chamado lá no 3º andar? Que era onde ficava a diretoria. O nome do moço, do chefe, era Afrânio, e ele dizia: “Até hoje ninguém me chamou para tomar um guaraná, é só para me dar trabalho”. “Porque eu estou aqui a não sei quantos anos, nunca me chamaram”. “Bom, eu não tenho nada a ver com isso, lamentavelmente”.

E eu trabalhei direto com o John Cotrim. Meu amigo, eu vivi vários momentos ali, até porque, no final da vida, quem tomou conta dele foi eu. Ele era uma pessoa inteligentíssima, eu nunca vi nada parecido, nada. E a primeira coisa que me surpreendeu, é que eu trabalhava no 9º andar, lá no escritório da Rua São José, 90, e a diretoria era no terceiro, tá lá até hoje, lá sediou Itaipu, uma certa época. 

Eu fui admitido e recebi o número 3000, redondo. Uns vinte dias depois, foi admitido um engenheiro alemão, brasileiro, formado no Brasil, para ser assistente do Dr. Cotrim. Por que alemão? Olha como que o homem era o diabo. O alemão, engenheiro, entendia de energia nuclear. E estava iniciando o Brasil pensar em nuclear. Porra! Ele saiu aí, no mínimo 20 anos na frente do primeiro, impressionante! E o camarada era como eu, nós éramos novos. 

Um dia esse camarada me chamou, ele tinha uns dois metros de altura. Aí nós estávamos conversando, assim, e o Dr. Cotrim entrou pelo fundo da sala, que tinha a entrada aqui, e lá no fundo tinha uma porta também. O Dr. Cotrim entrou, deu uns 3 passinhos na nossa direção, mas só quem estava vendo era eu, porque o homem estava aqui, e eu do lado de cá. Ele disse: “Boa tarde!” O homem virou - aquele bicho de dois metros - “Boa tarde”. “Quero dar um aviso a vocês”. “Pois não”.  “Escrevam o que tiver que escrever na primeira folha, eu não leio a segunda”. Agora, meu amigo, o que você perguntasse a ele, ele sabia te responder. 

Eu entrei como auxiliar de escritório, no dia 19 de agosto de 69. E no mesmo ano eu me casei! Casei em julho e entrei lá em agosto. Na sequência, me formei, ajudado pela empresa, que naquela época auxiliava quem queria estudar. Me formei em Administração de Empresas. 

Eu fazia parte da equipe, que preparava as coisas para a diretoria. Por exemplo, o presidente fazia conferência, a gente tinha que preparar todas as coisas. E era muita coisa! E ainda ajudava nas tarefas da assessoria. 

Era escrever, rascunhar, mostrar qual era a melhor alternativa, “olha isso aqui”, chamar atenção para as coisas. Não podia ser um cara muito acomodado não, porque o homem atropelava. Para se ter uma ideia, depois que ele saiu de FURNAS, ele foi para Itaipu, Eletrobrás. Ele foi o diretor técnico de Itaipu. Eu soube, por fonte fidedigna, que o Presidente Geisel o chamou para ser o presidente da empresa, mas o presidente Stroessner, Presidente da República do Paraguai, não aceitava ter um civil na cabeça de Itaipu. Não aceitava um civil para ser o cara responsável pela obra de Itaipu. 

E o Dr. Cotrim também fazia muitas palestras, fazia muita coisa. Ele era uma pessoa que trabalhava para a diretoria da Eletrobrás. Ele dava consulta e tudo mais. O trabalho com ele era de imediato, tu não se programavas, não. O Dr. perguntava um troço e você tinha que responder. Nos trabalhos de assessoria, toda vez que tem essas conferências, essas reuniões, tem um cara ali de cócoras, atrás, que faz o bilhetinho- “e olha aqui” - toda hora. Porque o Presidente, o diretor, não é obrigado a saber tudo. “Então, o que é o assunto”? Aí vai. Então a gente estava sempre fazendo isso. 

Um dia, estava num sábado à noite em casa, ele me telefona às 23:40 da noite - de um sábado! - “Salmilto”. Eu digo. “Pois não, Dr. Cotrim?” “Qual é a potência instalada no Brasil hoje?” -  23:40 do sábado! - E ele sabia a quem estava pedindo. Vinte minutos depois, ele telefonava e eu dava o número a ele. E o número certo, porque se tu errasses com ele, tu só erravas uma vez, não errava a segunda. Mas era incrível, o que você perguntasse, ele sabia, eu nunca vi nada igual. Por exemplo, eu frequentei muito a casa dele, tanto com a minha família, eu e minha mulher, com os amigos e tudo. Um dia, eu estou ali sentado, e tinha uma bancada, uma bancada bem grande. Tinha uns oito livros. “Dr. Cotrim, oito livros aqui?” “É, por que?” Eu digo. “Mas não é muito?” “Não, para mim, não”. “O senhor lê isso?” “Leio.” “Como?” Ele disse: “Olha, é muito fácil, eu começo lendo um aqui, aí eu canso e vou passando de um pro outro, no final, eu li todos”. Era impressionante. Lembro que uma vez eu fui com ele e a minha mulher para Itaipu, inclusive, ele já não era mais diretor de lá, ele já tinha se aposentado. Quando a gente chegou já tinha um carro nos esperando no aeroporto. Ele mostrou tudo de Itaipu, que ele conhecia como a palma da mão dele. Mas era uma coisa, assim, fora de série.

Desenho de um círculo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

E ele (John Cotrim) não te dava tempo de pensar em qualquer coisa não, porque ele absorvia as pessoas que trabalhavam com ele, terrivelmente. Estou te dizendo cara, ele me telefonou um dia às 11h30 da noite, para perguntar a potência. Aí de prêmio cara, o que eu ganhei foi quando ele estava perto de morrer, o presidente da Eletrobras, que era o José Luiz Alquéres, me chamou e disse: Salmito, tu toma conta do Dr. Cotrim para mim. “Como? Ele tá ruim”. “Você é uma das poucas pessoas que dialoga com ele e tal, ele gosta de você.” Aí eu fiquei com ele, e aprendi muito. Quando ele ia tomar aquelas bolsas de sangue, ficava lá 7 horas com ele, conversando e tal, ele passando as coisas. Então aprendi muito, ele passava para você conhecimentos. Como é que ele manjava aquilo tudo? Ele era uma máquina, ele não tinha sossego. Uma das curiosidades, ele gostava, de todo domingo... Ele era inglês né. O Dr. Cotrim era inglês. Então, todo domingo às 9 horas da manhã, o motorista dele, pegava o carro, ele sentava atrás, e ele dava umas voltas pelo Rio de Janeiro, lendo o jornal. Mas dando uma volta, para não ficar parado.


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