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Trajetórias revisitadas

História de: Trajetórias revisitadas
Autor: Lia Cristina Lotito Paraventi
Publicado em: 25/02/2015

Sinopse

Este é um registro que retratada o percurso de formação da 1ª turma do curso MPonline, do Museu da Pessoa. Foram 100 dias intensos em que mediadores e cursistas se envolveram no que Paulo Freire sempre pregou: quem ensina também aprende. E quantas aprendizagens! Participantes imersos na revisitação de suas trajetórias, na construção da linha do tempo, histórias e baús e um passo além: aprender a ouvir e reconhecer a história do outro. Coisa simples a primeira vista, óbvias até, mas que ao terem vivenciado a grandeza e as dificuldades do (re)viver suas memórias trouxeram a perspectiva de um novo paradigma de escuta atenta e respeito à história e ao momento do outro.

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“ Ao escolher estudar as “Histórias de Vida” assumo a minha nudez nos textos produzidos, esse presente fala sobre “mim mesma”. Escolher esse curso parece-me que tem a ver mais comigo do que com a tecnologia social da memória, propriamente. Mas, se, além disso, é a minha partilha narrar uma parte das minhas memórias, prefiro iniciar nesse tempo presente, no qual tudo efetivamente começa”.

E é pedindo licença para invadir as tantas histórias que selaram o marco zero do curso Mponline que inicio esse registro. Histórias de encantamento e de espaços que tentam conter, reter o tempo vivido. Histórias vindas de todos os cantos, de São Paulo e Jundiaí, de Lages e Joinville, de Curitiba e Belo Horizonte, do Rio de Janeiro e Salvador e até de Houston – TX – EUA e Argentina. Memórias de pessoas que nos emprestaram suas vidas, que nos conduziram a reflexões profundas e a novas certezas, ainda que provisórias, e que alimentam o desejo do Museu da Pessoa de disseminar a Tecnologia Social da Memória para um público ainda maior, em um espaço sem fronteiras possível e concretizado pelas Tecnologias de Informação e Comunicação.

O grupo contou com a presença virtual de 17 cursistas que durante 100 dias puderam ter a experiência de vivenciar, na prática o conceito e a metodologia. Foram dias intensos e tensos, em um movimento recursivo de ensinar e aprender. Mediação e participação se envolviam naquilo que Paulo Freire sempre pregou: quem ensina também aprende. E quantas aprendizagens! Participantes imersos na revisitação de suas trajetórias, na construção da linha do tempo, histórias e baús e um passo além: aprender a ouvir e reconhecer a história do outro. Coisa simples a primeira vista, óbvias até, mas que ao terem vivenciado a grandeza e as dificuldades do (re)viver suas memórias trouxeram a perspectiva de um novo paradigma de escuta atenta e respeito à história e ao momento do outro.

O conteúdo do programa, a plataforma e o portal utilizados, as atividades a serem desenvolvidas, a mediação, a mobilização e o tempo destinado à realização total do curso geraram expectativas que ora impulsionavam os cursistas, ora os retraiam. Curso a distância é assim mesmo. A pesquisa mostra que apenas 37% dos que iniciam o completam, mas o Mponline certificou 57% dos participantes. Foram vários fatores que contribuíram para que se atingisse essa meta: a própria metodologia talvez seja o fator mais importante dessa conquista, mas o diferencial mesmo está na mediação de um curso online. Os próprios participantes colocaram que a mobilização contribuiu significativamente para que não desistissem e continuassem firmes em seus propósitos iniciais. Todos tinham um motivo especial que os levaram a se inscrever nesse curso, tais como:

• Conhecer a Tecnologia Social da Memória;

• Utilizar metodologia em projetos em andamento;

• Uso pessoal/familiar da metodologia de registro da história oral;

• Utilizar método em pesquisa (ponto de memória em São João Maria, terreiros de matriz africana, estudar feminismo por meio de histórias, histórias de professores, imigração italiana);

• Curiosidade sobre a metodologia e o tema;

• Conhecer mais métodos de pesquisa e coleta de dados;

• Desenvolver estas atividades em projetos que estão em andamento: ponto de memória no caminho de São João Maria, e uma caminhada pelos terreiros de matriz africana da cidade;

• Estudar mais o método de coleta de dados (auto) biográficos;

• Aproximar de um trabalho de qualidade no campo;

• Aprender... ampliar conhecimentos formativos... ;

• Conhecer a metodologia de trabalho do Museu e partilhar desta experiência e conhecimento e aprofundar em metodologias que ajudem a fazer um trabalho cada vez melhor ao registrar trajetórias biográficas;

• Instrumentalização para a realização e orientação de pesquisas científicas, bem como para o registro de atividades ligadas à cultura popular;

• Contribuição para o tema de dissertação de mestrado: "A constituição da identidade docente em histórias de vida de professoras";

• Adentrar o universo da história de vida, mobilizando a própria história e conhecendo de forma mais profunda esta metodologia para utilização em pesquisa;

• Aprimorar o conhecimento de aspectos teóricos e metodológicos referente à memória social e desenvolver ações educativas que tenham a memória como um elemento central;

• Aprender a técnica; • Learn about the techniques you are using in the MP;

• Apropriação da metodologia para realização de registros pessoais mais intensos;

• Na temática da preservação da memória; • Investigação em Historia Oral;

• Registro e divulgação de ações, sobretudo voluntárias, de integração e desenvolvimento social em Belo Horizonte; • Conhecimento a respeito de como realizar registros de histórias de vida;

• Utilizar esta metodologia em dissertação.

Os objetivos destacados davam força e motivação para os cursistas sedentos em aprender e apreender a metodologia e causavam inquietações na equipe do Museu. Como projeto piloto, tudo era muito novo e as perguntas não calavam: estamos no caminho certo? O tempo para realização de cada atividade está adequado? A forma de dialogar no virtual corresponde às expectativas dos participantes? Estamos construindo o sentido de pertencimento de grupo? Os retornos da mediação são adequados e demonstram a competência exigida pela turma? Por que há períodos em que todos somem? O processo de mobilização estimula a participação e continuidade ou perturba o momento singular do cursista? Por que nos emocionamos tanto com essas histórias? Por que uma pessoa deseja publicar sua história na internet? Por que outras não nos autorizam a publicação? Por que uma história tão rica tem que ser publicada como “autor desconhecido”? Estamos preparados para reflexões profundas sobre Tecnologia, história e memória? Como a academia ainda está tão distante do uso de ambientes virtuais de aprendizagem? Será que no final do curso teremos atingido nossas metas pessoais e institucionais?

Muitas dessas perguntas foram respondidas ao longo do percurso e outras tantas povoam nossas dúvidas temporárias, mas o que podemos avaliar pela qualidade das produções é que foi possível interagir de tal forma com os participantes que estes poderiam registrar a própria história do processo de participação no curso. Outras histórias. Foram intensos, despojados, sensíveis e naturais. Quantos momentos de “não sei”, “preciso de ajuda”, “não estou conseguindo” “tenho que conseguir sozinho”. Também foram muitas as dificuldades em relação à tecnologia e aos diferentes ambientes. Houve necessidade até de telefonemas para que seguisse passo a passo, quase que de mãos dadas para se chegar à solução do problema. Havia também aquele que mesmo na dificuldade não aceitava ajuda. Queria, de uma forma quase insana, encontrar a solução sozinho, reflexo de uma personalidade forte e desafiadora de si mesma.

Não era um grupo grande, mas imenso em desejos de realização, de construção de identidades, de se mostrar e se retrair. Imensas foram as imersões, por vezes assustadoras. Pessoas que “sumiram” por 15 dias e deixaram dúvidas difíceis de serem sanadas dada a virtualidade do curso. Por que se ausentam? Não estão gostando do curso ou da atividade? Estão trabalhando muito e sem tempo? Se desmotivaram? Cadê vocês? Não nos deixem aqui sem respostas e sem saber o que pensar? E de repente, aparecem!Também tinham dúvidas sobre as escolhas a serem feitas. Linha do tempo? Como eram difíceis os marcos e rupturas. E as histórias então? Qual? Por quê? Para quê? Para quem? E apesar da ausência nos presenteavam com suas memórias, baús, linhas do tempo sensivelmente produzidas, e que nos tiravam do estado de atenção e tensão e nos recolocavam de volta em nossas zonas de conforto.

O que dizer de um curso que possibilitou que todos, a seu modo, crescessem, aprendessem uns com os outros, se permitissem ter dúvidas e certezas, oferecessem suas próprias vidas, reflexões, frustrações? O que dizer de um grupo que se expôs e se esmerou em suas produções? E daqueles que nos frustraram por desistirem no meio do caminho, mesmo sob pressão e muita insistência para que continuassem? Daqueles que escreveram e não publicaram? O que dizer sobre nós, da equipe, que queríamos 100% e não conseguimos? Esse curso foi vida. A vida que pulsa no retrato do cotidiano envolto em dúvidas, certezas infundadas, frustrações. Resultado de ações e sentimentos de pessoas competentes, capazes de se emocionar e ao mesmo tempo lidar com o novo e suas reverberações. O que fica? A certeza da continuidade e do encontro de tantos outras Valerias, Dalvacis, Emilianos e tantos outros que enriquecem e dão sentidos aos nossos fazeres quando falam de coisas assim:

“... coisas que parecem encontradas dentro de mim: “mais urgente que a determinação das datas é, para o conhecimento da intimidade, a localização nos espaços da nossa intimidade.” ( Gaston Bachelard), mistura de lembranças de tantas mudanças, tanto de casa, quanto de cidade. Resultado disso é que não me sentia nem paranaense, nem matogrossense, talvez um pouco catarinense ou também paulista. Mas não sei ao certo, depende do vento. Valéria Tessari

“... Nas escadarias, do Instituto de Educação, uma escola pública, estão as minhas lembranças de menina, as brincadeiras, as correrias, as conversas com os amigos. As paredes das salas de aula guardam segredos, pois viram os bilhetes escondidos, as risadas, o esforço e as dúvidas de uma menina-moça estudante”. Aliciene Fusca Machado Cordeiro

“... Cada familia nos expresaba la gratitud por nuestra visita y nos convidaba con comida. Hacia la noche, Juan nos llevó en taxi a nuestro camping y antes de despedirnos nos invitó a celebrar junto con él y su familia el día de Nuestro Senhor do Bonfim. Participamos en la procesión el 2 de febrero, llegando hasta la iglesia del Nuestro Senhor do Bonfin. Por unas horas, fuimos parte de la familia de Juan, quienes para mi representen hasta el día de hoy la generosidad incondicional”. Autor desconhecido

“... Lamento no poder contarte mis proyectos y mis preocupaciones, Pepo, pero me quedo con lo bueno, con lo que compartimos”. Emiliano Polcaro

“... Eu olhava para as suas fotos sobre o caixão e nada entendia. Por que a Dona Rosa, sua mãe, enterrava seu filho? Por que a magia do meu aniversário não funcionou?” Juliana Testoni

“ O que contar? O que não contar? Será que isso realmente interessa a alguém? Como não invadir as histórias das pessoas que cruzaram minha vida ao longo do tempo e que se entrelaçaram nas minhas próprias histórias?” Luciana de Oliveira Leal Halbritter

“... Obrigada aos índios Charrua, às rodas de chimarrão; aos lampejos de aprendizado e às amigas Aicha e Helena, parte da diversidade que me faz e faz nosso País. Zélia Maria de Oliveira Fajardini

“... Claro que não demorou muito para eu descobrir de onde vinham os gibis: da banca de jornal, é claro! E os livros, das livrarias, é claro! ” Emilio Jardim

“... A ciência da educação sempre norteou minha formação. Entre 1993 e 2005 trabalhei na Escola Casa Via Magia, cuja experiência foi como uma base estruturante na minha identidade profissional. A proposta pedagógica da escola incluía uma sala de aula ao ar livre, que era o quintal/laboratório, onde realizávamos atividades interativas com as crianças e professores”. Dalvaci Araujo Porto Santiago

“... Meses depois, nasce a menina que não existia no olhar do médico apressado e pouco atento à vida, como tantos na história da saúde desse país naquela época, pesando nada mais que quatro quilos. Porque apareceu das águas, por intercessão da santa, companheira das aflições de tantos homens e mulheres que naqueles tempos não tinham muito mais a quem recorrer, foi chamada de Aparecida”. Simone Aparecida Ramalho

“... Parece que traduzir em palavras uma lembrança é deixar que ela fuja um pouquinho e ganhe vida própria”. Luciana de Oliveira Leal Halbritter

“...Neste fio limite entre ficção poesia escrevo minha história, escolhendo aquilo que desejo deixar no tempo, respeitando os saberes ancestrais buscando inovações para uma história que está sempre a se transformar, assim descobri quem eu quero ser, arteiro da história da minha terra”. Adilson Freitas vulgo Grillo Seco

“...Um educador cuja história de vida dos seus pais o faz valorizar o acesso à educação e como isso pode ser um mecanismo social de trans Minha mãe completou recentemente 80 anos e o fato de todos os filhos terem cursado ensino superior é um motivo de felicidade que ela considera uma dádiva da vida. Sendo hoje um educador, a história de vida dos meus pais me faz valorizar o acesso à educação e como isso pode ser um mecanismo social de transformação”. Alexandre Augusto de Oliveira

E como diz Luciana: fragmentos de história são feitos de saudades, das lembranças que não construímos por falta de tempo, por contingências da vida, por esquecer que a vida é finita e achar que sempre dá para fazer amanhã. No curso Mponline, deixamos que este amanhã se traduzisse no hoje. As histórias foram escritas e publicadas. O Museu da Pessoa zela por elas!

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