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História

Cultivando vidas

História de: Dovanildo Barbosa Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2008

Sinopse

Paranaense de Ponta de Pedras, Dovanildo passou a infância em contanto com a terra. O cultivo e a pesca, oriundas da atividade familiar, lhe trouxeram experiência nas relações comunitárias, bem como os serviços que fazia para a Pastoral. Escolhido pela comunidade como líder e agente comunitário de saúde, ingressou no PACS em 1992. A mudança por ele promovida nas pessoas e o auxílio à elas prestado constribuíram diretamente para o melhoramento da qualidade de vida da comunidade de Mangabeira.

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História completa

P/1 - Senhor Dovanildo, vamos começar com você dando o seu nome completo, dizendo onde você nasceu e a data de nascimento.

 

R - Dovanildo Barbosa Rodrigues, eu nasci em Mangabeira, município de Ponta de Pedras, no dia 20 de outubro de 1977.

 

P/1 - Setenta não, 57.

 

R – Cinquenta e sete.

 

P/1 - Vamos falar um pouco da história dos seus antepassados. Tudo bem conversar sobre isso?

 

R - Pode sim.

 

P/1 - O que é que você sabia da história dos seus avôs, pelo lado do seu pai?

 

R - Pelo lado do meu pai eu acho que os meus avós tinham uma vida... Para mim, acho que era boa, porque quando eu vi meus avós, eles viviam bem, só que ele tinha um problema. Por exemplo, o meu avô por parte do meu pai... Porque ele bebia né, e quando ele bebia, tinha problema com a velha, queria bater. Mas quando passava aquilo, ele era outra pessoa. Outra coisa também, ele tinha um negócio de ser assim, macumbeiro, sabe? Ele entendia essas coisas assim também, e com isso ele fazia alguma coisa pelo pessoal que chamava. Ele era muito procurado por isso, para fazer trabalho. Fazia alguma coisa dessa parte aí.

 

P/1 - E como é que era o nome do seu avô?

 

R - Franquilino Rodrigues.

 

P/1 - Ele veio de onde?

 

R - Olha, ele veio de um lugar que chama (Tupanina?), para cá. Do outro lado assim, já não pertence à Ilha de Marajó, aqui já para a banda de Belém.

 

P/1 - Aqui no Pará, mesmo?

 

R- No Pará mesmo, ________.

 

P/1 - E ele fazia o que na vila? Ele era o que?

 

R - Ele sempre foi pescador, pescava muito, e foi agricultor uns tempos, mas ele gostava mais era de pesca mesmo. Tinha a canoa dele, tinha a linha dele, tudo, mas gostava mais de pesca mesmo.

 

P/1 - E a sua avó?

 

R - Minha avó trabalhava muito, ela gostava muito de lavoura, de trabalhar em roça. Roçado, cortar arroz, fazer roça para plantar mandioca, milho, essas coisas assim. E também trabalhava muito para os outros, cortando arroz, sabe? Aí quando chegou numa idade, acho [que] numa faixa de uns 40, 50 anos. Ela ficou [com] falta da vista, não enxergou mais. Ela teve problemas, sabe, passou muito tempo com aquele problema, até... Veio a falecer, depois que faltou a vista dela, pronto, ela não trabalhou mais, ficava só em casa. E morreu, morreu mesmo.

 

P/1- Pelo lado da sua mãe o que é que você conhece dos seus avós?

 

R - Meus avós... Por exemplo, meu avô pelo lado da minha mãe eu perdi logo cedo. Quando ele morreu eu estava pequeno, com a faixa de dez anos, por aí assim.

 

P/1 - Também era da mesma região?

 

R - Daqui era, esse era de Ponta de Pedras, Mangabeira, no caso. Eu gostava muito de lavoura, ia trabalhar mais em roça. Colocava aqueles roçados grandes, juntava todo aquele pessoal para ajudar ele a roçar, para plantar, para colher, e toda a produção dele levava às vezes para Belém. Às vezes vendia pra intermediário, para as pessoas que vinham comprar, mas ele gostava mais de lavoura mesmo. Ele pescava também, gostava de pescar, mas gostava mais de roça. A minha vó, mesma coisa também, ela gostava muito de roça.

 

P/1 - E você conheceu a sua avó bem, também?

 

R - Eu conheci minha vó. Minha vó está fazendo sete dias, hoje, que ela faleceu.

 

P/1 - Qual é o nome dela?

 

R - Maria Barbosa.

 

P/1 - E o seu avô?

 

R - Belarmino Barbosa.

 

P/1- Estamos falando por parte de mãe, né?

 

R - Isso, é.

 

P/1 - E por parte do pai?

 

R - É Franquilino Rodrigues.

 

P/1 - E ela?

 

R - É Dejanira da Conceição Rodrigues.

 

P/1 - Bom, então pelo que eu entendi os seus avós todos são da mesma região, viveram ali. Pelo lado da sua mãe também já eram originais dali, nasceram ali, ou vieram de outro lado?

 

R – Realmente, a minha vó nasceu um pouco retirada, mas aqui em Ponta de Pedras mesmo, só que em outro lugar. O meu avô não, ele já é original de Mangabeira mesmo, né? A minha vó mesmo não era, só de outro lugar retirado assim, um pouquinho mais.

 

P/1 - Bom, e os seus pais então se conheceram ali em Mangabeira mesmo? Se casaram ali, viveram a vida inteira, nunca saíram dali?

 

R - Nunca saíram. Meu pai e minha mãe nunca saíram. Desde que se uniram, se casaram e começaram a viver uma vida boa. O meu pai e minha mãe viviam uma vida boa mesmo. Eles trabalhavam a questão de agricultura, sempre era agricultura, depois o meu pai passou a ser pescador, também pescava, gostava de pescar. Depois ele passou a trabalhar no campo mesmo, trabalhava muito, quando o meu pai não trabalhava, ele ficava doente. Todo dia ele tinha que sair para o trabalho era _______ e enxada, ______ e enxada, todo dia.

 

P/1 - E a terra era deles mesmo?

 

R - Era, uma parte era deles e outra parte era de cooperativas, porque quando chegou cooperativa, eles começaram a comprar terreno, aí começaram a dar para o povo, para os agricultores trabalharem. Eles iam cultivando a terra... Às vezes eles trabalhavam para outras pessoas também, trabalharam muito, meu pai trabalhou muito para outras pessoas.

 

P/1 - Trabalhava de meeiro, trabalhava e dividia o lucro?

 

R - Dividia o lucro, é.

 

P/1 - E ele tinha terra?

 

R - Tinha.

 

P/1 - Seu avô também tinha terra?

 

R - Meu avô tinha.

 

P/1 - Seu pai é vivo?

 

R - Meu pai faleceu também, está fazendo seis anos que ele faleceu.

 

P/1 - E ele deixou terra para vocês?

 

P/1 - Olha, só um terreninho assim, né, pouquinho. Não deixou tanto assim, não, pouquinha terra.

 

P/1 - Vocês são em quantos irmãos?

 

R - Dez irmãos.

 

P/1 - Você é o mais velho?

 

R - Não, eu sou o segundo.

 

P/1 - O que é que você se lembra da sua infância?

 

R - A minha infância... Para mim foi boa. Eu digo com toda sinceridade que foi boa, porque quando eu era... Que tinha oito, dez anos, eu já sabia que eu era uma pessoa entendida, eu já conhecia um pouco da vida, principalmente porque eu era muito obediente aos meus pais. Meu pai, minha mãe, eu era muito obediente a eles, eu nunca (degredi?) as coisas deles. Meu pai gostava muito de mim, eu gostava muito dele, e aí começou a minha vida, quando fui fazer um curso de __________, em 1973.

 

P/1 - Curso de?

 

R - De técnico agrícola, né, auxiliar de técnico. Depois, quando eu terminei o curso, eu deveria ficar por lá empregado, mas só porque eu gostava muito do meu pai e da minha mãe eu tive que voltar para cá, aí não fui mais, fiquei por aqui. Mas a minha infância sempre... Eu gostava, por exemplo, de bola, gostava muito de bola, quando era um pouco menor eu gostava muito. Gostava também muito de lazer, sair assim com os amigos, dar uma voltinha por aí, de vez em quando uma festa também, a gente gostava muito. Então eu sentia que a minha vida, no tempo da minha infância, era muito boa, para mim foi boa demais. Primeiro porque eu tinha o apoio de meus pais, eu só fazia o que meus pais me mandavam.

 

P/1 - Seu pai era muito bravo?

 

R - Não, não era muito bravo. Para mim era bom, era bom mesmo, eu gostava muito dele.

 

P/1 - Você começou a trabalhar cedo na lavoura?

 

R - Cedo, 10, 12 anos eu já começava a fazer alguma coisinha ajudando ele.

 

P/1 - O que é que você fazia na lavoura?

 

R - Por exemplo, ele colocava nós − pelo menos eu − no trabalho que fosse um pouquinho mais leve, para fazer aquele trabalho, enquanto as outras coisas, pesadas, os outros faziam.

 

P/1 - O que é que era um trabalho mais leve?

 

R - Por exemplo, fazer um plantio de maniva, que é só colocar... Eles cavavam um buraco e a gente ia plantando, colocava aquelas hastes, fazia colocar dentro de um ________, colocava e ia plantando.

 

P/1 - Que planta você plantava?

 

R - Mandioca. E a estaca de maniva, para depois gerar a mandioca, porque ela vem grande aí a gente arranca, faz mandioca. Então a gente fazia isso, começava a fazer logo isso aí, outros trabalhos assim, leves, a gente fazia, ajudávamos bastante. Até mesmo capinar, a gente capinava para ajudar um pouco, também.

 

P/1 - E você estudava?

 

R - Estudava.

 

P/1 - Onde você estudava?

 

R - Olha, eu estudei lá em Mangabeira mesmo.

 

P/1 - Tem uma escola lá?

 

R - Tem uma escola, aliás, tem agora duas escolas lá. Tem mais um casulo de crianças lá, mas eu comecei a estudar em um colégio que é bastante antigo, eu estudava lá, desde criança, eu comecei a estudar lá.

 

P/1 - É escola estadual ou de padre?

 

R - Estadual, lá é estadual. Tem uma estadual e uma municipal.

 

P/1 - E como é que é a vida, ou era, na comunidade? O que você se lembra daquele tempo?

 

R - Eu naquele tempo comecei a entender a vida de comunidade mesmo. Quando eu tinha uma faixa assim, de uns 15 anos, eu fui entender porque a vida de comunidade... O pessoal... Começaram... Mas eu não entendia tanto assim. Depois o pessoal me convidava, eu fui começando a procurar entender o que era comunidade, o que era trabalhar em grupo, trabalhar junto, o que era ir em uma igreja, participar das coisas, aí já fui entendendo. De lá para cá as coisas foram mudando, parece que o pessoal começou a ter um crédito na gente, começaram a colocar gente para ser dirigente, para ser coordenador, para ser alguma coisa do grupo, e por aí a gente foi, aumentando as nossas condições lá dentro do trabalho da igreja, trabalho de comunidade, começamos a conhecer o pessoal, o pessoal começou a conhecer a gente, também. Através disso a gente foi continuando.

 

P/1 - E como é que era a vida da comunidade, assim... A comunidade, como é que era naquela época? Era muito pobre, muito pequena, o que é que mudou daquela época para agora?

 

R – Antigamente... Por exemplo, lá em Mangabeira, antigamente o pessoal trabalhava assim, no mato rendado de outra pessoa, porque tinha mato lá. Eles colocavam tantas tarefas... Assim, eu trabalhava naquela área... Por exemplo, naquele tempo só cultivava malva, aí colocavam, tiravam, faziam aquele processo, né?

 

P/1 - Malva e mandioca?

 

R – É, malva e mandioca, mas malva também. Malva cultivava muito naquele tempo, no tempo que não tinha comunidade ainda. Não tinha comunidade, era só o pessoal trabalhando, cada um por si, sabe? Aí, por exemplo, lá a pessoa que era dona do roçado, eles convidavam aquelas duas, três, quatro, cinco pessoas para ajudar ele, e ele pagava aquele pessoal, assim que era. Depois foi terminando o mato, não tinha mais mato para o pessoal roçar, para fazer plantio de milho, de arroz, de malva, não tinha mais. O que aconteceu? Gerou a cooperativa, cooperativa veio há 33 anos. Começou a comprar terreno, sabe?

 

P/1 - Que cooperativa é essa?

 

R - É cooperativa agrícola.

 

P/1 - Como é que chama?

 

R - (Copiop?), aí, através dos padres... Os padres vieram... Inclusive a gente tem um bispo, que ele que começou. Veio da Itália e começou a fazer esse trabalho por aqui.

 

P/1 - Você sabe o nome dele?

 

R - Sei, Dom Ângelo. Começou a comprar as terras, começou a dar para o povo, fazer comunidade, fazer grupo para trabalhar já em grupo. Já não era individual, era em grupo. Pegava um grupo de 12, 15 pessoas, aí começaram a fazer aquele trabalho, a gente plantava o arroz, esquentava o feijão, plantava o milho, plantava toda essa lavoura.

 

P/1 - Aí depois...

 

R - Depois eles colhiam. Aquilo era tudo para eles, para o produtor que trabalhava lá.

 

P/1 - E não dividia com ninguém?

 

R - Nada, tudo era deles, enquanto antigamente não, por exemplo, o senhor rendava a área de outra pessoa, tinha que pagar o arrendamento. Ou quando não tinha que dividir no meio para ele, uma parte para o lavrador, uma parte para o dono da terra, toda vez era assim.

 

P/1 – Por que essas pessoas que plantavam no terreno comprado não tinham terra para plantar?

 

R - Não tinham. É porque o padre começou a comprar as terras, começou a doar as terras para o pessoal e a fazer grupo de trabalho para poder fazer aquele trabalho. Eram 15, 18 pessoas de cada grupo, sabe? Eles iam, plantavam... Era arroz, milho, feijão: tanta coisa! Melancia...

 

P/1 - Aí melhorou a vida?

 

R - Aí melhorou um pouquinho. Melhorou porque nesse tempo aí as terras também eram boas. Eles dão muita produção, principalmente de melancia, de arroz, de milho que o pessoal plantava. E feijão mesmo, toda produção era deles.

 

P/1 - Tinha muita miséria quando o senhor era pequeno, lá?

 

R - Não, nesse tempo a gente fica pensando assim, nesse tempo não poderia ter porque era um pouco mais farta a questão da alimentação. Por exemplo, no tempo que eu tinha... Uns dez anos atrás, lá na minha comunidade, Mangabeira era muito farto, tinha muito peixe. Eu moro perto da beira da praia, era muito fácil ir lá, colocar uma rede ou colocar uma linha, a gente pegava peixe, dava uma lanceada e pegava peixe. Quer dizer, a questão da alimentação era muito farta, o povo não tinha dificuldade nesse negócio de alimentação naquele tempo. Às vezes você tinha tanto peixe, tantas coisas para vender e você não tinha para quem vender. Aí era difícil, estragava... Então a dificuldade era o dinheiro, o emprego que não tinha para ganhar, sempre assim, porque não tinha quem desse um trabalho assim, para a gente ganhar um dinheiro, tudo.

 

P/1 - Tinha comida mas não tinha dinheiro?

 

R - Isso, era realmente assim que era o negocio. A gente tinha o peixe para vender, não tinha para quem, porque todos tinham uma _________ para ir lá pescar um peixinho, trazia, dava uma redada, pegava uma roda de peixe e trazia. Naquele tempo, né?

 

P/1 - E para ir vender lá no Belém, não tinha jeito?

 

R - Não tinha jeito. Era difícil, porque naquele tempo era só canoa à vela, para ir à Belém tinha que passar...

 

P/1 - Qual a distancia de Belém?

 

R - Olha, fica bastante longe.

 

P/1 - Quantas horas?

 

R - Agora, atualmente, de motor, gasta quatro horas daqui em Belém, aqueles que correm bem. Agora, de vela, saía como hoje e só ia chegar amanhã em Belém, era dificuldade, não tinha condição, então naquele tempo era assim, poderia sentir uma pobreza, mas ao mesmo tempo uma riqueza, porque tudo que você plantava também, você escolhia um pedaço de terra para fazer um roçadinho, o que você plantasse dava, porque era terra de mata, grande, e tinha muita produção naquela terra. Se você plantasse milho, dava; se plantasse feijão, dava; se plantasse arroz, dava; tudo que você plantava dava, porque as terras eram boas. Hoje é diferente, as terras só dão com adubo, se não for com adubo, não dão.

 

P/1 - E tinha muita doença quando o senhor era pequeno?

 

R - Não, não tinha muito não. Era razoável, razoavelmente. Não tinha tanta assim não.

 

P/1 - Que doença você lembra que tinha?

 

R - Olha, eu me lembro que realmente, no tempo quando eu era menor, tempo dos meus avôs, meu pai, a doença que dava mais era congestão, que eles chamavam.

 

P/1 - O que é que era congestão?

 

R - Congestão hoje é o derrame, que paralisa a pessoa, dá aquelas coisas que treme tudo, dava muito isso. E também febre, essas coisas assim que dava, mais era isso.

 

P/1 - E por que você acha que dava tanta congestão lá?

 

R - Olha, não sei não. Poderia assim, pensar que naquele tempo o pessoal era mais despreparado, porque... Conto uma passagem para o senhor, do meu avô: Meu avô estava em uma roçada, ele veio do roçado. Era uma faixa do meio dia quando ele chegou na casa dele, ele vinha com o corpo muito quente, a cabeça quente, todo agoniado. Ele só chegou na casa dele, trocou a roupa e foi para a praia − porque nós moramos perto da praia − , aí mergulhou. Quando ele saiu de lá, sentiu já muita dor de cabeça, começou com aquele problema. Não tinha experiência, não tinha quem orientasse. Hoje não, hoje é diferente, muito diferente.

 

P/1 - Ele teve derrame?

 

R - Teve, só que não pegou direito, só por passagem. Então tudo isso... Hoje não, as coisas estão muito mais mobilizadas, esse trabalho está muito bom.

 

P/1 - Bom, aí você se lembra de remédio da sua infância? Que remédio você se lembra? Tinha remédio lá?

 

R - Tinha, os meus avós faziam muitos remédios, esses remédios da terra. Minha vó fazia muito remédio de plantas, ela sabia muito de remédio mesmo, e eles realmente só tratavam o pessoal com remédio de casa.

 

P/1 - Você se lembra de uma receita da sua mãe?

 

R – Assim, por exemplo, amor crescida, pariri, aquela outra...

 

P/1 - Para que é que serve amor crescido?

 

R - Amor crescido a gente pisa, por exemplo, um baque assim, você pega um baque, soca bem e coloca em cima. O pariri a gente faz, toma um chá para anemia, é muito bom.

 

P/1 - Pariri? É uma planta?

 

R – Pariri é uma planta que dá grandona e tem aquelas folhinhas. A gente tira, deixa secar, faz o chá e toma.

 

P/1 - É uma folha?

 

R – Isso, é uma folha. Então meus avós usavam mais essa parte, só planta assim de terreiro mesmo, porque eles conheciam, eles conheciam. Minha vó conhecia demais esse negocio de plantas, eles nunca compraram remédio em farmácia não, não usavam esse remédio, era só remédio da terra. Eles faziam chá, faziam xarope para tomar.

 

P/1 - E a sua mãe e o seu pai também?

 

R - A minha mãe e o meu pai também usavam muito isso.

 

P/1 - E você estudou, então, um tempo, depois fez o curso de agronomia, e aí voltou para a comunidade? Onde é que você fez o curso?

 

R - Em Capitão Poço.

 

P/1 - É também uma comunidade perto?

 

R - Não, é um município do outro lado da ilha do Pará.

 

P/1 - Já não é aqui no Marajó?

 

R - Não, não é no Marajó. Eu saía meio dia de Belém e chegava dez, onze horas da noite lá.

 

P/1 - É para o Sul?

 

R - É para o Sul, é bastante longe.

 

P/1 – Por que você foi parar lá? Para fazer esse curso?

 

R - Eu fui enviado pela paróquia daqui, Ponta de Pedras, pela diocese.

 

P/1 - Ficou quando tempo fazendo esse curso?

 

R - Fiquei um ano e pouco.

 

P/1 - Aí você voltou e começou a fazer o quê?

 

R – Olha, eu voltei e comecei a trabalhar nesse trabalho, a diocese me dava todo o apoio. A gente ensinava a plantar, ensinava como fazer o plantio, a questão de, por exemplo, arroz, milho, mandioca, melancia, tomate, maracujá, algodão, todas essas culturas a gente fazia, fazia lá e passava para o pessoal, para os agricultores aqui da terra, porque cada comunidade dessa tem um grupo de trabalho que a gente faz. Cada comunidade tem, e a gente ia em cada comunidade ensinar como fazer, como plantar, como fazer aquele processo para produzir. A gente foi muito tempo, trabalhou um bocado de tempo, só que depois nós trabalhávamos mais em convênio também_____, nós trabalhávamos com a (SUDAM?), com esses órgãos assim nós trabalhávamos. Depois eles extinguiram, quer dizer, não tem mais acesso, aí nós ficamos assim... A diocese não tinha como nos manter, porque não tinha condições de nos pagar, aí nós trabalhávamos, dávamos nosso trabalho assim, já sem...

 

P/1 - Quantas pessoa faziam esse trabalho?

 

R - Era uma faixa de... O meu grupo lá. Eram dois grupos, um grupo de 15, e outro de 16, dois grupos de trabalho. A gente ajudava o pessoal, dava assistência, então cheguei a sair para outra comunidade para dar assistência também nessa questão. Ajudei muito, por exemplo, Porto de Santos, (Ilhinha?), Tijucaquara, tudo por aí a gente andou para dar essa assistência ao pessoal. (Copixauá?), são todas comunidades... Essas comunidades.

 

P/1 - Até que um dia você desistiu de fazer esse trabalho?

 

R - Nós fomos, depois, à diocese − a chefe nossa −, ela me tirou desse trabalho e me colocou em outro, para eu dirigir uma pescaria. Teve que sair em um barco da cooperativa para pescar. Aí pesquei, pesquei, mas depois não deu, porque o peixe ele dá, depois falha, aí parei. Voltei para o campo, para o trabalho, trabalhando com o pessoal. Eu já era um sócio do campo também lá do grupo, ajudava o pessoal a organizar alguma coisa de trabalho, e a comunidade lá, o pessoal faz tanto trabalho... Mesmo do campo como o trabalho de igreja, que é um trabalho que quando eu comecei nunca deixei, né?

 

P/1 - O que é que é um trabalho de igreja?

 

R - Trabalho de igreja é movimentar o pessoal, organizar... As pastorais, né, pastoral da criança, da juventude, pastoral familiar, de casais, tudo isso precisa fazer esse trabalho, e a gente fazia e faz até hoje. Nessa questão veio esse chamado para a gente fazer o concurso pelo PACS [Agentes Comunitários de Saúde]. Realmente, quando chegou esse trabalho, eu não estava na minha casa. Eu já era casado, tinha saído para o trabalho, quando eu cheguei minha esposa me avisou, ela disse: “Olha, chegou um convite para ti comparecer em uma reunião, à tarde, lá no grupo, é um grupo que tem do estado. Hoje chegou uma doutora e ela está fazendo uma pesquisa para escolher um agente comunitário de saúde da comunidade, mas quem vai escolher é a comunidade, as comunidades que vão escolher”. Aí eu realmente não sabia, digo: “É, eu vou lá, eu gosto de reunião, de participar das coisas, de saber, eu vou lá”, aí fui. Quando começou, começaram a organizar lá, aí votaram − porque foi através de votação − votaram, aí o pessoal me escolheu, me apontaram.

 

P/1 - Só você?

 

R - Não, me escolheram, teve uns que tiveram menos votos do que eu. Bom, tudo bem, eu ganhei lá, né? Vim para cá fazer o concurso, só que ainda vieram mais seis comigo para fazer, ver se conseguia passar também, mas felizmente não passaram. A gente veio para cá, passou no concurso e continuamos o trabalho até hoje.

 

P/1 - Bom, e aí, como é que foi o início do trabalho?

 

R - O inicio do trabalho... Por exemplo, vim fazer a inscrição, depois comecei a fazer a prova, o teste. Quando terminou eu voltei para a comunidade, fiz logo uma reunião com toda a comunidade, todo o povo lá, comecei a explicar o que era e o que ia acontecer, o que estava acontecendo, como foi a história, o que era que eu ia fazer. Comecei esposa para a comunidade. Depois, logo em seguida, comecei o trabalho.

 

P/1 - Tem muita gente na sua comunidade?

 

R – Quinhentas e quarenta pessoas.

 

P/1 - Quantas famílias?

 

R – Cento e dez.

 

P/1 - Você disse que tem muita casa desocupada lá.

 

R - Tem.

 

P/1 – Por que, hein?

 

R - É porque, o seguinte, esse pessoal é daqui da cidade, eles fazem, a cada... Fecham, vão no final de semana, às vezes _______ .

 

P/1 - Ah! Vai usar para lazer, para descanso?

 

R - Isso.

 

P/1 - Aqui de Ponta de Pedras?

 

R - Isso, daqui da cidade, então às vezes alguns que vão... Alguns só fazem festa lá, só vão no tempo de julho − que é o mês das férias − porque o mês de julho é muita gente em Mangabeira, porque é praia lá, uma praia bonita. Aqui em Ponta de Pedras a única que tem de praia é lá. Tem uma praia mais aqui, mas o pessoal vem bem pouco para cá, mais é para lá, para Mangabeira mesmo, é o ponto turístico do pessoal lá.

 

P/1 - Fica entre Belém e Ponta de Pedras?

 

R - Isso.

 

P/1 - Na ilha não?

 

R - Fica aqui na ilha mesmo.

 

P/1 - Não tem muitas praias, então, aqui na ilha? Achei que tivessem muitas.

 

R - É, longe assim de Ponta de Pedras, aqui tem, tem, por exemplo, Soure, tem Salvaterra...

 

P/1 - Mas é bem longe?

 

R - Bem longe daqui, Soure é bem longe daqui. Agora, aqui em Ponta de Pedras, mesmo, só Mangabeira, que é a mais preferida do povo, que está... O pessoal faz o lazer tudo lá, mesmo. Tem outra mais aqui, que é Praia Grande, mas o pessoal vai sempre mais para lá, para Mangabeira, tudo para lá mesmo.

 

P/1 - O que é que tem de festa tradicional lá na cidade?

 

R - Lá em Mangabeira tem festa de São Pedro, uma festa de tradição que a gente faz todo ano. No dia 29 a gente festeja São Pedro. Tem Santa Maria também, festeja também.

 

P/1- É sempre festa ligada à igreja? Não tem outra festa assim que não seja de tradição lá?

 

R - Sempre ligada à igreja. Agora ultimamente, dois anos, nós estamos fazendo lá... O presidente da associação está fazendo festa da mangaba, lá em Mangabeira.

 

P/1 - O que é mangaba?

 

R - Mangaba é uma frutinha que dá lá em Mangabeira, desse tamanho assim, aí a gente come.

 

P/1 - Parece açaí, não?

 

R - Não, é maior que açaí.

 

P/1 - E você faz o que com a mangaba?

 

R - A gente come assim mesmo, a gente faz o vinho e toma.

 

P/1 - Faz doce?

 

R - Faz doce com mangaba. E a gente gerou festa da mangaba, o presidente da associação, presidente do clube de mães que a gente tem também em Mangabeira. Nós geramos, já há dois anos que festejamos a festa da mangaba.

 

P/1 - O que é que acontece na festa da mangaba?

 

R – Ah, faz tudo. Faz a barraquinha da mangaba, faz as tradições da mangaba, tem aquelas misses que vão desfilar... Todo o material das misses é feito da mangaba, roupa da mangaba, tudo. A blusa, a sainha da menina, tudo. O pé, tudo.

 

P/1 - Dá para fazer tecido da mangaba?

 

R - Eles fazem, dão um jeitinho lá e fazem, enrolam todo aquele negócio e fazem.

 

P/1 - E o que mais? Tem baile?

 

R - Tem, às vezes fazem, mais assim no mês de julho, atração mais no mês de julho mesmo.

 

P/1 – Porque é férias, aí tem bastante gente...

 

R - Muita gente, quando chega o mês de julho lá na comunidade, fica muita gente.

 

P/1 - Aí dá turismo?

 

R - Dá turismo, dá muita gente.

 

P/1 - Vai gente de Belém?

 

R - Gente de Belém.

 

P/1 - Dá um dinheirinho extra?

 

R - Um dinheirinho o pessoal ganha. Até, inclusive, a minha supervisora não me dá férias no mês de julho lá em Mangabeira porque dá muita gente, tem que atender o pessoal para não deixar... Que vem gente de longe assim, aí nunca teve férias no mês de julho lá. A minha supervisora não me dá esse mês de férias porque vem muita gente de fora, e a gente não pode deixar o pessoal descoberto assim, sempre a gente está na ativa mesmo, porque dá muita gente.

 

P/1 - Você começou seu trabalho, então, como agente comunitário. O que é que você descobriu como agente comunitário, no inicio, que você não conhecia da sua comunidade?

 

R - Eu descobri muita coisa. Antes eu já tinha certo conhecimento, porque eu já trabalhava com comunidade de grupo e comunidade de igreja, porque tem uma comunidade de grupo que trabalha no campo, tem comunidade de igreja que trabalha na igreja. Eu já trabalhava, já era engajado nesse trabalho, então eu já conhecia. Por certo é que a comunidade me escolheu para me colocar nesse trabalho, porque já me conhecia. Quando foi lá a instrução para assumir esse trabalho, tinha que ser uma pessoa que morasse no local, uma pessoa conhecida, comunicativa. Tinha que ser uma pessoa que conhecesse o povo. Através deste trabalho fui aumentando meus conhecimentos com o povo, eu comecei mais a dialogar com o povo, ficou mais fácil, porque eu começava a fazer minhas visitas de casa em casa.

 

P/1 - As pessoas te receberam bem quando você começou a fazer visitas?

 

R - Isso, graças a Deus, receberam. Sempre.

 

P/1 - Não ficaram: “Ah, o que esse cara quer fazer aqui?” Perguntando um monte de coisa? Não?

 

R - Não, graças a Deus nunca aconteceu, nunca aconteceu mesmo. A gente sempre foi recebido, porque realmente, quando a gente chega, temos educação também. Sempre fui uma pessoa que gostou de ter educação, chegar e conversar direitinho. A gente sempre foi aceito, graças a Deus, até hoje, sempre fomos aceitos e sempre fomos procurados. Eu digo que já passei muitos problemas na minha vida, já passei muitos, a questão dos problemas que a gente tem resolvidos, já resolveu e tem resolvido na minha comunidade.

 

P/1 - Que problemas você tem resolvido?

 

R - Por exemplo, a questão de saúde, porque o senhor sabe que a questão da saúde... O problema, ele só abrange, no caso, à noite, sábado e domingo. Essa parte realmente, à noite, o senhor sabe, a gente não trabalha, mas no meu caso, como agente comunitário, o pessoal bate qualquer hora. Meia noite, uma hora, duas horas, três horas, e quando bate eu atendo, tenho que atender, ver o que está acontecendo, se é algum problema sério que a gente possa resolver. Às vezes que a gente não resolve, tem que trazer para a cidade, aquele problema todo, sabe? Então isso acontece sempre, sempre tem acontecido e a gente tem resolvido os problemas.

 

P/1 - Que tipo de problema acontece?

 

R - Por exemplo, no meu caso, uma pessoa chega na minha casa:  “Olha, seu Dovanildo, eu vim aqui para o senhor ir lá em casa, porque minha mãe está passando ruim, está com uma febre alta, com muita dor... Ou está com uma hemorragia...” Eu vou lá, chego, a gente detecta o problema. Vejo que aquele problema é um pouco sério e a gente procura providenciar alguma coisa logo, urgente.

 

P/1 - E quais são os casos mais comuns que aconteceu lá, de tipo de doença?

 

R – Lá realmente acontece muito... Na minha comunidade acontece mais a questão de febre, dá muita febre lá.

 

P/1 - Causada por que, a febre?

 

R - Essa febre de gripe mesmo. Porque tem a febre da malária, aquela alta, mas tem aquela febre da gripe. Aqueles termômetros que nós ganhamos, aquilo serviu muito para nós, principalmente para mim, aquilo serviu muito, porque às vezes a gente vai detectar uma febre, coloca “está com uma febre”, aí começa a fazer alguma coisinha, dá um chazinho para ver se acalma. Porque quando a febre é de gripe a gente combate, é fácil de combater.

 

P/1 - E quando não é?

 

R - Quando não é, às vezes é um problema... A gente vai para seis anos trabalhando, já temos uma ideia de como é o sistema da doença. Às vezes uma febre é provocada pela pneumonia, aquela doença, então, já é outra coisa, já não pode ficar assim, esperando alguma coisa, tem que procurar um médico e tudo. Então isso a gente tem feito lá, tem corrido muito com o pessoal.

 

P/1 - Qual foi o caso grave que você socorreu?

 

R – Grave, assim, muito grave... Olha, eu já socorri muitos casos graves, mas muitos mesmos. Durante esses cinco, seis anos, já fiz casos que até eu mesmo... Impossível, eu pensava que nem ia realizar ou resolver aquele problema, e acabou resolvendo.

 

P/1 - Conta um deles.

 

R - Por exemplo, um senhor lá na minha área − mora no meu lugar − ele gosta de carregar muita pedra, sabe? Ele carregava a pedra, colocava em um barco para encher o barco, pra vender em outro lugar, e o trabalho dele era esse. Quando foi nesse dia − era no sábado, veja bem, era no sábado − quando foi nesse dia, terminaram de colocar pedra no barco, aí foram embarcar o batelão que eles tinham, e ele, não sei que arte fez, se meteu na frente. O batelão era grandão assim, veio aqui no peito dele, imprensou na coisa do barco que o homem se arriou lá, se quebrou todo, aí vieram embora. Isso era sábado três horas da tarde, chegaram na casa dele, desembarcaram ele carregado, aí foram me chamar. Eu fui lá, cheguei e disse: “Rapaz seu caso é muito grave, nós temos que ir para Ponta de Pedras urgente, porque aqui a gente não vai resolver”. Conseguimos um carro e trouxemos para cá, para o hospital. Cheguei aqui, tinha um médico que ficou por aí. Foi até lá − ele consultou aqui − foi lá, buscou o médico e trouxe.

P/1 - Aqui na secretaria?

 

R - Aqui na secretaria. Quando fui conseguir resolver o problema dele era seis horas, aí que ele foi me dizer que ele não tinha condições, não tinha jeito aqui, só era para Belém. Nessa hora não tínhamos mais condições de levar, porque não tinha mais avião e o homem não falava mais, não se mexia mais, era só carregado. Encaminhou para Belém: “E aí, o que a gente faz?” Aí o rapaz que estava acompanhando veio e disse: “Olha, é o seguinte, eu te dou o barco se você quiser levar ele em Belém agora”. Eu disse: “É, se for para levar, a gente leva, porque não vamos deixar o homem morrer”. Começamos a agilizar as coisas, às sete horas nós saímos para Belém − sábado, isso era sábado −, fomos eu, ele e a esposa dele. Quando a gente chegou aqui fora, pegamos um tempo que quase a gente alaga, quase a gente morre aí fora. Fomos chegar em Belém uma hora da madrugada, telefonei para o meu primo e ele veio me buscar. Quando nós estávamos no pronto-socorro, duas horas da madrugada, nós entramos com ele, ele praticamente estava entregue. Fomos lá, levamos para o médico, pedimos que o médico desse tanta atenção para ele, tudo. Foram bater chapa nele, começaram a cuidar dele mesmo. Começaram a medicar ele todo, depois o médico me chamou e disse : “Olha, rapaz, é o seguinte: eu vou dar o laudo médico do teu paciente só amanhã, agora não tenho condições de dar.” “Tudo bem, amanhã eu passo aqui”. Fui lá no meu primo e de manhã, seis horas, eu estava lá. Aí quando eu cheguei no pronto-socorro em Belém, encontrei ele já sentado na cama. Ele disse: “Olha, já estou bom.” Eu disse: “O senhor já está bom?” “Já estou bom.” “Não, mas não pode, o médico tem que falar alguma coisa. Eu vou esperar o médico e ele que vai dar o seu laudo médico, se você está bom mesmo, se você tem problema, ou se você está se fingindo para ir embora”.  “Não, já estou bom”. Por azar, o médico me chamou e disse: “Olha, eu vou dar o laudo médico dele só oito horas da manhã.” Porque eu pensei que estava feia aqui essa área dele, né? Às oito horas ele me chamou e disse: “olha, é o seguinte: não quebrou, só trincou essa parte aqui dele. Eu vou imobilizar, vou passar um remédio e ele pode sair.” Aí ele começou a dar uma carreira lá dentro do hospital; ele liberou e voltamos. Quando foi quatro horas nós estávamos de volta aqui em Ponta de Pedras, domingo, com ele andando já. Isso eu acho que foi uma coisa que até mesmo eu não acreditava que fizesse isso, mas fizemos, fizemos isso.

 

P/1 - Pegou, levou e salvou o homem?

 

R - Salvamos o homem, e muitas vidas nós tiramos de dentro da cova, na minha comunidade.

 

P/1 - Conta outra aí que aconteceu? Que você tirou da cova?

 

R - Por exemplo um senhor lá na comunidade, ele era alcoólatra, muito alcoólatra, bebia muito mesmo. A família falava, ele não atendia, os irmãos falavam, ele não atendia, os filhos falavam, ele não atendia, a mulher falava, ele não atendia, e claro que a gente falava, conversava, explicava para ele as consequências, que ele podia morrer, podia deixar os filhos, a mulher, a mãe, o pai tudo, mas ele não atendia. Chegamos uma vez com ele, mas colocamos direitinho, e o homem já não tinha mais nada, estava praticamente entregue, vivia só se balançando, só tremendo. Eu digo: “esse homem vai morrer, não tem condições. Mas vamos tentar, vamos ver. Fui, conversei com ele, comecei a conscientizar ele: como era a vida, que a vida é só uma, se a gente perder essa, não tem mais outra, e ele tinha que se tratar ainda por cima, ele era epiléptico, ainda tinha problema de epilepsia. Graças é que, nesse período que ele fez toda essa travanca, não deu a crise nele, porque se dá, ele não tinha escapado. Sempre dava uma crise nele de epilepsia, e quando dava, ele caia, passava horas para voltar. Mas não deu, aí sim, aí eu trouxe ele aqui, consegui trazer aqui no hospital para a doutora... Muito trabalho, com tanta mobilização que eu fazia com ele, tudo, consegui, trouxe. A doutora medicou, passou os exames, voltamos para lá. Controlamos direitinho aquele remédio com ele, para tomar na hora certa, não faltar, e, graças Deus, ele está outro homem, recuperou. O pessoal lá ficou pensando assim... Porque quem via ele, para ver agora, recuperou. Então foi uma vitória que a gente teve, eu com uma família, os irmãos, a mulher, os filhos e a comunidade também. Aquilo todos viam, que era uma coisa muito difícil, com aquele homem se acabar assim sem... Mas não era por mim, não era pela família, pelo pai, pela mãe, pela mulher, mas por ele mesmo, até que um dia se conscientizou. Consegui que ele deixasse a maldita cachaça.

 

P/1 - Você casou quando?

 

R - Está fazendo quase 20 anos que eu estou casado.

 

P/1 - Sua mulher é de lá mesmo? Da comunidade?

 

R - Não, ela é de Armazém.

 

P/1 - Como é que você conheceu sua mulher?

 

R - A minha mulher eu conheci assim... Por exemplo, eu fui dar uma voltinha nessa comunidade, né?

 

P/1 - Ia lá passear?

 

R - Sim. Dava uma voltinha, uma passeada, e eu a vi. Depois... Nesse dia não deu para conversar direitinho. Depois, eu tinha um tio que fazia muita festa, eu fui e ela estava lá, aí foi, eu encontrei com ela, isso.

 

P/1 - Aí começou o namoro.

 

R - Começou o namoro, depois a gente casou mesmo, e hoje, graças a Deus, a gente vive muito feliz.

 

P/1 - Você disse que tinha problema de alcoolismo com seu avô, né?

 

R – Isso, ele tinha.

 

P/1 - Ninguém mais na família tinha problema de alcoolismo?

 

R - Não, só ele que tomava, mas não era tanto assim, ele tomava porque fazia trabalho, tinha que beber um pouquinho para agilizar o negocio lá.

 

P/1 - E também ninguém seguiu mais essa religião de umbanda, macumba?

 

R - Não, só ele mesmo.

 

P/1 - E você está com seis filhos. Como é que é? Dá muito trabalho o lado de ser pai?

 

R - Eu sou calmo, porque a gente tem dado o exemplo extraordinário, também. O que vale hoje é o exemplo do pai, porque se o pai faz isso, claro que o filho vai querer fazer, e o pai não pode repreender. Tem isso também, tem essa parte, porque nós, como pais, somos os espelhos dos nossos filhos. Se, por exemplo, meu filho quiser fazer uma coisa, “bom, isso aqui eu não fiz, meu filho”. Eu, por exemplo, não bebo, não fumo, então: “olha, meu filho, isso aqui eu não fiz”. Você não pode dizer: “eu vou fazer porque o papai fez”, não, é diferente. Outra coisa, meu filho: “Eu era muito obediente ao meu pai, meu pai  gostava muito de mim e eu gostava dele. Quando meu pai me pedia assim: ‘Olha, você vai em tal lugar’, não era preciso falar duas, três, quatro vezes comigo, eu ia correndo, chagava lá, dava o recado e voltava na mesma: “Olha,  já está dado o recado meu pai.”

 

P/1 - Os seus filhos são obedientes também?

 

R – Isso... Até agora eles têm cumprido com as_____, porque realmente, sempre um sai assim, fora  das coisas. Mas graças a Deus, até hoje...

 

P/1 - Eles deram muito trabalho na área de saúde? Como é que foi? Você agora cuida dos filhos dos outros, como é que foi cuidar dos seus filhos, você já sabia das coisas, naquela época?

 

R – É, realmente meus filhos não têm me dado tanto trabalho, porque antes deles me darem trabalho, eu previno. A prevenção é uma das coisas principais, e eles realmente não têm me dado tanto trabalho.

 

P/1 - A sua mulher fez pré-natal, fez todo esse trabalho?

 

R - Fez, fez todos direitinho. A gente previne as coisas para não acontecer, né?

 

P/1 - Teve algum caso de doença deles quando pequenos?

 

R - Não, não teve.

 

P/1 Todos saudáveis?

 

R- Todos saudáveis, nunca tiveram, graças a Deus.

 

P/1 - E na comunidade, quais foram as doenças que você identificou, que eram mais comuns quando você começou a trabalhar no PACS?

 

R - Tinha muito problema, por exemplo, o povo era muito desorientado, era muito difícil, mas com a nossa atitude, com a nossa educação, que chegava com o pessoal para conversar e dar instrução, eles começaram a fazer aquilo, aquele trabalho, a questão da casa, do asseio, da higiene, entendeu? Porque antigamente era difícil mesmo, o povo não tinha orientação de ninguém, ninguém passou lá para dizer: “olha, fulano, tem que jogar o lixo dentro da casa, tu tem que fazer isso”. Ninguém falava nada.

 

P/1 - E o que é que você ensina para eles?

 

R - Hoje nós já ensinamos, há cinco, seis anos atrás. Sempre fala, por exemplo, a questão do lixo, a questão da higiene da casa, das crianças, que não pode andar descalça porque pode pegar verme, não pode jogar o lixo no terreiro, tem que queimar ou enterrar, essas coisas assim a gente sempre tem passado. A questão da água, por exemplo, se não tiver cuidado com a água, a gente fica numa situação difícil, então tem que cuidar da nossa água, tudo, para que a gente possa ter mais saúde, ser mais saudável, senão a gente não consegue. E digo para você: na faixa de 80, 90, da minha comunidade já assume esse trabalho. Eu tenho prazer de entrar em uma casa assim, tenho o prazer mesmo. Todo mundo se cuida, todos são responsáveis por suas casas, tudo direitinho.

 

P/1 - Tinha muitos casos de desnutrição?

 

R – É, naquele tempo tinha, não era muito, mas tinha.

 

P/1 - E aí, o que é que você fez?

 

R - Nós tentamos mobilizar a mamãe e o papai pela criança. Por exemplo, começamos a encaminhar aqueles casos mais difíceis, encaminhar para o médico fazer exames, essas coisas assim, e ia começando a tratar das crianças. Hoje, graças a Deus, está muito diferente. Por exemplo, tem eu como agente comunitário, que visita as casas − que de casa em casa eu vou, né, falando das coisas da saúde −, tem a pastoral da criança também, tem uma senhora que também cuida, trata, e assim a gente vai mobilizando o pessoal. E cada reunião que a gente tem assim, por exemplo, eu falo, reunião em igreja, reunião em grupo; fala a questão da saúde. Por exemplo, no caso da cólera, a dengue agora, que nós mobilizamos bastante o pessoal para se cuidar, “vamos nos cuidar, vamos nos prevenir, porque isso é difícil. Você pode pensar: “ah! A cólera está lá não sei onde, a dengue está não sei aonde, para cá de Marajó, não vem”. Pode chegar aqui, mas para isso não chegar, nós temos que prevenir, temos que fazer um trabalho de prevenção com vocês aqui na unidade.

 

P/1 - Você teve caso de cólera na sua comunidade?

 

R - Não, nunca teve.

 

P/1 – Não teve nenhuma epidemia?

 

R - Não, não, graças a Deus, não.

 

P/1 - Malária?

 

R - Não, bem pouco, que eu disse. Agora, nós temos febre e gripe, muita febre de gripo, mas esse negócio de malária nunca teve na minha área, ainda.

 

P/1 - E adulto, o que é a doença mais comum de adulto lá?

 

R - Olha, realmente é febre, assim, normal. Tirando disso é aqueles que eu tenho lá, por exemplo, a minha avó que faleceu, que pegou derrame, ela passou muito doente, e tinha mais uma velhinha lá também que pegou derrame, ficou com problema e tal, e faleceu. Essas velhinhas, essas pessoas que pegam derrame, ficam naquela situação. Tirando isso, tem o pessoal que às vezes aparece uma febre, uma gripe, uma coisa assim, leve, casos leves. Diarreia dá bem pouco na minha área, pouco mesmo, em criança é bem pouco, é difícil dar diarreia em criancinha, ainda mais assim, a pessoa mais adulta, já 10, 12 anos, nessa faixa aí.

 

P/1 - O que é que mudou para o seu trabalho depois que chegou o material da Abifarma?

 

R – Ah, melhorou muito! Pra mim melhorou bastante, principalmente a questão, por exemplo, da bicicleta. O que, no caso, eu fazia... Por exemplo, eu tinha que atender uma casa aqui, demorava mais um pouco, agora não, é mais rápido. Por exemplo, assim, eu posso me deslocar rapidinho, como tem acontecido. Eu estou em uma casa, vem uma pessoa, me chama. Eu faço lá, pego a bicicleta e vou rapidinho na outra, atendo rápido, entendeu? Para fazer algum trabalho, para agilizar logo as coisas, rápido, isso  me ajudou bastante, demais. Eu acho que triplicou o meu trabalho, aumentou mais o meu trabalho, essa questão aí.

 

P/1 - Antes você fazia tudo a pé?

 

R - Era tudo a pé, era mais difícil, um pouco mais longe. Eu tinha que andar bem, bastante longe, mas demorava um pouco.

 

P/1 – Você... As casas na sua comunidade são mais próximas?

 

R - Mais próximas, estão mais aglomeradas, mais perto, assim.

 

P/1 - Quantas casas você faz por dia?

 

R - Uma faixa de 12 a 15, por aí. Dezesseis, essa faixa, porque é o seguinte, eu trabalho de manhã e de tarde. Na minha comunidade... Por exemplo, minha comunidade é essa aqui, eu moro quase aqui no centro da minha comunidade. Eu, na parte da manhã, faço essa área, na parte da tarde eu faço a área daqui.

 

P/1 - Um lado direito e o outro, esquerdo?

 

R - Isso. Eu trabalho de manhã e de tarde. Quando saio, de manhã , oito horas, nove horas eu saio, eu só chego meio dia, às vezes uma hora.  Descanso um pouquinho e saio quatro horas, aí eu não tenho hora para chegar. Chego sete, oito horas da noite, não tenho hora para chegar, é, realmente eu faço isso, porque quando eu vou para lá aparece um problema, aparece outro e vamos atendendo, resolvendo, fazendo alguma coisa, e a questão da hora, para nós, não é problema. É importante que a gente deixe tudo no esquema... Os problemas, quer dizer, resolver os problemas do paciente, da gestante, da criança, do (epiléptico?), para resolver o problema... Porque a gente não pode achar...

 

P/1 - Como é que você resolve o problema?  Você não pode dar remédio,

você tem algum tipo de...

 

R - Não, por exemplo, esse problema... Mas assim, médio, uma febre, por exemplo, uma dor de cabeça, uma diarreia, a gente tem dessas coisas. Por exemplo, diarreia: temos o soro oral, o soro caseiro, que para mim é o melhor remédio. Mas não tem... O soro caseiro já fizemos testes até com velhinho de 80 anos, não tem para ele, quando dá diarreia, me chama, eu vou lá e faço soro caseiro e é rapidinho para resolver o problema dele. Soro caseiro, muito bom.

 

P/1 - Dovanildo, o que é que mudou na sua vida depois que você passou a ser agente comunitário?

 

R - Olha, mudou muita coisa. Primeiro que eu fui um pouco mais conhecido pelo povo e todas as entidades. As coisas grandes foram me conhecendo como agente comunitário de saúde e a gente foi, também, se dando a conhecer. Para mim mudou muito, mudou porque a gente é conhecido e a gente se faz conhecer nessa parte. Porque, por exemplo, ser agente comunitário todos querem ser, mas é uma coisa que a gente tem que se colocar. Como agente comunitário? Por exemplo, eu moro em Mangabeira, aqui são 9 km, lá em Mangabeira são 9 km, então sempre o transporte tem de Mangabeira até Ponta de Pedras. Ponta de Pedras à Mangabeira, um ônibus, tem um ônibus que trafega. O dono do ônibus já via a minha dificuldade, por exemplo, quando eu quero trazer um paciente que eu quero atender o paciente logo e tal, ele já viu que eu sou muito interessado na questão da saúde, aí, quando eu quero, ele me libera no carro dele. Eu venho na hora que eu quero, vou a hora que eu quero, entendeu? Começa por aí. Quando saio um pouco da comunidade, o pessoal já fica agoniado, porque realmente, lá na minha casa eles batem toda hora. Por exemplo, de noite, na semana, principalmente − sábado e domingo nós atendemos − de noite pode bater qualquer hora, sempre digo: “pode bater a qualquer hora”. A gente vai, atende com o maior prazer, e a minha alegria maior é quando a gente resolve o problema da pessoa, principalmente à noite, que as coisas são mais difíceis. É, realmente, porque nós trabalhamos de segunda à sexta na área, visitando e tudo, mas sempre digo: “olha, eu, sábado, estou de folga. Estou na minha casa, mas eu estou lá, qualquer coisa que aparecer, algum problema, pode ir lá que nós vamos resolver o problema”. E sempre tem dado... Tem dado bastante, o procedimento que a gente faz. É assim que a gente age lá.

 

P/1 - Está bom, é isso aí, muito obrigado aí pela sua colaboração. Demorou muito?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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