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História

Cuidar dos outros

História de: Norma Rodrigues Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/08/2015

Sinopse

Em seu depoimento para o Museu da Pessoa, Norma Rodrigues Silva conta como em São Lourenço, sua cidade natal, sua mãe largou o antigo marido e fugiu com o seu pai, se separando dele mais tarde. Ela também fala sobre sua infância, quando morou com seus vizinhos e sua avó, e sobre as experiências que viveu no Rio de Janeiro, Volta Redonda e São Paulo.  Ela também fala sobre a da adoção de duas crianças que estavam doentes, e as implicações disso na sua vida, e destaca o quanto gostava de seu trabalho com crianças deficientes e, principalmente, com idosos.

 

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História completa

Meu nome é Norma Rodrigues Silva, nasci em 3 de abril de 1938, em São Lourenço, Minas Gerais. Meu pai é Antônio Amâncio Rodrigues, minha mãe, Mariana Soares. Meu pai roubou a minha mãe do marido dela, e depois se separaram. Ela teve eu e o Ailton, que morreu. Ficou eu só de filha dela, mas ela tinha outros filhos, que eram o Zinho, o Jorge e a Teresinha. Eu era a bastarda. Meus avós me odiavam da parte de mãe, por causa do meu pai.  A minha mãe era casada com outro homem e, eles começaram a namorar e ficaram amantes e ele roubou ela, fugiu com ela, por isso que os meus avós maternos não gostavam de mim. Quando eu ia na casa deles, da avó Maria e do avô João, ela falava assim: “A diaba já está vindo para comer”, porque eu ia para comer mesmo. Meu pai morava com a minha avó, minha avó Ripa. Depois que eles se separaram, minha avó Ripa que ficou cuidando de mim. Eu era muito malcriada, era uma capetinha.

Eu não convivi com o meu pai e minha mãe. Meu pai trabalhava em São Paulo, minha mãe no Rio de Janeiro e eu em Minas, de casa em casa. Eu vivia na casa dos vizinhos. Essa família do seu Zequinha e dona Celina, meu pai pagava pensão, não era pensão naquele tempo, falava outro nome e meu pai mandava o dinheiro para eles e a Dona Celina jogava no bicho e gastava o dinheiro. Eles começaram a me maltratar, não bater em mim, não, mas não me dava leitinho à noite, que as meninas tomavam na canequinha com farinha. Para mim não dava porque o meu pai não mandava o dinheiro da pensão. Um dia o meu pai foi em São Lourenco, ele descobriu que mandava o dinheiro, mas a Dona Celina falou que jogava no bicho. Eu não quis ficar mais e fui morar em outro lugar, com o meu tio também, não deu certo. Eu fui criada assim, cada dia na casa dos outros. O meu pai não deixava eu viver com a minha mãe, eu tinha loucura para viver com a minha mãe, mas ele não deixava, porque ela não agia bem. Naquele tempo tinha muito preconceito. Eu fui morar com a minha mãe quando eu peguei o Totonho pra criar, que ele deixou eu morar com ela, mas não deixava.

A casa do seu Zequinha era bem no alto, lá em cima! Tinha uma ladeira para subir e eu era muito levada, eu parecia menino. Uma vez, eu fui na matinê e vi uma bailarina pulando assim, cheguei da matinê… eu dormia na caminha junto com as meninas, eu dei aquele pulo assim, perna aberta, arrebentei toda a cama, foi a única vez que o seu Zequinha me bateu, porque eu quebrei a cama e ainda me machuquei. Bolinha de gude, eu era boa. Se eu perdia as bolinhas, eu batia e tomava, pular corda, brincar de pique. Eu tenho trauma até hoje, eu morava com a minha avó e meu pai, antes da minha avó morrer e a casa era comprida assim, sabe essas casas compridas? E o meu pai me acordou para falar para mim que a minha avó estava morrendo e eu era muito malcriada com a minha avó. Ele falou: “Levanta para ver a sua avó que ela está morrendo”, eu não entendia nada, eu era uma criança. Eu levantei, olhei para a minha avó, ela parecia aquelas escravas, sabe, era bem pretinha, aquele cabelo ruim assim, branquinho. Ela estava fazendo careta e eu fiquei olhando assim, fiquei morrendo de medo, ele mandou eu beijar a mão dela e pedir perdão para ela. Nossa! Isso pra mim foi um trauma pro resto da minha vida. Fiquei com muito medo, muito e eu não queria mais ver ela e ele obrigava eu ver ela no velório, não se faz isso com criança, mas não tinha nada.

Com a minha mãe eu fui morar acho que eu tinha uns 12 anos, que foi quando eu peguei o Totonho. Eu cheguei na casa dele. Em São Lourenco, na Sete Casinhas, estava no berço com a cabeça grande, bem grandona, o corpo fininho, bem magrinho e cheio de piolho, bicho, ferida, mosquito, não era piolho, mosquito em cima dele. Uma garrafa verde de leite e um bico vermelho. Falei com a minha mãe que eu ouvi no centro, que iam jogar o menino fora, aí a minha mãe falou: “Não, não vamos levar esse menino, não, ele está morrendo, olha como é que ele está”, eu falei: “Não, nós vamos pegar ele, a senhora me ajuda?”, ela fazia tudo pra mim porque eu fui morar quando o meu pai deixou. Criamos o Totonho. Levamos ele no médico, Doutor Prazeres falou que ele ia morrer, se não morresse naquela época, bebezinho. E fomos criando, fomos cuidando dele, tudo, ele era especial, escola especial e eu amava muito esse menino, muito! Tinha paixão por ele. Depois, me casei, não tive filhos, não engravidei. Separei do meu marido, então o Totonho era como o meu filho. Ele morreu e eu fui no viaduto para me matar. As policiais femininas me levaram para o Pátio do Colégio e conversaram comigo, e falaram eu arrumar outra criança, pegar outra criança, eu fui em São Lourenco para ver na Sete Casinhas com a minha mãe e o meu padrasto, tinha a Priscila, mas eu queria um menino branco de olho azul igual o Totonho, que ele era loirinho. Eu já estava com o menino para trazer para São Paulo, uma mulher saiu do fundão, com uma pretinha bebezinha dentro de um saco, com uma camisetinha assim, não me esqueço, era de rosinha com bordado assim, à mão, fez bainha assim. Pretinha. Eu olhei para aquela criança, a mulher falou assim: “Olha, ela…”, ela estava parece que com três meses, acho que eram três meses, “Ela toma água com açúcar porque não tem dinheiro para comprar leite para ela e ela está com desidratação, eu não tenho como dar remédio para ela”. A mãe falou para mim: “Norma, você vai pegar outra criança doente? Ela vai morrer Norma” “Vamos levar mãe, paciência, vamos levar ela”, viemos embora. Antigamente, a gente andava de trem, eu quis vim embora para trazer a menina com medo da mãe querer pegar a menina outra vez, mas ela não ia pegar, mas eu tinha medo. Ela chamava-se Neuza, a Priscila, Neuza. Nós viemos de trem, os passageiros falaram: “Essa menina vai chegar morta em São Paulo”, eu falava: “Não vai chegar morta, não vai”. Chegamos em São Paulo, eu já era babá da Mônica, ela tinha gêmeas também, eu já tinha bastante roupinha para criança, que a minha patroa deu, a mãe da Mônica. Cheguei na casa dessa minha patroa, que eu trabalhava com ela, sempre, trabalhei minha vida toda com ela, ainda criei as gêmeas dela. Levamos ela no Hospital Matarazzo, Doutor Clauss que examinou ela, falou: “Ela está desnutrida…’, tinha tudo, estava com tudo e deu remédio e eu cuidando dela, cuidando, cuidando e ela ficou uma menina linda, gordinha. Você sabe que eu ia para praia, que eu ia com as crianças, as gêmeas, a Mônica e a Priscila, onde eu ia eu levava ela e eu vestia ela de shortinho assim, sabe, antigamente era… como é que chamava? O sapatinho delas? Conguinha, com meia assim, três quartos, sabe? Era muito lindo. Nós saímos eu, as gêmeas, a Mônica e a Priscila e uma vizinha nossa do apartamento. A mãe da Monica estava junto, todo mundo que passava perto da Priscila mexia com ela: “Que menina linda”, e não mexia com as gêmeas. Aí a Neide falou: “Norma…”, Noma, me chamava de Noma: “Noma, de agora em diante, você vai vestir as gêmeas igual a Priscila”(risos), foi isso. Foi muito bom, foi crescendo, amor da minha vida.

Eu estudei em colégio bom em São Lourenço. Eu estudei no colégio de freiras, mas as freiras me expulsaram porque eu era terrível! Eu morei muito tempo no Rio de Janeiro com a minha mãe e o outro marido dele, Israel. Morei em Volta Redonda, Barra Mansa, no estado do Rio, Paty do Alferes, Brás de Pina, morei no Morro da Catacumba com a minha mãe e o Israel e o Totonho.  Eu fui trabalhar uma vez com o patrão do meu padrasto, Doutor Manuel, em Copacabana, eu dormia numa cama que agora, depois que eu fui entender na vida, era uma cama hospitalar, na sala. Eles punham a cama na sala para eu dormir. Quando foi uma noite, eu acordei com o Doutor Manuel mexendo comigo. Eu falei com o meu padrasto, deu uma encrenca danada. Meu padrasto quase matou esse homem, me tirou de na hora. Mas não aconteceu nada, ele só mexeu comigo lá. O Israel teve que sair do sítio por causa disso. Porque era o patrão dele que foi mexer comigo, e ele era responsável porque eu era de menor. Nós não tínhamos onde morar e a minha mãe arrumou um barraquinho no Morro da Catacumba, no Rio de Janeiro. Nós fomos morar lá, não tinha banheiro, não tinha nada. Às vezes, não tinha nem comida para comer. Fui para Volta Redonda morar com a minha mãe, conheci o meu noivo em Volta Redonda, ele também veio para São Paulo, meu pai casou ele e eu. Deu tudo para ele casar comigo, para não me perder, porque eu era uma mocinha, ele tinha medo. Deixei minha mãe no Rio, depois, ela veio para São Paulo. Casei, vivi três anos com o Élcio. O meu pai mandou a gente para Volta Redonda, arrumou uma casa para nós, que eu morava com a minha mãe e os meus irmãos na Água Fria e ele não trabalhava. Fomos para Volta Redonda e ele aprontando, aprontando, o meu pai foi e falou: “Norma, não tem jeito, vou mandar dinheiro para você e você vem embora para São Paulo”, mandou o dinheiro, eu vim embora e deixei ele e me separei. Vivi três anos com ele. O Totonho estava com a minha mãe. Eu trabalhava para ajudar o Totonho, dava tudo para o Totonho, roupa, até mini bateria eu comprei para ele. Voltei para São Paulo, foi que eu fui trabalhar com essa mãe da Mônica, que eu estava procurando emprego, queria doméstica porque não sabia fazer nada. Nisso, bateram na porta lá embaixo, que a gente morava num lugarzinho, não era prédio, não, era uma casa no alto, bateu palma, era a mãe da Neide, que é mãe da Mônica, perguntando da Dona Clementina, eu falei: “A Dona Clementina não está”, que era vizinha nossa, eu falei assim: “A senhora quer que eu dê o recado?” “Eu queria… estou arrumando uma pessoa porque a minha filha está grávida e ela precisa de uma pessoa para ajudar ela”, eu falei: “A senhora não me quer, não?”,  ela falou assim: “Você quer trabalhar?”, eu falei: “Quero”, ela falou: “Então vamos lá conversar com a minha filha”, cheguei lá, ela morava… a Neide morava na Cantareira, no prédio Vera Lúcia. Ela me contratou, só que eu falei: “Eu tenho que dormir, porque eu não tenho casa para morar, quero dormir no emprego”, ela falou: “Você não liga de dormir na sala?”, eu falei: “Não, não ligo”, e nós pegamos uma amizade que nós parecíamos duas irmãs, sabe, e ela estava grávida da Mônica, quem deu o primeiro banho na Mônica fui eu, que também amo essa menina, amo demais! As gêmeas já é outro tempo. Então, eu fiquei trabalhando com a Neide a minha vida toda, não era registrada, não tinha 13º, não tinha férias. A Mônica era tão apegada a mim que às vezes, a Neide me dava uma folga pra eu ir ver a minha mãe e o Totonho, quando eu estava chegando em casa, daqui a pouco, a Neide com o fusquinha dela, buzinando porque a Mônica estava com febre, ela ficava doente, eu tinha que voltar para trabalhar. Isso foi em 65. A Neide me ajudou multo com o Totonho, com a Priscila também ela me ajudou muito. Ela foi uma mãe para mim. Mas eu também fui para ela, que eu cuidava das filhas dela com todo amor, que amo até hoje.

Conheci o Renato. Esse marido meu, ex. Taxista. Ele não era ruim, não foi um homem ruim para mim, nada, mas ele era um homem muito exigente, sabe esses velhos exigentes?  Fiquei trinta e cinco anos com ele.  Moravamos com a Priscila e mais os três filhos dele, em Santana.  Trabalhei na Casas André Luiz 11 anos.  É de Criança especial. Trabalhei lá 11 anos, me aposentei, saí de lá para a minha filha trabalhar, a mãe da Mariana. Foi a época mais feliz da minha vida, ali a gente aprende tanta coisa! Ali não é a gente que ajuda eles, eles que ajudam a gente. A gente dá valor ao que a gente tem aqui fora. Eles ensinam a gente a viver. Chamam a gente de tia, de mãe. Eu adorava trabalhar lá, mas saí, pedi a conta. Comecei a cuidar de idoso. Cuidei de bastante idoso. O último é do Doutor Jozar, trabalhei com ele quatro anos, cuidando dele, na Bela Vista. Eu amava o Doutor Jozar, ele morreu. Mas a minha filha morreu, eu tinha que cuidar da Mariana, não porque ela era criança, porque ela estudava, só eu e ela em casa! Eu saí de lá, depois de seis meses, ele morreu, senti muito, chorei. E trabalhei até os 74 anos. De idosos, cuidei dele, cuidei de outros também, cuidei de gente com Alzheimer. Eu cuidei de tanta gente! Dona Cida, Dona Elza, quem mais? Dona Maria… e não sei mais, Doutor Jozar que foram quatro anos. Doutor Jozar, ele era da Aeronáutica, 90 e poucos anos, ele morreu. Eu ia ficar com ele na Aeronáutica quando precisava, dormia com ele, cuidava dele, ele falava que eu era a segunda mãe dele, todo dia vinha com uma aposentadoria maravilhosa. Meu Deus, coitado, morreu e deixou tudo aí.

Moram eu, a minha filha caçula, o marido dela e dois filhos, uma menina e um menino. Vitória, Douglas, o marido é Nildo e ela é Renata. E eu. O bairro é Bairro do Cocho. Quando nós mudamos… minha mãe mudou para lá, não tinha asfalto, não tinha nada! Era um assim, um bairro que tinha pouquinhas casinhas. Eu trabalhava em Santo Amaro já com a Neide, eu vinha sozinha. Pegava táxi e ia lá em cima, porque lá não descia onde eu morava, não descia táxi porque não tinha asfalto e taxista tinha medo, porque lá dá medo mesmo, é uma entrada assim, é mato de lá, mato de cá e tem aquela rua embaixo, eu morava lá no fundão.

Neto só do Alex, eu tenho 13. Cada um com uma mulher. É a Mariana, só. A Mariana é minha preferida. Eu amo todos eles. Já os filhos do Alex já são pais já, tudo criado já. A Vitória é pequenininha, 11 anos. Está quase do tamanho da Mariana. E é isso.

 

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