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História

Cuidar com cultura e arte

História de: Adriana Vilela Campos Reis
Autor:
Publicado em: 02/02/2021

Sinopse

Adriana Reis nasceu em 10 de junho de 1974, em São Paulo. Tomou gosto pela literatura desde cedo. Sempre quis ser desenhista, mas sua mãe achava que assim não ganharia dinheiro. Trabalhou em escola infantil, McDonald`s, loja de material artístico, livraria; Sofreu um estupro aos 32 anos de idade. Nunca falou muito sobre o assunto. Casou, teve um filho natimorto, com 6 meses de gravidez. Resolveu participar do programa do Sebrae, 1000 Mulheres, quando sentiu necessidade de planejar, cobrar e organizar seu trabalho de cuidadora. Gosta da ideia de proporcionar a vida para as pessoas.

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História completa

Nessa época eu queria ser assim… Se você chegasse e perguntasse para mim, "Adriana, o que você quer ser quando crescer?", eu falava assim, "ah, eu quero ser uma grande desenhista". Minha mãe ficava doida comigo, "o que é isso, menina? Isso não dá dinheiro, não coloca arroz e feijão na mesa. Desenho? Que desenho, Adriana? Desce, tira essa cabeça da nuvem", "ah mãe, quando crescer eu quero desenhar, quero ser desenhista". O meu sonho era entrar no Museu de Artes e Ofícios, no Senai e tecnologia… Eu queria fazer desenho, não importava, queria fazer desenho. Eu fiquei sabendo que a professora que eu mais amava faleceu. Eu falei assim, "nossa, quando eu crescer, quero ser assim também, desse jeito". Ela era professora de leitura, da sala de leitura. Fomos até a biblioteca, a professora chegou e falou assim, "olha gente, vocês vão sair da sala em silêncio, vão formar a fila para ir lá para biblioteca", "biblioteca?", eu nunca tinha ido a uma biblioteca na minha vida. E fomos. Chegando lá, era aquele lugar calmo, com várias mesas. Eu lembro daqueles livros na parede e aquela mulher com cabelo meio vermelho, branquinha assim, com a voz suave. Ela falava assim, "gente, nós vamos ler um livro" e começava a contar histórias. Quando ela contava histórias, era incrível, era como se eu entrasse na história mesmo. E ela me apresentou aos livros dos contos, Monteiro Lobato, a tantas coisas bonitas do nosso país. E ela também, além de ser uma professora de biblioteca, sabe o que ela fazia? Ela cantava, cantava sobre o livro e falava muitas coisas sobre o livro, de como o livro é bom para nós, e que os livros nos levam para longe. Eu via aquela professora e toda vez que eu ia naquela biblioteca, era uma maravilha, o clima de lá já era gostoso, aquele geladinho, uma coisa tão gostosa e aquele lugar calmo. E ela cantava uma música… Eu lembro da primeira música que ela cantou. Eu gostei, eu gostei, eu me encantei também pela música. Essa professora abriu assim, a minha cabeça, abriu meus olhos. E vou te contar uma coisa, ela era uma professora muito, muito boa. Ela percebeu que eu tinha problemas de leitura. Um dia, eu estava indo para o intervalo, ela chegou e falou assim, "Adriana, quando você quiser, você pode vir aqui na biblioteca", e eu "como?", "quando você quiser, dá uma batidinha na porta assim, eu vou saber que é você e você pode entrar". E eu fui. Ali ela me ensinou, sabe o que? A ler. Eu não lia só com os olhos, porque na minha dificuldade de leitura, de gaguejar, eu não conseguia resolver esse problema, era muito tímida, falava muito baixo e ela me ajudou. Eu lia tantos livros lá, lia livro de Pinóquio, lia livros assim, maravilhosos. Os livros na minha vida tiveram uma reação muito positiva. Tanto nos livros, quanto abriu outros recursos do tempo, que era o livro, revista, gibi, almanaques, revistas também de novelas… E abriu para esse ponto e foi muito bom para mim, porque eu aprendi que quanto mais você lê, mais você aprende, você pega o gosto pela leitura, e se você ler em voz alta, você vai ler para você e para outras pessoas, você vai passar o conhecimento para outras pessoas, vai passar aquilo que você aprendeu. Essa parte de leitura, fez a diferença para mim, porque eu comecei a falar um pouquinho mais alto, comecei a parar de gaguejar porque eu gaguejava na leitura. Eu tinha uns irmãos que também gaguejavam na leitura e eles não prosseguiram nos estudos. Eu fui a única que prosseguiu nos estudos. Cursei um pouco de Letras. Eu comecei a estudar mais, me programar, e conheci o Senac de Tiradentes e fiz o curso de cuidadora lá. Eu ia fazer um outro curso, mas acabei fazendo o curso de cuidadora, porque falei, "não, é esse curso que eu quero fazer". Fui lá e fiz o curso de cuidadora. Por que eu fiz? Porque não me bastava somente estar ali com eles, com a experiência no meu currículo e tudo mais, eu queria fazer o melhor. Esse foi sempre o meu pensamento, dar o melhor para as pessoas, de ajudar, auxiliar, de estar ali com elas. E aconteceu que eu acabei entrando na profissão de cuidadora, mas falei assim… Agora estou com 46, a gente amadurece. "Por que eu não posso ser uma cuidadora com arte, uma cuidadora com cultura, uma cuidadora para fazer a diferença na vida dessa pessoa? Não importa quem seja. Eu posso ser uma cuidadora daquele que se encontra incapaz naquele momento, eu posso ser a cuidadora daquele que precisa de mim". Você fala, "ah, eu cuido de quem? Eu cuido de velho e de velha", a gente não pode tratar as pessoas desse jeito, eu aprendi que a gente não pode tratar as pessoas assim. Você sabe o que significa "velho"? Procure no dicionário o que significa "velho". Ninguém é velho. Um empresário, uma mãe, ou um pai que deu tanto tempo para cuidar de um filho, não pode ser considerado como algo descartável e que não presta. Ele tem que ser cuidado com carinho e com amor.

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