Busca avançada



Criar

História

Cuidando de quem precisa ser cuidado

História de: Valderina Xavier de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/02/2005

Sinopse

Valderina Xavier nasceu no dia 21 de junho de 1964, na pequena cidade de Mucambo, interior da Bahia. Filha de pais agricultores, passou por muita dificuldade financeira em sua infância. Via seus pais tirando do prato deles para dar de comer aos filhos. Sua família migrou por diversas vezes em busca de condições melhores. Valderina hoje é agente comunitária de saúde e nos conta sobre sua trajetória, antes de se tornar ACS, e de como seu trabalho faz a diferença em comunidades carentes. Um trabalho que escolheu para que as crianças que atende não tenham que sofrer pelo que ela já passou.

Tags

História completa

Sou filha de José Xavier de Souza e Benedita de Souza, nasci em 21 de junho de 1964, em Mucambo, interior da Bahia, lugar muito carente onde você pode contar as casinhas, tem só duas ruas... Meu pai é nascido em 1938, minha mãe em 1933 e cresceram mexendo com lavoura. Saí de Mucambo com 6 anos e me lembro que a gente passava muita necessidade: às vezes, meu pai e minha mãe deixavam de jantar pra dar alimento pra gente; outras vezes a gente dormia com fome. À noite, meu pai tomava rapadura com água pra agüentar e, no outro dia, fazia chá, que a gente tomava com farinha. Minha mãe também trabalhava na roça e, como era a mais velha, eu cuidava dos meus outros irmãos. Um dia, meu pai decidiu mudar para Brasília e deixou lá eu, minha mãe e meus outros irmãos. Em Brasília ele fazia qualquer serviço que pintasse e escrevia pra gente, mandava dinheiro... Eu tinha lá em Mucambo um padrinho, um professor que tinha máquina de datilografia, e uma noite dormi com muita fome que no dia seguinte fui na casa dele e falei assim: “O senhor podia escrever uma carta pro meu pai, que é pra ele vir embora buscar a gente porque eu não agüento mais, estou com muita fome.” Ele escreveu e, quatro dias depois que recebeu a carta, meu pai foi buscar a gente. Mudamos pra Brasília de pau-de-arara, porque não tinha como pagar passagem de ônibus. Viemos com tudo dentro de um baú e fomos pra uma fazenda. Com 7 anos, eu já fazia os serviços de casa, tinha responsabilidade de uma dona de casa, porque os pais criaram a gente muito rígido... Com 8 anos, comecei a ir na escola, mas sempre mudando de fazenda, mexendo com lavoura, tudo muito difícil... Meu pai achou por bem nós fazermos pelo menos a quarta série. Aí a gente morou numa fazenda vizinha aqui de Padre Bernardo, chamada Fazenda Alegria, e foi lá que eu fiz a quarta série. Com 14 anos eu me casei, era muito nova, mas graças a Deus deu certo. Comecei a namorar escondido do meu pai, porque ele era muito bravo, na base do “namorou tem que casar”. Acabou que casei com o Antônio, um cearense, quando ele tinha 21 anos, e estamos juntos há 18 anos. Ele é tratorista na Fazenda Vargem Dourada, onde a gente se conheceu. De lá a gente veio pra Padre Bernardo, por causa da minha filha. Eu falei: “Não quero pra ela o que eu sofri.” O meu pai não é culpado, mas a gente tem que tomar as providências, procurar melhorar. Aqui minha filha foi para a escola e eu arrumei trabalhando de doméstica, ganhando salário durante três anos. Comprei um lote e construí um barraco de três quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço, área de frente, despensa. Hoje minha filha tem 12 anos e está fazendo a sexta série. Moro no Setor Oeste, um bairro pobre, e antes de entrar para o PACS eu já pensava que tinha que arrumar um jeito de ajudar essas crianças, porque é tão triste. Aconteceu então que minha patroa viajou pra Minas e surgiu a seleção do agente comunitário de saúde. Eu falei: “Vou fazer a inscrição; de repente, é a minha vez.” Eu nunca tinha ouvido falar no PACS. Fiz as provas e passou um tempo... Daí eu encontrei por acaso uma menina da Secretaria de Saúde e ela me disse: “Você passou, vai lá na Secretaria que é pra você começar a trabalhar.” Foi surpreendente, quase não dormi naquela noite de alegre. Mudar de serviço e ter a oportunidade de ajudar aqueles que estavam sofrendo igual eu sofri, quando eu era pequena. Nesse trabalho é assim: a gente enfrenta casos muito difíceis, onde a polícia não entra, eu entro... No meu primeiro dia, bati na porta de uma casa e não quiseram abrir. Me deu uma tristeza: “Meu Deus, será que esse povo não está vendo que eu quero ajudar.” O homem ficou bravo, pôs política no meio... Bati em outra casa e aí me receberam muito bem. Os primeiros dias foram muito difíceis, mas agora eu já sei onde entro, onde saio, já conheço toda a comunidade. Tem dia que não dá pra você visitar as oito famílias, como é de praxe, porque pego uma casa de uma família bem carente e tenho que ficar ali mais tempo. No meu setor, tenho 390 famílias e cadastrei, no mês de abril, 11 crianças desnutridas. Com menos de 1 ano, são três. Sei que estão desnutridas porque peso as crianças e confiro pela tabela. Muitas vezes, eu nem falo para a mãe que a criança está desnutrida, porque algumas até gostam disso. Elas sabem que se a criança estiver com peso baixo vão poder ganhar leite da Prefeitura de graça. Para as crianças com idade acima de 2 anos e 3 meses, a Prefeitura só dá o leite quando estão desnutridas. Outra coisa que nós divulgamos muito é o aleitamento materno, mas tem mãe que tem vergonha de dar o peito pros filhos... Já tive casos assim na minha área. É difícil lidar com o povo, você tem que saber falar as coisas e às vezes eles comentam comigo: “Você é uma agente atrevida.” Porque o agente de saúde ele é tipo uma formiga, tem acesso onde outras pessoas não têm... Às vezes, pra mostrar para as mães como são as coisas, eu pego a mamadeira quando ela está dando de mamar para a criança, destampo e mostro: “Olha, mãe, dá uma cheirada pra ver como está o bico da mamadeira do seu filho.” Elas concordam: “Realmente, está cheirando ruim; mas está lavado, fervido e não adianta...” Numa casa da minha área, tem uma mulher que tinha uma criança desnutrida. Às vezes eu ia até três vezes na semana naquela casa e encontrava aquela mulher triste. Eu dizia: “Você não pode ser assim, tem que mostrar pros seus filhos a alegria de viver.” Ela se abriu: “O negócio é o seguinte, estou quase separada do meu marido.” Eu falei: “Olha, você está toda despenteada. Vai lá dentro, toma um banho, ajeita esse cabelo, passa um batom, um perfume e vamos arrumar um serviço pra você.” Então, ela pegou as crianças e colocou na creche, conseguimos um trabalho... Com o tempo, ela engordou, colocou uma dentadura e mudou de vida. A criança recuperou o peso com alimentação alternativa e, no fim de um mês, quando voltei na casa dela, ela falou: “Você foi uma bênção que caiu do céu. Se não fosse você a gente tinha separado.” Vi o sorriso no rosto dela... Às vezes você ri com as mães, às vezes você chora. Mas este é o trabalho do agente de saúde: tem que rir com os que riem e chorar com os que choram. Mas também o agente de saúde tem que ter uma ética profissional. Quando eu converso com uma dona de casa e ela tem aquela confiança e conta a vida dela pra mim, não posso ir contar o que ouvi pra outra vizinha; tenho que ter ética profissional... O problema mais sério da minha área é a desnutrição. Fiquei muito triste, porque morreu uma criança de 1 ano e 7 meses, no meu setor, desnutrida... Eu acompanhei a gestação da mãe, que nunca tinha feito um pré-natal. Vi a criança nascer, sempre orientando a mãe. Com 4 meses, a criança desnutriu, por falta de cuidado da mãe. Uma criança nesta idade tem que viver 24 horas ao lado da mãe e mamar só o peito. Mas a mãe saía de noite e deixava a criança sozinha... Aconteceu que veio a falecer. Pra mim, foi um caso dos piores, dos mais tristes, entrei em desespero... Confesso que me descontrolei porque morreu uma criança na minha área com desnutrição. Mas foi só esta criança neste período que eu estou trabalhando. Antes eu estava só com três desnutridos na minha área, mas agora foram muitas famílias para lá por causa do Conjunto Habitacional Nove de Maio, com 100 novas famílias morando. É por isso que eu estou com 390 famílias cadastradas, que é um número bem maior do que a média por agente do Programa. Não atendo todas, porque eu não dou conta. Atendo mais os casos mais sérios; onde tem recém-nascido, gestante com peso baixo ou obesas eu vou... Melhorou muito para a gente depois que recebemos a bicicleta, a mochila, o boné e o jaleco da ABIFARMA. Pra mim esse jaleco é um blazer, tenho muito orgulho de vestir e não ando sem esse uniforme... O agente de saúde que não gosta desse colete não gosta da profissão. Como é que a gente vai divulgar que é um agente de saúde sem ter uniforme? A gente foi pra Brasília, teve uma festa lá para fazer a entrega dos equipamentos, e de lá a gente trouxe as bicicletas no ônibus da Prefeitura. Com o jaleco e a bicicleta, as pessoas da comunidade começaram a me ver de outra forma, começaram a valorizar mais o meu trabalho, pensando: “Realmente, o trabalho dela tá sendo valorizado; ela ganhou bicicleta e roupa pra trabalhar.” Assim, eles têm mais respeito por mim e para o que eu puder fazer por eles também não meço distância. Se precisar ir no promotor, eu vou; se precisar ir na juíza, eu vou, e sou bem recebida. Coloco o meu boné, minha jaqueta e vou embora... Quando eu trabalhava em casa de família até ganhava muito mais. Mas não era bem uma coisa que eu queria fazer. Eu sofri muito na minha infância e acho que a gente tem que ajudar as pessoas e ajudar não é dar um dinheiro, uma roupa, um calçado... Muitas vezes conversando você pode ajudar mais e resolver o problema sem dar nada pra ela. Também para uma criança que está naquela tristeza, se você chega e conversa acaba passando uma coisa boa e a criança vai se sentir feliz. Isso acontece muito no meu trabalho e eu faço este serviço porque realmente gosto de fazer.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+