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História

Cuidado e dedicação com o outro

História de: Maria Almeida de Araújo Pessoa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2010

Sinopse

Maria Almeida de Araujo Pessoa nasceu no dia 12 de novembro de 1956 na cidade de Caetés, em Pernambuco. Nesta entrevista, nos conta de sua infância na roça, onde passava boa parte do tempo buscando água longe de casa para enfrentar a seca, além de sua difícil relação com o pai, que não aceitava os seus sonhos de trabalhar em um hospital e de tornar-se cardiologista. Migrou para São Paulo, onde trabalhou em diversos hospitais, como o Hospital Sorocabana e o São Camilo. Enfrentou diversas dificuldades que a impediram de se dedicar aos seus principais sonhos, dentre elas a descoberta de um tumor no olho de sua filha recém-nascida, o envolvimento de seu filho primogênito com o tráfico e um enfarte de seu marido - fatalidades que ocorreram simultaneamente. Resistiu a essas adversidades perseguindo outros sonhos: concluir o técnico de enfermagem e aprender a nadar. Hoje trabalha como enfermeira na Creche Madre Camila. Dedicou-se toda a sua vida a cuidar dos outros e hoje sonha em comprar a sua casa na praia para poder acordar de manhã e mergulhar no mar, esquecendo que um dia teve problemas.

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História completa

P/1 – Maria Almeida, eu queria que você dissesse o seu nome completo, a data e local de nascimento.

 

R – Sou Maria Almeida de Araújo Pessoa. Nasci no dia 12 de novembro de 1956 em Caetés, Pernambuco.

 

P/1 – O nome dos seus pais?

 

R – João Luís de Almeida e Amália Araújo Calado, os dois são de Pernambuco.

 

P/1 – De Caetés também?

 

R – Sim, tudo de lá.

 

P/1 – Eles faziam o quê? Trabalharam com o quê?

 

R – Meu pai era da roça, em termos, porque meu pai também era aventureiro. Ele gostava de viajar muito com caminhão de gado. Em Pernambuco tem feiras de gado. Ele comprava gado dos outros, saía em comitiva para chegar a certa cidade e vender o gado dele. Quando era para longe, ele ia de caminhão, então meu pai era um tipo meio... Nós morávamos num sítio muito grande e a gente plantava, colhia...

 

P/1 – A sua mãe fazia o quê?

 

R – Minha mãe era do lar.

 

P/1 – Trabalhava na casa? Você tem irmãos?

 

R – Nós somos uma família de 17 irmãos, não precisava ter amiguinhos pra brincar. Nós fomos criados num sítio, só que em Pernambuco é bom... Nós tínhamos um sítio muito bom, vivíamos soltos – eu, pelo menos. Eu era a única diferente da casa, porque vivia montada em cavalos. Era um sítio em que nós tínhamos de tudo: a fruta, a comida... Tudo a gente plantava, colhia e fazia farinha. Meus pais só tinham dois filhos homens e, mesmo assim, eram pequenos; eu era a mais velha, mais minhas irmãs. Somos as quatro mais velhas, então nós éramos os homens da casa. Quando o meu pai viajava, ficávamos tomando conta da casa. Trabalhávamos na roça, plantávamos, colhíamos, ficávamos a noite toda com a minha mãe fazendo farinha, descascávamos aquela mandioca igual a um homem, mesmo. Tinha umas rodas que você ficava puxando para “coisar” a mandioca, e minha mãe ficava fazendo a farinha. Depois começou aquela seca muito grande. Íamos... Tinha uns buracos na terra e saía minando água... Pegávamos aquela água, enchíamos os potes e colocávamos na cabeça. Quem sofria mais éramos eu e minha irmã. Para sustentar um monte de irmãos e para lavar roupa... Também saíamos cedinho para caçar água, ver onde tinha água para lavar roupa. Tudo pequenas, viu? Minha irmã tinha uma bacia em que colocava água; era um tipo de um deserto, só areia. Você tinha que cavar aquela areia – ia cavando e minando água, só que essa água era salobra – e encher a vasilha de água para ir lavar roupa. Eu chorava, porque eu não aguentava mais. A minha irmã falava: “Você gasta muita água.” “Mas... Como eu não vou gastar água se eu tenho que lavar essa roupa?” Nós saíamos muito cedo, com aquela trouxona de roupa, procurando água para lavar. Meu pai chegou – eu me lembro até hoje – e falou: “Eu não vou matar meus filhos. Isso não é vida para eles.” Nós éramos todos pequenos e mudamos pra Garanhuns, foi onde eu cresci; mas lá também não tinha muito recurso, naquela época. Hoje é uma cidade maravilhosa, mas antes nós não tínhamos água, luz, televisão, rádio, fogão... Não tinha nada. Tudo era à base de fogão a lenha, continuamos carregando água na cabeça... Tinha um poço bem fundo, amarrávamos um balde na corda, jogávamos lá dentro, puxávamos a água, enchíamos a lata e colocávamos na cabeça. Hoje eu acho que não consigo nem um livro na cabeça... Eu carregava latas e latas de água na cabeça.

 

P/1 – Equilibrando?

 

R – Equilibrando, e era um pote grande. Minha mãe falou: “Você fica responsável pela água e a minha irmã mais velha pela casa.” Foi o que ela quis. Quem se danou fui eu.

 

P/1 – E os irmãos homens?

 

R – Só temos dois, e eram pequenos. Minha mãe tinha um filho atrás do outro. Eu falei: “Mãe, a gente vai dormir com a senhora ganhando nenê e acorda com a senhora já grávida.” Foi assim nessa vida.

 

P/1 – Em Garanhuns vocês moravam no sítio ou na cidade?

 

R – Na cidade, mas a gente não tinha nada lá.

 

P/1 – Os seus pais faziam o quê?

 

R – Meu pai continuava viajando. Eu cresci mais um pouco e comecei a trabalhar. Meu pai não gostava. Ele era muito rígido e não podíamos sair. O único lugar que a gente saía era para a igreja. Quando terminava a igreja, ele estava na porta – parecia um sargento – esperando nós. Eu comecei a trabalhar – trabalhando e carregando água na cabeça –, o primeiro emprego meu foi numa banca de roupa – porque lá tinha um monte de banquinha, igual na feira. Eu vendendo aquelas roupas... Depois comecei a trabalhar numa casa de família.

 

P/1 – Quantos anos você tinha quando começou a trabalhar lá?

 

R – Eu acho que nasci trabalhando; não lembro muito, não... Comecei a trabalhar em casa de família; a dona da casa tinha uma padaria e eu ficava com as duas crianças dela para ela trabalhar. Trabalhei bastante tempo... Depois fui trabalhar num hotel – hotel lá é pensão, é diferente... Hotel aqui é chique. Na sexta-feira era o dia dos boiadeiros, porque eles vinham vender o gado na feira. Eles iam para o hotel almoçar, eu os servia. Um tipo de... Como é que se chama quem servia a mesa? Como que é o nome?

 

P/1 – Garçonete.

 

R – Garçonete. Eu servia aqueles boiadeiros e depois eu falei... Isso foi antes de 73.

 

P/1 – Você tinha 23 anos?

 

R – Por aí... Eu esqueci. Sempre que eu trabalhava – o meu sonho era ser cardiologista –, eu falava para minha mãe: “Mãe, um dia eu vou ser médica e operar o coração das pessoas.” Meu pai falava: “Imagina. Você é louca? Não quero minha filha ser puta de médico. Eu prefiro matar você, do que você dar esse desgosto pra mim.” Eu falei: “Mas eu amo, eu quero... É isso o que eu quero.” Tinha uma senhorinha de idade que estava para morrer, eu queria ficar perto dela para ver como uma pessoa morre. Meu pai foi lá e me deu uma surra; mas eu voltei e fiquei lá para ver a senhora morrer. A senhorinha morreu, eu já estava bem grande. Eu ajudei dar banho, penteei... Ajudei a pôr no caixão e dei tchau para ela. Eu falei: “Mas eu quero trabalhar em hospital. Eu vou ser cardiologista.” Tinha um hospital que era da prefeitura, falei para o prefeito: “Deixa eu trabalhar nesse hospital?” Ele falou: “Não, vocês não tem nem condições.” Eu falei: “Eu aprendo. O meu sonho é trabalhar.” Ele deixou eu trabalhar em hospital. Fiquei trabalhando e realizei um pouco o meu sonho, só que o meu pai começou a implicar, dizendo que ia matar o médico, me bateu e, muitas vezes, não me deixava ir trabalhar. Eu saía escondido. Eu falei: “Eu amo minha profissão, eu quero trabalhar.” Trabalhei até 77. Em 77, eu não aguentava mais a pressão, porque meu pai não falava comigo... Chegou uma hora que ele pegou uma arma e ia matar o médico, porque jamais uma filha dele ia ser puta e difamar a família. Eu falei: “Então eu vou embora pra São Paulo. Vou realizar o meu sonho.” Ele falou: “Se você sair de casa, esqueça que você tem família.” Eu falei: “Tá bom. Eu vou embora e, um dia, eu vou esquecer que tive pai e mãe.” Eu fui no prefeito e pedi a conta, ele falou: “Mas, Maria... Você é uma ótima enfermeira, você faz tudo aqui e todo mundo gosta de você.” Eu falei: “Não é isso o que eu quero. Eu quero trabalhar em hospital e, se eu ficar aqui, vai acontecer uma tragédia com meu pai.” O prefeito falou: “Tá bom, você vai, mas tenho certeza que vai implorar de joelhos para voltar.” Eu falei: “Olha, eu não sei. Eu vou enfrentar a vida.” Eu peguei uma mochila, coloquei nas costas, dei tchau e fui embora. São Paulo, eu fui pra casa de um tio meu; com uma regatinha, quando cheguei aqui. O meu primeiro obstáculo: um frio danado, um frio que eu quase congelei. Cheguei à casa da minha tia e ela me deu um banho, umas roupas e uma sopa quente – porque eu estava congelada. Eu falei: “Tio, eu não conheço nada aqui. Eu preciso trabalhar.” Ele falou: “Você quer trabalhar no hospital?” Eu falei: “Quero.” “É isso que você quer?” Eu falei: “É.” Ele me levou no Sorocabana, fiz uma entrevista. Passei e fui trabalhar na... O rapaz da Sorocabana falou: “Eu tenho uma vaga na UTI.” Eu não sabia nem o que era UTI, porque hospital do norte para aqui... Falei: “Eu aceito.” Fui trabalhar na UTI e, quando olhei aqueles aparelhos, eu falei: “Meu Deus! Onde eu estou?” Meu tio me falou: “Olha, eu só vou te trazer hoje. A partir de amanhã você se vira.” Eu falei: “Nossa! Como que eu vou chegar aqui?” Tudo bem. Falei: “Já que estou sozinha na vida, eu não posso depender das pessoas.” Meu tio me pôs no ponto de ônibus, fui trabalhar e trabalhei... Eu entrava às 11 da noite e saía às sete da manhã. De manhã eu saí e falei: “E agora, que ônibus eu pego para voltar pra minha casa?” Sei lá. Eu sei que eu peguei um ônibus e não sei onde eu fui parar, aí dormi, porque eu trabalhei a noite toda. Eu dormi, abri o olho e estava numa terra de... Parecia um sítio, eu perguntei: “Motorista, onde eu estou?” Eu falei o nome Bonfiglioli, onde meu tio morava, e ele falou: “Ih, minha filha, você está tão longe.” Eu falei: “E agora, o que eu faço da vida?” Quase implorei para o motorista me trazer de volta, ele falou: “Não posso, você fica aqui...” Era mato – eu não sei mais onde é –, “Mais a frente você volta, tem um posto policial e você pede informação.” Ah, eu andei tanto, com sapato apertando... Cheguei ao posto policial – eu chorava tanto, meus pés estavam até sangrando – o policial ficou olhando para mim e, até eu conseguir falar... Foi um policial muito bacana. Eu falei que eu era nova, que tinha chegado de Pernambuco, que eu não conhecia nada e meu tio só falou para eu pegar um ônibus que passasse no Bonfiglioli. Ele falou: “Tá bom.” Ele me pôs numa viatura e, quando chegou à entrada do Bonfiglioli, ele falou para o motorista: “Você desce essa menina em tal lugar.” Ele me colocou e eu acertei. Meu tio falou: “Pronto, você já acertou. Agora você vai ter que alugar um quarto para morar.” Nessa época, eu era atendente de enfermagem, só que o Sorocabana falou: “Você vai ter que fazer auxiliar de enfermagem.” Meu tio saiu comigo, alugou um quarto no Jaguaré –que é outra história, eu vou contar só essa – e fui morar. “E agora? O que eu ganho só vai dar para pagar aluguel e comer. O que eu faço? E para estudar?” Eu pensei e falei: “Vou pagar aluguel, vou estudar e depois seja o que Deus quiser.” Trabalhando, fiz o curso de auxiliar de enfermagem e, para comer, eu chegava em casa às sete horas, tomava um copo de água e dormia. Acordava, tomava outro copo de água e ia trabalhar.

 

P/1 – Você continuou trabalhando no Sorocabana?

 

R – Trabalhando. Quando era tarde, os médicos pediam lanche e eu ficava doida para que eles não comessem para eu comer. O que o médico deixava, eu comia. Depois, no Sorocabana, descobriram e me deram tíquete; eu comia. Quando fui alugar essa casinha tinha um rapaz pintando. Aquele rapaz, como eu trabalhava todo dia das onze às sete da manhã, quando queria, me levava ao ponto de ônibus. Fomos nos conhecendo e hoje somos casados. Conheço-o há 34 anos. Esse homem foi tudo: ele foi meu primeiro beijo, meu primeiro homem, meu primeiro tudo. A gente namorava e ele foi me ensinando. Ele é paulista, só é meio doido. Como ele ensinou o lado bom, o lado ruim e fomos nos conhecendo... Ele falou: “Eu não quero casar.” “Não estou pedindo para você casar comigo, eu trabalho e pago o aluguel.” Namoramos quatro anos e ele falou: “Ah, tá bom. Eu vou casar com você, já comprei a aliança.” Dentro do ônibus – no meio do ônibus –, ele falou: “Vamos noivar.” Tirou a aliança de dentro do bolso e noivamos, dentro do ônibus. Todo mundo bateu palma; só não tinha família. Depois meus irmãos foram vindo, cada um fazendo a sua vida, e ficamos sozinhos. A gente casou, mas casar como? Eu não tinha dinheiro para comprar o vestido, ele não tinha dinheiro para fazer a festa... Eu não tinha dinheiro pra nada. Não tinha família que me desse, porque meu pai não queria nem saber. Minha sogra recebeu os convidados, fez um frango, convidamos... Não tinha ninguém, era só família. Os amigos dele... Naquela época era cuba. Um fez a cuba, outro deu a cerveja, outro deu outra coisa...  Eu tinha uma parente que me emprestou o vestido de casamento – depois eu trago a foto para vocês verem.

 

P/1 – O que é cuba?

 

R – É uma bebida. Eu nem sei mais o quê...

 

P/1 – Ah, a cuba libre?

 

R – Sei lá, deve ser. Aquela época... Eu não lembro mais. A minha prima me arrumou o vestido de casamento, só que com aquele véu bem grandão. Eu falei com ela: “Não quero essa coisa arrastando, não.” Também eu não tinha dinheiro para comprar outro. Fui numa feirinha, comprei uns arranjos, coloquei na cabeça e falei: “Cadê o dinheiro para comprar o sapato?” Eu vi um tamanquinho baratinho e comprei, assim casei. E foi bonito.

 

P/1 – Onde foi o casamento?

 

R – Foi na igreja Nossa Senhora da Lapa. A igreja foi linda, também. Eu casei num lugar bonito. Passaram uns tempos e eu tive o meu filho...

 

P/1 – Me fala um pouco mais da festa?

 

R – Não tem... Porque cada um levou uma coisa. Um deu um salgado, outro deu outro.

 

P/1 – Onde foi?

 

R – Foi na minha casinha mesmo. Quarto e cozinha. Ele foi uma pessoa que teve outra vida, porque os pais dele tinham loja. Ele trabalhava pertinho de casa, e...

 

P/1 – Trabalhava com o quê?

 

R – Trabalhava numa empresa italiana chamada Sivan. Então ele tinha empregada, nunca passou necessidade e tudo. Casamos e começaram as dificuldades da vida, porque eu tinha que trabalhar para sustentar a casa e logo engravidei. Eu falei: “E agora?” Ele não queria pedir dinheiro para a mãe. Ele falava: “Já que a gente casou, vamos ter que nos virar com o que a gente tem.”

 

P/1 – Por que precisaria pedir dinheiro para a mãe dele? Ele não estava trabalhando?

 

R – Trabalhava, mas ganhava pouco naquela época.

 

P/1 – Ele trabalhava em quê?

 

R – Na Sivan. Ele era operador contábil e ganhava pouco. Nós tínhamos filhos e, muitas vezes, o dinheiro acabava – porque perto de receber o dinheiro acaba. Ele vinha comer e eu falei: “Não tem comida. Tem um caldo de feijão. Você come e vai embora, ou vai pedir dinheiro pra sua mãe.” Quando meu filho nasceu, às vezes, não tinha nem leite para tomar. Ele falou: “Será que ele espera eu receber?” Eu falei: “O nenê não vai esperar você receber.” “Ah, mas eu tenho que pedir dinheiro para minha mãe?” “Quem sabe é você.” Ele ia lá, pedia o dinheiro e a mãe já vinha trazer tudo; mas não era isso o que a gente queria, queríamos crescer pelos nossos próprios méritos. “Eu não vou ter dinheiro pra receber, hoje é dia de pagamento... Como eu vou trabalhar se eu não tenho nem o da passagem?” Eu chegava no ônibus e falava: “Ah, motorista, eu esqueci a carteira em casa.” Ele falava: “Então desce por trás”, meio estúpido, eu descia. Mas eu tinha que trabalhar, porque aquele era o dia do pagamento.

 

P/1 – Você ia trabalhar e com quem ficava o nenê?

 

R – Eu o deixava numa escolinha.

 

P/1 – Ah, tinha uma escolinha.

 

R – Tinha uma escolinha. Eu trabalhei no Sorocabana cinco anos e, depois do Sorocabana, eu falei: “Eu já trabalhei muito, quero conhecer outras coisas.”

 

P/1 – Você estava estudando também.

 

R – Estava.

 

P/1 – Onde?

 

R – Nem lembro o nome da escola.

 

P/1 – Você estava fazendo que curso?

 

R – Auxiliar de Enfermagem. Eu me formei, trabalhei cinco anos no Sorocabana e falei: “Está na hora de conhecer outras coisas.” Fui trabalhar no Matarazzo. Trabalhei no centro cirúrgico do Matarazzo, realizei meu sonho – não realizei o sonho, mas eu vi... O primeiro médico que eu fui trabalhar foi numa salinha de circular... Os médicos cardiologistas... Eu via o coração na mão e ficava achando aquilo o máximo. Os pacientes tinham aquelas paradas e colocavam o coração na mão, davam massagem... Um dia teve uma briga, o cara deu não sei quantas facadas... Só mexia com o coração... Aquela cirurgia de coração, eu achava lindo, porque era meu sonho. Depois eu saí da sala e fui para a de clínicas gerais, cirurgia geral. Era tudo que vinha. Eu já vi foi tudo.

 

P/1 – O que te encantava? Por que você queria trabalhar com cardiologia?

 

R – Eu amo trabalhar em hospital. Eu achava o máximo um paciente chegar morrendo, você dar massagem e ver que salvou aquela vida. É coisa minha, eu ficava maravilhada. Aquela pessoa ter aquela parada respiratória... Tinha gente que estava no posto de gasolina, dava parada respiratória e chegava morto ali. Você trabalhava, corria e, daqui a pouco, a pessoa estava falando. É uma coisa linda e, de repente, uma cirurgia enorme... Tinha vez que eu ficava no plantão todo o dia vendo, olhando... A gente pegava e remexia tudo da pessoa, remendando, costurando... Aquilo, pra mim, era... Eu realizava meu sonho naquilo. Só que teve uma época em que o Matarazzo entrou em crise e fechou. Eu falei: “Que pena”, porque eu gostava de trabalhar ali. Fiquei acampada no pátio, aquelas barracas... Eu aprendi a fazer crochê, meu chefe...

 

P/1 – Por que você ficou acampada?

 

R – Porque a gente estava lutando pelo Matarazzo abrir. Passou no jornal, eu não sei se você se lembra. Meu chefe falou: “Se eu pudesse eu ficava com vocês, mas não posso, porque vocês sabem que eu estou no mesmo barco que vocês. Se vocês quiserem procurar outro emprego, a opção é de vocês.” Eu falei: “Ah, eu gosto tanto de trabalhar no centro cirúrgico. Eu vou ter que sair?” Fui procurar no Pro Matre e trabalhei no centro cirúrgico da maternidade, mas eu enjoei, só via nenê nascendo. Eu gosto de coisas assim, mais diferentes. Eu enjoei de ver tanto nenê nascendo na minha vida, era uma cesárea atrás da outra. Virou rotina. Eu fui passar para outra sala. Era um dos melhores cirurgiões plásticos daqui de São Paulo, veio uma mulher de Miami fazer plástica. Melhorou um pouco.

 

P/1 – Isso era onde?

 

R – No Pro Matre, tem cirurgia plástica lá – não sei se ainda tem, mas na época tinha, nossa... A mulher chegava toda danada e saía perfeita. Eles desenhavam e, com isso, eu ficava mais encantada ainda de ver como é linda a área da enfermagem, a área médica... A mulher vinha com um barrigão, com culote, com seios caídos e os médicos falavam: “Ai, que peso. Vai doer.” Tiravam sarro, ela estava anestesiada. Quando passava tudo isso, a pessoa ficava maravilhosa e linda. Eu ficava pensando: “Nossa, que coisa linda!” Colocavam silicone e deixavam a mulherada feia, linda. Fora as atrizes que iam lá, um monte de atriz que eu nem lembro mais. Eu falei: “Quero conhecer outros lugares”. Sabe quando você não quer parar? “Agora eu vou trabalhar no Procordis”, que é uma clínica só de cardiologia. Era UTI, mas eu amava... Eu era apaixonada por aquela clínica. Era uma clínica super chique, uma escada de mármore... Só ia milionário, porque se você fosse rico, saía pobre de lá. É muito caro, só iam os donos da Kopenhagen, da Santista... A Silvia Poppovic ficou lá, conheci a mulher do Roberto Carlos...

 

P/1 – Era um hospital?

 

R – Uma clínica super chique, na Paulista.

 

P/1 – Que fazia o quê?

 

R - De cardiologia só, problemas de coração. Eu tomei conta da mãe, da esposa do Roberto Carlos... São pessoas muito... Eu achava a coisa mais linda. Era chique, do teto desciam aquelas coisas... Ia tudo lá para baixo. Só que eu tinha uma filha, e minha filha... Nisso eu já tinha meu filho, estava grandinho...

 

P/1 – Quantos anos ele tinha quando você teve a segunda filha?

 

R – Seis anos. Ele tem 28 e ela tem 21. Minha filha veio com um tumor no olho e eu tinha que lutar por ela. O médico falou: “Maria, eu sei que você é uma excelente funcionária e que gosta muito daqui, mas você vai ter que escolher: ou sua filha, ou trabalho.” Aquilo me doeu, me deu uma crise de choro. Eu adorava trabalhar ali, mas eu amava minha filha e tinha que lutar por ela. Ele me deu a conta – foi a maior tristeza da minha vida, ter saído de lá – e eu fui lutar pela minha filha. Começaram os meus dramas. Fizeram uma junta médica de Santo Amaro a Osasco, ninguém descobriu o que a minha filha tinha e, cada vez mais, o tumor ia crescendo no olho dela. Eu sou uma pessoa que não gosta de drama. Por mais momentos difíceis que eu tenha na minha vida, eu acho ridículo alguém olhar para você com cara de piedade. Não tem que ter: “Ah, coitadinha.” Eu ia no ônibus... Saía às cinco horas da manhã e não tinha hora pra voltar, bagunçou muito a minha vida. As mães falavam: “Nossa, o que é isso?”. Ai, que ódio! Eu tinha que ficar explicando o que a minha filha tem. Outras falavam: “Nossa, um jarro caiu na cabeça dela?” Que saco. Eu ia ao Hospital das Clínicas, era quase duas horas da tarde e eu não tinha comido nada... Eu lembro até hoje, eu pedi um lanche e todo mundo queria saber o que a minha filha tinha. Eu falei: “Eu não vou falar. Também não vou comer mais!” Larguei o lanche para lá e fui embora. Eu passei para um especialista em Osasco, a médica pegou e falou: “Você tem que procurar médico de tumor, porque a sua filha está com câncer.” Eu falei: “Como você fala que a minha filha está com câncer? Você fez um exame?” “Não.” “Como você sabe? Você garante que a minha filha está com câncer? Você não pode me falar assim.” Eu quebrei o pau com a médica. Eu fui a outro médico, que falou: “Olha, mãe. Você quer que eu seja sincero com você?” Eu falei: “A única coisa que eu quero é que você seja sincero, porque até agora ninguém me falou a verdade.” “Eu sou um médico muito bom, estudei no Japão, mas eu não sei o que a sua filha tem. O único lugar que você pode ir, que vão fazer um estudo na sua filha, é na Santa Casa.” Eu falei: “Além de tudo minha filha vai ser cobaia, porque vocês não sabem o que ela tem.” Peguei a minha filha e fui para lá. Cheguei na Santa Casa, falei: “Meu Deus, olha aqui. Você deu essa criança para mim, já fui em todos os médicos, em todas as religiões – de benzedeira a Alan Kardec – e nem os espirituais sabem o que a minha filha tem. Só você, meu Pai. Eu não posso deixar minha filha ficar nesse estado.” Fechei o olho, respirei fundo e, quando abri o olho, tinha um médico do meu lado. Falei: “Doutor, onde fica a pediatria?” Ele falou: “Olha, mãe, o que a sua filha tem não é grave” – ele era chefe da pediatria – “Não vou deixar nenhum médico examinar a sua filha. Vou fazer um encaminhamento e já vou mandar você passar por um especialista no prédio da Candelária, aqui na Santa Casa, porque ele é um médico que vai saber tudo o que a sua filha tem.” Perguntou: “Por que deixaram sua filha chegar a esse estado?” Eu falei: “São os burros dos médicos, eu não tenho culpa.” Eu era assim. Eu estava num estado de nervo que, se alguém falasse, eu respondia. Fui ao prédio da Candelária e encontrei o doutor José Vital Filho. Ele é professor e chefe da Candelária, falou: “Esses filhos da puta... Estudam e não sabem nada. A sua filha tem um hemangioma. Não é maligno, vou curar a sua filha. Vamos comigo que vou a levar ao médico. Ele sabe mais do que eu.” Eu subi uns quatro andares de escada. Cheguei e não aguentava mais com minha filha no braço. Tinha um médico que não falava nem “brasileiro” [português], era estrangeiro. A única coisa que eu entendi foi que ele falou: “Sua filha é uma gracinha.” Eu lá queria saber se a minha filha era uma gata? Eu queria saber o que a minha filha tinha.  Passou corticóide e, nuns dez dias, tinha abaixado completamente o tumor da minha filha. Ele começou a fazer sessões de fotos, cirurgias e está com ela até hoje. Ela perdeu a visão porque o tumor era muito grande, saiu pra fora e rompeu o nervo ótico dos olhos dela. Com isso, ela perdeu a visão.

 

P/1 – Dos dois olhos?

 

R – De um só. Eu, com essa correria toda, acabei me esquecendo do meu filho. No ônibus, falei: “Meu Deus! Eu tenho outro filho!” Eu não sei o quanto eu prejudiquei o meu filho, porque eu esqueci dele. Cheguei em casa, abracei ele...

 

P/1 – Quanto tempo durou essa descoberta do tumor até sarar?

 

R – Ela tinha 20 dias de nascida quando começou. Quando o doutor José Vital descobriu ela estava com três meses. Ficaram três meses para poder o médico descobrir o que a minha filha tinha. Começaram estudos, cirurgia, tomografia... A infância dela foi completamente no hospital. Começaram outros problemas, porque ela começou a ficar com o nariz entupido, levei-a ao médico pensando que era renite e tinha outro tumor na face dela. Eu falei: “E agora, o que eu faço? Não chega o do olho?” Encontrei o doutor Fugita, ele a operou e falou para mim: “Oh, mãe... Eu não sou Deus, mas tem 1% de chance para esse tumor voltar” – quer dizer, não vai voltar mais. Passou um tempo e fiquei mais sossegada. Comecei a acertar com o médico e a acompanhar meu filho, só que meu filho... Eu fui uma mãe sempre presente e sempre criei o meu filho falando a verdade. Muitas vezes, no hospital... No guarda-roupa dele... Eu trazia folhetos, escrevia a mão e digitava as reações das drogas, das doenças e suas prevenções, porque... Se ele tivesse relação... Para usar camisinha. Eu não escondia nada dos meus filhos. Um dia, o meu filho – ele tinha 14, 15 anos – virou para mim e falou: “Mamãe, me deixa ir para a praia?” Eu falei: “Eduardo, com quem você vai?” “Vou com uma mãe e o filho dela.” Eu liguei para a mulher, ela falou: “Tudo bem” – e foi. Ele estava gostando de uma menina; quando voltou, sentei com ele e falei muito. Eu falava: “Filho, na vida da gente só tem dois caminhos: o lado bom e o lado ruim. Se você for para o lado bom, você tem um mundo inteiro a seus pés para conquistar e ser um grande homem. Se você for para o lado errado, você não tem nada na sua vida, só um poço escuro.” Eu sempre conversei com eles porque sempre fui sozinha. Também sempre gostei de... Até hoje tenho essa mania de ver a bolsa dele, olhar o sapato. Ele chegou, foi dormir e eu comecei a olhar – tem um ditado que diz que “Quem procura acha” –, mexi, joguei as coisas dele e encontrei quatro pedaços de cigarro de maconha. Meu mundo desabou. “Meu Deus! O que eu faço?” Minha filha tem esse problema – eu tenho que lutar por ela – e agora, o meu filho. Eu não tinha ninguém para me ajudar, vou ter que enfrentar a vida. Eu o acordei e falei: “Eduardo, a mãe conversou tanto com você, filho. Por que você fez isso?” “Ah, mãe, não é meu.” “Eduardo, sempre a mãe falou: ‘Filho, nunca mente pra mãe, porque a mentira tem pernas curtas.’ Não foi isso que falei para você? Nós temos um pacto: nem eu mentir para você e nem você mentir para mim, porque sabe que eu vou descobrir. É melhor jogarmos limpo agora.” Ele falou: “Tá bom, mãe. Eu fumei maconha.” Daí em diante a casa caiu, porque ele começou a se afundar e usar todo tipo de droga. Muitas vezes meu filho sumia e eu entrava dentro da favela, encarava os caras... Não sei como eu não morria. Eu falava para ele: “Eu te dou...” Ele começou a entrar na favela do Rio Pequeno. Eu entrava nos barracos com tudo e falava: “Te dou meia hora para vocês falarem onde está o meu filho, seus filhos da puta.” Eu encarava eles. “Calma, tia.” “Eu não sou tia, eu não te conheço. Quero o meu filho.” “Você não pode entrar aqui procurando teu filho. Eu não sei onde ele está.” Eu falei: “Você sabe. Você é nó cego igual a ele, nó cego com nó cego sabe onde está. Se você não disser onde está o meu filho, vou encher isso aqui de polícia.” Ele dava um telefonema e meu filho estava na favela do Morumbi. Eu ligava para ele e falava: “Eu dou meia hora para você estar aqui, se não vou aí com a polícia e vou arrebentar com tudo.” Ele foi só afundando. Eu procurava alguma coisa nele para resgatá-lo, porque eu só estava o vendo ir... Eu falei: “Não aceito perder meu filho para as drogas. Meu pai teve 17 e todos pessoas de bem. Eu fui a mais errada na casa, que deu desgosto ao meu pai e que aprontou porque foi trabalhar no hospital. Fui a vergonha da família e o meu foi o único neto que entrou no mundo das drogas? Ah, não quero nem saber dos outros. Eu não posso ter vergonha, porque eu não sou culpada.” Eu olhava no espelho e falava: “Deus do céu, o que eu fiz? Onde eu errei? Mas eu não tenho o direito de ficar me culpando e tendo vergonha. Eu tenho que salvar meu filho.” Muitas vezes, eu deitava com ele na cama e falava: “Filho, vamos internar. A mãe interna você.” Aquele homem nos meus braços, era como se tivesse um bebê... Um dia eu fui trabalhar e... Nessas alturas, eu já estava trabalhando. Pulei para outra história, nessas alturas eu estava trabalhando na creche.

 

P/1 – Depois a gente volta.

 

R – Eu recebi um telefonema eram onze horas. O meu esposo falou: “Maria, o Eduardo deu um tiro no peito.” Eu falei: “O quê?” Ele falou para o pai: “Pai, eu não quero mais viver.” Ele já estava... Além de tudo, eu descobri que ele era um suicida. O meu marido tinha um cofre de ferro que tinha um revólver dentro. Meu filho pegou uma chave de fenda – não sei como ele conseguiu –, abriu, sentou na minha cama e deu três tiros. Só um pipocou, que foi no lado direito. Queimou o mamilo dele e saiu nas costas a bala. Ele falou: “Pai, venha que eu estou morrendo.” O pai saiu –morava pertinho de casa, o meu esposo era de um lado e minha casa era atrás da vila –, veio, pegou e o levou para a USP (Universidade de São Paulo). Quando chegou à USP, os policiais o prenderam – o meu esposo – porque... A arma... Foi aquela confusão, e os pais vão pagar pelo erro dos filhos. Eu saí do serviço e fui para a USP, cheguei e tinham o transferido para o Hospital Heliópolis. No intervalo do Hospital da USP ao Heliópolis tinha um trânsito infeliz em que a ambulância não andava. Ele teve duas paradas, porque estava com uma hemorragia muito grande. Só faltou a médica subir na ambulância para ver se dava caminho. O Hospital Heliópolis... O centro cirúrgico ligando direto para o médico: “Tá pronto? O garoto está com uma hemorragia muito grande, já teve duas paradas.” Eu estava ficando louca, segurava na mão do meu filho... Ah, eu nem sei. Eu só pedia a Deus para não o tirar, dar mais uma chance de vida para o meu filho. Ele fez a cirurgia, passou um tempo e melhorou, mas começou o uso das drogas de novo. O Eduardo começou a ficar agressivo, porque ele começou a usar o craque, a cocaína... Eu sempre do lado dele e ele não queria ser internado. A agressão dele começou a se virar contra nós. Falava que ia me matar, que ia matar o pai... Ele sumia... Ele tinha uma barraca, colocava nas costas e sumia. Eu falava: “Onde esse garoto está?” Daqui a pouco ele voltava. Ele foi para Santos e conheceu outra menina, chegou em casa, arrumou a roupa e se mandou para... Como é o nome do lugar? Um lugarzinho pequenininho aqui de São Paulo... Quando chegou, a moça descobriu que ele estava usando droga demais e não o queria mais. Ele aprontou demais com ela. Ela falou: “Dona Maria...” – ela ligou para mim, porque eu não a conhecia... Ele a conheceu e se mandou, só que estava num estado deplorável, lá no... Ela não quis, ele pegou e cortou os pulsos, sozinho. Ficou a noite só, sangrando. Ele percebeu que ia morrer sozinho, foi para a rua e caiu, em choque. Chamaram a ambulância, levaram-no para o hospital e, como viram que ele não estava bem, que estava completamente desequilibrado, internaram-no no hospital psiquiátrico. Chegou lá e começaram a dar remédio para ele; o remédio foi atrofiando ele todinho. Ele não falava direito, a língua dele enrolava, estava completamente torto e deformado. Ele fugiu e entrou num trem. Lá, pediu para um moço ligar para o pai dele. O pai o foi buscar. Quando o meu esposo entrou no trem e o viu, não o reconheceu. Ele estava completamente torto: o pescoço e o corpo todinho deformados. Eu o peguei e o levei para a USP. A médica ligou para essa clínica para ver qual tipo de remédio eles estavam dando. Falou que, se ele tivesse ficado mais um pouco, não teria mais conserto. Eu fiquei com ele a noite toda na USP. Lá ele fez lavagem estomacal tomando remédio e, quando acordou, já estava melhor. Eu o levei para casa. Ele melhorou e falei: “Vamos internar, Eduardo?” “Não quero, não posso.” Passou e, nesse intervalo, a minha filha começou a piorar. Foi piorando o olho, levei-a ao médico e ele descobriu que ela estava com um tumor enorme no seio da face. Estava enraizando para o pescoço e já estava passando para o outro lado – o lado direito da face. Não precisava mais nada, né? A minha filha com problema, o meu filho também e, nesse intervalo todo, a firma do meu esposo faliu e ele ficou desempregado. Meu marido precisou operar do joelho, a primeira cirurgia. Na mesa de cirurgia deu enfarto nele. Eu falei: “Meu Deus! O que está acontecendo?” Não sei se fico com meu filho, que é drogado, com a minha filha, que tem tumor no seio da face, ou com meu marido, que está com... Nisso, me deu uma dor de dente tão grande que eu falei para a dentista: “Doutora, eu estou com uma dor de dente danada. O meu marido está morrendo e meu dente está doendo.” Ela deu risada. Sei que ele ficou uns 15 dias internado e eu correndo atrás com a minha filha. Nenhum médico queria assumir porque o tumor estava muito grande. Um médico do Hospital do Câncer assumiu o caso e fez uma cirurgia muito delicada nela, porque ele falou que estava tomando toda a garganta e passando para cá (gesto). Meu bendito filho, em vez de me ajudar, se afundou cada vez mais. Eu falei: “Eu não acredito. Quer saber de uma coisa? Deixa eu sair um pouco dessa confusão e cuidar um pouco de mim.” Fui fazer o curso técnico de Enfermagem. Eu falei: “Eu não aguento mais, não nasci para isso. Meu Deus, o que está acontecendo?” Dava aquela vontade de gritar. Comecei a fazer o técnico de Enfermagem e eu saía para espairecer. Eu falei: “Eu que não vou morrer por causa do... Eu tenho que ter alguma coisa, se não eu vou morrer e não vou poder cuidar dos meus filhos. O meu marido doente, desempregado, meu filho drogado, minha filha com tumor no seio da face... Eu tenho que fazer alguma coisa por mim.” Sabe o que eu fazia para não morrer? Eu trabalhava o dia todo e à noite estudava, fazia técnico de enfermagem. Meu filho falou, um dia... Ele saiu e, quando ele saiu e eu não sabia onde foi, eu falei: “Eu não vou morrer. Eu preciso dormir.” Eu deitava e dormia. Um dia ele chegou às três horas da manhã no maior choro, eu levantei e perguntei: “O que foi, Eduardo?” Sentei perto dele e ele falou: “Mãe, eu não quero mais viver.” Ele tomou uma caixa de remédio psiquiátrico todinho. Eu falei: “E agora?” Olhei pra ele. “Pronto, agora ele vai morrer.” Meu marido ficou sem ação nenhuma. O que a gente podia fazer? Ele entrou em choque e apagou. Você mexia com ele para lá e para cá e o moleque nem se mexia. Internei-o numa ala psiquiátrica, mas ele não queria ficar. Para ele poder ficar eu tive que deitar na cama com ele, abraçar como um bebê... Eu o abracei, deitei na cama com ele e comecei a passar a mão na cabeça dele. Massageei a cabeça e o corpo dele e, quando ele ficou bem relaxado, eu fugi. Você imagina como eu estava? Eu falei: “Meu Deus, não é possível.” Enquanto ele estava na psiquiatria, eu estava no hospital com a minha filha – eu pedia pra meu marido ficar na psiquiatria com ele. Hoje ele está com 28 anos e não está usando – não sei, eu pergunto pra ele e ele fala que não. Ele é um homem muito bonito e tem dois filhos. Vou trazer a foto deles, é a coisa mais linda; mas também não tenho contato com os netos... Ele namorou uma menina e a engravidou. Ela era menor e chegou em casa completamente drogada – eles tinham usado cocaína a noite toda –, ele não podia levar essa menina para casa porque se não os pais iam brigar. Ele a internou no hospital e, de lá, veio para casa. Eu falei: “Meu Deus, além de eu ter um filho drogado ainda tem essa menina?” Era problema da mãe dela. Eu não ia morrer por filha dos outros. Eu sei que essa menina nasceu. Ela também nunca foi à minha casa...

 

P/1 – É menino ou menina?

 

R – Menina. Eu vou te mostrar as fotos dela.

 

P/1 – Como ela se chama?

 

R – Chama Beatriz. O outro, também... Ele foi para o carnaval e conheceu essa menina que se chama Soraia. Lá transaram e a mulher engravidou. Eu sou apaixonada pelo menino, chama-se César. É a coisa mais linda, mas não os vejo porque a mulherada não quer. Eu também não vou obrigar, não vou atrás. Eu falo para o Eduardo: “Eu amo o César, mas o pai é você. Se você gosta desse menino...” – ele não consegue gostar do menino – “Você vai ter que lutar pelo teu filho. O teu filho não tem culpa do erro teu.” Ele procura o menino – hoje ele está com seis anos –, depois some e a mulher não quer que ele veja o menino. Eu sou apaixonada por esse menino, mas também não tenho contato. Hoje ele está um rapaz muito lindo... É promotor de vendas, virou um homem de verdade.

 

P/1 – Ele estudou? Ele conseguiu estudar?

 

R – Estudou, ele saiu das drogas. Ontem eu estava numa entrevista com a psicóloga chorando, porque quando ela passa na... Você viu essa entrevista? Eu falei para ele: “Eduardo, você ainda usa droga?” Ele falou: “Não.” “Você sente vontade de usar?” “Não, mãe.” Hoje ele é evangélico. Eu sei que ele está bem, cuidando da vida dele, trabalhando em dois empregos... A minha filha operou no Hospital do Câncer – ela estava sentindo muita dor, por isso eu estava correndo com ela –, eu fiz uma tomografia nela essa semana. Eu fui a levar no médico e ele falou que está ótima a cirurgia que o médico fez. Foi perfeita, só que, por causa das medicações, ela está com inflamação no esôfago e com uma gastrite muito feia; mas isso é o de menos. Agora vou marcar consulta com o neurologista, porque ela está tendo muita dor de cabeça, para ver o que é – porque ela ainda tem um tumor. O médico falou que não iria operar porque estava muito profundo e, para ele poder retirar todo o tumor, iria ter que entrar com uma equipe de “neuro”. Ele pediu para ninguém mexer porque isso é uma bomba relógio. Eu trouxe a foto dela aqui. É uma bomba relógio que não pode mexer. Eu pedi para marcar consulta com o “neuro” esta semana para ver de onde vêm essas dores terríveis que ela tem na cabeça. Pode ser enxaqueca ou pode ser... Eu não quero pensar o pior. Vamos supor que seja enxaqueca. Nesse intervalo de toda essa minha vida, eu falei: “Sabe de uma coisa? Eu preciso relaxar, vou fazer natação.” Eu olhei para aquela piscina enorme e falei para o professor: “Se eu entrar aí dentro eu vou morrer.” Ele falou: “Não vai morrer.” Eu bebi quase a água toda da piscina, ele dava tanta risada... Ele falou: “Dona Maria, enfia sua cabeça lá dentro.” “Eu não! Eu vou morrer!” Eu comecei a nadar e falei: “Eu vou afundar!” Ele falou: “Você quer ficar o tempo todo aqui? Você que escolhe a tua vida. Você quer aprender a nadar ou quer ficar só parada?” Eu falei: “Eu não! E se eu afundar?” “Eu te salvo.” Com esse monte de luta, eu sei que terminei o técnico de enfermagem e, enquanto o filho estava morrendo, eu estava estudando, fiz natação, aprendi a nadar. O meu esposo ainda está na luta, fez duas cirurgias e continua desempregado. Eu me aposentei, mas continuo trabalhando. Voltando atrás – porque eu tenho uma mania de adiantar as coisas e atropelo tudo, minha vida é assim –, eu saí da Pro Matre, tive minha filha, cuidei dela, ela operou, eu cuidei do meu filho – cuidei não, ainda estava naquele... Eu falei: “Eu preciso trabalhar”, porque o meu marido desempregado... Como eu ia sustentar a casa? Eu precisava cuidar do meu filho. Meu filho, além de ser drogado, é suicida. Eu sou muito realista, não gosto de “Ah...” Eu não... Não me cai esse negócio de dar uma de coitada. Acho que eu nasci assim. Eu saí para procurar emprego e comecei a trabalhar no São Camilo. Foi uma coisa muito boa, porque eu trabalhei em tudo em que é lugar no pronto socorro... Eu fui trabalhar direto na UTI. Parece que a UTI me perseguia.

 

P/1 – Ou você perseguia a UTI?

 

R – Eu não sei. No São Camilo eu não tinha lugar certo. Eu fui contratada para o centro cirúrgico da maternidade. Eu enjoei de tanto ver nenê nascer. Eles me tiraram e me colocaram no centro cirúrgico – eu gostava, porque sempre estava vendo cirurgia. Eles me tiravam de lá e me mandavam para o pronto socorro. Quem atendeu a esposa do Russomanno... Você lembra quando ela morreu?

 

P/1 – Não.

 

R – Aquele advogado... Ele fez o maior barraco, passou na televisão. No São Camilo que a esposa dele... A mulher dele chegou e fui eu que atendi. Ela passou no médico, que mandou fazer eletrocardiograma, e eu fiz. Quando foi sete horas da noite estava na hora de trocar o plantão. Eu passei a mulher, a levei para o quarto e fui embora. No outro dia foi aquela confusão danada, porque a mulher morreu. Eu falei: “Meu Deus, eu estou tão cansada, chega sábado e domingo eu só trabalhando e ainda cuidado de filho... Eu mereço?” – e marido também, porque o marido estava todo troncho. Eu falei: “Ainda tenho que cuidar dele. Eu não mereço... Além de tudo, ter um marido troncho? Eu preciso fazer alguma coisa na minha vida.” Eu estava no ponto de ônibus e tinha uma senhora – bonita, alta, forte – conversando comigo: “Você vai trabalhar?” Eu falei: “Vou.” “Onde você trabalha?” “Eu trabalho no São Camilo. Já estou cansada, eu trabalho sábado, domingo...” Ela falou: “Eu trabalho numa creche, sou diretora. Eu estou precisando de uma enfermeira, se você quiser trabalhar, tem uma vaga.” “Ah, é? Vou pedir a conta.” Eu nunca estive parada. Só que a minha visão de creche era diferente. Eu jamais tive coragem de colocar um filho meu numa creche, porque eu tinha a impressão de que eu estava o abandonando. Antigamente era assim. Era uma sensação... Uma visão que eu tinha, que era de abandono. Para mim, creche não era lugar. As mães não queriam e doavam os filhos para a creche – essa era a minha visão. Eu olhei e falei: “Ah, meu Deus.” Fui no São Camilo, pedi a conta e não quis nem saber: comecei a trabalhar. Quando eu cheguei à creche, outro desafio – minha filha, você nem imagina. Eu falei: “Meu Deus. Meu sonho era ser cardiologista e vim acabar aqui nessa creche com tanta criança – e tudo pobre, barrigudo, umas crianças carentes... O que eu vim fazer aqui? Se uma criança desmaiar, o que eu vou fazer?” A creche da Madre Camila, quando eu entrei, não era a creche da Madre Camila de hoje. As crianças eram bem carentes, era um prédio velho. Eles estavam reformando e trocando o piso, o quintal era de pedra e não tinha nem cimento. Era uma casa muito velha. Eu falei: “Meu Deus, o que eu vou fazer aqui?” A Dona Marta falou: “Maria, eu preciso de você porque, enquanto eu faço as fichas das mães, você vai fazendo a ficha de saúde.” “Como eu vou fazer essa ficha de saúde?” Eu pensei que, como a minha vida foi sempre um desafio e nada veio prontinho pra mim... Eu encarei, fui fazer essa ficha de saúde. Fui entrevistar as mães e comecei a cuidar daquelas crianças tão carentes. Tinha um córrego em Jaguaré que, quando chovia, alagava e carregava tudo: casa, geladeira... No outro dia não tinha roupa para essas crianças. Lembro-me de uma coisa que me marcou muito: uma criança, além de ser desnutrida, estava com tanto frio que você a colocava aqui e ela ficava... Eu falei: “O que eu vou fazer da minha vida?” Peguei um cobertor, enrolei essa criança, liguei o forno, coloquei-a do ladinho e falei para a cozinheira: “Faz um pouco de leite quente.” Coloquei-a ali e fiquei dando leitinho quente, agasalhando até que a menina foi esquentando e ficou boa. Alguma coisa eu fiz de legal. Outras crianças, que estavam geladas e não tinham roupas, eu colocava na janela para o sol aquecer. Eram muito carentes. Eu comecei a me apegar ali, aos poucos, e foi crescendo... Muita dificuldade, muitas mães carentes...

 

P/1 – Hoje, como é a creche?

 

R – Linda, maravilhosa... Parece que a minha creche morreu e estou vivendo numa escola particular. Antes, as mães eram carentes e não tinham nada; hoje, você conta nos dedos... As mães que levam as crianças na creche... É tudo de “mico”. Cada carrão... Eu falo: “A minha creche acabou.” Depois, com as dificuldades... O meu medo maior era que uma criança desmaiasse e eu não soubesse o que fazer. Uma vez, uma criança chegou, foi pular corda e caiu durinha aos meus pés. Eu falei: “O que eu vou fazer com essa menina desmaiada aqui?” Eu peguei a menina, coloquei a perna para cima e ela voltou. Chamei a mãe e levei no médico, falei: “Pior desafio na minha vida eu enfrentei.” Outro dia, um menino estava subindo no pé de árvore, caiu e cortou daqui (gesto) de dentro pra fora. Os dentes dele arrancaram como se fosse o dentista que arrancasse. Eu falei: “Meu Deus do céu! Agora eu comecei a ser enfermeira de verdade.” Eu corri ao hospital, os médicos costuraram e ele ficou sem dentes. Outro dia, foi uma porta pesada: a porta bateu no dedo da menina e arrancou um pedaço. Eu falei: “Meu Deus, e agora? O que eu faço com esse pedaço de dedo?” Coloquei o pedaço de dedo no soro fisiológico e levei para o médico ver. Jamais eu iria pensar que o médico iria grudar o dedo: o médico pegou, costurou tudo e o dedo do menino ficou preto. Deu um rolo... A mãe queria processar a creche. Nós fomos atrás do médico e ele não queria mais essa menina. Eu falei: “Ah, mas você vai! Foi você quem fez isso. Eu trouxe um pedaço do dedo da menina para você ver, você pegou e costurou. Agora você vai assumir.” Ele falou: “Com quem você pensa que está falando?” Eu falei: “Eu estou falando com o médico. Eu sou auxiliar de enfermagem da creche. A filha não é minha e nem sua, agora nós temos que dar conta do dedo dessa menina.” Esse homem me pôs numa sala lá e assumiu essa menina. A mãe se invocou e falou: “Agora, eu não vou no hospital de ônibus. Vocês têm que pagar taxi pra mim.” Dona Marta teve que pagar taxi para o médico fazer curativo na menina. É cada coisa que acontece.

 

P/1 – Por que você acha que mudou? Como foi essa passagem?

 

R – Essa passagem foi porque a creche era toda antiga. Eram aquelas mesas compridas, aquele monte de criança... Igual se mostra na televisão o abrigo. As crianças bem carentes, comendo em pratos de plásticos, colher... Eu colocava as comidas no prato da criança, e a criança... Ela tinha que comer aquilo que eu colocava pra ela comer. Elas não tinham a autonomia de falar: “Eu vou escolher o que eu quero comer e não o que ela quer.” Eu achava isso ridículo. Nunca fui uma pessoa de exigir aquilo, acho que o direito é seu de escolha. Para isso eu não sei ser mãe. Eu não sei falar para o meu filho: “Você, senta aqui. Você, não vai por aqui.” Eu falo, mas, se for, eu estou preparada para o... Chegou o Instituto Avisa Lá, com a Simone, e começaram a passar um filme. Na cabeça da gente, a gente sabia tudo. Só faltava colocar em prática. Aquele refeitório estava bonito? Não. Era legal para as crianças? Não. “Vamos mudar.” Foram a Simone e a Elza Corsi. A Elza Corsi ficou com a equipe de apoio e a Simone ficou com os professores. A Elza, quando chegou, falou: “Meu Deus!” É como aquele professor, que dava aula... “Ao Mestre, com Carinho”. Começar do zero, tudo feio... A gente não sabia... Sabia, mas trabalhava... Eu dava o que eu sabia. A minha experiência de hospital é diferente de creche. Eu fazia tudo por aquelas crianças: dava banho neles, cortava unha, colocava comida nos pratos e, para mim, eu estava perfeita. Eu estava cuidando do meu jeito. Fazia os curativos deles... Tinha criança que tinha uma sarna danada, que o médico mandava... Eu ia dar banho nele e o bichinho chorava de dor – até sangrava naquela época. Eu colocava luva e tudo, eu tratava... Foi como passar um filme na cabeça da gente. “Olha para esse refeitório. Vamos mudar.” Primeiro trocaram todas as mesas – ficaram as mesas de quatro, todas coloridas –, pintaram o... Eu vou trazer as fotos de lá. Pintaram as mesas, as paredes... Fizeram umas coisas bonitas. Eles vão dar autonomia para as crianças, primeiro: “Vamos fazer um projeto.” Todo mundo lá era gripado, o nariz escorrendo direto e as crianças não sabem limpar seu nariz. “Vamos fazer um projeto: do meu nariz cuido eu.” Eu falei: “Ah, meu Deus! Agora danou-se.” Era mais um desafio.  Colocamos um espelho e fomos ensinar a criança a limpar o seu nariz. Não é que os meninos sabem? Aprenderam. Depois, foi: “Vamos colocar os pratos... Não vamos dar pratos de plástico, vamos dar prato de vidro.” Eu falei: “Agora haja prato para quebrar.” Compramos todos os pratos de vidro e, para colocar as comidas, as baixelas de vidro. “Vamos colocar na mesa, no comecinho elas vão pegando e vão pondo no prato.” Tinha uns que colocavam a comida toda, derramavam... Foi uma loucura. Até a criança... Tudo era novidade, tanto para eles quanto para a gente, porque a gente não acreditava nas crianças, que eles podiam – e podem. Hoje as crianças se servem sozinhas, comem o que gostam, comem de garfo e faca. É uma coisa maravilhosa. É uma coisa que, com o tempo, você vai ver quanto a tua vida vai crescendo, vai mudando. Você vai aprendendo, porque você... Segunda-feira eu vou fazer 53 anos e eu estou sempre aprendendo. Quem diria que hoje eu estaria aqui? É uma coisa legal. Você está aprendendo, você está vivendo e a creche é uma coisa muito bonita. Aquelas mães carentes gostam muito de mim, tem vezes que elas vêm desabafar, só que não sei fazer cara de coitada – acho que não é por aí –, não é comigo. Eu acho ridículo uma pessoa vir chorar, “Ah, coitadinha!” Você não pode falar isso. Eu sei que com esse aprendizado todo da minha vida, e meus pais... Eu casei e meu pai não veio no meu casamento, meus filhos nasceram e meu pai e minha mãe não vieram os ver... Eu saía da maternidade e ia direto lavar roupa, fazer comida, cuidar dos meus filhos sozinha, porque eu ia pedir para quem? Eu nunca tive um resguardo como aquele da minha mãe. Ela criava as galinhas todas separadinhas para não contaminar. Ficava 40 ou sete dias na cama – não sei – só comendo pirão. Nunca tive isso. Eu saía do hospital e ia lavar roupa, limpar casa. Passava o resguardo e ia trabalhar. A minha filha foi cesárea, porque o meu filho... Eu não tinha condições de ter normal. Nesse intervalo eu tive outro filho – antes do Eduardo –, o médico falou que eu não tinha condições de ter normal, porque eu não tinha dilatação e estava grávida do meu terceiro filho. Eu falei para o médico: “Doutor, não tem condições de ter normal?” “Ah, você tem.” Deixou a parteira do meu lado a noite todinha, tomei remédio a noite todinha, aquelas dores todas... Quando foi na hora “H” não tinha dor nenhuma. O nenê estava pra nascer e cadê dor? Parece que era uma coisa... Quanto mais eles colocavam remédio, mais eu não sentia dor. O médico fez fórceps e eles apertaram tanto a minha barriga que eu apaguei. Quando eu acordei, eu estava na cama e meu filho morto. Estava vendo a cabecinha dele... Na hora de nascer, quando o médico puxou, não tinha mais jeito. Eu fiquei com uma fratura, tive duas costelas trincadas, uma fatura na outra... Eu sou branca e fiquei preta. O médico do Cruzeiro do Sul falou para mim: “Mãe, onde você teve esse filho? Foi uma carniceira que fizeram com você.” Minha cunhada queria processar o hospital – e era o Hospital Sorocabana. Eu trabalhei lá cinco anos e trabalhava ainda. Eu falei: “Eu não vou processar, não vai trazer meu filho de volta.” O médico pegou... Ele não podia engessar, porque eu estava com os peitos cheios de leite. Eu tinha que fazer infiltração quase todo dia. Eu fiquei mal, levantava e caía. Os pontos infeccionaram todos, eu tinha que fazer infiltração e cuidar, fiquei toda danada – mas hoje eu estou aqui contando minha história. Eu aprendi uma coisa: por mais difícil que seja, a vida da gente é um aprendizado. Você cresce. Acho que eu nasci sofrendo, cresci sofrendo e aprendi muito. Aprendi a ser uma pessoa melhor, a me preparar para o que vier e a saber lidar com os problemas. Tem duas coisas na vida da gente, quando está difícil: ou você fica com raiva do mundo, de Deus e de todo mundo, ou você abre um sorriso bem grande e tenta ser feliz do jeito que é. Eu olho para o céu e falo: “Obrigada, meu Deus, por hoje eu estar viva e com saúde.” Hoje eu acordei e não tinha nem pão para tomar café. Meu marido foi e meu pagamento estava no Banco, para você ver. Eu fiquei feliz, ele trouxe queijo, pão e nós tomamos café. Semana que vem eu recebo a minha aposentadoria. Se Deus quiser, dia cinco é a perícia dele – ele tem um bom salário e vai dar tudo certo. A gente nunca pode deixar a peteca cair. Essa é a minha história.

 

P/1 – Nós vamos só fazer mais uma coisinha, Maria. Qual é o seu sonho?

 

R - Antes do sonho, tem uma coisa que eu penso em fazer. Eu penso em tentar fazer uma faculdade de Psicologia. Eu estou pensando em ver se eu passo, mas eu não estou muito velha?

 

P/1 – Não.

 

R – Tem certeza?

 

P/1 – Absoluta.

 

R – Eu tenho vontade de fazer Psicologia. Não sei, eu gosto de ouvir as pessoas, de conversar... Psicologia ou Assistência Social, porque também gosto. Meus filhos estão grandes, já têm a vida deles. Agora vem o meu sonho, são dois sonhos que eu sempre tive vontade – não deu, mas eu vou fazer até o final do ano. Um é comprar a minha casa na praia, acordar de manhã, mergulhar naquele mar, andar na praia com meu marido, só nós dois... Eu não quero nem saber de filho mais. Ah, eu amo água, amo praia. E, se Deus quiser, até o final do ano eu vou comprar a minha casinha na praia.

 

P/1 – Final desse ano?

 

R – Desse ano, eu vou realizar.

 

P/1 – Dois meses?

 

R – É a minha meta. Eu vou realizar meu sonho, porque já pensou você acordar de manhã, correr... Eu quero correr naquela areia e depois deitar naquela água, ser criança como eu era. Ser criança livre, solta... Esquecer que um dia eu tive filho, que um dia eu tive problema e começar do zero. 53 anos vai ser minha meta. O outro sonho... Não é bem sonho... Você pode fazer uma reflexão: “Por que essa família veio pra mim? Não foi por acaso? Por que meu filho veio para eu resgatá-lo? Hoje ele está lindo e maravilhoso. Por que minha filha veio também com tantos problemas? Por que o meu marido veio para mim? Por que essas três pessoas vieram para mim?” Eu acho que alguma coisa tem ali, porque hoje... Eu poderia ter sido uma médica, uma ótima cardiologista, e eu me anulei. Por quê? Porque eu tive que cuidar do meu marido – hoje ele tem um problema de joelho muito sério... Está na Caixa há quatro anos. Quando a firma faliu, o salário dele era quase 2.400. Hoje ele está na Caixa, deram alta pra ele, está tendo reforços. Hoje é... Para nós está super bem, porque a nossa renda é boa – nós dois tiramos quase 4.500 –, meu filho trabalha, minha filha trabalha. Eu gostaria de... Tem alguma coisa que eu preciso estudar. Eu não parei a minha vida por aí, eu quero resgatar, ver o passado. Eu estou muito parada e não gosto disso. Eu quero cutucar ainda para descobrir alguma coisa. Por quê? Tem um motivo, né? Por que esse pessoal todo troncho vem parar na minha mão? Eu deveria ter seguido a minha vida, eu poderia ter sido uma médica bem conceituada, eu poderia ter crescido na vida ou ter sido nem sei o quê, mas parei porque essas três pessoas vieram ao meu encontro. Eu larguei pai, larguei mãe, larguei meus irmãos para trás, enfrentei esse mundo, esse gigante aqui em São Paulo, mas parei. Eu não andei. Essas três pessoas vieram ao meu encontro e eu parei, eu fiquei só em volta deles. Era como se eu quisesse ir pra frente, mas alguém me puxasse: “Você não vai, você vai ficar aqui.” Por isso eu quero fazer, um dia, regressão, estudar por que esse pessoal veio para o meu lado, para cuidar deles... O meu filho é lindo – não é porque é meu filho, não, porque se fosse feio eu falava... As meninas falavam: “Maria, você é doidinha”. É mesmo... Eu vou falar que meu filho... Ele tem quase dois metros de altura e é lindo, mas é muito sem vergonha. A minha filha também é bonita. Eu sei que a minha vida não parou ainda, muita coisa vai acontecer. Os meus dois filhos são bonitos. Ela é linda, carinhosa, meiga, estudiosa... O médico falou para mim que ele não consegue entender o que aconteceu com a Tamires, porque ela tinha que ter retardamento, por causa do tumor, e ela é super inteligente. Ela fez o pré, o primeiro ano, o ginásio, o colegial e não repetiu. Ela ia fazer faculdade esse ano, mas não fez porque está fazendo um curso do governo, há três anos, de informática, mas que abrange tudo: desenho gráfico para empresa... Tudo que a empresa precisa, esse curso abrange. Vai fazer três anos, termina só em março do ano que vem. Para ela parar e fazer a faculdade... Não tem como. Nesse meio, além dela fazer esse curso, foi secretária. Ano que vem vai fazer faculdade ou de Ciências da Computação ou Psicologia, são essas duas coisas que ela quer fazer. Essa é a minha vida.

 

P/1 – Maria, como é que foi contar a sua história hoje? Você estava nervosa quando chegou?

 

R – Foi legal, porque foi um resgate. Foi uma vivência passada. Foi tanta coisa triste que eu passei e, hoje, era para eu ser uma pessoa infeliz, velha... Eu sou velha, né? Era para ser uma pessoa triste, amargurada, uma coitadinha que todo mundo tem dó. Não é. Qualquer coisa que vai me derrubar, as meninas do meu trabalho falam: “Maria, se fosse eu, eu já tinha morrido, porque eu não tenho a sua coragem.” Eu falei: “Você vai ver. Eu vou ser uma ‘peruona’.” Semana que vem quero cortar meu cabelo, pintar de duas cores, colocar um vestido indiano – eu adoro roupa indiana –, eu quero é viver. Acho que foi legal, acho que eu me amo. Eu falo com meus filhos: “Vocês tem que olhar para vocês no espelho...” – eu gosto muito de falar com o espelho, foi o espelho quem me salvou. O meu psicólogo foi o espelho. Você olha para o espelho e fala: “Eu me amo. Eu me amo.” Se você se ama, você tem condições de amar o outro. Em primeiro lugar você tem que se respeitar, ser honesta consigo mesma: porque se eu sou honesta comigo, eu posso ser honesta com você. É a minha meta. Eu sempre falei no espelho: “A coisa está feia, mas amanhã vai estar melhor.” Sou uma pessoa... Eu sou católica, mas... Eu não sei se eu sou católica. É Deus quem sabe. Eu confio muito em Deus, mas não sou muito de ir à igreja. Eu falo para Deus: “Obrigada. Hoje está tão difícil... Por que você me deu essa família?” Eu converso muito com ele. Nos momentos difíceis, eu ia para o trabalho a pé conversando. Chorava e falava: “Meu Deus, por que essa família veio pra mim?” Mas estou feliz, porque eu amo eles. “Eu só quero que o senhor me dê saúde, paz e uma meta na vida, que é ter uma sagrada família”, porque eu fui criada numa grande família, maravilhosa. Minha mãe era assim... Meu pai... A mesa era enorme, ele deixava todos os filhos sentados e, por último, ele. A única que não sentava era eu, porque eu saía cutucando. Cada uma tirava uma colherada de comida e a última era dele. Uma colher de comida e um cascudo na cabeça. Eu fui sempre a diferente da casa. Por mais difícil que fosse com meu filho – eu amo ele –, eu sempre falei para ele: “Eu amo você, eu sou capaz de matar por você.” Eu, toda noite, agradeço a Deus: “Obrigada, meu Deus. Meu filho está dormindo e não está usando drogas. Obrigada, meu Deus, porque minha filha não tem mais tumor e o que ela tem vai sarar, e o meu marido também.” Daqui a pouco eu estou com a minha casa na praia, estou sorrindo e essa é minha vida. A vida é difícil, mas se você souber levar, você faz ela mais leve.

 

P/1 – Maria muito obrigada.

 

R – De nada.

 

P/1 – Sua história é linda, você é linda. A gente nem precisou fazer pergunta. Você foi e falou tudo.

 

R – É uma coisa assim... O meu caminho foi tudo retinho, não teve muita escolha. A escolha de vida foi essa, nos momentos mais difíceis, eu comecei a estudar e, no momento mais difícil ainda, foi aprender a nadar para relaxar. Eu não parei aí e não paro. Nas confraternizações a gente vai para um sítio maravilhoso com aquela piscina e eu sou a primeira a cair lá dentro; não quero saber de nada.

 

P/1 – Na creche tem piscina?

 

R – Não, no sítio da diretora, no final do ano. É uma piscina linda, um lago... Eles são ricos, tem lago só para criar peixes para eles. Eu caio naquela piscina e me acabo. Assim é a vida. Eu ainda vou vencer, você vai ver. Eu ainda vou chegar naquilo que eu quero.

 

P/1 – Muito obrigada.

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