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História

Cuidado ancestral

História de: Márcio Barragana
Autor: Ana Paula
Publicado em: 18/06/2021

Sinopse

O gaúcho Márcio Barragana parte de sua formação ancestral para compartilhar sua visão da experiência como Gestor de Unidade de Conservação de áreas de proteção ambiental, enquanto reflete sobre a importância e resultados da atuação socioambiental no Brasil, mais detalhadamente na região onde trabalha hoje, em Iguape, no Vale do Ribeira.

História completa

Projeto Cabine - Museu em Rede Realização Instituto Peabirus, Instituto Museu da Pessoa e Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo Entrevista de Márcio Barragana Entrevistado por Ana Letícia e Fernanda Peregrina. Iguape, 26 de fevereiro de 2011 Código: MRI_CB??? Transcrito por Gabriele Mayara Silva Araujo Revisado por Marina Tunes P/1 - Obrigada por estar aqui, dando o depoimento pra gente. Para dar início eu gostaria de perguntar seu nome, local e data de nascimento. R - Marcio Barragana, nascido em Alegrete, em 31 de agosto de 1959. Alegrete, Rio Grande do Sul. P/1 - Marcio, você sabe contar a história da origem da sua família? R - Quase toda minha família... Tem dois troncos que vieram do Uruguai; o sobrenome é derivado de basco espanhol. Aí tem uma parte grande que é índio e outra parte que é preto. Tudo do Rio Grande do Sul, Uruguai, da fronteira do Rio Grande do Sul. Três países da fronteira lá, Uruguai, Argentina e Brasil. P/1 - E tem algum... Seus pais nasceram aqui no Brasil? R - Nasceram! Isso. P/1 - Que parte da sua família é uruguaia? R - Bisavô, avô, tios-avós. Essa parte. P/1 - E você sabe dizer por que é que eles migraram para o Brasil? R - Acho que naquele tempo se migrava muito, né? E também, quando não havia revolução desse lado, havia do lado de lá, na verdade. Por questões climáticas também, por trabalho, por todos esses fatores, havia mudanças. A família por parte de pai é mais difícil de se identificar porque houve migração, meu avô especificamente. Minha avó não, minha avó por parte de pai é da região de Alegrete mesmo, de descendente de africano e índio. P/1 - E como é que foi a sua infância? Onde você passou a sua infância? R - Ah, passei num monte de lugar, né? Mas passei uma parte boa em Alegrete, na minha terra, aí a gente se mudava muito, meu pai era militar, então a gente se mudou bastante. Moramos no Rio de Janeiro, moramos em Curitiba, moramos numa porção de lugares assim, e a minha infância... Aqui no Paraná! A minha infância foi mais ou menos isso, mas sempre com uma âncora lá na minha cidade, o vínculo com a cidade da gente é muito forte sempre. P/1 - E quais eram, na sua infância, a casa que você morou, a que mais te marcou de tantas cidades que você passou? R - A que mais marcou? Todas as casas marcaram muito. A casa do meu avô, era uma casa que me marca até hoje, que ainda existe a casa dele, meu avô materno, em Alegrete. A casa do meu avô paterno também existe até hoje, praticamente do mesmo jeito, as duas casas. Mas, casa minha, assim, a que mais marcou foi uma casa que a gente morou em Santana do Livramento, que era uma casa gigantesca e tinha um quintal enorme, muito bonito. Tinha dois quintais e uma figueira também gigantesca, que a gente subia e fazia tudo em cima dela. Essa foi umas das casas que eu tive que mais marcou. P/1 - E das brincadeiras de infância? R - Ah, brincadeira de infância a gente tinha tudo, né? Infância rural é uma coisa que se mistura muito brincadeira com trabalho, e prazer, assim, de andar a cavalo, de trabalhar com cavalo, com gado, com ovelha. Meu avô era criador de ovelhas e de gado. Então tudo isso, você meio que misturava com brincadeira, mas o que me marca, assim, que me lembra bastante é da liberdade que você tinha de brincar na rua, a rua era uma parte da... Era o mundo da gente também, não era tão vedado como é hoje, desde pequeno a gente aprendia a dominar a brincadeira de rua, juntar com o resto da "gurizada" da rua, da zona, da cidade mesmo, né? P/1 - E você pode nos contar um pouquinho de uma dessas brincadeiras? R - Ah, tinha as famosas brincadeiras, que eram as brincadeiras de homem, porque era um mundo bem separado naquele tempo. Tinha polícia e ladrão, brincadeira de se esconder, tinha aquelas simulações de guerra, tinha imitações de filmes, né, de cinema, de matinê, filme de mocinha. A gente fazia muito... Tinha as brincadeiras a cavalo mesmo que a gente fazia, de correr, carreira como se chama lá no Sul. De montar em bicho "brabo", que era uma mistura de brincadeira com um aprendizado, na verdade. P/1 - Falando em aprendizado, você lembra da sua primeira escola? R - Lembro! P/1 - Como é que era? R - Primeira escola, minha tia era diretora, lá em Alegrete, a escola existe até hoje também. Minha tia ainda mora pertinho da escola. Foi uma escolinha de pré. Eu lembro bem, eu lembro até do uniforme. Era um aventalzinho azul xadrez para os homens e um xadrez cor de rosa para as meninas, isso eu lembro. P/1 - E da tua parte, de período de estudante, teve algum professor que te marcou? R - Ah, teve vários professores que me marcaram. Eu tive a felicidade assim, de uma coisa de uma coisa que é muito condenada, na verdade, que eu peguei aquela reforma de ensino. Eu tô com 52 anos hoje, então fui uma das primeiras cobaias daquela reforma que houve, que acabou com o ginásio, que transformou em profissionalizante. E quando eu fui fazer o segundo grau, começar o segundo grau em Santana do Livramento, fronteira do Uruguai, a gente pegou um time de professores muito bom, muito bom politicamente falando. Professor de História, professor de problemas sociais e econômicos contemporâneos, foi gente assim, que foi meio perseguida, estigmatizada, porque era tempo do regime militar. Mas é um povo que me deu uma base política muito boa, assim, uma base crítica muito boa. A gente fazia, chama de terminalidade, tinha o normal, e normal, eu digo, é o ensino técnico científico, e tinha a terminalidade que era direcionada a um aprendizado profissional. E a terminalidade que eu fiz era... Como se chamava? Auxiliar, como se fosse um auxiliar de imprensa, coisa parecida. Auxiliar de edição... Redator auxiliar, desculpa, era redator auxiliar. E a gente pegou um time de professores muito bom, professora de História muito boa, também era um tempo de história, que tu vai aprendendo quando a história ficava mais rica, tipo colonialismo africano, as guerras por libertação, essas coisas todinhas. E a gente estava meio que vivendo isso, tanto Uruguai como o Brasil. O Uruguai teve uma revolução em 1973, a gente convivia com muitos filhos de dissidentes brasileiros que moravam no Uruguai e estudavam no Brasil, e com os próprios dissidentes mesmo, né? Que eram pais de colegas da gente, gente que era perseguida no Brasil, foi pro Uruguai. E aí quando rolou a revolução de 1973 lá foi um inferno. No Uruguai, porque aqui no Brasil já estava muito ruim. Aí foi um inferno pra essa gurizada também. Então foi um tempo que juntou tudo, mais ou menos, para eu abrir um pouco o que entendo como mundo hoje. Foi muito rico. P/1 - E qual foi o seu primeiro trabalho? R - Nossa Senhora... Trabalho, trabalho formal mesmo? P/1 - É! R - Meu primeiro trabalho foi esse que eu faço até hoje, eu acho, eu saí da faculdade e comecei a trabalhar nisso fora, assim, as coisas para ganhar algum dinheirinho. Meu primeiro trabalho formal foi esse trabalho que eu faço há 26 anos. P/1 - E você pode contar um pouquinho sobre ele? R - Posso! Eu sou Gestor de Unidade de Conservação, de áreas protegidas, e sempre trabalhei nisso. Isso é uma coisa da qual me orgulho muito, é uma coisa da qual eu gosto muito. É uma coisa que eu estudei para fazer. Sempre tive uma preocupação ambiental, meu pai já tinha essa preocupação ambiental, meu avô já tinha essa preocupação ambiental, no modo deles, eles me encucaram essa questão ambiental, a necessidade de se proteger, de se manter fauna, flora, se não ia acabar, e se não ia dar problema, não ia ter água. Essas coisas eles já tinham essa consciência há bastante tempo, e isso me direcionou para fazer a faculdade que eu fiz. Que me valeu muito e pra trabalhar no que eu queria trabalhar! Eu tive a felicidade de sempre trabalhar, apesar de ter passado bastante trabalho para me formar, eu sempre digo que eu tive a felicidade, a honra de trabalhar no que eu gosto. Eu sempre trabalhei no que eu quis trabalhar e procurei aprimorar dentro dessa área, né? Então são 26 anos de trabalho na Unidade de Conservação. P/1 - E esse trabalho, você desenvolveu em Iguape, ou também...? R - Não, não! Eu comecei na Amazônia, no Vale do Rio Guaporé em 1973, 1974, comecei lá na chamada Reserva Biológica do Guaporé, só tinha sido decretada, mas não tinha nada, era matão, matão, matão mesmo. Era uma região muito rica, muito bonita. É um ecótono, que se chama a região de transição. As características muito semelhantes ao Pantanal mato-grossense, aérea valorosa, molhada, área alagadiça, e áreas imersas, secas, fauna muito parecida, e era uma região muito exuberante, muito bonita mesmo, foi antes, assim, um pouquinho antes do processo avassalador de ocupação do Estado de Rondônia. Eu fui para lá. P/1 - Quantos anos você tinha na época? R - 23 eu acho. E trabalhei com manejo de tartarugas da Amazônia, proteção e manejo das tartarugas, com proteção e manejo do cervo do Pantanal, pesquisa com jacaré, e por aí vai, coisas correlatas, não é? E aí trabalhei muito também na criação de outras unidades nos estudos preliminares de criação de Unidades no Acre, no estado do Amazonas... Estado do Mato Grosso, e por aí vai. Daí eu morei em Manaus também, depois de Rondônia fui para Manaus, de Manaus eu voltei para Rondônia, de Rondônia eu fui para o Rio Grande do Sul, para o Itaim, Estação Ecológica do Itaim, e do Rio Grande do Sul eu fui para o Piauí, para o delta do Rio Parnaíba e do delta do Rio Parnaíba eu vim para cá, eu trabalhei com o peixe-boi marinho no delta do Rio Parnaíba, fui pra lá para trabalhar num projeto de manejo e proteção, e aí acabamos criando uma unidade de conservação lá implementando a unidade que é área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba. A gente está tentando criar outra unidade lá, inclusive... Refúgio de vida Silvestre do peixe-boi-marinho. Que é uma área de reprodução muito importante para peixe-boi. E daí eu vim para cá! Achei que tinha dado um tempo e vim para cá para o Iguape. P/1 - Quando você veio pra Iguape? R - Eu vim em 2009 para cá, na verdade. Efetivamente, assim, em 2009. P/1 - E como é que foi a sua mudança para Iguape? Como você... Você lembra como você viu a cidade, assim? R - Ah, eu lembro; O que me levou a vir para cá, na verdade, é uma necessidade de aprendizado, né, e uma das formas de tu aprender dentro dessa área, é tu trabalhar em diferentes sistemas e diferentes realidades. E, como a minha família é do Sul, a gente sempre acaba virando, depois ir lá para o ponto, para o extremo, acaba virando mais para o lado da terra, mas sem chegar no Rio Grande do Sul ainda. Aí deu-se a oportunidade de vir para cá, eu vim para cá sim. A minha primeira impressão da cidade foi, assim, muito positiva. Gosto muito de... Minha vida sempre se deu em cidades pequenas, eu prefiro, aliás, uma opção de vida minha, minha família tem, enquanto meus filhos não precisam sair, depois que eles precisarem sair eu continuo na cidade pequena e eles vão estudar fora. É uma opção minha de morar em cidade pequena. P/1 - E aqui em Iguape, o que é que você desenvolve no seu trabalho de conversação? R - Bom, a área de Proteção Ambiental é uma enorme. Ela vai desde do Parque da Serra do Mar lá na em Itariri... Itariri, Pedro de Toledo, Peruíbe, até quase a divisa com o estado do Paraná. É uma área gigantesca! E são 235 mil hectares e tem uma série de unidades de conservação estaduais dentro dessa unidade federal. A própria Estação Ecológica da Juréia está dentro da nossa área, o Parque da Ilha do Cardoso está dentro da nossa área, entre outras áreas. E trabalho! Meu trabalho, basicamente, é tentar equilibrar essa ocupação dessas áreas com uma certa conservação, certa proteção ambiental, assim, geral o todo, né, não só pontual, mas de processo, por exemplo, que você consiga manter os processos naturais mesmo com a intervenção e mesmo com a ocupação humana, que uma coisa inexorável. Você tem uma ocupação e você não pode desprezar essa ocupação na verdade. Então, basicamente, é esse convívio, essa eterna luta que a gente enfrenta, né? E aí você tem as faces mais feias dela, que são ocupação de áreas prioritárias para conservação, caça, a própria questão política da coisa de ocupação das áreas, sem critérios técnicos, sem critério... Mesmo socioambiental. Mas você tem a compensação, que é manutenção dessas áreas, funcionando minimamente, como é o fato que se dá, porque nunca houve uma política que priorizasse muito essa questão no Brasil. Questão ambiental, acho que o mais perto que ela chegou de ser uma questão importante na vida do cidadão brasileiro foi no tempo da RIO-92, por causa da mídia em cima, ela chegou, acho, a ser a terceira ocupação, a terceira preocupação do brasileiro. Que era uma coisa meio terrorista, assim. Mas depois disso ela vem perdendo a importância muito grande, na... Tanto política, como de iniciativa mesmo, de tudo. A gente tanto apanha quanto bate na gente, nessa história. Então é uma luta bastante inglória, uma luta muito grande, se tem os indicativos de que a coisa tá indo muito mal, a nível geral, e você não tem como pensar só no teu lugar, é uma coisa que, se ocorrer, por exemplo, aumento de nível do oceano, todo o litoral mundial, litoral daqui da onde a gente vive, todo ele vai ser atingido. Talvez numa forma não tão catastrófica quanto a gente pensa, ou então, de repente, essa própria catastroficidade já é o que tá acontecendo nessas mudanças de tempo, e a gente não tá conseguindo ler direito isso ou não tá querendo ler, na verdade, né? Mas é mais ou menos isso. Muito trabalho! P/1 - E aqui em Iguape, qual é o seu dia dia, o seu cotidiano na cidade? R - Na cidade? De trabalho, de vivência mesmo? P/1 - Pode ser os dois! R - Bom, de trabalho, é um trabalho tanto quanto maçante, assim, às vezes. Tem suas enormes compensações, mas quando a cisão do Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], que transformou em doi, o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade] e o Ibama, a gente herdou uma parte administrativa que a gente não fazia, então o trabalho ficou mais pesado, administrativamente falando, do ano de 2009, 2008, 2009, para cá. Que é a parte mais chata, assim, que a gente que gosta de campo não curte muito. Mas ao gerir alguma coisa, ia pegar essa parte também, a gente tem que fazer e tem que dar... Aqui tem, por exemplo, uma atuação muito forte do Ministério Público nas esferas todas dele. Você tem demanda da promotoria municipal, do legislativo municipal, da promotoria do Estado, que tem especializada em meio ambiente, têm lucros especializados em meio ambiente, e da promotoria federal também, que é a Procuradoria-Geral da República. Então você tem demanda jurídica de tudo quanto é lado. E são demandas enormes, assim, todo o processo, que você gera, por exemplo, de autuação ou de discussão, ele vai parar numa dessas instâncias e isso gera papel pra caramba, é processo pra caramba. Tem as vistorias de campo que são ótimas, são maravilhosas, a interação que tu tem com as pessoas, com os ambientes mesmo, é muito legal, é muito rico. P/2 - Mas como é que é o contato com as pessoas aqui em relação ao ambiente, ao seu trabalho aqui na cidade? Como que as pessoas... Em conscientização... R - É, existe um conhecimento aqui em Iguape, aqui no Estado de São Paulo, no geral, mas aqui no Iguape, notadamente, porque a maior reserva de Mata Atlântica do Brasil tá aqui nessa região, entre Iguape, Cananéia, estado do Paraná e tal. Então isso gerou um conhecimento por parte das pessoas, gerou um temor, um tanto quanto grande, assim, da ação, da fiscalização acima de tudo, porque essa ação da fiscalização, ela começou de uma maneira bem policialesca, era um tempo em que não se falava em educação ambiental, socioambientalismo, nem nada. Então gerou um certo temor, um certo antagonismo, mas isso foi compensado pela consciência que as pessoas adquiriram. Hoje em dia a gente tenta derrubar muito isso e consegue. P/2 - Como é que vocês fazem isso? R - A gente tenta envolver o maior número de pessoas possível nessa questão, tem o conselho da unidade da APA [Área de Proteção Ambiental], que o conselho é tirado de representantes da sociedade civil e do próprio poder e suas três esferas, e a gente tenta também interagir com outros segmentos, através de outros conselhos e de outras instâncias de participação. Eu participo do Condetur [Conselho de Desenvolvimento de Turismo], Conselho Municipal de Meio Ambiente, conselho de outras unidades de conservação de Cananéia, por exemplo, de parques de reservas de outros lugares, então isso te leva a interagir muito com as outras pessoas. P/2 - E no dia a dia, como é que as comunidades lidam com isso, você acha, assim, praticamente? R - No dia a dia? Bom, existem duas... A questão ambiental, tu quer dizer? Existe pessoas que têm aquela... Sei lá, aquela batida de vida tradicional, bem tradicional, que eles se referem que aquilo, o que eles faziam, não prejudica, existe a pressão muito grande do mercado de fora, também, pega como exemplo a pesca. A gente tem um movimento de pesca amadora muito grande, por incrível que pareça é um dos poucos lugares que eu conheço - o Pantanal também é assim - que a pesca amadora, ela causa mais impacto do que a pesca artesanal, por exemplo, é efetuado pelas comunidades tradicionais, isso a gente tem um estudo que foi fechado no ano passado e que tá para, os relatórios dele, que o impacto da pesca pesca amadora é muito maior do que o da pesca artesanal, entendeu? Por exemplo, as comunidades agrícolas, as comunidades caiçaras que são notadamente agrícolas, elas diminuíram muito assim a atividade dela, de agricultura rotativa, de derrubada para a roça, para fazer... P/2 - Você acha que essa diminuição vem por quê? R - Ah, vem mais pela questão policial, na verdade, pelo impedimento policial mesmo, existem leis rígidas, a Mata Atlântica tem um arcabouço legal de proteção bastante grande, bastante rígido. Houveram algumas mudanças nesse sentido ano passado, no sentido de que, para as comunidades tradicionais seria facultado a execução de desmatamento para roçada, mas até ontem eu estava conversando com isso na Unesp [Universidade Estadual Paulista], lá em Registro. Os indicativos que se tem é que está aumentando a área florestada da região do Vale do Ribeira, por exemplo. E aí você tem também uma agricultura extremamente pesada que é da banana, que é uma monocultura... Essa é pesada! Essa é empresarial, industrial, mesmo os pequenos produtores de bananas estão dentro do esquema empresarial, industrial. P/1 - E quem são as pessoas que compõem essa comunidade? R - Essa comunidade? P/1 - Que vocês trabalham juntos? R - Pescadores, né, os moradores, presidente da associação comunitária ou representantes de associações comunitárias, essa é uma das coisas que te leva a direcionar para quem tem uma representação oficial, por exemplo. A gente busca pensar a participação de representantes mais legítimos da coisa, e nem sempre você consegue por causa do oficialismo. As pessoas, os mais legítimos representantes, geralmente, não pertencem a associação nenhuma. Então isso é difícil. A gente tá com um projeto aí, inclusive, no sentido de resgatar essa participação das populações de manguezal, das populações que usam o mangue. É um projeto bancado... P/2 - Quem são essas pessoas do mangue? R - São pescadores, são... P/2 - Comunidade ribeirinhas... R - Comunidades ribeirinhas, de catadores de caranguejo, catadores de ostra, de mangue. Moradores mesmo. A gente tem que ... Tem, por exemplo, a reserva extrativista do Mandira, que se baseia todinha na produção de ostra e na produção de mangue, nas áreas de mangue. Produção originada de áreas de mangue, mas é um caso isolado, assim, tu ter a representação desse povo. P/2 - Criação e cultivo, né? R - Tem, tem. Tem cultivo de ostras, mas tu tem pouca representação das comunidades, dos moradores mesmo, daquelas comunidades, tipo... Sei lá, Juruvaúva, Pedrinhas, essas coisas assim, uma representação autêntica dessas comunidades. Isso que a gente tá tentando buscar, porque eles até... As comunidades de mangue, elas estão pouco representadas nesse escopo geral de conselhos e de instituições, etc, em instância de representatividade, são bem pouco representados, e a gente precisa resgatar e tá com um projeto para resgatar, vamos ver se começa a rodar esse ano já. Mas tu perguntaste que é que eu faço no dia a dia aqui na cidade! P/1 - É, também! R - Ah, eu adoro a cidade! Meu filho adora a cidade, minha mulher adora a cidade, todos nós adoramos a cidade! No dia a dia, eu gosto de participar de praticamente tudo que a cidade oferece. Cinema, a gente vai ao cinema, os três juntos sempre, apesar do som ser horrível, projeção... Mas a gente vai lá prestigiar o cinema. Música na praça, a gente participa muito, só pra vir andar de bicicleta na praça, ficar até tarde, que é uma das coisas mais gostosas é aquela hora do entardecer naquela pracinha ou na praça de São Benedito que é muito bonita também. Agora a gente tá começando a participar mais das coisas da escola do meu filho, mas a gente gosta demais da cidade em si, desse aglomerado arquitetônico da cidade, eu adoro ele, gosto demais assim. Acho muito bonito, acho muito legal as pessoas que moram aqui, que andam, que ocupam bem esse centro, o Centro Histórico, principalmente, apesar dele estar bastante vendido já hoje em dia, para gente de fora, mas a ocupação dos espaços, dos espaços públicos, ela é muito, muito interessante. P/2 - Tá vendido pra quem? R - Para gente fora que compra, né? P/2 - Quem? R - Paulistano, gente que compra para fazer negócio, para investir em imóveis, que para os Iguapenses é caro, se tornou caro comprar e recuperar esses prédios, mas para investidores... P/2 - Por que é que ficou caro? R - Porque são caros os imóveis, com a história, com a questão do tombamento e com a própria questão histórica da ocupação de praia e tais coisas, esses espaços começaram a ficar caros, começaram a virar investimento, todo mundo acha que tem futuro investir e também a gente também acha, eu só espero que seja um futuro bem legal e com todo mundo daqui participando. P/2 - Como é que tu vê esse futuro, quais teus sonhos? R - É que não tem a chance de se fazer, a gente, por isso que a gente tenta participar de tudo que dá para participar, de tentar se fazer um futuro em que todo mundo participe e que seja direcionado pelo povo daqui, de uma certa maneira, pelos cidadãos de Iguape. Não aquela coisa de pacote, esse processo eu já vi em muitos lugares, principalmente no Nordeste, você tem um processo de ocupação predatória, de aquisição de tudo que tem para vender, como foi a Jericoacoara, como foram outras praias interessantes. E aí depois que acaba a novidade vira um desejo tão... E você já ferrou com a cultura do pessoal, com a comida deles, com tudo. Com as expressões musicais, com todas as coisas, vira um troço bem massificado, como é carnaval hoje em dia. O carnaval daqui é lindíssimo, um carnaval de rua, de bloco, de chão, todo mundo participa. P/1 - Você também participa? R - Também, oras se não, até meu filho que tem oito anos participa, meia-noite, passa a noite aqui com a gente. Você pode ficar sentado, pode ficar na calçada, pode ficar tomando cerveja no boteco, e aí, tá lá o carnaval rolando, uma maravilha. Não vê nada, não vê violência, não vê nada. E eles proíbem entrada de axé e, essas músicas exógenas, assim, é só marchinha mesmo, então é muito legal. P/1 - Conta pra gente uma história marcante que você tem aqui na cidade de Iguape. R - Ah, tem várias, mas tem uma principal. Quando a gente veio para cá em 2009, quando a gente saiu do Piauí. Eu vim para cá em 2008, a primeira vez para conhecer e tudo, 2009 quando a gente estava vindo para cá de carro a gente sofreu um acidente muito sério. Meu filho foi quem mais se ferrou nessa história, então Iguape foi de uma certa maneira, assim... Serviu para a gente lamber as feridas, um pouco, a gente ficou em Brasília um tempão por conta do estado de saúde do meu filho, e meu e da minha esposa, também. E aí a gente veio para o Iguape meio que aos frangalhos, assim, sem... Não conhecia ninguém e tal e coisa, mas aos poucos, acho que deu uma... Eu refuto muito a questão do próprio lugar mesmo que ajudou a gente a se recuperar do baque, do baque bastante grande. Hoje em dia meu filho interage com todo mundo, aí todo mundo conhece ele, ele fala para caramba, fala mais que o homem da cobra, conversa, conversa, conversa. Acho que o mais marcante foi isso ai, foram os primeiros tempos aqui, com todo lance da questão do estabelecimento do meu filho, que tinha caminhão parado, essas coisas tudinho, hoje em dia ele nada bem para caramba, anda bem mais do que eu, anda de bicicleta, faz tudo [barulhos de fogos estourando ao fundo]. Então a cidade também foi bem marcante. Outra coisa marcante foi o carnaval que a gente fez ano passado, passou todo mundo junto aqui e que foi interessante justamente por isso, por propiciar que nós três passássemos sozinhos, não vem ninguém, tinha muita gente para vir, a gente ficou sozinho no carnaval. E curtiu muito o carnaval por causa disso. P/1 - Conta pra gente como é que foi contar a sua história, agora. R - Não sei não, mas pra mim é meio difícil, fica meio coloquial, mas é meio difícil, assim, porque... Para não falar demais e também não falar de menos, a minha tendência é sempre falar de menos, que eu sou meio reservado para falar as coisas, mas é uma experiência legal, é bom, é interessante. Depende do para quê, né, do porquê. Isso é bem interessante. A gente tem, eu sempre tenho uma preocupação de transmitir algumas coisas, como foi transmitido para mim. Transmitir conhecimento, as coisas que eu vi, como essas coisas foram transmitidas para mim, que isso na minha família tem muita importância. Os meus ancestrais todos, eles se preocupavam muito em passar conhecimento de trabalho, de padrão de vida, de tudo para os descendentes deles. Então é legal isso. Falar de mim é interessante. Pode não ser interessante para outras pessoas, para mim é. P/1 - Obrigada Márcio, por compartilhar sua história conosco! R - Por nada! P/2 - Obrigada! --- FIM DA ENTREVISTA ---
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